RESUMO
Este artigo dá notícias sintéticas dos resultados de uma pesquisa sobre os papeis editoriais de Machado de Assis, que incluem suas relações com o universo editorial brasileiro e o fato de ter sido editor de si mesmo. Analisam-se, a partir de fontes primárias e em diálogo com a bibliografia crítica que vem estudando as relações editoriais do autor, os embates do escritor com seus editores e a busca por autonomia editorial nos primeiros 20 anos de sua produção literária, sobretudo a partir de 1876.
PALAVRAS-CHAVE:
Machado de Assis; edição; Helena; Memórias póstumas de Brás Cubas; Papéis avulsos
ABSTRACT
This article synthesizes the results of a research project on Machado de Assis’ editorial roles/documents, including his relations with the Brazilian publishing world and the very fact that he became his own publisher. It analyzes, based on primary sources and in dialogue with the critical bibliography that studies the author's editorial relations, the writer's conflicts with his publishers and his search for editorial autonomy. This paper considers the first twenty years of his literary production, especially from 1876 onwards.
KEYWORDS:
Machado de Assis; publishing; Helena; Memórias póstumas de Brás Cubas; Papéis avulsos
No sítio eletrônico da Academia Brasileira de Letras, quando se apresenta a biografia de seu fundador, informa-se que a “obra de Machado de Assis foi, em vida do autor, editada pela Livraria Garnier, desde 1869”.1 Nos estudos recentes sobre Machado, algumas pesquisas demonstram, no entanto, que essa história de publicações não foi tão regular, nem tão pacífica. Se observarmos a multiplicidade de livrarias, tipografias e editoras nas quais Machado publicou seus livros, desde o início (1861) até Papéis avulsos (1882), a diversificação editorial torna-se motivo de investigação, tanto quanto o fato de que houve uma suposta pacificação posterior nas relações entre Machado e os sucessivos editores Garnier.
Também é uma imprecisão a informação de que Machado de Assis tenha passado, em um dado momento, a ser autor “de Garnier”. Hippolyte e Auguste Garnier eram responsáveis pela prestigiosa livraria e editora parisiense, além de sócios da livraria e distribuidora de livros Garnier no Rio, mas foi Baptiste-Louis Garnier quem investiu no negócio da publicação de autores brasileiros, sem a participação dos irmãos livreiros e editores estabelecidos em Paris. Foi apenas após o falecimento de Baptiste-Louis, e sendo que Auguste Garnier já havia falecido em 1887, que Hippolyte Garnier se tornou o principal herdeiro de Baptiste-Louis (Granja, 2020; 2023), e decidiu dar continuidade aos negócios brasileiros, já que não os acompanhava de perto.
Na verdade, uma atitude de Hippolyte mostra que o editor parisiense não tinha interesse nos negócios da livraria e editora Garnier do Rio de Janeiro. Por meio de uma procuração de 26 de dezembro de 1893 (Procuration par M. Garnier & autres à M. Lansac, 1893), ou seja, menos de três meses depois do falecimento do irmão que vivera sob os trópicos, Hippolyte enviou Julien Emmanuel Bernard Lansac ao Rio de Janeiro (aquele que viria a ser gerente da livraria no início de sua nova fase) para liquidar e vender todos os negócios, bens e propriedades deixados por Baptiste-Louis. Aos poucos, provavelmente apoiando-se no diagnóstico de Lansac, Hippolyte Garnier decidiu manter os negócios no Rio de Janeiro e continuou, por meio dos gerentes da sucursal brasileira, a investir no quadro de autores que o irmão havia formado, entre eles Machado de Assis. A estabilidade de nosso autor na Garnier deu-se, portanto, a partir de Histórias sem data (1884), como se verá, razão pela qual este artigo encerra-se em Papéis avulsos (1882).
Apesar de ainda publicar contos, novelas e mesmo a primeira versão de Quincas Borba na imprensa, Machado de Assis voltaria a fazer aparecer seus livros pela editora de B.-L. Garnier, a partir de 1884 até 1893, que foi o ano da morte do editor. Na sequência, ele publicou Várias Histórias (1896) pela Laemmert, pois Hippolyte Garnier ainda não havia decidido se manteria ou não os negócios editoriais do irmão, como se mencionou. Logo, só a partir de 1898, Machado tornou-se, por contrato, autor da filial brasileira da casa Garnier de Paris e ali publicou o restante de sua obra, produzindo também novas edições de obras anteriores. Mas, antes da bonança, as escolhas foram tempestuosas2.
Machado de Assis vinha diversificando - em gênero, mas também nas relações com editores - as suas publicações, entre 1861 e 1882. Seus poemas, contos, romances e a dramaturgia saíram por meio de diferentes editores, livreiros e tipógrafos, por várias razões, entre as quais reconhecemos obrigações assumidas, oportunidades, e, o mais importante para uma pesquisa sobre Machado de Assis como editor, o desejo de controlar editorialmente a sua obra.
