RESUMO
Introdução: A violência relacionada ao trabalho apresenta elevada prevalência no Brasil e no mundo, configurando-se como uma das prioridades na agenda da saúde pública. Esse agravo prejudica o desenvolvimento das atividades laborais e contribui para o adoecimento físico e mental dos trabalhadores.
Objetivos: Analisar a tendência temporal das notificações de violência relacionada ao trabalho em Mato Grosso do Sul, Brasil.
Métodos: Estudo de série temporal, quantitativo, realizado a partir de dados secundários. Foram analisados 699 registros referentes ao período de 2012 a 2022, por meio de estatística descritiva e análise de tendência por regressão de Prais-Winsten.
Resultados: As principais vítimas foram pessoas do sexo feminino (53,6%), de raça/ cor de pele parda (38,6%) e com idade entre 25 e 45 anos (51,1%). Verificou-se que a violência física esteve presente na maioria das notificações (68%), principalmente agressão por meio de força corporal/espancamento (53,5%). Em relação aos autores da violência, evidenciou-se que, em sua maioria, eram do sexo masculino (66,5%) e que os atos foram praticados por um único autor (65,4%).
Conclusões: Verificou-se a necessidade de políticas públicas direcionadas à violência relacionada ao trabalho, a fim de garantir ambientes laborais seguros, bem como fomentar a prevenção, proteção e recuperação dos trabalhadores.
Palavras-chave
violência; violência no trabalho; sistemas de informação em saúde; distribuição temporal.
ABSTRACT
Introduction: Workplace violence is highly prevalent in Brazil and worldwide, making it a priority on the public health agenda. This condition hinders the performance of work activities and contributes to the physical and mental illness of workers.
Objectives: To analyze the temporal trend of notifications of workplace violence in the state of Mato Grosso do Sul, Brazil.
Methods: This was a quantitative time-series study using secondary data. A total of 699 notifications between 2012 and 2022 were analyzed using descriptive statistics and Prais-Winsten regression trend analysis.
Results: Most victims were female (53.6%), of mixed race/skin color (38.6%), and aged between 25 and 45 years (51.1%). Physical violence was present in most notifications (68%), mainly through physical force/beating (53.5%). The majority of perpetrators were male (66.5%), and most acts of violence were committed by a single perpetrator (65.4%).
Conclusions: There is a need for public policies aimed at workplace violence in order to ensure a safe work environment, as well as to promote the prevention, protection, and recovery of workers.
Keywords
violence; workplace violence; health information systems; temporal distribution.
INTRODUÇÃO
De acordo com a Occupational Safety and Health Administration, compreende-se como violência relacionada ao trabalho qualquer ato ou ameaça de violência física, assédio, intimidação ou outro comportamento que possa incomodar, perturbar ou ameaçar o trabalhador ou trabalhadora, manifestando-se por meio de ameaças, abusos verbais, agressões físicas ou até mesmo homicídio [1].
As violências sofridas no ambiente de trabalho provocam desmotivação e insatisfação entre os trabalhadores, prejudicando o desenvolvimento das atividades laborais e contribuindo para o adoecimento relacionado ao trabalho [2]. Além disso, as consequências desse tipo de violência são consideradas traumáticas, tornando as vítimas suscetíveis a problemas de saúde, como traumas físicos e psicológicos [3].
A violência relacionada ao trabalho é considerada complexa pois envolve, além da identificação dos agressores e das vítimas, o reconhecimento de sua tipologia, bem como o encaminhamento qualificado para tratamento da saúde [4]. A dimensão do impacto da violência, principalmente o de natureza psíquica, na saúde dos trabalhadores também possui difícil identificação, uma vez que as vítimas frequentemente optam pelo silêncio como resposta à agressão devido a sentimentos de vergonha, humilhação ou medo de represálias, principalmente no ambiente de trabalho [5].
