Open-access LIDANDO COM A TRANSIÇÃO: IDENTIFICANDO OS FATORES QUE IMPULSIONAM A MUDANÇA PARA A ECONOMIA CIRCULAR NO BRASIL

RESUMO

À medida que o consumo cresce e os recursos naturais se tornam escassos, torna-se imperativo repensar os modelos de negócio, alinhando-os com os princípios da economia circular (EC). Este estudo procura analisar os principais fatores motivadores que servem de guia para uma transição eficaz da indústria para a EC, particularmente considerando a distinção entre as duas categorias de empresas quanto à proatividade com que aderem a modelos de negócio circulares (MNC), se são empresas “nativas” ou “adotantes”. Para tanto, foi aplicado um modelo de tomada de decisão em grupo (GDM) para analisar e comparar as opiniões de especialistas com foco na indústria brasileira. Os resultados sugerem que, embora os profissionais da indústria estejam mais focados em questões práticas e tangíveis, os especialistas académicos tendem a considerar uma gama mais ampla de variáveis e contextos, resultando assim em interpretações distintas dos fatores determinantes. No entanto, as discrepâncias fornecem informações valiosas para gestores empresariais, formuladores de políticas e órgãos reguladores que apoiam a criação de estratégias mais eficazes e abrangentes para promover uma mudança bem-sucedida em direção à EC no Brasil.

Palavras-chave:
economia circular; modelo de negócios circular; motivadores; tomada de decisão em grupo; indústrias brasileiras

ABSTRACT

As consumption grows and natural resources dwindle, it is essential to rethink business models by aligning them with the principles of the circular economy (CE). This study analyzes the key drivers that can guide an effective transition to CE in industry, particularly considering the distinction between the two categories of companies regarding proactiveness in using circular business models (CBMs), if “native” or “adopter” companies. A group decision-making (GDM) model was applied to analyze and compare the opinions of experts focusing on the Brazilian industry. The results suggest that while industry practitioners are more focused on practical and tangible issues, scholars tend to consider a broader range of variables and contexts, thus resulting in distinct interpretations of the drivers. The discrepancies provide valuable insights for business managers, policymakers, and regulatory bodies that support the formulation of more effective and comprehensive strategies to promote a successful shift toward CE in Brazil.

RESUMEN

A medida que crece el consumo y los recursos naturales escasean, se vuelve imperativo repensar los modelos de negocio, alineándolos con los principios de la economía circular (EC). Este estudio analiza los impulsores clave que pueden guiar una transición efectiva a la CE en la industria, considerando particularmente la distinción entre las dos categorías de empresas con respecto a la proactividad en el uso de modelos de negocio circulares, si son empresas “nativas” o “adoptantes”. Para ello, se aplicó un modelo de toma de decisiones grupales (GDM) para analizar y comparar las opiniones de expertos enfocados en la industria brasileña. Los resultados sugieren que, aunque los profesionales de la industria se centran más en cuestiones prácticas y tangibles, los expertos académicos tienden a considerar una gama más amplia de variables y contextos, lo que da lugar a diferentes interpretaciones de los factores determinantes. Aun así, las discrepancias brindan información valiosa para los gerentes empresariales, los formuladores de políticas y los organismos reguladores que apoyan la formulación de estrategias más efectivas e integrales para promover un cambio exitoso hacia la EC en Brasil.

Palabras clave:
economía circular; modelo de negocio circular; motivadores; toma de decisiones grupales; industrias brasileñas

INTRODUÇÃO

A integração de um modelo de negócios baseado no conceito de economia circular (EC) pode incentivar atividades voltadas à redução de resíduos e impactos ambientais negativos, além de abordar a questão do esgotamento dos recursos naturais e criar oportunidades de crescimento para novos negócios, com um modelo econômico mais competitivo e atual (Han et al., 2022; Perotti et al., 2023; Silva, 2019). Além disso, a valorização da ecoeficiência, em decorrência da existência de consumidores mais exigentes e preocupados com o bem-estar das gerações futuras, e, consequentemente, a obtenção de ganhos relacionados à imagem da sustentabilidade, são os principais motivadores do processo de transição de modelos de negócios lineares (modelo produzir-usar-descartar) para circulares (MNCs) (Guarnieri et al., 2023; Kühl et al., 2023; Wang et al., 2022).

Os MNCs visam eliminar desperdícios, otimizar recursos e aprimorar o design de produtos e/ou processos (inovação) sob a perspectiva do tripé da sustentabilidade (social, econômico e ambiental) (Försterling et al., 2023; Kühl et al., 2023; Leitão et al., 2024). É um procedimento de inovação sustentável que ocorre por meio de duas abordagens principais: reativa – advinda da pressão externa de diferentes stakeholders, como clientes, fornecedores, investidores e governo, especialmente por meio de leis e regulamentações; ou proativa – baseada na iniciativa da equipe interna da empresa (Roy et al., 2020). No entanto, as organizações ainda precisam entender quais fatores podem aprimorar e/ou facilitar o processo de adoção eficaz do MNC (Centobelli et al., 2020; Försterling et al., 2023; Henry et al., 2020).

