RESUMO
Este artigo resulta dos debates promovidos na mesa-redonda “O GT Afro-Américas”, durante o III Encontro Continental de Estudos Afro-Latino-Americanos, realizado em julho de 2024, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, organizado em parceria com o Afro-Latin American Research Institute (ALARI - Universidade de Harvard). A mesa teve como objetivo apresentar o GT Afro-Américas a partir das diversas trajetórias acadêmicas de seus membros, que contribuíram para sua criação e consolidação. As reflexões reunidas neste artigo se baseiam nas apresentações realizadas durante a mesa e exploram, sob diferentes perspectivas, a relevância do GT Afro-Américas, bem como as possibilidades que oferece para articular e ampliar as pesquisas sobre a temática no Brasil. O texto, construído coletivamente, compila as falas dos pesquisadores e busca apresentar o GT, fundado na ANPUH-Maranhão, em 2023, à comunidade acadêmica.
Palavras-chave:
Afro-Américas; ANPUH; Grupo de Trabalho
ABSTRACT
This article stems from the debates held during the roundtable “The Afro-Americas Working Group (GT Afro-Américas)”, at the III Continental Meeting of Afro-Latin American Studies, which took place in July 2024, at the Law School of the University of São Paulo, organized in partnership with the Afro-Latin American Research Institute (ALARI - Harvard University). The roundtable aimed to introduce the GT Afro-Américas through the diverse academic trajectories of its members, who contributed to its creation and consolidation. The reflexions gathered in this article are based on the presentations given during the roundtable and address, from different perspectives, the relevance of the GT Afro-Américas and its potential to articulate and expand research on the subject in Brazil. Developed collectively, the text compiles the contributions of the researchers and seeks to introduces the GT, founded at ANPUH-Maranhão in 2023, to the academic community.
Keywords:
Afro-Americas; ANPUH; Work Group
INTRODUÇÃO
Em julho de 2024, centenas de pesquisadores se reuniram na Faculdade de Direito da Universidade São Paulo para o Terceiro Encontro Continental de Estudos Afro-Latino-Americanos, organizado em conjunto pela instituição sediadora e pelo Afro-Latin American Research Institute (ALARI), da Universidade de Harvard. Os painéis abordaram uma diversidade de temas vinculados à experiência da diáspora africana na América Latina, e uma das mesas redondas serviu à apresentação do Grupo de Trabalho Afro-Américas (GT - ANPUH), organizado por pesquisador(a)es brasileir(a)os de universidades estabelecidas em diferentes estados da federação. A despeito da afinidade entre as pesquisas dos membros do GT e os estudos afro-latino-americanos, o encontro ofereceu uma oportunidade para que se refletisse sobre as contribuições de pesquisas produzidas em instituições brasileiras e a especificidade de suas perspectivas sobre as Afro-Américas.
Os estudos afro-latino-americanos se firmaram em contraste com os estudos “afro-americanos” (ou afro-estadunidenses) nas universidades da América do Norte, estabelecendo dois campos complementares, mas nem sempre em diálogo, sobre a experiência de africanos e seus descendentes por todo o continente. Por outro lado, a intelectualidade latino-americana e caribenha historicamente se constituiu a partir de perspectivas transnacionais, as quais incluíam a América do Norte em seus horizontes de análise. Nesse sentido, o GT Afro-Américas remonta a essa tradição e propõe uma agenda integradora que dialoga e contribui para os estudos afro-latino-americanos, afro-caribenhos e afro-estadunidenses. Ao mesmo tempo, o GT reivindica a importância e a originalidade das pesquisas desenvolvidas no Brasil e contorna a tendência de sobrerrepresentação do Sudeste e dos estudos sudestinos, ao promover a interlocução entre pesquisadores de universidades de todo o país. Em suma, o GT reúne pesquisadores, cada qual com seus recortes e temas, mas que miram uma perspectiva diversa e integradora das Afro-Américas, sem abdicarem de suas raízes culturais, intelectuais e institucionais brasileiras e latino-americanas.
Este artigo é resultado do esforço conjunto de membros do GT Afro-Américas, costurado a dez mãos, inspirando-se nas apresentações e nos debates de julho de 2024. Na primeira sessão do artigo, “GT Afro-Américas: historicizando a trajetória”, a representante do Amazonas, Kátia Cilene do Couto, apresenta uma abordagem sobre a trajetória de criação do GT Afro-Américas, destacando sua importância para os estudos afrodiaspóricos e caribenhos no Brasil. Ela contextualiza sua formação a partir de iniciativas acadêmicas anteriores e eventos científicos que fortaleceram a articulação entre pesquisadores. Na sequência, em “O norte negro e o GT Afro-Américas”, o representante de Rondônia, Santiago Andrade, propõe uma renovação historiográfica, conectando o Norte Negro da Amazônia ao Atlântico e ao Sistema-Mundo Capitalista. Questiona narrativas fundadoras do século XX, destaca a diversidade étnica e enfatiza a necessidade de novas abordagens teóricas e documentais, ressaltando que o diálogo no GT e a manutenção dessa rede são essenciais para ampliar os horizontes da historiografia amazônica. Na sessão “A Diáspora Africana nas Artes”, o representante da Bahia, Kléber Amâncio, revisita a história da arte brasileira sob uma perspectiva crítica afro-americana. Sua abordagem destaca a marginalização das produções artísticas negras e propõe uma nova historiografia que reconheça a complexidade da Arte Afro-Brasileira, conectando-a aos debates da diáspora africana e à experiência afro-latino-americana. Na sessão final, “Afro-Américas: desenvolvimento e perspectivas de um campo de estudos”, a representante de São Paulo, Letícia Canelas, contribui com uma reflexão teórica sobre a constituição das “Afro-Américas” como campo de estudos, abordando suas raízes acadêmicas e políticas e procurando integrar processos históricos, lutas sociais e identidades culturais, com ênfase na interseccionalidade. O representante do Rio de Janeiro, Marcelo Ferraro, contribui com o entrelaçamento das reflexões apresentadas na mesa redonda, bem como conclusões sobre perspectivas para o campo de estudo do GT Afro-Américas. Juntas, essas reflexões não esgotam a produção ou tampouco estabelecem um programa teórico unificado do GT, mas revelam a fertilidade e a diversidade de um campo em construção.
GT AFRO-AMÉRICAS: HISTORICIZANDO A TRAJETÓRIA
A criação de um Grupo de Trabalho (GT) passa por um processo de gestação, amparado por um trabalho pregresso que se constrói por várias trajetórias; aqui, explicitaremos aquela que vivenciamos ao longo desses 26 anos. Os estudos sobre Afro-Américas no curso de História da Universidade Federal de Goiás se constituíram com a criação do Centro de Estudos do Caribe no Brasil (CECAB), criado em 1999, a partir da iniciativa da Dra. Olga Cabrera, de origem cubana, professora desta universidade, no curso de História, a qual promoveu e incentivou as várias pesquisas relacionadas ao Caribe que se seguiram ao longo dos anos 2000, no PPGH/UFG e PPGH/UnB.
