A obra de Machado de Assis ocupa um lugar central na literatura brasileira, sendo objeto de inúmeros estudos literários, filosóficos e psicanalíticos. Adelmo Marcos Rossi, em seu livro O Imortal Machado de Assis: autor de si mesmo, propõe uma leitura inovadora do autor ao explorar o narcisismo como elemento fundamental em sua obra. Este texto visa resenhar e analisar a abordagem de Rossi, destacando suas principais contribuições para a compreensão da psicologia filosófico-literária machadiana.
Adelmo Marcos Rossi, engenheiro civil e psicólogo com mestrados em Ciência de Sistemas e Filosofia, é um pesquisador independente que investiga a relação entre subjetividade e realidade na psicanálise, na filosofia e na literatura, com especial interesse pelo narcisismo. Autor de A cruel filosofia do narcisismo (CRV, 2021), Rossi debruça-se mais uma vez sobre o tema. Seu novo livro, O Imortal Machado de Assis, reivindica originalidade e ineditismo ao dividir a obra machadiana em três fases conceituais e apresentar um paralelo entre a “psicologia filosófico-literária” do escritor brasileiro e a psicanálise filosófica de Sigmund Freud. Sua hipótese de leitura é que o narcisismo é o fundamento da obra machadiana.
O Imortal Machado de Assis não se fixa, no entanto, no diálogo direto entre o escritor brasileiro e o psicanalista austríaco, deixando esse caminho aberto pelo livro para futuros pesquisadores. Rossi cruza diversos gêneros produzidos por Machado de Assis e explora a intertextualidade com vários autores, antigos e modernos. Ele percorre desde a crônica até o romance, passando pela leitura de contos, poemas e crítica literária, rastreando o narcisismo como motivo condutor da escrita machadiana.
A contrapelo do conjunto de estudos, análises, críticas e interpretações acumuladas ao longo do tempo sobre os autores e o tema, Rossi almeja que seu livro seja acessível ao leitor comum, ou seja, qualquer pessoa com ensino médio. Para isso, prescinde das citações e referências conforme as normas da ABNT e das regras de formatação para trabalhos acadêmicos.
Narcisismo como fundamento na obra de Machado de Assis
Quando Machado de Assis iniciou sua vida profissional, os estudos de psicologia estavam em voga, de modo que, aos críticos da época, seguindo o paradigma da técnica do romance psicológico, cabia verificar se as narrativas apresentavam uma psicologia verossímil aos acontecimentos e o esboço contrastivo dos caracteres dos personagens (Martins, 2018). Segundo o mesmo autor, foi nessa perspectiva que Machado escreveu seu primeiro romance, Ressurreição, protagonizado por Félix, personagem “mais melancólico do que cético, voltado antes à observação narcisista de suas desilusões” (Bernardo, 2007, p. 175).
Apesar das críticas, Machado de Assis, como aponta Rossi, já havia evidenciado, aos 23 anos, em uma carta de 1862 a Quintino, que o próprio autor antecipava o que mais tarde seria discutido pelos críticos:
[...] o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento prático das condições do gênero - eis uma ambição própria de ânimo juvenil, e que eu tenho a imodéstia de confessar. E, tão certo estou da magnitude da conquista, que me não dissimulo o longo estádio que há percorrer para alcançá-la. (Assis, 2008 apudRossi, 2024, p. 10).
Na extensa e multidisciplinar fortuna crítica de Machado de Assis, desde o fim do século XIX, Sílvio Romero (1897) e outros críticos (Guimarães, 2004) têm avaliado que os romances e contos do autor estariam vinculados a conceitos e temas psicológicos, filosóficos e científicos, ora atribuindo tal característica ao escritor, ora aos narradores. Para citar apenas alguns exemplos, de suas primeiras peças de teatro, dizia-se que não primavam pela forma artística, apesar do “alcance psicológico” (Martins, 2018, p. 169); um texto anônimo na Ilustração Brasileira, em 1876, elogiou o recém-lançado Helena como “um estudo psicológico do melhor quilate” (Guimarães, 2004, p. 115); Urbano Duarte, em maio de 1878, noticiou a publicação de Iaiá Garcia sem entusiasmo, mas elogiou a presença no livro de “alguns estudos interessantes de psicologia” (apudGuimarães, 2004, p. 129).
