Resumo
A detecção precoce de doenças ocupacionais é considerada essencial para a promoção da saúde no ambiente de trabalho, contribuindo para a prevenção de agravos, a redução do absenteísmo e a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. O médico do trabalho ocupa uma posição estratégica nesse processo, ao identificar sinais e sintomas iniciais de enfermidades relacionadas ao trabalho, interpretar fatores de risco ocupacionais e colaborar com a gestão na implementação de medidas preventivas e corretivas. Este artigo teve como foco realizar uma revisão de escopo acerca do papel do médico do trabalho na identificação precoce de doenças ocupacionais, considerando suas atribuições legais, sua atuação clínica e sua interação com equipes multiprofissionais. Foram reunidas evidências científicas sobre as práticas médicas mais eficazes nesse campo, bem como os desafios enfrentados pelos profissionais na rotina ocupacional. Espera-se que os resultados contribuam para fortalecer a atuação preventiva do médico do trabalho, orientar políticas de saúde ocupacional e auxiliar na formação profissional voltada à vigilância em saúde do trabalhador.
Palavras-chave
medicina do trabalho; doenças profissionais; diagnóstico precoce; vigilância em saúde do trabalhador.
Abstract
Early detection of occupational diseases is essential for promoting health in the workplace, contributing to the prevention of injuries, reducing absenteeism, and improving the quality of life of workers. Occupational physicians play a strategic role in this process by identifying early signs and symptoms of diseases, assessing occupational risk factors, and collaborating with management in the implementation of preventive and corrective measures. This scoping review aimed to investigate the role of occupational physicians in the early identification of occupational diseases, considering their legal responsibilities, clinical practice, and interaction with interdisciplinary teams. Scientific evidence was synthesized regarding the most effective medical practices in this field, as well as the challenges faced by professionals in their daily work routine. The findings are expected to contribute to strengthening preventive actions in occupational health, informing occupational health policies, and supporting professional training focused on workers’ health surveillance.
Keywords
occupational medicine; occupational diseases; early diagnosis; surveillance of the workers health.
INTRODUÇÃO
A saúde do trabalhador constitui um campo essencial da saúde pública, tendo foco na promoção do bem-estar físico, mental e social dos indivíduos em seu ambiente laboral. As doenças ocupacionais representam um conjunto significativo de enfermidades relacionadas ao trabalho, e sua detecção precoce é fundamental para a intervenção oportuna, a reabilitação adequada e a prevenção de agravos [1].
Historicamente, a medicina do trabalho surgiu com a Revolução Industrial, diante do aumento expressivo de doenças e acidentes decorrentes de más condições de trabalho, tendo passado por significativas transformações. No Brasil, houve a criação de normativas importantes, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), as Normas Regulamentadoras (NR) e a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora [2]. Mais recentemente, a Portaria GM/MS Nº 5.201, de 15 de agosto de 2024, ampliou a notificação obrigatória das principais doenças relacionadas ao trabalho para todos os serviços de saúde, enquanto anteriormente ela era limitada à rede sentinela. Tais medidas reconheceram oficialmente a importância de se monitorar os riscos ocupacionais e de se estabelecer estratégias de prevenção e vigilância em saúde no trabalho.
Nesse contexto, o médico do trabalho responsável pelo Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), com a colaboração da equipe multiprofissional do Serviço de Engenharia e Medicina do Trabalho (SESMT) e a participação dos trabalhadores, é o profissional legalmente responsável pela vigilância ativa e passiva da saúde dos trabalhadores dentro das organizações, conforme preconiza a NR 01. Assim, o médico desempenha função central na identificação de sinais clínicos precoces de doenças ocupacionais, dado o seu conhecimento sobre a história natural das doenças ocupacionais. Suas atribuições envolvem a realização de exames admissionais, periódicos, de retorno ao trabalho, mudança de função e demissionais, além da análise do nexo causal entre exposições laborais e os quadros clínicos apresentados [3].
A literatura científica evidencia que a precocidade no diagnóstico de doenças ocupacionais está diretamente associada a melhores prognósticos clínicos e menor impacto funcional e social [4]. Doenças relacionadas ao trabalho tendem a evoluir de forma insidiosa e subclínica, o que exige uma postura ativa e atenta do médico do trabalho durante os exames clínicos e o acompanhamento periódico [5].