Vários trabalhos, frutos de pesquisas sobre afro-caribenidade, foram realizados quando o Caribe, pelo menos no campo da História na UFG, não era, no Brasil, objeto amplo de investigações como agora. Teses como Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica (1930-1981), de Danilo Rabelo (2006); Narrativa e geografia no Caribe colombiano (1962-1984), de Dernival Venâncio Ramos Júnior (2009); Entre-jornadas: coolies e negros nas plantations de Trinidad, 1845-1890, de Alexandre Martins de Araújo (2007); e Os desafios da sociedade cubana frente à imigração antilhana (1902-1933), de Kátia Cilene do Couto (2006), foram alguns dos trabalhos que analisaram questões afro-caribenhas no bojo de uma historiografia que possibilitava reflexões sobre identidades, raça, migrações e culturas afrodiaspóricas.
A interlocução com pesquisadores estrangeiros do Caribe e da África se deu por meio dos simpósios realizados pelo CECAB, nos anos de 2000, 2002, 2004, 2006 e 2008, em cidades como Goiânia, Cidade de Goiás e Caldas Novas (Goiás). Já o V simpósio foi realizado em Salvador, entre os dias 30 de setembro a 3 de outubro de 2008, com o apoio da Universidade Federal da Bahia (UFBA), tendo como tema “Fronteras y culturas en movimiento: África, Brasil, Caribe”. Sua realização foi simultânea ao 32° Congreso de la Caribbean Studies Association. Os seguintes grupos de trabalho foram realizados durante o evento em Salvador: Análises comparadas, Artes visuais, Literatura e música; Gênero, sexualidade e geração; Patrimônio e representação; Política e identidades nacionais; e Religião e Religiosidade. O comitê local na UFBA foi composto pelos seguintes membros: Antonio Luigi Negro, Cássia Maria Muniz Carletto, Florentina da Silva Souza, George Evergton, Joseania Miranda Freitas, Lina Maria Brandão de Aras, Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha, Maria das Graças de Souza Teixeira, Muniz Gonçalves Ferreira. Por sua vez, o comitê nacional foi coordenado pela Profa. Olga Cabrera e por outros membros de diversas universidades integradas ao CECAB.
Nesse ínterim, deve-se destacar também a criação da Revista Brasileira do Caribe1, em 2001, resultante dos esforços do CECAB de promover uma historiografia que abarcasse o Caribe e suas fronteiras culturais. A revista tem aportado artigos diversos sobre temáticas das Afro-Américas. Destacamos aqui alguns dos dossiês recentemente publicados: “Escravidão, liberdade e processos de racialização” (2023), organizado por Iacy Maria Mata; “Ideias de liberdade” (2020), organizado por Elaine Pereira Rocha e Kátia Couto; “Fronteiras, movimentos e conexões afro-atlânticas” (2019), organizado por Jorge Chinea e Isabel Ibarra; e “Formação colonial e decolonialismo: polifonia de vozes no Caribe” (2018), organizado por Isabel Ibarra.
A revista tem sido um instrumento importante de difusão de conhecimento sobre o Caribe e temas afrodiaspóricos. Hoje, se encontra sob a coordenação de Soraia Sales Dornelles e Josenildo de Jesus Pereira, no âmbito da Pós-graduação em História da UFMA. Além disso, tem possibilitado uma interlocução frequente com pesquisadores do Caribe, da América Latina, da África, da Europa e dos Estados Unidos. Atualmente, a revista ampliou o seu campo, voltando-se mais para pesquisas dedicadas à América Latina, sem deixar de publicar trabalhos voltados a estudos caribenhos e afrodiaspóricos.
A criação do GT Afro-Américas é de fundamental importância, por possibilitar que os pesquisadores envolvidos com a temática promovam uma interlocução constante, por meio de suas investigações, nas diversas regiões do Brasil, bem como com pesquisadores das Américas que se dedicam aos temas afro e afrodiaspóricos. Isso tendo em vista que algumas regiões do Brasil carecem de estudos mais aprofundados sobre a presença negra, suas dinâmicas sociais e culturais com outros grupos, como acontece na região norte do país. Sentimos a necessidade de contatar colegas pesquisadores de outras regiões do Brasil para uma aproximação e interlocução acerca da criação de um GT voltado à temática das Afro-Américas, ao iniciar nossas atividades de trabalho na Universidade Federal do Amazonas.
Durante a realização da XXIX ANPUH, em Brasília, nos dias 24 e 28 de julho de 2017, ao participarmos de uma atividade promovida pelo Prof. Eric Brasil, professor da UFBA, tivemos a oportunidade de conversar, pela primeira vez, sobre a necessidade de criarmos um GT sobre as Afro-Américas. O Prof. Eric nos passou o contato de algumas pesquisadoras que se dedicam a pesquisas sobre populações negras no Caribe, como Iacy Maia Mata, também professora da UFBA, e Letícia Gregorio Canelas, pós-doutoranda na USP naquela ocasião, e tomamos a iniciativa de convidar a Profa. Elaine Rocha, da University of West Indies-campus Barbados, com quem já mantínhamos contato prévio, para então iniciarmos nosso diálogo por meio de um grupo de e-mails.
A partir desse diálogo, propusemos duas mesas que foram realizadas durante o XIII evento da ANPHLAC, na cidade de Mariana, entre os dias 24 e 27 de julho de 2018. As seguintes mesas foram propostas: “Experiências negras nas Américas: performances e ações políticas na diáspora”, cujos membros foram Kátia Couto (UFAM), Alexsandro de Sousa e Silva (USP), Eric Brasil (UNILAB) e Elaine Rocha (UWI); e “Afro-americanos: luta abolicionista, identidade racial e conexões transnacionais nos séculos XIX e XX”, composta por Letícia Canelas (USP), Luana Santos (UFF) e Iacy Maia Mata (UFBA). Como resultado dessa iniciativa, e devido ao fato de dirigirmos a Revista Eletrônica da ANPHLAC naquela ocasião, convidamos os colegas do grupo para publicarmos um dossiê sobre Afro-Américas. O dossiê foi organizado por Eric Brasil e Letícia Canelas, tendo sido publicado em 2019, no número 272. Outras atividades deram sequência ao fortalecimento da construção do caminho para a reunião de pesquisadores(as) das Afro-Américas, pois, ainda em 2018, no XIV Congresso da Associação de Estudos Brasileiros/BRASA, que ocorreu na PUC, Rio de Janeiro, foram organizadas as seguintes mesas: “Raça, liberdade e autonomia: abolicionismo e experiências negras transnacionais no Caribe, Brasil e Estados Unidos”, cujos participantes foram Iacy Maia Mata, Luciana Brito e Wlamyra Albuquerque; e “Reflexões sobre as Afro-Américas: história da diáspora africana como história transnacional”, cujos participantes foram Eric Brasil, Elayne Rocha e Iacy Maia Mata.
