Open-access Apontamentos sobre a articulação entre psicanálise e cultura na obra de Karen Horney

Notes on the articulations between psychoanalysis and culture in Karen Horney’s work

Notes sur l’articulation entre psychanalyse et culture dans l’œuvre de Karen Horney

Notas sobre la articulación entre psicoanálisis y cultura en la obra de Karen Horney

Resumo

Karen Horney é uma pioneira da psicanálise pouco conhecida no Brasil. Entre os aspectos mais relevantes de sua obra, está a ênfase nas especificidades culturais do psiquismo e sua forma de olhar para a cultura em enlace com a psicanálise. O objetivo deste artigo foi investigar como as relações entre psicanálise e cultura aparecem na obra de Horney e sublinhar suas contribuições nesse sentido, percebendo que ela enfatiza os atravessamentos das especificidades culturais na constituição do sujeito, na produção de conhecimento, nas teorizações psicanalíticas e no próprio cotidiano da clínica. Horney articula, também, suas formulações sobre a cultura com críticas fundamentais para as trocas entre psicanálise, feminismo e estudos de gênero.

Palavras-chave:
psicanálise; cultura; Karen Horney

Abstract

Karen Horney is a psychoanalytic pioneer relatively unknown in Brazil. Among the most relevant aspects of her work is the emphasis on the cultural specificities of the psyche and the relation between culture and psychoanalysis. This article investigates how the relation between psychoanalysis and culture appear in Horney’s work and highlights her original contributions, noting how she emphasizes cultural specificities on subjective constitution, on knowledge construction, on psychoanalytic theories and on everyday clinical work. Horney also relates her contributions on culture to fundamental critiques for dialogues between psychoanalysis, feminisms and gender studies.

Keywords:
psychoanalysis; culture; Karen Horney

Résumé

Karen Horney a été une pionnière de la psychanalyse peu connue au Brésil. Parmi les aspects les plus pertinents de son travail, on trouve l’accent mis sur les spécificités culturelles de la psyché et sa façon d’envisager la culture en conjonction avec la psychanalyse. Cet article examine comment la relation entre la psychanalyse et la culture apparaît dans l’œuvre de Horney et souligne ses contributions à cet égard, en notant qu’elle met l’accent sur les croisements des spécificités culturelles dans la constitution du sujet, dans la production du savoir, dans les théories psychanalytiques et dans le quotidien clinique. Horney articule également ses formulations sur la culture avec des critiques fondamentales pour les échanges entre la psychanalyse, les féminismes et les études de genre.

Mots-clés :
psychanalyse; culture; Karen Horney

Resumen

Karen Horney es una pionera del psicoanálisis que poco se conoce en Brasil. Entre los aspectos más relevantes de su obra se destaca el énfasis sobre las especificidades culturales para el psiquismo y su forma de mirar la cultura en sus lazos con el psicoanálisis. El objetivo de este artículo fue examinar cómo las relaciones entre el psicoanálisis y la cultura aparecen en la obra de Horney, y subrayar sus contribuciones, observando que la autora acentúa los cruzamientos de las especificidades culturales en la constitución del sujeto, en la producción del conocimiento, en las teorizaciones psicoanalíticas y en el propio cotidiano de la clínica. Horney también articula sus formulaciones sobre la cultura con críticas fundamentales para los intercambios entre psicoanálisis, feminismos y estudios de género.

Palabras clave:
psicoanálisis; cultura; Karen Horney

Embora pouco conhecida e estudada no Brasil, Karen Horney foi uma pioneira da psicanálise de grande importância para o movimento psicanalítico, em especial no que tange às grandes discussões acerca da feminilidade e da diferença sexual que ocorreram nas décadas de 1920 e 1930 na Europa. Nascida na Alemanha em 1885, Horney foi médica psiquiatra e interessou-se pela psicanálise, buscando análise com Karl Abraham e, posteriormente, com Hans Sachs (Natterson, 1966). Foi a primeira mulher membro do Instituto Psicanalítico de Berlim, atendendo clinicamente e lecionando no que foi uma das primeiras clínicas públicas a oferecerem atendimentos gratuitos em psicanálise (Eckardt, 2005). Suas primeiras publicações psicanalíticas datam do final da década de 1910, mas é a partir do início da década seguinte que a autora passa a ter um ritmo intenso de publicações e participações em congressos de psicanálise, debruçando-se, principalmente, sobre os efeitos do referencial masculino que permeava a teorização sobre feminilidade em psicanálise.

Em 1932, Horney mudou-se para os Estados Unidos, a convite do psicanalista Franz Alexander, para ser diretora do Chicago Institute for Psychoanalysis. Dois anos depois, a autora mudou-se para Nova York, onde mantinha um consultório e lecionava tanto no Instituto Psicanalítico de Nova York quanto na New School for Social Research, instituição fundada em 1919 por intelectuais progressistas para o estudo de humanidades e problemas sociais, existente até hoje. Suas produções e ideias revolucionárias, que se contrapunham a várias premissas de Freud, não foram bem aceitas pelo Instituto Psicanalítico de Nova York, culminando em sua saída em 1941, depois da qual fundou o Instituto Americano de Psicanálise1, que também existe até hoje (Eckardt, 2005; Gilman, 2001). No mesmo ano, fundou também o American Journal of Psychoanalysis, que segue tendo publicações atualmente. Ela morreu de câncer em 1952, em Nova York.

