Resumo
O presente artigo é parte dos resultados de uma pesquisa de dissertação de mestrado, que teve como objetivo compreender a experiência da homoparentalidade feminina em um bairro de periferia de uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre/RS, a partir da perspectiva de uma família. Neste artigo, discutiremos aspectos relacionados a gênero, classe social e sexualidade, iluminando os muros que separam diferentes realidades sociais. Os participantes da pesquisa são uma família homoparental, composta por um casal de duas mulheres e seu filho. O método, de caráter qualitativo, foi conduzido por meio de escutas ativas, tendo como inspiração a etnografia e a psicanálise. Os resultados destacam as relações entre classe social, a homossexualidade feminina e o lugar social ocupado pelas mulheres. Podemos concluir que a família enfrenta amarras sutis no seu contexto de vida, cercado por altos muros simbólicos, apesar da frágil fronteira entre as casas na periferia.
Palavras-chave:
homoparentalidade feminina; classe social; periferia; mulheres; psicanálise.
Abstract
This article is part of the results obtained in a master's dissertation research. It aimed to understand how the experience of female homoparenthood occurs in a suburban neighborhood of a city in the metropolitan region of Porto Alegre/RS, from the perspective of a family. In this article, we will discuss aspects related to gender, class and sexuality, shedding light on the walls that separate different social realities. The research participants are a homoparental family, made up of a couple of two women and their child. The qualitative method was conducted through active listening, inspired by ethnography and psychoanalysis. The results highlight the relationships between social class, female homosexuality and the social place occupied by women. We can conclude that the family faces subtle constraints in its life context, surrounded by high symbolic walls, despite the fragile border between the houses on the outskirts.
Keywords:
: female homoparenthood; social class; periphery; women; psychoanalysis.
Resumen
Este artículo forma parte de los resultados de una investigación de tesis de maestría, cuyo objetivo fue comprender la experiencia de la homoparentalidad femenina en una periferia de una ciudad de la región metropolitana de Porto Alegre/RS, desde la perspectiva de una familia. En este artículo discutiremos aspectos relacionados con género, la clase social y sexualidad, iluminando los muros que separan diferentes realidades sociales. Las participantes de la investigación son una familia homoparental, compuesta por una pareja de dos mujeres y su hijo. El método cualitativo, se llevó a cabo mediante escuchas activas, tornando como inspiración la etnografía y el psicoanálisis. Los resultados resaltan las relaciones entre la clase social, homosexualidad femenina y lugar social ocupado por las mujeres. Podemos concluir que la familia enfrenta sutiles restricciones en su contexto de vida, rodeada de altos muros simbólicos, a pesar de la frágil frontera entre las casas de la periferia.
Palabras clave:
: homoparentalidad femenina; clase social; periferia; mujeres; psicoanálisis.
1. Introdução
Ao longo da história se estabeleceram estruturas sociais que excluíram a homossexualidade e silenciaram as mulheres. Como um movimento de resistência, surgiu o feminismo, no sentido de lutar pelos direitos femininos e igualdade entre os gêneros. Tal movimento social tensiona a normatização e passa a ser entendido como uma ameaça à heterossexualidade masculina, como se fosse uma forma de interdição da mulher à masculinidade, supondo que as mulheres estariam roubando um poder que não é seu (Palma, & Levandowski, 2008).
Simone de Beauvoir (2016) menciona que há um incômodo sentido pelos homens quando percebem atitudes ativas e historicamente associadas à masculinidade em mulheres, como se fosse uma espécie de recusa à ideia de feminilidade. A autora sublinha que assumir uma posição entendida socialmente como feminina não lhes é natural, pois ser submissa, sensível, delicada é um produto fabricado socialmente, para que o homem possa desempenhar seu papel ativo. Nesse sentido, cabe mencionar que o lugar social das mulheres na sociedade foi se desdobrando após a escrita-intervenção de Beauvoir. Um exemplo disso é o surgimento do conceito de interseccionalidade. Nogueira (2017) afirma que a identidade é interseccional, composta por aspectos políticos que atravessam gênero, raça, classe social, sexualidade, religião, entre muitas outras.
Collins e Bilge (2021) destacam a importância do conceito de interseccionalidade para uma análise que possibilita melhor compreensão das desigualdades e suas complexidades, por discutir as diversas formas de opressão que se sobrepõem sobre as mulheres. Entre elas está a classe social, que coloca a mulher em uma posição de inferioridade ou superioridade, dependendo do contexto econômico e social. A homossexualidade também é um aspecto que limita suas experiências de gênero, pelo não enquadramento aos padrões heteronormativos. Isso tem efeitos nas possibilidades de exercício da homoparentalidade. O termo homoparentalidade é utilizado para denominar a parentalidade de um adulto que se designa homossexual. Abrange vínculos parentais entre homossexuais, transexuais ou travestis e seus filhos (Zambrano et al., 2006).
