RESUMO
Neste artigo abordamos o romance-folhetim Ouro sobre azul (1874), de Visconde de Taunay (1843-1899). Tendo por mote a condição feminina à época e a representação da mulher na literatura, traremos à baila o perfil de Laura, a protagonista que reverberava certo desajuste em relação ao papel social conjugado às mulheres brasileiras de então. Isto posto, em cena contundente, Laura apresenta-se como uma leitora inveterada dos escritos de George Sand (1804-1876), ou, do título Césarine Dietrich (1872), em específico. E, a partir do escrutínio de tal jogo metaficcional, cogitamos a hipótese de que Taunay, advindo de família francesa intelectualizada, pudesse mediar uma relação cultural entre Brasil e França pautada por uma verve potencialmente afrontosa ao status quo de uma experiência de gênero tida por resignada e/ou subjugada.
PALAVRAS-CHAVE:
Literatura Brasileira; Literatura Francesa; Visconde de Taunay; George Sand; metaficção
ABSTRACT
This article analyzes the novel Ouro sobre azul (1874), by Visconde de Taunay (1843-1899), focusing on the representation of women in literature and the condition of women in the period. I examine the character of Laura, the protagonist, who reflects a certain resistance to the social role prescribed for Brazilian women at the time. In a striking scene, Laura emerges as an inveterate reader of George Sand’s (1804-1876) writings, particularly the novel Césarine Dietrich (1872). By exploring this metafictional element, I propose that Taunay, with his intellectualized French background, could be mediating a cultural exchange between Brazil and France. This approach potentially challenges the traditional, submissive gender roles of the period.
KEYWORDS:
Brazilian Literature; French Literature; Visconde de Taunay; George Sand; metafiction
Introdução
Na acelerada década de 1870 (Alonso, 2002), em meio à polifonia dos escritos do jornal fluminense O Globo, veículo que, em pesquisas acadêmicas, já fora relacionado a uma divulgação/problematização de liberdades civis experienciadas por mulheres europeias e norte americanas (Salvaia, 2014) - Visconde de Taunay publicava Ouro sobre azul (1874), um romance-folhetim folhetinesco por definição.
À semelhança de qualquer narrativa de tal natureza, o enredo, assinado por “Silvio Dinarte” (pseudônimo de Visconde de Taunay), nos conta a história de um jovem casal que enfrentaria inúmeros percalços até o final feliz, sempre casadoiro. Todavia, Laura, a protagonista em questão, traria consigo um ímpeto de desajuste feminino que muito nos interessa. Assim, e de antemão, elencamos a referência suscitada através do perfil de uma suposta “má leitora”:1
Na ânsia de ler que durante muitos meses a subjugou, devorou Laura livros uns após outros, sem ordem, sem nexo, nem escolha. Vivera a vida dos personagens que mais a haviam impressionado: identificara-se com eles e então tivera alegrias imensas e dores cruciantes. Tocara em todos os gêneros de literatura e mui naturalmente com a imaginação férvida apegara-se sofregamente ao romance. Fora George Sand o seu autor favorito [sic] e da predileção das obras dessa admirável escritora proviera em todo o caso uma delicadeza de apreciação, um tino literário, um gosto apurado e um receio de vulgaridades que tornavam o seu juízo, quando o expendia, muito chegado à verdade. (RJ, O Globo, 5/12/1874, p. 1).2
Posteriormente, o título Césarine Dietrich (1871), de George Sand (pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin), seria citado. Tratando inicialmente do tema da maternidade, numa conversa com certo interlocutor (o qual apresentaremos a posteriori), Laura diria...
- Um romance, sem dúvida... Péssima leitura, para quem tem a sua imaginação, e...
E que quer que leiamos? Interrompeu Laura com alguma amargura. Precisamos distrair o espírito e não temos o vasto campo de que os homens se apropriaram. Eu lhe falava no romance: intitulava-se Césarine Dietrich, e é de George Sand... Já leu?
- Ainda não.
- Pois eu lho emprestarei. É a história de uma moça bela, rica, instruída e imperiosa; tipo que logo me prendeu e me entusiasmou. Aplaudi com fervor as suas ideias, e seu modo de viver, a dominação que estabeleceu sobre tudo e sobre todos, mas, coitada! O sistema a arrastou longe demais e, se compreendi o que li, a minha heroína, o meu ideal, caiu numa degradação imensa. Tive horror de mim mesma!... E tudo... porque Cesarina quisera romper o círculo que Deus traçou em torno da mulher, e que os homens fizeram de ferro. Tentou levantar altiva a cabeça pensadora, e a fatalidade, em nome da natureza e dos séculos, a curvou até fazê-la tocar o lodo. É a vingança das reações...
