Open-access A Psicanálise da Análise Institucional do Discurso

The Psychoanalysis of the Institutional Analysis of Discourse

La Psychanalyse de l’Analyse Institutionnel du Discours

El Psicoanálisis del Análisis Institucional del Discurso

Resumo:

A Análise Institucional do Discurso é uma estratégia de pensamento para o exercício profissional e de pesquisa em psicologia que vem sendo desenvolvida e exercida por M. Guirado, docente e pesquisadora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). É um método que constitui um particular campo conceitual produzido em interfaces com quatro áreas do conhecimento: a sociologia de Guilhon Albuquerque, as ideias de Foucault, a linguística pragmática de Dominique Maingueneau e a psicanálise de Freud. O presente artigo trata do âmbito conceitual dessa estratégia de pensamento produzido em interlocuções e fronteiras com o pensamento freudiano. Apoiados em resultados de pesquisas acadêmicas, nosso objetivo é prosseguir com uma discussão possível sobre as condições de possibilidade de se trabalhar com um recorte específico da psicanálise que, por confrontos e tensões, nos faculta pensar com algumas das produções conceituais de Freud de um modo retorcido, já fora do campo estrito da psicanálise e no interior desse método.

Palavras-chave:
análise institucional; análise do discurso; psicanálise

Abstract:

Institutional analysis of discourse is a thought strategy for professional practice and research in psychology that has been developed and carried out by M. Guirado, professor and researcher at IPUSP. This method constitutes a particular conceptual field that is produced in interfaces with four areas of knowledge: Guilhon Albuquerque’s sociology, Foucault’s ideas, Dominique Maingueneau’s pragmatic linguistics, and Freud’s psychoanalysis. This study addresses the conceptual scope of this thought strategy produced in interlocutions and frontiers with Freudian thought. Supported by academic research results, we aim to discuss the conditions of possibility of working with a specific perspective on psychoanalysis that, via confrontations and tensions, enables us to think with some of Freud’s conceptual productions in a twisted way outside the strict field of psychoanalysis and inside this method.

Keywords:
institutional analysis; analysis of discourse; psychoanalysis

Résumé:

L’Analyse institutionnelle du discours constitue une stratégie de pensée pour la pratique professionnelle et la recherche en psychologie développée et réalisée par M. Guirado, professeur et chercheur à l’Institute de psychologie de l’Université de São Paulo (IPUSP). Cette méthode constitue un champ conceptuel particulier produit en interfaces avec quatre domaines de la connaissance: la sociologie de Guilhon Albuquerque, les idées de Foucault, la linguistique pragmatique de Dominique Maingueneau et la psychanalyse de Freud. Cet article discute la portée conceptuelle de cette stratégie de pensée produite dans les interlocutions et frontières avec la pensée freudienne. Soutenu par les résultats de la recherche académique, notre objectif est de discuter les conditions de possibilité de travailler avec une branche spécifique de la psychanalyse qui, à travers des confrontations et des tensions, nous permet de penser avec certaines des productions conceptuelles de Freud d’une manière tordue, déjà hors du champ strict de la psychanalyse et à l’intérieur de cette méthode.

Mots-clés:
analyse institutionnel; analyse du discours; psychanalyse

Resumen:

El análisis institucional del discurso es una estrategia de pensamiento para la práctica profesional y la investigación en Psicología que ha sido desarrollada y ejecutada por M. Guirado, docente e investigadora del Instituto de Psicología de la Universidad de São Paulo (IPUSP). Es un método que constituye un campo conceptual particular producido en interfaces con cuatro áreas de conocimiento: la sociología de Guilhon Albuquerque, las ideas de Foucault, la lingüística pragmática de Dominique Maingueneau y el psicoanálisis de Freud. Este artículo trata sobre el alcance conceptual de esta estrategia de pensamiento producido en interlocuciones y fronteras con el pensamiento freudiano. Apoyados en resultados de investigaciones académicas, el objetivo es empezar una posible discusión sobre las condiciones de posibilidad de trabajar con un corte específico del psicoanálisis que, mediante enfrentamientos y tensiones, permite pensar con algunas de las producciones conceptuales de Freud de manera retorcida, ya fuera del campo estricto del psicoanálisis y dentro de este método.

Palabras clave:
análisis institucional; análisis del discurso; psicoanálisis

Ponto de partida e contexto

Este artigo trata da Análise Institucional do Discurso (AID). Proposto por Guirado (2010), esse método define-se pelo exercício de um modo de pensar específico para o trabalho em psicologia, tanto profissional como de pesquisa. Trata-se de um recorte analítico, balizado por alguns conceitos de base que delimitam os pontos de partida de uma estratégia descritiva. Método, portanto, não como um conjunto de procedimentos, e sim como uma estratégia conceitual, um organizador descritivo pelo qual operamos o pensamento.

A partir de sua característica distintiva, o campo conceitual da AID constitui-se num rigoroso esforço de construção de interfaces entre diferentes áreas do conhecimento. Com isso, referimo-nos a um trabalho de produção de interlocuções e confrontos entre modos de produção de saber distintos para a proposição de outro, afastado dos primeiros e neles apoiado. Um trabalho que parte da delimitação das especificidades de cada campo e de suas diferenças irreconciliáveis para, por recortes precisos, criar condições de que conceitos produzidos em contextos diversos possam ser colocados em tensão e articulados, de modo que seja possível torcê-los para que funcionem como operadores de pensamento em outra área do conhecimento.

As fronteiras conceituais que constituem a AID foram estabelecidas a partir de uma interlocução com o discurso de quatro autores, cada qual pertencente a um campo de saber específico: José Augusto Guilhon Albuquerque, da sociologia, Michel Foucault, da filosofia, Dominique Maingueneau, da linguística, e Sigmund Freud, da psicanálise. Dessas interlocuções, pelos recortes e torções que a tensão do trabalho em fronteira exige, temos os matizes daquilo que caracteriza a AID como uma proposta para o exercício da psicologia.

