Resumo
Este artigo explora o valor e as limitações das autobiografias de sociólogos como fonte para o estudo de suas carreiras. Utilizando um corpus de aproximadamente 140 narrativas, busca-se identificar elementos recorrentes em suas trajetórias profissionais, conforme relatadas por seus autores: origem familiar, escolha da formação, desenvolvimento dos estudos, acesso a cargos e realização de pesquisas. A análise revela que essas narrativas, frequentemente produzidas em idade avançada por figuras consagradas na sociologia francesa, tendem a reconstruir as trajetórias profissionais sob uma ótica positiva e a negligenciar os determinantes sociais, institucionais e relacionais dessas carreiras. Embora os autores das autobiografias por vezes reconheçam os vieses inerentes ao exercício, geralmente cedem à tentação da autojustificação e da autocelebração.
Palavras chaves
Autobiografias; trajetória profissional; sociologia francesa; método biográfico
Abstract
This article explores the value and limitations of sociologists’ autobiographies as a source for studying their careers. Drawing on a corpus of approximately 140 narratives, this study seeks to identify recurring elements in professional trajectories, as recounted by the authors: family background, educational choices, academic progression, access to positions, and the conduct of research. The analysis reveals that these narratives, frequently produced in later life by established figures in French sociology, tend to reconstruct professional trajectories in a positive light, neglecting the social, institutional, and relational determinants of these careers. Although the authors of these autobiographies sometimes acknowledge the biases inherent in the exercise, they generally succumb to the temptation of self-justification and self-celebration.
Keywords
Autobiographies; professional trajectory; French sociology; biographical method
Resumen
Este artículo explora el valor y las limitaciones de las autobiografías de sociólogos como fuente para el estudio de sus carreras. Utilizando un corpus de aproximadamente 40 narrativas, se busca identificar elementos recurrentes en sus trayectorias profesionales, tal como las relatan sus autores: origen familiar, elección de la formación, desarrollo de los estudios, acceso a cargos y realización de investigaciones. El análisis revela que estas narrativas, frecuentemente producidas en edad avanzada por figuras consagradas de la sociología francesa, tienden a reconstruir las trayectorias profesionales bajo una óptica positiva y a descuidar los determinantes sociales, institucionales y relacionales de estas carreras. Aunque los autores de las autobiografías a veces reconocen los sesgos inherentes al ejercicio, generalmente ceden a la tentación de la autojustificación y la autocelebración.
Palabras clave
Autobiografías; trayectoria profesional; sociología francesa; método biográfico
Introdução
As autobiografias constituem uma fonte documental original para ter acesso a informações de primeira mão sobre o funcionamento de um mundo social. Elas oferecem acesso direto a detalhes concretos, muitas vezes ausentes em outras fontes, referentes às dimensões psicológicas, culturais e materiais de um universo particular de relações sociais. No entanto, historiadores e sociólogos devem ter muita cautela ao usar esses documentos. De modo geral, o método biográfico não é uma fonte neutra de informação que apresente uma fotografia da realidade. Os analistas, que estudaram autobiografias, não deixaram de destacar os vieses: subjetivismo, parcialidade, incompletude. Ferdinand Brunetière (1988), mesmo em sua época, afirmou que: “ninguém se pinta a não ser em forma de busto” (p. 440). O resultado seria que “é precisamente aquilo que seria instrutivo para nós sabermos que os autores de memórias nos ocultam” (p. 441). Não é a personalidade do autor que está em questão aqui, mas as particularidades do método. Paul Ricoeur (1995) destaca, portanto, que a história de vida, que é uma obra de natureza literária e retrospectiva, é necessariamente seletiva e, como tal, inevitavelmente tendenciosa. O autor, que é, ao mesmo tempo narrador e protagonista de sua história, por mais que almeje a honestidade perfeita, como Rousseau no início de suas Confissões, a discrepância com a realidade será inevitavelmente significativa. Quando uma autobiografia visa estabelecer ou corrigir uma reputação, é de se esperar inúmeras invenções. Roland Beyer (1965), em sua introdução à autobiografia de Benvenuto Cellini, observa, por exemplo, que: “Enumerar as mentiras de Cellini, mesmo que nos limitássemos às mais óbvias, seria reescrever suas memórias por completo” (p. 7).