Falava Laura com tal energia, que as lágrimas lhe saltavam quase aos olhos. (RJ, O Globo, 11/03/1874, p. 1).
Vale informar que, o periódico, dirigido por Quintino Bocaiúva, publicou, entre 1875 e 1876, dois títulos de George Sand em folhetins: Flamarande e Os dois irmãos. Ou seja, a referência era familiar àqueles que consumiam jornal e livros d´O Globo.3
Lúcia Granja e Lilian Tigre Lima (2017), ao abordarem a circulação da obra de Honoré de Balzac no Brasil oitocentista, argumentam que José de Alencar, através de admiração e inspiração confessas, seria o principal propagador da obra do autor francês no Brasil. No caso, Alencar atuaria como um “mediador cultural” (Espagne, 2012) imprescindível para a divulgação e legitimação dos escritos balzaquianos nos meandros de nosso “campo cultural” (Bourdieu, 2001).
Neste artigo, cogitamos a hipótese de um movimento semelhante de Visconde de Taunay em relação à obra de George Sand no Brasil, ao longo da segunda metade do século XIX. Contudo, e debruçando-nos, especialmente, sobre os artifícios da metaficção, advogamos que Taunay também denotaria uma preocupação sensível a respeito de perfis femininos ficcionais, verossímeis, e, possivelmente, encarnáveis. E é sobre esse processo de escritura, atento à condição feminina, que iremos conceber as próximas páginas.
Visconde de Taunay para além de Inocência (1872)
Formado no seio de uma família aristocrática, intelectualizada e diretamente envolvida com a chamada “Missão Artística Francesa” (Saad, 2015), Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay dedicou-se às mais diversas searas relativas ao Império Brasileiro (Blake, 1902). Nascido no Rio de Janeiro em 1843, Taunay atuou especialmente junto ao Partido Conservador, embora certa inclinação ao ideário liberal também lhe fosse recorrente. Com uma trajetória proeminente na carreira militar, o Visconde - condecorado com a Ordem da Rosa pelo Imperador D. Pedro II - teve participação importante na Guerra do Paraguai (1864-1870), produzindo, inclusive, incontáveis escritos técnicos capazes de resistir ao tempo. Fora isso, ele também atuaria como deputado pelo Rio de Janeiro, e senador pela Província de Santa Catarina. Em síntese, e conforme registrado por Sílvio Romero (1980 [1888]), nosso autor merece “o feio nome de polígrafo”, uma vez que a sua produção bibliográfica contemplou temas políticos, estratégias de conflito/guerra, passando, é claro, pelo campo estético.
Vale ponderar que, num primeiro momento, a produção literária do autor somente ganharia alguma notoriedade a partir do olhar enviesado do já citado Sílvio Romero. Mais adiante, no século XX, e através da produção crítica de Antonio Candido (1993 [1957]), o romance Inocência (1872) seria alçado a fim de se estabelecer os parâmetros de um romantismo brasileiro de teor regionalista.
Em tal contexto, seria possível identificar certa preocupação na proposição de uma mimese e, consequentemente, de uma poiese (Candido, 2019, p. 22), capaz de contemplar algo de um Brasil interiorizado, ou, avesso ao universo citadino da Corte. Desse modo, e recorrendo-se, novamente, a José de Alencar, elencamos O Gaúcho (1870) e O Sertanejo (1875). Já no caso de Inocência, seria suscitada a geografia pitoresca do sertão mato-grossense. Ou seja, ligado a uma tradição familiar viajante, artística, exploratória e/ou científica, Visconde de Taunay - como uma espécie de Ferdinand Denis de limiar de século (Donegá, 2020) - ideava a representação de uma brasilidade genuína, intocada e não tributária às odes colonizadoras.
Porém, seria possível desconsiderar que a acuidade, bem como o cientificismo instrumental do carioca afrancesado advinham, inevitavelmente, de sua formação arraigada aos valores do Velho Mundo? Sublinhamos que, Taunay, inclusive, escreveu parte significativa de suas publicações em língua francesa. Nesse sentido, até mesmo a sua apreensão do mundo - intrínseca ao processo da linguagem/significação - reverberava doses inebriantes de tal referencial. Desse modo, ou, munido de suas próprias lentes, Taunay, possivelmente, endossaria um projeto de brasilidade matizado pelo arcabouço cultural francês. Mas, para que tal problematização ganhe corpo, faz-se necessário avançarmos para além de Inocência que, por anos a fio, quiçá, até os dias atuais, vem nublando o restante da produção romanesca de Visconde de Taunay.