Exemplar é a interpretação de Sílvio Romero, quando afirmou “que os melhores trechos de seus livros são aqueles em que revela as qualidades de observador de costumes e de psicologista” (Romero, 1897, p. 331). Todavia, com sua “espécie de positivismo psicológico, que privilegia a interpretação causal entre vida e estilo” (Martins, 2017, p. 36), o crítico lamentou que “não possuímos ainda um scientista original” (Romero, 1897, p. 342) e reclamou que Machado, afetado pela “moléstia do século” (p. 104), “se mette a philosopho pessimista” (p. 347). Desde então, “os ataques surgiram de todos os lados” (Massa, 2009, p. 21).
Em uma vertente específica da fortuna crítica, Machado de Assis foi citado inúmeras vezes por psiquiatras, psicólogos e psicanalistas que interpretaram fenômenos artísticos sob o ponto de vista da psicopatologia, em estudos clínicos interessados na investigação das relações entre arte e loucura (Lima, 2009). Um dos pioneiros é Américo Valerio, que lançou Machado de Assis e a Psicanálise (1930), seguindo uma psicobiografia pseudocientífica para argumentar que o escritor, numa aproximação entre gênio e loucura, com um “senso psicológico freudiano”, seria “o avô do freudismo em nossa pátria” (Lima, 2009, p. 647). Apesar das fragilidades do livro, “superficial, confuso e, por vezes, quase cômico para um leitor atual” (Lima, 2009, p. 647), atualmente muitos pesquisadores concordam que há vários pontos de convergência entre Freud, Lacan e Machado, que antecipou em seus textos alguns conceitos psicanalíticos (Oliveira, 2016; Dunker, 2018). Por outro lado, o escritor é considerado autor da “primeira contribuição brasileira à antipsiquiatria” (Trotto, 1991, n. p.). Nesse debate, o psicólogo Adelmo Marcos Rossi oferece sua nova contribuição, mostrando que o escritor brasileiro antecipou muitos dos conceitos desenvolvidos posteriormente por Freud e Lacan.
A profunda interconexão entre literatura e psicanálise: o narcisismo e a vaidade na obra de Machado de Assis
O Imortal Machado de Assis é resultado de trabalhos e discussões ocorridas desde 2017 no Grupo de Pesquisa do Narcisismo, palavra-chave do livro. Rossi destaca a maestria de Machado de Assis no uso da linguagem e sua profunda compreensão da psique humana, identificando na obra machadiana uma profunda compreensão do narcisismo, da vaidade humana, da transferência, da castração, do recalque e da cura pela palavra, conceitos que são centrais na psicanálise.
O livro inicia com três seções que introduzem os conceitos fundamentais e segue com 24 capítulos, organizados de maneira que o leitor possa acompanhar a progressão da análise de Rossi. Essa estrutura permite um aprofundamento gradual na compreensão dos diversos temas que Rossi identifica na obra de Machado de Assis, abrangendo romances, contos, crônicas, poemas e correspondências. Ao longo da análise, Rossi destaca a capacidade de Machado em manipular a linguagem para criar uma literatura reflexiva que interliga literatura e psicanálise, antecipando conceitos que Freud viria a desenvolver posteriormente.
Rossi informa que estudando Machado começou a reparar certos vocábulos, a iniciar por Caiporismo, que se repetia, e constatou que Machado dedicou dois contos a esse tema, “Rei dos caiporas” (1870) e “Último capítulo” (1883), notou também que o mesmo acontecia com Petalogia, Rubicon e Lanterna de Diógenes, em uma repetição sistemática. Considerando que “aquilo que se repete aponta um fundamento conceitual” (Rossi, 2024, p. 53), o autor organizou o livro reunindo esses conceitos separadamente em capítulos.
O primeiro conceito, vaidade, foi objeto do livro anterior de Rossi, A Cruel Filosofia do Narcisismo: uma interpretação do sonho de Freud (2021). Nesse livro, o autor mostra que Freud veio a descobrir o narcisismo tardiamente, em 1914, aos 58 anos de idade, como produto de sua relação com Jung, e veio a publicá-lo como um conceito central da psicanálise. O livro dialoga com vários autores, como Platão e Machado de Assis, e inclui o capítulo “Filosofia do Humanitismo”. A partir daí, Rossi se interessou pelo estudo da obra de Machado, vindo a descobrir que o conceito de narcisismo (ou vaidade) teria sido o fundamento da obra machadiana. Ou seja, foi pelo narcisismo que um livro levou ao outro.