A partir de sua mudança para os Estados Unidos, a própria Horney (1939/1966) afirma que o encontro com uma nova cultura, diferente da europeia, a fez refletir cada vez mais sobre o lugar da cultura para o psiquismo. Embora essa discussão já estivesse em sua obra anteriormente, é notável que da década de 1930 em diante suas produções se direcionam gradativamente no sentido de afirmar a importância das especificidades culturais na constituição do sujeito psíquico. Diante disso, e tendo em vista a relevância contemporânea das discussões sobre o enlaçamento entre psicanálise e cultura, o objetivo deste artigo é investigar como este aparece na obra de Karen Horney e sublinhar suas contribuições para esse tema.

Especificidades da abordagem de Horney sobre a cultura

Um dos principais traços pelo qual a obra de Horney ficou conhecida refere-se ao dito culturalismo que atravessa sua obra; isto é, ao fato de ter dado destaque, em suas produções, ao papel da cultura para o psiquismo (Gilman, 2001; Natterson, 1966; Paris, 1994). Não se pode dizer, contudo, que a atenção aos enlaces entre cultura e constituição psíquica são característica exclusiva de seu pioneirismo, pois sabemos que vários autores, incluindo o próprio Freud, também realizaram esse movimento em suas escritas. As iniciativas pioneiras de Horney nesse sentido se dão mais pela forma como a autora aborda a temática do que pela temática em si. Por esse motivo, torna-se relevante compreender algumas diferenças entre o lugar da cultura na obra freudiana, que servia de diretriz para a maioria dos autores à época, e na obra de Horney. Assim, podemos construir uma compreensão sobre as especificidades da visão dessa autora sobre a cultura e as suas divergências em relação ao referencial mais adotado naquele período sobre esse tema.

Cabe ressaltar, ainda, que Horney não era a única a agregar novas leituras sobre o lugar da cultura para o psiquismo na psicanálise daquele momento, sendo acompanhada de colegas como Alfred Adler, Erich Fromm2 e outros. Notamos, assim, uma discussão ampliada sobre o culturalismo no âmbito psicanalítico daquela época, e não uma investida isolada de Horney sobre o assunto.

Na obra freudiana, em diversas ocasiões, o autor se debruçou sobre teorizações acerca da cultura. Pode-se afirmar que desde o princípio a psicanálise esteve ocupada da cultura de seu tempo e também da investigação sobre os fundamentos da cultura em geral. Um dos textos freudianos mais conhecidos nesse sentido é Totem e tabu, de 1913. Nele, Freud (1913/2013) faz um traçado do que seriam as origens da cultura por meio do mito da horda primitiva, que retrata os homens sendo dominados por um pai tirânico. Na narrativa freudiana, a cultura se funda a partir da união dessa fratria, desse conjunto de homens irmãos que, revoltados contra o pai, o assassinam. Contudo, após sua morte, a imagem do pai assume mais força, por meio do medo e da culpa que assombra os irmãos. Com isso, são instauradas leis e rituais na fratria que limitam o poder individual e, ao mesmo tempo, protegem seus membros do castigo do pai, elevado ao patamar de totem, e de si mesmos. Para o autor, o sentido dessa narrativa mítica também está no cerne do surgimento das religiões monoteístas. Reverberações desse modelo estão tanto nas organizações e instituições sociais quanto no decorrer da constituição de cada sujeito.

A análise freudiana que leva à construção dessa narrativa expressa a tentativa de buscar fundamentos universais que regem as diferentes culturas, com base em estudos antropológicos. Ao longo do texto, Freud (1913/2013) se utiliza de referenciais antropológicos para exemplificar fenômenos encontrados em diferentes culturas que ele adjetiva como “primitivas”, elencando um traço em comum entre elas - a saber, o totemismo e o tabu do incesto, que podem se manifestar de diversas formas. O autor, então, faz uma analogia dessa suposta herança cultural com o que encontrava na clínica com neuróticos, notadamente, com o chamado complexo de Édipo.

Em 1930, em Mal-estar na cultura, Freud (1930/2010) retoma o mito da horda primitiva com outros fins: discute as diversas negociações que o sujeito tem de fazer para estar na cultura, sacrificando seus interesses individuais e limitando seus desejos em prol de um coletivo. Aqui, o autor enfoca as exigências da cultura referentes a cada sujeito e sua relação com os conflitos neuróticos. Em ambas as produções, notamos que a abordagem freudiana sobre a cultura assume uma perspectiva universalista, isto é, salienta traços fundamentais que, em sua visão, seriam as bases para o surgimento da cultura e para a relação de cada sujeito com ela.

Sabemos que a discussão sobre o lugar da cultura em Freud não pode basear-se apenas nos textos mencionados para uma compreensão aprofundada. Além disso, o autor comenta, em trechos diversos de sua obra, questões relativas às especificidades da cultura europeia de seu tempo (Freud, 1908/1996, 1915/1974). Concentramo-nos nesses textos com o intuito de situar, por autores conhecidos pela proposição de alguns pilares fundamentais da cultura, as dissonâncias principais entre Freud e Horney na forma de abordar esse tema.

A própria autora estabeleceu alguns pontos de divergência de seu entendimento sobre o papel da cultura no psiquismo em relação a Freud. Para Horney (1935/1991e, 1937/1977, 1939/1966), Freud tinha uma abordagem predominantemente universalista da cultura que produzia generalizações a partir de uma cultura específica, a do homem europeu ocidental de classe média: “. . . Freud atribuiu a fatores biológicos as tendências predominantes do neurótico da classe média da civilização ocidental, isto é, considerou-as como inerentes à ‘natureza humana’” (Horney, 1939/1966, p. 138). Para ela, diferentes culturas poderiam engendrar diferentes conflitos inconscientes, e não seria correto atribuir universalidade às teorizações psicanalíticas sem considerar contextos culturais específicos.

