Open-access O subterrâneo da história: eugenia e escravidão em The Underground Railroad: os caminhos para a liberdade, de Colson Whitehead

The Subterranean of History: Eugenics and Slavery in The Underground Railroad by Colson Whitehead

RESUMO

Neste artigo, analiso The underground railroad: os caminhos para a liberdade (2017), de Colson Whitehead, a partir das novas narrativas de escravizados, um gênero que revisita a escravidão nos EUA sob uma perspectiva contemporânea. Exploro como Whitehead transforma a Ferrovia Subterrânea em um sistema de metrô literal para criticar o legado do racismo e da escravidão. Apoio-me em teóricos como Bernard Bell, Ashraf Rushdy e Toni Morrison para discutir intertextualidade, revisionismo histórico e ficção especulativa, destacando a representação da eugenia. Concluo que o romance denuncia injustiças passadas e alerta para a persistência do racismo sistêmico.

PALAVRAS-CHAVE:
Racismo; Escravidão; Novas Narrativas de Escravizados; História

ABSTRACT

In this article, I analyze The underground railroad: os caminhos para a liberdade (2017) by Colson Whitehead within the framework of neo-slave narratives, a genre that revisits the history of slavery in the U.S. from a contemporary perspective. I explore how Whitehead reimagines the Underground Railroad as a literal subway system to critique the legacy of racism and slavery. Drawing on theorists such as Bernard Bell, Ashraf Rushdy, and Toni Morrison, I discuss intertextuality, historical revisionism, and speculative fiction, highlighting the representation of eugenics. I conclude that the novel both denounces past injustices and warns of the persistence of systemic racism.

KEYWORDS:
Racism; Slavery; Neo-Slave Narratives; History

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
(Castro Alves, “O Navio Negreiro”, 2007).

Um dos aspectos mais intrigantes de The underground railroad: os caminhos para a liberdade (2017) é o convite que Colson Whitehead faz ao leitor, logo no início da narrativa, para contemplar a seguinte possibilidade: e se a histórica Ferrovia Subterrânea tivesse realmente existido na primeira metade do século XIX como um metrô interestadual? Este exercício de imaginação não se limita à ferrovia, mas se estende à reinterpretação da história da escravidão nos Estados Unidos, mantendo o leitor envolvido até a última página. É importante ressaltar que a verdadeira Ferrovia Subterrânea não consistia em uma ferrovia nem em uma estrutura subterrânea. Em essência, tratava-se de uma rede de rotas secretas e abrigos, ativa aproximadamente entre 1800 e 1860, durante o período pré-Guerra Civil, que auxiliava afro-americanos a fugirem da escravidão nos estados do sul, transportando-os em direção ao norte e, até mesmo, ao Canadá em busca de liberdade. A atividade da ferrovia diminuiu após a Proclamação de Emancipação em 1863, que declarou a liberdade dos escravizados nos estados confederados e a ratificação da 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos em 1865, que aboliu a escravidão em todo o país.1 No romance, a ferrovia é representada de maneira literal, assemelhando-se a um sistema de metrô interestadual clandestino, com diversas estações, trens, agentes e condutores. Whitehead afirmou em uma entrevista que levou 16 anos para escrever o livro e a escrita surgiu a partir de uma ideia de infância de que a Underground Railroad poderia ter sido uma ferrovia real (Gross, 2016).

The underground railroad: os caminhos para a liberdade é, sem dúvida, a obra mais premiada de Colson Whitehead, tendo recebido o Prêmio Pulitzer de Melhor Ficção além do National Book Award for Fiction em 2017. Em 2018, o autor participou da 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), marcando sua segunda visita ao Brasil; a primeira ocorreu em 1994, quando ainda não imaginava que se tornaria um dos mais aclamados autores americanos contemporâneos. Em 2020, Whitehead foi agraciado novamente com o Prêmio Pulitzer de Melhor Ficção, desta vez por seu livro O reformatório Nickel (2019), o que fez este jovem autor afro-americano se destacar como um dos raros escritores a receber o prêmio Pulitzer em anos consecutivos. Ambas as obras oferecem narrativas impactantes sobre o racismo estrutural nos Estados Unidos e o legado de séculos de escravidão na sociedade americana. Por fim, em 2021, The Underground Railroad foi adaptado para uma série de televisão limitada na Amazon Prime Video, dirigida por Barry Jenkins, que também conquistou diversos outros prêmios.2

O livro é estruturado em capítulos que abordam as personagens e os estados pelos quais Cora viaja utilizando a Ferrovia Subterrânea. Neste contexto, é relevante destacar que, à medida que Cora escapa de um estado para outro, a narrativa revela as diversas manifestações do racismo em cada local. Em algumas cidades, o racismo se apresenta de forma ostensiva, enquanto em outras é mais sutil e disfarçado. No entanto, independentemente do estado para o qual Cora fuja, ela sempre se depara com algum tipo de violência e permanece nos trilhos da ferrovia em sua busca por liberdade. Portanto, a Ferrovia Subterrânea pode ser interpretada como uma ferramenta didática que proporciona ao leitor uma compreensão não apenas da diversidade cultural americana, mas, sobretudo, da diversidade do racismo que permeia o país. No capítulo inicial, intitulado “Georgia”, Lumbly, um dos agentes da estação, apresenta a Ferrovia Subterrânea a Cora e seu amigo Caesar. Após explicar detalhadamente o funcionamento do sistema e acomodar os fugitivos no trem, ele afirma: “Se quiserem ver do que é feita essa nação, é o que sempre digo, vocês têm de percorrer os trilhos. Olhem para fora à medida que acelerarem, e vão ver a verdadeira face da América” (Whitehead, 2017, p. 64).3 O que Cora e os leitores testemunham é uma nação profundamente marcada pelo racismo e pela violência.