Perfis de mulheres
Em 1862, José de Alencar lançava Lucíola nas páginas da imprensa. A crítica fez-se lacônica, e apenas um artigo desdenhoso no Correio Mercantil tratou de seus “arrebiques de francesia” (Alencar, 2013 [1893]). Não obstante, a recepção entre o público seria calorosa, daí o interesse de Jean-Baptiste Garnier em firmar contrato editorial com o literato cearense. No entanto, havia uma exigência: que Alencar lhe oferecesse outros perfis de mulheres.
E, num curto espaço de tempo, seríamos apresentados à famosa “trinca de ases” da literatura brasileira oitocentista: Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875). Em síntese: 1) o perfil da prostituta que se regenera, 2) o perfil da mulher voluntariosa e 3) o perfil da mulher ardilosa. Ao que parece, e tratando da circularidade de ideias à época, havia a construção de tropos associados ao feminino. E, conforme sabemos, tal temática certamente advinha da literatura estrangeira. Não à toa, o romance Lucíola foi insistentemente cotejado ao Dama das Camélias (1848), de Alexandre Dumas Filho (Marco, 1986). Porém, no caso brasileiro, tais arquétipos operavam através de uma verossimilhança alusiva a uma sociedade pretensamente urbana/civilizada, e, paradoxalmente, maculada por práticas paternalistas advindas do arcabouço escravocrata (Bosi, 1992).
O crítico Moisés Massaud (1984) já teria chamado a atenção para a influência de José de Alencar nos romances urbanos de Visconde de Taunay. Isto posto, e endossando a leitura de Massaud, suscitamos a possibilidade de que Taunay também pudesse estar atento às “mulheres de papel” (Ribeiro, 2008) que tomavam de assalto as discussões literárias, propondo, em interlocução, os seus próprios perfis feminis. Aliás, e conforme pesquisado, tal empreitada se iniciara antes mesmo do lançamento do romance-folhetim Ouro sobre azul.
Lágrimas do coração: manuscrito de uma mulher, de Visconde de Taunay (1872)
Em 1872, pela Editora F. Thompson, Visconde de Taunay (sob o pseudônimo de Silvio Dinarte) lançava o seu primeiro romance urbano: Lágrimas do coração. No ano seguinte, o romance seria reeditado com o acréscimo de um subtítulo: Lagrimas do coração: manuscrito de uma mulher. Assim, e de maneira surpreendente, Taunay trazia à lume um romance inteiramente narrado por uma persona feminina: Carolina. Tal narradora, uma jovem de 18 anos, resignada no contexto de um casamento infeliz, nos contaria, através de uma sinceridade voraz, a própria trajetória.
Carolina fora criada em contexto social abastado, a família não usufruía de esteio enobrecido, porém, eram burgueses enriquecidos. Os pais, no entanto, portavam-se de maneira negligente em relação à criação da única filha. De acordo com a narradora, a mãe tinha um temperamento difícil e era hipocondríaca (sofria de dores imaginárias lancinantes), e o pai era viciado em jogos de azar (vivia em sobressaltos, com receio de adversários gatunos). Evidentemente, Carolina fora deixada à revelia em sua educação moral, muito embora, por sua condição social, tivesse acesso a bons colégios e preceptoras competentes.
Apesar do devir moderno e capitalista que já se prenunciava, a sociedade brasileira da época ainda era norteada por valores nobiliárquicos. E, à guisa de exemplo, citamos o caso de uma companheira de escola de Carolina, a personagem Cecília, que, quando adulta, passaria a exercer o ofício de professora de piano a fim de sustentar-se. No caso, vale sublinhar que os jornais viviam abarrotados de anunciantes de tal espécie. No episódio em questão, um sarau fortuito, ambas se reencontram, e Carolina faz questão de demonstrar desprezo pela antiga confidente, renegando qualquer tipo de intimidade com a tal trabalhadora que, por sua vez, se apresentava insubmissa frente aos seus olhos de mulher privilegiada:
- Minha?
- Sim, e sua intima. Vocês estiveram juntas no colégio; chamava-se Cecília Ramos, é muito feiasinha.
[...] Dentro de mim levantou-se uma onda de cólera que espadanou em rubor nas faces.
- Cecília Ramos, amiga minha? Exclamei. É falso, mal a conheço.