Os motivadores para a transição para uma EC podem variar dependendo da origem do MNC. A literatura mostra que as empresas podem ser categorizadas em dois grupos em termos de sua proatividade no uso de um MNC. O primeiro grupo consiste em “adotantes”, ou seja, empresas que baseiam sua estrutura e modelo de negócios nos princípios da economia linear, mas trabalham para a transição em direção às MNCs. Nesses casos, o principal motivador das empresas para a transição para um MNC diz respeito a fatores econômicos, em vez de aspectos sociais da sustentabilidade (Rovanto e Bask, 2021; Henry et al., 2020). O segundo grupo é o das empresas “nativas”, aquelas que já nasceram tendo por base os princípios sustentáveis da EC (Rovanto e Bask, 2021; Urbinati et al., 2020). O contexto desempenha um papel importante na explicação das diferenças entre empresas nativas e adotantes, desde seus recursos produtivos até os objetivos de seus stakeholders. De acordo com Uvarova et al. (2023), os princípios de EC podem ser implementados de forma diferente em cada empresa, dependendo dos produtos, do setor e de características específicas. Portanto, identificamos a primeira lacuna de pesquisa relacionada à importância de verificar a relação entre os motivadores para a adoção de MNCs e a origem do MNC da empresa, independentemente de esse modelo surgir em uma empresa nativa ou adotante. Uma compreensão granular dessas diferenças é essencial para adaptar estratégias de aceleração da transição – por exemplo, incentivos direcionados para adotantes (geralmente com motivação econômica) versus suporte sistêmico para nativas (baseado em princípios de design circular). Isso forma uma estrutura para políticas e práticas de EC específicas para cada contexto (Rovanto e Bask, 2021), reforçando a importância do presente estudo.

Além disso, diversos estudos reforçam que os motivadores para a adoção do MNC podem mudar dependendo do setor de atividade da empresa e/ou país de abrangência (Guarnieri et al., 2023; Munaro & Tavares, 2023; Salim et al., 2019; Silva et al., 2023). Muitas nações em desenvolvimento ainda parecem estar enraizadas no modelo linear, embora algumas estejam buscando maneiras de fazer a transição para o MNC para impulsionar a economia e melhorar as condições de vida da população (Bag et al., 2021; Silva & Morais, 2021). O Brasil, em particular, tem sido motivado por seu compromisso internacional com a Agenda 2030 das Nações Unidas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o que tem estimulado o investimento em processos e iniciativas sustentáveis.

No entanto, Guarnieri et al. (2023) afirmam que a EC ainda está em fase embrionária no Brasil, em comparação com países desenvolvidos. O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (2020) realizou um estudo que destaca os principais desafios relacionados à EC no país, entre os quais estão o desafio sistêmico da reciclagem e remanufatura de subprodutos na indústria; uma mentalidade ainda presa ao modo tradicional de produção e consumo, além da falta de incentivos e clareza governamental. Isso sinaliza a necessidade de definir marcos legais e regulatórios que promovam um ambiente de negócios adequado ao processo circular, com incentivos e iniciativas de financiamento necessários para a inovação sustentável.

Embora muitas indústrias no Brasil já se dediquem a atividades relacionadas à EC, ainda é difícil associar essas iniciativas a uma transição mais estruturada e sistêmica, tornando necessária a análise das questões organizacionais, sociais e econômicas relacionadas a esse processo (Confederação das Indústrias do Brasil [CBI], 2019; Guarnieri et al., 2023). Assim, surge a questão de pesquisa: quais os fatores motivadoras da adoção do MNC por empresas adotantes ou nativas na indústria brasileira?

Compreender os drivers para a adoção do MNC é uma tarefa complexa, em grande parte devido ao número significativo de stakeholders envolvidos (Zolfani et al., 2023). Modelos que consideram múltiplos tomadores de decisão são essenciais para apoiar todas as partes envolvidas, especialmente em situações complexas. Esses modelos facilitam um processo de aprendizagem que considera pontos de vista diferentes e conflitantes, além de planejar ações de mitigação para abordar o problema (Fontana et al., 2023; Salehi et al., 2024). A tomada de decisão em grupo (group decision-making – GDM) pode ser vista como a tarefa de consolidar e agregar as preferências ou opiniões que um grupo de tomadores de decisão expressa em relação a uma situação ou problema específico (Salehi & Fontana, 2024; Zhang et al., 2019). Em sua revisão de literatura, Lugo et al. (2023) observaram que vários estudos empregaram uma abordagem baseada em dados utilizando grupos focais em tópicos relacionados à EC. No entanto, eles observaram que esses estudos ainda se baseiam em dados não numéricos, e converter essas percepções em dados numéricos é crucial para subsidiar a tomada de decisões técnicas. Esta pesquisa preenche essa lacuna.

Portanto, propusemos uma abordagem GDM para analisar os principais fatores motivadores da adesão a um MNC no contexto da indústria brasileira, considerando empresas “adotantes” e “nativas”. A metodologia empregada na pesquisa aborda lacunas críticas de conhecimento, conduzindo inicialmente uma extensa revisão bibliográfica e, em seguida, consultando dois grupos de especialistas, formados por acadêmicos e profissionais da indústria, usando a técnica de grupo nominal, um método adequado para avaliar questões complexas com diversos pontos de vista. Por fim, os resultados obtidos a partir das decisões baseadas no conhecimento dos especialistas desses grupos são comparados em pares (Salehi & Fontana, 2024). Os resultados da análise numérica das percepções desses especialistas fornecerão suporte técnico aos formuladores de políticas, auxiliando-os no desenvolvimento de políticas públicas mais assertivas, alinhadas ao perfil de cada empresa e ao contexto do país.

REVISÃO DE LITERATURA

O processo de transição de uma empresa para uma economia circular (EC) requer a criação de novos modelos de negócios, que podem ser entendidos como a forma como uma organização cria, entrega e captura valor (Försterling et al., 2023; Kolpinski et al., 2023; Urbinati et al., 2020). Diferentemente dos modelos de negócios lineares, nos quais a geração de valor ocorre apenas economicamente, nos modelos de negócios circulares (MNCs), as contribuições também devem abranger as áreas ambiental e social. Assim, o conceito de MNC consiste em como uma empresa se engaja nesse modelo, e a terminologia é frequentemente usada como sinônimo de EC (Assmann et al., 2023; Rovanto & Bask, 2021).