Na região norte, em especial no Amazonas, existe uma presença negra que a historiografia recente tem buscado analisar. Desde o período da escravidão, o Amazonas, embora não tenha sido uma região de presença massiva de escravizados, tem se revelado uma importante região para a rota de fuga desse grupo. Observa-se, além disso, a presença de imigrantes caribenhos, assim como as relações transculturais, tais como as afro-indígenas, além dos estudos de fronteira, inclusive com pesquisas definindo uma Amazônia Caribenha (Oliveira, 2020).
Os trabalhos citados a seguir são produções recentes no Programa de Pós-Graduação de História da UFAM, universidade que integramos desde o nosso ingresso ao estado do Amazonas, em 2009, e onde pudemos acompanhar de perto a chegada dos haitianos a partir de 2010, grupo que passou a ser tema de nossas pesquisas na região, conectando-se às nossas pesquisas anteriores para a realização de nosso mestrado e doutorado, quando investigamos a presença de imigrantes haitianos em Cuba, durante a primeira República. A historiografia local tem desbravado os arquivos regionais e promovido novas possibilidades de investigação que revelam um campo promissor nos estudos afros, não só no Amazonas, mas em toda a região norte, revelando os processos migratórios internacionais, inclusive do Caribe, para a região amazônica, desde o início do século XX, com a construção da ferrovia Madeira-Mamoré.
Ressaltamos também outras pesquisas produzidas no contexto da pós-graduação que remetem ao tema afro, como a pesquisa do mestrado de Provino Pozza Neto, Ave libertas: ações emancipacionistas no Amazonas Imperial (2011); a pesquisa de Jéssyka Samya Ladislau Pereira, Por todos os cantos da cidade: escravos negros no mundo do trabalho na Manaus oitocentista (1850-1884) (2016); e a pesquisa de Ygor Olinto Rocha Cavalcante, Uma Viva e Permanente Ameaça: Resistências, Rebeldias e Fugas Escravas no Amazonas Provincial, publicada em 2015, resultado de sua dissertação. Outras pesquisas importantes para a historiografia regional são a de Tenner Inauhiny de Abreu, “Nascidos no Grêmio da Sociedade”: racialização e mestiçagem entre os trabalhadores na Província do Amazonas (1850-1889) (2012), e a de Sandro Amorim Carvalho, que abarca a presença de imigrantes de origem caribenha no Amazonas, intitulado “Minha mãe era negra, meu pai branco, nós morenos”: relatos biográficos de descendentes de barbadianos no Amazonas (2023). Ambas são representativas de estudos voltados a questões negras no Amazonas e sua inovação historiográfica nesse campo.
Em 2010, ao nos mudarmos para Manaus, para trabalharmos na Universidade Federal do Amazonas-UFAM, nossos interesses se voltaram às relações Brasil-Caribe, às migrações caribenhas para o Brasil e às fronteiras Brasil/Caribe, temáticas pouco exploradas na historiografia amazonense, no campo da História. Isso coincidiu também com a chegada dos imigrantes haitianos na região Norte do Brasil (Acre, Rondônia e Amazonas), como mencionado acima, o que gerou várias pesquisas sobre o tema.
Na Pós-graduação em História-UFAM, tivemos a oportunidade de orientar trabalhos que abordavam a presença negra no estado, e/ou participar de bancas que remetessem a essas temáticas. No entanto, a historiografia regional ainda carece de se debruçar sobre essa presença negra migrante, transfronteiriça e transcultural. Manaus hoje conta com a presença de uma comunidade de haitianos, além de receber imigrantes de outros países com os quais faz fronteira.
Foi durante a realização da ANPUH em São Luís, de 11 a 13 de julho de 2023, que o GT Afro-Américas foi aprovado em Assembleia, a partir da iniciativa de pesquisadoras(es) presentes no evento, como Iacy Maia Mata, que acompanhou, como citado acima, a ideia de criação de um GT que contemplasse e tornasse possível a reunião das diversas(os) pesquisadoras (es) das Afro-Américas espalhadas(os) pelo Brasil. Aqui, trouxemos o histórico de sua criação e sua importância para ampliarmos o diálogo, fomentarmos mais pesquisas e consolidarmos o campo de estudos relativo à temática que englobe a área, tendo a certeza de que este será um GT que possibilitará muitas contribuições para a História das Afro-Américas nos próximos anos.
Assim como tem ocorrido com outros GTs na ANPUH, as atividades desenvolvidas pelo GT Afro-Américas, a mesa de apresentação que ocorreu durante a realização do The ALARI 3rd - Continental Conference on Afro-Latin American Studies (10-12 de julho de 2024), promovido na Universidade de São Paulo, são oportunidades que faltavam para intensificarmos nossos projetos, atividades de ensino e pesquisa, congressos e publicações que venham a sedimentar um caminho de investigações já em andamento, mas dispersas. Essa possibilidade de interlocução é necessária para responder a uma série de demandas que nos assola regionalmente, e que só podem se desenvolver a partir das redes de colaboração que buscamos propor, por meio desse trabalho conjunto, que é composto pelo GT, a partir de sua criação.
O NORTE NEGRO E O GT AFRO-AMÉRICAS
Estamos convictos de que o pertencimento a esse grupo é um passo importante para o início de uma reflexão renovada sobre a história de um território que outrora pertenceu ao Amazonas e ao Mato Grosso, e que, desde meados do século XX, é conhecido como Rondônia, parte integrante da Amazônia Ocidental.
Não é, entretanto, uma convicção calcada em uma intuição. Pensamos que esse é um momento importante - de integrar e acompanhar esse GT - por três razões diferentes, relacionadas às condições peculiares ligadas ao contexto e à potencialidade da escrita de uma historiografia sobre Rondônia e sobre aquela fração da Amazônia.