Não surpreende, portanto, que a sociologia tenha demonstrado até agora certa reserva em relação aos recursos autobiográficos. Eric de Dampierre (1957) foi o primeiro, na França, a levantar a questão da sinceridade de documentos escritos para fins pouco conhecidos do leitor e que apresentam um autorretrato difícil de contextualizar. Selim Abou (1972) também destacou o problema da racionalização nas autobiografias. Jean Peneff (1990) enfatizou a natureza incerta dos materiais estudados: “Por meio de uma narrativa biográfica, não se estudam comportamentos e seus motivos, mas simplesmente atitudes mentais vagas e contraditórias, racionalizações a posteriori ou argumentos” (p. 6). Nessa perspectiva, a narrativa autobiográfica sempre é uma reconstrução do passado, cuja estrutura pode variar consideravelmente de um indivíduo para outro. Alguns episódios são relembrados com grande precisão, outros são omitidos ou embelezados. O autor pode ser particularmente lúcido em certos pontos, cego em outros, ocultar fatos ou, inversamente, insistir complacentemente em um aspecto particular de sua trajetória. Esses vieses são acentuados quando a narrativa é produzida sem recontextualização crítica. Pierre Bourdieu (1986) observa, sem dúvida com razão, que:
Tentar compreender uma vida como uma série única e autossuficiente de eventos sucessivos, sem outra ligação senão a associação com um “sujeito” cuja constância é, sem dúvida, apenas a de um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar uma viagem de metrô sem levar em conta a estrutura da rede, ou seja, a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações. (p. 72)
Esse tipo de crítica incentiva, portanto, a pesquisa sociológica a ignorar narrativas autobiográficas livres, muitas vezes semelhantes à literatura, e a privilegiar pesquisas sistemáticas com respondentes comparáveis (Bertaux 1980). Essa tendência a reconstruir retrospectivamente a coerência de uma trajetória pode também ser compreendida à luz da lógica do campo acadêmico descrita por Bourdieu. As autobiografias intelectuais não são apenas relatos retrospectivos individuais: elas também representam intervenções simbólicas em um espaço de concorrência por legitimidade e reconhecimento. Nesse sentido, a narrativa autobiográfica tende a conformar-se às normas de legitimidade do campo intelectual, valorizando a originalidade teórica, a autonomia intelectual e a coerência das escolhas científicas, enquanto minimiza dimensões menos nobres da carreira acadêmica, como estratégias de posicionamento, dependência de redes de apoio, relações de poder ou cálculos institucionais. A recorrência desses padrões narrativos pode, portanto, ser interpretada como um efeito estrutural das disputas de consagração próprias ao campo acadêmico. É notável, então, que essas reservas não tenham desencorajado muitos sociólogos franceses e estrangeiros a oferecer relatos autobiográficos, seja espontaneamente ou a pedido de pesquisadores. Autores consagrados como Raymond Boudon, Michel Crozier, Pierre Bourdieu, George Friedmann, Georges Balandier e outros menos famosos cederam à tentação de contar suas próprias histórias, expor suas ideias e justificar suas escolhas, sem sempre especificar o que devemos extrair delas. Surge, então, uma questão: será que os sociólogos, acostumados a objetificar e analisar de forma distanciada as trajetórias alheias, conseguem aplicar essa mesma perspectiva reflexiva às suas próprias trajetórias? Ou será que, como todos os demais, cedem à inevitável tentação da autojustificação?
Este artigo busca responder a essas questões, examinando as trajetórias profissionais de sociólogos, conforme reveladas por um conjunto de autobiografias publicadas: ou seja, dados objetivos que, a priori, parecem menos suscetíveis a distorções do que outros aspectos da experiência vivida. Especificamente, procura determinar como os autores das autobiografias escolheram praticar a sociologia, como seus estudos se desenvolveram, como definiram seus temas de pesquisa e, finalmente, como obtiveram os diversos cargos que ocuparam. Relatos abrangentes sobre esses temas devem contribuir para uma sociologia das carreiras de sociólogos. Por outro lado, os “retratos em forma de busto” marcados pela autocomplacência, tendem a ocultar certos aspectos importantes, particularmente as dimensões políticas e relacionais dessas carreiras. Da perspectiva de uma sociologia das carreiras, é, portanto, necessário examinar tanto o alcance quanto as limitações dessa fonte: o que ela pode nos ensinar, de fato, e quais elementos devem ser considerados frágeis ou questionáveis? Para fornecer algumas respostas, examinaremos, em primeiro lugar, alguns temas recorrentes em um conjunto de autobiografias publicadas de sociólogos. Em segundo lugar, o texto procurará identificar os problemas mais gerais levantados pelo uso deste método documental para um tema de pesquisa como este.