É importante destacar que o sexto romance de Whitehead exemplifica uma característica marcante de seu conjunto de obras: a habilidade do escritor em transitar entre diferentes gêneros literários, abordando as convenções da ficção com a fluidez de uma narrativa híbrida. Whitehead iniciou sua trajetória literária com o romance policial A Intuicionista (2018 [1999]) e, desde então, tem explorado diversas vertentes narrativas, incluindo o memorialismo ficcional em Sag Harbor (2010), a ficção científica em Zone One (2011) e, mais recentemente, a ficção histórica em O reformatório Nickel (2019). O próprio autor reconhece essa característica em uma entrevista concedida em 2013 à revista literária online Guernica, na qual compara o uso de diferentes gêneros a uma performance análoga ao drag. Whitehead (2010) afirma que, ao escrever Sag Harbor, estava “vestindo um drag realista”, assim como anteriormente adotara um “drag de detetive” ou um “drag de terror” em outras obras (Shukla, 2013). Segundo o autor, essa abordagem tem como propósito evitar as expectativas convencionais de enredo e a previsibilidade da satisfação narrativa. Como observa Stephanie Li (2019, p. 1), “ao apresentar o gênero como uma forma de drag, Whitehead afirma a natureza performativa dos códigos culturais que instauram as categorias literárias” e, além disso, “[c]ríticos geralmente descrevem seus livros como formas híbridas”, uma vez que seus romances não se restringem a um único drag, mas oscilam entre diferentes gêneros. De fato, essa fluidez genérica inscreve a obra de Whitehead em um campo literário que desafia classificações rígidas, ampliando a reflexão sobre os limites e as possibilidades da literatura contemporânea.

Sem dúvida, a narrativa híbrida de Underground Railroad incorpora episódios de ficção histórica, história especulativa, realismo mágico e até ficção científica distópica. Afirmo, no entanto, que, desta vez, Whitehead optou por adotar o drag das novas narrativas de escravizados, tradução livre para as neo-slave narratives, não apenas devido ao hibridismo da narrativa ao combinar gêneros literários distintos, mas também ao contexto histórico do livro, no caso, a escravidão anterior à Guerra Civil nos EUA, a qual é revisitada com significativa licença poética. A representação da Carolina do Sul deste período, por exemplo, difere substancialmente da realidade histórica, sendo retratada como um estado progressista e livre de escravidão, enquanto, na realidade, foi o primeiro estado escravista do Sul a se separar do governo federal em dezembro de 1860, iniciando-se assim a Guerra Civil. No romance, Whitehead reimagina o estado de forma anacrônica evidenciada pela presença conspícua de arranha-céus, elevadores super-rápidos e impressionantes edifícios hospitalares. Além disso, a população branca orgulha-se de sua atitude progressista, engajando-se em ações sociais destinadas a conceder cidadania plena a escravizados fugitivos, oferecendo-lhes moradia, empregos, educação e até assistência médica gratuita.

Por um outro lado, a recriação da Carolina do Sul revisita eventos históricos quase esquecidos da história dos EUA, os quais muitos leitores possivelmente desconhecem ou prefeririam não recordar. Refiro-me às alusões diretas à longa trajetória do país em práticas eugênicas, como por exemplo o infame Experimento da Sífilis de Tuskegee (1932-72) em Macon, Alabama. Esse experimento enganou 600 homens afro-americanos, levando-os a acreditar que estavam recebendo assistência médica gratuita, enquanto médicos realizavam estudos secretos sobre a progressão da sífilis sem lhes fornecer tratamento adequado. No romance, de forma muito similar, os recém-chegados fugitivos na Carolina do Sul são submetidos a esterilizações compulsórias de mulheres negras e a falsos tratamentos para sífilis em homens negros, ambos promovidos como parte de campanhas governamentais de saúde. Essas imposições médicas racistas eram disfarçadas como ações progressistas destinadas a auxiliar os escravizados fugitivos.

Whitehead acrescenta um novo nível de complexidade à reconstrução histórica ao inserir estrategicamente a eugenia do início do século XX no contexto da escravidão antebellum. Dessa maneira, o romance sugere duas interpretações centrais: em primeiro lugar, a ideologia racista que sustentou a eugenia é comparável aos princípios que legitimaram a escravidão antebellum ao longo de décadas nos Estados Unidos; em segundo, essa mesma ideologia pode ser disfarçada sob o discurso de ações supostamente progressistas. Analiso essa reconfiguração do período escravocrata americano e argumento que Whitehead constrói um texto a partir do gênero das novas narrativas de escravizados que opera tanto como denúncia quanto como advertência, ressaltando a possibilidade de que a eugenia ainda esteja presente na sociedade americana contemporânea, ainda que sob novas denominações.

Para conduzir esta análise, adotarei a seguinte estrutura: inicialmente, situarei o romance dentro da tradição das novas narrativas de escravizados, oferecendo uma breve genealogia do gênero e examinando os motivos que levaram Whitehead a adotá-lo. Em um segundo momento, direcionarei a análise para o capítulo ambientado na Carolina do Sul, uma seção crucial em que o autor estabelece uma conexão deliberada entre a escravidão e a eugenia. Nessa parte, Whitehead traz para o contexto do século XIX práticas eugenistas que, historicamente, só ganhariam força no início do século XX, criando um diálogo perturbador entre passado e presente. Esse aspecto do romance serve como um alerta para as práticas eugênicas do passado e, implicitamente, para as formas mais sutis de controle e discriminação que ainda podem existir no presente. A obra questiona a validade de qualquer sistema que busque “aperfeiçoar” ou “limitar” indivíduos com base em características raciais, sociais ou genéticas e alerta para os perigos do pensamento eugênico, que ainda ressoam em questões contemporâneas, como políticas de controle reprodutivo e discussões sobre genética e identidade racial. Portanto, The Underground Railroad não apenas faz uma crítica ao racismo histórico, mas também nos lembra de que práticas de eugenia e segregação podem surgir novamente sob novas formas e justificativas, se não ficarmos vigilantes em relação à proteção dos direitos humanos e da dignidade de todas as pessoas. Por fim, espero que esta análise não apenas contribua para uma compreensão mais aprofundada de The Underground Railroad, mas também funcione como um alerta para possíveis práticas eugênicas atualmente.

O que são as Novas Narrativas de Escravizados?

The Underground Railroad começa com a genealogia de Cora e, por meio de uma narrativa realista e histórica, retrata a trajetória de sua avó, Ajarry, capturada na África e transportada para os Estados Unidos a bordo de um navio negreiro responsável por conduzir milhares de africanos às colônias europeias. Após ser vendida sucessivamente a diferentes proprietários de plantações no Sul, Ajarry é finalmente levada à plantação de James Randall, na Geórgia, onde sua história se entrelaça ao brutal sistema do tráfico transatlântico de escravizados. Na plantação, Ajarry dá à luz Mabel, uma mulher marcada por duas façanhas extraordinárias: sua fuga tanto da propriedade dos Randall quanto do temido caçador de escravizados, Ridgeway. Mabel, por sua vez, torna-se mãe de Cora, que mais tarde reluta diante das insistentes propostas de fuga feitas por Caesar, um escravizado que a escolhe como parceira por acreditar que Cora lhes traria a mesma sorte que sua mãe tivera anos antes ao escapar da fazenda. Mais adiante na narrativa, revela-se que Mabel morreu durante sua escapada, mas, como seu corpo jamais foi encontrado, persiste o rumor de que teria alcançado a liberdade.