A autora criticava a ausência ou insuficiência de consideração a questões culturais em algumas leituras clínicas correntes à época, e de algumas ainda contemporâneas; por exemplo, na atribuição de inveja do pênis a diversas manifestações de pacientes mulheres (1934/1991c) ou na afirmação de que o masoquismo estaria naturalmente vinculado à feminilidade (1935/1991e), entre outros. Para Horney (1939/1966), a aposta desmedida na etiologia sexual das neuroses e na leitura de fenômenos culturais por essa lente acabava por escantear questões culturais importantes da discussão psicanalítica:

A pequena importância que Freud emprestava aos fatores culturais também se evidencia na sua inclinação para considerar certas influências ambientais como destino incidental do indivíduo, em vez de reconhecer toda a força das influências culturais por detrás delas. Por exemplo, Freud considerava acidental o fato de que, em uma família, o filho seja preferido à filha, em vez de reconhecer que a preferência pelo filho varão é uma característica da sociedade patriarcal. Poder-se-ia objetar que, para a análise individual, é indiferente considerar essa preferência de um modo ou do outro, mas não é bem assim. Na realidade, o fato de o seu irmão ser preferido é um dos muitos fatores que podem contribuir para criar na menina a sensação de que ela é inferior, ou menos desejada. (p. 140)

No trecho citado acima, há a sugestão de que a consideração de fatores culturais ampliaria as possibilidades de interpretações de fenômenos que surgiam na clínica, abrindo possibilidades de leitura e inspirando diferentes intervenções. Além disso, Horney afirmava também que Freud produzia uma abordagem unilateral da cultura, que partia do seu entendimento das pulsões na vida psíquica para teorizar sobre diferentes fenômenos culturais. Ou seja, para ela, o autor se baseava no psiquismo do sujeito para pensar a cultura, explicando fenômenos culturais complexos por meio da analogia com fenômenos neuróticos da cultura ocidental, o que traria limitações importantes à abordagem freudiana da cultura (Horney, 1939/1966). A autora chegou a iniciar uma discussão, hoje tomada como recente3, sobre a impossibilidade de universalização do conceito freudiano de complexo de Édipo, criticando os atravessamentos da noção específica de família que fundamentou sua teorização:

. . . estudos etnológicos demonstraram que a configuração peculiar denotada pelo termo complexo de Édipo provavelmente não existe em condições culturais amplamente diversas das nossas. É preciso, portanto, restringir a hipótese à afirmação de que este modelo emocional peculiar nas relações entre pais e filhos surge apenas sob determinadas condições culturais. (Horney, 1935/1991e, p. 220)

Assim como ocorre em relação às leituras de Horney sobre feminilidade, suas construções sobre o papel da cultura no psiquismo pressupõem a crítica às posições de Freud, dominantes à época, não para desconsiderá-las por completo, mas para abrir espaços para a construção de novas concepções possíveis sobre o lugar da cultura para a psicanálise. É a partir da revisão crítica da abordagem de Freud sobre a cultura que a autora pôde propor novas leituras, potentes ferramentas para o debate psicanalítico sobre a relação sujeito-cultura ainda hoje.

O lugar da cultura em Horney

Diferentemente de Freud, Horney não se propôs a pensar a cultura em termos universais. Pelo contrário, empenhou-se, cada vez mais, no empreendimento de reconhecer o papel das contingências culturais específicas para o psiquismo e para o trabalho psicanalítico (Horney, 1931/1991a, 1934/1991c, 1935/1991e, 1939/1966). Para ela, conhecer o complexo cultural no qual se vive e como ele pode engendrar conflitos inconscientes fazia parte do trabalho do psicanalista, desanuviando alguns pontos em sua escuta e atribuindo complexidade e profundidade ao seu trabalho.

Horney (1939/1966) afirma que levar em consideração a estrutura social da qual se faz parte enriquece o trabalho de análise e previne o analista de atribuir apenas às vicissitudes particulares do sujeito e de sua história familiar aspectos que seriam, na realidade, influenciados por uma determinada cultura. Ao mesmo tempo, o próprio analista poderia se dar conta de implicações de sua escuta que estão atravessadas por ideais culturais. Dá o exemplo - que hoje pode parecer datado, mas no fim da década de 1930 era bastante relevante - da escuta de mulheres que sacrificam suas carreiras em prol do sucesso profissional dos maridos. Naquela época, afirma Horney, esse caso seria visto como normal, enquanto o contrário, ou seja, o caso de um marido que sacrifica sua própria carreira pela carreira da esposa, seria considerado problemático. Sublinha, dessa forma, que um mesmo relato escutado de um paciente homem ou de uma paciente mulher poderiam suscitar leituras clínicas completamente diferentes devido à crença cultural de que homens teriam uma propensão a se direcionarem para a vida cultural e intelectual, e mulheres, para a vida do lar e da família. A autora problematiza, portanto, o fato de alguns preceitos teóricos advindos de ideais culturais - nesse caso, ideais patriarcais - permearem a escuta psicanalítica de forma acrítica.