O corpus de autobiografias e sua relevância para o estudo de carreiras
Autobiografias escritas por sociólogos ainda são relativamente raras: geralmente dizem respeito a autores consagrados e são publicadas em idade avançada. Essa escassez limita consideravelmente o interesse pelo método, uma vez que permite dificilmente compreender a trajetória profissional da maioria dos sociólogos, e nem mesmo de profissionais de disciplinas afins, como etnologia ou ciência política, atualmente em atividade. Apesar dessas limitações, existe um conjunto de documentos facilmente acessível aos pesquisadores, composto por três tipos de textos. Em primeiro lugar, há obras com propósito puramente autobiográfico, escritas por intelectuais renomados como Friedmann, Lefebvre, Aron, Mendras, Balandier, Touraine, Crozier e Morin. Nesses casos, o modelo é o da autobiografia literária, com longos trechos referentes à família, à vida privada e ao desenvolvimento psicológico do narrador, levando-se também em consideração o contexto histórico. A orientação é geralmente egocêntrica, com intenções óbvias de justificação, até mesmo de autocelebração (por exemplo, na obra de Morin). No entanto, elementos factuais relativos à carreira são geralmente incluídos.
Um segundo conjunto de documentos envolve as passagens autobiográficas na demonstração de ideias, como na obra de Boudon e Bourdieu. Aqui, a intenção demonstrativa e autojustificativa é marcada: trata-se de textos (artigos ou livros) de luta ou defesa, nos quais a descrição das trajetórias profissionais fica em segundo plano após a afirmação de convicções. Um terceiro conjunto de documentos envolve artigos ou capítulos de livros, nos quais o narrador relata sua trajetória profissional em resposta a perguntas feitas por pesquisadores (por exemplo, os textos de Michel Grossetti, Jean-Claude Passeron, Daniel Bertaux, etc.); ou livremente, sem ser dirigido ou interrompido (notadamente, os depoimentos coletados no âmbito do projeto “Itinéraires de sociologues” (“Itinerários de sociólogos”), sob a direção de Vincent de Gaulejac na Universidade Paris 7).
A natureza da documentação é, portanto, bastante variável: o conteúdo das entrevistas abrange desde ensaios acadêmicos (por exemplo, nas obras de Duvignaud ou Passeron) até descrições de um meio social e de uma época (Gaulejac), e até mesmo descrições factuais de uma trajetória profissional (Grossetti). De modo geral, os detalhes de como uma carreira se desenrola são menos visíveis do que em grandes autobiografias espontâneas.
O conjunto resultante de cerca de 40 documentos é, portanto, heterogêneo, especialmente porque os relatos se referem a diferentes períodos e, consequentemente, a diferentes contextos institucionais. O corpus mobilizado reúne aproximadamente 40 textos autobiográficos de sociólogos franceses publicados entre as décadas de 1970 e 2020. Contudo, o artigo não pretende realizar uma análise exaustiva de cada narrativa. Os exemplos mobilizados ao longo do texto foram selecionados por seu caráter representativo, pela riqueza das informações relativas às trajetórias profissionais ou ainda pela explicitação particularmente clara de determinados mecanismos narrativos recorrentes. Alguns dos narradores vivenciaram o mundo da pesquisa e do ensino numa época em que o Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) estava sendo criado, e a sociologia ainda não estava institucionalizada na universidade. Outros ingressaram no meio acadêmico na década de 1980, quando as trajetórias de carreira e as oportunidades para sociólogos estavam mais bem definidas. Se nós fixarmos como objetivo realizar um estudo das carreiras de sociólogos utilizando essa fonte documental, há claramente uma carência de entrevistas focadas especificamente em carreiras. Contudo, a principal deficiência diz respeito a sociólogos de renome moderado ou baixo, ou mesmo àqueles, cujas carreiras foram incompletas ou consideradas insatisfatórias segundo os padrões da profissão. Ao nos limitarmos a pesquisadores consagrados, corremos o risco de não captar as realidades concretas e cotidianas que moldam as trajetórias profissionais da grande maioria dos sociólogos. As características do corpus impõem, portanto, objetivos modestos ao analista, que deve se concentrar nas dimensões comparáveis que conectam esses documentos. A heterogeneidade do corpus — autobiografias literárias extensas, entrevistas dirigidas, testemunhos breves ou textos de autoanálise — não se configura apenas como uma limitação metodológica, mas também como um elemento revelador das diferentes maneiras pelas quais os sociólogos constroem publicamente a narrativa de si mesmos.
O foco principal, aqui, será identificar como os narradores descrevem e explicam as principais etapas de suas trajetórias profissionais (escolha da sociologia, obtenção de diplomas e aprovação em concursos, orientação das pesquisas e conquista de cargos). Será dada atenção especial à forma como o viés egocêntrico do método ou da instrumentalização do depoimento para fins estratégicos podem levar à omissão ou ao obscurecimento dos fatores determinantes dessas etapas. Isso não significa que as autobiografias devam ser descartadas como fonte documental. Elas fornecem informações preciosas sobre a representação que os próprios sociólogos produzem de sua trajetória, de sua geração e de sua atividade intelectual. Contudo, para uma sociologia das carreiras acadêmicas, tais documentos precisam ser confrontados com outras fontes: arquivos universitários e administrativos, correspondências, relatórios institucionais, entrevistas com colaboradores ou concorrentes, documentos relativos a recrutamentos e financiamentos de pesquisa. Somente essa multiplicação de perspectivas permite reduzir o risco de adesão empática à narrativa produzida retrospectivamente pelos próprios agentes.