Como se vê pela enumeração abaixo, entre 1861 e 1881, os livros de Machado de Assis emergiram: do vínculo com Paula Brito ao menos até a morte do livreiro-editor, em cuja casa publicou a tradução Queda que as mulheres têm pelos tolos (1861) e a “fantasia dramática” em um ato, Desencantos (1861); da provável autopublicação da comédia em um ato O Caminho da Porta, 1863, na extensa coleção “Teatro Moderno Luso-Brasileiro” da Livraria Cruz Coutinho; da pronta republicação da mesma peça, acrescida de O protocolo, no volume Teatro, em 1863, pela Tipografia do Diário do Rio de Janeiro, pertencente ao jornal liberal homônimo dirigido por Joaquim Saldanha Marinho e Quintino Bocaiuva, periódico com o qual Machado de Assis tinha profundas relações, o que deve tê-lo ajudado a não pagar pelo livro; da publicação de mais duas peças de teatro, Quase ministro, 1864, pela Tipografia Escola Editor Serafim José Alves, e Os Deuses de Casaca, 1866, pela Tipografia Imperial do Instituto Artístico; dos poemas de Crisálidas, 1864, primeiro volume de Machado de Assis na editora de B.-L. Garnier; do aparecimento das Falenas e Contos Fluminenses pela B.-L. Garnier, em coedição com o francês Germain-Eugène Belhatte (ambos em 1870, tendo sido os contos impressos em Paris, em 1869); da publicação da ficção curta e longa de Machado na forma de livro, com Ressurreição (1872) e Histórias da Meia-Noite (1873), ambas pela B.-L. Garnier, sem coedição; da transposição do romance A mão e a luva do jornal ao livro, já que ele apareceu seriadamente em O Globo entre 26 de setembro e 3 de novembro de 1874 e, imediatamente depois, pelo Editores Gomes de Oliveira e Tipografia de O Globo, a partir da tipografia do periódico; da transposição do romance Iaiá Garcia (1878) do jornal ao livro, antes publicado no periódico O Cruzeiro entre 1° de janeiro e 02 de março de 1878, o qual saiu como livro por ação de G. Vianna & C. Editores, a tipografia do periódico, logo após a publicação seriada no jornal; da publicação das Americanas (1875) por B.-L Garnier, na mesma coleção in-8o na qual Helena viria a circular, a “Bibliotheca Universal romance, viagens, política e poesias”.
A lista não aparece em ordem rigorosamente cronológica, mas foram aproximados os casos editoriais similares, além de omitidos os de Helena, Memórias póstumas e Papéis avulsos, os quais serão estudados mais detalhadamente a seguir. Resta, antes, comentar, a partir dos casos de A mão e a Luva e de Iaiá Garcia, que, na falta de documentos, supõe-se ter havido uma obrigação contratual ligando a publicação desses dois romances seriados nos jornais à passagem imediata para a forma de livro, quer em O Globo quer em O Cruzeiro, o que leva a uma segunda suposição, a de que a obrigação contratual, se ela existia, era de interesse do autor. Em ambos os casos, nos livros, os proprietários dos periódicos assinam como “editores” e, neles, os textos passaram por novo processo de composição tipográfica, uma vez que a comparação da publicação nos jornais com as primeiras edições não revela identidade de matrizes.
Lajolo e Zilberman observaram há mais de duas décadas que os contratos que Machado de Assis assinou com Garnier evidenciam as negociações constantes entre autor e editor. Por exemplo, do contrato assinado para a edição de Crisálidas, em 1864, para aquele assinado para a edição de Ressurreição, O manuscrito do licenciado Gaspar e Histórias da meia-noite, em 1869, manteve-se a condição da “venda da propriedade plena e inteira”, mas houve aumento de tiragem e discreto aumento no valor pago por exemplar ao autor (Lajolo; Zilberman, 1998, p. 94). Essas e outras constantes negociações com Garnier (Granja, 2020) sugerem que as relações entre editor e escritor não fluíam tranquilamente. Após os vários volumes que publicara “chez B.-L. Garnier” - Crisálidas (1864), Falenas (1870), Contos Fluminenses (1870), Histórias da Meia-Noite (1873), Americanas (1875) e Helena (1876), com especificidades que retomaremos - Machado interromperia a publicação por meio desse editor, desde Iaiá Garcia (1878) até Histórias sem data (1884).
Para revelar com segurança que Machado de Assis buscava o controle editorial sobre sua obra, a ponto de ter se tornado editor de si mesmo, é preciso esmiuçar a história da publicação do romance Helena. Sua primeira versão deu-se no jornal O Globo, entre 6 de agosto a 11 de setembro de 1876. Mais tarde, a primeira edição em livro, como mostram as informações materiais representadas pela imagem abaixo (Figura 1), resultou de uma coedição de B.-L. Garnier, no Rio de Janeiro, e de Ernesto Chardron, no Porto, juntamente com Eugênio Chardron, em Braga e de Carvalho e Cia, em Lisboa:
Página de rosto da primeira edição de Helena, de Machado de Assis. Fonte: Acervo digital da biblioteca Braisliana Guita e José Mindlin. Acessível em https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4827
O frontispício do romance, além das indicações a respeito do quarteto de editores em coedição internacional, evidencia a data de publicação, 1876, bem como o fato de Helena integrar uma coleção In-8o (no século XIX, um formato para consumo, ou seja, não exclusivo de livros resultantes de edições luxuosas), intitulada “Bibliotheca Universal. Romances, viagens, política, poesias, etc.”, sendo o exemplar vendido a 2.000 réis (preço corrente desse tipo de volume no Brasil). O preço é o do livro que circularia no Brasil3 e, estando impresso na página de rosto, aponta ainda para uma encadernação brasileira do romance, apesar da parceria com os portugueses.