O objetivo do presente artigo é discutir o âmbito conceitual da AID produzido na interface com o discurso freudiano, o que nomeamos de Psicanálise da Análise Institucional do Discurso. Trata-se, desse modo, de um debate sobre um recorte específico da psicanálise de Freud que nos permite pensá-la nas fronteiras conceituais que constituem a AID, fora do campo psicanalítico em sentido estrito. Um debate, assim, sobre as condições de possibilidade de se trabalhar ao mesmo tempo apoiados e afastados do pensamento freudiano, no exercício da estratégia de pensamento da AID.

O que apresentamos a seguir baseia-se nos resultados de um conjunto de três pesquisas acadêmicas1 (Silva, 2015, 2020, 2023). Por tal, reservamos, para este debate, uma exposição das principais reflexões construídas a partir dessas pesquisas e, sobre os pormenores das análises e demonstrações que dão os subsídios do que afirmaremos aqui, remetemos o leitor àqueles trabalhos. Esta exposição, porém, não se configura como mera reapresentação de resultados, mas faz-se como reorganização e articulação possível destes.

Os conceitos de base

A estratégia de pensamento da AID configura-se como um campo de produção de saber em Psicologia cujo exercício faz-se sustentado por rigorosas elaborações conceituais em fronteiras. O primeiro conceito a se firmar na área foi o de instituição, constituído na interface com a Sociologia de Instituições Concretas. Albuquerque (1978) propõe pensar instituição como práticas ou relações sociais que se repetem e que, por efeito dessa repetição, legitimam-se; em seu fazer cotidiano, no embate com outras instituições e pela relação de clientela, a instituição demarcaria seu terreno de legitimidade e o objeto de sua ação. Dessa atenção às relações, Guirado (2010) acrescenta à definição de Albuquerque a ideia de que o caráter de legitimidade da instituição se daria, em ato, por efeitos de reconhecimento e desconhecimento - um reconhecimento, naqueles que fazem as relações, de sua naturalidade, como se fossem constantes, concomitante a um desconhecimento da relatividade destas, historicamente instituídas.

Isso implica pensar a própria psicologia como instituição (Guirado, 2010), feita e refeita pela ação daqueles que em nome dela falam. Implica também que se defina, por recorte, o objeto de suas práticas, esclarecendo-se assim o recorte da psicologia com o qual se trabalha. Numa aproximação da psicanálise, Guirado (1987/2004) delimita o objeto da AID como as relações, não imediatamente observáveis, mas tal como percebidas e imaginadas por quem as faz. Numa torção da noção freudiana de fato psíquico, é delimitado um campo analítico-descritivo daquilo que se mostra como singularidade em certo contexto institucional, pelo exercício dos lugares ali dispostos e a reboque das expectativas que marcam esse exercício.

É o conceito de discurso em AID, tomado numa interface com o pensamento foucaultiano, que opera como o organizador central dessa maneira de pensar as instituições. Foucault (1971/2010) propõe pensar discurso não como representação ou mediador de uma realidade, e sim como realidade em si mesmo, como materialidade. Discurso é pensado como ato-acontecimento, pela sua dimensão de acaso, de regularidade e de condições de possibilidade; como tensão em contexto marcada por relações de poder-resistência (Foucault, 1976/2015). Dos efeitos de pensar com esse conceito na fronteira, temos a possibilidade de trabalhar em AID com uma noção de discurso como dispositivo institucional, contextualizado em determinado tempo e lugar. Isso para que, na análise do seu modo de produção, tomemos as relações tal como elas são mostradas no discurso, tecidas em jogos de forças que naturalizam e resistem, que instituem saberes e subjetividades, que produzem reconhecimentos e desconhecimentos (Guirado, 2010).

Se, com isso, visamos a uma análise das relações pela interdependência entre matrizes institucionais e efeitos de singularidade na produção de subjetividades, delimitamos aqui o conceito de sujeito com o qual operamos em AID. Trabalhando com a metáfora do sujeito-dobradiça, a proposta de Guirado (1995/2018, 2010) é pensar a subjetividade como produzida por uma implicação, no discurso, entre histórias de vida singulares e o exercício de lugares instituídos em determinados contextos. Estamos, assim, tomando a subjetividade como efeito, por um movimento que dobra o exercício de uma instituição sobre o singular naquele contexto, para descrever os modos pelos quais alguém, pelo tecido discursivo e nas malhas institucionais, reconhece-se a si mesmo e aos outros2.

O último conceito de base da AID é o de análise, pensado na interface com a linguística pragmática. Ao tomar a linguagem como discurso, Maingueneau (1989), apoiado numa tradição foucaultiana de pensamento, toma a linguagem não em termos de estrutura, mas sim em termos de sua qualidade de ato, de ação. São, assim, as condições da enunciação que constituem os alvos da análise, de modo que cada ato de fala só será pensado a partir do contexto e do quadro pragmático que o delimita. Isso significa considerar, nas relações entre aqueles que falam, a disposição dos lugares e das expectativas que condicionam o exercício da função enunciativa. É aqui que conceitos como os de gênero discursivo e cena enunciativa orientam uma análise do discurso cujo ponto de ataque é a relação entre texto e contexto, um modo de analisar em que os enunciados só podem ser pensados na esteira das regras de sua enunciação. Operando na fronteira, agora em vistas a uma análise da produção da subjetividade no discurso pela tensão entre instituição e singularidade, o que em AID podemos entender como análise não poderá configurar-se como um trabalho interpretativo, de caráter explicativo, teoricamente embasado: vai, noutra direção, exigir um exercício descritivo do modo de produção do discurso, tomando sempre o contexto como a condição da produção de sentidos (Guirado, 2010).

Para completarmos essa breve apresentação do campo da AID, é necessário abordar também o conceito de transferência com que trabalhamos na área, numa interface com a psicanálise freudiana. Se, em Freud (1912/2010, 1915/2010), a transferência é explicada por hipóteses sobre dinâmica intrapsíquica e por termos como “pulsão”, “repressão” e “inconsciente”, em AID operaremos com um recorte desse conceito para tomar dele a ideia de que, no exercício das relações, lugares se reeditam, marcando, para aqueles que fazem tais relações, reconhecimentos possíveis de si e de sua posição, ainda que disso não se tenha consciência (Guirado, 2000, 2010). Pressupomos, assim, que o exercício de determinado lugar institucional não se faz sem as marcas do exercício de outros, relativos a outras instituições, num cruzamento de expectativas (Guirado, 2015). E, nisso, tomaremos a cena enunciativa em análise no rebote das cenas que se constituíram na história daqueles que produzem um discurso. Nessas torções de fronteira, a transferência é pensada como um efeito discursivo-institucional, não como um processo endógeno, ocupando um lugar de aporte conceitual para pensarmos as relações a partir de contextos de reconhecimento, numa atenção às marcas de singularidade na produção da subjetividade no discurso.