Inicialmente resistente à ideia da fuga, Cora vê sua determinação transformada após sofrer uma série de violências: é brutalmente atacada por três escravizados, castigada com açoites pelo capataz, forçada a viver no isolamento da habitação conhecida como “Hob” e, por fim, despojada do pequeno pedaço de terra que cultivava. Diante dessas adversidades, ela decide arriscar a perigosa e quase impossível jornada pela Ferrovia Subterrânea em direção aos estados livres, embarcando assim em uma trajetória marcada pelo perigo, pela resistência e pela busca por liberdade.

Nesse momento, a narrativa realista e histórica que domina grande parte do capítulo é abruptamente rompida com a introdução de uma Ferrovia Subterrânea literal, um trem real capaz de atravessar o subsolo da Geórgia e oferecer uma rota para a liberdade dos escravizados. Para Cora, não havia outra opção senão arriscar a fuga, mesmo ciente de que aqueles recapturados eram brutalmente assassinados como forma de desestimular novas tentativas. A execução pública de Anthony, queimado vivo diante de uma multidão, marca um ponto de virada na narrativa e transforma a escapada em uma obsessão para Cora, que se pergunta: “[s]erá que de fato eles operavam tão no interior da Geórgia?” e “[a]lém de seus próprios preparativos, como eles alertariam a ferrovia a tempo?” (Whitehead, 2017, p. 48). Finalmente, Lumbly os leva até a uma entrada secreta em seu celeiro e ao abrir o alçapão:

As escadas levavam a uma pequena plataforma. As bocas escuras do túnel gigante abriam-se em ambas as pontas. Devia ter uns seis metros de altura, paredes forradas por pedras escuras e claras, num padrão que se alternava. A engenhosidade que possibilitou tal projeto. Cora e Caesar avistaram os trilhos. Dois trilhos de aço percorriam toda extensão visível do túnel, presos ao chão por dormentes de madeira. O aço corria provavelmente para o sul e para o norte, brotando de uma fonte inconcebível e levando para um milagroso ponto final. Alguém fora cuidadoso a ponto de colocar um pequeno banco na plataforma. Cora se sentiu tonta e sentou. (Whitehead 2017, p. 61).

A estação subterrânea representa um feito extraordinário da engenharia, mas sua grandiosidade esconde uma realidade fundamental: foi o trabalho negro que a tornou possível. Caesar, maravilhado com a estrutura, questiona Lumbly sobre quem teria construído tamanha obra. Em resposta irônica, Lumbly diz: “Quem constrói tudo nesse país?” (Whitehead, 2017, p. 62). Sua afirmação expõe uma verdade histórica pois, embora a ferrovia subterrânea seja anacrônica e aparentemente impossível, sua existência reforça o papel essencial da força de trabalho afro-americana na construção das bases industriais do país.

Cora e Caesar, ao se depararem com a estação, mal conseguem conceber que um projeto dessa magnitude tenha sido realizado por mãos negras, tamanha a complexidade de sua execução. Como observa Matthew Dischinger, a ferrovia funciona como uma “alegoria nacional”, pois, “assim como a promessa dos Estados Unidos, ela é inconcebível em sua ambição, design e construção” (Dischinger, 2017, p. 89). No entanto, as “bocas negras” que deram forma à estação subterrânea foram, sem surpresa, erguidas pelo trabalho árduo de corpos negros, reforçando a contribuição invisibilizada da população escravizada para o progresso do país. Portanto, a partir desse momento, o romance abandona o realismo histórico das primeiras páginas e adentra o território da história alternativa, pois a materialização da ferrovia subterrânea como uma estrutura física torna-se o primeiro de vários anacronismos que se entrelaçam ao longo da narrativa, desafiando as convenções do romance histórico tradicional e ampliando as possibilidades interpretativas da obra.

Uma característica recorrente das novas narrativas de escravizados é justamente a transgressão das fronteiras dos gêneros literários enquanto promovem um revisionismo histórico sobre a escravidão do século XIX a partir de uma perspectiva contemporânea. Esse é o caso não apenas de Underground Railroad mas também de outros romances, tais como Flight to Canada (2013 [1976]), de Ishmael Reed, Kindred: laços de sangue (2019 [1979]), de Octavia Butler, Amada (2018 [1987]), de Toni Morrison, e, mais recentemente, A dança da água (2020), de Ta-nehisi Coates, e Let Us Descend (2024), de Jesmyn Ward. Todas essas obras apresentam narrativas híbridas que combinam descrições realistas da escravidão com elementos idiossincráticos que podem pertencer ao realismo mágico, à história alternativa ou à ficção fantástica. Esses elementos são usados não para obscurecer o relato histórico, mas sim destacar temas específicos relacionados ao racismo estrutural que aflige a sociedade americana até nosso presente histórico.

As novas narrativas de escravizados surgiram nos Estados Unidos na década de 1960, chamando a atenção de estudiosos como Bernard W. Bell (1987) e Ashraf H. A. Rushdy (1999), que debateram o uso do termo neo-slave narratives para designar o que lhes parecia ser um novo gênero literário. Bell foi o primeiro acadêmico a estudar esses textos e o responsável por cunhar o termo, optando por não utilizar o hífen. O estudioso caracterizou as novas narrativas de escravizados como releituras pós-modernas das antigas narrativas de escravizados,4 que dialogavam com a tradição literária ocidental ao mesmo tempo em que a desafiavam. Bell afirma que embora muitos escritores afro-americanos tenham adotado o pós-modernismo, o legado do racismo institucional, do sexismo e da falta de justiça social gerou uma relação ambivalente com a própria sociedade. Dessa forma, como Bell aponta, “a maioria dos romancistas afro-americanos modernos e pós-modernos, assim como seus predecessores do século XIX, não está inclinada a negligenciar questões morais e sociais em suas narrativas” (Bell, 1987, p. 284).5