Machado de Assis prefaciou-se constantemente em seus livros, atento à questão tipográfica, à textualidade e a outras questões relativas à materialidade, o que justifica o seu alto investimento em preambulares (Salla; Salgado, 2020; Salla; Aguilar, 2023). No entanto, uma informação preciosa veiculada na “Advertência” à segunda edição de Helena, de 1905, tem passado despercebida da crítica machadiana:
“ADVERTÊNCIA
Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras, que não alteram a feição do livro. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi, diverso do que o tempo me fez depois, correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito, naquele ano de 1876 (...). M. de A. (Assis, 1905, grifos nossos).
Apesar de o paratexto afirmar há mais de um século que Machado atuou na publicação do texto em livro, como se destaca na citação do trecho acima, cristalizou-se a ideia de que Helena foi publicado seriadamente em O Globo e depois, em livro, “por Garnier”. Agora, para associar fontes e entender melhor o fato de que Machado de Assis foi o publisher e o editor de Helena,4 tendo composto e impresso o romance em 1876, é preciso que se façam algumas apostas críticas e historiográficas. Em primeiro lugar, afirmar que Garnier e associados, não apenas Garnier, foram editores de capa, e não publishers, do romance Helena; a seguir, ter coragem de desconsiderar, ao menos provisoriamente, as tão atuais e necessárias discussões sobre a autoria e as assinaturas machadianas (Santos, 2021; Guimarães, 2023), ao entender que “M. de A” são, simplesmente, as iniciais do nome da pessoa Machado de Assis; por fim, assumir que se faz essa escolha de interpretação, a de que Machado de Assis foi publisher/editor de Helena, com base em documentos muito anteriores ao paratexto de 1905, intervalo de silêncio e revelação que clamam por uma explicação.
Só a publicação do romance Helena já apresenta um quadro interessante em si, mas o processo também deixa ver de forma mais completa o movimento da publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas e de Papéis avulsos. Comecemos pelo princípio.
Helena, romance, foi publicado seriadamente em O Globo (6 de agosto a 11 de setembro de 1876), tendo sido negociado com a Garnier brasileira nas seguintes condições:
Contrato de venda de Helena do Valle, entre Machado de Assis e B. L. Garnier
1º
Joaquim Maria Machado de Assis vende a B. L. Garnier a primeira edição que vai mandar imprimir na Tipografia do Globo, depois de ter saído em folhetim, de seu romance intitulado Helena do Valle, composta de mil e quinhentos exemplares (1500 exemplares), o qual formará um volume do formato do das Histórias da meia-noite, e igual pouco mais ou menos em tudo a este último volume, pela quantia de seiscentos mil réis (Rs 600$000), pagáveis no ato da entrega da dita edição.
2º
Joaquim Maria Machado de Assis não poderá reimprimir, sob qualquer forma que seja, o romance Helena do Valle, antes desta primeira edição estar esgotada, salvo se comprar primeiro ao editor todos os exemplares que ficarem em ser, ao preço de venda para o púbico.
3°
Em fé de que passaram as partes dois contratos de igual teor por cujo cumprimento se obrigam por si e seus bens, bem assim por seus herdeiros e sucessores, e que trocaram entre si depois de assinados.
Rio de Janeiro, 29 de abril de 1876
Jm Maria Machado de Assis.
B. L. Garnier
Recebi a quantia de seiscentos mil réis, importância deste contrato.
Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1876
Jm M. Machado de Assis.
(Contrato celebrado entre Joaquim Maria Machado de Assis e o editor B. L. Garnier (...), 1876).
É preciso observar que houve uma mudança de estratégia para a publicação em livro entre A mão e a luva (1874) e Helena (1876), ambos saídos em O Globo, o que se explica, em boa parte, pela atrativa coedição entre B.-L. Garnier, no Rio, e os Chardron/Carvalho, em Portugal. Helena, esse romance seriado só começaria a ser publicado em 06 de agosto de 18765 em O Globo, mas foi vendido a B. L. Garnier já em 29 de abril de 1876, nas seguintes condições: “Joaquim Maria Machado de Assis vende a B. L. Garnier a primeira edição que vai mandar imprimir na Tipografia do Globo”.
Embora a forma verbal aqui seja ambígua (quem vai mandar imprimir, Machado ou Garnier?), o contexto deixa ver que é Machado de Assis, ele próprio, quem imprimirá o romance na tipografia do jornal O Globo, depois de ele ter saído em folhetim, uma vez que as relações com o periódico, que datavam de alguns anos, eram com o autor do romance. Para além disso, o contrato deixa claro que Machado era o responsável pela publicação em seu segundo parágrafo, quando se declara que ele “não poderá reimprimir, sob qualquer forma que seja, o romance Helena do Valle, antes desta primeira edição estar esgotada”, a não ser que comprasse de Garnier, aqui nomeado “editor” os exemplares restantes. Em terceiro lugar, o antes mencionado prefácio da segunda edição de Helena, em 1905, dá-nos a prova cabal da atuação editorial do escritor, que compôs e imprimiu o romance em forma de livro, ou seja, pagou por nova composição tipográfica - entre a edição do jornal e a do livro não houve, como se disse, aproveitamento de composição - e pela impressão do livro, na posição do editor e de publisher.