Rovanto e Bask (2021) consideram o MNC como a aplicação da EC no nível micro, ou seja, no nível da empresa, com implicações econômicas, ambientais e sociais, considerando suas influências e interações nos níveis da cadeia de suprimentos e no contexto regional e global em que estão inseridos. O MNC se relaciona a uma proposta de valor organizacional, criação e entrega de valor e elementos de captura de valor que visam uma EC (Neligan et al., 2023). Portanto, o MNC envolve processos de reciclagem, reprocessamento, reutilização ou termos similares, relacionados ao reprocessamento e reutilização de materiais, mitigando os problemas de escassez de recursos e ajudando a criar valor para a empresa (Bag et al., 2020; Bag et al., 2021). Urbinati et al. (2020) propõem ainda que o nível de adoção de um MNC pode variar em duas dimensões: a primeira diz respeito à adoção de conceitos de circularidade para que o valor seja entregue aos clientes, enquanto a segunda se refere à extensão em que a organização desenvolve maneiras de reorganizar suas atividades internas e integrar seus fornecedores às iniciativas de EC. Muitas empresas se esforçam para fazer a transição de um modelo de negócios linear para um MNC (adotantes), enquanto outras buscam adotar esse conceito desde sua concepção inicial (nativas). Ainda não está claro qual caminho essas empresas estão percorrendo ao realizar tal transição (Centobelli et al., 2020).

Diversos estudos têm discutido os fatores motivadores e as barreiras enfrentadas na adoção de MNCs, a exemplo dos trabalhos de Aloini et al. (2020), Assmann et al. (2023), Geissdoerfer et al. (2023), Giorgi et al. (2022), Neligan et al. (2023) e Upadhyay et al. (2022). O presente estudo analisa os motivadores com maior profundidade, para identificá-los e categorizá-los com base em uma revisão sistemática da literatura (RSL) de acordo com a metodologia proposta por Snyder (2019). Foram consultados artigos publicados entre 2017 e 2023 que abordaram os motivadores para a adoção do MNC.

Em geral, esses estudos categorizam os motivadores em fatores internos e externos e/ou dimensões econômica, ambiental, social e técnica/organizacional (Barboza et al., 2022; Guarnieri et al., 2023; Jabbour et al., 2020; Raspini et al., 2022). Aqui, considerando artigos de revisão de literatura, como Aloini et al. (2020), Mehmood et al. (2021), Munaro e Tavares (2023), Salim et al. (2019) e Wuni (2023), os motivadores foram categorizados em quatro dimensões: social, ambiental, econômica e organizacional, conforme resumido na Tabela 1.

Tabela 1
Fatores por Dimensão Avaliada

A Tabela 1 foi elaborada considerando apenas artigos com metodologias aplicadas, ou seja, estudos de revisão de literatura não foram considerados. Embora a literatura afirme que as empresas adotam MNCs para responder a pressões ambientais e competitivas (Han et al., 2022), os resultados da Tabela 1 mostram que o aspecto ambiental parece ser a dimensão menos influente para as empresas adotarem esses modelos, mesmo sendo um aspecto do tripé da sustentabilidade e, portanto, relacionado ao conceito de EC. Além disso, os motivadores diferem significativamente dependendo do setor e do tipo de modelo de negócio (Bocken et al., 2022; Stempfle et al., 2022), bem como dos recursos externos (contexto do país) e internos disponíveis, como ferramentas de automação, digitalização e inteligência artificial (IA) (Perotti et al., 2023; Pizzi et al., 2022; Sjödin et al., 2023).

Em resumo, apesar da enorme contribuição desses estudos, ainda há necessidade de mais pesquisas que possam indicar o grau de influência desses motivadores na adoção da EC no Brasil. Além disso, não foram encontradas referências que considerem uma avaliação comparativa entre empresas adotantes e nativas, especialmente ao considerar abordagens de tomada de decisão em grupo (group decision-making – GDM).

METODOLOGIA

Este estudo empregou uma abordagem metodológica mista (quali-quantitativa), que proporciona um conhecimento mais amplo, de melhor qualidade e mais abrangente sobre o tema pesquisado, a partir da qual foi realizada uma análise dos principais motivadores para a adoção do modelo de negócio circular (MNC), considerando a distinção entre empresas nativas e adotantes no contexto da indústria brasileira. Assim, seguindo o modelo proposto por Fontana et al. (2023), adaptado ao problema de pesquisa deste estudo, os motivadores, resumidos na Tabela 1, foram avaliados sob a perspectiva da tomada de decisão em grupo (GDM) para analisar e comparar as opiniões de especialistas com foco na indústria brasileira.

A crescente complexidade dos problemas do mundo real criou uma situação em que um único tomador de decisão pode não ser capaz de considerar todos os aspectos relevantes de uma decisão ou pode não ter todas as informações necessárias (Yue et al., 2024). Assim, a GDM apresenta-se como uma abordagem mais adequada, onde diferentes percepções e relações de preferência sobre o problema são consideradas e agregadas para analisá-lo (Meng & Chen, 2021), sendo que existem diversos métodos de GDM na literatura (Meng & Chen, 2021; Yue et al., 2024; Zhang & Chen, 2021; Zhou et al., 2022).

Aqui, optamos pela técnica de grupo nominal (nominal grup technique – NGT), que consiste em uma avaliação individual por especialistas (os “tomadores de decisão” ou “decisores” aqui pesquisados). A principal motivação para a escolha da NGT é que se trata de uma técnica estruturada de tomada de decisão em grupo, projetada para facilitar a geração de ideias e a tomada de decisões de forma sistemática e equitativa. O termo “grupo nominal” significa que a reunião dos tomadores de decisão é apenas nominal, e a interação entre eles é omitida. Assim, um questionário é preparado e fornecido a cada decisor separadamente, sem interação verbal com os outros pesquisados (especialistas participantes) (Salehi et al., 2024; Salehi & Fontana, 2024). Assim, cada tomador de decisão dará sua opinião sobre a questão abordada de forma independente e livre de influências (Fontana et al., 2023). Segundo Salehi et al. (2024), a NGT é considerada um método útil e apropriado para situações-problema que precisam ser investigadas em detalhes e que apresentam um grande número de alternativas (neste caso, os motivadores).