Em O Imortal Machado de Assis, o foco é a análise da “vaidade”. Rossi mostra como a vaidade, ou o amor por si mesmo, é o fundamento do agir humano, manifestando-se de diversas formas na obra machadiana e se escamoteando na maioria das falas e diálogos dos personagens. Há uma frase do Eclesiastes que porventura seja a mais frequentemente convidada a participar da prosa machadiana: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Rossi dispensa um capítulo sobre a intertextualidade com o livro bíblico preferido do escritor, pois o tema já foi bastante abordado pela fortuna crítica (Cei, 2016, p. 87-93). Não obstante, vale lembrar que Machado faz mais de uma centena de referências à Bíblia, cuja edição encontrada em sua biblioteca era uma versão da Vulgata, traduzida pelo português António Pereira de Figueiredo e publicada em 1866. Dentre os livros bíblicos, o preferido do escritor é aquele que tende a mostrar que as opiniões, planos e empreitadas dos homens são todos em vão e estéreis, e “tem resposta para tudo” (Assis, 2015, p. 1116).
Machado de Assis (no início) e Freud (tardiamente) convergiram na análise da vaidade ou narcisismo. Enquanto Freud, como médico, no desespero por salvar vidas de pacientes a ele encaminhados, tomou como ponto de partida os sintomas neuróticos, vindo a se deparar, de modo invertido, em 1914, que estes decorrem do narcisismo, Machado tomou como ponto de partida o próprio narcisismo e desenvolveu uma espécie de psicanálise literária. Ele explorou temas psicológicos, ficcionalizando a vaidade e o narcisismo como elementos fundamentais das relações humanas em suas obras.
Rossi argumenta que Machado de Assis, mesmo sem formação médica ou psicológica, tomou a capacidade humana de se exibir na linguagem como fundamento prévio, tanto para uso pessoal quanto para uma análise do relacionamento humano por meio de personagens. Assim, conseguiu captar e representar as complexidades da mente humana de forma similar a Freud, antecipando o fundador da psicanálise na abordagem de sintomas neuróticos decorrentes do narcisismo.
A interpretação de Rossi sobre o narcisismo converge com a de Dunker, para quem Machado de Assis e Freud abordam o sujeito tragicamente dividido entre suas aspirações desmedidas e o fracasso de suas realizações, com base na hipótese da divisão primária e da perda da experiência de si como unidade autoconsciente. Narradores como Brás Cubas e Bento Santiago têm esse déficit narcísico em suas narrativas de sofrimento, um narcisismo sem futuro que faz parte da crítica machadiana à elite de sua época (Dunker, 2018, p. 130-131).
O livro de Rossi segue tratando dos seguintes temas: vaidade, petalogia, chiste, caiporismo, travessia do Rubicão, castração, lanterna de Diógenes, amor de transferência, emulação, imortalidade, originalidade, cura pela palavra, espelho, realismo psicológico, oculto, o inconsciente, dentre outros.
No primeiro capítulo, “Analítica da Vaidade”, Rossi explora a vaidade como um elemento central na obra de Machado de Assis, ilustrando como o escritor a utilizava para desenvolver personagens complexos e realistas: “Vanitas vanitatis et omnia vanitas!... a vaidade humana não tem limites”, como diz o conhecido versículo 2 do capítulo 1 do Eclesiastes, citado por Rossi (2024, p. 19). “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” é a frase bíblica mais frequentemente convidada a participar da prosa machadiana. Nesse sentido, o pesquisador detalha a forma como Machado utiliza a vaidade como um motor para as ações e decisões de seus personagens. Assim, mostra que Machado não via a vaidade apenas como um defeito, mas como uma característica humana que podia ser tanto destrutiva quanto produtiva, dependendo do contexto em que se manifestava.
No segundo capítulo, “Sociedade Petalógica”, o autor investiga a origem da Petalogia no grupo que se reunia na livraria de Francisco de Paula Brito, no Rio de Janeiro, com o objetivo de semear um debate público cético e galhofeiro, visando “contrariar os mentirosos, mentindo-lhes”, conforme o mote da agremiação satírica, ou “corrigir os costumes rindo” (Rossi, 2024, p. 39). Avaliando como essa experiência influenciou a escrita e a visão crítica machadiana, Rossi argumenta que, nesse ambiente, Machado encontrou a liberdade para experimentar a sátira e o humor como ferramentas que viria a utilizar em sua obra madura. Esse capítulo oferece um panorama das atividades da sociedade e analisa como as experiências de Machado se refletiram em suas obras posteriores, especialmente na forma como ele criticava e ironizava os costumes da época, antecipando Freud, que posteriormente, em O chiste e suas relações com o inconsciente (1905), teorizou que o chiste seria um alívio para os sintomas.