A interface com a psicanálise, no âmbito da AID, se prolifera a partir dessa reconsideração do conceito de transferência, como uma tensa e particular interlocução com o pensamento freudiano que nos faculta trabalhar a partir de outras fronteiras conceituais (Guirado, 2010). Constituindo, assim, uma espécie de psicanálise que é própria da AID - uma “psicanálise” que foi submetida ao seu campo analítico, que foi construída a partir das aberturas do discurso de Freud, tensionada e torcida para poder operar na interface com as outras áreas do conhecimento que compõem essa estratégia conceitual, produzida para servir de suporte para o pensamento no trabalho descritivo que fazemos em AID. É isso que nomeamos de Psicanálise da Análise Institucional do Discurso (Silva, 2020), e é para ela que agora nos voltamos, primeiramente delimitando seu lugar na história de constituição desse método para posteriormente tratarmos de alguns termos conceituais específicos do discurso de Freud.

Dos acasos da instituição de uma estratégia conceitual

É possível considerar que em Guirado (1986/2004), livro no qual a autora retrata sua tese de doutorado, temos dispostos os primeiros movimentos de constituição da AID. Como uma pesquisa sobre a antiga Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem), esse estudo foi feito a partir de entrevistas com seus agentes institucionais e clientela, mas o modo como foram analisadas tais entrevistas demarca o espaço de especificidade da proposta da autora. Trabalhando suportada numa interface entre certo escopo da sociologia de Albuquerque (pelo conceito de instituição) e algumas proposições de Freud (pela noção de afeto), Guirado (1986/2004) apresenta uma proposta de análise que visa tomar vínculos afetivos no discurso, considerando-se o contexto de produção de determinadas relações instituídas.

Nesse sentido, a interlocução com o discurso freudiano ocupa um lugar central nesse momento inicial da constituição da AID. Ela não só circunscreve o modo de fazer pesquisa ali proposto no campo da psicologia, como também serve, por recorte, como ponto de estofo para o estabelecimento da fronteira conceitual com o campo da sociologia, torcendo a noção de instituição para que ela possa operar um pensamento que analiticamente descreva marcas da singularidade na produção da subjetividade em dado discurso institucional. Se, desse modo, é com a sociologia de Albuquerque que Guirado firma uma interface conceitual, com a psicanálise de Freud é estabelecida uma fronteira de ancoragem (Silva, 2020) - uma interface que, nessa articulação com o campo da sociologia, ancora o pensamento de Guirado no campo da psicologia.

Isso ganha novos matizes em Guirado (1987/2004), livro no qual a autora discorre sobre a atuação de psicólogos em contextos institucionais. Propondo pensar a psicologia institucional não como um ramo de atuação, mas como um modo de exercer a psicologia, é aqui que Guirado delimita o recorte que lhe permite considerar as relações como objeto institucional dessa prática, para tomá-las a partir da tensão entre seu matriciamento institucional e efeitos de singularidade. Novamente numa articulação pontual entre a sociologia de Albuquerque (pelo conceito de instituição) e a psicanálise de Freud (agora pela noção de fato psíquico), configura-se uma estratégia analítica que pressupõe uma subjetividade produzida em determinado quadro de relações em contexto.

Também nesse momento, após um rigoroso recorte que aponta para sua vocação descritiva, as ideias de Freud demarcam o espaço de especificidade das proposições de Guirado, ocupando um lugar de condição epistemológica de possibilidade que suporta essa maneira de pensar o exercício de uma psicologia - preocupada em descrever, no âmbito de relações sociais instituídas e a respeito daqueles que concretamente as fazem, o modo pelo qual tais relações são imaginadas e representadas no discurso. E, nessa interlocução com o saber freudiano, reconhece-se com mais solidez o estabelecimento do que nomeamos de fronteira de ancoragem (Silva, 2020).

Em Guirado (1995/2018), encontramos o momento em que a AID, tal como podemos reconhecê-la atualmente, consolida-se como um discurso. Articulando na tensão de fronteiras alguns aportes conceituais construídos a partir de recortes pontuais da sociologia de Albuquerque, das ideias de Foucault e da linguística pragmática de Maingueneau, a autora delimita pela primeira vez o conjunto conceitual que configura o discurso do método. Essa consolidação da AID, porém, desloca a interlocução com a psicanálise de Freud para o centro das interfaces conceituais dessa estratégia de pensamento, colocando-a como campo constitutivo da própria enunciação da AID e reconfigurando seu lugar como o de matriz epistemológica (Silva, 2020).

Isso, pois, das interlocuções com Foucault (pelo conceito de discurso) e com Maingueneau (pelas noções de gênero discursivo e cena enunciativa), a proposição da metáfora do sujeito-dobradiça (Guirado, 1995/2018) posiciona a psicanálise no cerne conceitual da proposta da autora, dispondo como norte de análise uma singularidade que será pensada a partir do exercício de lugares enunciativos, o que contextualiza no exercício do discurso a produção institucional de subjetividades. Nesse movimento de torções, a fronteira com o pensamento de Freud, se até então servia de ancoragem do pensamento na área psicológica de produção de conhecimento, ganha então peso de especificidade, cujo efeito é a configuração de uma psicanálise afastada da metapsicologia, passível de operar nas interfaces conceituais da AID.

É em Guirado (2000), contudo, que essa fronteira com o pensamento freudiano enfim configura-se conceitual. Nesse trabalho, a autora desenvolve uma tese sobre determinado modo de exercer a clínica a partir de um diálogo que confronta algumas proposições de Dominique Maingueneau (indo das noções de gênero discursivo e cenografia até as de heterogeneidade discursiva e polifonia) e a cena clínica aberta pelo discurso de Freud (tal como desenhada sob as marcas do conceito de transferência). Nisso, pelo rigor do trabalho em interface, delimita-se uma estratégia de pensar com o termo freudiano que vai exigir a suspensão da relação palavra-inconsciente para que seja possível um trabalho com a relação discurso-contexto.