Técnica de Grupo Nominal (NGT)

Especialistas avaliaram os fatores determinantes (Tabela 1), considerando o contexto brasileiro de empresas nativas e adotantes. A seguinte pergunta foi proposta: considerando a particularidade das empresas nativas ou adotantes, você considera esses fatores como determinantes para a adoção do MNC na indústria brasileira? O nível de concordância associado a cada fator determinante foi avaliado por meio de uma escala Likert de 5 pontos, variando de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente), e zero para “não aplicável”. Um questionário eletrônico autoadministrado foi enviado a especialistas selecionados por amostragem de conveniência, utilizando redes sociais como o LinkedIn® e identificando os autores a partir da RSL.

A análise dos dados busca determinar a posição de cada fator determinante, seguindo a Eq. (1) (Fontana et al., 2023).

(1) R a n k = w c i × N V i w T

Onde:

c representa um fator motivador;

i representa um valor linguístico (escala Likert);

wci é o número de especialistas que associaram o i-ésimo valor linguístico ao c-ésimo fator motivador;

NVi é o valor numérico associado ao i-ésimo valor linguístico;

wT é o número total de especialistas em cada grupo.

Em seguida, os resultados foram comparados em pares, utilizando duas abordagens: (a) não ponderada – a opinião dos especialistas é considerada com igual relevância; e (b) ponderada – a opinião dos especialistas é ponderada de acordo com sua experiência e titulação. Para isso, utilizamos a mesma abordagem de Fontana et al. (2023), conforme demonstrado na Tabela 2.

Tabela 2
Critério de Ponderação com Base nos Anos de Experiência e na Graduação Acadêmica dos Especialistas

Perfil dos Especialistas

Os especialistas são pessoas que atuam diretamente na avaliação e na tomada de decisões de negócios para solucionar problemas relacionados à transição para a EC no contexto brasileiro. Assim, foram considerados dois grupos:

  • (g1) Pesquisadores que atuam em universidades localizadas no Brasil e que estudam temas relacionados à EC, sustentabilidade e gestão ambiental, mas que não atuam diretamente na solução de problemas enfrentados nas indústrias.

  • (g2) Profissionais da indústria brasileira (diretores, gerentes, coordenadores, etc.) que atuam diretamente na avaliação e tomada de decisões de negócios para solucionar problemas relacionados à transição para a EC.

A opinião de gestores que atuam na área industrial é importante, pois são eles os decisores no processo de adoção de conceitos, enquanto especialistas acadêmicos apresentam uma opinião teórica mais robusta sobre o tema. Embora parcerias entre academia e indústria para estudos como este sejam possíveis, no Brasil ainda existe uma cultura de pouco diálogo entre esses dois atores. Portanto, consideramos relevante analisar os grupos separadamente.

A Tabela 3 resume o perfil dos especialistas, onde podemos observar que os pesquisadores possuíam qualificações mais elevadas e mais anos de experiência em comparação com os profissionais da indústria.

Tabela 3
Perfil dos Especialistas

Burton et al. (1977) analisaram o impacto do tamanho do grupo na qualidade das respostas e na satisfação dos participantes com os resultados obtidos, com foco específico em grupos nominais. Eles identificaram que o número ideal de participantes para garantir a qualidade e a satisfação era de 10 especialistas. Quando esse número é excedido, tanto a qualidade quanto a satisfação dos especialistas com os resultados obtidos diminuem. Segundo os autores, isso pode ser explicado pelo fato de que, em grupos maiores, a gestão do tempo, com prazos e participação, se torna mais desafiadora, levando à dispersão da atenção e à frustração entre os especialistas. Além disso, as opiniões desses dois grupos pesquisados foram comparadas e analisadas para identificar semelhanças e diferenças entre os fatores motivadores aplicados a esses dois tipos de empresas (adotantes ou nativas) (Rovanto & Bask, 2021). Seis cenários foram definidos coletiva e exaustivamente com base nas definições da NGT sobre opiniões ponderadas e não ponderadas. É importante mencionar que esses seis cenários representam todas as combinações possíveis ao usar a NGT e as definições de empresas adotantes e nativas:

  • Empresas adotantes: Comparação das opiniões não ponderadas (Cenário C1) e ponderadas (Cenário C2) dos dois grupos de especialistas para empresas adotantes;

  • Empresas nativas: Comparação das opiniões não ponderadas (Cenário C3) e ponderadas (Cenário C4) dos dois grupos de especialistas para empresas nativas;

  • Empresas nativas versus adotantes: Comparação das opiniões não ponderadas de pesquisadores (Cenário C5) e profissionais da indústria (Cenário C6) sobre empresas nativas e adotantes.

A análise desses cenários permite uma visão holística do problema. Além disso, os problemas de decisão relativos às questões sustentáveis envolvem objetivos e pontos de vista conflitantes. Assim, abordagens que levem em conta a percepção de mais stakeholders podem oferecer um panorama mais completo da situação (Fontana et al., 2023). Os resultados são apresentados na próxima seção.

RESULTADOS

Empresas adotantes

Considerando os dados analisados, as Figuras 1 e 2 apresentam os resultados dos cenários C1 e C2, respectivamente, que se referem à avaliação de especialistas pesquisadores e profissionais da indústria em relação às empresas adotantes nos motivadores listados na Tabela 1.