Outro exemplo refere-se a interpretações atravessadas por leituras psicanalíticas generalistas, à época, sobre posturas desafiadoras perante autoridades lidas como paternas. Horney (1939/1966) critica que alguns analistas tomavam como problemáticos movimentos revolucionários, analisando-os como posições infantis diante do pai, mesmo dentro do próprio espaço de análise:

Assim, por exemplo, o analista pode julgar necessário analisar os impulsos revolucionários do paciente, deixando de lado, sem tocá-las, as suas tendências conservadoras. Ou, então, o analista pode achar que o paciente não aceita as teorias psicanalíticas por causa de algum problema inconsciente e não se dar conta de que o problema pode residir, exatamente, na sua aceitação. Assim, um desconhecimento das valorizações culturais, combinados com certos vieses teóricos, que foram discutidos anteriormente, levam a uma seleção unilateral do material oferecido pelo paciente. Então, sem que percebamos, a finalidade da terapêutica psicanalítica - e da educação - transforma-se na adaptação ao “normal”. (p. 149)

O trecho acima aponta para outra discussão importante em termos do lugar da cultura para Horney: a problematização da noção de normalidade (Horney, 1937/1977, 1939/1966). A autora sustenta que a ideia de normal propagada em determinada cultura não deveria ser entendida como saúde psíquica nem buscada como ideal, para que a psicanálise não se tornasse uma pedagogia normativa. Nesse sentido, a normalidade seria entendida como adaptação a ideais culturais, enquanto a saúde psíquica seria definida como a maior liberdade possível do sujeito para usufruir de suas próprias capacidades (Horney, 1939/1966).

Embora o advento da psicanálise tenha borrado as barreiras entre normal e patológico, ainda era corrente, na época de Horney, a utilização da dicotomia normal/saudável versus neurótico em textos psicanalíticos. Horney afasta a ideia de normal daquela de saúde psíquica, por um lado, embora, por outro, siga opondo a saúde psíquica à neurose. Contudo, em concordância com Freud, defende que a neurose seria apenas a intensificação do sofrimento ante os conflitos experienciados por todos diante da incapacidade de lidar com eles diretamente. Com sua ênfase culturalista, Horney não busca afirmar que a cultura é direta e unicamente responsável pelo sofrimento neurótico que chega à clínica, reconhecendo as variações pelas quais cada sujeito, singularmente, vive os conflitos engendrados por determinada cultura. Entretanto, sublinha que as particularidades do ambiente cultural no qual o sujeito se constitui têm tanta importância psíquica quanto sua vida pulsional:

Parece que a pessoa que tem probabilidade de tornar-se neurótica é a que experimentou as dificuldades decorrentes da cultura de uma forma acentuada, sobretudo através de experiências durante a infância e que, consequentemente, foi incapaz de solucioná-las, ou que, então, só as solucionou à custa de muito sacrifício para sua personalidade. (Horney, 1937/1977, p. 207)

A partir desse ponto, Horney (1937/1977, 1939/1966, 1945/1982) traça um caminho autoral para pensar a constituição psíquica. Ela se baseia no desamparo que a criança, ainda sem recursos psíquicos autônomos para lidar com alguns dos sofrimentos impostos pela vida, experimenta perante um ambiente hostil. Nesse sentido, Horney afasta-se da ênfase estritamente sexual e edípica, mais adotada por seus contemporâneos. Entende que esse desamparo inicial constitui uma ansiedade ou angústia básica que acompanha o sujeito ao longo da vida e se intensifica à medida que o mundo lhe parece mais hostil, e o sujeito, menos equipado para lidar com tal mundo, o que se deve a fatores culturais, subjetivos e familiares. A discussão mais ampla sobre esses desenvolvimentos na obra de Horney não é tema deste artigo, embora seja relacionada a ele. Todavia, a menção a esse desdobramento em sua obra torna-se relevante conforme tangencia a discussão sobre o papel da cultura e do ambiente na constituição do psiquismo.

A autora também é contrária à ideia de que algumas pulsões fundamentais - e, em certa medida, inatas - teriam papel central na constituição da vida psíquica. Para ela, os conflitos inconscientes não partem somente do embate sujeito versus cultura ou desejo versus repressão, mas são interiorizados a partir dos ideais culturais que circundam o sujeito. Horney (1939/1966) sustenta, por exemplo, que conflitos referentes à rivalidade, competitividade e possessividade podem ser lidos como efeitos de uma determinada cultura para a qual a competição e a conquista individual são os principais ideais a serem perseguidos. Assim, a rivalidade entre irmãos não seria necessariamente universal - como propõe a leitura edípica da disputa pela exclusividade do amor dos pais -, mas engendrada em uma cultura de disputas econômicas e sociais que prioriza a busca de prestígio individual em detrimento da coletividade.

Outros aspectos que, para Horney (1939/1966), estão no cerne de conflitos relatados na clínica são as grandes desigualdades sociais, a exploração de alguns em relação a outros, as diferentes possibilidades de acesso à educação e à saúde, por exemplo. Essas desigualdades, para ela, estimulam a competição não apenas no âmbito profissional, mas contaminam todas as relações humanas, sejam de amizade, família ou sexuais. Para a autora, as convicções culturais específicas com as quais nos relacionamos ao longo da vida, embora possam ser experimentadas por cada sujeito de maneiras distintas, se apresentam para todos. Assim, a predominância da hostilidade, da rivalidade destrutiva e da inveja nas leituras do inconsciente feitas na clínica ancorar-se-iam não em conflitos universais derivados do campo das organizações libidinais, tal como teorizado inicialmente pela psicanálise.