O documento acima transcrito foi assinado em 29 de abril de 1876, três meses e meio antes de a narrativa começar a ser publicada n’O Globo. Providencialmente, o recibo mostra que Machado de Assis recebeu o pagamento da edição no final de agosto, poucos dias antes de o folhetim ser lançado no periódico (25 de agosto de 1876). Tudo se passa no futuro: Machado vende a B.-L. Garnier a primeira edição, em mil e quinhentos exemplares, que imprimirá depois de ter saído em folhetim (ou seja, depois de Machado de Assis ter escrito o romance seriado e negociado a sua publicação no periódico). Além do mais, para pagar por essa edição que o escritor-editor Machado de Assis preparava, ele buscara, já em abril, seus meios: vender o texto que seria impresso a Garnier e, supostamente, ganhar algum dinheiro, visto que ele também receberia pela publicação no jornal e poderia, com uma das duas fontes, pagar pela composição/impressão (e se supõe que tenha ganho dinheiro de pelo menos uma delas, provavelmente a da publicação do romance em folhetim, embora, como entre uma e outra edição não houve aproveitamento de composição, evidenciem-se os gastos da nova empreitada tipográfica).
Em resumo, no caso de seu romance Helena, Machado de Assis foi quem preparou o seu texto para a publicação (ele foi o editor, em inglês) e, ao mesmo tempo, funcionou como um editor (foi também o publisher, em inglês), à medida que, com Garnier e com a venda do folhetim a O Globo, conseguiu meios para pagar pela composição e impressão dos cadernos que constituiriam o miolo do livro, tudo isso feito na tipografia do periódico que já compusera e publicara a versão do texto em romance seriado, arranjo primeiro do escritor-editor para a veiculação de seu romance6. A ação editorial de Garnier/Chardron/Carvalho torna-se bem clara: eles se limitaram apenas a emprestar à Helena o selo editorial, bem como o da coleção luso-brasileira, tendo agido como editores de capa, além de inserir o romance em uma coleção binacional de obras “universais”. B.-L. Garnier funcionou também como vendedor do livro. Ao longo do tempo, a publicação na qual trabalhou e pela qual Machado pagou acabou circulando como se fosse resultado unicamente de Garnier, embora, verdadeiramente, a parceria Garnier, Chardron e Carvalho & Cia, em 1876, acrescentasse valor simbólico ao romance e à autoria dele, pois a coedição e a coleção indicavam uma possível circulação em Portugal.
Que outros mistérios envolvem Helena? Como lembra Hélio Guimarães, Lúcia-Miguel Pereira chegou mesmo a classificá-lo como um “dramalhão” (2004, p. 160), sendo o romance “frequentemente tratado como súmula dos defeitos da primeira fase do romancista”, um texto cuja estranheza “vem sempre associada à sua carga sentimental e melodramática” (Guimarães, 2004, p. 158-159). Talvez essas leituras dos críticos, recuperadas por Guimarães, ganhem cores novas ao se analisar o mais material dos problemas de autores e editores literários: o dinheiro. O jornal O Globo: Orgão da Agência Americana Telegraphica dedicado aos interesses do Commercio, Lavoura e Industria (1874-1876) foi fundado como representante da agência Havas no Rio de Janeiro, por Manoel Gomes de Oliveira, em 1874. Apesar do proprietário banqueiro, o periódico passou por problemas financeiros e o capital da empresa foi aberto nos anos seguintes, tendo O Globo se tornado uma sociedade anônima. No Arquivo Nacional (RJ), existem documentos referentes à sociedade comanditária que se formou na direção de O Globo (Livro 60 da Junta Comercial, registro 16.903, p. 18-25 verso). Por eles, vê-se que Quintino Bocaiuva, velho amigo de Machado de Assis, é referido como diretor do jornal a partir de 1876. No mesmo documento, declara-se que ele se tornava sócio solidário responsável da empresa jornalística, mas não podia investir mais do que treze cotas mensais, se não aumentasse a tiragem do jornal (e o número de assinantes/leitores, evidentemente), que era de 4000 exemplares, o que dá matéria à reflexão sobre o tipo de romance publicado no espaço do entretenimento, o rodapé. Talvez a publicação de folhetins traduzidos de autores importantes da época, como Théophile Gautier, ou brasileiros (A mão e a luva, de Machado de Assis, a partir de 26 de setembro de 1874 e, antes dele, os capítulos iniciais de A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, publicados entre 03 e 06 de setembro de 1874), já fosse uma estratégia para o aumento das vendas. Mas, à época em que abriu seu capital, O Globo declarou em suas páginas as dificuldades financeiras pelas quais passava, em artigo de 25 de agosto de 1876, clamando por leitores e por assinantes (Salvaia, 2014, p. 20).