Figura 1
Cenário C1

Figura 2
Cenário C2

Ao analisar os resultados por dimensão, chama a atenção a pouca relevância atribuída por ambos os grupos aos fatores ambientais e a alguns dos fatores sociais em comparação às demais dimensões. Quando levamos em consideração a opinião dos especialistas de forma ponderada, observamos uma maior aproximação no percentual de classificação dos motivadores, levando a uma maior convergência entre os tomadores de decisão para quase todos os fatores. Observa-se também que os fatores ambientais apresentam classificação inferior aos demais para os dois grupos de especialistas. Isso sugere que o desenvolvimento de estratégias que coloquem as questões ambientais em primeiro plano é uma estratégia de EC pouco utilizada no processo de transição das empresas adotantes.

Analisando os motivadores especificamente na dimensão econômica, observamos que os fatores 1.3, 1.5 e 1.7 apareceram como altamente impactantes na adoção do MNC, enquanto os fatores 1.2, 1.4 e 1.6 foram considerados menos influentes para a adoção da EC. Além disso, os fatores 1.2, 1.4 e 1.5 geraram maior divergência entre os grupos: para os pesquisadores, o fator 1.2 foi considerado menos significativo, enquanto para os pesquisadores, os fatores 1.4 e 1.5 receberam uma classificação mais baixa. Em relação às similaridades entre os grupos de especialistas, o fator 1.4 apresentou a menor similaridade (30%), enquanto os fatores 1.3 e 1.10 apresentaram a maior similaridade (70%).

Na dimensão ambiental, o fator 2.5 foi considerado o de maior impacto em termos de aplicação, além de apresentar maior similaridade nas avaliações (80%), enquanto os fatores 2.1 e 2.3 parecem ter baixa influência na transição. O motivador 2.4 apresentou a menor similaridade (30%), onde podemos observar que, para profissionais da indústria, esse parece ser um fator relevante, mas, para os pesquisadores, não.

Na dimensão organizacional, nota-se uma maior disparidade entre os especialistas, na qual os pesquisadores atribuíram uma influência menos significativa a esta dimensão em comparação com os profissionais da indústria. Quanto às similaridades entre os grupos, o fator 3.6 apresenta claramente a menor similaridade (20%), enquanto os motivadores 3.3 e 3.5 apresentam a maior similaridade (60%).

Finalmente, a dimensão social apresentou um comportamento semelhante ao observado na dimensão organizacional, com o grupo dos profissionais atribuindo um maior impacto aos fatores motivadores quando comparado com os pesquisadores. Nesse caso, as similaridades são menores nos fatores 4.1, 4.3 e 4.6, todos com 30%, e principalmente no aspecto 4.4, em que a concordância atingiu apenas 20%. Quanto ao fator com maior similaridade, observa-se que ambos os grupos concordam, em sua maioria, que políticas públicas, iniciativas governamentais e preocupações ambientais vindas dos consumidores facilitam a adoção do MNC, como demonstrado nos resultados das avaliações nos fatores 4.2 e 4.8, que atingiram 70% e 80%, respectivamente.

Empresas nativas

As Figuras 3 e 4 apresentam os resultados dos cenários C3 e C4, respectivamente, referentes às empresas nativas.

Figura 3
Cenário C3

Figura 4
Cenário C4

Em relação a esses resultados, chama a atenção a disparidade entre as avaliações dos fatores ambientais e alguns dos fatores organizacionais e sociais. De modo geral, os profissionais da indústria consideraram os motivadores mais significativos em comparação aos pesquisadores. Assim como na análise anterior, quando consideramos a opinião dos especialistas de maneira ponderada, temos uma maior aproximação no percentual de classificação, levando a uma maior convergência na maioria dos resultados.

Na dimensão economia, observamos que os fatores 1.3, 1.5 e 1.6 apareceram como fatores com impacto mais significativo, segundo a avaliação dos dois grupos. Em relação à similaridade entre as avaliações dos decisores, os motivadores econômicos 1.1 e 1.9 apresentaram a menor similaridade (30%), enquanto o 1.6 apresentou o maior grau de similaridade (80%), sendo os fatores 1.3, 1.4, 1.5 e 1.7 os que vieram logo em seguida, com 70% de similaridade nas opiniões. Ressalta-se que, na opinião dos dois grupos respondentes, o potencial para desenvolver novos MNCs parece ser um fator mais relacionado às empresas nativas em comparação às empresas adotantes, cujo maior foco é o aspecto financeiro.

Na dimensão ambiental, o fator 2.6 apresentou a menor similaridade entre as avaliações (20%), enquanto o 2.5 apresentou a maior similaridade (50%), destacando-se também como o motivador mais relevante para as empresas nativas. Para os especialistas, as empresas nativas parecem estar mais dispostas a adotar conceitos de EC com o objetivo de cuidar do meio ambiente e reduzir impactos ambientais, fazendo melhor uso de tecnologias e inovações em produtos e processos para isso.

Para a dimensão organizacional, os itens 3.2 e 3.4 apresentaram a maior similaridade (70%) e relevância. Já os fatores 3.5 e 3.6 apresentaram a menor similaridade nas opiniões (20%). Por fim, na dimensão social, o fator que se destacou com maior similaridade foi o 4.5, enquanto os fatores 4.3 e 4.4, por sua vez, apresentaram a menor similaridade (20%).

Empresas adotantes versus nativas

Esta seção se propõe a comparar os motivadores para empresas adotantes e nativas na opinião dos pesquisadores (C5) e profissionais da indústria (C6), conforme resultados resumidos nas Figuras 5 e 6, respectivamente.