As consequências e os efeitos sobre a saúde e bem-estar das pessoas que sofrem violência relacionada ao trabalho são diversos, podendo ser observados no meio social por meio de desgastes físicos e emocionais [4]. Diante desse cenário, são identificados como consequências afastamento social e afetivo, conflitos sociais e reprodução da violência. Assim, considera-se que as experiências vivenciadas no trabalho contribuem significativamente para o comportamento do indivíduo em seu contexto social [6].
As repercussões da violência no ambiente de trabalho também afetam a estrutura institucional. O sofrimento vivenciado pelos trabalhadores reflete de maneira significativa no desenvolvimento laboral e faz com o que haja prejuízo nos relacionamentos interpessoais, bem como no desempenho das atividades. A fim de compreender a magnitude desse agravo, verifica-se que quando um trabalhador é violentado e um grupo vivencia ou assiste à violência, esse ato pode provocar interferências na dinâmica de trabalho tanto dos trabalhadores quanto da organização [7].
Diante da magnitude do problema, pesquisadores revelam índices significativos de violência contra profissionais da saúde, educação e segurança pública [8,9]. Entretanto, apesar das evidências sobre a vulnerabilidade de determinadas profissões, ainda há uma carência de pesquisas voltadas aos trabalhadores brasileiros. Dessa forma, a presente pesquisa possui como objetivo realizar uma análise epidemiológica e de tendência temporal das notificações de violência relacionada ao trabalho em Mato Grosso do Sul, Brasil.
MÉTODOS
DESENHO E PERÍODO DO ESTUDO
Trata-se de um estudo de série temporal, de natureza quantitativa, realizado a partir de dados secundários. Neste estudo, estimou-se a variação percentual anual (VPA) da violência relacionada ao trabalho, bem como descreveu-se o perfil epidemiológico e os desfechos da violência relacionada ao trabalho em Mato Grosso do Sul, no período compreendido entre 1º de janeiro de 2012 e 31 de dezembro de 2022.
FONTE DE DADOS
Foram analisadas as notificações provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), obtidas em junho de 2023, após aprovação da pesquisa pela Secretaria de Estado de Saúde do Estado de Mato Grosso do Sul e pelo comitê de ética local. Após o recebimento do banco de dados, foram identificadas e analisadas as notificações que continham o termo “sim” no campo “violência relacionada ao trabalho”.
VARIÁVEIS DO ESTUDO
As variáveis analisadas incluíram dados sociodemográficos, como ano de notificação, sexo, raça/ cor de pele, faixa etária, escolaridade e macrorregião de residência. Também foram consideradas informações sobre os grupos ocupacionais, de acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações, e a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho. As variáveis relacionadas aos desfechos do estudo incluíram reincidência da violência, número de envolvidos, sexo do provável autor, tipo de violência e meio de agressão. É importante ressaltar que as variáveis “tipo de violência” e “meio de agressão” possuem um campo denominado “outros”, o que possibilita a descrição exata do acontecimento, visto que as opções disponibilizadas na ficha de notificação de violência interpessoal/autoprovocada, utilizada para alimentação do SINAN, podem não se enquadrar na narrativa da vítima de violência.
As idades constantes nas notificações de agravo foram categorizadas em quatro grupos, uma vez que o banco de dados permite o registro da idade em horas, dias, meses ou anos, além da possibilidade de constar apenas a data de nascimento. Diante disso, as idades foram classificadas em menos de 25 anos, de 25 a 45 anos incompletos, 45 anos completos ou mais e não informado. Em relação à escolaridade, optou-se por classificá-la em anos de estudo, considerando que essa variável apresenta diversas opções, permitindo ao notificador selecionar a mais adequada.
Os grupos ocupacionais foram classificados de acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações, permitindo a descrição generalizada das profissões mais afetadas por violência relacionada ao trabalho. Ressalta-se que a ficha de notificação e, consequentemente, as informações disponibilizadas pelo SINAN possibilitam a descrição ou não da ocupação do indivíduo.