Entre as vias de exposição a agentes nocivos, destacam-se a via inalatória e a via dermatológica. A via inalatória é a principal forma de acometimento à saúde do trabalhador, sendo que aproximadamente um em cada seis casos de asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) está relacionado ao trabalho [6]. Além disso, a asma ocupacional é a doença pulmonar relacionada ao trabalho mais prevalente em países industrializados, representando cerca de 15% dos novos casos de asma em adultos. Sua incidência anual varia de 12 a 170 casos por milhão de trabalhadores, com prevalência de 5 a 15% em diferentes setores, caracterizando-se por limitação variável do fluxo de ar ou maior responsividade decorrente de exposições específicas no ambiente laboral. É causada principalmente por sensibilizantes (animais, bioaerossóis, medicamentos, enzimas, látex, plantas, frutos do mar, anidridos ácidos, metais, pó de madeira, persulfato, colofônia e isocianatos) e irritantes (cloro, poeira, fumaça de alto nível, vapores químicos, poluição e produtos de combustão) [7].
Cabe destacar também as pneumoconioses fibrogênicas, como a silicose e a asbestose, que são doenças pulmonares intersticiais causadas pela inalação recorrente de partículas minerais, como sílica e amianto, em ambientes ocupacionais [6]. Ao contrário das pneumoconioses, a asma ocupacional pode ser reversível se diagnosticada precocemente e o trabalhador for afastado da exposição ao agente causal [7].
Em seguida, a via dérmica se apresenta como a segunda mais relevante, sendo a dermatite de contato uma das doenças ocupacionais mais comuns. Fatores de risco, como o trabalho em ambientes úmidos e a predisposição individual, como no caso de dermatite atópica, estão diretamente associados à sua ocorrência [8].
A dermatite ocupacional representa cerca de 90% dos distúrbios cutâneos relacionados ao trabalho, subdividindo-se em duas formas principais: dermatite de contato irritativa - cerca de 80% dos casos - e dermatite de contato alérgica. No Brasil, estima-se que até 10% dos trabalhadores apresentem algum tipo de dermatite ocupacional, embora a subnotificação seja frequente [9,10]. Mundialmente, a dermatite de contato irritativa representa até 90% das dermatoses ocupacionais, com incidência variando entre 0,5 e 1,9 casos por mil trabalhadores ao ano, sendo as mãos a principal área afetada [11]. Os principais fatores de risco são contato com agentes químicos irritantes ou alergênicos e exposição repetida a umidade e atrito [12,13].
A dermatite ocupacional prejudica a qualidade de vida e pode ocasionar afastamento do trabalho [10]. Em 2024, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), foram concedidos 53 benefícios por afastamento para dermatite alérgica de contato (L23), 18 para dermatite de contato por irritantes (L24) e 13 para dermatite de contato não especificada (L25), totalizando 84 afastamentos formais por incapacidade associada a essas condições em trabalhadores brasileiros. Esses dados refletem o impacto dessas condições na qualidade de vida dos trabalhadores, evidenciando a necessidade de afastamento temporário do trabalho e suas repercussões sociais e econômicas [14,15].
A dermatite de contato irritativa surge da ação direta de agentes químicos ou físicos que danificam a barreira cutânea, desencadeando uma resposta inflamatória e gerando sintomas como eritema, queimação, prurido, vesículas e, nos casos crônicos, liquenificação. Já a dermatite de contato alérgica é uma reação imunológica do tipo IV, mediada por linfócitos T, que ocorre após sensibilização prévia do indivíduo ao alérgeno, provocando uma inflamação cutânea que envolve citocinas específicas e resulta em lesões eczematosas com bordas mal definidas, diferenciando-se clinicamente da irritativa pela latência na manifestação dos sintomas [16-19].