A primeira delas diz respeito à especificidade da formação histórica - principalmente em suas dimensões territorial, étnica e geográfica - do que chamamos, há algumas décadas, de Rondônia. Falando de uma forma geral, a área que hoje, a partir de 1943, passou a ser o Território Federal do Guaporé e, a partir de 1956, o Território Federal de Rondônia, fazia parte, até então - meados do século XX - do vasto sertão amazônico. Parte do seu atual território pertencia à capitania do Mato Grosso, enquanto outra parte pertencia ao atual estado do Amazonas. O que isso quer dizer? Ora, que a constituição socioeconômica, étnica e espacial do que hoje é o estado de Rondônia se deu, em grande parte e sob perspectiva de uma duração razoável, sob a lógica da dinâmica colonial protagonizada pelo império português. Então, quando pensamos em Rondônia - e isso é, obviamente, a perspectiva de alguém que nunca abre mão da dimensão histórica das coisas -, devemos situá-la em um contexto relativamente longo, no qual inúmeros grupos étnicos indígenas e uma parcela considerável de africanos escravizados, além dos próprios europeus e do mundo não humano, foram inseridos na lógica da colonização, ou seja, nos processos que colocaram o interior do país no centro das disputas coloniais e dos projetos de controle e povoamento da fronteira amazônica.
Ressaltamos aqui dois aspectos basilares, que têm sido, via de regra, ignorados pela historiografia acadêmica rondoniense: 1) a história de Rondônia não é a história dos seus marcos fundadores oficiais, fabricados no século XX; 2) a composição étnica, a ocupação e a modificação do espaço e da paisagem, bem como a circulação de grupos sociais diversos (e aqui falamos das sociedades indígenas e das formações quilombolas no Vale do Guaporé, dos migrantes nordestinos, dos trabalhadores estrangeiros etc.), são elementos que foram historicamente constituídos muito antes da criação oficial do estado de Rondônia, mas que cumprem um papel fundamental na compreensão das suas contradições atuais. É nesse sentido que defendemos que as reflexões sobre a ideia de raça, luta por direitos, dinâmicas de territorialização negras, processos de racialização, conexões afrodiaspóricas etc., produzidas e pensadas pelos membros deste GT, são importantes para que se escreva uma outra historiografia concernente às questões sobre Rondônia.
A segunda dimensão é consequência direta do processo de formação que descrevemos: a dispersão documental das fontes relacionadas à formação do espaço socioterritorial rondoniense. Quem quiser, hoje, escrever sobre algum aspecto da história de Rondônia, terá de percorrer arquivos públicos não apenas em Rondônia, mas também no Mato Grosso, no Amazonas, e, obviamente, recorrer também ao Arquivo Nacional. Esse espalhamento, por assim dizer, demonstra não apenas o caráter complexo da formação histórica de Rondônia à qual nos referimos, mas também reflete um elemento que é frequentemente ignorado, ou, quando notado, descrito de forma superficial, sem aprofundamento: o fato de que a Amazônia ocidental, dentro dos quadros analíticos que se propõem a compreender a formação do Brasil contemporâneo, precisa ser pensada para além das classificações de “periférica” ou “regional”, e ser pensada dentro de um quadro categorial transnacional, atlântico e de formação do sistema-mundo capitalista, bem ao encontro da proposta deste GT.
Essa dimensão, que enfeixava a Amazônia e o mundo atlântico em uma unidade histórica e conceitual informada pela circulação transnacional de trabalhadores, capitais, ideias e mercadorias, é facilmente demonstrável quando recorremos, por exemplo, à documentação relacionada aos trabalhadores caribenhos que chegaram ao Brasil no começo do século XX. Dentre as trajetórias de vida que descobrimos recentemente, talvez a mais curiosa seja a do barbadiano Adolphus Collymore. Collymore saiu de Barbados e chegou em Porto Velho entre 1908 e 1909. Trabalhou na EFMM por algum período, mas tornou-se, nas palavras dos seus próprios companheiros de trabalho, “um completo vagabundo”. Logo, começou a chefiar uma gangue autointitulada de “gangue Dixey” - o que parece ser uma referência clara à palavra “Dixie”, que remete à identidade coletiva do “deep South” dos Estados Unidos da América, formada pelos estados do Sul escravista daquele país. Na noite de 24 de abril de 1915, Collymore atacou, com uma navalha, um trabalhador caribenho chamado George Russell, deixando-o gravemente ferido. Ato contínuo, cerca de 15 trabalhadores caribenhos assinaram uma carta ao chefe de polícia, pedindo a expulsão de Collymore da cidade de Porto Velho, sob a alegação de que ele era um elemento “indesejável”. Collymore foi expulso para Manaus, e a história poderia parar por aqui. Porém, por acidente ou sorte, deparamo-nos com registros que comprovam que ele seguiu de Manaus para os Estados Unidos da América e se alistou no exército de lá, no Terceiro Batalhão de Engenheiros, em 1919. Nos anos subsequentes, Collymore trabalhou como cozinheiro do Exército, e faleceu no Arizona, de ataque cardíaco, em 1929. Na ficha de óbito emitida pelo exército, constavam as seguintes palavras: solteiro e “de cor”.
Recuperar essas e outras histórias só foi possível devido à articulação entre fontes provenientes de arquivos diversos. Poderíamos dar outros exemplos, como o da documentação sobre conflitos fundiários no Território Federal do Guaporé, já na década de 1940, que se encontra no Arquivo Público do Mato Grosso, ou sobre os processos de pedidos de naturalização dos cidadãos barbadianos etc., que se encontram no Arquivo Nacional. O fato é: pensar e escrever a história de Rondônia exige um esforço de pesquisa que deve partir da premissa de que a sua formação histórica está, fundamentalmente, imbricada nos processos mais amplos de composição do mundo atlântico, englobando aí África, Caribe e Américas.
Isso nos leva a um terceiro e último elemento, que é a debilidade da produção historiográfica acadêmica sobre Rondônia. Não se trata, aqui, obviamente, de nenhuma depreciação ou ataque aos nossos colegas da universidade. Uma olhada rápida no conjunto da historiografia rondoniense aponta, logo de cara, para três problemas principais: 1) o apego aos marcos históricos e cronológicos oficiais; 2) uma preocupação com as “origens” de Rondônia e com a nomeação dos seus marcos fundadores - sendo o mais conhecido deles a Estrada de Ferro Madeira Mamoré; 3) a circunscrição dos fenômenos históricos a um regionalismo desarticulado das questões mais gerais e estruturais da formação nacional brasileira (dando a impressão de que Rondônia tem uma história própria, isolada, só dela).
Temos, então, simplesmente a constatação empírica de que os instrumentos analíticos e conceituais utilizados, até hoje, para a escrita da história rondoniense, são caducos, inadequados e insuficientes, principalmente quando comparados ao conjunto da historiografia produzida pelos programas de pós-graduação no Brasil nas últimas décadas, exceto por Elaine Rocha, Louise Cardoso e Ana Carolina Monteiro Paiva (2020). Nos últimos anos, Rocha se dedicou a pesquisar os processos migratórios dos barbadianos para a Amazônia e publicou vários artigos sobre o tema (cf., por exemplo, Rocha; Alleyne, 2012); Ana Carolina Paiva, por sua vez, escreveu relevante dissertação de mestrado sobre os trabalhadores caribenhos na construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (2020). Um dos seus principais méritos é ter utilizado o instrumental teórico-metodológico da História Social do Trabalho na análise da documentação relativa ao assunto e, assim, ter inaugurado uma série de novas possibilidades para a compreensão da classe trabalhadora rondoniense.