Apesar de a Constituição Federal, por meio do artigo 3º, inciso IV, assegurar que candidatos à adoção não encontrem empecilhos por conta de sua orientação sexual, na prática ainda é possível identificar estigmas e preconceitos com relação às famílias homoparentais. Isso se deve a um retorno nostálgico à ideia de família tradicional, pela busca de uma suposta segurança e felicidade em conhecidas instituições (Vilhena et al., 2011).
Segundo Ribeiro (2018), a família homoparental é a que mais desafia o modelo hegemônico heteronormativo, reforçado pelo discurso religioso. Em tal discurso, a ideia predominante é a de que a homossexualidade não é natural e, portanto, é errado perante Deus. A ideia do “sagrado” é sustentada pela “ordem natural” das relações entre os sexos, o que acaba condenando as famílias que se diferenciam da norma. Isso, por sua vez, contribui para a manutenção do rechaço da homoparentalidade (Ceccarelli, 2007). Assim, produzem-se preconceitos que geram impactos nas subjetividades e que atravessam a construção de saberes jurídicos, psicológicos e antropológicos, exigindo um constante questionamento crítico dos pesquisadores interessados em estudar esse tema (Passos, 2005).
Assim como Irigaray (2017) propõe uma escrita feminina sobre o feminino, para que o feminino não seja um produto do discurso masculino, estudar famílias requer flexibilidade para assegurar que o estudo dos laços familiares não seja prejudicado por posições preconcebidas e/ ou preconceituosas (Ceccarelli, 2007; Passos, 2005; Zambrano et al., 2006). Nessa perspectiva, é importante supor que a família homoparental parece permanecer em um lugar periférico no campo das pesquisas. Entre os estudos brasileiros, a homoparentalidade tem ganhado terreno como tema de estudo somente nos últimos anos. Em pesquisa realizada em novembro de 2020 (e replicada em 2025 nos sites Google Acadêmico e Scielo, por meio dos descritores Homoparentalidade Feminina Periferia), encontrou-se apenas uma pesquisa, intitulada: “Uma família de mulheres”: Ensaio etnográfico sobre homoparentalidade na periferia de São Paulo (Medeiros, 2006), cuja discussão articulou a homoparentalidade feminina e o contexto de periferia, aproximando-se, assim, do presente estudo. Medeiros abordou a relação entre duas mulheres, trazendo reflexões sobre os enlaces familiares que vivenciaram e a experiência delas na homossexualidade, considerando o envolvimento de ambas com a militância feminista do seu bairro.
A presente pesquisa é um recorte de uma dissertação de mestrado. A dissertação teve como objetivo compreender a experiência da homoparentalidade feminina em um bairro de periferia de uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre/RS, a partir da perspectiva de uma família. No presente artigo, discutiremos aspectos relacionados a gênero, classe e sexualidade, evidenciando os muros que separam diferentes realidades sociais.
2. Caminho Metodológico
A pesquisa utilizou como caminho investigativo um método qualitativo, que teve inspiração no método psicanalítico e na etnografia. A família que participou do estudo é composta por duas mães (uma de trinta e outra de trinta e um anos) e seu único filho (no momento da pesquisa, tinha cinco anos). Chamaremos as mães de Antônia e Camila e o filho de Pedro, nomes fictícios, a fim de preservar suas identidades. Eles são moradores de um bairro de periferia de um município da região metropolitana de Porto Alegre/RS. Antônia e Camila trabalham em casa, em um trabalho terceirizado para uma fábrica de calçados. Foram contatadas por meio de um Programa de Extensão Universitária, do qual fizeram parte, cujo objetivo é realizar o acompanhamento do primeiro ano de vida dos bebês do bairro, auxiliando as famílias com serviços prestados pelos cursos de Psicologia, Nutrição e Enfermagem. O Programa se justifica por conta da vulnerabilidade social e do alto índice de gravidez.