O terceiro capítulo, “O Rei dos Caiporas”, analisa a relação de Machado de Assis com a superstição e o realismo psicológico, destacando como esses elementos aparecem em suas obras e contribuem para a profundidade de seus personagens. Nesse capítulo, o autor mostra que o caiporismo teve origem na peça “Quem tem boca vai a Roma” (1857), de Joaquim Serra, reprovada por dois censores, que puniram Serra por ter atravessado o Rubicon ao desafiar a igreja. O vocábulo aparece na Semana Ilustrada (1863) e passa a ser utilizado por Machado a partir de 1870 em “Rei dos caiporas”. Machado utilizou-o para descrever eventos inesperados e supersticiosos que afetavam seus personagens.
Rossi argumenta que esses acontecimentos imprevistos refletem na psicologia e nas motivações internas dos personagens, criando um realismo psicológico profundo e inovador. O caiporismo, ao incidir no realismo psíquico, seria análogo tanto à maiêutica socrática, que conduzia o interlocutor ao choque da contradição lógica, quanto ao que Jacques Lacan designou “ideia de corte”, utilizada pelo analista com o objetivo de tirar o paciente das lamúrias infinitas, bem como ao que Alain Badiou denominou “filosofia do acontecimento”. No último capítulo do livro, “Caiporismo no Tempo de Machado de Assis”, o conceito é retomado para mostrar que o escritor, classificado como “o Rei dos Caiporismos na literatura” (Rossi, 2024, p. 454), teve o conceito aproveitado por coetâneos como Ernesto Castro, Arthur Azevedo e Araripe Júnior.
O capítulo quatro, “Travessia do Rubicão”, aborda a metáfora que faz alusão à travessia do rio Rubicão por Júlio César no início de janeiro de 49 a.C., evento que precipitou a guerra civil que o tornou ditador perpétuo. A locução “atravessar o Rubicão”, que significa infringir a lei passando por um ponto sem retorno, ou um ato de coragem moral e psicológica ao tomar uma decisão séria e enfrentar as consequências que possam advir, foi adotada por Machado de Assis para explorar decisões cruciais tanto em suas narrativas quanto em sua própria produção literária. Nos momentos decisivos nas vidas dos personagens machadianos, quando escolhas irreversíveis são feitas, revela-se a coragem na travessia do Rubicão, bem como o verdadeiro caráter, as motivações ocultas e as complexidades da natureza humana.
O temor da travessia do Rubicão remete ao perigo da castração, ficcionalizado no conto “Viagem à roda de mim mesmo” (1885), que mostra sua origem na infância, quando o menino Plácido se arrisca num ato proibido, ocultando segredos e demonstrando que conquistou a noção de narcisismo e consciência moral. Ao mostrar que a castração está em não poder ser claro e franco, Machado de Assis antecipa “O Narcisismo: uma introdução” (1914), de Freud, para quem a necessidade de ocultar está no fundamento do narcisismo, criando o dilema humano da cisão entre comportamento público e privado.
No capítulo cinco, “A Lanterna de Diógenes”, Rossi destaca a intertextualidade e a filiação à tradição cínica, já abordada, entre outros, por Rego (1989), Rouanet (2007) e Oliveira (2016). Seu diferencial é mostrar que Machado, intuitivamente, adota o conceito orientador “procura-se um homem”, da tradição cínica, já no início de sua carreira, muito jovem ainda, em 1858. Focado no levantamento dos textos nos quais a busca incessante pela verdade e a desconfiança são temas recorrentes, Rossi argumenta que, assim como Diógenes, Machado utilizava a ironia e a sátira para desafiar as normas sociais e expor as hipocrisias da sociedade, tornando-se um crítico mordaz e um observador sagaz da condição humana. Conclui que tanto Machado quanto Freud, em Mal-estar na Cultura (1930), sucedem Hobbes na perspectiva de que “o homem é o lobo do homem”, de modo que o critério de orientação na existência seria a desconfiança.