Figura 5
Cenário C5

Figura 6
Cenário C6

Levando em consideração as opiniões dos pesquisadores (Figura 5) quanto à aplicação dos fatores para as empresas adotantes e nativas, observamos uma maior aproximação quanto à influência na transição em ambas, embora ainda haja uma leve tendência a uma maior influência das nativas. Em termos de motivadores econômicos, os mais significativos foram 1,3 e 1,6 para as nativas e 1,5 para as adotantes, enquanto os menos significativos foram 1,9 e 1,2 para as nativas e para as adotantes, respectivamente. Na dimensão ambiental, o fator 2,5 destacou-se por ter o maior impacto tanto para as nativas quanto para as adotantes, enquanto o 2,3 apresentou menor nível de concordância entre as adotantes e o 2,1 entre as nativas. Na dimensão organizacional, o motivador mais influente, tanto para nativas quanto para adotantes, foi 3,2. Enquanto apenas 3,1 se destacou como tendo menor impacto para as nativas, adotantes ainda tiveram 3,4 e 3,5. Por fim, na dimensão social, o driver 4,2 apresentou maior grau de significância para adotantes, enquanto para nativas, esses fatores foram 4,3 e 4,5. Quanto ao fator menos influente, 4,9 foi considerado tanto para adotantes quanto para nativas.

Em relação à percepção dos profissionais, muitos dos motivadores parecem ter maior influência na transição de empresas nativas do que na aplicação para as adotantes. Considerando a dimensão econômica, os mais significativos foram 1,3 e 1,6 para nativas e também 1,3 para adotantes, enquanto os menos influentes foram 1,1 e 1,2 para nativas e 1,4 para adotantes. Na dimensão ambiental, o fator 2,2 se destacou como tendo o maior impacto, enquanto os fatores 2,3 e 2,6 tiveram menor impacto para nativas. Para as adotantes, o fator mais significativo foi 2,6, e o de menor impacto foi 2,4. Na dimensão organizacional, os mais influentes para as nativas foram 3,5 e 3,6, enquanto o 3,3 se destacou por ter menor impacto. Para as adotantes, o fator 3,1 teve menor impacto, enquanto 3,3 e 3,4 tiveram maior grau de aplicação. Por fim, na dimensão social, o 4,4 apresentou maior nível de significância para as nativas, enquanto para as adotantes, esses fatores foram 4,3 e 4,5. Para os fatores menos influentes, considerou-se 4,9 para as nativas e 4,6 para as adotantes.

Em resumo, a Tabela 4 oferece uma análise geral, resumindo a convergência dos motivadores mais e menos influentes, bem como aqueles que apresentaram divergência significativa, os quais requerem maior atenção na tomada de decisão.

Tabela 4
Análise Geral de Convergências e Divergências

A próxima seção apresenta a discussão principal sobre os resultados aqui relatados, relacionando-os com a literatura.

DISCUSSÃO

Fatores econômicos como principal motivação para a adoção de modelos de negócios circulares (MNCs)

Nossas descobertas confirmam que os incentivos econômicos são um dos principais motivadores para a adoção de MNCs entre as empresas, em linha com estudos anteriores (Mehmood et al., 2021; Wuni, 2023). Ambos os grupos de especialistas concordam que o aumento da participação de mercado, a melhoria da reputação corporativa e o fomento do crescimento econômico são motivadores cruciais. No entanto, nosso estudo amplia essa literatura ao mostrar que esses fatores são percebidos como mais influentes em empresas nativas do que em empresas adotantes. Embora Rovanto e Bask (2021) tenham sugerido que as empresas nativas estão estruturalmente mais preparadas para MNCs, nossos resultados indicam que os fatores econômicos permanecem centrais mesmo quando a circularidade é incorporada desde o início. Essa nuance destaca a necessidade de investigar mais a fundo se os incentivos econômicos são tão essenciais nas empresas nativas no longo prazo ou se elas transitam para motivações mais intrínsecas, orientadas pela sustentabilidade.

O papel dos motivadores ambientais e organizacionais

Uma divergência de perspectivas surgiu em relação às dimensões ambiental e organizacional. Em contraste com os profissionais da indústria, os pesquisadores demonstraram menor confiança no papel da dimensão ambiental na adoção de MNCs, particularmente no que diz respeito às influências regulatórias. Essa descoberta está alinhada com Jabbour et al. (2020), que observaram que a aplicação regulatória no Brasil permanece inconsistente, limitando sua eficácia como impulsionadora de MNCs. No entanto, nosso estudo contribui para a literatura ao identificar a redução de resíduos como um fator particularmente influente, impulsionado pela evolução do cenário regulatório brasileiro (Guarnieri et al., 2023; Silva & Morais, 2021). Isso sugere que as estruturas regulatórias podem precisar ser aplicadas e apoiadas de forma mais eficaz para preencher a lacuna de percepção entre os pesquisadores nas universidades e profissionais da indústria.

Da mesma forma, a agilidade organizacional e a reestruturação interna são fatores-chave na adoção de MNCs (Castro-Lopez et al., 2023). Nossas descobertas destacam uma divergência significativa nas opiniões de especialistas, com pesquisadores atribuindo menos importância aos fatores organizacionais do que os profissionais da indústria. Essa discrepância sugere que as perspectivas acadêmicas podem subestimar as complexidades operacionais e as capacidades dinâmicas necessárias para a implementação de MNCs. Jabbour et al. (2020) enfatizam que a transição para a EC exige mudanças nas estruturas corporativas, na colaboração interdepartamental e nas habilidades dos colaboradores. Nosso estudo se baseia nisso, demonstrando que os profissionais dão maior ênfase à necessidade de comunicação e treinamento dentro das empresas, especialmente para empresas nativas, onde os MNCs são integrados desde o início.