Nesse sentido, reiteramos o que anteriormente apontamos: pensar a história de Rondônia a partir das premissas estipuladas por este GT é uma excelente oportunidade para refletirmos sobre novas possibilidades de uso de fontes, de escrita da história e de novos arcabouços teóricos e conceituais voltados à compreensão da história de Rondônia e da Amazônia ocidental. Estamos convictos de que o diálogo com os demais colegas do GT e a manutenção dessa rede de interlocução são fundamentais para a construção de novos horizontes para a historiografia da Amazônia.
A DIÁSPORA AFRICANA NAS ARTES: CONTRIBUIÇÕES E PERSPECTIVAS DO GT AFRO-AMÉRICAS
A história da arte brasileira se constitui tradicionalmente como branco-brasileira (Amancio, 2021). Isto é, não raramente, os tópicos mais estudados giravam em torno da branquitude e das maneiras como esses sujeitos percebiam o mundo a partir de seu umbigo. A agenda que possibilitou esse fenômeno se formatou na longue durée, escorou-se em agentes conformadores do mundo da arte, tais como museus, galerias, mercado, crítica, além da própria historiografia (Bourdieu, 1996). O cânone, portanto, foi estabelecido de forma extremamente sofisticada, de modo a criar a impressão de que se estruturou com base no potencial e na complexidade das obras produzidas pelos artistas que, naturalmente, estabeleciam-se como relevantes, prestigiosos e necessários, sem que, evidentemente, categorias políticas tivessem qualquer tipo de interferência aparente nesse processo (Simões, 2019; Santos, 2019).
Esses artistas canônicos construíram narrativas sobre a formação do país e, dentre outros temas, definiram os lugares que os negros deveriam ocupar nessa narrativa (Christo, 2009). Os negros, por sua vez, repetidamente, foram representados como corpos que trabalham, como parte da paisagem, como objeto sexual, ou ainda como mancha - de Frans Post e Eckhout a Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti (Amancio, 2016). Entendemos que uma efetiva preocupação com o processo de individuação desses sujeitos - antes representados de forma genérica ou estereotipada, e que passam a ser retratados com identidade, complexidade e subjetividade próprias - somente seria percebida a partir da produção de artistas negros (Bittencourt, 2022; Pinheiro, 2023).
Ao mesmo tempo, a arte Afro-Brasileira é matéria mais complexa do que possa parecer num primeiro momento (Munanga, 2004; Conduru, 2007; Menezes Neto, 2018). Trata-se de um conceito que significou coisas diferentes nos mais diversos contextos. De qualquer forma, é possível asseverar que suas primeiras definições se alinham a um projeto colonial de poder que visava a controlar, classificar, interpretar e secundarizar as produções artísticas negras (Rodrigues, 1904; Ramos, 1949; Valladares, 1968; Cunha, 1983) - um processo parecido com aquele que ocorreu na formatação do conceito de arte africana pela crítica europeia (Mudimbe, 1998). Sob essa perspectiva, de modo geral, a Arte Afro-Brasileira seria vista como um apêndice de uma narrativa mais ampla. Ela estaria ligada não apenas à autoria negra, mas, sobretudo, a uma temática específica, nomeada afro-brasileira (Conduro, 2007). Mas o que isso significaria exatamente? Na maioria das vezes, essa ideia foi associada à representação do universo das religiões de matriz afro-brasileira (Salum, 2000). Dessa forma, artistas como Carybé e Verger, em algumas dessas interpretações, são incluídos nesse contexto. Isso certamente tem sido problematizado em contextos mais recentes, seja a partir da atuação de artistas negras e negros, seja devido a práticas curatoriais, ou ainda a demais agentes que fazem parte do mundo da arte (Lima, 2024).
O ambiente histórico para essa mudança está estabelecido. Questões políticas de grande relevância, como a Lei de Cotas (Gomes, 2011; Munanga, 2004), que incentiva a inserção de discentes e docentes negros nas universidades públicas brasileiras, se somam a um cenário global de reestruturação da narrativa sobre o sujeito soberano. Esse processo está ligado à provincialização da Europa, resultante das dinâmicas de circulação do capital no mundo contemporâneo e do globalismo, contribuindo para a reformulação de um cânone eurocêntrico (Chakrabarty, 2000; Mbembe, 2018).
Nesse contexto é que emerge uma nova historiografia da arte brasileira, que se permite inventar novas perguntas, paradigmas, epistemologias e agendas de pesquisa para dar conta das demandas do tempo presente (Bittencourt, 2015; Squeff, 2018; Simões, 2019; Oliveira, 2023). Trata-se de um movimento crescente, embora ainda incipiente, o qual entendemos precisar ser estimulado. O estabelecimento do GT Afro-Américas é um bom exemplo disso.
Na mesma medida em que temos percebido a emergência de outras realidades, em muitas dessas vezes o diálogo tem ficado restrito à experiência nacional. Essa limitação decorre de múltiplos fatores: o próprio tamanho continental do país; o movimento recente de retorno aos arquivos, que tem permitido o reconhecimento de histórias sistematicamente marginalizadas e silenciadas; o nosso - suposto - monolinguismo (Espírito Santo; Santos, 2018); e a dificuldade, por vezes, de nos reconhecermos efetivamente como parte da América Latina (Bethell, 2009). Essa situação, evidentemente, se constitui num problema por diversos motivos, mas gostaríamos de destacar dois deles:
Primeiramente, isso faz com que percamos de vista questões relativas aos assuntos que temos estudado e que, eventualmente, encontram ressonância em outros contextos continentais, seja quando olhamos para os EUA ou ainda para a América Afro-latino-americana, mais especificamente (De La Fuente, 2018). Esses processos, mais do que uma comparação, tratam do mesmo processo histórico. A separação que fazemos decorre de uma leitura que segmenta a história a partir do prisma nacional. Partindo dessa perspectiva, faz mais sentido, por exemplo, olhar para fenômenos tão distantes, mas ao mesmo tempo tão parecidos, como o Nego Fugido, que acontece na comunidade quilombola do Acupe, em Santo Amaro-BA, e os Negros Azules, em Barranquilla, na Colômbia (Mojica Madera, 2019; Pinto, 2021)3. Por outro lado, há outros fenômenos. Nós, os agentes que estudam o tema, criamos conexões entre esses contextos, promovemos diálogos e colaborações, de tal maneira que ignorar essa faceta do passado se constitui em abrir mão de entender parte importante da realidade de outrora e suas eventuais reverberações contemporâneas.