Todo esse esforço de elaboração conceitual firma o discurso de Freud como uma matriz epistemológica da AID (Silva, 2020), pois vai implicar a ideia de transferência em uma descrição das marcas da repetição que acompanham o exercício de lugares instituídos, afastando-se da suposição de um psiquismo endógeno para pensar a singularidade no discurso como efeito de contexto. Eis que, com o conceito de transferência assim redesenhado, institui-se uma nova interface conceitual nessa estratégia de pensamento que, embora já delimitada desde 1995, ganha aqui os contornos que até hoje respondem pela sua enunciação.

Dimensões da interface

O levantamento acima visou aos principais efeitos das interlocuções com o pensamento de Freud ao longo da produção do discurso de Guirado. Interlocuções essas que produzem, historicamente e no exercício da psicologia como Análise Institucional do Discurso, algumas regiões de fronteira possível entre a psicanálise e as outras áreas do conhecimento que delimitam a AID. Interlocuções essas que carregam as marcas da especificidade dessa estratégia de pensamento e que constituem as condições primeiras da enunciação de uma Psicanálise da AID (Silva, 2020).

No que até aqui discutimos, é possível reconhecer que a interface estabelecida com o discurso freudiano é multifacetada, e podemos pensá-la a partir de dimensões diversas, a depender do efeito da interface no interior da AID. Dimensões essas que necessariamente se implicam, mas que, quando tomadas separadamente, nos permitem melhor reconhecer o caráter complexo desse âmbito conceitual da AID.

Colocando em perspectiva a posição da psicanálise de Freud na delimitação do âmbito de ação da AID, estamos pensando a interface a partir de sua dimensão instituinte (Silva, 2020). Nesse sentido, damos foco ao lugar que essa interface tem na definição da especificidade da AID como modo de fazer psicologia, desde a demarcação de seu objeto institucional até a configuração do conceito de sujeito-dobradiça (Guirado, 2010). Dimensão instituinte, portanto, porque participa da própria instituição dessa estratégia de pensamento.

Por outro lado, se pensamos sobre essa fronteira com o pensamento de Freud no tocante à sua posição no próprio exercício da AID, estamos tomando a interface a partir de sua dimensão analítica (Silva, 2020). Dessa maneira, entramos num plano de discussão que se ocupa da circunscrição de o que seria o ato analítico, considerando o lugar que tem essa interface na configuração das ações da AID. Do conceito de transferência à noção de construção (Guirado, 2010), para uma estratégia conceitual cujas descrições atentam para a subjetividade produzida no discurso e apontam para o rebote da singularidade no matriciamento institucional das relações que cada contexto dispõe, essa dimensão da interface implica pensar o contexto de enunciação como a condição da construção de sentidos. Dimensão analítica, então, porque instrumenta o exercício concreto de uma análise em AID.

Há, ainda, mais um ângulo pelo qual podemos pensar essa fronteira imposta ao discurso de Freud pela AID. Ângulo esse que dispõe as condições de tomarmos certas regiões do âmbito teórico do pensamento de Freud, por confronto e tensão, para configurar alguns disparadores descritivos pelos quais podemos operar a analítica da subjetividade facultada pela AID. Estamos pensando, aqui, a interface em sua dimensão de trânsito (Silva, 2020). Esse é o ponto de maior tensão da interface que a AID estabelece com o pensamento freudiano (Guirado, 2010), em que são explorados os acasos e as aberturas do discurso de Freud para, já afastados da psicanálise, circunscrever alguns suportes para o pensamento que funcionem como operadores de análise. Dimensão de trânsito, logo, porque demarca as condições de um movimento de “trânsito” para dentro e para fora do discurso psicanalítico.

Tintas freudianas no discurso da AID

Ao tratar dessa dimensão de trânsito da interface, estamos pensando sobre as condições de pensar a subjetividade nos termos descritivos da AID na fronteira com o pensamento de Freud. Sobre isso, é em Guirado (2010) que encontramos as discussões mais contundentes. Esse livro é referência central na área e apresenta, como uma tese de livre-docência, os principais argumentos que demonstram a possibilidade de o exercício da AID configurar uma analítica da subjetividade particular.

Se, na construção da tese de Guirado (2010), é reiterado o trabalho fronteiriço com noções como as de relação, de fato psíquico, de singularidade, de transferência (entre outras), é reiterada também a exigência epistemológica última que sustenta esse trabalho no rigor das interfaces que constituem a AID: um afastamento da metapsicologia. Mesmo assim, encontramos ali (Guirado, 2010, pp. 113-126) uma discussão do escopo metapsicológico da obra freudiana: trata-se de um preciso estudo de certos textos que, visando às aberturas do discurso desse autor e pelo recorte de pensar uma analítica da subjetividade pela AID, permite à autora travar interlocuções com temas e contextos da metapsicologia sem submeter-se a ela (Silva, 2015, 2020), justificando, por necessidades conceituais, um modo de operar com pontos de abertura da teoria freudiana para pensar algo diferente do que tal teoria originalmente permitia pensar.

Amparados em Guirado (2010), podemos descrever aqui alguns exemplos desse trabalho de elaboração conceitual, num trânsito de pensamento entre o discurso de Freud e a AID: (1) reconhecendo como a psicanálise de Freud (1900/2019, 1901/2021) institui um discurso sobre o psicológico sustentado na noção de representação, a autora nele se apoia para tomar o “psíquico” pelos jogos móveis das representações de si no discurso; (2) a autora propõe, também, reconhecer como, em Freud (1914/2010), é possível tomar o conceito de narcisismo como um modo de pensar a pulsão a partir de seu direcionamento entre o Eu e o objeto, para tomar o “psíquico” pelos movimentos de relações com o outro e pelos contextos de produção de imagens que marcam reconhecimentos de si; (3) ela levanta, ainda, a possibilidade de trabalhar com Freud (1919/2010) para, a partir de suas discussões sobre a inquietante estranheza, considerar um inconsciente como estranho, abrindo a possibilidade de pensar um inconsciente no corpo, como sensação, para além do representável; (4) mais além, Guirado parte de Freud (1925/2011) e, ao tomar o bloco mágico como uma metáfora de psiquismo, dispõe a chance de operar com a ideia de um inconsciente como superfície, como um registro em rede de marcas da história de vida de alguém.