Temas recorrentes relacionados às carreiras
Histórico familiar e trajetória pessoal
Na continuidade das narrativas literárias, muitos autores do nosso corpus dedicam um espaço considerável às descrições de suas famílias — pais, irmãos e, às vezes, avós. Essas seções, cuja função analítica nem sempre é explícita, muitas vezes parecem motivadas pelo desejo de transmitir uma herança cultural ou de oferecer um relato pessoal de sua infância e origem. Não surpreendentemente, tais seções são encontradas em importantes obras autobiográficas (Aron, por exemplo, inicia seu livro com o capítulo “O testamento de meu pai”). Mas elas também aparecem em alguns artigos curtos: por exemplo, na obra de Pierre Fougeyrollas (2007) (“Meus quatro avós do Périgord, vamos falar deles” [, p. 138]) ou na de Eugène Enriquez (2007) (“Este retorno às minhas origens não é apenas exigido pela cronologia e pela lógica..., mas porque acho que eles me legaram a essência de quem eu sou e me sinto em dívida com eles por aquilo que fiz de melhor” [p. 104]). Assim como Enriquez, o psicossociólogo Max Pagès (2007) dedica quase um terço de seu relato evocando sua família e apenas dois terços evocando seus estudos:
Meu pai me transmitiu um ideal de excelência, de sucesso. Eu o vivenciei na minha infância e nunca consegui me livrar totalmente disso, mas mais tarde compreendi o que era. Não se tratava de uma meta concreta, realista e socialmente compreensível, como ser aprovado na Escola Normal ou na Escola Politécnica. Tratava-se de ser o primeiro em todos os sentidos. (p. 149)
Como observou Jean-Pierre Bouilloud (2009), é frequentemente a figura paterna que se destaca com maior clareza, refletindo, entre outras coisas, a divisão de papéis entre os sexos na primeira metade do século XX. O pai é apresentado como aquele que define ambições, personifica a abertura à sociedade e exemplifica as qualidades profissionais e humanas a serem admiradas. Aron (1983) recorda, assim, a missão de sucesso social que lhe foi confiada pelo pai, arruinado pela crise de 1929, e Touraine (1977) evoca o modelo de rigor e trabalho árduo personificado pelo seu próprio pai, um médico renomado. De forma mais lírica, Enriquez (2007) afirma: “Meu pai é uma lenda por si só” (p. 105), e Bourdieu (2004) vai ainda mais longe: “Lembro-me de ter chorado várias vezes ao pensar que seu nome, apesar de tantos méritos, não estaria no dicionário” (p. 111).
A família também é descrita no contexto da análise da origem social do autor. Autores de origem popular tendem a enfatizar essa característica, muitas vezes apresentada como motivo de orgulho. O casal Pinçon (2021), por exemplo, descreve detalhadamente sua origem bastante modesta. Robert Castel (2007), referindo-se ao seu pai, ex-marinheiro e, posteriormente, operário civil, também afirma: “Pertencíamos exatamente à classe popular descrita por Richard Hoggart. Não éramos pobres no sentido de miséria, não dependíamos de ninguém, éramos até bastante orgulhosos” (p. 62). Michel Wieviorka (2007) relata sua infância em habitações populares superlotadas. Quando o pai se beneficiou de uma ascensão social, sua trajetória profissional, marcada por altos e baixos, é mencionada (como ocorre com Enriquez ou Boudon).
Por outro lado, crianças de origens economicamente ou intelectualmente privilegiadas falam pouco sobre como se beneficiaram da herança familiar. Aron enfatiza os fracassos de seu pai e afirma que não viveu dos recursos da família. Alain Caillé, criado em um ambiente com muita cultura, pouco menciona sua juventude. Chombart de Lauwe (1996) evita descrever sua origem familiar privilegiada e enfatiza seus laços estreitos com o campesinato. Henri Mendras (1995), de família rica, permanece em silêncio sobre as condições de sua infância e minimiza a riqueza de sua família (embora mencione, sem dar detalhes, um castelo paterno): “Jovem burguês, filho de um oficial de uma antiga burguesia provinciana, arruinada após a Primeira Guerra Mundial, aprendi que a ‘boa vida’ dos meus avós não era mais possível” (p. 40).