Rushdy publicou aquela que é, até o momento, a obra mais relevante sobre as novas narrativas de escravizados, reconhecendo a importância da definição de Bell, de quem tomou emprestado o termo, mas com a adição de um hífen. De acordo com Rushdy, as novas narrativas de escravizados não devem ser analisadas exclusivamente dentro de um contexto pós-moderno, mas também à luz do ambiente sociopolítico dos anos 1960, período em que questões relacionadas à raça, identidade e representação ocupavam o centro do debate político nos Estados Unidos. Esse contexto criou um espaço propício para que escritores afro-americanos revisitassem criticamente a história da escravidão. Assim, os autores de novas narrativas de escravizados adotaram o que Rushdy denominou “intertextualidade política” (Rushdy, 1999, p. 4), ou seja, um discurso ideológico ancorado nos debates políticos dos anos 1960 que retomava o formato tradicional das narrativas de escravos do século XIX para tratar de questões contemporâneas. Para Rushdy, essa década constituiu a “lógica social” (Rushdy, 1999, p. 3) do gênero, pois marcou tanto seu surgimento quanto sua consolidação na esfera pública. Por fim, as novas narrativas de escravizados são obras contemporâneas que “assumem a forma, adotam as convenções e incorporam a voz em primeira pessoa da narrativa de escravizados do período anterior à Guerra Civil” (Rushdy, 1999, p. 3).

Mais recentemente, Valerie Smith (2007) ampliou a definição do gênero ao incluir uma variedade de romances contemporâneos que reexaminam a instituição da escravidão. Essas obras têm liberdade para não somente abandonar a voz da primeira pessoa, elemento imprescindível para todas as narrativas de escravizados oitocentistas, mas também “adotar diferentes estilos de escrita, que vão desde romances realistas baseados em pesquisas históricas até ficção especulativa, experimentos pós-modernos, sátiras e textos que combinam esses diversos modos” (Smith, 2007, p. 168). Apesar de suas particularidades, esses textos oferecem abordagens sobre a memória da escravidão que permanecem relevantes no contexto político e cultural atual. Além disso, Smith destacou o grau de autonomia que os escritores contemporâneos têm para criar novas narrativas de escravizados conforme sua visão, uma liberdade que seus predecessores, em sua maioria escravizados fugitivos, não tiveram ao compor as primeiras narrativas de escravizados. Por fim, autores contemporâneos escrevem a partir de uma perspectiva mais informada, pois são:

enriquecidos pelo estudo das narrativas de escravizados, pela historiografia em constante transformação sobre a escravidão, pela complexa história das relações raciais e de poder nos Estados Unidos e no mundo ao longo do século XX, bem como pelo surgimento da psicanálise e de outras abordagens teóricas. (Smith, 2007, p. 169).

A análise de Smith sugere que, enquanto os romancistas contemporâneos podem recorrer a diferentes formas narrativas, como a ficção especulativa e os experimentos pós-modernos, os escritores das primeiras narrativas de escravizados estavam mais restritos em suas escolhas, tanto devido a fatores sociopolíticos quanto à necessidade de atender às expectativas de autenticidade impostas por um público branco.

Essa distinção ressoa profundamente com o ensaio de Toni Morrison, The Site of Memory (1995), no qual ela examina a maneira como os primeiros escritores de narrativas de escravizados estruturaram suas autobiografias. Morrison argumenta que essas narrativas eram, muitas vezes, moldadas por convenções literárias e pressões externas, limitando a capacidade dos autores de expressar plenamente a interioridade e a subjetividade de suas experiências. Como consequência, muitos autores preferiram permanecer em silêncio sobre muitas coisas e “esquecer” muitas outras (Morrison, 1995, p. 91). Portanto:

Para mim - uma escritora no último quarto do século XX, pouco mais de cem anos após a Emancipação, uma escritora que é negra e mulher - o exercício é muito diferente. Meu trabalho passa a ser rasgar o véu lançado sobre “procedimentos demasiadamente terríveis para serem relatados.” Esse exercício também é fundamental para qualquer pessoa negra ou que pertença a qualquer categoria marginalizada, pois, historicamente, raramente fomos convidados a participar do discurso, mesmo quando éramos o próprio tema.

Ao se comprometer a “rasgar o véu”, Morrison propõe um projeto literário que se contrapõe a essa tradição de silenciamento. Seu objetivo é expor a brutalidade da experiência negra nos Estados Unidos de forma honesta e visceral, recusando a necessidade de acomodar seu discurso para um público que preferiria não enfrentar essas verdades. Esse ato de “rasgar o véu” não é apenas uma estratégia narrativa, mas também um gesto político, um compromisso com a memória, a justiça e a afirmação da subjetividade negra na literatura. Além disso, Morrison expande essa necessidade para além de si mesma, argumentando que o exercício de revelar verdades ocultas é crucial para todas as pessoas negras e outros grupos marginalizados. Historicamente, esses grupos foram frequentemente reduzidos a objetos de discurso, sem poder participar ativamente da construção de suas próprias narrativas. Assim, “rasgar o véu” também significa reivindicar a agência sobre a própria história e identidade, desafiando estruturas de poder que tentam definir e limitar a experiência dos marginalizados. Por fim, “rasgar o véu” significa trazer à tona as histórias que foram apagadas ou distorcidas e recusar-se a filtrar a brutalidade da história para o conforto de quem a lê. É um chamado para uma escrita política e denunciativa.

Nesse sentido, a reinterpretação da escravidão do século XIX feita por Whitehead segue uma abordagem bastante semelhante à de Morrison, pois no romance Whitehead expõe práticas pseudocientíficas que mascaravam a opressão racial sob o discurso de progresso e benevolência, evocando a necessidade de desvelar essas verdades ocultas — um processo semelhante ao que Morrison descreve como “rasgar o véu”. Assim como Morrison argumenta que a literatura negra precisa desafiar a memória seletiva da história americana, Whitehead emprega a ficção para revelar verdades que foram omitidas, esquecidas ou distorcidas. O capítulo “Carolina do Sul” desconstrói a ideia de que o racismo nos EUA sempre se manifestou de maneira explícita e violenta, mostrando que formas mais sutis de opressão, como a eugenia e a exploração médica, também desempenharam um papel crucial na desumanização dos negros.