LOCAL DO ESTUDO
As macrorregiões do estado de Mato Grosso do Sul foram definidas de acordo com o Plano Estadual de Saúde de Mato Grosso do Sul 2020-2023, elaborado pela Secretaria de Estado de Saúde. Foram identificadas quatro grandes regiões: Campo Grande, Dourados, Corumbá e Três Lagoas. Também foi criada uma categoria para as notificações registradas no estado, mas de ocorrência extraestadual.
CARACTERIZAÇÃO DO PERFIL DA AMOSTRA
Para a caracterização do perfil da amostra, foram considerados elegíveis os registros que continham informações sobre ocupação, violência relacionada ao trabalho ou emissão de Comunicação de Acidente de Trabalho. As notificações que não atenderam a esses critérios foram excluídas da análise. Como resultado, 112.472 notificações foram excluídas e 699 foram incluídas no estudo. Ressalta-se que a ficha de notificação utilizada para a retroalimentação do SINAN também abrange formas de violência não relacionadas ao trabalho.
ANÁLISE ESTATÍSTICA
Os dados foram organizados em planilhas do Microsoft Excel® e exportados para análise estatística no software R, versão 4.3.2. O modelo empregado para a análise de tendência foi o Prais-Winsten, fundamentado na análise de regressão linear generalizada, com intervalo de confiança de 95% (IC95%). O ano de notificação (2012-2022) foi considerado como variável independente (x), enquanto as variáveis dependentes (y) incluíram aquelas relacionadas aos dados sociodemográficos e aos desfechos da violência, como sexo, faixa etária, raça/ cor da pele e tipo de violência. Além dessa análise, foi realizada também uma análise descritiva para as demais variáveis do estudo, incluindo a elaboração de mapas para representar espacialmente a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho. Os mapas apresentaram a contagem de notificações por município, organizada em intervalos definidos com base em quantis e ajustados para melhor representação dos dados.
Para as estimativas da VPA, foram consideradas estatisticamente significativas aquelas com p-valor < 0,05. Valores positivos de VPA indicam tendência crescente, enquanto valores negativos indicam tendência decrescente. Quando o p-valor foi > 0,05, a análise foi considerada estável, levando à conclusão de que o comportamento da série é estacionário.
ASPECTOS ÉTICOS
Este estudo foi conduzido em conformidade com os preceitos éticos da Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 466, de 12 de dezembro de 2012, e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Considerando o teor da pesquisa, utilizaram-se dados secundários de domínio restrito, sem identificação dos participantes, os quais foram identificados por meio de códigos aleatórios e únicos.
RESULTADOS
De 2012 a 2022, foram notificados 699 trabalhadores acometidos por violência relacionada ao trabalho. Ao analisar as variáveis sociodemográficas (Tabela 1), observou-se que o ano de 2022 apresentou o maior volume de notificações desde 2012, com 94 casos. Houve predominância feminina nas notificações, relativamente estável no período de 2012 a 2021, com inversão dessa tendência nos anos de 2015 e 2022.
Distribuição anual de casos de violência relacionada ao trabalho por dados sociodemográficos e tipo de violência. Mato Grosso do Sul, 2012-2022 (número de casos = 699)
A faixa etária com menor expressão foi a de 45 anos ou mais. Em relação à raça/cor de pele, a maioria das notificações concentrou-se em pessoas que se declararam brancas ou pardas, com maior número de notificações no ano de 2022. O tipo de violência mais prevalente foi violência física, com 500 ocorrências, seguido de violência psicológica/moral, que também apresentou maior volume de notificações em 2022.
Ao analisar a VPA das notificações nas quatro macrorregiões de Mato Grosso do Sul, verificou-se tendência de queda no número de agravos por violência na macrorregião de Campo Grande, com redução média de 4% ao longo do período estudado. Destacam-se tendências decrescentes nas faixas etárias abaixo de 25 anos (VPA = -8) e acima de 45 anos (VPA = -7,5), assim como entre pessoas de raça/cor de pele branca (VPA = -67) e aquelas com raça/cor da pele não informada (VPA = -83), além dos casos classificados como violência física (VPA = -7,3). Apenas a categoria “outros” apresentou aumento ao longo dos anos analisados (Tabela 2).