O diagnóstico preciso da dermatite ocupacional requer anamnese detalhada, exame clínico cuidadoso e a realização de teste de contato (patch test) para diferenciar entre as formas irritativas e alérgicas, bem como avaliação das condições ambientais e ocupacionais. Critérios objetivos, como os sete critérios de Mathias para a causalidade ocupacional, auxiliam na confirmação do diagnóstico. A dermatite ocupacional pode causar alterações cutâneas crônicas que comprometem significativamente a qualidade de vida dos trabalhadores, incluindo fissuras, liquenificação, afastamentos laborais prolongados e perda de função profissional [8,16,19-21].
No geral, as doenças ocupacionais envolvem mecanismos fisiopatológicos variados, caracterizados por processos inflamatórios crônicos e respostas adaptativas inadequadas a exposições repetitivas no ambiente laboral [22]. No caso dos distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORTs), a sobrecarga mecânica contínua nos músculos, tendões e nervos periféricos promove a liberação sustentada de mediadores inflamatórios, incluindo citocinas pró-inflamatórias como a interleucina-1 e o fator de necrose tumoral alfa, além de prostaglandinas e radicais livres [23]. Quando a exposição é mantida e a intervenção é tardia, esse processo pode evoluir para fibrose tecidual, perda funcional crônica, dor persistente e limitação da mobilidade, impactando significativamente a qualidade de vida e a capacidade laboral do trabalhador [24]. O manejo adequado exige não apenas tratamento clínico e reabilitação física, mas também intervenções ergonômicas, readaptação das funções e políticas de prevenção no ambiente de trabalho, conforme as diretrizes de saúde ocupacional [25].
Os DORTs são uma das principais causas de morbidade ocupacional no Brasil e no mundo. No Brasil, de 2007 a 2019, foram registrados mais de 93 mil casos, com maior prevalência entre trabalhadoras do sexo feminino e nas regiões Sudeste e Sul, coincidindo com os maiores centros econômicos e industriais do país [26]. A prevalência de DORTs na população brasileira adulta é de aproximadamente 2,5%, com variações regionais que refletem fatores socioeconômicos e ocupacionais [27]. Mundialmente, em 2021, foram registrados aproximadamente 1,7 bilhão de casos, com aumento maior nos países de baixa e média renda, afetando especialmente mulheres e pessoas entre 50 e 59 anos [28,29]. Esses distúrbios são causados principalmente por fatores biomecânicos, organizacionais e psicossociais, resultando em elevados custos sociais e econômicos, além de incapacidade para o trabalho [30].
Outro acometimento à saúde do trabalhador é a perda auditiva induzida por pressões sonoras elevadas (PAINPSE), decorrente da exposição prolongada e repetida a níveis elevados de ruído sonoro no ambiente laboral. Essa perda auditiva configura-se como do tipo neurossensorial, geralmente bilateral e irreversível, acometendo inicialmente as frequências altas, sobretudo na faixa de 3.000 a 6.000 Hz [31]. A prevalência da PAINPSE varia conforme a ocupação, o país e o sexo, sendo maior entre homens. Isso ocorre devido ao fato de que, em geral, os homens estão mais expostos a níveis elevados de ruído no trabalho do que as mulheres, devido a diferenças nas categorias ocupacionais, nos setores econômicos de emprego e no histórico profissional ao longo da vida. Indivíduos entre 30 e 59 anos estão mais vulneráveis. Além disso, dados agregados apontam prevalências de até 58% em trabalhadores da construção civil [32].
No Brasil, entre 2012 e 2021, foram notificados 7.413 casos, com maior prevalência em homens entre 50 e 59 anos, especialmente na região Sudeste [33]. A exposição ao ruído ocupacional é responsável por 16% dos casos de perda auditiva incapacitante em adultos no mundo, correspondendo a uma carga significativa de anos vividos com incapacidade [34,35]. A prevalência varia entre países e setores, sendo maior em nações em desenvolvimento devido à menor implementação de medidas preventivas, chegando a cerca de 47% em trabalhadores da indústria do aço em alguns estudos [35]. Globalmente, a tendência da carga de PAINPSE tem diminuído desde 1990, principalmente em regiões com menor índice socioeconômico, mas permanece elevada, especialmente entre homens de meia-idade e idosos [34].
