Open-access Antipsicologia e a crítica marxista da psicologia: uma questão eclipsada

Antipsychology and the Marxist critique of psychology: An eclipsed issue

Antipsychologie et critique marxiste de la psychologie : une question éclipsée

Antipsicología y la crítica marxista de la psicología: una cuestión eclipsada

Resumo

O artigo discute a proposta de uma “antipsicologia da libertação”, cujo objetivo não é reformar ou humanizar a psicologia, mas promover sua superação histórico-concreta por meio da ação política. Resgata uma questão eclipsada no debate crítico da psicologia brasileira desde o final da década de 1980: a necessidade de negação da psicologia enquanto ciência autônoma e profissão especializada. Com base em autores brasileiros, como Marco Antonio de Castro Figueiredo, Oswaldo Hajime Yamamoto, Wilson Coutinho Júnior e Pedro Henrique Antunes da Costa, e inspirado na noção marxista de “definhamento do Estado”, o texto recupera essa tradição antipsicológica marxista e argumenta que a emancipação humana exige a reabsorção social das funções de cuidado atualmente delegadas aos especialistas do campo “psi”, defendendo que, em uma sociedade socialista, novas relações sociais possibilitariam o “definhamento da psicologia” e a reintegração do cuidado à vida coletiva.

Palavras-chave:
antipsicologia; marxismo; emancipação humana; Martín-Baró; psicologia crítica

Abstract

This article discusses the proposal for an “antipsychology of liberation,” whose goal is not to reform or humanize psychology, but to promote its historical-concrete overcoming via political action. It resumes an issue eclipsed in the critical debate of Brazilian psychology since the late 1980s: the necessity of negating psychology as an autonomous science and specialized profession. Drawing on Brazilian authors such as Marco Antonio de Castro Figueiredo, Oswaldo Hajime Yamamoto, Wilson Coutinho Júnior, and Pedro Henrique Antunes da Costa, and inspired by the Marxist notion of “withering away of the state,” the text recovers this Marxist antipsychological tradition and argues that human emancipation requires the social reabsorption of care functions currently delegated to psi professionals. It contends that, in a socialist society, new social relations would enable the “withering away of psychology” and the reintegration of care into collective life.

Keywords:
antipsychology; marxism; human emancipation; Martín-Baró; critical psychology

Résumé

L’article discute de la proposition d’une « antipsychologie de la libération » dont l’objectif n’est pas de réformer ou d’humaniser la psychologie, mais de promouvoir son dépassement historico-concret par l’action politique. Il ressaisit une question demeurée dans l’ombre au sein du débat critique de la psychologie brésilienne depuis la fin des années 1980 : la nécessité de la négation de la psychologie comme science autonome et profession spécialisée. En s’appuyant sur des auteurs brésiliens tels que Marco Antonio de Castro Figueiredo, Oswaldo Hajime Yamamoto, Wilson Coutinho Júnior et Pedro Henrique Antunes da Costa, et en s’inspirant de la notion marxiste de « dépérissement de l’État », le texte réactive cette tradition antipsychologique marxiste. Il soutient que l’émancipation humaine exige la réabsorption sociale des soins actuellement délégués aux spécialistes psy et que, dans une société socialiste, de nouveaux rapports sociaux permettraient le « dépérissement de la psychologie ».

Mots-clés :
antipsychologie; marxisme; émancipation humaine; Martín-Baró; psychologie critique

Resumen

Este artículo discute la propuesta de una “antipsicología de la liberación”, con el objetivo de no reformar o humanizar la psicología, sino de promover su superación histórico-concreta mediante la acción política. Rescata una cuestión eclipsada en el debate crítico de la psicología brasileña desde finales de los años 1980: la necesidad de negar la psicología como ciencia autónoma y profesión especializada. Con base en autores brasileños como Marco Antonio de Castro Figueiredo, Oswaldo Hajime Yamamoto, Wilson Coutinho Júnior y Pedro Henrique Antunes da Costa, e inspirado en la noción marxista de “extinción del Estado”, este texto recupera esa tradición antipsicológica marxista y sostiene que la emancipación humana exige la reabsorción social de las funciones de cuidado actualmente delegadas a los especialistas del campo psi, defendiendo que, en una sociedad socialista, nuevas relaciones sociales posibilitarían la “extinción de la psicología” y la reintegración del cuidado en la vida colectiva.

Palabras-clave:
antipsicología; marxismo; emancipación humana; Martín-Baró; psicología crítica

Ao refletir criticamente sobre os limites emancipatórios da psicologia no âmbito das políticas públicas e sociais, em texto intitulado “A psicologia entre a política social e o poder popular” (Boechat, 2022), resgatei uma antiga questão do debate crítico no campo “psi” brasileiro: a questão da antipsicologia. Registrada em nossa literatura psicológica, pela primeira vez, na década de 1980, na transição da ditadura empresarial-militar e da autocracia burguesa à democracia burguesa e sua ditadura velada (Oliveira, Costa, & Yamamoto, 2022), essa questão originariamente partia da teoria social marxiano-marxista para criticar a legitimidade e a necessidade social da psicologia enquanto ciência autônoma e profissão especializada, identificando-a como produto ideológico teórico-prático despolitizante e funcional à reprodução da sociabilidade capitalista (Coutinho Júnior, 1984; Figueiredo, 1989; Yamamoto, 1987).