Em parceria com o Programa de Extensão, era realizada uma pesquisa que acompanhava algumas famílias, por meio de observações semanais, ao longo do primeiro ano de vida dos bebês. A primeira autora do presente artigo participou desta pesquisa acompanhando a família de Antônia, Camila e Pedro, entre os anos de 2017 e 2018. Já a presente pesquisa, ocorreu ao longo de três meses de 2022, por meio de sete encontros na residência da família. Cada encontro tinha duração de uma média de uma hora e trinta minutos. É importante mencionar que as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Nesses encontros foram realizadas escutas, no intuito de conhecer a família, sua história e sua rotina. Durante os encontros, Pedro normalmente estava presente, em alguns momentos se aproximava durante a conversa, porém não participava, frequentemente brincava de forma tranquila enquanto a conversa ocorria com Camila e Antônia.
As escutas foram ativas, propostas pela pesquisadora, na relação com as participantes, mas sempre procuraram respeitar o princípio da atenção flutuante. Os encontros foram pautados pela dinâmica transferencial que foi se armando ao longo das visitas. O método foi pensado de forma que pudesse acolher a abertura necessária para desdobrar o estudo ao longo da caminhada, assentada na premissa da relação entre a pesquisadora, primeira autora deste artigo, e as participantes.
A pesquisa psicanalítica acompanha os caminhos da experiência psicanalítica, seguindo seus eixos norteadores também quando distanciada do setting analítico (Coelho, & Santos, 2012). Na pesquisa psicanalítica, a transferência entre o pesquisador e o participante é prioridade, de modo que cada dado deve ser analisado de forma singular e única. O pesquisador, na situação psicanalítica de pesquisa, está numa posição de ser surpreendido pelas descobertas ao atuar com as impossibilidades de previsão do inconsciente (Wecker et al., 2020).
Assim como na clínica, a pesquisa psicanalítica apresenta praticamente uma escassez de procedimentos previamente estruturados, sendo rigorosamente sustentada em pilares como a associação livre (fala) e a atenção flutuante (escuta), ambas reguladas pela transferência. Nessa perspectiva, a atenção flutuante é adotada pela pesquisadora, embora ela tenha feito pequenas interferências, uma vez que a escuta tinha um caráter mais ativo. Já a associação livre era estimulada pelo fato de as perguntas serem mais abertas e produzirem espaços para que o discurso das participantes se organizasse de uma forma livre e singular. A transferência, tanto na clínica como na pesquisa, funciona como um laço que dá sustentação ao fluxo do discurso. A diferença dos dois contextos é: na clínica, a transferência é dissolvida; e, na pesquisa, é instrumentalizada, transformando-se em uma produção de texto metapsicológico (Caon, 1994).
A inspiração etnográfica ocorreu pela composição de procedimentos de coletas de dados da etnografia relacionados à pesquisa de campo, por meio da convivência do pesquisador com o grupo social estudado. A proposta etnográfica busca a produção de dados por intermédio de uma inter-relação entre pesquisador(a) e pesquisados(as) por meio da interação no contexto. Assim, ao pesquisador, é imposto o deslocamento de sua cultura para o centro do fenômeno a ser estudado (Rocha, & Eckert, 2008).
Os encontros foram relatados pela primeira autora logo após as visitas, em um diário de relato de experiência, uma ferramenta de registro narrado de forma livre acerca dos sentimentos e impressões despertados. Levando em consideração a associação livre, a atenção flutuante e a transferência, os diários de experiência relembram os diários de campo, os relatos de Benjamin (1991) em suas narrações sobre a cidade e os diários escritos por Freud no final de sua vida (Pires, & Gurski, 2020).
Os diários de experiência possuem uma escrita que é norteada pela associação livre, podendo causar um estranhamento a quem lê, por parecerem um relato inacabado, fragmentado, mas proporcionam potente momento de reflexão para o pesquisador, mostrando-se para além de um simples registro (Gurski, & Strzykalski, 2018). Por fim, os diários de experiência foram objeto de leitura, balizada pela transferência instrumentalizada, no sentido de transformar o dado em um ensaio metapsicológico (Iribarry, 2003). Sendo assim, a partir da leitura dos diários de experiência, foi elaborado um texto, de caráter ensaístico, buscando dar voz aos aspectos da homossexualidade, da homoparentalidade e da vida na periferia.
3. Ensaio sobre a Experiência da Homossexualidade Feminina
O presente ensaio será apresentado por meio da articulação e excertos dos diários de experiência e de discussões realizadas entre pesquisadora e orientadora (primeira e segunda autora) articuladas com a teoria. A discussão dos resultados foi dividida em dois eixos: 1) Conheço o meu lugar (?), no qual serão apresentados aspectos acerca da invisibilidade da homoparentalidade feminina e da periferia; e 2) Muros e barreiras, em que serão trazidas experiências da família participante no seu contexto social.