Também merecem destaque os transtornos mentais relacionados ao trabalho, que podem decorrer da exposição prolongada a estressores psicossociais no ambiente laboral, os quais provocam disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, com elevação sustentada dos níveis de cortisol e catecolaminas, bem como a ativação de processos neuroinflamatórios [36]. Essas alterações causam desequilíbrios nos sistemas dopaminérgico e serotoninérgico, contribuindo para o desenvolvimento de quadros depressivos, ansiedade e fadiga crônica [37]. Além disso, a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho já documenta diversos transtornos mentais relacionados a intoxicações exógenas, especialmente por metais pesados e solventes orgânicos.
Entre 2018 e 2023, o Brasil registrou 13.464 notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho, evidenciando um aumento acentuado de 165% nesse período. O maior número de casos foi observado em 2023, com a região Sudeste concentrando a maioria dos casos (44,7%), o que reflete disparidades socioeconômicas regionais. As mulheres foram desproporcionalmente afetadas, representando 68,06% das notificações, sendo a faixa etária de 35 a 44 anos a mais atingida. Trabalhadores com ensino superior completo compõem uma parcela significativa dos casos, possivelmente devido a maiores exigências e responsabilidades profissionais. A prevalência geral dos transtornos mentais comuns entre trabalhadores brasileiros é estimada em cerca de 30%, sendo que algumas profissões, como educadores sociais, bancários, professores e catadores, apresentam taxas ainda mais altas, chegando a 58% [38,39].
Em escala mundial, cerca de 970 milhões de pessoas foram afetadas por transtornos mentais em 2019, um número crescente em relação aos 654 milhões registrados em 1990. Entre adultos em idade produtiva, estima-se que 15% apresentaram algum transtorno mental em 2019. Os transtornos mentais relacionados ao trabalho contribuem significativamente para a perda de produtividade, com milhões de dias de trabalho perdidos anualmente no mundo. Os transtornos de ansiedade e depressão estão entre os mais comuns globalmente. O número de novos casos de transtornos mentais no mundo chegou a aproximadamente 444 milhões em 2021, evidenciando o aumento da carga dessas condições [40,41].
Portanto, a crescente complexidade dos ambientes laborais e a diversificação das exposições a riscos ocupacionais implicam a necessidade de que o médico do trabalho conheça as principais doenças relacionadas ao trabalho e atue de forma preventiva. Assim, o objetivo desse artigo é identificar estudos que evidenciem ferramentas e estratégias de vigilância em saúde do trabalhador que possam auxiliar a atuação do médico do trabalho nesse processo.
MÉTODOS
Este estudo caracteriza-se como uma revisão de escopo da literatura sobre o papel do médico do trabalho na detecção precoce de doenças ocupacionais.
A construção da questão de pesquisa foi guiada pela estratégia PICO, considerando: P (população) - médicos do trabalho; I (intervenção) - atuação na detecção precoce de doenças ocupacionais; C (comparação) - abordagens convencionais ou ausência de atuação; O (outcome [desfecho]) - eficácia na identificação precoce e na prevenção de agravos. A partir disso, formulou-se a seguinte questão norteadora: “Como o médico do trabalho deve atuar para a detecção precoce de doenças ocupacionais e quais são as práticas mais eficazes para esse fim?”
Para a busca dos estudos, foram selecionados descritores em português e inglês relacionados ao tema, tais como: “medicina do trabalho”, “doenças ocupacionais”, “detecção precoce”, “prevenção” “saúde do trabalhador” e seus correlatos (“occupational medicine”, “occupational diseases”, “early diagnosis”, “prevention”, “occupational health”). A coleta de dados foi realizada entre os meses de maio e agosto de 2025, nas bases de dados PubMed, Scopus, Web of Science, LILACS e Biblioteca Virtual em Saúde. Para ampliar a abrangência, foram utilizados operadores booleanos (“AND” e “OR”) para combinar os descritores em pares ou trios. Os filtros “doenças ocupacionais” e “detecção precoce” foram aplicados. Como delimitação temporal, a seleção considerou exclusivamente estudos publicados a partir de 2000.