Com a queda do muro de Berlim, a dissolução do bloco soviético, a crise do marxismo e o advento do irracionalismo pós-moderno (Evangelista, 1992, 2007; Wood & Foster, 1999), em meio à crise do socialismo e à ofensiva neoliberal (Netto, 1995), a questão da antipsicologia, no Brasil, foi progressivamente eclipsada - num processo seguramente denso e contraditório, mas que, sem dúvida alguma, contou com o arrefecimento e refluxo das lutas sociais, populares, sindicais e operárias que inauguraram o ciclo democrático-popular (Iasi, Figueiredo, & Neves, 2019). Em meio à onda neoliberal que marcou a década de 1990 (Lacerda Jr., 2013), mas também pelo desenvolvimento daquilo que, noutra ocasião, denominei “ideologia do compromisso social” (Boechat, 2017), essa antipsicologia conscientemente marxista foi considerada “fora de moda” e marginalizada, sendo preterida em favor de formas variadas de antipsicologia pós-modernas e decididamente antimarxistas, inspiradas na genealogia foucaultiana, na esquizoanálise deleuze-guattariana e na análise institucional de René Lourau e Georges Lapassade - antipsicologias nem sempre comprometidas com a superação da ordem do capital, desigual e unilateralizante, pela via da luta de classes e da tomada do poder de Estado, mas sempre engajadas com a afirmação da diferença e da singularidade a partir da paradoxal promoção de uma “psicologia crítica” libertária, igualitária e fraterna.

Em meu texto de 2022, partindo da análise dos limites das políticas públicas e sociais no capitalismo, e defendendo a centralidade do fortalecimento das instâncias auto-organizativas da classe trabalhadora como tarefa prioritária para sujeitos políticos comprometidos com a emancipação humana (sem prejuízo da ocupação de espaços nas políticas públicas e sociais), propus algumas tarefas e um deslocamento do horizonte ético-político da psicologia brasileira. Segundo argumentei, provocativamente, não deveríamos nos ocupar da promoção de uma “nova psicologia”, da reabilitação do projeto de uma “psicologia da libertação” ou da construção de uma “psicologia popular” como nova especialidade psicológica, mas de engendrar uma espécie de “antipsicologia da libertação” (Boechat, 2022, p. 35-36). Inspirado pelo projeto basagliano de negação da instituição psiquiátrica como parte de uma estratégia anticapitalista mais geral, articulada à afirmação do socialismo na direção do comunismo (Albrecht, 2019), essa proposição apontava para a necessidade de uma “libertação da psicologia” mais além da sua revisão epistemológica e da crítica teórica de seus pressupostos ideológicos - tal como se poderia depreender, equivocadamente, da afirmação martin-baroniana de que “uma Psicologia da Libertação requer uma libertação prévia da Psicologia” (Martín-Baró, 2011).

A proposta apontava, portanto, para a necessidade de uma negação histórico-concreta da psicologia, isto é, para uma negação prática e eminentemente política, mais do que meramente teórica e epistemológica, colocando como necessidade e como horizonte estratégico a superação da própria sociabilidade que impõe a necessidade da psicologia como ciência autônoma e profissão especializada. Afinal, como disse Martín-Baró (2011), “uma Psicologia da libertação requer uma libertação prévia da Psicologia e essa libertação chegará apenas por meio de uma práxis comprometida com os sofrimentos e esperanças dos povos latino-americanos” (p. 196).

O texto concluía com a sugestão de que esse movimento implicaria a reabsorção, pelo conjunto da sociedade, por seus grupos e coletivos, das funções de cuidado, hoje privatizadas e monopolizadas pelo campo “psi”, desde sempre feminizado (Oliveira et al., 2022, p. 15), substituindo a lógica do especialismo por uma forma de “responsabilidade comunitária”. Segundo escrevi,

Negar histórico-concretamente a psicologia significa trabalharmos e lutarmos para que a psicologia se torne desnecessária. Significa trabalhar e lutar para que a humanidade seja capaz de tomar para si aquelas tarefas que têm sido, historicamente, reservadas às mulheres. Tais tarefas passaram a ser consideradas como atributos privativos da psicologia: a escuta, o cuidado, o acolhimento, a atenção, a proteção, a assistência. (Boechat, 2022, p. 36)

Pouco tempo depois, o assunto voltaria à minha consideração, a propósito da publicação do artigo “Antipsiquiatria e antipsicanálise”, de Ignacio Martín-Baró, traduzido e publicado, quase simultaneamente, por Marianna Ferreira Rodrigues (Martín-Baró, 1973/2022a) e por Pedro Henrique Antunes da Costa (Martín-Baró, 1973/2022b). Uma vez que participei da revisão técnica da tradução de Rodrigues, pude estar, durante algum tempo, às voltas com a discussão sobre a antipsicologia e seu contexto de enunciação. Além disso, a tradução proposta por Costa viera antecedida por uma introdução, intitulada “Se existiu uma antipsiquiatria e uma antipsicanálise, por que não uma antipsicologia? Diálogos com Martín-Baró”, na qual o autor não apenas clamava pela construção de uma antipsicologia, mas lançava as bases para uma retomada do debate.