No capítulo seis, “O Fato, o Jornal e o Fiat”, Rossi destaca a euforia de Machado de Assis com a popularização do jornal como veículo para o exercício literário, uma “revolução literária” a partir da qual os autores não precisariam mais esperar para expressar em livros o que pensam. Frente à perspectiva vigente na época, de que o livro poderia ser aniquilado pelo jornal, Rossi mostra como Machado utilizava notícias e fatos cotidianos para criar narrativas literárias ricas e apresentar críticas sociais, cumprindo a função de marco cultural.
Rossi demonstra que Machado era não apenas um ávido leitor da tradição filosófica e literária, mas também de jornais, incorporando eventos atuais em suas histórias para conferir-lhes uma sensação de imediatismo e relevância. Ao mesmo tempo, Machado referenciava mitos e clássicos, antigos e modernos, como Prometeu, Arquimedes, Ovídio, Lamartine e outros. Assim, o capítulo explora como Machado manipulava fatos para construir ficções que, simultaneamente, serviam como comentários sociais agudos e duradouros.
No capítulo sete, “Pílades e Orestes”, Rossi mostra que Machado encontrou esse tema na Marmota Fluminense de 1857, notando que ele reaparece em “O Que São as Moças” (1866), e, sem citar os nomes, mas com o mesmo sentido do mito da amizade, aparece novamente em “Almas Agradecidas” (1870), com a frase “o desejo de servir tem mil maneiras de se manifestar”, e o conceito recebe finalmente um conto específico com esse título em 1903.
O tema da amizade leva em conta a patologia. Nessa perspectiva, explora a amizade e a lealdade como temas recorrentes na obra de Machado de Assis, revelando o conceito psicanalítico de “masoquismo moral pela lógica do narcisismo”, englobando “o masoquismo erótico e o feminino” (Rossi, 2024, p. 141). Rossi discute como o escritor retratava a amizade como um vínculo complexo e muitas vezes ambíguo, na qual a lealdade e a traição coexistem. O autor também traça paralelos entre as relações de amizade entre os personagens de Machado, a amizade entre Freud e Jung e o conceito psicanalítico de transferência, ou amor transferencial, em que os sentimentos profundos são deslocados para outras pessoas.
Machado extraía do que lia o conhecimento que transformava em literatura, e assim teria acontecido com o conhecimento de Prometeu, conforme a citação de “O echo e o sonho” (A Marmota, 16 de fevereiro de 1858), no oitavo capítulo do livro: “me vi só como Prometheo no seu rochedo” (Assis, 2008 apudRossi, 2024, p. 145). Para o escritor, o mito daquele que roubou o fogo dos deuses para dar aos homens era uma metáfora para sua própria escrita, conforme citado em “O jornal e o livro” (Correio Mercantil, 1859): “O que era a imprensa? Era o fogo do céu que um novo Prometeu roubara” (Assis, 2008 apudRossi, 2024, p. 145).
Nesse sentido, o oitavo capítulo, “Prometeu no Cáucaso”, discute como o escritor trouxe à luz as manobras ocultas da subjetividade humana em suas obras. O capítulo inicia com uma epígrafe comparando a imprensa ao fogo roubado pelo personagem mítico, traçando um paralelo entre Machado de Assis e o mito grego. Rossi argumenta que, assim como Prometeu, Machado sofreu por suas revelações, sendo muitas vezes incompreendido por seus contemporâneos, como Sylvio Romero (1897), e por seus sucessores, como Carlos Drummond de Andrade, que depois se redimiu homenageando o autor (Guimarães, 2019).
O capítulo nove, “O Espelho”, concentra-se na metáfora machadiana do espelho, explorando a identidade e a autorreflexão. Rossi lança a suspeita de que o jornal O Espelho (1860), de breve circulação, teria sido criado por Paula Brito para que Machado tivesse um espaço livre para sua genialidade. E explora como Machado utilizava espelhos, tanto literal quanto metaforicamente, para refletir a complexidade da identidade e a dualidade do eu. Sob essa perspectiva, discute como os personagens de Machado frequentemente enfrentam suas próprias imagens refletidas, levando a momentos de autorreflexão e revelação pessoal.