Seguiram-se os seis passos obrigatórios da metodologia de revisão de escopo: (1) identificação da questão que irá reger a pesquisa; (2) identificação de estudos pertinentes; (3) seleção dos estudos apropriados; (4) mapeamento dos dados; (5) coleta, resumo e apresentação dos resultados; e (6) consulta a especialista, que, no caso, foi o terceiro autor do presente artigo, especialista da área, o qual colaborou ativamente na elaboração do artigo [42]. Posteriormente, os estudos selecionados foram exportados, organizados e armazenados em planilhas em Word para identificação de duplicatas e seleção, inclusão ou exclusão dos estudos.
Os dados extraídos e organizados em documento Word contemplaram informações como autor, ano, tipo de estudo, população avaliada, intervenções, desfechos e principais achados. Posteriormente, foi realizada uma análise crítica dos estudos incluídos, buscando-se identificar práticas eficazes, desafios e lacunas existentes na atuação do médico do trabalho. Por fim, os resultados foram discutidos e sintetizados na Tabela 1, visando contribuir para o avanço do conhecimento e a melhoria das práticas em saúde ocupacional. O processo de seleção dos estudos é apresentado na Figura 1, conforme as diretrizes da recomendação PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) [42], que também se adequa a revisões de escopo.
Síntese dos estudos sobre o papel do médico do trabalho na identificação precoce de doenças ocupacionais incluídos na revisão de escopo
Fluxograma de seleção dos artigos, Brasília (DF), Brasil, 2025. Fonte: Adaptada de Page et al. [6]
Foram incluídos estudos originais, revisões sistemáticas e outras publicações científicas que abordassem de maneira clara e objetiva o papel do médico do trabalho na identificação precoce de doenças ocupacionais, sem limitação quanto ao idioma ou ao período de publicação. Foram excluídos manuscritos cujo foco estivesse restrito a aspectos administrativos ou organizacionais, sem abordagem clínica, bem como trabalhos baseados apenas em dados secundários sem descrição metodológica adequada, como textos opinativos ou artigos que não passaram por revisão por pares.
O protocolo desta revisão de escopo foi registrado na plataforma Open Science Framework (https://doi.org/doi.org/10.17605/OSF.IO/C9HFE). O registro visou garantir transparência metodológica e a reprodutibilidade do estudo.
RESULTADOS
Após a triagem, foram selecionados 18 artigos, cuja síntese é apresentada na Tabela 1, separados de acordo com o grupo de doenças.
DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão de escopo reforçam a importância estratégica do médico do trabalho na detecção precoce de doenças ocupacionais, evidenciando a importância da sua participação na vigilância em saúde do trabalhador, na gestão organizacional e na intervenção clínica. Os estudos analisados, organizados por categorias de adoecimento, destacam o impacto positivo da atuação médica precoce, interdisciplinar e baseada em evidências na mitigação de agravos à saúde do trabalhador.
No que tange às doenças pulmonares ocupacionais, a revisão de Howlett et al. [6] chama atenção para a alta prevalência de quadros como asma ocupacional e DPOC, destacando a importância da anamnese detalhada para o diagnóstico precoce. Nesse estudo, observou-se que cerca de 1/3 dos pacientes com asma ocupacional ficam desempregados em 3-5 anos, evidenciando a necessidade de intervenção médica precoce pelo médico do trabalho. A investigação da asma ocupacional demanda testes específicos realizados por médicos com experiência especializada, incluindo testes imunológicos (imunoglobulina E sérica específica ou testes cutâneos) para confirmar sensibilização a agentes causais. A medição seriada do pico de fluxo expiratório, com registros realizados pelo menos quatro vezes ao dia durante 3 semanas consecutivas, constituiu-se como a ferramenta diagnóstica mais acessível.
De forma complementar, no estudo de Dalbøge et al. [43], foi encontrada evidência moderada para novos agentes sensibilizantes, incluindo crustáceos, enzimas, pesticidas e produtos de limpeza, com 55 estudos analisados abrangendo 10 grupos de exposições ocupacionais. Esses dados reforçam o valor da atuação interprofissional e da atualização contínua de agentes sensibilizantes emergentes, sugerindo que a formação do médico do trabalho deve contemplar competências clínicas avançadas, bem como habilidades comunicacionais e de gestão de riscos.