Nessa introdução crítica ao texto de Martín-Baró, Costa argumentava que a radicalidade da crítica marxista, presente na obra do próprio Marx e em desenvolvimentos posteriores, aponta para a necessidade de uma suprassunção (Aufhebung) da psicologia, e não apenas para sua redefinição, reforma, redenção ou humanização. Essa argumentação foi aprofundada em artigo mais recente, intitulado “Marx como um ‘antipsicólogo’? O marxismo como antipsicologia?” (Costa, 2025a), no qual o autor sustenta a tese de que a crítica marxiana implica, necessariamente, uma “antipsicologia como objetivo e processo” (p. 16), ou seja, uma orientação para a superação histórica da psicologia enquanto ciência parcelar - isto é, enquanto objetivação alienada e alienante que se move em meio ao estranhamento da sociabilidade burguesa, contribuindo para a reprodução do conjunto das relações sociais que a caracterizam epidermicamente e a fundamentam essencialmente.

É precisamente nessa esteira que este artigo se insere. Sob a forma de um ensaio, busco retomar o debate proposto pela antipsicologia marxista brasileira. Minha intenção, portanto, é a de poder contribuir com o diálogo proposto recentemente por Costa (2022, 2025a), entendendo que esse diálogo representa uma atualização de um debate fundamental para a literatura psicológica produzida no Brasil e para a reabilitação de uma crítica marxista da psicologia que ouse ir além da “psicologia crítica”. Para tanto, apresento algumas das principais propostas antipsicológicas marxistas encontradas na literatura psicológica brasileira. Em seguida, resumo a discussão marxista sobre o processo de “definhamento do Estado” para pensarmos a reabsorção social do cuidado como processo análogo de “definhamento da psicologia”, no qual as funções de cuidado seriam progressivamente reabsorvidas pela vida coletiva em uma sociedade socialista. Por fim, compreendendo que o futuro socialista pressupõe a construção de formas concretas de poder popular no presente, elenco algumas tarefas que apontam na direção daquilo que chamei, provocativamente, “antipsicologia da libertação”.

Antipsicologia na literatura psicológica brasileira

A questão referente à necessidade de afirmação (e consolidação) ou negação (e superação) da psicologia enquanto ciência autônoma e profissão especializada funcional à reprodução da sociabilidade burguesa não é uma novidade absoluta no debate crítico da psicologia brasileira. Nos últimos anos da década de 1980, Oswaldo Hajime Yamamoto publicava A crise e as alternativas da psicologia (1987), resultado de sua dissertação de mestrado defendida no ano anterior. Sob bases explicitamente marxianas e marxistas, Yamamoto argumentava em favor da necessidade de “negação da psicologia”, denunciando o caráter reformista das “alternativas que não alternam” e os impasses dos projetos “contrapsicológicos” e de “psicologia crítica”.

No mesmo período, Marco Antonio Figueiredo publicava O trabalho alienado e o psicólogo do trabalho: algumas questões sobre o papel do psicólogo no controle da produção capitalista (1989). Resultado de sua dissertação de mestrado, defendida em 1980, o livro de Figueiredo partia também de um referencial explicitamente marxista para denunciar a conivência e a funcionalidade do trabalho da psicologia para com o modo de produção capitalista e a exploração da classe trabalhadora.

Além de Yamamoto e Figueiredo, em livro denso, provocativo e perturbador, intitulado Antipsicologia: a práxis de uma ideologia alternativa (1984), repleto de referências marxistas, embora bastante eclético, Wilson Coutinho Júnior empregava explicitamente o termo “antipsicologia” para descrever uma proposta de psicologia do oprimido radicalmente avessa à psicologia oficial, entendida como elitista e burguesa. Portanto, o termo “antipsicologia” e, mais do que ele, a questão da antipsicologia, não são novidades absolutas na literatura psicológica brasileira.

Contudo, diferentemente da antipsiquiatria, que, nas décadas de 1960 e 1970, questionou radicalmente a institucionalização manicomial e o próprio conceito de doença mental, passando a gozar de alguma notoriedade; e da antipsicanálise, que dirigiu suas críticas aos dispositivos de poder e à normatividade presentes na teoria e na clínica psicanalítica, sobretudo sob a forma de esquizoanálise e análise institucional, tornando-se relativamente conhecida, “antipsicologia” permaneceu um termo pouco empregado, ao menos na literatura psicológica brasileira disponível digital e virtualmente, sendo preterido em nome de termos como “contrapsicologia” e, mais amplamente, “psicologia crítica”.

A baixa frequência do termo “antipsicologia” na literatura psicológica brasileira pode ser demonstrada por uma rápida consulta aos resumos dos trabalhos indexados à Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), em que a palavra, nas míseras 10 ocorrências em que aparece, encontra-se majoritariamente associada a um debate ligado à crítica ao psicologismo na lógica e na filosofia, com pensadores como Gottlob Frege e Edmund Husserl. As ocorrências raramente mobilizam o termo em sua potência crítica e propositiva para o campo “psi”. A única verdadeira exceção é encontrada no trabalho de Alessandro de Lima Francisco (2017) sobre Foucault, no qual se argumenta que as reflexões do pensador francês assumem a forma de um “antipsicologismo estratificado” que, paradoxalmente, possibilita uma nova compreensão da subjetividade.

Esse cenário de escassez se repete na rede de Periódicos de Psicologia (PePsic), na qual a única referência explícita ao termo é o artigo de Pedro Henrique Antunes da Costa, intitulado “Se existiu uma antipsiquiatria e uma antipsicanálise, por que não uma antipsicologia? Diálogos com Martín-Baró”, publicado em 2022 e mencionado previamente na introdução deste artigo. Por essa razão, e como forma de contribuir para a retomada de uma tradição antipsicológica radical, anticapitalista e declaradamente marxista, serão apresentadas, sucintamente, nas seções seguintes, as propostas antipsicológicas de Figueiredo, Yamamoto, Coutinho Júnior e Costa, antes de passarmos à reflexão sobre a “antipsicologia da libertação” e sobre a negação do campo “psi” como “definhamento da psicologia” pela via da reabsorção social do cuidado.