Esses são apenas alguns exemplos, brevemente descritos, mas que foram aqui colocados para minimamente mostrar como se configura o recorte do discurso freudiano pelo qual Guirado (2010) organiza suas proposições, numa interlocução que, por confronto, lhe faculta pensar disparadores descritivos para uma analítica da subjetividade possível pela AID. Entretanto, é pertinente abordar em pormenores cada um desses exemplos, apoiados em algumas pesquisas acadêmicas (Silva, 2015, 2020, 2023) que se dirigiram diretamente aos textos freudianos destacados.

Nas aberturas do discurso de Freud

A psicanálise com a qual a AID trava interlocução e confrontos, configurando interfaces, é aquela relativa ao pensamento freudiano. Isso pois seu discurso é especialmente aberto e indeterminado (Guirado, 2010, 2015): no modo de produção de seu discurso, Freud regularmente expõe a tensão de seu acontecimento, mostrando o contexto do dizer e a instituição de uma prática de saber. Nisso, há índices de indeterminação em regiões específicas desse discurso que nos permitem pensar algo diferente daquilo que originalmente se buscava, num novo contexto de enunciação e numa outra ordem discursiva. Ainda que provido de consistência lógica interna indiscutível, o discurso freudiano mostra-se aberto ao acaso de novas produções, pelas quais podemos operar um pensamento diverso, com outras intenções, agora já no interior da AID, sem negar a especificidade daquele discurso nem submetê-lo. A AID não é psicanálise, mas pelo trabalho com as aberturas do discurso de Freud se produz a condição de produção de um âmbito conceitual em interface, de uma “psicanálise em torção”, que nomeamos de Psicanálise da AID (Silva, 2020).

Tal como indicado, exploraremos aqui quatro dessas regiões de fronteira, relativas a um trabalho possível com as noções de narcisismo, de estranho inquietante, de bloco mágico e de inconsciente como mecanismo. E o faremos apoiados nos resultados de três pesquisas (Silva, 2015, 2020, 2023) em que, amparados pelas proposições de Guirado (2010), analisamos os textos Introdução ao narcisismo (Freud, 1914/2010), O inquietante (Freud, 1919/2010), Nota sobre o “Bloco Mágico” (Freud, 1925/2011) e Sobre os sonhos (Freud, 1901/2021). Análises essas que, operadas com o método da AID, trabalhando com seus conceitos de instituição e discurso, de análise e cena enunciativa, visaram aos efeitos do modo de produção do discurso de Freud.

Psiquismo como relação: contexto, imagem, reconhecimento

Considerando as interlocuções que movem a produção do conceito de narcisismo em Freud (1914/2010), foi possível demonstrar em Silva (2015) de que modo o discurso freudiano, enquanto posiciona o narcisismo como aquilo que ratifica a sexualidade no escopo de legitimidade da enunciação do saber psicanalítico, permite pensar a noção de pulsão pelos seus movimentos de direcionamento, não pelo seu caráter endógeno ou substancial. Nesse texto de 1914, Freud trata do narcisismo a partir de descrições que atentam para a localização da libido, colocando a pulsão no discurso a partir de sua vetorização na relação entre o Eu e o objeto (Guirado, 2010), o que abre ao pensamento a possibilidade de considerar um “psíquico” nos e pelos movimentos das relações entre o Eu e o mundo.

Mais além, também foi possível reconhecer em Silva (2015) de que maneira, pela hipótese de que um investimento primário de libido no Eu facultaria sua extensão para o mundo e seus objetos, Freud (1914/2010) apresenta o narcisismo como condição e base de toda relação (Guirado, 2010). Ao propor uma implicação entre investimento no Eu e investimento no objeto, o autor até defende a preservação do narcisismo numa imagem idealizada de si (ideal do Eu), constituída nas relações historicamente vividas e censora dos movimentos do Eu. Nesses paradoxos e como efeito do modo de produção de seu discurso, Freud mostra um psiquismo que se sustenta na ideia de relação.

Aí apoiados, eis a chance de tratar do narcisismo como um modo de pensar, antes de tomá-lo como uma característica da natureza do psicológico. Um modo de pensar que, suspendendo o escopo de “interioridade” das pulsões, atenta para os seus movimentos entre o Eu e o objeto. Tudo isso para, como um suporte ao pensamento, essa torção no conceito instrumentar uma estratégia descritiva do “psíquico” sob a perspectiva da instituição de relações. Operando assim como um organizador do raciocínio já no âmbito da Psicanálise da AID, o narcisismo pode ser tomado como um disparador descritivo para uma análise da subjetividade tal como tecida pelas matrizes institucionais das relações que a produzem no discurso. Disparador descritivo de uma análise do singular em contexto, pois incita uma atenção às cenas históricas que, no modo de produção de um discurso sobre si, condicionam a produção de autoimagens e marcam reconhecimentos possíveis.

Um inconsciente como sensação: o irrepresentável no discurso

Em Silva (2023), nossas análises de Freud (1919/2010) buscaram demonstrar as condições de pensar o inconsciente como estranho (Guirado, 2010), de pensar um inconsciente em termos de sensação, no corpo e para além do sentido e da palavra, e, em termos de efeito, na relação contextual de imagens de si com o mundo.

Freud, em 1919, apresenta descrições que colocam no discurso a sensação do estranho inquietante como um efeito inconsciente. Nas bordas de suas explicações que recorrem ao conceito de repressão, o autor descreve cenas de vivências afetivas a partir das circunstâncias e das ambiguidades que as condicionam e, desse modo, delimita tais vivências numa espécie de descontexto, cujo efeito seria uma reação no corpo à ausência das condições do compreender. Isso desenha, no discurso, uma experiência afetiva que, no limite da relação entre o si e o mundo, no desencontro entre imagens de si e do mundo, se expressa como impossibilidade de reconhecimento de si e do mundo (Silva, 2023). O estranho inquietante, nisso, é mostrado como um modo de relação inconsciente com o mundo, abrindo chances de pensar um inconsciente como efeito de (des)contexto, como sensação, fora do campo das representações psíquicas (Guirado, 2010).