A influência limitada de fatores sociais e a necessidade de pressão do mercado

Os fatores sociais foram consistentemente classificados como menos influentes na adoção de MNCs, particularmente em relação à demanda do consumidor e à pressão do mercado. Embora incentivos políticos, como subsídios estatais, tenham sido reconhecidos como motivadores (Rabêlo & Melo, 2018), houve pouco consenso entre os especialistas sobre o impacto mais amplo das leis e regulamentações ambientais. Isso corrobora o argumento de Jabbour et al. (2020) de que a influência regulatória no Brasil não possui a mesma robustez observada em outros países. No entanto, nossas descobertas ampliam essa discussão ao identificar uma mudança potencial: as pressões do mercado internacional, particularmente de países desenvolvidos que demandam produtos circulares do Brasil, podem se tornar um fator mais significativo (Guarnieri et al., 2023). Isso sugere que, embora a aplicação regulatória doméstica permaneça inconsistente, as pressões externas podem moldar cada vez mais a adoção de MNCs por empresas brasileiras.

Guia para formuladores de políticas

Este estudo aprimora a literatura existente, enfatizando três aspectos críticos da adoção de MNCs: (1) os motivadores econômicos permanecem fundamentais, mas podem evoluir de maneira diferente para empresas nativas e adotantes; (2) a lacuna entre as percepções de pesquisadores e profissionais destaca a necessidade de uma fiscalização regulatória mais rigorosa e de uma adaptação organizacional; e (3) os fatores sociais atualmente desempenham um papel limitado, mas as pressões externas do mercado podem alterar esse cenário. Ao consolidar essas descobertas, nossa discussão contribui para uma compreensão mais detalhada da dinâmica de adoção de MNCs, oferecendo insights tanto para pesquisadores quanto para profissionais que navegam na transição para uma EC. Jabbour et al. (2020) sugerem que os governos de países emergentes devem desenvolver políticas que facilitem essa transição para práticas de EC.

Com base em nossas descobertas, desenvolvemos uma estrutura de políticas para orientar os formuladores de políticas no fomento à adoção de um MNC. Essa estrutura é categorizada em cinco áreas principais, conforme ilustrado na Figura 7. Essas categorias se alinham aos principais fatores motivadores econômicos, ambientais e organizacionais identificados em nosso estudo, garantindo uma conexão coerente entre insights teóricos e recomendações práticas.

Figura 7
Recomendações Concretas para Formuladores de Políticas Públicas e Agências Reguladoras

  • Incentivos: Dadas as fortes motivações econômicas que impulsionam a adoção do MNC, recomendamos medidas financeiras direcionadas. Para as empresas adotantes, que normalmente exigem capital inicial para modernizar sistemas lineares, as iniciativas recomendadas incluem créditos fiscais para investimentos em processos circulares, empréstimos subsidiados para modernização de equipamentos e subsídios para projetos-piloto. Em contrapartida, as empresas nativas, cujas necessidades giram em torno de escala, podem se beneficiar de incentivos fiscais de P&D para inovações em design circular e subsídios à exportação de produtos sustentáveis. Além disso, o alinhamento desses instrumentos financeiros com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura) pode impulsionar ainda mais a industrialização sustentável.

  • Regulamentações: Propomos a aplicação de regulamentações mais rigorosas que imponham a redução de resíduos e a eficiência de recursos, apoiadas por mecanismos de conformidade mais robustos. Para as empresas adotantes, recomenda-se uma implementação gradual das metas de redução de resíduos (por exemplo, uma melhoria anual de 10% na eficiência de materiais), juntamente com o suporte de auditoria. Para empresas nativas, cujas operações já estão incorporadas à EC, medidas mais rigorosas de responsabilização do ciclo de vida, como, por exemplo, “passaportes” obrigatórios para produtos, podem garantir transparência e rastreabilidade. Essas estratégias regulatórias estão alinhadas ao ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis), promovendo práticas comerciais sustentáveis em todos os níveis..

  • Pesquisa e Desenvolvimento (P&D): Preencher a lacuna entre a pesquisa acadêmica e a aplicação industrial é essencial para acelerar as inovações em uma EC. Recomendamos a criação de fundos dedicados à P&D e ao fomento de parcerias público-privadas para apoiar a comercialização de soluções circulares. Especificamente para as empresas adotantes, o financiamento deve se concentrar em pesquisa aplicada para a transição de modelos lineares para circulares (por exemplo, infraestrutura de reciclagem). Já para as empresas nativas, o apoio deve priorizar inovações revolucionárias (por exemplo, desenvolvimento de biomateriais) por meio de parcerias colaborativas. Esses esforços apoiam o ODS 17 (Parcerias para os Objetivos), incentivando sinergias entre a academia, a indústria e o governo.

  • Campanhas: Pressões impulsionadas pelo mercado, especialmente de partes interessadas internacionais, estão emergindo como fatores influentes na adoção de MNCs. Para capitalizar essa tendência, recomendamos campanhas nacionais de conscientização que eduquem os consumidores sobre os benefícios dos produtos circulares, fortalecendo assim a demanda do mercado por produtos sustentáveis. As empresas adotantes devem se concentrar em campanhas B2B que enfatizem a economia de custos e os ganhos de eficiência com práticas circulares (por exemplo, estudos de caso de simbiose industrial), enquanto as empresas nativas devem investir em esforços de branding voltados para o consumidor (por exemplo, promoções com selos ecológicos) para reforçar sua posição no mercado. Essas iniciativas apoiam o ODS 13 (Ação Climática), promovendo um comportamento ambientalmente responsável do consumidor.