Nesse sentido, o romance de revelações e reviravoltas, Helena, publicado justamente a partir de 06 de agosto de 1876, para cuja publicação Machado de Assis aportou a O Globo parte do pagamento recebido pela venda da edição do romance a Garnier, pode fazer parte de uma estratégia para aumentar vendas e entrada de recursos no jornal. Pode ser até que essa entrada de recursos fosse uma exigência da direção do jornal, do bom e conhecido jornalista Bocaiuva. No entanto, a criação de um texto dinâmico, baseado em revelações, interditos e reviravoltas, é criação “espontânea” de Machado de Assis, que escreveu um romance que despertaria a atenção do público assinante, para cuja publicação no jornal e, logo após, em livro, com nova composição pela tipografia do próprio jornal, ele mesmo, o autor-editor, aportou recursos.
A partir de Helena, Machado de Assis interrompeu a publicação de sua ficção por meio de parcerias com Garnier, ou de ações do editor, desde Iaiá Garcia (1878) até Histórias sem data (1884). Depois da complexidade editorial do romance de 1876, fica mais fácil entender que Machado de Assis foi igualmente publisher e editor de Memórias póstumas de Brás Cubas. Em 12 de janeiro de 1881, quando o romance, na forma livro, já era anunciado pelos jornais, Machado de Assis assinou mais um recibo para Garnier, documento que agora pode nos revelar novidades:
Recebi do Ilmo. Sr. B. L Garnier a quantia de seiscentos mil réis, importância quatrocentos e setenta exemplares do meu livro Memorias Póstumas de Brás Cubas, obrigando-me a não fazer 2ª edição do referido livro antes que o dito L. Garnier haja vendido aqueles exemplares.
Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1881
Machado de Assis
190 N° 488
Machado de Assis
Pa 190, No. 488
Memorias de Brás Cubas
R$ 600$000
Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1881.
Memórias póstumas de Brás Cubas fora publicado seriadamente na Revista Brasileira entre 15 de março e 15 de dezembro de 1880. No recibo acima, de 12 de janeiro de 1881, as datas e o pronome oblíquo falam por si: “(...) obrigando-me a não fazer a 2ª edição do referido livro antes que o dito L. Garnier haja vendido aqueles exemplares” (Recibo de Memórias póstumas de Brás Cubas..., 1881, grifos nossos)8. Em primeiro lugar, observemos que a restrição de não refazer a edição enquanto Garnier não tivesse vendido os exemplares do livro, similar a que havia no contrato de Helena, explica o porquê de o romance jamais ter sido reeditado enquanto viveu Baptiste-Louis, ou seja, até 1893, tendo o inovador romance recebido segunda edição em livro, chamada de a “terceira edição”, em 1896, já pela H. Garnier, de Paris. No campo da recepção do romance, o fluxo de vendas não é lisonjeiro, sobretudo porque, como mostra o recibo, Garnier tinha apenas quatrocentos e setenta exemplares para vender (estranho número para uma edição, que se supõe ter sido de mil exemplares); já no campo das tensões editoriais envolvendo Machado e Garnier, mais uma vez, o editor Machado de Assis atuou na preparação e pagou pela edição de seu livro, como no caso de Helena, assumindo todos os custos preliminares e cedendo a B.-L. Garnier, para revenda, alguns exemplares da edição. Nesse caso, B.-L. Garnier não foi considerado para ser, nem mesmo, o editor de capa do romance que Machado de Assis teria definido como aquele que o apresentaria no exterior, em tradução. Pode ser que tudo isso se deva ao fato de que Machado não tenha encontrado apoio editorial para seus novos projetos literários, ousados, como se sabe. No entanto, no campo das certezas, tornar-se editor de si mesmo conferia-lhe rigoroso controle, inclusive editorial, sobre sua obra, o que fica evidente pela consciência dos poderes sobre a propriedade literária, por meio, por exemplo, de documentos pelos quais Machado de Assis impôs uma limitação no tempo concedido a uma possível autorização de tradução de Memórias póstumas para o alemão, em 1888 (Guimarães, 2012; Granja, 2018, 2023).
Na visão do já casmurro Bento Santiago, Capitu, se quisesse ou precisasse, iria à Europa aos saltinhos, estendendo uma fila de canoas que ligasse os dois continentes. Nessa mesma lógica, os documentos aqui enfileirados fazem progredir o argumento pouco a pouco, por ligação entre eles. Depois de Helena e das Memórias póstumas, um novo recibo a respeito de Papéis avulsos, de outubro de 1882, traz relações de similaridade:
Recebi do Ilmo. Sr. B. L. Garnier a quantia de novecentos e cinquenta mil réis (950$000), pela primeira edição, em novecentos e cinquenta exemplares, que nesta data lhe transmito, como plena propriedade do meu livro Papéis Avulsos, obrigando-me a não o reimprimir antes de esgotada a dita 1a. edição.
Rio de Janeiro, 25 de outubro de 1882.
Machado de Assis.
(Recibo de Papéis Avulsos..., 1882, grifos nossos).