Marco Antonio de Castro Figueiredo: ideias centrais de uma crítica radical à psicologia

Em seu livro O trabalho alienado e o psicólogo do trabalho, publicado em 1989, resultado de sua dissertação de mestrado, defendida em 1980, Marco Antonio de Castro Figueiredo oferece uma análise rigorosa sobre os fundamentos e as contradições da atuação do psicólogo no mundo do trabalho. Com a publicação do texto de sua dissertação, que já havia servido de referência para Yamamoto em sua inserção no debate antipsicológico, Figueiredo situa-se no interior da tradição crítica anticapitalista e marxista da psicologia, submetendo a prática da psicologia, mais do que seus belos discursos humanistas, a uma crítica radical, demonstrando como ela se constitui historicamente a partir de sua subordinação aos interesses do capital.

Figueiredo argumenta que o psicólogo do trabalho, ao atuar como instrumento de seleção, treinamento e adaptação dos trabalhadores às demandas produtivas, acaba por operar como um agente de legitimação da ordem social burguesa, camuflando a violência da produção, na medida em que suas práticas contribuem para naturalizar as relações de exploração, ocultar o caráter histórico e social do sofrimento no trabalho, retirar o poder de decisão das mãos da classe trabalhadora e domar ou dominar a sua resistência à exploração.

A originalidade da crítica de Figueiredo reside no modo como ele articula o conceito marxiano de trabalho alienado à própria condição do psicólogo enquanto profissional. O psicólogo, ao tomar o trabalho como algo dado, abstraído de suas determinações históricas e sociais, e ao reduzir os conflitos entre capital e trabalho a problemas de comunicação, ajustamento ou desequilíbrios psicológicos individuais, reproduz em sua prática a mesma cisão entre o trabalhador e o produto de sua atividade que caracteriza o trabalho alienado. A psicologia do trabalho, nessa perspectiva, surge como uma técnica de gestão da subjetividade a serviço da reprodução do capital, incapaz de apreender o trabalho em sua materialidade.

Assim, Figueiredo aponta para a necessidade de uma ruptura não apenas epistemológica, mas política, antecipando a tese de Yamamoto. Não se trata de propor uma “nova” psicologia do trabalho, mais humanizada ou mais crítica, mas de reconhecer que a superação da alienação no trabalho implica necessariamente a superação do capitalismo.

Oswaldo Hajime Yamamoto: contra a redefinição e a redenção, a negação da psicologia

Em A crise e as alternativas da psicologia (1987), Oswaldo Yamamoto realiza uma análise das respostas da categoria profissional à chamada “crise da psicologia”. Partindo da teoria marxista e, em especial, da contribuição de György Lukács, o autor argumenta que as tentativas de superação dessa crise, materializadas em projetos “alternativos” ou “contrapsicológicos”, esvaziam o potencial transformador da crítica ao operarem nos limites da própria ciência que pretendem negar. Yamamoto examina propostas como a psicologia comunitária e o trabalho em instituições, demonstrando como essas iniciativas frequentemente apenas maquiam procedimentos ou alteram o cenário de atuação, sem questionar a estrutura que sustenta a psicologia como instrumento de adaptação do indivíduo à ordem burguesa.

A originalidade da crítica de Yamamoto reside na tese radical de que tanto os projetos “alternativos” quanto a “contrapsicologia” compartilham um mesmo equívoco fundamental: a crença na possibilidade de redenção ou reforma da psicologia. Para o autor, essas correntes, mesmo quando motivadas por intenções progressistas, operam como “alternativas que não alternam”: propõem mudanças nos métodos ou nas áreas de intervenção, mas preservam intacto o núcleo ideológico da disciplina.

É nesse contexto que Yamamoto apresenta sua tese central: a necessidade da negação da psicologia. Distanciando-se das propostas que visam “salvar” a psicologia por meio de reformas graduais que resultariam numa forma de “psicologia crítica”, o autor defende que o caminho coerente com uma opção filosófico-política radical não é redefinir a área, mas negá-la enquanto campo autônomo e especializado. Assim, a verdadeira superação da crise não estaria em propor uma nova psicologia, mas em reconhecer que, em um mundo futuro e diverso, a própria psicologia, tal como a conhecemos, poderia não ter mais razão de existir.

A antipsicologia de Wilson Coutinho Júnior: ideologia progressista e psicologia do oprimido

A proposta de antipsicologia formulada por Wilson Coutinho Júnior (1984) inscreve-se como crítica contundente à psicologia e à psiquiatria enquanto saberes pretensamente neutros, evidenciando seu papel histórico na reprodução das relações sociais de dominação. Para o autor, esses campos operam sob uma ideologia que reproduz os fundamentos estruturais da sociedade de classes, funcionando como mecanismo de atualização da hegemonia burguesa ao incorporar críticas superficiais sem alterar o núcleo adaptativo das práticas psicológicas. Assim, o conhecimento e a intervenção clínica reduzem o sofrimento humano a dimensões intrapsíquicas, desconsiderando suas determinações histórico-sociais.