No décimo capítulo, Rossi discute a função do oráculo como uma metáfora para a intuição e a previsão, destacando como Machado usava esses conceitos para enriquecer suas narrativas. O autor argumenta que os oráculos nas obras machadianas servem como veículos para a sabedoria e a introspecção, muitas vezes oferecendo insights profundos sobre o destino e as escolhas dos personagens. A cartomante, ou vidente, que preveria o futuro, é um tema constante que aparece desde A Literatura durante a restauração (A Marmota, 1857), de Lamartine, traduzido por Machado aos 18 anos de idade, até Jogo de bicho (1904) e Esaú e Jacó (1904). O oráculo, ou as reminiscências que agem por dentro, posteriormente será designado por Freud como inconsciente.
O capítulo 11, “Emulação”, explora o aspecto que João Cezar de Castro Rocha (2013) considerou o centro crítico na obra machadiana: a apropriação sistemática e seletiva do legado literário ocidental, problematizando a relação assimétrica entre os centros (europeus) e a periferia (ex-colônias). Em suma, Rossi discute como a emulação, ou o desejo de igualar ou superar os outros, era uma prática consciente de Machado. Avaliando esse tema recorrente nas obras de Machado, mostra que ele refletiu sobre sua própria jornada como escritor que via a competição e a imitação como forças motrizes na criação artística e na vida pessoal.
O assunto é retomado no capítulo 16, “O original e as cópias”, com enfoque no conceito de originalidade e imitação. Ele argumenta que, para Machado, ser um escritor original não é simplesmente evitar imitar os outros, mas criar algo que não possa ser imitado. O capítulo analisa como Machado lida com as influências literárias, transformando-as em algo novo e único, e como isso se reflete na sua própria luta por reconhecimento e identidade literária. Conclui-se que Machado é um “gênio original”, tema do capítulo 17, que explora a luta interna do autor entre seguir as convenções literárias da época e criar algo inovador que garantisse sua posteridade.
O capítulo 12, “O Imortal”, toma como referência Os imortais (18 de setembro de 1859) para explorar a busca de Machado de Assis pela imortalidade literária, vista como uma vitória contra as limitações da vida e uma maneira de transcender a existência terrena, sobrevivendo por meio dos ecos impressos nos livros. Sob esse aspecto, mostra que o autor compreende a formação psicológica do ser humano pela transmissão cultural, chamando atenção tanto para uma psicologia da influência quanto para o confronto entre o narcisismo da sociedade e o narcisismo do “gênio original”.
“O Gênio Original” é o título do capítulo 17, que explora a ideia como um recurso extra de que alguém lança mão para safar-se das situações complexas, como Júlio César, que passou por cima de certas considerações e praticou o ato original de atravessar o Rubicão. Em 1878, Machado se preparava para passar o Rubicão, afirmando “ainda não fiz nada que verdadeiramente se possa dizer original”, frase que se repete várias vezes em O Califa de Platina (Rossi, 2024, p. 331).
O capítulo 13, “Ponto de Admiração”, analisa a técnica machadiana de criar momentos de destaque que prendem a atenção do leitor, denominados "pontos de admiração". Esses pontos podem se manifestar por meio de exclamações, epigramas ou passagens de difícil compreensão imediata, funcionando como uma expressão do narcisismo do autor. Rossi explora como Machado emprega essa habilidade para deixar marcas duradouras na memória do leitor, conferindo um caráter imortal às suas obras. Ele ainda destaca que o próprio autor se torna “um ponto a ser admirado” (Rossi, 2024, p. 261), mostrando como Machado criava esses momentos admiráveis pela voz de seus personagens, que preparavam “pontos de admiração para a posteridade” (Assis, 2008 apudRossi, 2024, p. 245).
O capítulo 14, “Similia Similibus Curantur”, discute o princípio homeopático de “semelhante cura semelhante”, expressão lida por Machado em Similia Similibus (O Espelho, 1859). Explora como o escritor usa experiências e sentimentos similares para curar feridas emocionais em seus personagens, isto é, como recorre à ideia de que a arte é refúgio, alívio e consolo das perdas e atribulações do mundo. Em Freud, isso é denominado “cura pela palavra”: o sintoma, sendo uma doença da palavra, seria tratado pela palavra. O tratamento consiste em conseguir expressar o sintoma, aliviando-se dos tormentos internos. A análise inclui como Machado lida com o amor e a dor, mostrando que novos amores podem curar feridas antigas, uma abordagem que reflete sua compreensão profunda da natureza humana. Não por acaso, em sua correspondência dos últimos anos de vida, Machado de Assis recomendava aos amigos o refúgio na poesia e na literatura como remédio contra as dores e contrariedades da vida, confessando que assim procedia, conforme já discutido em Cei (2016, p. 157-165).