Vemos, portanto, que a autora trilha o caminho de atribuir gradativamente mais importância às circunstâncias específicas de cada cultura para o psiquismo, afastando-se das premissas biologizantes que ainda permeavam os primórdios do seu trabalho e da psicanálise como um todo. Horney sustentava, nesse sentido, a complexificação da escuta a partir da inclusão, nas leituras de caso, de discussões enlaçadas ao contexto cultural a partir do qual o sujeito se constituiu, no qual circulou e em que ocorria a análise. Para ela, as considerações sobre a vida instintiva - ou pulsional, a depender da tradução - ganhavam enfoque demasiado, ao passo que as questões culturais envolvidas nas problemáticas apresentadas por sujeitos em análise não tinham tanto espaço na escuta e na produção teórica. Horney (1939/1966) sugeria que produções de áreas como psicanálise, sociologia, antropologia, estudos etnográficos e outras poderiam colaborar entre si para uma abordagem de fenômenos complexos que uma leitura individualista não poderia alcançar. Nota-se, assim, que a noção de inconsciente que foi desenvolvendo, malgrado ainda ancorada em conceitos da teoria freudiana com a qual se formou, não se referia a um inconsciente universal que refletiria conflitivas também universais. O inconsciente de Horney seria, talvez possamos dizer, com a escusa à linguagem acadêmica tradicional, “pé no chão”, permeado pelos complexos processos culturais que o engendram, pois engendram também as relações do sujeito com os outros, com o ambiente, com o mundo.

Cultura, diferença sexual e feminilidade

As construções de Karen Horney sobre o lugar da cultura para o psiquismo e sua abordagem própria, que enfatiza a importância das especificidades de cada complexo cultural para a constituição psíquica e dos conflitos subjetivos, têm especial relação com suas conceitualizações relativas à feminilidade e a diferença sexual. Poderíamos pensar que suas movimentações no sentido de uma crítica a algumas teorizações psicanalíticas sobre a feminilidade e de uma busca pela abordagem culturalista andam juntas, se retroalimentam. À medida que as discussões culturais tomam lugar de destaque em suas produções, conceitos com ancoragem biologizante, tais como inveja do pênis e masoquismo feminino, deixam de fazer sentido em sua teoria. Ao mesmo tempo, as estruturas sociais que imprimem nas mulheres o sentimento de inferioridade, incapacidade para a vida cultural e do trabalho, incentivam a rivalidade entre mulheres e estimulam uma supervalorização do amor romântico e do casamento ganham espaço para pensar a diferença sexual e a feminilidade para Horney (1934/1991c, 1935/1991e, 1939/1966). Segundo ela, os ideais culturais de feminilidade se manifestam na clínica, e seria um erro atribuí-los a uma pretensa natureza feminina ou a questões inerentes à anatomia: “A omissão dessas considerações pode levar à falsa valorização das diferenças anatômicas e de suas elaborações pessoais como sendo fatores causativos de fenômenos que são, em parte ou totalmente, resultantes do condicionamento social” (Horney, 1935/1991e, p. 221).

A autora entendia que não devemos atribuir uma importância exagerada a questões biológicas e anatômicas para pensar o psiquismo, e questiona algumas proposições biologizantes de Freud (Horney, 1939/1966) e outros autores e autoras, como Helene Deutsch (Horney, 1935/1991e). De acordo com a crítica de Horney, Deutsch afirmava categoricamente que o que veio a ser chamado de masoquismo feminino era uma tendência natural das mulheres - pensadas como aquelas que não têm pênis - ancorada em sua biologia e anatomia. Para Deutsch, a inveja do pênis, as experiências da menstruação, da perda da virgindade e do parto, além da suposta passividade das mulheres no sexo, seriam indícios de que a natureza própria do feminino era o masoquismo. Horney diverge enfaticamente, sustentando que “Essas funções biológicas não possuem em si mesmas conotação masoquista alguma para as mulheres . . .” (Horney, 1935/1991e, p. 229). Nesse sentido, Horney introduz uma discussão muito cara para o campo da psicanálise e dos estudos de gênero hoje, a saber, a noção de que o que dizemos sobre o corpo, a anatomia e as disposições inatas não refletem a verdade, mas uma leitura: “. . . os fatores biológicos jamais se manifestam de forma pura e franca, mas sempre modificados pela tradição e o ambiente” (1934/1991c, p. 181). A autora criticava algumas ideias correntes à época, mesmo na psicanálise, sobre uma suposta disposição inata das mulheres a voltarem-se exclusivamente para os homens e a maternidade.

Aliás, Horney apontou, como já vimos, os atravessamentos de algumas dessas leituras ancoradas em ideais culturais patriarcais nas noções de diferença sexual e feminilidade da psicanálise de seu tempo. Entre as ideologias que atribuem à natureza certos aspectos de uma suposta feminilidade, que são interiorizados desde cedo pelas mulheres, também a psicanálise faz parte dessa produção de subjetividade, pois não está fora da cultura na e a partir da qual foi criada:

É preciso considerar em particular o fato de que, se alguns ou todos os elementos sugeridos estão presentes no complexo cultural, podem aparecer certas ideologias fixas quanto à “natureza” da mulher; assim, como doutrina de que ela é congenitamente fraca, emotiva, gosta de ser dependente, tem pouca capacidade para trabalhar independentemente e pensar sozinha. Fica-se tentado a incluir nesta categoria a crença psicanalítica de que a mulher é masoquista por natureza. É bastante óbvio que essas ideologias funcionam não só para reconciliar as mulheres com seu papel subordinado, apresentando-o como inalterável, mas para implantar também a crença de que isto representa realização pela qual elas anseiam ou ideal pelo qual é louvável e desejável que se esforcem. (Horney, 1935/1991e, p. 227)