Em oposição a essa lógica, Coutinho Júnior propõe a construção de uma “psicologia do oprimido”, orientada por perspectiva materialista e dialética que recusa a individualização do sofrimento e busca compreendê-lo como expressão das contradições estruturais do capitalismo. A antipsicologia, nesse sentido, não se limita à crítica epistemológica, mas afirma-se como projeto ético-político que exige do profissional posicionamento explícito ao lado das classes subalternas. O psicólogo deixaria de ser agente de adaptação para tornar-se mediador crítico, comprometido com o desvelamento das ideologias que sustentam a opressão.

Contudo, diferentemente das propostas de Figueiredo e Yamamoto, que defendem a negação da psicologia enquanto campo autônomo, Coutinho Júnior acaba por propor uma nova psicologia, incorrendo naquilo que Yamamoto diagnosticou como proposta de redefinição e redenção da psicologia. Sua antipsicologia, embora crítica, ainda busca reconstruir a psicologia como ferramenta de intervenção política, sem avançar para sua superação histórico-concreta enquanto ciência parcelar e especializada.

A crítica de Pedro Henrique Antunes da Costa: antipsicologia como objetivo e processo

A antipsicologia de Pedro Henrique Antunes da Costa (2022, 2025a) insere-se na crítica radical, anticapitalista e marxista ao campo “psi”, buscando avançar rumo à superação dialética da psicologia enquanto ciência burguesa e parcelar. Costa propõe uma antipsicologia que não se limite a criticar condicionamentos ideológicos, mas que negue a psicologia como totalidade, em seu caráter de ciência que opera no estranhamento capitalista. A partir de Marx, Costa sustenta que a psicologia, ao mover-se na alienação, reproduz as cisões entre indivíduo e sociedade, subjetividade e objetividade, constituindo-se como conhecimento que impede a apreensão concreta do ser social. Para ele, a antipsicologia é processo de suprassunção: afirma, nega e supera a psicologia, não para refundá-la, mas para demonstrar sua obsolescência histórica diante da sociedade emancipada.

Costa propõe a antipsicologia como objetivo e processo. Como objetivo, aponta a extinção da psicologia enquanto ciência autônoma que se apropria privadamente de fenômenos sociais como se fossem propriedades naturais do indivíduo. Segundo o autor (Costa, 2025a, pp. 3-4), não se trata de construir uma “psicologia marxista”, mas de reconhecer que, na sociabilidade comunista, as mediações que justificam a psicologia perderiam a razão de ser. Como processo, a antipsicologia dá-se no interior do próprio campo, por meio de práxis crítica que tensiona seus limites, desnaturalizando objetos, historicizando categorias e politizando sua função social. Dialogando com Pavón-Cuéllar, Pérez Soto e Yamamoto, Costa demonstra que a crítica marxista não pode contentar-se com reformas internas ou “psicologias críticas” institucionalizadas, pois estas, absorvidas pelo campo, neutralizam o potencial transformador.

Articulando antipsicologia com a tradição marxista, Costa retoma a crítica de Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos: ao operar no estranhamento, a psicologia é incapaz de apreender o humano em totalidade. Por essa razão, sua superação é tarefa teórica e “efetiva tarefa vital” (Costa, 2025a, pp. 6, 9). Assim, a antipsicologia configura práxis que, atuando no terreno da psicologia, aponta para sua obsolescência e dissolução disciplinar. Em uma sociedade emancipada, as questões hoje capturadas pelo saber psicológico seriam integradas a formas coletivas e autogestionadas de produção da vida, tornando a existência da psicologia não apenas desnecessária, mas impensável.

O conceito marxista de “definhamento do Estado”

Após apresentar as principais propostas antipsicológicas marxistas encontradas na literatura psicológica brasileira, passo agora à apresentação de um elemento do pensamento marxista que considero fundamental para o desenvolvimento da crítica da psicologia proposta sob a forma de uma “antipsicologia da libertação”: a saber, o conceito de “definhamento do Estado” (Absterben des Staates).

No texto de 2022, além das considerações sobre os limites emancipatórios da psicologia nas políticas públicas e sociais e sobre a urgência de uma “antipsicologia da libertação”, afirmei também:

está mais do que na hora de superarmos uma determinada concepção acrítica e liberal do Estado e das políticas públicas e sociais, concepção bastante presente na psicologia brasileira e que coloca o Estado como sujeito privilegiado da emancipação humana e mediação prioritária para a efetivação do “compromisso social”. (Boechat, 2022, p. 28)

A teoria marxista do Estado fornece um antídoto para essa concepção ilusória. Quando Marx e Engels afirmam, no Manifesto do Partido Comunista (1848), que na fase superior da sociedade comunista, “o poder público perderá seu caráter político” (Marx & Engels, 1848/2010, p. 59), estão descrevendo um processo em que as funções políticas e coercitivas são substituídas pela autogestão social.

Décadas mais tarde, no livreto Do socialismo utópico ao socialismo científico (1880), Engels esboça elementos desse processo: “A intervenção do Estado em assuntos sociais tornar-se-á progressivamente supérflua e acabará por desaparecer. O governo sobre as pessoas é substituído pela administração das coisas e pela direção dos processos de produção. O Estado não será ‘abolido’, extingue-se” (Engels, 1884/2019, p. 98). Anos depois, em A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), afirmará que, assim como o Estado surge dos antagonismos irreconciliáveis entre as classes (Engels, 1884/2019, p. 157), sua extinção pressupõe a superação das contradições materiais que o geraram. Nesse movimento, a burocracia e a coerção cedem lugar à gestão coletiva.