O documento mostra que Garnier, mais uma vez, agia como vendedor de livros em relação a Papéis avulsos, já que os exemplares deixados para venda, desta vez em maior número que no caso do romance anterior, correspondem à primeira edição da obra (chamada de “livro”). Existe uma complexidade nesse processo, no entanto, a de que Machado de Assis, o publisher, agora transmite a plena propriedade a Garnier, que, desta vez, não insere na capa o seu selo (consta da primeira edição a evidente marca de Lombaerts, tipógrafo, litógrafo e encadenador). O francês Garnier passou a ser, paradoxalmente, livreiro e proprietário, com direito absoluto e exclusivo sobre esta primeira edição de Papéis avulsos, o que, se analisado apressadamente, jogaria uma pá de cal sobre o debate a respeito do controle editorial de Machado de Assis, embora Brás Cubas tenha permanecido sob sua inteira propriedade, o que é preciso sempre destacar. No entanto, olhando com mais cuidado, Machado transferia a propriedade da obra a Garnier, durante o período em que esse agisse como vendedor dos livros. Caso complicado, como se vê, pois Machado de Assis, ao mesmo tempo, concedia e limitava o poder de Garnier sobre a propriedade literária de sua obra, enquanto outros escritores seus contemporâneos, brasileiros e estrangeiros (e o próprio Machado, anteriormente), haviam cedido a Garnier a propriedade plena e inteira, mesmo perpétua, sobre a integralidade das edições referentes às suas criações9. Importante salientar que o cuidado com a propriedade literária não era exclusividade de Machado de Assis (Godói, 2017; Lajolo; Zilberman, 2015; Augusti, 2012)10 e que eram cada vez mais frequentes os debates sobre o assunto, sendo que o próprio Machado viria atuar ativamente, ao lado de Pardal Mallet, em uma campanha pelo direito autoral (Magalhães Júnior, 1981, p. 164-170).
A edição de Papéis avulsos totalizava, provavelmente, mil exemplares, dos quais o autor reteve cinquenta para oferecer a quem de direito fosse. No recibo citado, o pronome oblíquo “me”, como no recibo de Memórias póstumas, mostra que Machado de Assis foi publisher, ou seja, imprimiu a obra em Lombaerts depois a ter mandado compor, pois, sendo uma recolha de contos, ele não poderia utilizar as mesmas matrizes dos textos publicados em periódicos (a maioria dos contos apareceu na Gazeta de Notícias, mas também em A Época, A Estação, O Cruzeiro e no Jornal das Famílias). O autor-editor Machado de Assis recebeu mil réis por exemplar (950 mil reis por 950 exemplares), ou seja, valor similar ao caso de Brás Cubas, quando recebeu 600 mil réis por 470 exemplares, metade do preço habitual de um volume de cerca de trezentas páginas, com encadernação simples, à época. Desses mil réis, extraía-se, é claro, a composição do livro e a tiragem, de modo que, na falta de dados, arriscamo-nos a concluir que não sobrasse muito para o escritor. Garnier receberia mil réis pela venda de cada exemplar, sem adquirir a propriedade perpétua sobre a obra Papéis avulsos.
Por fim, a transição de Machado editor de volta à Garnier, com apelo a Lombaerts como impressor (o que está bem indicado nas páginas iniciais dos exemplares), em 1882, também faz supor que, a partir de 1884, Machado concordaria em oferecer a seu antigo editor, novamente, os papéis de livreiro, editor e, provavelmente, publisher da primeira edição de sua nova recolha de contos, Histórias sem data.
Conclusão
Nos caminhos percorridos por Machado de Assis em busca da “singularidade contemporânea do escritor”, a celebridade, conforme definida por Lilti (2014, p. 12), tem sido fundamental para a recepção atual, o aprofundamento nas relações entre a literatura machadiana e a materialidade dos veículos nos quais ela circulou, com evidentes ganhos para um questionamento de certezas da história literária, como propõe Zilberman (2004, p. 17-117). Nesse quadro, está contida a intervenção editorial do escritor na produção, publicação e circulação de seus textos em livro, os quais aparecem mesmo como consequências de escolhas de publicação nos periódicos da época.
Machado de Assis, desde o início de sua carreira, posicionou-se como um autor que incluiu em seu projeto artístico algum controle sobre a produção e distribuição das edições de suas obras, o que é evidenciado pela variedade de livrarias, tipografias e editoras que acolheram seus textos finais, muitos deles trasladados do jornal ao livro. Isso transborda na percepção de que Machado de Assis foi, em momentos muito importantes de sua trajetória e de maneiras complexas, editor de si mesmo, por motivos variados, entre os quais a busca por liberdade para sua experimentação e, sobretudo, a tentativa de manutenção da propriedade literária (e de tradução) sobre a sua criação.
Ao fim e ao cabo, este trabalho debruçou-se sobre um homem de letras lutando para publicar e cuidar de sua obra, como ainda não nos fazem saber as biografias do autor ou os textos de apresentação, de natureza laudatória. Se o objetivo é vasto, os documentos enfileirados vão criando passagem para ideias provenientes de caminhos sinuosos, dos livros aos arquivos, por meio dos quais se espera alcançar o fim proposto. Para fazer como Capitu, que conhecia as suas possibilidades e por isso despertava a invídia de Bentinho, trata-se de uma concepção grande, executada por meios pequenos, ao longo dos anos.
Referências
- AUGUSTI, Valeria. Os fundamentos da propriedade literária por José de Alencar. Todas as Letras, São Paulo, v. 14, n. 1, p. 209-216, 2012.
- ASSIS, Machado de. Helena Rio de Janeiro: Garnier; Porto: Ernesto Chardon; Braga: Eugenio Chardon; Lisboa: Carvalho & Cia, 1876.