3.1 Conheço o meu Lugar (?)
“Conheço o meu lugar” é uma expressão empreendida nesta seção, sendo inspirada na música de Belchior (1999), no sentido de a afirmação carregar o paradoxo de se conhecer o seu lugar e ao mesmo tempo negar a existência de um sertão. O sertão, na música de Belchior, remete, aqui, à periferia, também esquecida, negada e silenciada.
Do Centro de uma cidade à periferia, não existem apenas alguns minutos de carro, há um limite difícil de ser atravessado. Da mesma maneira, da homossexualidade à homoparentalidade, não há somente a existência ou não de filhas(os), mas há a concretização de uma forma de existência que não pode ser ignorada. Há uma força social que se encarrega de sustentar esse afastamento com a finalidade de invisibilizar o que determinado grupo social não suporta enxergar.
Vamos começar pensando no limite físico. Leva-se cerca de doze minutos de carro do Centro da cidade até o bairro no qual a pesquisa foi realizada, são aproximadamente seis quilômetros. Trata-se de uma pequena distância física, mas de uma fronteira difícil de ser cruzada. O bairro fica apartado do resto da cidade por uma rodovia estadual, uma estrada bastante movimentada - que liga a região metropolitana à serra gaúcha, ponto turístico do estado - local de grandes e graves acidentes pela falta de passarelas e viadutos. Além disso, a escassez de ônibus se intensificou com a pandemia, fazendo das idas ao Centro um transtorno para os moradores, que foram encontrando formas de evitar o deslocamento do bairro o máximo possível, abrindo comércios dos mais variados tipos, muitas vezes em suas próprias casas. Antônia relata sentimento de insegurança e medo ao ir ao Centro da cidade, a pesquisadora sentiu algo parecido, um certo estranhamento em suas idas ao bairro.
O afastamento do bairro, cujas bordas são demarcadas pela rodovia estadual, está na sua história desde o início. Antônia conta que há mais de trinta anos seus pais mudaram-se para esta cidade em busca de boas oportunidades de emprego. Na época, as indústrias de calçados prosperavam na região e se concentravam ao redor da rodovia. Reproduzindo a história contada pelos pais, no quinto encontro Antônia relata que os primeiros moradores do bairro chegaram nessa época e construíram suas casas às margens da estrada, em uma área invadida, seus pais estavam entre eles. Posteriormente, foram distanciando-se da estrada e tomando a área que hoje pertence ao bairro.
Podemos ampliar a lógica desses limites e transitar por outros muros, pensando a homossexualidade numa perspectiva simbólica dessas fronteiras. A homossexualidade nem sempre é acolhida pelo social. Portanto, é como se houvesse a necessidade de um trabalho de conquista de um lugar social. É somente “num tempo depois” que a homossexualidade pode ser reconhecida, mas “este depois” ainda não é um lugar de garantias, o que ocorre pela sociedade parecer suportar a homossexualidade, mas desde que de forma sutil, mantendo-se próxima aos padrões heteronormativos.
A comunidade LGBTQIAPN+, até os dias atuais, sofre com a dura realidade de violências e preconceitos que reforçam a ideia da homossexualidade como um desvio, portanto desaprovada socialmente. A história da homossexualidade reconhecida fora do campo do transtorno, no Brasil, é recente. Em 1985 o Conselho Federal de Medicina passou a deixar de tratá-la como “transtorno sexual” (Araújo, & Oliveira, 2008). Somente em 1999 o Conselho Federal de Psicologia considerou que a homossexualidade não era uma doença e proibiu tratamentos psicológicos que visassem a sua “cura” (Conselho Federal de Psicologia, 1999).
Podemos pensar a homossexualidade também como um lugar que, assim como a periferia, é rechaçado, pois está na ordem do que é difícil de enxergar e conviver. Essa lógica se intensifica e se complexifica quando falamos sobre homoparentalidade. Nessa perspectiva, a homoparentalidade é uma parentalidade marginalizada, envolta por julgamentos de quem vive longe de tal realidade, assim como ocorre com a periferia, estigmatizada pela associação entre pobreza e violência. As duas, homoparentalidade e periferia, precisam atravessar fronteiras difíceis para poder circular por outros espaços. E, aqui, quando falamos de ambas, estamos falando de pessoas que acabam por ficar marginalizadas devido ao sentimento de não pertencimento, aprisionadas entre os altos muros construídos pelos estigmas e preconceitos, que, como Goffman (2004) propõe, são construídos socialmente.