Há um movimento na academia norte-americana que visa a fundar o campo de estudos afro-latino-americanos. Nessa perspectiva, a arte afro-latino-americana tem ganhado especial relevo, haja vista as publicações e os projetos recentes em que deliberadamente esse diálogo se põe presente (García Yero, 2023; Santner; Meller, 2021)4.
Nesse sentido, um dos desafios do GT Afro-Américas é conectar pesquisadores interessados em desvelar esses processos, pois essa interconexão a qual almejamos, mais que uma agenda política de um grupo de pesquisadores (o que, por si só, já seria legítimo), constitui-se também como uma maneira mais complexa de entender as experiências de artistas negros e negras na Afrodiáspora, por uma perspectiva atenta a um fluxo histórico e cultural compartilhado. Dessa forma, buscamos construir uma abordagem que revele as articulações, influências e tensões que moldam essas experiências, ampliando nosso entendimento sobre a circulação de ideias, estéticas e resistências nesse contexto.
AFRO-AMÉRICAS: DESENVOLVIMENTO E PERSPECTIVAS DE UM CAMPO DE ESTUDOS5
O campo de estudos sobre as experiências e os processos históricos que envolvem os povos de ascendência africana nas Américas tem se consolidado como uma área de pesquisa significativa, buscando dialogar especialmente com os movimentos sociais, culturais e políticos racialmente definidos, além de responder à crescente demanda por reflexões sobre a diáspora africana. Nesse contexto, o termo “Afro-Américas” surge como uma construção teórica e política a partir de debates acadêmicos, mas que também procura abranger os processos históricos e as lutas sociais que reivindicam narrativas e abordagens sobre identidade, cultura e resistência nas Américas sob o viés interseccional. A seguir, procuramos explicar a opção por esse termo para nos referirmos ao recente desenvolvimento e às perspectivas do campo de estudos do Grupo de Trabalho Afro-Américas da ANPUH (Associação Nacional de História).
Nos Estados Unidos, o etnônimo African American foi amplamente popularizado entre as décadas de 1980 e 1990, em grande parte devido a líderes do movimento negro no país, como o reverendo Jesse Jackson, que passaram a promovê-lo como uma alternativa ao termo black. O etnônimo foi oficialmente reconhecido no Oxford English Dictionary em 2001, que rastreou o uso documentado do termo African American até 1835. No entanto, em pesquisa recente, Fred Shapiro revelou uma ocorrência registrada no ano de 1782, em um sermão anticolonial publicado por um autor anônimo identificado como um “African American”. Em seu artigo, Shapiro menciona que a expressão análoga Afro-American teve uma breve popularidade nos anos 1960 (Shapiro, 2016).
Na América do Sul, o termo também circulava, especialmente no meio intelectual. O antropólogo uruguaio Ildefonso Pereda Valdes, por exemplo, publicou, em 1938, o livro Línea de color: ensayos afro-americanos6. É interessante notar que Valdes usava a expressão “ensaios afro-americanos” já na década de 1930, enquanto pesquisadores estadunidenses e europeus proeminentes - como Melville Herskovits - ainda se referiam à presença histórica e contemporânea dos africanos e afrodescendentes no Novo Mundo como “América Negra”. Foi apenas entre o final da década de 1960 e o início da de 1970, no contexto da luta pelos direitos civis do movimento negro nos Estados Unidos, que ocorreu a rápida criação de currículos de Estudos Afro-Americanos nas universidades estadunidenses (Mintz, 2003, p. 7).
Em 2004, George Andrews lançou a obra América Afro-Latina: 1800-2000 (tradução publicada em 2007, no Brasil), na qual apresenta uma síntese comparativa da história dos afrodescendentes em diferentes regiões da América Latina, ao longo de duzentos anos. O historiador retoma o termo “América Afro-Latina” (em inglês, Afro-Latin America) e a sua conceitualização a partir dos trabalhos de dois intelectuais especialistas em questões raciais na América Latina, Anani Dzidzienyo (1978) e Pierre-Michel Fontaine (1980). A expressão foi definida por esses autores e retomada por Andrews para designar as regiões da América Latina onde são encontrados números significativos de “pessoas de conhecida ascendência africana”. Nessa definição, América Latina é entendida como o conjunto de nações americanas colonizadas e dominadas por Portugal e Espanha entre os séculos XVI e XIX. Andrews estabelece um “limiar de significância” de um mínimo de 5 a 10% do total da população de indivíduos afrodescendentes para que a região ou nação seja considerada como parte da “América Afro-Latina”. Segundo o historiador, esse nível parece tornar a “negritude” um “elemento visível em sistemas de estratificação e desigualdade social, e que a cultura de origem africana - padrões de sociabilidade e expressão de grupo - torna-se parte visível da vida nacional” (Andrews, 2007, pp. 29-30).
O conceito elaborado por Dzidzienyo e Fontaine se tornou referência para vários pesquisadores que têm utilizado o conceito de “América Afro-Latina” ou de estudos afro-latino-americanos. Entretanto, não deixa de ser fascinante constatar que, antes disso, o termo já era usado pelo Movimento Negro Unificado (MNU) no Brasil. Enquanto os etnônimos como “afro-cubano” e “afro-brasileiro” foram criados na primeira metade do século XX, o uso do termo “Afro-Latino-américa” aparece na década de 1970, na cidade de São Paulo, em meio a um grupo de ativistas e intelectuais negros, muitos dos quais participaram da fundação do MNU, em 1978 (Andrews, 2018). Neusa Maria Pereira foi convidada pelos editores do jornal Versus (chegou a vender 35 mil exemplares em 1977) a trazer outros jornalistas negros para publicarem questões relacionadas à população negra, em um suplemento específico do periódico. Neusa Pereira trouxe Hamilton Bernardes Cardoso e Jamu Minka, e juntos denominaram a seção de “Afro-Latino-América, e não apenas América Latina, porque define melhor a importância da presença africana nesta parte do mundo” (Afro-Latino-América, 2014, p. 13). Ainda contribuíram com a publicação Thereza Santos (exilada em Moçambique, Guiné-Bissau e Angola, entre 1974 e 1978), Abdias do Nascimento, que enviava contribuições do exílio estadunidense, Oswaldo de Camargo, Lélia Gonzalez, entre outros (Rodrigues, 2023, pp. 79-80).