Lenin, em O Estado e a revolução (1917), esclarece que esse definhamento não é imediato, mas um processo contraditório no qual o Estado proletário “começa a definhar” (Lenin, 1917/2010, p. 63). Essa dialética, que implica usar o aparato estatal para superá-lo, ajuda a compreender o paradoxo que deve ser enfrentado pela antipsicologia marxista. A Comuna de Paris (Marx, 2011, p. 172), celebrada por Marx como primeira experiência de poder proletário e popular, demonstrou que a reapropriação coletiva das funções públicas é possível, assim como experiências comunitárias mostram a viabilidade de despsicologizar a lida com o sofrimento e o conjunto daquilo que hoje é tomado como objeto privativo do campo “psi”.

O paralelo entre definhamento do Estado e da psicologia só é possível em razão de sua gênese comum na alienação e no estranhamento que constituem a tessitura da sociabilidade capitalista. Se o Estado surge quando o poder político é expropriado da comunidade e convertido em instrumento de dominação de classe, a psicologia institucionalizada emerge quando a subjetividade e o sofrimento humano são fetichizados, abstraídos do âmbito comunitário e confinados a dispositivos especializados de acolhimento, escuta e cuidado. Nesse sentido, a propriedade privada é para o Estado o que a fetichização da individualidade (Duarte, 2004) e da subjetividade é para a psicologia: o processo social e a base material que os sustenta e que precisa ser superada.

Definhamento da psicologia como reabsorção social do cuidado

É precisamente a partir desse paralelo com o definhamento do Estado que podemos compreender a proposta de definhamento da psicologia como reabsorção social do cuidado. A proposta de uma “antipsicologia da libertação” surge como resposta radical aos impasses da assim chamada “psicologia crítica”: se a emancipação humana exige a superação das estruturas que produzem sofrimento, não basta reformar a prática psicológica - é necessário questionar sua própria existência como ciência autônoma e profissão especializada. Apoiada na dialética marxista, que compreende a negação como momento de superação, a antipsicologia que aqui proponho não busca extinguir a psicologia de forma abstrata, mas criar as condições para que suas funções sejam reabsorvidas pela vida social. Ela não ataca a flor, mas suas raízes.

Essa perspectiva é solidária à proposta desenvolvida por Ignacio Martín-Baró (2017), para quem, seguindo os passos de Frantz Fanon, a desalienação individual pressupunha um trabalho e uma luta pela desalienação social. O “definhamento da psicologia”, entendido como a reabsorção social do cuidado, antes monopolizado por especialistas, não é, portanto, um ideal abstrato, mas uma estratégia concreta, historicamente viável quando sustentada por um projeto ético-político revolucionário.

Importa, contudo, considerar o fato de que propostas de “autogestão” e de “reabsorção social” do acolhimento, da escuta e do cuidado, no interior do capitalismo, que se coloquem frontalmente contra sua monopolização pelo mercado, pelo Estado e suas políticas públicas e sociais, por mais bem intencionadas que sejam, podem representar uma porta aberta para processos de privatização. É por essa razão que, conforme argumentei, é preciso dar centralidade ao fortalecimento das instâncias auto-organizativas da classe trabalhadora sem prejuízo da ocupação de espaços nas políticas públicas e sociais (Boechat, 2022).

Por outro lado, é preciso admitir também que não há como manter conquistas e direitos sociais substantivos (como as políticas públicas e sociais) sem a permanente promoção e manutenção, consciente, planejada e dirigida, de mobilização social de base. Daí porque a proposta de “autogestão” e “reabsorção social” aqui aventadas devem estar articuladas a uma estratégia política consciente de construção de poder popular. A “antipsicologia da libertação”, como estratégia ou processo, e a reabsorção social do cuidado, como horizonte ou objetivo, ao pressuporem a construção do poder popular, constituem forma de lutar permanentemente pelas conquistas sociais arrancadas à força ao Estado burguês pelo movimento social organizado.

Nesse sentido, engana-se quem avalia que o debate antipsicológico aqui proposto é uma espécie de fogo amigo e tiro no pé que só alimenta os projetos privatistas da direita e da extrema direita. Ao contrário, o que tem pavimentado, historicamente, o caminho para a ascensão política da direita privatizante e para as formas mais bárbaras de neofascismo que compõem o espectro aterrorizante da extrema direita contemporânea são a desmobilização e o apassivamento promovidos pela cooptação de lideranças para a máquina governamental e a oferta de serviços pela via de parcerias público-privadas (Iasi et al., 2019).

É fundamental, portanto, ressaltar que essa reabsorção comunitária do cuidado só se inscreve em um projeto anticapitalista se acompanhada da luta por um Estado de trabalhadores. No capitalismo, a simples transferência de funções do Estado para a comunidade pode significar privatização disfarçada ou sobrecarga das populações mais pobres. Por isso, uma “antipsicologia da libertação” deve rejeitar qualquer leitura que confunda autonomia com abandono e privatização.

Essa proposta enfrenta resistências mesmo dentro da “psicologia crítica”. Muitos argumentam que, em um contexto de crescente medicalização, abandonar a profissionalização do cuidado seria abandonar os vulneráveis à mercê do mercado. No entanto, uma “antipsicologia da libertação” não defende a desassistência imediata, mas um processo de transição em que os saberes psicológicos sejam democratizados e os espaços institucionais, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), sejam transformados em territórios de autogestão.