[...] A coitadinha tem desculpa; quer se apresentar com um título de recomendação e a sua amizade... É uma espécie de puff!...
- Mas eu não consinto n´isso.
- Sim... a diferença de classe...
- No colégio as coisas mudam de figura; mas a sociedade não é uma casa de educação. (Dinarte [pseudônimo de Visconde de Taunay], 1872, p. 91-92).
A narradora, portanto, afirmaria sem papas na língua: o microcosmo colegial não correspondia à vida em sociedade. E, na realidade, as hierarquias - reais ou teatralizadas - eram inegociáveis. Cremos que vale sublinhar a confissão crua de Carolina, pois, além de admitir que mentiu sobre a relação de amizade com Cecília, ela reiterava sem disfarces a própria condição de classe. Trata-se, no mínimo, de um perfil altivo de mulher, ou, talvez, de uma mulher soberba que se reconhece como tal, sem recorrer ao estratagema da mea culpa ou da falsa modéstia.
Ao final de tal escrito de teor biográfico, Carolina nos informaria, ainda, da condição periclitante de seu núcleo familiar, uma vez que o pai teria acumulado inúmeras dívidas em jogatinas. Sendo que, de seu ponto vista, o único caminho para mitigar tal situação, seria o aceite mediante um casamento arranjado, com um pretendente endinheirado, mas incapaz de lhe despertar qualquer curiosidade ou paixão. E, após as núpcias...
[...] Meu pai e minha mãe deixaram a Corte e foram para o interior da província de Minas: escrevem-me a miúdo, mas nunca me falam nem em moléstias, nem em jogo: talvez estejam ambos radicalmente curados.
Eu vivo numa espécie de torpor moral que estreitou-me na fisionomia uma vaga expressão de amabilidade. Meu gênio tornou-se dócil, um tanto apático: leio pouco, mas gosto muito de escrever, bem que depressa me fatigue, apenas procuro ocupar mais ativamente o espírito. (Dinarte [pseudônimo de Visconde de Taunay], 1872, p. 258).
Pela última vez, então, Carolina remediava o abandono moral familiar, sacrificando-se. E, se ao longo de todo o enredo nos deparamos com uma protagonista afrontosa e segura de si, ao final, ou, após o matrimônio, Carolina faz-se quebrantada e dócil. Porém, a afeição à escrita não fora esmorecida.
Através do artificio da ficção, ou de uma escrita performativa, Lágrimas do coração: manuscrito de uma mulher subscreve uma espécie de pedagogia acerca dos males associados à negligência da instituição familiar frente à formação das moças. Todavia, a narradora enuncia o jogo social do qual seria parte integrante, e não simplesmente peça manipulável. Noutras palavras, Carolina reconhece e expõe as fraquezas dos pais ao mesmo tempo em que adota caminhos para evitar um processo de decadência social iminente. Ao final, a escritora protege a todos, embora reconheça que termina por sucumbir em sua individualidade.
Trata-se, portanto, de uma “escrita de si” tangível à condição feminina no século XIX. De todo modo, o efeito de tal escritura também poderia arrastar o público leitor à criticidade em relação à realidade empírica, pois torna-se quase impossível não estabelecer algum nível de empatia para com a jovem mulher.
Ouro sobre Azul (1874), de Visconde De Taunay
Conforme consta no prelúdio do livro,4 antes de ser publicado pelo Globo, de Quintino Bocaiúva, Ouro sobre azul foi intitulado Razão e coração. E, no caso, aproveitamos a semelhança para cotejá-lo ao Razão e sensibilidade (1811), de Jane Austen. Todavia, e para além de especulações frágeis, sublinhamos que, em tal historicidade, escritoras fizeram-se proeminentes junto à cena literária internacional e nacional: além da citada Jane Austen (1775-1817), Emily Brontë (1818-1848), Mary Shelley (1797-1851), George Sand (1804-1876), Julia Lopes de Almeida (1862-1934) e Maria Firmina dos Reis (1822-1917). Enfim, a própria condição da “mulher de letras” apresentava-se como um tema sensível à época, já que o conceito de intelectualidade era estritamente associado ao masculino e à esfera pública, sempre negada ao “segundo sexo”.
No início do artigo, quando tratamos da protagonista de Ouro sobre azul, Laura, expondo a sua fruição impressionista da ficção de George Sand, ocultamos o seu interlocutor em tal ocasião. Pois bem, tratava-se de Adolfo, amigo íntimo de Álvaro, o futuro par de Laura. E é importante dizer que tal figura exerceria papel primordial no transcorrer da obra, guiando o nosso olhar em diversas situações. O rapaz era um rico viajante que, com acuidade, desmistificava os pormenores da sociedade fluminense de fim de século. Nesse sentido, imerso, mas, ao mesmo tempo, estranho a tal contexto, Adolfo imprimiria uma leitura especialmente crítica acerca das ações e perfis erigidos ao longo da trama.