Em relação à saúde mental no trabalho, estudos como o de Hasan et al. [36] mostram o potencial de tecnologias de aprendizado de máquina na triagem precoce do estresse ocupacional, apesar da necessidade de uma estrutura organizacional para sua adoção prática. Nesse estudo, um modelo de ensemble com três algoritmos alcançou acurácia de 90,32% na detecção de estresse ocupacional, com os principais fatores associados sendo excesso de trabalho e ambiguidade (27%), comunicação deficiente (17%) e ambiente de trabalho positivo (16%). Nesse contexto, o médico do trabalho pode utilizar instrumentos validados, como o Work Stress Questionnaire (WSQ), que avalia múltiplos domínios, incluindo demandas do trabalho, controle sobre o trabalho e apoio organizacional.
Por outro lado, Strudwick et al. [37] indicam que a triagem isolada tem eficácia limitada. No estudo, triagens seguidas apenas de aconselhamento ou encaminhamento mostraram-se ineficazes na melhora da saúde mental (d = -0,07). No entanto, quando acompanhadas de acesso facilitado ao tratamento, houve melhora modesta (d = -0,22), ficando evidente que o médico do trabalho precisa atuar em articulação com psicólogos, gestores e políticas institucionais para que a detecção precoce seja acompanhada de medidas terapêuticas efetivas.
No estudo de Balachandar et al. [44], as ferramentas desenvolvidas apresentaram consistência interna adequada (α = 0,82 e 0,73) e correlação estatisticamente significativa com uma escala geral de saúde mental. Com base em 2.303 participantes, Van Wijk et al. [45] identificaram 14 marcadores, organizados em cinco domínios: saúde neurocognitiva, transtornos mentais comuns, histórico de adaptação ao trabalho, interface família-trabalho e sobrecarga de estresse.
Buscando minimizar vieses de resposta e ampliar sua aplicabilidade a diferentes profissões de forma consistente, um estudo brasileiro demonstrou que a escala Oldenburg Burnout Inventory (OLBI) apresentou bom ajuste à amostra nacional. O OLBI é um instrumento composto por 16 itens distribuídos em duas dimensões centrais de burnout - exaustão e desengajamento do trabalho -, em que cada item é avaliado em uma escala do tipo Likert. A pontuação final reflete o nível de esgotamento emocional e desconexão em relação às atividades laborais, contendo itens formulados em sentidos positivo e negativo. Observou-se sensibilidade superior a 80% para identificação de burnout ocupacional, permitindo ao médico do trabalho uma avaliação mais objetiva. O instrumento pode ser utilizado tanto para triagem precoce quanto para acompanhamento longitudinal de trabalhadores expostos a fatores de risco psicossocial. Sua utilização permite ao médico do trabalho identificar casos de burnout em estágios iniciais, subsidiar intervenções focadas e monitorar a eficácia de programas de prevenção e promoção da saúde mental no ambiente ocupacional [48].
Além disso, ferramentas adaptadas à realidade cultural, como nos estudos de Balachandar et al. [44] e Van Wijk et al. [45], reforçam que não há soluções universais, e que o contexto local deve ser considerado em qualquer protocolo de triagem.