Tendência das notificações de agravos na macrorregião de Campo Grande. Mato Grosso do Sul, 2012-2022 (número de casos = 699)
Em relação à macrorregião de Três Lagoas, o número de notificações não apresentou variações significativas entre 2012 e 2022. Entretanto, verificaram-se tendências de queda para a faixa etária abaixo de 25 anos (VPA = -32) e para ausência de informação sobre raça/ cor de pele (VPA = -27). Já a macrorregião de Dourados não apresentou variação geral no número de notificações; contudo, observou-se aumento na faixa etária de 25 a 45 anos (VPA = 4,3), na ausência de informação sobre raça/ cor de pele (VPA = 66) e nos casos classificados como “outros” (VPA = 100). Ademais, a variável violência física apresentou tendência de queda (VPA = -4,9).
A macrorregião de Corumbá não apresentou variações no número de notificações. A emissão de Comunicação de Acidente de Trabalho para agravos de violência relacionada ao trabalho variou entre as macrorregiões: Campo Grande apresentou o maior número de emissões (n=386), seguida de Dourados (n=225), Corumbá (n=54) e Três Lagoas (n=28).
Ao considerar o perfil sociodemográfico das vítimas, observou-se maior frequência entre pessoas do sexo feminino (53,6%), exceto nos anos de 2015 e 2022, quando houve aumento proporcional das notificações entre homens. Além disso, os casos foram predominantemente cometidos por um único autor (65,4%), do sexo masculino (66,5%). O meio de agressão mais comum foi a força corporal/espancamento (53,3%). Destaca-se a dinâmica de ascensão das notificações entre os anos de 2020 e 2022, em ambos os sexos; no entanto, pessoas do sexo masculino representaram o maior quantitativo de notificações nesse período (Figura 1).
Distribuição de agravos de violência relacionada ao trabalho por sexo. Mato Grosso do Sul, 2012-2022 (número de casos = 699).
Ao analisar as informações referentes à ocorrência e ao número de envolvidos nos casos de violência relacionada ao trabalho, observou-se que esses eventos foram registrados como ocorrências inéditas em 55,8% dos casos e, na maioria das vezes, praticados por um único autor (65,4%), predominantemente do sexo masculino (66,5%). Ademais, no que se refere à dinâmica do ato agressivo, o meio de agressão mais frequentemente registrado nas notificações foi a força corporal/espancamento (53,5%). Verificou-se, ainda, que a macrorregião de Campo Grande concentrou a maior parte das notificações (51,4%).
Ainda no que se refere às características sociodemográficas das vítimas, em relação ao grupo ocupacional, verificou-se que a opção “não informado/ ignorado” foi a mais utilizada para definir essa variável (49,2%), seguida pelas profissões relacionadas aos trabalhadores dos serviços e do comércio (22,5%), trabalhadores agropecuários, florestais e da pesca (6,9%), ocupações não classificáveis, como estudantes e aposentados/pensionistas (6,7%), profissionais das ciências e das artes (5,3%) e trabalhadores dos serviços administrativos (1,9%). As demais categorias profissionais obtiveram proporção ≤ 1% entre as notificações.
Em consonância com o observado para o grupo ocupacional, a variável “escolaridade”, categorizada nesta pesquisa em anos de estudo, também apresentou proporção elevada de notificações classificadas como “não informado/ignorado” (31,5%). Essa categoria foi seguida por indivíduos com 1 a 9 anos de estudo (29%), com 10 a 12 anos de estudo (25,5%) e, por fim, com 13 anos de estudo ou mais (14%).