Na verdade, a despeito do casal principal, Laura Gomes e Álvaro, há uma miríade de personagens interessantes no citado romance-folhetim. De início, destacamos a divisão que estrutura toda a obra. A “Primeira parte” transcorre em ambiente cortês, mais precisamente, em Botafogo, lar da família da mocinha. Já a “Segunda parte” transcorre em ambiente rural, quando toda a família (mais pajens, amigos/inimigos e dependentes) se isola numa espécie de microcosmo, cultivando um avatar de Botafogo em campos alhures. Enfim, apesar da abordagem pretensamente campestre, todo o romance reproduz hábitos e relações profundamente citadinos.
E, tratando de perfis de mulheres, trazemos à roda Idalina, a melhor amiga de Laura e figura vital para a engrenagem da trama ficcional. A moça, por influência do pai, se casara cedo com um visconde taciturno, cujo título lhe encantara. Enviuvando precocemente, a Viscondessa Idalina voltaria a frequentar os salões, desposando do status respeitável e libertário da viuvez e procurando por um novo partido que lhe garantisse uma vida confortável, afinal, e ao contrário do que se dizia à boca miúda, a personagem não gozava de condição financeira luxuosa. Em vários trechos da obra tal perfil seria alvo da especulação de terceiros, mas optamos por pinçar certo diálogo entre Álvaro e Adolfo:
[...] Quadro psicológico perfeito, interrompeu Adolfo. Você, Álvaro, precisa por força descrever com a pena em punho a nossa, ou melhor a sua sociedade... Na sociedade de vocês, maldizer corresponde a ter espírito e saber conversar. Viúva, faceira, gostando do luxo, ambiciosa, intrigante talvez - você o disse.
- Não afirmei...
- Leviana, maldosa, amiga de dizer verdade aos outros, inimiga de ouvi-las a seu respeito, escarninha, divertida, caprichosa, ingrata, amável, que mais falta àquela mimosa criatura?
- Você fez dela um monstro. (Taunay, 1921, p. 180).05
Álvaro reprovava a amizade entre Laura e Idalina, achando-a moralmente nociva para a futura noiva. A lista de adjetivos é extensa, e não há necessidade de repeti-los. Contudo, Adolfo, mais experiente e douto nos códigos que regiam tal sociedade “de corte” e com nuances de “espírito burguês”, advertia: “Na sociedade de vocês, maldizer corresponde a ter espírito e saber conversar” (Taunay, 1921, p. 180). Destarte, o interlocutor era capaz de reconhecer o traquejo social necessário a uma mulher só para transitar em tal meio, angariando as atenções e colocando em jogo os interesses que lhe garantiriam a própria sobrevivência. No mais, era Álvaro quem fazia de Idalina um “monstro” e, portanto, o coquetismo perverso estava nos olhos de quem via, e não necessariamente na índole da bela viúva.
Aliás, do ponto de vista do viajante, o coquetismo em si era arma de defesa legitimamente feminina. E, ciente disso, Idalina flertava:
- É lisonjeiro?
- Com as feias por civilidade... às bonitas digo a verdade...
- Se eu fosse coquete...
- Como não é? Interrompeu rapidamente Adolfo. Se o não fosse, faltaria alguma coisa ao seu poder de fascinação. É uma arma preciosa, não a abandone. Ao menos por meio dela, o sexo fraco durante largos anos traz atormentada uma boa falange de homens que organizam a sociedade com milhares de convenções todas em proveito só deles e esquecidos de que à mulher também pertencem direitos comuns...
Admiro e aplaudo as suas teorias, replicou a viscondessa, mas duvido muitíssimo que queira lhes dar aplicação depois de casado... (Taunay, 1921, p. 114).
Muito próxima de Laura, Idalina era tipificada como um perfil mais complexo e, em alguns momentos, quase avesso ao da protagonista. Ainda assim, a viúva sabia dos limites socialmente estabelecidos ao seu sexo, daí o chiste de que, se marido, certamente Adolfo tornar-se-ia menos libertário em suas opiniões. Em síntese, Idalina era capaz de se defender, pois, assim que ciente de sua reputação de viúva vil na sociedade, “tornou-se sarcástica; fez-se temer, já que não podia ser respeitada” (Taunay, 1921, p. 271).