- ASSIS, Machado de. Helena Paris: H. Garnier, 1905.
- GODÓI, Rodrigo de Carmargo. José de Alencar e os embates em torno da propriedade literária no Rio de Janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 30, n. 62, p. 573-596, set-dez, 2017.
- GRANJA, Lúcia. Três é demais! (ou Por que Garnier não traduziu Machado de Assis?). Machado de Assis em Linha, v. 11, n. 25, p.18-32, 2018b.
- GRANJA, Lúcia. Das revistas aos livros: Machado de Assis, Jules Verne e seus editores. SOLetras, n. 40, p. 373-387, jul./dez. 2020.
- GRANJA, Lúcia. Machado de Assis, papéis editoriais: Memórias Póstumas de Brás Cubas In: GRANJA, Lúcia; SARAIVA, Juracy Assmann; ZILBERMAN, Regina (org.). Machado de Assis: o autor, o leitor, o crítico. São Paulo: Alameda Editorial/Editora Nankin, 2023. p. 103-127.
- GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Uma vocação em busca de línguas: as (não) traduções de Machado de Assis. In: GUERINI, Andreia; FREITAS, Luana; COSTA, Walter Carlos (org.). Machado de Assis, tradutor e traduzido Florianópolis: Editora da UFSC, 2012. p. 35-43.
-
GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Figurações autorais de Machado de Assis nas primeiras recolhas, coletâneas e antologias. Remate de Males, Campinas, v. 43, n. 2, p. 369-391, 2023. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.20396/remate.v43i2.8675002 Acesso em: 03 de janeiro de 2024.
» https://doi.org/10.20396/remate.v43i2.8675002 - GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis O romance machadiano e o público de literatura no século XIX. São Paulo: Nankin Editorial; Editora da USP, 2004.
- LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A profissionalização do escritor no Brasil do século XIX. Fragmentum, Santa Maria, n. 45, p. 65-92, 2015.
- LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil 3a ed. São Paulo: Editora Ática, 1998.
- LILTI, Antoine. Figures publiques L'invention de la célébrité (1750-1850). Paris: Fayard, 2014. Collection “L'épreuve de l'histoire”.
- MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. Vida e obra de Machado de Assis 4 vols. (Aprendizado, Ascensão, Maturidade e Apogeu). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1981.
- PINHEIRO, Alexandra. Entre contratos e recibos: o trabalho de um editor francês no comércio livreiro do Rio de Janeiro oitocentista. In: ABREU, Marcia (ed.), Trajetórias do romance: circulação, leitura e escrita nos séculos XVIII e XIX. Campinas: Mercado das Letras, 2008. p. 171-186.
- QUEIROZ, Juliana Maia de. Romances brasileiros em Portugal: a conexão das casas Chardron e Garnier. In: ABREU, Marcia (org.). Romances em movimento: a circulação transatlântica dos impressos (1789-1914). Campinas: Editora da UNICAMP, 2016. p. 121-134.
-
SALLA, Thiago Mio; AGUILAR, Luiza Helena Damian. Preambulares machadianas em perspectiva retórica: captação de benevolência e ação diretiva sobre o leitor. Machado Assis em linha, v. 16, 2023. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1590/1983-68212023167 Acesso em: 14 de maio de 2024.
» https://doi.org/10.1590/1983-68212023167 -
SALLA, Thiago Mio; SALGADO, Lara Cammarota. Machado de Assis editor e suas páginas recolhidas. Machado Assis em linha, v. 13, 2020. Disponível em: Disponível em: https://doi.org/10.1590/1983-6821202013292 Acesso em: 08 de outubro de 2023.
» https://doi.org/10.1590/1983-6821202013292 -
SALVAIA, Priscila. Diálogos possíveis: o folhetim Helena (1876), de Machado de Assis, no jornal O Globo 2014. Dissertação (Mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2014. 166 p. Disponível em: Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12733/1623113 Acesso em: 9 jul. 2024.
» https://hdl.handle.net/20.500.12733/1623113 -
SANTOS, Fernando Borsato. As assinaturas de Machado de Assis: estudo sobre as figurações da autoria. 2021. Dissertação (Mestrado) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021. 208 p. Disponível em: Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8149/tde-24052021-190413/pt-br.php Acesso em: 9 jul. 2024.
» https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8149/tde-24052021-190413/pt-br.php - ZILBERMAN, Regina. Minha teoria das edições humanas, Memórias póstumas de Brás Cubas e a poética de Machado de Assis. In: ZILBERMAN, Regina; MOREIRA, Maria Eunice; BORDINI, Maria da Glória; REMÉDIOS, Maria Luiza Ritzel (org.). As pedras e o arco. Fontes primárias, teoria e história da literatura Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004. p. 17-117.
Contratos e Recibos Machado de Assis/Garnier
-
RECIBO de Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881. Disponível em: Disponível em: http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br/arquivos/contratos_Garnier/Recibo_Machado_de_Assis_Mem._Pos._Bras_Cubas.pdf Acesso em: 09 de julho de 2024.