Nas aberturas do discurso freudiano, a inquietante estranheza não apenas é mostrada como um afeto irrepresentável, alheio ao campo do psíquico, como também implica pensar cenas de experiências marcadas pela carência do sentido. Como um sentir inominável, coloca-se em jogo um modo de relação com o mundo delimitado pela ação de um irrepresentável (Guirado, 2010), longe do sentido, em que o vivenciar está privado das condições do representar, permitindo-nos considerar um inconsciente que é acontecimento, produzido em ato no corpo. É aí que, nas descrições de Freud (1919/2010) sobre tal experiência afetiva, a condição de algum sentido é restituída como tentativa de recontextualização (Silva, 2023), numa espécie de resposta psíquica que, naquilo que circunstancia um indizível, permite a construção de novas relações de reconhecimento possível.

Nesse debate sobre o estranho inquietante, agora já distantes da psicanálise de Freud, temos então a chance de colocar o irrepresentável no discurso, introduzindo o sem-sentido como outro índice descritivo de subjetividade, quando a consideramos produzida em (des)contextos de relações instituídas. É assim que torcemos a noção de inconsciente como estranho na AID, para funcionar como um disparador descritivo que nos permite, ao considerar um trabalho possível com o campo do irrepresentável, persistir numa análise que toma o singular em contexto e o sujeito no discurso. Uma análise que opera como uma construção que organiza e contextualiza elisões de sentidos e sensações corporais. Uma análise que, atenta ao modo de produção do discurso, descreve também aquilo que não é passível de representação, tal como isso pode ser tecido na narrativa da história de relações daquele que fala, na trama de lugares, imagens e expectativas que condicionam reconhecimentos e desconhecimentos de si.

A metáfora do bloco mágico: registros da singularidade

Num texto inusitado, em que o autor explora a estrutura e o funcionamento de um brinquedo da época (o “bloco mágico”) para ilustrar o aparelho psíquico hipotetizado pela psicanálise, Freud (1925/2011) abre um curioso modo de pensar o conceito de inconsciente. Em suas descrições, implicando memória e percepção, Freud põe em cena o psíquico em termos de superfície, colocando no discurso o inconsciente como um registro em rede de marcas da memória que retroagem sobre si, cuja leitura depende da perspectiva pela qual ela é feita. Na especificidade do acaso desse modo de enunciação desse conceito, o autor dispõe a chance de, ao tomarmos a imagem do bloco mágico como uma metáfora de psiquismo, tomar o próprio inconsciente como bloco mágico (Guirado, 2010). Como argumentamos em Silva (2020), isso nos permite operar com uma ideia de inconsciente que, pela imagem de um registro de marcas sobrepostas, toma o “psíquico” pela história das marcas de nossas relações com o mundo, marcas ativamente produzidas e alteradas em cada ação do viver que, à revelia da consciência, instituem expectativas e reconhecimentos.

Na medida em que a metáfora do bloco mágico permite pensar o inconsciente como um registro em superfície de marcas que retroagem sobre si, em AID operaremos com mais uma torção, numa metáfora da metáfora, para considerar tais marcas como constituídas pelo exercício de lugares em diferentes relações e contextos, a produzir diferentes expectativas que são levadas para o exercício de outros lugares, em outros âmbitos institucionais de relações. Isso para descrever as relações tais como imaginadas, na tensão entre aquilo que as contextualiza e aquilo que, como uma rede de marcas de uma história de vida, delimita condições singulares de imaginá-las (Silva, 2020). Tomamos, assim, a singularidade como efeito de contexto, pela superfície discursiva das falas de si que circunstanciam reconhecimentos e desconhecimentos.

Nesse trabalho analítico-descritivo das relações, o inconsciente como bloco mágico ocupa um lugar de operador analítico, como uma imagem que dispara uma pesquisa das cenas históricas que contextualizam, na regularidade e no acaso do exercício de lugares instituídos, a tessitura de expectativas que acompanham o fazer de diferentes relações e que, de modo insubmisso à consciência, inscrevem um registro possível da singularidade no discurso. Nos limites de um raciocínio metafórico, reconsideraremos o inconsciente como a produção histórica da rede imaginária de um bloco mágico. Ou, como disse Guirado (2010), “o bloco mágico é o modo de produção da superfície inconsciente da vida psíquica” (p. 127). Nessas torções de interface, na mira do objeto institucional da AID e assim afastados da metapsicologia de Freud, eis outro lugar possível para o conceito de inconsciente no âmbito da Psicanálise da AID. Para funcionar, nas fronteiras que constituem esse método, como um suporte ao pensamento.

Condensação e deslocamento: gestores da produção discursiva

Demonstramos também, em Silva (2023), outra maneira de pensar o inconsciente nas interfaces conceituais da AID (Guirado, 2010), pelas aberturas do discurso de Freud (1901/2021). Ao passo que, nesse texto de 1901, o autor propõe o modo particular de produção dos sonhos apoiado em conceitos como os de condensação e de deslocamento, ele acaba por descrever uma cena analítica na qual a análise efetiva-se pelos rastros de tudo o que se produz por sua ocasião, pelos acasos das trocas implicadas no exercício das posições de analista e analisando, como o exercício de uma escuta que reconstitui trilhas da memória e prolifera a enunciação de contextos que condicionam produções de imagens de si (Silva, 2023). Desenhando um psiquismo representável (Guirado, 2010), as descrições de Freud (1901/2021) mostram uma cena de análise em que suas hipóteses, antes de funcionarem como explicações, funcionam como disparadores da produção de falas, permitindo-nos pensar um inconsciente que qualifique uma análise descritiva, condicionada pelo contexto da relação que a institui.

Na cena analítica mostrada em Freud (1901/2021), a suposição da condensação como um mecanismo inconsciente move a posição do analista, mas o faz colocando o analisando no discurso pelo que este tem a dizer de si. Enquanto, do lugar do analista, a condensação incita uma construção de relações possíveis de significação, ela engendra, do lugar do analisando, reações e respostas. Nisso, pela relação analítica, reconstitui-se no discurso em análise uma trama histórica de lembranças e afetos a partir de uma proliferação de descrições de âmbitos contextuais de reconhecimentos possíveis, instituindo outras condições de dizer. A condensação aparece, aqui, como um gestor do que se produz em análise, dispondo o inconsciente não como o que está em análise, mas como um suporte para pensar os efeitos de acaso do que se produz na superfície discursiva de uma análise (Silva, 2023).