Pais e mães homossexuais enfrentam dificuldades que não surgem para heterossexuais, como o questionamento social acerca de sua capacidade em função da sexualidade. O bairro onde a presente pesquisa foi realizada originou-se de invasões, tendo assim seus lotes pequenos, aproximando as casas dos moradores, que desse modo têm suas fronteiras por vezes demarcadas com certa dificuldade, diferentemente das demarcações em bairros de classe média e alta, onde os lotes são bordejados por altos muros e grades. O pouco distanciamento entre as casas foi frequentemente trazido pelas participantes da pesquisa como causa de desconforto, conforme relatos preocupados com o que os vizinhos pensariam delas e da criação que estariam dando ao seu filho.
Blankenheim (2017), em estudo realizado com professoras, buscou compreender o que as educadoras pensam sobre adoção por casais homossexuais. As participantes revelaram considerar importante uma figura masculina e uma feminina para o desenvolvimento da criança. O estudo evidencia a patologização mediante a ideia da necessidade de auxílio psicológico às famílias homoparentais que passariam pelo processo de adoção. Esse argumento fortalece o discurso da religião referente à não aceitação da família homoparental. Percebeu-se que os discursos das professoras foram atravessados por uma ideia de aceitação da diversidade sexual, mas o mesmo não ocorreu com a homoparentalidade.
Esses são importantes paradoxos que também foram experimentados na presente pesquisa. Em muitos momentos, a pesquisadora sentiu-se uma intrusa ao abordar o tema, mesmo que o tenha feito de forma sutil e respeitosa. Esse sentimento também ocorria enquanto andava pelo bairro, onde por vezes era observada pelos moradores, quando igualmente se sentia da mesma forma. Nesse sentido, é importante refletir sobre a importância do papel da pesquisadora, que inevitavelmente articula os campos da pesquisa, do social e do político. A posição do pesquisador, nessa perspectiva, está longe de ser neutra. Ela torna-se mais relevante por carregar reflexões acerca das suas posições e interpretações, revelando, portanto, as concepções que norteiam a análise de sua pesquisa (Borges, 2014).
O sentimento de intrusão foi inesperado para a pesquisadora, que sempre transitou sem muita dificuldade pelos lugares que fosse sempre acompanhada pelo desejo de saber como as pessoas vivem em realidades e condições tão diferentes. Ao longo das idas ao bairro e antes mesmo de iniciá-la, havia o desejo da pesquisadora de tirar a sexualidade do clandestino. Porém, ela mesma foi surpreendida ao deparar-se com o desconforto, fruto de um de não ocupar uma posição de espécie de porta-voz do social, que representasse para Antônia e Camila o desconforto de ter sua privacidade invadida, assim como ocorre no bairro pela fragilidade de limites entre as casas.
O desejo de realizar esse trabalho anda muito próximo da importância social de fazer circular os discursos acerca da família homoparental. Nesse sentido, discutimos ainda uma outra especificidade: a periferia. Pensar a família homoparental feminina em um bairro periférico associa três pontos importantes: a configuração familiar em questão, a mulher homossexual e a periferia. O desejo era escutar acerca dessa posição, no entanto as participantes apresentaram certa dificuldade ao falar sobre o assunto, demonstrando sinais de resistência. Devido ao fato de a pesquisa estar ancorada na transferência, a pesquisadora sentiu-se também com dificuldade de questionar acerca do que a família parecia não conseguir ou querer falar, o que foi respeitado. Sabia-se que esta pesquisa seria muito sensível, pois tratava-se de algo que não havia sido dito ao longo de toda a primeira pesquisa, que teve duração um ano, com visitas semanais à família. Porém, apesar das dificuldades encontradas ao adentrar alguns assuntos, foi possível estabelecer diálogo e, ao final, a família conseguiu falar o que lhes foi possível.
3.2 Muros e Barreiras
A primeira visita ocorreu às 8h30 da manhã de um sábado, ainda não tinha sol no bairro, que fica ao pé de um morro. O local encontrado era diferente do recordado, estava mais cinza do que na memória ensolarada. O sentimento de solidão atravessou a pesquisadora assim que saiu do carro e se viu sozinha no meio da rua, precisando seguir e fazer a pesquisa solitariamente. Ao longo do percurso, passou por homens que pareciam estar bêbados, sentiu-se insegura por ser uma mulher sozinha naquele contexto. Tal sentimento se intensificou todas as vezes que sentiu o olhar de homens que por ela passaram na rua. A solidão também surgiu todas as vezes que chegou em frente à casa da família e quando precisou adentrar em alguns temas para saber informações importantes para o trabalho.