A psicanálise, portanto, ao olhar para algumas de suas próprias produções acerca da feminilidade de maneira crítica, pode evitar tornar-se mais uma das ideologias utilizadas para justificar a inferiorização de mulheres. Para Horney (1935/1991e, 1939/1966), algumas restrições específicas da cultura europeia de sua época eram responsáveis pelas manifestações clínicas que acabavam por ser lidas como inveja do pênis, desejo de ser homem, masoquismo, entre outros. Entre tais limitações experimentadas por mulheres em sua cultura estão a pouca participação em esferas da vida que transcendem a vida doméstica e a dependência financeira em relação à família e ao marido. Para ela, a exclusão das mulheres de grande parte das atividades sociais e intelectuais mais valorizadas na cultura fazia com que houvesse para elas uma supervalorização do amor, pois a promessa de satisfação e de ocupação de um lugar valorizado culturalmente residia no âmbito da família e da maternidade (Horney, 1934/1991c).

Além disso, Horney (1928/1991d) criticava o quanto a cultura na qual vivia e a própria psicanálise, por vezes, apostava no casamento monogâmico como resolução para as conflitivas edípicas. Contrariando essa ideia, Horney indicava que era justamente no casamento que muitos problemas se criavam, pois o desejo nunca se contenta com um único objeto, e os ideais monogâmicos de fidelidade e posse exclusiva se opõem ao funcionamento do inconsciente. Ela sustenta que qualquer arranjo de relacionamento envolve, necessariamente, conflitos indissolúveis, pois as expectativas infantis diante do objeto, por sua intensidade mesma, não podem ser alcançadas. E ressalta, ainda, o quanto a instituição do casamento, naquele momento, promovia restrições mais fortes às mulheres, pois a exigência de posse, que para ela nada tinha a ver com o amor, se calcava na visão da mulher como um bem móvel pertencente ao marido.

Vemos, portanto, que Horney promoveu uma torção na leitura daquilo que chegava por meio de mulheres na clínica ao atentar-se para os aspectos culturais que envolviam a ideia de feminilidade na psicanálise. Em vez de considerar apenas aspectos biológicos, anatômicos ou psicológicos para criar uma metapsicologia da feminilidade, a autora demonstrou o quanto a rede de conceitos em torno dessa ideia refletia estereótipos criados culturalmente sobre a mulher.

O lugar da mulher na cultura europeia patriarcal

Para finalizar, traremos algumas discussões de Horney acerca do lugar da mulher na cultura europeia patriarcal, que parte de diversos diálogos traçados com a sociologia, a antropologia, a literatura, a mitologia e as religiões. Por exemplo, Horney analisa a figuração da mulher como perigosa e sinistra em produções da literatura e da mitologia, passando pela figura da bruxa no catolicismo, e sugerindo que elas representam o medo da mulher (1932/1991f). Para ela, a inveja sentida pelos homens em relação ao papel da mulher na reprodução e sua decorrente angústia narcísica deixariam como marca um grande medo da mulher que se manifesta culturalmente na necessidade de rebaixá-la. Muitos dos lugares nos quais buscam colocar as mulheres viriam, então, de uma atitude defensiva perante o medo sentido: seja desprezando-as, pois não é preciso ter medo de uma criatura insignificante, seja glorificando-as, pois algo tão lindo não poderia ser amedrontador.

Entretanto, a autora não entende que é qualquer mulher que desperta esse medo. Horney (1931/1991a) sustenta que é a “mulher sexualmente sedutora” (p. 111) que provoca o medo ao não se enquadrar nos ideais masculinos de pureza e maternidade, encarnados culturalmente na figura da Virgem Maria. Ela aponta para a ambivalência do lugar da mulher na cultura ocidental, salientando que, na Idade Média, o culto à Virgem ocorria lado a lado com a queima de mulheres que fugiam às imposições da cultura em fogueiras. Enquanto a Virgem representaria a mulher destituída de sexualidade, a grande Mãe pura, altruísta, que “preenche todos os anseios e expectativas do homem” (Horney, 1931/1991a, p. 112), o discurso em relação às mulheres, em geral, era carregado de hostilidade - até mesmo o discurso sobre a maternidade na vida real, fora do âmbito da idealização. Para ela, essas são duas faces do mesmo fenômeno de busca de submissão das mulheres: “Hoje em dia, com modalidades de agressão mais humanas, queimamos as mulheres apenas metaforicamente, às vezes com mal disfarçado ódio, às vezes com aparente benevolência”4 (p. 111).

A autora defende, ainda, que os discursos sobre a mulher, mesmo no meio científico, não se distanciavam de noções atravessadas pela cultura patriarcal - o que apontou diversas vezes ao longo de sua obra em relação à psicanálise. Adverte, sobre isso, que discursos que objetivam rebaixar e inferiorizar a mulher se disfarçam, muitas vezes, de forma elogiosa, educada ou acadêmica, negando a hostilidade que causam. Com acentuada ironia, afirma:

Em cordiais atos-de-fé, dizem-se muitas coisas agradáveis sobre as mulheres, mas é lamentável que em seu estado natural da graça de Deus ela não seja igual ao homem. Moebius salientou que o cérebro feminino pesa menos do que o masculino, mas não deveria ter dito isto de forma tão rude. Pelo contrário, pode-se realçar que a mulher de maneira alguma é inferior, apenas diferente, mas que infelizmente possui poucas ou nenhuma daquelas qualidades humanas ou culturais que os homens tanto valorizam. Diz-se dela que está profundamente enraizada na esfera pessoal e emocional, o que é maravilhoso, mas, lamentavelmente, isto a torna incapaz de exercer justiça e objetividade, desqualificando-a, portanto, para as leis e o governo e para a comunidade espiritual. Dizem que ela só se sente em casa no reino de Eros. As questões materiais são estranhas ao mais íntimo de seu ser e brigam com as tendências culturais. Ela é, portanto, como afirmam francamente os asiáticos, ser de segunda classe. A mulher pode ser útil e trabalhadora, mas é incapaz de trabalho produtivo e independente. Na verdade, ela é impedida de ter acesso às grandes realizações pelas deploráveis e sangrentas tragédias da menstruação e do parto. E, por isso, cada homem agradece silenciosamente ao seu Deus, como faz o piedoso judeu em suas preces, por não ter sido criado mulher. (Horney 1931/1991a, pp. 111-112)

Assim, Horney denuncia o lugar inferiorizado relegado às mulheres na cultura em que vivia e a privação historicamente imposta à livre circulação pela vida cultural, que se tentava justificar utilizando construções pretensamente científicas. Podemos refletir, a partir de suas contribuições, que, seja no lugar de mãe pura e idealizada, personificada na imagem da Virgem Maria, seja no lugar de sexualizada e perigosa, a figura da mulher estava mais colocada como objeto dos desejos, fantasias e angústias do homem europeu ocidental do que como sujeito. Horney (1926/1991b) foi a primeira analista a demonstrar o quanto esse lugar cultural da mulher, em uma sociedade patriarcal, permeava a produção de conhecimento, inclusive na psicanálise.

Diante disso, defendia que a psicanálise não deveria reproduzir como afirmação teórica os estereótipos e pressupostos presentes na cultura que reforçavam a colocação da mulher nesse lugar inferiorizado, muito menos vinculá-los a uma suposta natureza humana ou norma psíquica. Seu papel, ao contrário, seria auxiliar no processo de reconhecê-los e questioná-los. O criador da psicanálise, ao receber essas críticas de colegas analistas mulheres, tentou uma via conciliatória que desviava do aprofundamento do problema, além de reiterar a valorização do suposto masculino em detrimento do que era tido como feminino:

Pois essas senhoras, sempre que alguma comparação parecia mostrar-se desfavorável ao seu sexo, conseguiram expressar a suspeita de que nós, analistas homens, não tínhamos conseguido superar determinados preconceitos profundamente arraigados contra aquilo que era feminino, e que esse fato estava sendo responsável pela parcialidade de nossas pesquisas. Nós, por nossa vez, com base na bissexualidade, não tínhamos dificuldade em evitar a indelicadeza. Apenas tínhamos de dizer: ‘Isto não se aplica às senhoras. As senhoras são a exceção; neste ponto, são mais masculinas do que femininas’. (Freud, 1933/2006, p. 78)

O caminho traçado por Horney aponta para outros horizontes. A autora não se nega a adentrar o problema, por mais espinhoso que seja, sabendo que algumas premissas terão de ser abandonadas para uma revisão séria da teoria e de suas implicações clínicas no que se refere à diferença sexual e à feminilidade. Não se esquiva da tarefa de esmiuçar alguns conceitos, apontar entrelaçamentos com a cultura patriarcal, propor desdobramentos teóricos divergentes dos hegemônicos e até mesmo romper com algumas instituições para isso. Em uma de suas publicações mais tardias, chega a afirmar um direcionamento que, poderíamos pensar, reflete de alguma forma discussões muito contemporâneas no meio psicanalítico:

A mulher norte-americana é diferente da alemã e ambas são diferentes de uma índia da tribo Pueblo. A mulher da sociedade de Nova Iorque é diferente da esposa do fazendeiro de Idaho. O que esperamos poder compreender é a maneira pela qual condições culturais específicas engendram qualidades e faculdades, também específicas, tanto no homem quanto na mulher. (Horney, 1939/1966, p. 99)

Considerações finais

Podemos perceber que a obra de Karen Horney enfatiza os atravessamentos das especificidades culturais na constituição do sujeito, na produção de conhecimento, nas teorizações psicanalíticas e no próprio cotidiano da clínica. Para a autora, pensar a cultura a partir da psicanálise não se limita a articular conceitos psicanalíticos para uma leitura de um determinado tempo, mas inclui buscar construir um olhar para as imbricações entre um determinado contexto cultural e as conflitivas inconscientes que se manifestam dentro e fora do consultório.

Ao jogar luz sobre as complexidades de contextos culturais específicos, Horney foi outrora criticada porque, em tese, se afastava de um suposto purismo psicanalítico. Ambra (2018) afirma, contudo, que o referido purismo do campo intenta muito mais uma posição conservadora dentro da psicanálise do que reflete uma incompatibilidade epistemológica entre esse e outros campos do conhecimento. O autor sustenta que a conversa com outros saberes está no cerne da psicanálise, desde seu início, bem como a capacidade de se interrogar sobre as questões emergentes da clínica e da cultura.