DISCUSSÃO
O presente estudo identificou padrões epidemiológicos nas notificações de violência relacionada ao trabalho registradas no SINAN. A análise revelou variações de acordo com sexo, raça/cor de pele, faixa etária e macrorregião de residência, além de características relacionadas ao evento, como local de ocorrência, reincidência do evento, número de envolvidos, sexo do provável autor, tipo de violência e meio de agressão.
Observou-se maior ocorrência de violência relacionada ao trabalho entre pessoas do sexo feminino, de raça/cor de pele branca ou parda, com idade entre 25 e 45 anos e residentes na macrorregião de Campo Grande. A maioria das notificações foi registrada na macrorregião de Campo Grande, com envolvimento de apenas um agressor, normalmente do sexo masculino. O principal tipo de violência foi a física, com predomínio de agressão por meio de força corporal/espancamento.
O predomínio das vítimas do sexo feminino corrobora outros estudos que apontam a vulnerabilidade das mulheres à violência relacionada ao trabalho. A violência contra a mulher é um fenômeno social cada vez mais visível no cotidiano, conforme evidenciado por notícias na mídia, notificações de órgãos governamentais e debates acadêmicos [10]. Os resultados da violência contra mulheres relacionada ao trabalho refletem a vivência e o protagonismo delas no contexto social [11]. Ainda assim, persistem preconceitos em relação às atividades profissionais exercidas por mulheres, que tendem a ser menos respeitadas do que as desempenhadas pelo sexo oposto [12].
A variável “raça/cor de pele” também merece destaque, uma vez que a violência no trabalho pode afetar desproporcionalmente diferentes grupos raciais. Estudos apontam que indivíduos de determinadas etnias podem estar mais expostos a situações de assédio moral e discriminação, tornando essencial a inclusão dessa variável nas análises sobre o tema [13]. Tal achado corrobora a importância de entender de que modo a violência relacionada ao trabalho atinge, de formas distintas, indivíduos com diferentes características raciais.
Outro fator relevante é a relação entre idade e violência relacionada ao trabalho. Embora trabalhadores jovens possam enfrentar maior vulnerabilidade devido à falta de experiência e menor estabilidade profissional, os dados do presente estudo mostraram maior número de notificações entre adultos de 25 a 45 anos. Um estudo brasileiro aponta que jovens parecem demonstrar maior predisposição a buscar ajuda quando sentem que os pais ou responsáveis se interessam em compreender suas experiências [14]. Ademais, trabalhadores jovens apresentam maior probabilidade de sofrer violência relacionada ao trabalho, dada a natureza dos empregos que ocupam, o estágio de desenvolvimento e a falta de experiência prévia em comparação com aqueles na fase adulta [15]. Assim, a baixa prevalência de notificações de violência relacionada ao trabalho entre indivíduos jovens pode ser resultado da falta de acompanhamento por pais ou responsáveis, bem como da insegurança das vítimas em relação ao processo de notificação.
No que tange à escolaridade, medida em anos de estudo, observaram-se valores semelhantes entre aqueles classificados como não informados ou ignorados (31,5%) e aqueles que relataram possuir de 1 a 9 anos de estudo (29%). Um estudo realizado no Brasil aponta que a escolaridade é um fator determinante nos dados de violência, sendo preditora da ocorrência de violência no trabalho. Assim, quanto menor a escolaridade, maior a chance de conflitos ou violências relacionadas ao trabalho [16].
A emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho ocorreu em menos da metade dos casos registrados e analisados. Por meio desse registro, é possível averiguar o afastamento temporário de trabalhadores segurados pelo Instituto Nacional de Seguridade Social [17]. A ausência desse comunicado nas demais notificações pode estar relacionada ao fato de o SINAN permitir o registro de diversas situações relacionadas à violência, inclusive envolvendo vítimas sem contrato formal de trabalho, como estudantes, aposentados e pensionistas.