Sentiu-se uma forasteira, alguém estranha para aquela comunidade. A palavra “forasteira” remete a estar “fora” de algo. Já “esteiro” significa braço ou estuário de um rio. Podemos pensar no bairro como um esteiro da cidade, um braço que pertence, mas corre longe, por outro caminho. Forasteiro como alguém que está fora do esteiro. Assim como o bairro, a periferia, de certa forma, está fora da cidade. Assim como uma forasteira, a pesquisadora estava se sentindo fora da cidade por ela conhecida.
No sexto encontro, Camila disse não entender como tem gente que não queria sair do bairro em busca de melhores condições de vida e acesso a oportunidades. Comentou que se sentia diferente das pessoas da comunidade, pois estudava há anos para melhorar de vida. Queria proporcionar mais oportunidades para seu filho, por isso pensava em retornar a sua cidade natal. Nessa ocasião, Antônia mostrou-se resistente. De certa forma, assim como a pesquisadora, Camila também era uma forasteira, diferente de Antônia, que cresceu no bairro, o que pareceu causar um desconforto ao falar sobre futuro.
A proximidade das casas parece aproximar as famílias. As ruas são ocupadas pelas crianças para jogar futebol, as calçadas parecem extensão das casas. Ali os moradores se encontram, tomam chimarrão, lancham. Também no sexto encontro, Antônia contou que foi conhecer a cidade onde a família de Camila mora e ficou incomodada com os muros altos e a falta de contato com os vizinhos. Parece que a estrutura do bairro tira a sua privacidade ao mesmo tempo que lhe dá sensação de acolhimento. Antônia relatou diversas vezes se sentir incomodada e, até mesmo, com medo fora do bairro.
No entanto, em alguns momentos, demonstram preocupações com a opinião dos vizinhos acerca da criação do filho. Elas trazem relatos em que são questionadas por seu filho ser calmo, gostar de brincar sentado e pela sua preferência por ciências. Fica evidente que há um estranhamento de outros pais que vivem no bairro e com quem elas convivem. Trata-se de um apontamento que parece distanciar o filho delas daquilo que eles rigidamente concebem sobre as brincadeiras ideais para um menino.
No sexto encontro, Camila lançou críticas ao ideal de maternidade que circula no bairro, referindo que muitas vezes as gestações ocorriam precocemente, entre meninas, ainda adolescentes, que engravidavam sem causar estranhamentos na comunidade. Camila e Antônia sempre foram muito atentas a Pedro. Buscando informações sobre o desenvolvimento de uma criança, sobre o que seria melhor em cada fase, prepararam sua casa quando Pedro começou a caminhar, por exemplo. No entanto, Camila e Antônia demonstravam receios quanto a um possível julgamento dos vizinhos. Mencionaram que, quando Pedro chorava, elas temiam que algum vizinho poderia acionar o Conselho Tutelar.
Nesse encontro, Camila também fez crítica a quem casa para poder sair de casa, referindo que a mulher deixa de pertencer aos pais para pertencer ao marido, o que para ela era muito pior. Ao encontro disso, temos os escritos de Beauvoir (2016), que refere que, para o homem, o semelhante e o outro é sempre outro homem, com quem estabelece relações recíprocas e, ao mesmo tempo, dualidades. Assim, as mulheres são entendidas como bens que os homens possuem e os quais chegaram a disputar ou usar como objeto de troca, no lugar da propriedade. A elas não deviam respeito, mas sim ao homem ao qual elas pertenciam, seja pai ou marido.
Ainda no sexto encontro, Antônia concordou com o que Camila mencionou, mas afirmou que às vezes casar era a única forma que as meninas encontravam de se libertar. A partir desse assunto, Antônia começou a contar parte da sua história. Mencionou que precisou casar-se para sair de casa, pois sua mãe era muito rígida e religiosa e só a deixava ir à igreja. Depois de um tempo, conseguiu se separar do seu ex-marido, mas precisou desse casamento para poder se separar de sua família. Imaginamos a dificuldade da situação de Antônia, que parecia ter se casado para conseguir a aprovação de sua mãe para sair de casa, imaginamos que deve ter escolhido um homem que frequentava a mesma igreja, pois sua mãe só aceitava as pessoas que iam lá. Desta forma, evidenciamos os fortes atravessamentos da religião no bairro e na família de Antônia.
Neste mesmo encontro, ao relatar o incômodo que sentiam com a falta de planejamento de seus vizinhos e vizinhas ao terem filhas(os), contaram sua história, mencionando seu intenso planejamento para a gestação, pois seu filho foi gerado por inseminação artificial. Antônia passou por dois processos de inseminação, já que o primeiro não deu certo, tiveram uma grande organização e preparação, devido à intensidade do processo, com a necessidade de realização de diversos exames e a ingestão de medicamentos. Essa conversa aconteceu na penúltima visita, sendo a primeira vez que contaram essa parte importante da história delas e de Pedro.