Desse modo, no suplemento “Afro-Latino-América”, difundiram artigos e comentários acerca de questões raciais e lutas sociais, não apenas no Brasil, mas também na África e na diáspora africana, em 20 números do periódico, entre 1977 e 1979 (Rodrigues, 2023, p. 68). Nesse período, Dzidzienyo e Fontaine realizavam suas pesquisas no Brasil. Especialmente o primeiro teve grande envolvimento com o movimento negro brasileiro e se fez presente e atuante no 3º Congresso de Cultura Negra das Américas, realizado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO) em 1982 (Silva, 2020). Corroborando a afirmação de Andrews, “assim foi cunhado um conceito transformador que reverberou por toda a diáspora” (Andrews, 2018).
Na mesma época do grupo Afro-latinoamérica, a historiadora e socióloga Lélia Gonzalez jogou luz sobre outro conceito fundamental: a Améfrica Ladina. A intelectual e ativista negra aprofundou o significado do termo cunhado por M. D. Magno (1980), e desenvolveu o conceito de “Amefricanidade”, a partir do qual propõe uma visão afrocentrada das Américas, enfatizando as contribuições históricas, culturais e políticas dos povos africanos e indígenas. O conceito de Améfrica Ladina, proposto por Gonzalez, carrega uma abordagem crítica à expressão “América Latina”, por invisibilizar as contribuições dos povos africanos e indígenas na formação das sociedades americanas. O termo Améfrica destaca a presença africana e a diáspora negra como elementos fundamentais para compreender as sociedades americanas, frequentemente silenciados ou marginalizados pelas narrativas coloniais. Já Ladina reinterpreta o termo “latino” para valorizar as especificidades culturais surgidas da colonização ibérica e a resistência dos povos afrodescendentes e indígenas, que ressignificaram essas influências (Gonzalez, 1988, pp. 69-82).
Gonzalez critica o uso de categorias como “afro-americano” e “africano-americano”, que restringiram, em sua origem, a experiência negra aos Estados Unidos, e “aponta para a reprodução inconsciente da posição imperialista dos Estados Unidos, que afirmam ser A AMÉRICA.” (Gonzalez, 1988, p. 76). É nesse contexto que Gonzalez propõe a Amefricanidade, uma categoria que transcende barreiras territoriais, linguísticas e ideológicas, abrindo caminho para uma compreensão aprofundada das dinâmicas culturais e históricas que moldam as Américas, destacando processos de adaptação, resistência e criação cultural. Nesse sentido, enfatiza a construção de uma identidade étnica que reconhece e valoriza as contribuições africanas e diaspóricas, alinhando-se a outras categorias, como o Pan-africanismo, a Negritude e a Afrocentricidade (Gonzalez, 1988, pp. 76-77). Para Gonzalez, a Amefricanidade, mais que uma análise histórica, é uma categoria de afirmação identitária e de resistência frente ao racismo estrutural e às narrativas coloniais. Além de ressaltar o impacto das matrizes africanas na formação sociocultural das Américas, ela também propõe que essa herança seja um ponto de partida para a construção de novas identidades étnicas. A valorização dessas matrizes culturais não significa negar as influências europeias ou indígenas, mas sim afirmar a centralidade das experiências afrodescendentes e suas formas de luta e criação em sociedades marcadas pelo racismo e pela exclusão.
Outro aspecto fundamental na obra de Lélia Gonzalez é sua análise interseccional. Ao unir as categorias de raça, gênero e classe, ela oferece uma abordagem pioneira para compreender as opressões enfrentadas historicamente pelas mulheres negras nas Américas, mas também evidencia seu papel como agentes de transformação e resistência. Nessa perspectiva, o tema da mulher negra se torna central, e as reflexões sobre o feminismo negro ganham maior profundidade e representatividade na América do Sul, ampliando o debate para além da produção predominante das feministas negras estadunidenses (Gonzales, 2020, p. 11). Vale apontar que, embora destaque a Amefricanidade, Gonzalez não abre mão de conceitos como afro-latino-americano quando aborda o pensamento feminista. Como afirmam Flavia Rios e Márcia Lima, “enquanto redefinição conceitual, a construção de um pensamento feminista afro-latino-americano”, que Gonzalez propõe, “é fruto da combinação do caráter multirracial e pluricultural das sociedades da região, elaborada na amefricanidade, introduzindo a perspectiva de gênero. A situação das mulheres amefricanas resulta de processos históricos e contemporâneos de opressões interseccionais” (Gonzales, 2020, p. 15).
Fica evidente em nosso texto a relevância do pensamento de Lélia Gonzalez, especialmente das categorias de Améfrica Ladina e Amefricanidade. Contudo, é importante explicitar que o GT Afro-Américas evita a apropriação do termo Améfrica Ladina para se referir ao campo de estudos de modo geral, reconhecendo a especificidade do conceito elaborado por Gonzalez como uma ferramenta não apenas metodológica, mas também política dos povos que historicamente vivenciaram o racismo estrutural nas Américas. Como a própria pensadora afirma: “a Améfrica, enquanto sistema etnogeográfico de referência, é uma criação nossa e de nossos antepassados no continente em que vivemos, inspirados em modelos africanos” (Gonzalez, 1988, p. 77).
George Reid Andrews e Alejandro de la Fuente descrevem o campo dos estudos afro-latino-americanos como uma área de pesquisa dinâmica e em constante expansão. Esse campo, primeiramente, concentra-se no estudo dos povos de ascendência africana na América Latina, analisando suas histórias, culturas, estratégias e lutas. Em segundo lugar, abrange o estudo das sociedades mais amplas nas quais esses grupos estão inseridos, abordando questões relacionadas à negritude e à “raça de modo geral, como uma categoria de diferença, como motor de estratificação e desigualdade e como uma variável-chave nos processos de formação nacional” (Andrews; De La Fuente, 2018, p. 19).
No entanto, Andrews destaca que a definição de América Afro-Latina não inclui os países de língua inglesa e francesa, que fazem parte da história da diáspora africana no Novo Mundo, como, por exemplo, Haiti, Jamaica e Barbados (Andrews, 2007, p. 29), muito menos os Estados Unidos da América. Por isso, pensando principalmente do ponto de vista das instituições de pesquisa brasileiras, do olhar sobre o continente e de sua história compartilhada, acreditamos ser mais apropriado e amplo falarmos de “Afro-Américas” - incluindo assim estudos sobre os países mencionados anteriormente, entre outros -, mas procurando manter uma relação intrínseca com a fundamental história e social do termo “Afro-Latino-américa”. Essa perspectiva se revelou abrangente e útil para o campo de estudos no Brasil se referir às regiões onde a presença africana e afrodescendente se destacou na história, marcando o presente de várias localidades nas Américas e no Caribe.