» http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br/arquivos/contratos_Garnier/Recibo_Machado_de_Assis_Mem._Pos._Bras_Cubas.pdf -
RECIBO de Papeis Avulsos, 1882. Disponível em: Disponível em: http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br/arquivos/contratos_Garnier/Recibo_Machado_de_Assis_Papeis_Avulsos.pdf Acesso em: 09 de julho de 2024.
» http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br/arquivos/contratos_Garnier/Recibo_Machado_de_Assis_Papeis_Avulsos.pdf -
CONTRATO celebrado entre Joaquim Maria Machado de Assis e o editor B. L. Garnier para a 1° edição da obra Helena do Vale]. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], 1876. 1f. Disponível em: Disponível em: http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=4439 Acesso em: 14 de maio de 2024.
» http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=4439 - O GLOBO, sociedade comanditária Livro 60 da Junta Comercial, registro 16.903, página 18 a 25 verso: Arquivo Nacional (RJ).
- PROCURATION par M. Garnier & autres à M. Lansac Minutier Central de Notaires, Étude XVI, 1473, 26 de dezembro de 1893. Archives Nationales (Paris).
-
1
Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/machado-de-assis/biografia. Acesso em: 02 de julho de 2024
-
2
A partir daqui e estendendo-se até o início da análise sobre Memórias póstumas, a autora deste artigo costura dados e análises novas com a retomada de trechos de um texto seu, ainda inédito, a ser publicado na Itália, onde circulará como capítulo do livro Machado de Assis, a complexidade de um clássico, organizado por Sonia Netto Salomão.
-
3
Os catálogos de Ernesto Chardron, segundo o trabalho de Queiroz (2016, p. 124-125), anunciam os livros com outra faixa de preços: o volume in-8 o de Alfarrábios. Crônicas dos tempos colonias, de José de Alencar, são anunciados, em 1874, a 600 réis. Queiroz também afirma que, tendo analisado comparativamente os livros vendidos por Garnier e pelos Chardron em parceria comercial e editorial, “os preços anunciados (…) tanto de livros quanto do periódico [Jornal das Famílias] são bastante diversos nos dois países, revelando uma possível adaptação às economias locais” (Queiroz, 2016, p. 131).
-
4
Para explicar a complexidade da questão, é preciso lançar mão da dupla função que tem a palavra “editor” em português e em outras línguas latinas, emprestando ao inglês a nítida separação de atividades: preparador do texto (editor, em inglês), aquele que decide sobre o conteúdo do que viria a ser o livro; editor, aquele que publica o texto (publisher, em inglês)
-
5
A partir desse parágrafo até logo antes da conclusão, retomo, com alguns poucos acréscimos e novas descobertas que acrescentam precisão ao argumento, a análise feita em Autor, 2020 e 2023. Todo o restante do texto corresponde a uma elaboração inédita.
-
6
As questões relativas ao dinheiro e ao formato dos livros ficam de fora deste texto, pois isso exigiria que eu empreendesse um trabalho comparativo entre todos os contratos entre Machado e os Garnier de que ainda se têm notícias, o que aqui não é factível no espaço de um artigo.
-
7
Este documento foi encontrado graças ao trabalho de pesquisa de fontes de Alexandra Pinheiro, que recuperou os “42 contratos e 33 recibos de transações efetivadas por Garnier” (Pinheiro, 2008, p. 172), os quais foram disponibilizados na página do site do Projeto Temático FAPESP “A circulação transatlântica dos impressos: a globalização da cultura no século XIX”. Disponível em http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br.
-
8
Se esta análise comparativa de contratos já não tivesse esclarecido o assunto, a leitura da imprensa da época poderia tê-lo evidenciado. Há poucas semanas Raquel Campos, professora da Universidade Federal de Goiás (Goiânia), encontrou duas curtas notícias sobre livros, na Gazetilha (1881, RJ), que confirmam o fato de Machado de Assis ter sido editor de Memórias póstumas de Brás Cubas. Na edição número 12, de 1881, é dito que “Machado de Assis acaba de dar-nos em livro nitidamente impresso na Tipografia Nacional as suas Memórias póstumas de Brás Cubas, já publicadas nas páginas da Revista Brasileira (...)”. Já na edição de número 23, noticia-se que “O Sr. B. L. Garnier comprou a edição de Memórias póstumas de Brás Cubas”. Agradecemos à Raquel Campos pela generosidade do compartilhamento dessas informações.
-
9
Ainda não havia convenções claras em torno da propriedade literária e intelectual no Brasil e, mesmo na Europa, negociações e documentos vinham sendo estabelecidos e reelaborados. Assim, o editor muito frequentemente adquiria a propriedade plena e inteira sobre as obras, estendendo muitas vezes essa obrigação aos descendentes do escritor, como lemos em vários contratos de B. L. Garnier, inclusive em alguns que Machado de Assis assinou.
-
10
Desde 1856, três projetos de lei em torno da propriedade literária haviam sido propostos na Câmara dos Deputados, sendo o último deles, de 1875, saído da pena de José de Alencar (Godói, 2017). Em 1880-1881, a Revista Brasileira acolheu um longo artigo do jurista J. M. Pinto Vaz Coelho, publicado em duas partes, no qual, referindo-se ao Código Penal de 1930, onde se garantia a propriedade intelectual, Vaz Coelho propunha que, se havia essa primeira garantia, por extensão, garantia-se também o direito do autor à propriedade intelectual.