Em relação aos DORTs, os estudos apontam que a atuação precoce do médico do trabalho, com intervenções comportamentais, programas de exercícios e reabilitação, tem impacto direto na prevenção do afastamento laboral e na qualidade de vida do trabalhador. Essa abordagem exige a personalização dos programas de atividade física laboral, o que demanda avaliação médica criteriosa e contínua. A eficácia dessa prevenção do absenteísmo é demonstrada pela identificação precoce e pela reabilitação de pacientes em risco, utilizando modelos como o Prevention of Sickness Absence Through Early Identification and Rehabilitation of At-Risk Patients with Musculoskeletal Disorders (PREVSAM), intervenções cognitivas e ferramentas de triagem, como o Örebro Musculoskeletal Pain Screening Questionnaire-Short Form (ÖMPSQ-SF), que podem modificar as trajetórias de dor crônica e incapacidade. Já para o monitoramento funcional, o médico do trabalho pode utilizar instrumentos validados, como o Short Musculoskeletal Function Assessment (SMFA), que apresenta excelente consistência interna e estabilidade, com valores superiores a 0,90 [22-24]. O modelo PREVSAM é baseado em uma perspectiva biopsicossocial, com abordagem centrada na pessoa, incluindo avaliações individuais e reabilitação estruturada com equipe multidisciplinar. No estudo de Sweileh [25], foram analisados 1.132 artigos sobre distúrbios musculoesqueléticos ocupacionais, evidenciando que as regiões lombar, cervical e dos ombros foram as mais comumente afetadas. O médico do trabalho pode implementar ferramentas como o Musculoskeletal Health Questionnaire (MSK-HQ), que permite o monitoramento padronizado de sintomas e da qualidade de vida, além de métodos de avaliação ergonômica, como o Rapid Upper Limb Assessment (RULA), Occupational Repetitive Actions (OCRA) e Hand Activity Level (HAL), para a identificação objetiva de fatores de risco.
Por sua vez, a PAINPSE é uma das doenças ocupacionais mais prevalentes globalmente. Estudos apontam para a escassez de pesquisas robustas sobre intervenções a longo prazo, o que reforça a necessidade de maior produção científica nacional e internacional sobre esse tema [32,46]. A revisão de Mirza et al. [31] enfatiza o papel do médico do trabalho não apenas na detecção precoce, por meio de audiometria periódica, mas também na vigilância contínua das condições ambientais e da adesão ao uso de equipamentos de proteção auditiva. Nesse contexto, o médico do trabalho é essencial na implementação de protocolos de audiometria, incluindo audiometria tonal liminar - o padrão-ouro para avaliação da PAINPSE - e testes complementares, como otoacoustic emissions ou speech-in-noise, que podem detectar danos subclínicos precoces.
Dessa maneira, o médico do trabalho deve estabelecer programas de conservação auditiva, incluindo audiometrias basais e anuais para trabalhadores expostos a níveis de ruído ≥ 85 dB(A) por 8 horas. A identificação de mudança significativa no limiar auditivo, definida como mudança média ≥ 10 dB nas frequências de 2, 3 e 4 kHz, requer ação imediata, incluindo reavaliação de proteção auditiva e encaminhamento para avaliação especializada [49].
A evolução da PAINPSE pode ser silenciosa e insidiosa, e os primeiros sintomas incluem dificuldade de compreensão da fala em ambientes ruidosos e abafamento auditivo. A progressão da lesão pode ser evitada com a eliminação ou a redução da exposição ao ruído a níveis considerados seguros, mas não há reversão do dano já estabelecido, o que reforça a importância da prevenção primária. Essa prevenção deve priorizar a eliminação do risco e, quando isso não for possível, a adoção de medidas de proteção coletiva, como o enclausuramento de máquinas, bem como de medidas administrativas e organizacionais, como a redução do tempo de exposição ao ruído por meio de rodízios. Por último, se ainda houver ruído residual, pode-se fazer uso de equipamento de proteção individual, conforme a NR 01. O controle ambiental do ruído e a vigilância audiométrica periódica são fundamentais para a prevenção [46].
No campo das dermatites ocupacionais, os estudos enfatizam que a detecção precoce desse agravo deve ser baseada em uma triagem clínica rigorosa, aliada ao monitoramento contínuo da saúde do trabalhador, com atenção especial aos grupos de risco, como os profissionais da indústria de tintas, saúde, limpeza e outras atividades que envolvem contato frequente com agentes irritantes e sensibilizantes. No estudo de Larese Filon et al. [20], a incidência de dermatite de contato ocupacional em registros variou de 0,6 a 6,7/10.000 pessoas-ano, enquanto estudos de coorte mostraram incidência entre 15,9 e 780/10.000 pessoas-ano, sendo mais elevada em enfermeiros aprendizes e dentistas. No estudo de Schütte et al. [8], foi encontrada evidência moderada para associação entre trabalho úmido e dermatite de contato irritativa (odds ratio 1,56; IC95% 1,21-2,01) e evidência forte para associação entre dermatite atópica prévia e dermatite de contato irritativa (odds ratio 2,44; IC95% 1,89-3,15).