A Carolina do Sul e o Programa da Sífilis

Ao chegarem à Carolina do Sul, Cora e Caesar são apresentados a Sam, o agente da segunda estação, um homem branco de 25 anos. Ele rapidamente lhes informa que, como fugitivos, suas identidades originais serão apagadas durante o tempo em que permanecerem ali, exigindo que abandonem seus nomes e histórias passadas pois “[p]recisam deixar seus nomes e suas histórias para a memória” (Whitehead, 2017, p. 38). A partir de então, passam a ser conhecidos como Bessie Carpenter e Christian Markson, ex-escravizados comprados pelo governo e agora considerados livres. Dessa forma, a Ferrovia Subterrânea não apenas os resgatou da Geórgia, mas também apagou suas identidades anteriores, forçando-os a assumir novas existências fictícias. Para Cora, esse processo adquire um significado ainda mais simbólico e irônico quando consegue um emprego em um museu, onde encena versões idealizadas e higienizadas da história americana como parte de uma exposição viva. Uma diferença marcante entre os capítulos “Geórgia” e “Carolina do Sul” está na construção da narrativa. Enquanto o primeiro é majoritariamente ancorado no realismo histórico, com a introdução da Ferrovia Subterrânea apenas ao final, o segundo se apresenta como pura história especulativa. Inicialmente, a Carolina do Sul parece o oposto da Geórgia devido ao seu caráter progressista. Um exemplo disso é o programa governamental de ressocialização para escravizados fugitivos e recém-chegados, que inclui até mesmo acesso à educação e a assistência médica gratuita.

Sam acredita sinceramente que deixou Cora e Caesar em um estado com uma postura muito mais progressista em relação ao avanço das pessoas negras do que o restante do Sul. Apesar da segregação visível, ele descreve a Carolina do Sul como um lugar singular, onde escravizados fugitivos “[r]ecebem comida, emprego e moradia. Vão e vem como quiserem, se casam com quem quiserem, criam filhos que nunca serão levados embora. Trabalho bom, também, não trabalho escravo” (Whitehead, 2017, p. 84). No entanto, à semelhança das narrativas distópicas, o estado parece bom demais para ser verdade, sugerindo que, por trás dos supostos avanços progressistas, se escondem perigos ainda desconhecidos.

Um dos requisitos impostos aos afro-americanos recém-chegados era a realização de exames médicos obrigatórios no hospital, sob a justificativa de prevenir doenças e garantir a manutenção da saúde. Cora é atendida pelo Dr. Stevens, seu segundo médico, que, após um exame minucioso, a questiona sobre a possibilidade de se submeter a um procedimento de esterilização. Com um tom tranquilo, ele discorre sobre os métodos contraceptivos, ressaltando seus benefícios e apresentando a esterilização como uma intervenção positiva. Segundo o Dr. Stevens:

A Carolina do Sul estava em meio a um grande programa de saúde pública...que tinha o objetivo de educar as pessoas sobre uma nova técnica cirúrgica na qual os tubos dentro da mulher eram cortados para evitar o desenvolvimento de um bebê. O procedimento era simples, permanente e não oferecia riscos. O novo hospital era especialmente equipado para isso... [e]nsinar a cirurgia para os médicos locais e oferecê-la à população de cor era parte da razão pela qual fora contratado. (Whitehead, 2017, p. 101).

Cora responde que não está interessada na oferta do médico. No entanto, com sua postura acolhedora, ele acrescenta que, “[a] escolha é sua, claro”, mas, infelizmente, “[h]oje em dia, é obrigatória para alguns no estado. Mulheres de cor que já tenham dado à luz mais de duas crianças, em nome do controle populacional” (Whitehead, 2017, p. 101). Cora sai rapidamente do hospital, ofegante. Ela não conseguia compreender a pressão e a franqueza das perguntas, nem as explicações científicas e tranquilas do médico. Além disso, havia a questão da obrigatoriedade, que “soava como se as mulheres, essas mulheres da Hob de diferentes rostos, não tivessem escolha. Como se fossem propriedades de que os médicos podiam dispor como bem entendessem” (Whitehead, 2017, p. 102). Ela se pergunta se o médico ofereceria a mesma cirurgia a seus empregadores, os Andersons. Afinal, a sra. Anderson “sofria de humor inconstante. Isso fazia dela incapaz? O médico dela havia lhe feito a mesma proposta? Não”. (Whitehead, 2017, p. 102). Na realidade, o Dr. Stevens fazia parte de um programa de saúde racista do governo, que impunha a esterilização compulsória de mulheres afro-americanas como um meio de, secretamente, reduzir o número de indivíduos de ascendência africana.

Além disso, por meio de Sam, o casal toma conhecimento de outro plano perverso do governo: enquanto as mulheres afro-americanas eram forçadas a se submeter à esterilização, os homens negros eram enganados a acreditar que estavam recebendo cuidados médicos gratuitos para doenças do sangue. Na realidade, eles eram utilizados como cobaias em pesquisas conduzidas por médicos para o estudo da evolução da sífilis. Esse esquema ficou conhecido como o “programa da sífilis”. Sam obteve detalhes sobre esse programa por intermédio do Dr. Bertram, um recém-contratado do hospital que lhe revelou as informações. A ideia por trás do programa era ir além da mera pesquisa sobre a cura da doença, utilizando a comunidade negra para também esterilizar o maior número possível de afro-americanos porque:

A América havia importado e criado tantos africanos que em muitos estados havia mais deles do que brancos. Apenas por essa razão, a emancipação é impossível. Com a esterilização estratégica — primeiro das mulheres, mas, com o tempo, de ambos os sexos —, poderíamos libertá-los da servidão sem medo de que nos matassem enquanto dormimos. (Whitehead, 2017, p. 109).

A revelação mais marcante dessas passagens não reside apenas em seu conteúdo racista, mas, sobretudo, em suas referências diretas ao infame Experimento da Sífilis de Tuskegee, um dos episódios mais vergonhosos da medicina racista nos Estados Unidos.