As narrativas familiares igualmente servem para contextualizar a escolha dos estudos ou da carreira. Vários relatos enfatizam trajetórias que rompem com as orientações dos pais, mas que se conformam a alguns de seus valores. Castel (2007) sugere que a morte precoce de seus pais lhe permitiu escapar da condição de classe trabalhadora graças a um cunhado que apoiava aos estudos (“Se meu pai tivesse vivido..., eu teria entrado no arsenal de Brest” [p. 65]).
O modelo de apresentação mais comum retrata o autor como um produto um tanto atípico de seu contexto. Filhos da burguesia comercial, como Boudon, começam estudar literatura. Alain Touraine, filho de um médico proeminente, rompe com seu meio social trabalhando nas minas, mas depois retorna aos estudos. Pierre Bourdieu, filho de um funcionário público de baixo escalão, discorre sobre a ruptura com sua origem familiar, representada por sua escolha de estudar literatura. Didier Eribon (2009) dedica um livro inteiro a descrever sua incompatibilidade pessoal com o ambiente familiar da classe trabalhadora. No entanto, é difícil determinar se essas reconstruções autobiográficas acentuam artificialmente continuidades, rupturas ou dívidas para com a família. Enfatizar o papel parental também pode servir para minimizar a importância de outras influências, de modo que a trajetória apareça como produto de uma relação quase exclusiva com a unidade familiar.
O efeito do contexto histórico, frequentemente destacado, é apresentado como um fator tão importante quanto a herança familiar para compreender a trajetória do narrador. Alain Touraine (2007) evoca, por exemplo, a desconexão que experimentou entre o mundo artificial da academia em meados da década de 1940 e a situação histórica:
Então, os acontecimentos, para mim, foram algo de que nunca tinha ouvido falar: a invenção do mundo, a industrialização, o movimento operário, os movimentos de libertação nacional. Esses foram os três grandes pilares dessa época. E o tema da libertação também anunciava uma libertação pessoal. (p. 212)
Henri Lefebvre (1988), que era estudante na década de 1920, evoca o desejo de uma transformação social completa após o colapso da velha Europa. Edgar Morin (1994) e Pierre Moscovici (2007), que viveram a guerra, descrevem como essa experiência moldou suas vidas. Mendras (1995), falando sobre o período pós-guerra, explica: “Jovens e idosos, toda a minha geração foi dominada pela sensação de que nosso dever era tirar a França do atoleiro em que havia se afundado e se despedaçado” (p. 41). Para a geração seguinte, outros eventos importantes podem ter desempenhado um papel semelhante. Michel Wieviorka (2007) e Pierre Rosanvallon (2018), por exemplo, enfatizam a importância de maio de 1968.
Contudo, não somos obrigados a aceitar sistematicamente essas contextualizações sem críticas. Ressaltar a importância do momento histórico tem, sem dúvida, a vantagem de alinhar o narrador à sua época e de situar sua trajetória profissional sob a égide de questões significativas. Dessa forma, as motivações mais práticas e concretas ficam em segundo plano. Além disso, é evidente que a ligação exata e precisa que possa ter existido entre esses eventos e as escolhas de carreira não é totalmente clara. Os autores aqui analisados buscaram, em algum momento, posicionar-se dentro de um determinado mundo profissional, e essas estratégias de carreira dificilmente podem ser explicadas por grandes projetos ideológicos.
A escolha das ciências sociais
Embora vários autores do corpus, como François Dubet (2019), Michel Verret (2019), Alain Caillé (2010), Olivier Galland (2008), Jean Duvignaud (2007) ou Philippe Besnard (1979), não justifiquem sua escolha pela sociologia, quase como se a orientação tivesse ocorrida por si só, esse tema é geralmente abordado, pelo menos indiretamente, pela maioria dos autores de autobiografia. No entanto, a questão surge de forma diferente dependendo da geração, visto que a sociologia só se tornou autônoma em relação à filosofia na década de 1960. Antes desse período, a maioria dos futuros sociólogos iniciava seus estudos em filosofia e depois se orientava para a sociologia, mais por continuidade intelectual ou oportunidade acadêmica do que por vocação inicial. Aron, por exemplo, escolheu a sociologia alemã como tema de sua tese, como uma continuação de seus estudos em filosofia. Segundo suas memórias, ele foi recrutado após a guerra como professor de sociologia na Universidade de Bordeaux, a pedido do decano. Raymond Boudon (2010), já formado em filosofia afirmou ter comparado longamente as disciplinas em questão, enfatizando suas limitações mais do que seus pontos fortes: “a sociologia me atraiu mais por sua abertura a uma gama mais ampla de fenômenos” (p. 7).