No estudo de Awodele et al. [19], foi observado que, entre 400 trabalhadores da indústria de tintas, 72,5% estavam cientes dos riscos ocupacionais, porém apenas 30% tinham recebido treinamento formal sobre segurança. Além disso, 40% dos trabalhadores não utilizavam equipamentos de proteção individual, e cerca de 90% relataram sintomas relacionados à exposição ocupacional, evidenciando uma lacuna importante na prevenção e no manejo desses riscos.
Complementando essa perspectiva, Jogie [16] destaca a importância da integração entre medicina do trabalho, atenção primária e especialistas para prevenir agravos sistêmicos decorrentes da exposição recorrente, ressaltando a necessidade de uma intervenção precoce e abordagem multidisciplinar.
Paralelamente, Vearrier & Greenberg [47] examinaram a adequação da implementação de programas de monitoramento médico após exposições ambientais, ocupacionais ou farmacológicas potencialmente perigosas em situações em que uma relação causal foi estabelecida clinicamente ou comprovada pelos critérios de Bradford Hill (força da associação, consistência entre diferentes estudos, especificidade da relação, temporalidade, gradiente biológico, plausibilidade biológica, coerência com o conhecimento científico existente, evidência experimental e analogia com outros fenômenos já estabelecidos). Nesse contexto, os autores destacam que esses programas só devem ser implementados quando os benefícios superarem os riscos e os custos, sendo necessários critérios como exposição documentada e de magnitude suficiente para aumentar o risco de efeitos adversos, existência de um teste de rastreamento sensível e específico, possibilidade de detecção precoce de doenças e, sobretudo, evidência de que essa detecção precoce se traduza em redução de morbidade ou mortalidade.
CONCLUSÕES
Os achados desta revisão reforçam o papel do médico do trabalho como um profissional em posição estratégica na identificação precoce de doenças ocupacionais, sendo necessário na promoção da saúde e prevenção de agravos no ambiente laboral. Sua atuação vai além da avaliação clínica individual, abrangendo ações educativas, epidemiológicas, legais e interdisciplinares.
Portanto, os resultados sugerem que a efetividade da detecção precoce está diretamente relacionada à capacitação técnica, à atuação multiprofissional e à integração entre vigilância, assistência e gestão organizacional. Além disso, aspectos como barreiras institucionais, limitações estruturais e subnotificação ainda persistem como desafios relevantes, principalmente em países de baixa e média renda, tanto que os estudos aqui discutidos não conseguem atacar tais problemáticas exaustivamente.
As limitações deste estudo incluem a natureza qualitativa da revisão de escopo, que não abarca a metanálise e a possível subnotificação de doenças na literatura. Além disso, a heterogeneidade dos sistemas de saúde entre países dificulta a generalização das práticas sugeridas para os diversos contextos institucionais. A despeito de tais limitações, o presente estudo apresenta formas inovadoras e eficazes de detecção precoce de doenças ocupacionais a partir dos estudos revisados, atendendo ao proposto na pergunta de partida do presente artigo, ainda que não seja possível esgotá-la, dado a metodologia e a abrangência do objeto de estudo. Sugere-se que cada grupo de doenças ocupacionais possa ser estudado isoladamente, permitindo aprofundar as práticas de detecção precoce de cada um, o que será alvo de ação desses pesquisadores em outros artigos.
Ainda são necessárias mais pesquisas longitudinais e intersetoriais que avaliem o impacto das intervenções médicas a longo prazo, assim como a efetividade de ferramentas de triagem em contextos diversos. O fortalecimento da formação dos médicos do trabalho, aliado à ampliação de políticas públicas voltadas à saúde ocupacional, é essencial para consolidar um modelo preventivo mais robusto, baseado em evidências, com foco na preservação da capacidade laboral e no bem-estar do trabalhador.
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Fonte de financiamento:
Nenhuma
Declaração de Dados:
Após a publicação, os dados estarão disponíveis sob demanda aos autores.
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Editor associado:
Sergio Roberto de Lucca