O experimento começou em 1932 durante a Grande Depressão, como um estudo conduzido pelo United States Public Health Service (USPHS) em parceria com o Tuskegee Institute, uma instituição de ensino voltada para a população negra no Alabama. Para isso, 600 homens afro-americanos pobres foram recrutados, 399 com sífilis e 201 sem a doença, sob a falsa promessa de que receberiam assistência médica gratuita. No entanto, os participantes nunca foram informados sobre seu real diagnóstico nem receberam tratamento adequado, mesmo após a descoberta da penicilina como cura eficaz para a sífilis em 1943. Como destaca Susan Reverby (2009, p. 2), “o experimento não se limitou a um curto período — ele se estendeu por quarenta anos, atravessando a Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e a era dos direitos civis, sustentado pela conivência de administradores, médicos e enfermeiras”. Embora haja uma vasta literatura acadêmica sobre o Experimento da Sífilis de Tuskegee, o evento continua pouco representado na mídia e amplamente esquecido pelos americanos. Ao recuperar esse episódio sombrio e situá-lo no contexto da escravidão, Whitehead revela como a longa trajetória de opressão e racismo nos Estados Unidos está profundamente entrelaçada com sua adesão à eugenia. Em outras palavras, os princípios ideológicos que antes sustentavam a escravidão no período pré-Guerra Civil foram reciclados décadas depois com o avanço de pseudociências como a eugenia e Tuskegee serve como uma evidência inegável de como esses mesmos princípios racistas foram novamente instrumentalizados para justificar a exploração do corpo negro, agora não mais pela escravidão tradicional, mas por meio de experimentos médicos desumanos.

Ao saber sobre o programa da sífilis na Carolina do Sul, Cora percebe que uma estratégia racista estava em andamento, visando a eliminação secreta da população negra. Esse plano envolvia “não apenas os médicos, mas todos que cuidavam da população de cor... Todos aqueles brancos trabalhando juntos, registrando as histórias e descrições deles em papel azul” (Whitehead, 2017, p. 110). Cora também relembra um encontro estranho com a Srta. Lucy, uma supervisora local, logo após sua conversa com o Dr. Stevens. A mulher parecia ansiosa para saber se Cora havia refletido sobre “o programa de controle de natalidade do hospital” e sugeriu que “talvez Cora pudesse conversar com as outras moças a respeito, em palavras que elas pudessem entender” (Whitehead, 2017, p. 110). A Srta. Lucy reforça que ficaria muito satisfeita se Cora colaborasse com essa causa e destaca que, “para as pessoas que tivessem provado seu valor”, como Cora, “todo tipo de vagas novas” e “oportunidades” estavam constantemente surgindo na cidade (Whitehead, 2017, p. 110). Essa lembrança a faz recordar da mulher que gritava nas ruas levada aos dormitórios e desaparecida depois de clamar desesperadamente: “Estão levando embora meus bebês!” (Whitehead, 2017, p. 110). Cora finalmente percebe que “[a] mulher não estava se lamentando a respeito de alguma velha injustiça da fazenda, mas por um crime perpetrado ali na Carolina do Sul. Os médicos estavam roubando seus bebês, não seus antigos senhores” (Whitehead, 2017, p. 110). Caesar, por sua vez, recorda-se dos médicos perguntando de que parte da África seus pais eram, comentando que ele “tinha o nariz de um beninense”. A resposta mordaz de Sam sintetiza a situação: “Nada como a bajulação antes de castrar um sujeito” (Whitehead, 2017, p. 111).

A Eugenia e o Movimento Progressista

A eugenia,6 amplamente aceita nos Estados Unidos entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, foi frequentemente articulada como uma ferramenta de aprimoramento social dentro do discurso progressista. De acordo com Linda L. McCabe e Edward R. B. McCabe (2011, p. 193):

As primeiras décadas do século XX, período em que a eugenia prosperou nos Estados Unidos, foram turbulentas social, econômica e politicamente. Uma resposta a essa turbulência foi o Progressismo, que adotou uma abordagem científica para o planejamento e a gestão, envolvendo especialistas e gestores para lidar com mudanças rápidas e melhorar a eficiência, inicialmente no setor industrial e, posteriormente, no governo. Essas características exerceram grande atração sobre os defensores da eugenia, que argumentavam que a ciência poderia ser utilizada para melhorar os resultados genéticos e que um gerenciamento cuidadoso da reprodução humana seria economicamente mais eficiente para a sociedade.

Segundo os autores o Progressismo,7 ao valorizar a ciência como instrumento de planejamento e eficiência, inadvertidamente forneceu uma base ideológica para práticas eugênicas. A ideia de que a ciência poderia ser aplicada à reprodução humana para otimizar resultados genéticos demonstra a influência do pensamento tecnocrático da época, que via a intervenção científica como uma solução para os desafios sociais. Além disso, o argumento econômico, que apresenta a eugenia como um meio de tornar a sociedade mais eficiente, reflete uma visão utilitarista que desconsidera as implicações éticas e morais dessas políticas. A associação entre eugenia e Progressismo também sugere uma contradição fundamental dentro do movimento progressista que buscava promover justiça social e bem-estar, porém ele também acolhia práticas excludentes e coercitivas, especialmente contra grupos marginalizados. Essa ambiguidade revela como ideais de progresso podem ser moldadas por preconceitos da época e utilizados para justificar políticas de exclusão.

Essa contradição ideológica está presente na representação da Carolina do Sul em The Underground Railroad. No romance, o estado se apresenta como um modelo de progresso racial, promovendo acesso à educação e ao trabalho para os escravizados fugitivos. No entanto, essa inclusão ocorre sob condições impostas por uma ideologia racial higienista. Como revelado no romance, a pretensa benevolência do estado mascara políticas de esterilização compulsória e experimentação médica, mecanismos de controle populacional similares aos que McCabe e McCabe descrevem em relação ao movimento eugenista do século XX.

A possível existência dessas práticas eugênicas no século XXI é discutida por Garland Allen (2001, p. 61), que aponta como a justificativa econômica para a eugenia do início do século XX ressurge na atualidade sob a forma de políticas de saúde que determinam quem é “caro demais” para ser mantido. Segundo Allen (2001, p. 61):

À medida que os custos com saúde disparam, estamos começando a aceitar uma análise custo-benefício da vida humana. Essa mentalidade tem sérias implicações para as decisões reprodutivas. Se uma organização de manutenção da saúde (HMO) exige exames intrauterinos e se recusa a cobrir o nascimento ou os cuidados de uma criança supostamente “defeituosa”, quão próximo isso está da eugenia?…Se eugenia significa tomar decisões reprodutivas principalmente com base no custo social, então já estamos bem encaminhados nessa direção.