Assim, sublinha-se a relevância da obra de Horney ao apontar caminhos híbridos de produção de conhecimento na psicanálise, levando em conta contribuições de outras áreas bem como novos olhares sobre os fenômenos culturais, que atualmente têm se tornado mais presentes na psicanálise. Opondo-se a vertentes mais universalistas em relação à cultura, Horney (1937/1977) chega a afirmar que:

Não mais é válido supor que uma nova descoberta psicológica revele uma tendência universal inerente à natureza humana. O efeito de tudo isso é confirmar o que alguns sociólogos têm asseverado reiteradamente: não há uma psicologia normal aplicável a toda a humanidade. (p. 10)

Sustentamos que tais contribuições, especialmente na época em que foram produzidas, abarcam um pioneirismo que fornece, até hoje, ferramentas importantes para a construção de novas reflexões no âmbito da psicanálise. Tendo sido o lugar da mulher uma discussão central em sua obra, Horney articula, também, suas formulações sobre a cultura com as teorizações sobre a mulher, gerando críticas fundamentais para as insurgentes trocas entre psicanálise, feminismos e estudos de gênero. Ressaltamos, assim, a importância de um retorno à sua obra, seja para encontrar nela questões que reverberam ainda hoje, com força, na psicanálise, seja para uma ressignificação da história desse campo.

Referências

  • Ambra, P. (2018). Gênero e epistemologia psicanalítica. In C. Françoia, P. Porchat, & P. Corsetto (Orgs.). Psicanálise e gênero: narrativas feministas e queer no Brasil e na Argentina (pp. 81-93). Curitiba, PR: Caligraphie Editora.
  • Eckardt, M. H. (2005). Karen Horney: a portrait. The American Journal of Psychoanalysis, 65(2), 95-101. doi: 10.1007/s11231-006-9008-4
  • Freud, S. (1974). Reflexões para os tempos de guerra e morte. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 14, pp. 311-339). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1915)
  • Freud, S. (1996). Moral sexual “civilizada” e doença nervosa moderna. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 9, pp. 169-186). Rio de Janeiro, RJ: Imago . (Trabalho original publicado em 1908)
  • Freud, S. (2006). Feminilidade. In edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 22, pp. 113-134). Rio de Janeiro, RJ: Imago . (Trabalho original publicado em 1933)
  • Freud, S. (2010). O mal-estar na cultura. Porto Alegre, RS: L&PM. (Trabalho original publicado em 1930)
  • Freud, S. (2013). Totem e tabu. Porto Alegre, RS: L&PM . (Trabalho original publicado em 1913)
  • Gilman, S. L. (2001). Karen Horney, M.D., 1885-1962. The American Journal of Psychiatry, 158(8), 1205. doi: 10.1176/appi.ajp.158.8.1205
  • Horney, K. (1966). Novos rumos na psicanálise. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira. (Trabalho original publicado em 1939)
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  • Horney, K. (1991a). A desconfiança entre os sexos. In Psicologia feminina (pp. 105-116). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. (Trabalho original publicado em 1931)
  • Horney, K. (1991b). A fuga da feminilidade. In Psicologia feminina (pp. 51-66). Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil. (Trabalho original publicado em 1926)
  • Horney, K. (1991c). A supervalorização do amor. In Psicologia feminina (pp. 181-210). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil . (Trabalho original publicado em 1934)
  • Horney, K. (1991d). O ideal monogâmico. In Psicologia feminina. (pp. 81-95). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil . (Trabalho original publicado em 1928)
  • Horney, K. (1991e). O masoquismo feminino. In Psicologia feminina (pp. 211-229). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil . (Trabalho original publicado em 1935)
  • Horney, K. (1991f). O medo da mulher. In Psicologia feminina (pp. 131-144). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil . (Trabalho original publicado em 1932)
  • Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2019). Atlas da violência 2019. Brasília, DF, Rio de Janeiro, RJ, São Paulo, SP: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
  • Natterson, J. M. (1966). Karen Horney: the cultural emphasis. In F. Alexander, S. Eisenstein, & M. Grotjahn (Eds.) (1966). Psychoanalytic pioneers: a History of Psychoanalysis as seen through the lives and works of its most eminent teachers, thinkers and clinicians (pp. 450-456). New York, NY, London, England: Basic Books.
  • Paris, B. (1994). Karen Horney: A Psychoanalist’s search for self understanding. New Haven, CT: Yale University Press.
  • Van Haute, P., & Geyskens, T. (2016). Psicanálise sem Édipo? Uma antropologia clínica da histeria em Freud e Lacan. Belo Horizonte, MG: Autêntica.
  • 1
    A partir de 2016, o Instituto Americano de Psicanálise criado por Horney passou a ser reconhecido pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA).
  • 2
    Neste artigo, não objetivamos o aprofundamento na obra de outros autores, que não Horney. Para maior conhecimento da obra desses autores, em especial no que tange ao lugar da cultura para o psiquismo na psicanálise, sugerimos a leitura de A ciência da natureza humana, publicado por Adler em 1927, e Psicanálise da sociedade contemporânea, de 1976, escrito por Fromm.
  • 3
    Ver Van Haute e Geyskens (2016), que teve notória repercussão no Brasil.
  • 4
    Cabe lembrar que Horney se referia ao contexto no qual vivia, a Europa do início do século XX, e embora não sublinhe isso ela mesma, provavelmente se referia a mulheres brancas de classe média. Se formos pensar no Brasil de hoje, nos retrocessos que vivemos no âmbito dos direitos das mulheres, e considerarmos principalmente os atravessamentos de raça e classe, talvez não seja possível dizer que essa queima é tão metaforizada. Apenas a título de exemplo, o Atlas da Violência de 2019 reporta um aumento significativo no número de feminicídios, especialmente aqueles ocorridos no espaço doméstico, aumento maior entre mulheres não-brancas (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2019).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    09 Jul 2023
  • Aceito
    17 Out 2023
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