Em chave oposta, Laura existia sob a proteção familiar, porém, nos capítulos derradeiros da trama, seríamos informados da origem espúria da garota. Isto posto, a pretensa superioridade moral configurava-se, na verdade, como uma grande ilusão.
Se nos explicamos: pouco ciente a respeito do próprio passado, Laura sempre contara com a proteção de Faria Alves, personagem identificado como “tutor” da menina, mas que exercia papel de pai devotadíssimo. No entanto, Laura era filha legítima de Faria Alves. A menina era fruto de uma relação extraconjugal entre ele e certa Elvira, já morta, mas que fora oficialmente casada. Ou seja, a pecha do adultério cabia à memória de uma personagem feminina. Tal segredo seria mantido até o fim da trama e, nem Laura, tampouco seus pares, saberiam dos quiproquós que envolviam o seu nascimento.
Por fim, e propondo certo arremate ao presente artigo, retomamos a cena da personagem Laura “má-leitora” da obra de George Sand (pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin). Desde os primeiros capítulos de Ouro sobre azul somos informados de que Laura recebera uma educação um tanto quanto “frouxa” em relação à moral, pois Faria Alves seria um solteirão tomado pelo sentimento da culpa, e que criara a menina sem nenhum tipo de referencial materno. Desse modo, Laura crescera sem limites muito claros: “Com o modo de educação que a medrosa solicitude do tutor desde princípio deu a Laura, poderia ter-se ela mudado em rapariga tirânica e dominadora; ficou simplesmente caprichosa” (Taunay, 1921, p. 14).
Nesse ponto, poderíamos sugerir que Carolina de Lágrimas do coração: manuscrito de uma mulher (1872) seria uma espécie de esboço de Laura. E, se a primeira tomaria “consciência de si” por meio da prática da escrita, no caso da segunda protagonista seria a prática da leitura que a atinaria para a própria vida. Por isso, salientamos que, na construção de ambos os perfis, Taunay denotava signos de intelectualidade à experiência feminina em tal sociedade.
O livro predileto de Laura, Césarine Dietrich (1871), da francesa George Sand, ainda segue sem tradução para o português. Acessando-o através de edição estrangeira online, nos deparamos, novamente, com uma narradora em primeira pessoa que, identificada pelo seu ofício de “preceptora”6, expõe a trajetória biográfica de sua principal aluna: Césarine Dietrich. Tal como Laura, a personagem de Sand era órfã de mãe, morta pelo “mal do século”, e vivia desamparada afetivamente/moralmente por um pai burguês sem tempo para desperdiçar com melindres de menina-moça. Daí a necessidade da preceptora, pois, segundo o Sr. Dietrich: “[...] Quero abdicar em suas mãos, pois, para criar uma mulher, você precisa de uma mulher” (Sand, 1871, p. 18, tradução nossa).7
Vale ponderar a “consciência de classe” perversa subjacente ao modo de agir da tal mocinha. Sempre de acordo com a preceptora, aos quinze anos, Césarine desenvolvera o hábito de criar passarinhos em gaiolas. E, por longos períodos, a menina deixava-os privados de víveres, fazendo-os piar desesperadamente. Afinal, e parafraseando Césarine, “para que se importassem com a dona, os passarinhos teriam de entender que não poderiam sobreviver sem ela” (Sand, 1871, p. 9).8 No caso, a benevolência calculada vertia-se em demonstração de arbítrio narcisista.
Após a maioridade, e prestes a se livrar da preceptora-narradora, Césarine se apaixona perdidamente pelo sobrinho da mestra, Paul Gilbert. Um rapaz de origem social inferior, mas capaz de ostentar uma índole austera e incorruptível. A educadora, então, garante o emprego por mais algum tempo; no entanto, alguns conflitos entre ambas tornar-se-iam incontroláveis. O sentimento por Paul Gilbert fugiria ao controle de Césarine e a professora terminaria por afastá-lo da jovem a fim de protegê-lo. Consequentemente, a paixão ganharia ares de capricho intransigente.