Essa preocupação ressoa diretamente na narrativa de Whitehead, pois a Carolina do Sul fictícia trata a população negra não como cidadãos plenos, mas como um grupo cujo crescimento precisa ser regulado pelo estado. Ao inserir esses elementos no romance, Whitehead alerta para a continuidade da lógica eugenista sob novas roupagens. Portanto, a representação distópica da Carolina do Sul não apenas revisita a eugenia, mas também convida os leitores a refletirem sobre a possibilidade de que esse passado racista possa se repetir hoje especialmente quando argumentos genéticos são utilizados para justificar cortes em áreas como saúde, emprego, seguros e outros benefícios. Além disso, é fundamental reconhecer que determinados grupos, especialmente minorias, podem ser alvos de modificações genéticas. Em outras palavras, a eugenia está intrinsecamente ligada ao racismo.

Recentemente, denúncias de esterilizações forçadas em um centro de detenção para imigrantes ilegais na Geórgia reacenderam o debate sobre a longa história da eugenia nos EUA. Conforme observa Maya Finoh (2020), esse episódio evidencia a permanência dessas questões na sociedade americana contemporânea:

Dentro do contexto do sistema jurídico criminal, a esterilização forçada em troca de uma redução de sentença continua sendo comum. Em novembro de 2017, uma mulher de Oklahoma chamada Summer Thyme Creel foi incentivada por um juiz a se submeter à esterilização. Summer foi acusada de usar um cheque falso e realizou o procedimento a pedido do juiz distrital dos EUA, Stephen Friot, que disse que consideraria isso como um fator durante sua sentença. Também em 2017, um juiz do Tennessee tentou implementar uma política coercitiva de esterilização para pessoas encarceradas, oferecendo uma redução de 30 dias na sentença caso elas se submetessem ao implante anticoncepcional Nexplanon ou a uma vasectomia. Além disso, há evidências substanciais de pessoas encarceradas recebendo procedimentos ilegais de esterilização nas prisões nas últimas duas décadas: um Centro de Reportagens Investigativas revelou em 2013 que quase 150 mulheres encarceradas nas prisões estaduais da Califórnia foram esterilizadas sem as aprovações e/ou consentimento exigidos pelo estado entre 2006 e 2010.

A questão das esterilizações forçadas em centros de detenção exige investigações profundas. Steven Moore (2020) também destaca o viés presente nessas decisões, frequentemente tomadas por juízes, que tendem a atingir mais os afro-americanos do que os brancos. A análise de Moore revela que “[a]queles que defendem tais esterilizações não necessariamente consideram os procedimentos como cruéis ou violentos; nem sentem necessariamente animosidade em relação ao grupo que estão visando”.

No entanto, é evidente que as esterilizações forçadas no sistema de justiça criminal destacam como a coercitividade e o racismo continuam presentes, com decisões judiciais que visam principalmente a população negra. A comparação com as práticas contemporâneas, como o caso de Summer Thyme Creel, uma mulher encorajada por um juiz a se submeter à esterilização em troca de uma redução de sentença, serve para destacar a continuidade dessas práticas ao longo do tempo. Em The Underground Railroad, Whitehead coloca essas questões sob um microscópio social, no qual o racismo não é uma questão isolada, mas uma ferramenta profundamente enraizada no poder e nas estruturas sociais. A linha tênue entre boas intenções e puro racismo é exatamente o ponto que Whitehead destaca em sua ficção. Ele nos leva a questionar até que ponto as ações que parecem ter intenções benéficas ou neutras não são, na verdade, motivadas por ideologias eugênicas que buscam controlar e, muitas vezes, eliminar certos grupos. No romance, a tentativa de “purificar” a sociedade através do controle reprodutivo e da esterilização de indivíduos considerados “indesejáveis” faz parte de uma ideologia mais ampla de defesa da sociedade branca que se vê ameaçada pelos afro-americanos. Whitehead faz uma crítica não só ao passado, mas à maneira como essas questões continuam a se manifestar no presente, levando o leitor a refletir sobre as implicações do controle reprodutivo e da discriminação racial atualmente.

A Importância das Novas Narrativas de Escravizados

Ao escolher representar a escravidão por meio do gênero das novas narrativas de escravizados, Whitehead cria uma narrativa histórica alternativa que, em última instância, oferece um panorama fictício das várias formas pelas quais o racismo poderia ser manifestado no país, variando das mais sutis às mais gráficas descrições de violência e abuso. A última pode ser vista não apenas no primeiro capítulo, mas também na seção sobre a Carolina do Norte; um estado que obriga Cora a se esconder no porão de uma família branca, de onde ela observa, através de uma pequena janela, linchamentos públicos todas as sextas-feiras à noite.8 Segundo Whitehead, “A Carolina do Norte não cria uma fachada falsa sobre suas verdadeiras intenções”, como fez a Carolina do Sul, portanto, “para resolver o problema da escravidão, eles tornaram criminosas todas as pessoas negras” (Gill, 2019). O foco deste estudo, no entanto, não estava nos muitos exemplos explícitos de brutalidade racista, mas nas formas mais sutis de racismo que se apresentam como progressivas.

Dessa forma, The Underground Railroad impacta seus leitores em dois níveis, pois ao mesmo tempo em que os confronta com um passado racista muitas vezes negligenciado, revisitando a eugenia, também os alerta para as maneiras pelas quais esse mesmo passado pode ser reproduzido no presente. Esse é o ato de “rasgar o véu” que Whitehead busca em sua narrativa: a questão central não é meramente especular sobre como a eugenia do século XX poderia ter sido aplicada na Carolina do Sul pré-Guerra Civil, mas reconhecer que suas premissas continuam a se manifestar no século XXI. Por meio de referências diretas, o romance explicita a relação profunda entre eugenia e escravidão, levando o leitor a refletir sobre práticas médicas racistas que não apenas foram implementadas no passado, mas também sustentaram políticas institucionais ao longo da história americana, desde a abolição da escravidão até o movimento dos direitos civis e além. Em última instância, Whitehead não altera os fatos históricos, mas os reorganiza estrategicamente, primeiro provocando um impacto de choque e, depois, instaurando um sentimento de desconforto e vergonha, à medida que resgata eventos históricos perturbadores que muitos americanos prefeririam esquecer.