Quem trouxe o assunto foi Camila, que falou com muita naturalidade acerca da inseminação artificial. Relacionamos essa naturalidade com o lugar de onde vem, pois, além de ter crescido em um grande centro urbano, relatou que sua família sempre foi muito aberta e tratava meninos e meninas sem fazer diferença, o que diferia da realidade de Antônia. Camila contou também que, antes de optarem pela inseminação, uma vizinha lhes ofereceu a possibilidade de adotar o filho de sua sobrinha, pois a mãe já tinha outros filhos e não teria condições de criá-lo, porém Camila e Antônia pensaram que seria complicado adotar uma criança com relação tão próxima a alguém do bairro, pois a família poderia mudar de ideia no futuro. Além disso, Antônia tinha um grande desejo de gestar, então decidiram tentar a inseminação, que foi possível ser realizada por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Antônia, em conversa no sexto encontro, conta que sua mãe sempre foi muito exigente e se preocupava muito com o que as pessoas pensavam. Os pais de Antônia retornaram a sua cidade natal há aproximadamente dez anos, desde então Antônia e Camila moram na casa que era deles. Enquanto ainda morava no bairro, sua mãe era bastante religiosa e frequentava sistematicamente a igreja católica, participando inclusive de atividades, como aula de catequese. Antônia contou que na sua adolescência só era permitido que saísse com jovens da igreja que, como ela, participassem do grupo de jovens. Por isso, encontrou no casamento a possibilidade de sair de casa. Na última visita que a pesquisadora fez à família, ao ser questionada sobre a relação com sua mãe, Antônia relatou que, quando contou que não gostava de homens, mas sim de mulheres, sua mãe lhe disse para ir conversar com o padre. Então, Antônia foi até a igreja que a mãe frequentava e contou sobre sua sexualidade ao padre, que lhe acolheu e pediu para conversar com seus pais. Antônia relatou que após essa conversa algo mudou, pois seus pais mostraram-se também acolhedores quanto a sua sexualidade. É importante também mencionar que a mãe de Antônia tem uma relação muito boa com Camila.
Em sua sétima ida ao bairro, quando a pesquisadora estava andando pelas ruas, foi abordada por uma senhora que perguntou se poderia lhe falar sobre a palavra de Cristo, pedido que não foi aceito, mas proporcionou o pensamento de como seria para Camila e Antônia a convivência com a fé presente de forma que ocorram doutrinações em meio à calçada. Aquele grupo de pessoas estava no mesmo local todos os sábados, concentrados em uma barraca com letreiro de uma igreja evangélica.
Foram muitas as diferenças percebidas entre Camila e Antônia. As duas participantes cresceram em ambientes e culturas muito diferentes. Além das diferenças familiares já citadas, Camila vem de um grande centro urbano, onde circulava com facilidade de seu bairro ao Centro da cidade, assim como propôs-se a mudar de estado em busca de melhores oportunidades de trabalho. Enquanto Antônia vem de uma cidade na região metropolitana de Porto Alegre, cresceu em seu bairro, local onde estudou e trabalhou, seguiu morando na casa que era de seus pais e ainda encontra dificuldades de circular por outros espaços de sua cidade que atravessem as fronteiras do bairro.
Ao longo de sua vida, Camila parece já ter atravessado muitos muros. Além disso, parece ter tido muros simbólicos rebaixados do que Antônia, que precisou lidar com a religião da família, a severidade da mãe, o preconceito, a igreja. As diferenças entre elas, marcadas por suas origens, ficam evidentes. Antônia não gosta dos altos muros da cidade grande de onde vem, Camila não gosta do funcionamento do bairro, de sua falta de privacidade. Antônia tem apego ao bairro, local onde se sente segura e protegida, apesar das críticas por ela feitas. Já Camila vive em busca de oportunidades melhores, em busca de um melhor lugar para viver. Camila parece se locomover em sua busca da mesma forma que lhe foi possível a locomoção pela sua cidade, com mais acesso do que Antônia, que se assusta com o que há após a rodovia da divisa do bairro. O bairro é relatado como o lugar onde todos conhecem uns aos outros, sabem sobre suas vidas, sobre suas famílias. Parece ser um local no qual já se sabe sobre as coisas, sem precisar informar muito, as pessoas se conhecem sem que se precise falar diretamente sobre suas vidas.