Na perspectiva temporal, verificou-se aumento dos casos de notificação de violência relacionada ao trabalho entre os anos de 2020 e 2022, possivelmente relacionado à pandemia por SARS-CoV-2 no mesmo período. Diversos estudos apontam a ocorrência de violência relacionada ao trabalho entre profissionais de saúde [18]. Nesta pesquisa, verificou-se ausência de informações completas em parte das notificações, sendo a categoria profissional com maior proporção classificada como “ignorado/não informado” (49,2%).
A notificação de casos de violência relacionada ao trabalho no SINAN tem papel fundamental no fortalecimento das políticas públicas de saúde. Informações sobre o local/espaço de ocorrência da violência são essenciais para o levantamento de informações sobre o evento, bem como para a monitorização e vigilância do agravo [19]. Estudos demonstram elevado número de atendimento a vítimas de violência relacionada ao trabalho em unidades de saúde da família, ambulatórios e centros especializados, com destaque para aquelas ocorridas em residências, associadas ao trabalho doméstico [20,21].
Ao analisar a região de ocorrência, consideraram-se o perfil epidemiológico de saúde e a divisão regional de Mato Grosso do Sul. De acordo com as macrorregiões de saúde, descritas no Plano Estadual de Saúde do Estado (2020-2023), amacrorregião de Campo Grande - composta por 34 municípios, distribuídos em 11 microrregiões - detém o maior contingente populacional do Estado, com 1.502.351 habitantes [22]. Essa macrorregião apresentou o maior índice de ocorrência de violência relacionada ao trabalho (51,4%) em relação às demais.
Em relação aos desfechos das violências, destaca-se a predominância de um único agressor por evento, geralmente do sexo masculino. A autoria predominantemente masculina das agressões está em conformidade com outros achados e evidencia a perpetuação de padrões violentos [23]. Estudos consolidados indicam que indivíduos do sexo masculino autores de violência ainda representam uma lacuna para a sociedade, visto que a socialização masculina ensina o homem a resolver seus conflitos de forma violenta [24].
Os casos de violência neste estudo foram classificados de acordo com seu tipo e meio de agressão. A violência física, por meio de força corporal/espancamento, manifestou-se em mais da metade dos casos notificados e analisados. Destaca-se, ainda, a ocorrência de violência psicológica ou moral, bem como ameaças. Os efeitos da violência relacionada ao trabalho podem afetar fisicamente os profissionais, suas relações sociais e familiares, além de contribuir para sofrimento psíquico, especialmente em situações de insegurança, hostilidade e coação [25].
CONCLUSÕES
O presente estudo foi fundamental para identificar o perfil epidemiológico dos casos de violência relacionada ao trabalho notificados no SINAN em Mato Grosso do Sul. Verificou-se que a maioria dos atos violentos foi de natureza física, realizada por um indivíduo, do sexo masculino, por meio de força corporal/ espancamento. Identificou-se, ainda, o perfil das vítimas, predominantemente do sexo feminino, com idade entre 25 e 45 anos e de raça/cor de pele branca ou parda.
Diante desses achados, torna-se necessária a discussão e o planejamento de estratégias para inibir ou minimizar esse agravo. É importante ressaltar que as notificações e os desfechos encontrados podem não refletir integralmente a realidade vivida pelos trabalhadores, devido à ausência de informações completas. Assim, a notificação de eventos relacionados à violência no trabalho, realizada por meio das fichas do SINAN, requer atenção qualificada das equipes de saúde, a fim de garantir dados mais confiáveis. Isso possibilitaria o desenvolvimento de estudos futuros e contribuiria para a prevenção, proteção e assistência aos trabalhadores vítimas de violência. Além disso, a análise contínua e a disseminação dos dados das notificações são essenciais para que gestores, trabalhadores e demais interessados possam contribuir com a vigilância e o aprimoramento desse sistema.
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Fonte de financiamento:
Nenhuma
Declaração de Dados:
Após a publicação, os dados estarão disponíveis sob demanda aos autores.
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Editor associado:
Sergio Roberto de Lucca