No entanto, é notável que o motivo de conversão mais frequentemente mencionado é mais ideológico: o desejo de desenvolver um pensamento crítico sobre a sociedade. Jacques Coenen-Huther (2002), delineando um modelo bastante típico, explica da seguinte forma: “Cheguei à sociologia, não por uma preocupação com o conhecimento puro, mas por um interesse ativo nas questões políticas e sociais para as quais me despertei em meados da década de cinquenta” (p. 6). Robert Castel (2007) explica que queria se manter distante do mundo, ao mesmo tempo em que procurava compreendê-lo. Danièle Linhart (2010) relaciona sua orientação com a história de sua família, marcada pelo Holocausto que lhe incutiu a necessidade de se distanciar do mundo. Edgar Morin (1994) enfatiza seu desejo de compreender um mundo que se tornou caótico durante a guerra, repleto de intensas tensões ideológicas. Michel Wieviorka (2007), inicialmente formado em comércio, explica que gradualmente se voltou para a sociologia sob a influência do clima de esquerda do período pós-1968. Michel Grossetti (2025), matemático de formação, interessou-se pelas ciências sociais após as greves estudantis das quais participou.
Contudo, não podemos descartar a ideia de que o princípio de uma vocação latente, decorrente da “insatisfação com a sociedade” (Mendras,1995), parece funcionar como um lugar-comum, facilitando a reinterpretação retrospectiva de trajetória de vida nas quais os componentes materialistas foram minimizados. Uma leitura mais atenta revela, portanto, o papel de fatores mais contingentes. Alguns autores, por exemplo, atribuem sua orientação para a sociologia ao conselho de uma figura proeminente. Jean Cazeneuve (1989) cita o papel do decano da Faculdade de Letras, Georges Davy. Professor de universidade de história na década de 1950, Touraine atribui sua conversão à influência de outro sociólogo de destaque, Friedmann. De forma ainda mais pragmática, a sociologia por vezes surge como resultado de uma série de ocorrências fortuitas ou decisões ad hoc. Georges Balandier (1997) enfatiza uma escolha baseada na “disponibilidade”: “Naquela época, eu tinha muito tempo livre. Optei por me preparar para o diploma no Instituto de Etnologia, que era frequentado por alguns estudantes de filosofia” (p. 184). Danilo Martuccelli (2007) relata ter se interessado por filosofia, literatura e economia, mas acabou optando por sociologia porque sua candidatura com graduação em filosofia só havia sido aceita nessa área na Argentina. Danièle Linhart (2010), de forma semelhante, menciona uma escolha precoce feita por falta de opção, após reprovações em cursos preparatórios literários e para Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris). Entre os sociólogos recrutados na década de 1960, particularmente no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), a conversão para a sociologia às vezes aparece como uma escolha estratégica. Boudon reconhece que Aron lhe havia indicado que a sociologia representava uma disciplina do futuro. O acesso às posições mais prestigiosas, Collège de France, EHESS, Institut de France, aparece frequentemente nas autobiografias como consequência quase natural do valor intelectual da obra produzida. No entanto, tais posições são, do mesmo modo, formas de consagração simbólica inseridas em relações de concorrência, alianças institucionais e disputas internas ao campo acadêmico, aspectos raramente explicitados pelos narradores.
Esse tipo de explicação restabelece uma ideia cara a muitos autores de biografia: uma trajetória de vida marcada pelo acaso, por oportunidades e por escolhas espontâneas. No entanto, não se encaixa na imagem nobre do sociólogo por vocação que alguns membros da profissão gostariam de impor. O exemplo mais interessante é o de Jean-Claude Passeron (citado em Passeron et al., 1996). Quando questionado sobre sua biografia por Raymonde Moulin e Paul Veyne, ele detalha, sem dúvida com honestidade, seus cálculos como recém-formado, à procura de emprego:
E aqui estou eu, ponderando meu futuro com base na comparação das “probabilidades objetivas” de aparecimento das duas categorias de cargos de assistente que surgiram no mercado de trabalho acadêmico. Como eu podia calcular minhas “expectativas de ganho” com base nisso, e como minha “hierarquia de preferências individuais” se expressava sem ambiguidade por uma “variável quantitativa”, a das horas de ensino obrigatórias, a “escolha racional” em favor das ciências humanas, então em pleno crescimento acadêmico, era inevitável. (p. 277)
Aparentemente insatisfeita com esta resposta, Raymonde Moulin (citado em Passeron et al., 1996) o corrige:
Mas você realmente afirma que sua escolha de se tornar sociólogo resultou de um cálculo de carreira e que todo o resto se seguiu por necessidade pedagógica, uma vez que seu “papel” foi determinado pelo acaso de uma vaga no ensino superior? (p. 280)
Passeron, então, inicia uma longa argumentação repleta de conceitos filosóficos para reforçar, por outro meio, a figura do intelectual por vocação, confirmando, assim, que o formato da entrevista autobiográfica não favorece a explicitação dos pequenos cálculos pessoais e estratégicos, por mais inerentes que sejam a qualquer carreira profissional.