O desenvolvimento do campo de estudos afro-americanos no Brasil deve muito à sólida tradição de estudos sobre escravidão, pós-abolição e relações raciais no país, com pesquisas de excelência realizadas nas universidades brasileiras sobre esses temas. Desde a década de 1970, passando pela chamada “Nova História da Escravidão”, uma vasta produção acadêmica de alta qualidade tem abordado temas como a violência da escravidão, revoltas, alforrias, organização das famílias escravizadas, leis emancipacionistas, abolicionismo e, mais recentemente, as condições das mulheres e crianças escravizadas, entre outros. Os consolidados campos de estudos sobre os “Mundos do Trabalho” e o “Pós-Emancipação” têm contribuído significativamente com pesquisas sobre associativismo, a atuação de trabalhadores negros, greves, imprensa negra, participação política e os significados da liberdade. Esses trabalhos têm ampliado o debate sobre raça, racismo e processos de racialização na sociedade brasileira, enriquecendo ainda mais o panorama acadêmico.
O GT Afro-Américas, em desenvolvimento por meio de uma ampla rede de pesquisadores, busca somar esforços a esses debates acadêmicos, a partir de uma perspectiva transnacional e baseada em pesquisas acerca das experiências da diáspora africana nas Américas. Enquanto campo de estudos, pretende transbordar os limites nacionais e ampliar as possibilidades de abordagens de histórias comparadas e conectadas, procurando complexificar análises sobre o Caribe, a América do Norte, a América Latina e o Mundo Atlântico.
O termo “Afro-Américas” ainda é pouco utilizado, embora seja empregado no singular em alguns trabalhos importantes. Destacadamente, Sidney Mintz e Richard Price usam a expressão “Afro-América” em sua obra clássica (1978), O nascimento da cultura afro-americana, para se referirem ao conjunto de localidades das Américas e do Caribe onde as populações africanas escravizadas criaram e recriaram elementos culturais derivados de suas tradições africanas. Em 2008, a CLACSO publicou a coletânea Los Estudios Afroamericanos y Africanos en América Latina: herencia, presencia y visiones del otro, organizada por Diego Buffa e María José Becerra. Nesse livro, Gladys Lechini usa o termo “Afro-América” no título de seu artigo introdutório, no qual explora o campo de estudos sobre “África e Afro-América na América Latina” (Lechini, 2008, p. 11).
Em 1982, Ciro Flamarion Cardoso publicou um livro de síntese comparativa sobre os sistemas escravistas no continente americano, intitulado A Afro-América: a escravidão no Novo Mundo. Nesse texto, Cardoso afirma que convém reservar a denominação de “Afro-América” apenas para a parte do continente onde a escravidão africana chegou a ser a relação de produção predominante, e, portanto, a presença de africanos e afrodescendentes teve maior importância (Cardoso, 1982, p. 24). A perspectiva de Cardoso não deve ser ignorada, mas ao retomarmos o termo no plural, buscando ainda conectá-lo às noções de Afro-Latino-américa e Améfrica Ladina, elaboradas a partir dos movimentos sociais e intelectuais negros brasileiros, procuramos tanto deixar mais fluidas as fronteiras que definem as “Afro-Américas”, quanto aprofundar as perspectivas do campo de estudos. Dessa forma, buscamos dialogar com bases teóricas enraizadas na experiência interseccional de raça, classe e gênero, e com pesquisas mais atuais do campo dos estudos afro-americanos e afro-latino-americanos.
CONCLUSÃO
Este artigo apresenta um ponto de chegada e um ponto de partida. Suas subpartes resultam das pesquisas de membros do GT Afro-Américas, que remontam a tradições intelectuais latino-americanas e revelam o avanço dos estudos nas universidades brasileiras sobre a diáspora africana e a experiência dos afrodescendentes nas Américas. Ao mesmo tempo, essas subpartes, em conjunto, revelam a potencialidade de um campo de estudos em formação, que dialoga com os estudos afro-latino-americanos, afro-caribenhos e afro-estadunidenses, além de proporem uma perspectiva integradora a partir de um olhar assumidamente latino-americano e brasileiro. Desse modo, não se trata de um artigo programático que ofereça uma matriz teórica unificada e compartilhada por todos os integrantes do GT, mas de um convite ao diálogo e à expansão dos horizontes teóricos, que se estende a todas e todos aqueles que investigam a experiência afrodiaspórica nas Américas.
Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
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SILVA, Julio Menezes. Anani Dzidzienyo (1941-2020) - africano pioneiro nos estudos das relações étnico-raciais no Brasil. 29 out. 2020. Disponível em: Disponível em: https://ipeafro.org.br/anani-dzidzienyo-1941-2020-africano-pioneiro-nas-relacoes-etnico-raciais-no-brasil/ Acesso em: 03 dez. 2024.
» https://ipeafro.org.br/anani-dzidzienyo-1941-2020-africano-pioneiro-nas-relacoes-etnico-raciais-no-brasil/ - SIMÕES, Igor Moraes. Montagem fílmica e exposição: vozes negras no cubo branco da arte brasileira. Tese (Doutorado em Artes Visuais) - Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2019.
- SQUEFF, Letícia. Um maldito na Academia: Estevão Silva - algumas notas sobre os caminhos da modernidade no Rio de Janeiro de fins do século XIX. In: BAREL, Ana Beatriz Demarchi; COSTA, Wilma Peres (Orgs.). Cultura e Poder entre o Império e a República. São Paulo: Alameda, 2018. pp. 201-221.
- VALDES, Ildefonso Pereda. Línea de Color: ensayos afro-americanos. Santiago de Chile: Ediciones Ercilla, 1938.
- VALLADARES, Clarival do Prado. A arte negra no Brasil. Revista do Museu de Arte de São Paulo , São Paulo, v. 12, n. 48, pp. 3-10, 1968.
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1
A revista pode ser consultada em Revista Brasileira do Caribe ([s.d.]).
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2
O n. 27 da revista pode ser acessado em Revista Eletrônica da Anphlac ([s.d.]).
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3
O Nego Fugido, como descrito por Monilson Pinto, envolve um ritual de evocação de ancestrais e figuras cênicas, com forte vínculo com a oralidade e a tradições afro-brasileiras. Já os Negros Azules, do Carnaval de Barranquilla, são figuras de resistência e celebração da cultura negra, com foco em expressões artísticas que reverenciam a liberdade e a luta contra a opressão. Ambos são representações vivas de resistência, mas em contextos culturais distintos.
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4
Para além da bibliografia, um bom exemplo é o projeto Afro-Latin American Art: Building the Field, organizado por Alejandro de la Fuente e Thomas Cummins, e que contou com o apoio da Harvard University e da Getty Foundation.
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5
Alguns trechos dessa seção do artigo foram publicados em: Brasil e Canelas (2019) e Mata et al. (2024).
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6
O trabalho de Valdes é mencionado no artigo de Fernanda Oliveira (2024, p. 13).