  • Treinamento: Agilidade organizacional e adaptação estrutural são os principais facilitadores da implementação bem-sucedida do MNC. Para aumentar a prontidão da indústria, defendemos iniciativas de capacitação, como programas de requalificação da força de trabalho focados na gestão da cadeia de suprimentos circular para as empresas adotantes e treinamentos de executivos sobre como escalar modelos de negócios circulares e aderir aos padrões internacionais para as nativas. Esses programas contribuem para o ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico), garantindo que os profissionais estejam equipados com as habilidades necessárias para liderar a transição circular.

Essa estrutura reconhece que soluções universais são inadequadas para os MNCs. Ao combinar objetivos universais alinhados aos ODS (por exemplo, redução de resíduos) com ferramentas adaptadas às tipologias das empresas, oferecemos aos formuladores de políticas a possibilidade de elaborar estratégias de intervenção coerentes, porém flexíveis. Simultaneamente, as empresas têm a possibilidade de gerenciar suas transições de maneiras que reflitam seus contextos operacionais específicos. A diferenciação proposta garante que empresas nativas e adotantes recebam apoio direcionado, ao mesmo tempo em que promovem o progresso sistêmico em direção a uma EC.

CONCLUSÕES

Este artigo se propôs a avaliar os principais impulsionadores da adoção do Modelo de Negócios Circular (MNC) por empresas adotantes e nativas na indústria brasileira, com foco nas dimensões ambiental, econômica, organizacional e social. Ao fazê-lo, apresentamos quatro contribuições principais.

Primeiro, apresentamos uma nova abordagem para avaliar os fatores motivadores da adoção do MNC na indústria brasileira, utilizando uma perspectiva da tomada de decisão em grupo (GDM), que leva em consideração a natureza multifacetada e frequentemente conflitante da questão, enquanto reflete os diversos pontos de vista daqueles envolvidos na pesquisa acadêmica e na estratégia industrial. Em segundo lugar, a implementação desse modelo pode auxiliar formuladores de políticas, acionistas, gestores e líderes do setor na elaboração de estratégias que orientem as empresas de forma mais eficaz na adoção de MNCs, especialmente ao considerar as diferenças entre empresas que ainda operam sob um modelo linear e aquelas recém-estabelecidas dentro de uma estrutura circular. Em terceiro lugar, os insights obtidos com o presente estudo podem ser utilizados por formuladores de políticas e agências reguladoras para desenvolver políticas e estratégias mais eficazes que apoiem a transição do Brasil para uma economia circular (EC). Recomendações específicas incluem a introdução de incentivos financeiros e regulamentações rigorosas com metas alcançáveis para empresas em transição para a EC, juntamente com o fornecimento de fundos para pesquisa e desenvolvimento para incentivar soluções inovadoras adaptadas aos contextos locais das empresas brasileiras. Além disso, programas de treinamento direcionados em práticas de EC em diversos setores econômicos e campanhas de conscientização pública que promovam os benefícios de comprar de empresas circulares são etapas essenciais. Finalmente, este estudo pode servir como um recurso valioso para gestores envolvidos em diversas áreas da EC, particularmente aqueles interessados em estudos de estratégia que incorporem a tomada de decisão formal e considerem as perspectivas de múltiplos stakeholders. Além disso, oferece orientação científica para a tomada de decisão, fornecendo informações úteis e confiáveis para pesquisadores que buscam aprofundar sua compreensão dos principais motivadores da adoção do MNC.

Este estudo limitou-se ao contexto brasileiro. Pesquisas futuras devem explorar diversas questões não resolvidas e emergentes para aprimorar nossa compreensão e facilitar a adoção mais ampla da EC. Primeiramente, é crucial investigar as perspectivas e os papéis de agentes públicos e representantes da sociedade civil, particularmente como as políticas governamentais e as campanhas de conscientização pública influenciam o comportamento corporativo. A compreensão dessas dinâmicas oferecerá uma visão mais abrangente dos motivadores da adoção da EC, destacando a importância das abordagens de cima para baixo e de baixo para cima na promoção de práticas sustentáveis. Em segundo lugar, avaliar a escalabilidade de diferentes MNCs em diversos setores é essencial para identificar as estratégias mais eficazes para uma adoção generalizada. Estudos comparativos entre setores e regiões podem esclarecer os fatores contextuais que influenciam a escalabilidade, como ambientes regulatórios, condições de mercado e atitudes culturais. A presente pesquisa ajudará a identificar quais modelos são mais eficazes em contextos específicos, permitindo uma implementação direcionada e eficiente. Além disso, a realização de estudos longitudinais para avaliar os impactos econômicos de longo prazo da adoção de MNCs é uma área crítica para exploração posterior. Essas investigações podem fornecer insights sobre a sustentabilidade e a lucratividade desses modelos ao longo do tempo, analisando a economia de custos, os fluxos de receita e a competitividade de mercado para determinar a viabilidade econômica das práticas de EC. Por fim, explorar o papel de tecnologias emergentes, como blockchain, Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial (IA), na facilitação da transição para a EC é vital. Essas tecnologias têm o potencial de aumentar a eficiência e a rastreabilidade dos recursos, apresentando novas oportunidades e desafios. Entender como elas podem ser integradas às práticas circulares será crucial para avanços futuros, impulsionando a inovação e melhorando a eficácia das iniciativas de EC.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a todos os respondentes da pesquisa.

  • Avaliado pelo sistema de revisão duplo-anônimo.
  • O relatório de revisão por pares está disponível neste link
  • FINANCIAMENTO
    Esta pesquisa foi fi iada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES), processo número 001, e pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - Edital pesquisador PROPG nº 09/2023.

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Editado por

  • Editores convidados:
    Susana Carla Farias Pereira, Simone Sehnem, Ana Beatriz Lopes de Sousa Jabbour, Valentina Gomes Haensel Schmitt e Fanny Saruchera

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    03 Abr 2024
  • Aceito
    06 Dez 2024
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