O capítulo 15, “Moralidade”, inicia com a divisão psíquica e discute a visão de Machado de Assis sobre esse tema central que permeia a vida e as escolhas de seus personagens. Apresentando os conceitos de “pulsão moral, de conservação do espírito” (Rossi, 2024, p. 283) e “psicologia da moralidade” (p. 285), o capítulo analisa como ele antecipa literariamente muitos conceitos da psicanálise. O texto explora tanto o trabalho de censor teatral quanto as crônicas e obras de ficção, com destaque para o conto “A causa secreta”, avaliando os dilemas morais e as complexidades éticas. Conclui-se que Machado joga a moral do leitor contra o próprio leitor, pois “Em cada pessoa, a moral é sua causa secreta” (p. 298).
Considerando que os capítulos 16 e 17 já foram comentados, salto ao 18, “Metafísica”, cujo tema é o distanciamento das situações conturbadas, necessário para a atitude filosófica de reflexão. Esse distanciamento estaria ligado à disputa que se anunciava com Sílvio Romero. O autor investiga como Machado usa conceitos metafísicos como recurso de abstração e âncora lógica. A análise inclui uma discussão sobre a influência da filosofia e da religião, bem como uma demonstração de como esses elementos são integrados de forma original em sua prosa.
O capítulo 19, que recebe o mesmo título do capítulo XI de Memórias póstumas de Brás Cubas, “O menino é pai do homem”, toma essa frase como elemento de reflexão para explorar a ideia de que o ato infantil se repete no adulto, isto é, as experiências e traços da infância moldam o adulto. Citando uma frase de Ressurreição (1872), “um menino de cinco anos, criança gentil e esperta”, Rossi rastreia algumas ocorrências da formação ao redor dos cinco anos, querendo mostrar que Machado antecipa a descoberta do narcisismo na infância feita por Freud em 1914, quando este diz que o narcisismo se funda ao redor dessa idade. Freud também empregou essa frase: “A psicanálise foi obrigada a fazer a vida psíquica dos adultos derivar daquela das crianças, tomando a sério a frase que diz: ‘O menino é o pai do homem’” em 1913. Nessa perspectiva, o capítulo analisa como Machado de Assis utiliza essa premissa para construir personagens complexos, cujas ações e personalidades são fortemente influenciadas por suas experiências infantis.
O capítulo 20, “Moleque da Semana e menino diabo”, oferece uma amostra das raízes do pensamento em estado nascente de Machado de Assis na revista Semana Ilustrada (1860-1876). A suposição de Rossi é que a ideia de moleque e traquinagens de autoria provém das molecagens daqueles autores que publicavam sob pseudônimos diversos e, às vezes, sem autoria, com o fim de evitar a censura e não serem reconhecidos. O capítulo segue o anterior numa espécie de demonstração do conceito “O menino é pai do homem”, destacando a dualidade entre inocência e travessura, e como Machado usa essas figuras para criticar a hipocrisia social.
O capítulo 21, “Viagem à roda de mim mesmo”, que recebe o título do conto publicado na Gazeta de Notícias (1885), examina a jornada introspectiva dos personagens machadianos, explorando como eles se envolvem em processos de autorreflexão e autoconhecimento. A narrativa viaja à origem, na infância, ao menino Plácido, personagem do conto homônimo, para o momento em que ele é admoestado pelo pai, o que cria nele a divisão psíquica entre atravessar ou não o Rubicão, o perigo da castração, a conquista da noção de narcisismo e consciência moral “no sentido de que o menino se torna pai do ato pela compreensão da Lei” (Rossi, 2024, p. 406) e à distinção entre “sentido figurado” e “sentido natural”. Ao mostrar que a castração está em não poder ser claro e franco, Machado de Assis antecipa “O Narcisismo: uma introdução” (1914), de Freud, para quem a necessidade de ocultar está no fundamento do narcisismo, criando o dilema humano da cisão entre comportamento público e privado. Num sentido mais geral, viajar à volta equivaleria à fuga para a cultura proposta por Freud para aprender com os sábios.