De modo similar, também a suposição do deslocamento, na cena analítica passível de ser montada a partir de Freud (1901/2021), ocupa essa posição de propulsor descritivo de uma análise, mas na direção dos desconhecimentos que acompanham, naquilo que se mostra instituído, a produção de um discurso sobre si. Operando aí como uma construção que, da parte do analista, provoca a elaboração de conexões cujo valor não é próprio, mas repousa num acompanhamento de seus efeitos no prosseguimento das falas do analisando no contexto da análise (Silva, 2023). Novamente, é pela tensão entre os lugares de analista e analisando que se institui no discurso uma expansão de âmbitos contextuais de descrições de si que agora, a partir de espaços de desconhecimento, move uma particular produção de sentidos. Sentidos que, para além da consciência, não se configuram ocultos ou fixos, mas que se instituem no e pelo contexto da interlocução analítica. E o deslocamento, assim, passa a implicar o ato analítico numa atenção ao que, no acontecimento do discurso, produz um si.

Se, em AID, a análise delimita-se como descrição do modo de produção do discurso, considerando-se o contexto como a condição da construção de sentidos (Guirado, 2010), é aí que torcemos os termos da condensação e do deslocamento para pensá-los nas tensões conceituais da AID, posicionando-os como disparadores descritivos que orientam a produção discursiva de uma análise. Como possíveis gestores de uma escuta que mobiliza uma ação de (re)contextualização das imagens e dos sentidos de si produzido no cenário da análise, na esteira do que se produz pela relação analítica. A condensação e o deslocamento, aqui, remetem não a uma interioridade psicológica, mas à relação entre aqueles que fazem a análise, como uma ação conjunta de alargamento de contextos de descrições do si que rearranja a malha de expectativas que decorrem do exercício de diferentes relações instituídas (Silva, 2023). E, assim, esse modo de pensar o inconsciente como mecanismo pode funcionar como um suporte para uma análise que visa à produção da subjetividade no discurso e ao singular em contexto, na medida em que, subordinando a ação do analista ao lugar de enunciação do analisando, põe em cena uma história de relações a partir da construção de elos possíveis entre diversos lugares exercidos, contextos vividos e imagens sedimentadas, na lembrança e no afeto.

Sobre as construções: a cena do acontecimento do sentido

É preciso, no intuito de concluir essa breve apresentação de análises do discurso de Freud, abordar mais um termo da psicanálise freudiana que, como o conceito de transferência, sustenta o trabalho fronteiriço delimitado pela AID. Guirado (2010) reconhece no texto Construções na análise (Freud, 1937/2018) o ponto em que as descrições do psicanalista abrem a possibilidade de pensar uma análise a partir do contexto de sua produção, como condição da configuração de sentidos. Isso pela noção de construção.

Por uma análise do discurso de Freud (1937/2018), discutimos em Silva (2020) de que maneira as construções, como um fazer analítico, podem se articular à concepção de análise da AID (Guirado, 2010). Desenvolvendo um debate sobre a técnica psicanalítica nesse trabalho de 1937, Freud mostra uma cena clínica em que o dispositivo da construção situa no contexto concreto o organizador básico do que se produz em análise, e dispõe o ato analítico numa atenção aos movimentos dessa produção. As construções aparecem, nas aberturas de seu discurso, como operadores que, do lado do analista e como um “delírio”, induzem imagens pelas quais, no exercício do lugar de paciente e como condutor da ação do primeiro, abrem-se novos caminhos para o dizer e o imaginar.

Na qualidade de um disparador de falas, as construções assim operam a análise por via de uma reconstrução a dois de cenas da história de certa pessoa, em que o sentido acontece como efeito dessa mobilização em ato de imagens, expectativas e reconhecimentos assentados, de modo a instituir novas condições de produção de um discurso sobre si (Silva, 2020). É na trilha dessa narrativa conjunta do si em análise que, pelas construções, Freud (1937/2018) monta um cenário clínico subordinado às tensões entre os lugares de enunciação de paciente e analista, nos acasos do que se cria por essa relação; colocando o inconsciente, organizador teórico privilegiado da prática psicanalítica freudiana, na sombra do discurso.

Dado que, sob esse recorte, as construções funcionam como disparadores descritivos de cenas enunciativas, elas delimitam a relação analítica a partir do caráter produtivo implicado nos jogos de poder-saber que a forjam, a reboque do que - em determinado contexto institucional - é possível imaginar sobre a história de alguém, sobre lugares exercidos, sobre expectativas cruzadas. Isso, para uma análise das relações tal como imaginadas; para uma análise, enfim, da produção da subjetividade no discurso. Por essas torções, o contexto tem resguardado o seu lugar de ponto de estofo da legitimidade do que se constrói em análise e da produção de sentidos (Guirado, 2010), na mesma medida em que temos preservado um trabalho que visa à singularidade mostrada no discurso.

Em cena, pois, temos as condições de a noção de construção, em tensões de fronteira e já fora da psicanálise, funcionar no âmbito da AID (Silva, 2020). E, lado a lado da transferência, com o suporte descritivo do narcisismo e do estranho, do bloco mágico e do inconsciente como mecanismo, as construções figuram assim como um operador de análise que - subordinado aos conceitos de instituição, de discurso-ato e de sujeito-dobradiça - demarca o lugar e o alcance da Psicanálise da AID nas análises que empreendemos a partir dessa estratégia de pensamento.

Consequências dos recortes

Acima, apresentamos uma discussão sobre como se configura o escopo conceitual do método da Análise Institucional do Discurso produzido em interlocuções e interfaces no âmbito do pensamento freudiano, traçando um particular caminho na história de produção do discurso de Guirado, seguindo um percurso específico de análises do discurso de Freud, delimitando os pontos básicos que sustentam as torções conceituais com que operamos essa estratégia de pensamento. No limite dos acasos de nosso discurso, um debate possível sobre a Psicanálise da AID.