Além disso, embora Cora acredite que todos os brancos faziam parte de uma conspiração contra a população negra, o romance não deixa claro até que ponto essa crença corresponde à realidade. Em outras palavras, é possível que os reformistas brancos na Carolina do Sul realmente acreditassem que não eram racistas e que, na verdade, estivessem combatendo o racismo por meio de políticas sociais voltadas para a promoção racial. Dessa forma, se partirmos do pressuposto de que o Dr. Stevens e a Srta. Lucy não tinham consciência de que eram agentes ativos na perpetuação do racismo, The Underground Railroad acaba abordando uma questão mais complexa, ou seja, o racismo em nível individual e as suposições que as pessoas fazem ao acreditar que não são racistas, mesmo quando reproduzem práticas racistas. Nesse sentido, Whitehead nos alerta que a ideia de progresso racial pode envolver formas mais sutis e sofisticadas de racismo, que são difíceis de identificar tanto nos níveis coletivos quanto no nível individual. Mais importante ainda, a questão central que permanece é: até que ponto políticas progressistas podem ser racistas? Como bem observado por Dana Brownlee (2020):

Um dos desafios desta luta por justiça racial em 2020 é que o racismo hoje parece tão diferente. A verdade é que aquele racismo explícito de décadas atrás, com capuzes e insultos raciais, não está mais na linha de frente. Em vez disso, foi substituído por uma forma muito mais sutil e menos consciente de racismo, que é mais difusa e maligna, embora discreta.

Brownlee aponta para um problema crítico da luta racial contemporânea ao apontar que o racismo agora se apresenta de maneiras não facilmente reconhecidas, e, portanto, mais difíceis de combater. Ao mesmo tempo, essa mudança no formato do racismo exige uma reavaliação das formas tradicionais de enfrentá-lo, já que as respostas do passado podem não ser eficazes para lidar com o racismo do presente. A ênfase na sutileza e na falta de consciência destaca um desafio importante na luta pela justiça racial, que envolve não apenas a identificação do racismo explícito, mas também o enfrentamento de formas mais insidiosas e embutidas nas normas e estruturas sociais.

Embora a afirmação de Brownlee possa parecer controversa à luz de muitos episódios de brutalidade policial, bem como do surgimento de grandes protestos por todo o país contra o uso da violência contra os afro-americanos, sendo o Black Lives Matter seu exemplo mais bem-sucedido, suas preocupações se baseiam em como o racismo está presente nos locais de trabalho e é reproduzido por pessoas que se veem como cidadãos progressistas e, consequentemente, não racistas. Da mesma forma, a história alternativa de Whitehead é também direcionada àqueles que podem se surpreender não apenas ao perceber que a eugenia, semelhante à dos nazistas, foi altamente popular em seu país, mas também ao se verem como ativos ou passivos na reprodução dessas ideias racistas. Em última análise, o romance nos convida a desmontar todos os tipos de atitudes racistas, mesmo que tenhamos que olhar para nós mesmos para enfrentar o racismo enraizado.

Referências

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  • WHITEHEAD, Colson. O reformatório Nickel Tradução de Rogério Galindo. São Paulo: HarperCollins Brasil, 2019.
  • 1
  • 2
    Entre os vários prêmios recebidos pela minissérie em 2022 destaco o Golden Globe, o BAFTA e o American Society of Cinematographers.
  • 3
    Com exceção das citações diretas ao livro de Colson Whitehead, traduzidas por Caroline Chang, todas as demais citações são traduções nossas.
  • 4
    Em 2022, foi publicada no Brasil A interessante narrativa da vida de Olaudah Equiano, ou Gustavus Vassa, o Africano, escrita por ele mesmo (2022 [1789]), considerada uma das mais importantes narrativas de escravizados, ao lado das obras de Frederick Douglass e Harriet Jacobs.
  • 5
    Bell considera que Jubilee (1966) de Margaret Walker e The Autobiography of Miss Jane Pittman (2012 [1971]) de Ernest J. Gaines, foram, respectivamente, o primeiro e o segundo grandes romances do gênero novas narrativas de escravizados publicados nos EUA, ao apresentar uma narrativa que era “residualmente oral” e usava elementos do folclore africano para descrever a situação dos afro-americanos durante sua fuga da escravidão para a liberdade (Bell, 1987, p. 289).
  • 6
    Eugenistas americanos, como Charles Davenport, que foi o diretor fundador do Cold Spring Harbor Laboratory em 1904 e do Eugenics Record Office em 1910, concentraram-se em eliminar, por meio da esterilização, características indesejáveis encontradas principalmente “em populações pobres, não educadas e minoritárias” como uma forma de reduzir sua proliferação. O movimento perdeu popularidade na década de 1940 devido à sua associação com a Alemanha nazista, especialmente depois que Hitler “admitiu com orgulho seguir as leis de vários estados americanos que permitiam a prevenção da reprodução dos ‘inaptos’” (Bouche, 2014).
  • 7
    Segundo Walter Nugent (2010, p. 1), o progressismo foi “um movimento de reforma multifacetado que surgiu nos últimos anos do século XIX, alcançou seu auge entre 1900 e 1920 e começou a desaparecer no início da década de 1920”. Seu objetivo era enfrentar “problemas que haviam se enraizado e se espalhado devido à economia capitalista não regulamentada que se desenvolveu após o fim da Guerra Civil em 1865” e, nesse sentido, “representou um dos períodos mais longos da história americana em que reformas sociais foram amplamente aceitas” (Nugent, 2010, p. 2).
  • 8
    No capítulo “Carolina do Norte”, Whitehead faz referência à clássica narrativa de escravizados de Harriet Jacobs (2021) intitulada Incidentes na vida de uma menina escrava: escrito por ela mesma publicada originalmente em 1861. No livro, Harriet Jacobs relata que ficou escondida por sete anos em um pequeno espaço no sótão da casa de sua avó, Martha. Esse espaço era apertado, escuro e insalubre. Jacobs se escondeu ali para fugir do assédio sexual de seu senhor, Dr. Flint, e para evitar ser capturada e vendida como escrava. Durante esse período, ela mal podia se mover, sofria com o calor no verão e o frio no inverno, e enfrentava problemas de saúde devido às condições precárias. Apesar disso, ela conseguiu observar o mundo exterior através de uma pequena abertura e manteve contato com sua família, especialmente seus filhos, que estavam sob os cuidados de sua avó. Esse episódio é um dos mais marcantes da narrativa, pois ilustra a resistência e a determinação de Jacobs em buscar liberdade e proteger sua dignidade, mesmo em condições extremamente adversas.
  • Declaração de disponibilidade de dados da pesquisa
    Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editora-Chefe:
    Cássia Maria Bezerra do Nascimento
  • Editor Executivo:
    Gerson Roberto Neumann
  • Editores Associados:
    Adriana Cristina Aguiar Rodrigues, Anderson Bastos Martins, Germana Henriques Pereira

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Ago 2025
  • Aceito
    22 Out 2025
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