O núcleo dessa antipsicologia está na crítica à separação entre quem cuida e quem é cuidado, uma divisão que reflete a fragmentação capitalista entre trabalho intelectual e manual (Marx, 1867/2013). Nas periferias brasileiras, onde redes informais de apoio historicamente substituíram a ausência seletiva do Estado (e sua forte presença policial e penal, que se manifesta sob a forma de terrorismo de Estado), já existem embriões desse cuidado não profissionalizado. A tarefa dessa antipsicologia é fortalecer essas práticas, não para “psicologizá-las”, mas para mostrar que a lida com o sofrimento, longe de ser monopólio de especialistas, é uma potencialidade humana que pode ser reapropriada coletivamente.

A objeção de que “a sociedade não está preparada” para assumir essas funções revela uma contradição: se a psicologia afirma acreditar na capacidade humana de transformação, por que insiste em se colocar como tutela indispensável? Contra essa objeção, a “antipsicologia da libertação” responde com uma inversão: é justamente a dependência da mediação profissional que impede a sociedade de se preparar. Assim como o Estado não será conquistado nem concedido espontaneamente pelas classes dominantes, nem “desaparecerá” por decreto, o definhamento da psicologia exige um processo ativo, consciente e politicamente dirigido de fortalecimento da organização coletiva.

Aqui reside o paradoxo central da antipsicologia, já indicado por Costa (2025a): ela só se realiza ao negar-se. Seu método não é a construção de novas teorias, mas a devolução do saber psicológico às maiorias. A antipsicologia, portanto, não é um fim, mas um meio - objetivo e processo - cujo objetivo último é tornar-se desnecessária, dissolvendo-se na práxis de uma sociedade onde o cuidado não seja um serviço, mas um hábito, parte integrante do próprio ethos social.

Algumas tarefas e passos para uma “antipsicologia da libertação”

O projeto de uma “antipsicologia da libertação” exige ações e passos concretos. Na construção desse caminho, a desinstitucionalização do cuidado é uma tarefa fundamental, mas ela deve passar pela crítica ao racismo na atenção psicossocial e pelo reconhecimento do protagonismo de mulheres negras e estratégias de “aquilombamento” como resistência (Passos, 2025). Essa desinstitucionalização não significa abandono, mas a construção de novas formas de cuidado enraizadas nas comunidades e em suas práticas tradicionais de acolhimento, desenvolvidas à margem do Estado.

Essa reorientação exige uma formação contra-hegemônica: superar a abordagem meramente técnica e desmontar a ilusão da neutralidade (Costa, Seixas, & Costa, 2022), formando profissionais para sua própria irrelevância. O objetivo paradoxal é preparar psicólogos para que atuem no sentido de tornar seu saber progressivamente desnecessário, compartilhando-o e dissolvendo-o na práxis coletiva. Além disso, como apontam Passos et al. (2022, p. 269), uma práxis crítica exige “fala, mas exige escuta, calma, aproximações e espaços”, além do reconhecimento de que a formação não pode se construir “desde o abismo” que separa a academia dos movimentos sociais e do cotidiano das mulheres que experienciam a loucura e o sofrimento psíquico. Nessa direção, a formação deve assumir um caráter político-pedagógico de conscientização e organização popular, apoiando-se em estratégias que rompam com os diferentes muros manicomiais e com a hierarquização dos saberes que mantém apartadas as produções acadêmicas das produzidas nos movimentos sociais e serviços.

Paralelamente, é preciso criar dispositivos de autogestão do sofrimento, como a Gestão Autônoma da Medicação (GAM), que deslocam o cuidado da lógica prescritiva para processos coletivos (Passos et al., 2013). Rodas de conversa em ocupações, grupos de apoio mútuo e assembleias inspiradas na “psicanálise com muitos” (Pereira, 2025) tratam o sintoma como problema político. Tais dispositivos apontam para a reabsorção das funções do campo “psi” pela comunidade, em processos autogestionados que desafiam a hierarquia entre quem sabe e quem sofre.

A luta contra a patologização e a medicalização da vida é outro passo indispensável, desnaturalizando o sofrimento como “doença” para politizá-lo. Isso significa compreender o sofrimento psíquico no capitalismo como expressão de contradições objetivas - exploração, racismo, patriarcado - que não se resolvem no plano individual (Passos et al., 2022). A desmedicalização articula-se à luta anticapitalista mais ampla, à construção de poder popular e à transformação das condições materiais que geram o adoecimento (Pereira, 2025).

A reapropriação dos saberes psicológicos pelos oprimidos exige cartilhas populares e linguagens próprias para nomear o sofrimento, rompendo com o monopólio do discurso especializado. Essa tarefa valoriza práticas de cuidado não profissionalizadas (redes de vizinhança, coletivos culturais, terreiros, organizações de base), reconhecendo e fortalecendo esses saberes sem substituí-los por versões pretensamente mais “científicas”.

A transformação dos equipamentos públicos (Caps, Cras) em laboratórios de autodissolução da psicologia implica substituir atendimentos individuais por oficinas autogestionadas, nas quais a distinção entre técnicos e usuários se dissolva em processos coletivos (Pereira, 2025). Ocupar esses espaços é trabalhar para torná-los desnecessários, fortalecendo as redes comunitárias de cuidado que, numa sociedade emancipada, absorveriam suas funções.