O capítulo 22, “A vida é onda dividida em duas”, analisa a metáfora da vida como uma onda dividida em duas partes, discordando da tradicional divisão da obra de Machado de Assis em duas fases e propondo uma terceira. Nessa terceira fase, o escritor avançaria ainda mais em sua reflexão subjetiva, vendo de cima do monte as duas fases anteriores: “outra faceta da Psicologia nova que tinha sido anunciada na segunda fase, agora analisando o vivido, numa revisão psicanalítica do percurso” (Rossi, 2024, p. 426).
No capítulo 23, “Psicologia e o oculto”, Rossi investiga o fato de a psicologia girar em torno do oculto, explorando como esses temas são entrelaçados nas obras machadianas. Argumenta que o escritor brasileiro teria sido o criador de uma novidade: uma psicanálise sob a forma de literatura, que mostra sem conceituar. Rossi propõe que Machado age como se fosse ele mesmo um psicanalista relator de casos clínicos, expondo as manobras psicológicas da subjetividade na construção dos personagens e na trama, aprofundando a compreensão da mente humana e das motivações inconscientes.
O último capítulo, “Caiporismo no tempo de Machado de Assis”, avalia a noção de caiporismo, que, no vocabulário machadiano, seria o efeito do mau agouro do sujeito azarado. Para Rossi, o caiporismo, originado na crença ameríndia no gênio agourento do caipora e que ainda hoje estaria ligado à vida psíquica do brasileiro, seria uma das chaves de leitura da obra de Machado de Assis. Além disso, o capítulo também apresenta alguns autores que se beneficiaram da introdução do caiporismo na literatura. Entre eles estão Ernesto Castro, Um rapaz caipora (1877), Arthur Azevedo, 345 (1894), e Araripe Júnior em Gregório de Matos (1894), “autor caipora”. Machado retrata a sorte e o azar como forças influentes na vida de seus personagens, refletindo as incertezas e injustiças da vida, em que a todo instante a sorte está lançada. Rossi e Machado procuram, com a lanterna de Diógenes, um leitor que dê conta dos caiporismos da vida e da literatura, destacando as ironias e contradições da existência.
Em suma, Rossi enfatiza que a revolução literária promovida por Machado de Assis vai além da virada representada por Memórias Póstumas de Brás Cubas, pois ele utilizou sua obra tanto autobiograficamente quanto para investigar e expor as complexidades da mente humana. Esse avanço significativo posiciona Machado de Assis como um “imortal”, pioneiro da alma humana e precursor da psicanálise de Freud, cuja contribuição ao tratamento psicológico do ser humano é inestimável.
Considerações finais
Em O imortal Machado de Assis: autor de si mesmo, Adelmo Marcos Rossi oferece uma leitura profunda e inovadora da obra de Machado de Assis, centrando-se no narcisismo e na vaidade como fundamentos essenciais tanto para a criação literária quanto para a análise da psique humana. Ao dividir a produção machadiana em três fases conceituais, Rossi apresenta uma estrutura analítica que não apenas ilumina novas dimensões do trabalho de Machado, mas também destaca a antecipação de conceitos que seriam formalizados pela psicanálise freudiana.
Rossi demonstra notável habilidade ao interligar literatura e psicanálise, explorando como Machado de Assis manipulava a linguagem para criar narrativas complexas que continuam a ressoar na mente do leitor. Ao destacar a recorrência de termos como caiporismo, petalogia e a metáfora do Rubicão, Rossi argumenta de forma convincente que essas repetições revelam um profundo fundamento conceitual na obra do escritor. A análise dos “pontos de admiração” e da intertextualidade com o Eclesiastes e outras influências clássicas, além das comparações com Freud, enriquece ainda mais a compreensão da obra machadiana.
Do ponto de vista crítico, Rossi é elogiável por sua originalidade e rigor analítico, embora talvez tenha deixado espaço para um diálogo mais direto com as teorias freudianas, algo que poderia ser explorado por futuros pesquisadores. No entanto, a riqueza da análise e a profundidade das conexões estabelecidas entre Machado e a psicanálise tornam este livro uma leitura essencial para estudiosos de ambas as áreas.
Convido os leitores interessados em literatura, psicanálise e na fascinante obra de Machado de Assis a mergulharem nas páginas de O Imortal Machado de Assis. Rossi não apenas ilumina o gênio literário de Machado, mas também nos leva a refletir sobre as complexidades da mente humana, tornando sua obra indispensável para qualquer um que deseje compreender as nuances psicológicas e filosóficas presentes na literatura.
Referências
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