É imprescindível ressaltar, como condição de encerramento, que a escrita deste artigo implicou trabalhar a partir de extensos recortes para a construção de um argumento coeso que - ainda que de modo denso e abreviado - pudesse pôr em cena o que de mais importante produzimos em uma trajetória de dez anos de pesquisas (Silva, 2015, 2020, 2023), do mestrado ao pós-doutorado. Uma trajetória que, de partida, constituiu-se a partir de recortes em 30 anos da produção discursiva de Guirado (1986/2004, 1987/2004, 1995/2018, 2000, 2010, 2015). Uma trajetória que, em si, é um recorte no campo, dado que ela se insere num contexto histórico de ampliação de pesquisas sobre análises institucionais do discurso de Freud (L. Guirado, 2012; Martins-Afonso, 2012, 2015; Moriyama, 2019; Viaro, 2016). Uma trajetória que, embora tenha culminado numa discussão sobre o lugar da Psicanálise da AID no exercício clínico concreto (Silva, 2023), nestas páginas precisou ser recortada em benefício de uma discussão conceitual-epistemológica.

Nos efeitos desses recortes, o que dispomos aqui não visou tanto convencer quanto mostrar essa possibilidade de pensar, afirmando seu rigor, apostando em sua força analítica e pertinência histórica. Mais do que uma apresentação fechada de resultados, nossas palavras acima configuram um convite. Palavras cuja autoria compartilhamos integralmente com M. Guirado.

Declaração de disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Referências

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  • Freud, S. (2010). Observações sobre o amor de transferência. In Freud (1911-1913) - Obras completas volume 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreiber”), artigos sobre técnica e outros textos (P. C. Souza, Trad., pp. 210-228). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Publicado originalmente em 1915)
  • Freud, S. (2010). O inquietante. In Freud (1917-1920) - Obras completas volume 14: História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (P. C. Souza, Trad., pp. 328-376). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Publicado originalmente em 1919)
  • Freud, S. (2011). Nota sobre o “Bloco Mágico”. In Freud (1923-1925) - Obras completas volume 16: O Eu e o Id, “Autobiografia” e outros textos (P. C. Souza, Trad., pp. 267-274). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Publicado originalmente em 1925)
  • Freud, S. (2018). Construções na análise. In Freud (1937-1939) - Obras completas volume 19: Moisés e o monoteísmo, Compêndio de psicanálise e outros textos (P. C. Souza, Trad., pp. 327-344). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Publicado originalmente em 1937)
  • Freud, S. (2019). Freud (1900) - Obras completas volume 4: A interpretação dos sonhos (P. C. Souza, Trad.). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Publicado originalmente em 1900)
  • Freud, S. (2021). Sobre os sonhos. In Freud (1901) - Obras completas volume 5: Psicopatologia da vida cotidiana e Sobre os sonhos (P. C. Souza, Trad., pp. 377-445). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Publicado originalmente em 1901)
  • Guirado, L. (2012). As verdades sobre a loucura. In M. Guirado, F. Martins-Afonso, & L. Guirado. Loucura e Neurose em Freud: a cena originária da clínica psicanalítica em análise (pp. 151-199). Curitiba, PR: Appris.
  • Guirado, M. (2000). A clínica psicanalítica na sombra do discurso: diálogos com aulas de Dominique Maingueneau São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.
  • Guirado, M. (2004). Instituições e Relações Afetivas: o vínculo com o abandono (ed. rev. e ampl.). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo. (Publicado originalmente em 1986)
  • Guirado, M. (2004). Psicologia Institucional (2a ed. rev. e ampl.). São Paulo, SP: E.P.U. (Publicado originalmente em 1987)
  • Guirado, M. (2010). A Análise Institucional do Discurso como analítica da subjetividade São Paulo, SP: Annablume.
  • Guirado, M. (2015). Clínica e Transferência na sombra do discurso: uma analítica da subjetividade. Psicologia USP, 26(1), 108-117. doi: 10.1590/0103-656420140022
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  • Guirado, M. (2018). Análise do discurso e psicanálise: matrizes institucionais do sujeito psíquico (3a ed. rev. e ampl.). Curitiba, PR: Appris. (Publicado originalmente em 1995)
  • Maingueneau, D. (1989). Novas Tendências em Análise do Discurso Campinas, SP: Pontes Ed.
  • Martins-Afonso, F. (2012). Clínica e Discurso: uma análise do texto O Homem dos Lobos, de Freud. In M. Guirado, F. Martins-Afonso, & L. Guirado. Loucura e Neurose em Freud: a cena originária da clínica psicanalítica em análise (pp. 43-150). Curitiba, PR: Appris.
  • Martins-Afonso, F. (2015). Do inconsciente da metapsicologia ao dispositivo clínico: uma análise institucional do discurso de Freud Saarbrücken: Novas Edições Acadêmicas.
  • Moriyama, Y. F. (2019). A produção do conceito de pulsão de morte: uma análise institucional do discurso (Dissertação de Mestrado). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2019.
  • Silva, L. B. M. (2015). A produção do conceito de narcisismo em Freud: uma análise institucional do discurso Saarbrücken: Novas Edições Acadêmicas.
  • Silva, L. B. M. (2020). Sobre a Psicanálise da Análise Institucional do Discurso São Paulo, SP: Benjamin Editorial.
  • Silva, L. B. M. (2023). O inconsciente na sombra do discurso: uma análise institucional do discurso de Freud São Paulo, SP: Benjamin Editorial.
  • Viaro, R. V. (2016). O “si” da técnica psicanalítica: uma análise institucional do discurso de O mal-estar na civilização (Tese de Doutorado). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2016.
  • 1
    Trata-se de nossas pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, desenvolvidas no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), entres os anos de 2012 e 2022. Todas elas foram publicadas como livros, e são estas as referências que utilizamos acima.
  • 2
    A interface com a sociologia de Albuquerque e com o pensamento de Foucault se encerra na aproximação da AID com a psicanálise, na medida em que nos apoiamos na noção freudiana de fato psíquico para considerar singularidades históricas. Mas não estamos mais tratando a ideia de singularidade tal como se faz em psicanálise, pois o termo “psíquico” foi torcido para ser subordinado ao matriciamento institucional da subjetividade.

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Isabel Cristina Gomes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Mar 2022
  • Aceito
    11 Mar 2026
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