Além disso, a desmercantilização do cuidado requer cooperativas autogestionárias de psicólogos articuladas a movimentos sociais. Essas experiências antecipam, no capitalismo, formas não mercantis de relação com o sofrimento, garantindo a sobrevivência material dos trabalhadores e experimentando práticas não hierárquicas, em que o saber técnico não se sobreponha ao saber da experiência e o cuidado não seja mercadoria.

A construção de uma cultura do cuidado coletivo, aprendendo com cozinhas comunitárias e experiências semelhantes, aponta para a superação da separação capitalista entre produção e reprodução. Nessa direção, a práxis do cuidado precisa ser aquilombada e fundamentada no sumud - isto é, deve expressar uma resistência que recusa a privatização e a individualização do sofrimento, tal como ocorre na hegemonia psicológica liberal. Conforme sugere Costa (2025b, p. 197), “trabalhemos para que a psicologia seja cada vez menos necessária”, desprivatizando o cuidado e reafirmando que ele se dá “nas relações com os outros, no cotidiano, no fortalecimento dos laços e dimensões menos alienantes e mais humanizadores da vida”.

Por fim, é preciso reconhecer os limites estruturais da psicologia (Martín-Baró, 1996, 2017). O horizonte não é sua reforma, mas sua superação como mediação especializada, rumo a uma sociedade em que o cuidado seja um ato comum e coletivizado. Essas tarefas articulam-se na construção de poder popular capaz de trabalhar pela obsolescência histórica da psicologia, na direção de uma sociedade na qual o cuidado tenha sido reabsorvido pela vida coletiva. “Pois se o psicólogo, por um lado, não é chamado a intervir nos mecanismos socio-econômicos que articulam as estruturas de injustiça, por outro é chamado a intervir nos processos subjetivos que sustentam e viabilizam essas estruturas injustas” (Martín-Baró, 1996, p. 22).

Conclusão

A “antipsicologia da libertação” não se propõe a reformar, humanizar ou redimir a psicologia, mas a promover sua superação histórico-concreta por meio da ação política. Este artigo resgatou uma questão eclipsada no debate crítico da psicologia brasileira desde o final dos anos 1980: a necessidade de negação da psicologia enquanto ciência autônoma e profissão especializada. Com base na tradição marxista e em autores como Figueiredo, Yamamoto, Coutinho Júnior e Costa, argumentamos que a emancipação humana exige a reabsorção social das funções de cuidado atualmente delegadas aos especialistas do campo “psi”.

Inspirado no conceito marxista de “definhamento do Estado”, propomos um processo análogo de “definhamento da psicologia”: assim como o Estado proletário deve transferir seu poder aos conselhos operários até sua extinção, as práticas psicológicas devem ser progressivamente reassumidas pela comunidade, seus grupos e coletivos. Em uma sociedade socialista, novas relações sociais tornariam possível a reintegração do cuidado à vida coletiva, dissolvendo a necessidade de mediação especializada.

A antipsicologia marxista não é, porém, uma negação abstrata ou voluntarista. Ela enfrenta o paradoxo de atuar no interior do próprio campo que busca superar, utilizando os saberes existentes para demonstrar sua desnecessidade histórica. Trata-se de uma estratégia que articula lutas imediatas - como a desinstitucionalização, a formação contra-hegemônica, a criação de dispositivos de autogestão do sofrimento e a luta contra a medicalização - a um horizonte revolucionário de construção de poder popular.

Os desafios são imensos: a medicalização da vida, a indústria do bem-estar, a precarização dos serviços públicos e as resistências internas dos próprios profissionais, muitos dos quais temem que a desprofissionalização signifique abandono das populações vulneráveis. A resposta antipsicológica é dupla: fortalecer as redes autônomas de cuidado que já existem nas periferias e movimentos sociais, e lutar por transformações estruturais - socialização dos meios de produção, controle operário, conselhos populares - sem as quais o definhamento da psicologia seria apenas uma palavra vazia.

A proposta de definhamento da psicologia não é compatível com o reformismo. Ela parte da premissa marxista de que o Estado não definha por dentro de si mesmo, mas como resultado da destruição do aparelho de Estado burguês e da construção de uma forma política proletária. Do mesmo modo, a psicologia só pode definhar historicamente mediante a abolição das relações sociais que a produzem como necessidade. Isso não exclui lutas intermediárias no interior do campo “psi”, mas subordina-as a um horizonte revolucionário.

Para que o cuidado seja reabsorvido pela vida coletiva, são necessárias medidas estruturais: estatização dos serviços de saúde e educação sob controle popular, socialização dos setores estratégicos da economia, construção de conselhos e assembleias populares como instâncias de decisão direta, e fortalecimento das redes comunitárias de cuidado que já resistem à lógica mercantil. Essas medidas são a condição material para que a psicologia se torne historicamente obsoleta - não por decreto, mas porque a própria sociabilidade que a exigia terá sido superada.

Por fim, a antipsicologia da libertação nos convida a um exercício de imaginação política radical: assim como hoje nos espantamos com a existência de “especialistas em respirar”, talvez um dia a ideia de “especialistas em cuidar” soe igualmente absurda. Até lá, cabe às psicólogas e psicólogos uma tarefa paradoxal: usar seu conhecimento para mostrar que ele não é necessário. Como escrevi, em 2022, “se é possível imaginarmos uma sociedade sem manicômios, por que é tão difícil imaginarmos uma sociedade sem psicólogas e psicólogos?”.

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Editado por

  • Editor responsável:
    Isabel Fernandes de Oliveira

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Mar 2026
  • Aceito
    27 Maio 2026
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