Ao final, ou, depois de incontáveis episódios de rejeição e constrangimento, Césarine Dietrich terminaria casada com um homem da alta sociedade capaz de colocar limites à sua índole de independência: “Reparou a aparência rançosa da sua juventude e o excesso da sua independência com submissão ao dever e com uma bondade séria” (Sand, 1871, p. 146, tradução nossa).9
Isto posto, e voltando para a obra de Visconde de Taunay e para a nossa leitora ficcionalizada, nos instiga a hipótese de que, a inscrição da decepção de Laura com o destino da personagem Césarine Dietrich, poderia ser relacionada a uma leitura/interpretação da ficção de George Sand eivada de desencantamento. Sendo que, tal paradigma de desesperança poderia, ainda, mobilizar Laura em relação à condição de seu gênero nas agruras de sua própria historicidade brasileira/periférica.
Considerações finais
Na década de 1870, Amandine Aurore Lucile Dupin (George Sand) era uma mulher envelhecida que, após um divórcio e dois filhos criados, despontava por sua personalidade resoluta e uma obra primorosa ligada ao estatuto romântico. Há de se censurar a morosidade dos franceses para alça-la ao cânone literário, possivelmente, porque a persona se afirmara antes da escritora de ficção. Vinda de família aristocrática (por parte de pai) e burguesa (por parte de mãe), Sand também participou ativamente da Revolução de 1848, esbanjando insubmissão e engajamento político.
Nesse sentido, havia, possivelmente, certa expectativa de que a obra da escritora francesa tilintasse algo de uma liberdade feminina a plenos pulmões. Todavia, o processo mimético de George Sand dar-se-ia de maneira matizada pelo devir de seu próprio tempo. Dito isso, em sua autobiografia, a literata registraria:
Certamente é impossível acreditar que tal faculdade dos poetas, que consiste em idealizar sua própria existência e em fabricar coisas abstratas e impalpáveis, seja uma lição completa. Sem dúvida é útil e estimulante; pois todo e qualquer espírito se eleva com inspirados sonhadores, todo sentimento se depura ou se exalta ao segui-los através dessas regiões de êxtase; mas falta a esse bálsamo sutil, derramado sobre nossas fraquezas, algo muito importante, a realidade. (Sand, 2017, p. 23).
Sugerimos que, o perfil de uma personagem afrontosa e senhora de seus próprios impulsos, como Césarine Dietrich, soava de maneira provocativa à historicidade da época. Mas, os limites para acomodá-la à verossimilhança, ou, à realidade empírica, exigiam o final infeliz de um casamento disciplinante. Daí, talvez, o desengano da leitora Laura: o estrito diálogo com a realidade proporcionado por tal romance.
De acordo com Patricia Waugh (2015), o artifício da metaficção promove uma pedagogia enviesada, que procura ensinar o leitor a se portar diante do texto literário. Assim, e através do efeito performativo via enunciação, o leitor terminaria por comparar o mundo representado com o mundo em que vive. Nesse sentido, a personagem brasileira que lê e se decepciona com o final concebido por George Sand demonstra uma expectativa frustrada com a condição da mulher francesa idealizada, e, evidentemente, com a própria condição no Brasil. E, cremos que, incutir tal criticidade entre os seus leitores e, principalmente, entre as suas leitoras, poderia apresentar-se como estratégia estética concebida pela escritura de Visconde de Taunay. Afinal, e conforme buscamos demonstrar, os signos de intelectualidade também eram feminis.
REFERÊNCIAS
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- BLAKE, Augusto Victorino Alves. Diccionario Bibliographico Brasileiro (volume 7). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1902 [1883-1902].
- BOSI, Alfredo. Dialética da colonização São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
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DINARTE, Silvio (pseudônimo de Visconde de Taunay). Lágrimas do coração: manuscrito de uma mulher Rio de Janeiro: Editora F. Thompson, 1872. Disponível em: Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=LS8BAAAAMAAJ&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false Acesso: 17 set. 2024.
» https://books.google.com.br/books?id=LS8BAAAAMAAJ&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false - DONEGÁ, Ana Laura. Viajante, polígrafo e erudito: Ferdinand Denis (1798-1890) no espaço literário franco-brasileiro. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2020.
- ESPAGNE, Michel. Transferências Culturais e História do Livro. Tradução de Valéria Guimarães. LIVRO - Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição, São Paulo, n. 2, 2012.
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GRANJA, Lúcia.; LIMA, Lilian Tigre. Leitores e leituras de Honoré de Balzac no Brasil do século XIX. Polifonia, [S. l.], v. 23, n. 34, p. 151-164, 2017. Disponível em: Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/polifonia/article/view/5353 Acesso em: set. 2024.
» https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/polifonia/article/view/5353 - MARCO, Valeria de. O Império da Cortesã: Lucíola, um perfil de Alencar. São Paulo: Martins Fontes, 1986.