Estudos e diplomas
De acordo com sua posição profissional final, os narradores geralmente descrevem trajetórias acadêmicas marcadas pelo sucesso. Os mais brilhantes parecem considerar suas realizações como algo natural: mencionam-nas sem desenvolvê-las, mas também sem ignorá-las. Autores provenientes de meios populares enfatizam mais a modéstia de seus começos e o sucesso inesperado. Robert Castel (2007), por exemplo, escreve: “Estudei filosofia com uma bolsa de estudos em cidades do interior; passei no exame de agregação para ser professor de universidade fingindo que sabia latim e grego” (p. 67). Eribon (2009) descreve detalhadamente seus estudos pouco inspiradores de sociologia em Reims, que o levaram a ser reprovado no exame de agregação, apesar de seu interesse pela matéria. Ele então se descreve como surpreso com o sucesso de seus primeiros livros.
Quase nenhum dos autobiógrafos do nosso corpus se apresenta como um “estudante dedicado” e ambicioso. Touraine (1977) afirma: “Eu não tinha a atitude de alguém competitivo” (p.22), embora se descreva lendo Homero no metrô para se preparar para sua prova oral de grego. Bourdieu se apresenta como um estudante indisciplinado no ensino médio, sempre punido. Verret fala de suas aulas preparatórias literárias para a École Normale Supérieure — Escola Normal Superior (ENS) e depois fala da ENS, como se a transição de uma para a outra fosse automática. As opções de formação disponíveis parecem, logicamente, ser as de excelência. Crozier (2002) relata que não queria se preparar para a Polytechnique (Escola Politécnica, escola de engenharia, ciências e tecnologia), que a Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris) era considerada esnobe demais, e que, portanto, “após inúmeras discussões, chegamos a um acordo com a Escola de Altos Estudos Comerciais” (p. 18). A maioria dos autores dá a impressão de que seu sucesso ocorreu quase naturalmente devido às suas qualidades inatas. Grossetti (2025), ainda estudante de matemática, explica que “foi aprovado nos exames sucessivos... revisando vagamente anotações de aulas feitas aleatoriamente nos dias anteriores as provas” (p. 46). Bertaux, por sua vez, descreve sua conversão para as ciências sociais desta forma: “De volta a Paris no início de 1966, retomei meu trabalho como pesquisador em inteligência artificial (sobre reconhecimento de padrões) enquanto estudava na Sorbonne e passava nos exames de sociologia, demografia, economia política e psicologia social” (Costa & dos Santos, 2021, p. 148).
De um modo geral, o carreirismo permanece invisível, enquanto as aptidões intelectuais são enfatizadas. Uma formula recorrente é atribuir parte da trajetória profissional a decisões tomadas por outros. Raymond Aron (1983) observa: “Meus professores, meus colegas, meus pais decretaram que eu estava destinado a outra carreira, a de professor universitário” (p. 51). Outro fator é o patrocínio de figuras influentes. Esse mecanismo é frequentemente evocado como uma homenagem aos mais velhos, em vez de ser analisado como um recurso social. Assim, os programas de estudo no exterior frequentemente dependiam da boa vontade de “figuras proeminentes”, mas são relatados como se fossem oportunidades amplamente disponíveis. Assim, Boudon (2010) afirma: “Ao final do meu serviço de dois anos na Marinha Francesa, ele [Stoetzel] conseguiu uma bolsa da Fundação Ford para mim, o que me permitiu passar o ano acadêmico de 1961-1962 na Universidade Columbia, em Nova York” (p. 7). Mendras (1995), que enfatiza o quanto era excepcional obter uma bolsa de estudos para os Estados Unidos — uma “incrível sorte” — relata de forma mais lacônica: “No mesmo ano, consegui uma bolsa de estudos para Chicago com base na minha boa aparência, por recomendação dele [Stoetzel] e de Le Bras” (p. 43).
Finalmente, nem sempre é claro quais critérios os autores de autobiografias utilizam para decidir se descrevem ou não o desenrolar de seus estudos. Embora seja compreensível que a preparação para a agregação2 não se preste a narrativas empolgantes, seria de se esperar, por outro lado, que suas primeiras pesquisas fossem apresentadas com maior detalhe. Contudo, alguns se alongam sobre seu diploma de pós-graduação (DES) ou sua tese, enquanto outros quase nada dizem a respeito ou fornecem apenas detalhes vagos. É possível que alguns deles, retrospectivamente, desaprovem essas primeiras pesquisas, considerando-as inadequadas ou ultrapassadas. Em muitos relatos, a tese aparece como um exercício menor, uma mera formalidade destinada principalmente a abrir portas para a próxima etapa de sua carreira.