Nesse sentido, a pesquisadora poderia ser entendida como alguém que poderia causar desconforto, pois ela ainda não sabia da história da família, e era justamente isso que estava indo buscar. O receio da pesquisadora em fazer perguntas que demonstrassem a sua curiosidade pode relacionar-se com a sensação de falta de limites entre as casas, que proporcionam um sentimento de falta de privacidade, de invasão por parte da vizinhança, de uma curiosidade que poderia remeter a uma fofoca. O temor da pesquisadora era o de que suas perguntas acerca das vivências da família soassem como especulações. Por isso, tomou-se muito cuidado ao questionar sobre a sexualidade e a parentalidade das participantes.
Esse cuidado foi necessário também por perceber-se a necessidade de respeito ao tempo das participantes, que se evidenciou mediante muitas desmarcações dos encontros por parte da família e sua dificuldade inicial em adentrar nos assuntos. A atenção à forma como se questionaria alguns assuntos foi pensada de forma que a família, que já atravessou e atravessa tantos muros, não se sentisse invadida dentro de sua própria casa, seu ambiente mais seguro. Ao longo da pesquisa, a necessidade desse cuidado fica evidente principalmente pelo ritmo em que os encontros aconteceram, pois, como visto nesta discussão, muitas temáticas importantes foram trazidas apenas no sexto encontro, que ocorre quase três meses após o primeiro.
Almeida et al. (2023) afirmam que a população LGBTQIAPN+ é grande no Brasil, mas, apesar disso, encontra dificuldades ao buscar condições básicas de vida e seus direitos, sendo prejudicada em campos como saúde, segurança, empregos, etc. Evidencia-se, assim, a opressão que o sistema cis-heteronormativo cria, concedendo o benefício apenas aos corpos que vivem dentro do padrão correspondente ao que se espera da orientação sexual e identidade de gênero, de modo a considerar desviante do entendimento do que é normal todos os sujeitos que destoam de tal modelo. Isso cria uma perspectiva de invisibilidade social e de desrespeito de seus direitos. Os autores atentam para a necessidade de investimento na Educação para que a temática possa ser trabalhada nas escolas - com frequência, o primeiro local onde ocorre o preconceito -, nos serviços de saúde, para que a população seja bem atendida e orientada e na produção de pesquisas científicas que busquem estudar o assunto e, assim, auxiliar nos avanços sociais tão importantes nesse contexto.
Falamos de barreiras impostas e difíceis de atravessar, muitas vezes necessitando de um grande movimento que remete a uma invasão na tentativa de conseguir conquistar algum espaço social, o que ocorre tanto com a homossexualidade como a periferia. A conquista em questão é como um posicionamento em busca de um lugar de legitimidade de quem, por falta de opção, precisa lutar para poder viver melhor, para poder existir como sujeito que deseja. Talvez, em algum momento da caminhada da humanidade, se possa transitar pelos espaços sem a necessidade ou o sentimento de invasão. A luta por esse futuro se faz necessária. Não deveria caber às pessoas que sofrem preconceitos (seja pela sua sexualidade, seja por sua posição social ainda precisarem de tantos esforços para atravessar muros), mas sim à sociedade buscar por conscientização, entendimento e respeito. É essa sociedade que deve eliminar esses muros, que foram construídos sob séculos de opressão, para que os espaços sejam ocupados por todos e todas.
4. Considerações Finais
Neste trabalho, apresentamos uma discussão pautada no encontro de duas mulheres em um contexto de pouco triunfo econômico e espaço para viver sua sexualidade. No entanto, apesar das invisibilidades, conseguem sustentar a vida possível e seus desejos. Ao longo da pesquisa, percebemos os paradoxos acerca da periferia e da sexualidade, dos muros que separam esses dois contextos e a forma como vivem duas pessoas atravessadas por essas questões.
O presente estudo representa uma contribuição ao campo da pesquisa que articula a homoparentalidade, o feminino e a periferia. Por intermédio da pesquisa, pudemos entender recortes da vivência da família, do lugar da mulher naquela comunidade, das invisibilidades e silenciamentos que se perpetuam ao longo dos tempos, apesar de avanços que a população LGBTQIAPN+ já tenha conquistado.
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Financiamento
Não houve financiamento.
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Consentimento de uso de imagem
Foi obtido o consentimento escrito das participantes.
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Aprovação, ética e consentimento
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Feevale, sob o parecer número 3.653.687.
DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAIS
Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável
5. Referências
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Editoria científica
Dr. Adolfo Pizzinato