- MASSAUD, Moisés. História da Literatura Brasileira (Volume II - Romantismo). São Paulo: Editora da USP, 1984.
- RIBEIRO, Luis Filipe. Mulheres de papel: um estudo do imaginário em José de Alencar e Machado de Assis 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária: Fundação Biblioteca Nacional, 2008.
- ROMERO, Sílvio. História da Literatura Brasileira (5º vol. 7 ed.). Rio de Janeiro: INL/MEC, 1980 [1888].
- SAAD, Pedro Fernandes (editor). Franceses no Brasil - 200 anos da missão artística | Les Français au Brésil: Les 200 ans de la mission artistique (PT/FR). Tradução de Marly Peres. São Paulo: Editora Brasileira, 2015.
- SALVAIA, Priscila. O lugar da mulher no jornal O Globo - Do noticiário estrangeiro: até parece que as mulheres fazem as leis. In: SALVAIA, Priscila. Diálogos possíveis: o folhetim Helena (1876), de Machado de Assis, no jornal O Globo. 2014. Dissertação (Mestrado em Teoria e História Literária) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2014. p. 68-86.
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SAND, George. Césarine Dietrich, 1871. Disponível em: Disponível em: https://www.gutenberg.org/ebooks/14564 , Acesso: 13 set. 2024.
» https://www.gutenberg.org/ebooks/14564 - SAND, George. História da minha vida Organizado por Magali Oliveira Fernandes; traduzido por Marcio Honorio de Godoy. São Paulo: Editora da UNESP, 2017.
- TAUNAY, Visconde de. Ouro sobre azul São Paulo: Editora Melhoramentos, 1921.
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VASCONCELOS, Sandra Guardini T. A Formação do Romance Brasileiro: 1808-1860 (vertentes inglesas). 2002. Disponível em: Disponível em: http://www.caminhosdoromance.iel.unicamp.br/estudos/ensaios/formacao.pdf Acesso: 12 set. 2024.
» http://www.caminhosdoromance.iel.unicamp.br/estudos/ensaios/formacao.pdf - WAUGH, Patricia. Metafiction: The Theory and Practice of Self-Conscious Fiction Oxfordshire: Routledge, 2015.
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1
De acordo com Sandra Guardini T. Vasconcelos, o romance, na sua acepção moderna, seria imediatamente associado ao popular e visto como leitura pouco recomendável - passatempo de mulheres ociosas - ou, ainda, como corruptor de costumes. Contudo, e exatamente por seu apelo popular, com o tempo, muitos passariam a ver nele um precioso instrumento pedagógico (Vasconcelos, 2002).
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2
Os jornais citados foram consultados através do site da Hemeroteca Digital Brasileira (Fundação Biblioteca Nacional-BN). Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/. Acesso: 18 set./2024.
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3
O romance-folhetim Flamarande, de George Sand, foi publicado no jornal O Globo entre setembro de 1875 e janeiro de 1876; e Os dois irmãos (continuação de Flamarande), também de George Sand, foi publicado entre janeiro e fevereiro de 1876.
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4
Citamos: “Ouro sobre azul é um romance de costumes fluminenses escrito dia a dia, quase todo ele, para O Globo, creio, jornal do Rio de Janeiro, desde muito desaparecido, e que o publicou em folhetins sobremodo apreciados, então. Começara-o o escritor dando-lhe o título de Razão e Coração, escrevera-lhe os primeiros capítulos e o deixara a um lado, absorvido por outros trabalhos literários, encargos e deveres da vida pública e militar. Instado a escrever uma novela em rodapé para o diário fluminense, em cuja direção estavam amigos seus, retomou o romance e rapidamente o conclui. Ouro sobre azul causou a melhor impressão aos seus leitores, é de leitura agradável e animada, tem o seu entrecho e sobretudo retrata com a maior fidelidade e real felicidade, os costumes da alta sociedade carioca da época.” (Taunay, 1921, p. 3-4).
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5
O jornal com o capítulo referenciado encontra-se deteriorado, por isso, citamos tal trecho a partir da edição da Melhoramentos, de 1921.
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6
A personagem não possui nome próprio.
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7
No original: “[...] Je veux abdiquer entre vos mains pour élever une femme, il faut une femme.”
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8
No original: “[...] — C'est bien simple, répondit-elle. S'il peut se passer de moi, il ne se souciera plus de moi.” (Sand, 1871, p. 9).
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9
No original: “[...] Elle réparait les allures éventées de sa jeunesse et l'excès de son indépendance par une soumission au devoir et par une bonté sérieuse.”
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Declaração de disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