Rosanvallon (2018) mal descreve as três teses que defendeu em diferentes instituições, Besnard (1979) é vago quanto às suas escolhas iniciais (“Inscrevi-me vagamente com Serge Hurtig” [2004, p. 386]), Dubet (2019) não fornece informações sobre sua tese, Bourdieu (2004) não explica realmente por que desistiu da sua, e o leitor fica sem saber quem foram os orientadores de Chombart de Lauwe. Essa postura pode ser interpretada como uma racionalização posterior: para enfatizar a importância da pesquisa subsequente, minimizam-se as expectativas inicialmente depositadas na tese. Da mesma forma, a influência do orientador permanece em grande parte invisível, e muitas vezes não sabemos como as bancas de tese foram formadas ou com base em que critérios avaliaram os manuscritos. Os casos de Crozier e Aron são atípicos: a descrição de suas defesas permite que eles manifestem sua personalidade e a originalidade de suas ideias.
Pesquisa: um encontro fortuito ou uma escolha estratégica?
As narrativas de pesquisa são frequentemente apresentadas sob a perspectiva do interesse intelectual e das implicações teóricas. Seu desenvolvimento concreto permanece pouco conhecido, e as modalidades de financiamento ou seu papel nas trajetórias profissionais dos pesquisadores são ainda menos claros. Mesmo antes disso, o que chama a atenção é, sem dúvida, o fato de o tema da pesquisa ser geralmente descrito como algo que se impõe quase espontaneamente à mente do pesquisador. Nessas narrativas, não se percebe oportunismo carreirista, nem influência de redes de contatos, nem estratégia deliberada, nem desejo de se estabelecer no campo científico. Robert Castel (2007), por exemplo, justifica sua escolha da psiquiatria como tema de pesquisa, afirmando que se interessava por situações marginais. Em relação à sua transição para a questão social, ele explica: “Era uma noção vaga, com contornos incertos, e eu estava interessado em experimentar e trazer alguma ordem. Mas também eu estava interessado na esfera social porque ela lida principalmente com populações marginalizadas” (p. 71). Morin, por sua vez, afirma em Mes démons que escolheu o cinema, porque tinha certeza de que era o único trabalhando com o assunto e porque isso lhe permitia passar o tempo assistindo a filmes enquanto era pago. Boudon (2010) afirma ter escolhido testar o individualismo metodológico em questões educacionais “de forma bastante natural”, visto que estas haviam se tornado centrais na década de 1960 — sem qualquer menção, portanto, a considerações políticas ou de carreira. Por sua vez, Mendras (1995) conta que se dedicou ao estudo do campesinato, porque já havia trabalhado com os mórmons nos Estados Unidos e porque nenhum sociólogo explorava esse campo na França. Ele não se detém na vantagem que tal especialização poderia ter lhe proporcionado em termos de posicionamento na disciplina ou contratos de pesquisa. Crozier (2002), da mesma forma, ao relatar sua primeira pesquisa francesa sobre o centro de serviços financeiros dos Correios, a apresenta como se o tema tivesse se imposto por si mesmo. Quanto a Duvignaud (2007), ele relata sua partida de Túnis para estudar a aldeia de Chebika sem fornecer qualquer justificativa específica. Contudo, como sabemos, a escolha de um tema de pesquisa sempre envolve uma dimensão estratégica: evitar a competição direta na distribuição de verbas (como no CNRS), afirmar-se diante de um rival ou demonstrar originalidade para obter reconhecimento. Essas justificativas permanecem difíceis de reconstruir a partir dos relatos, com poucas exceções. Mendras (1995), por exemplo, relata a divisão de áreas feita no CNRS sob a liderança de Friedmann: “Friedmann me disse: ‘Mendras, Mendras, Touraine trata dos operários, Tréanton da cidade, Crozier dos funcionários públicos. Você entende alguma coisa sobre os camponeses, e você é o único, então trate deste assunto…’” (p. 53). É interessante notar também que esse relato contrasta fortemente com o de Viviane Isambert-Jamati (citado em Cacouault-Bitaud & Rogers, 2007):
Havia um grupo de sociologia das religiões, um grupo de sociologia política, um grupo de sociologia rural. Mas, na minha opinião, não devemos acreditar em Mendras quando ele afirma que Friedmann atribuiu a cada pessoa a sua função: Touraine tratará do trabalho, Viviane Isambert tratará da educação. Não aconteceu nada disso, todos tomavam iniciativas. Naquela época, no CNRS, tínhamos muita liberdade. Não consultávamos o diretor de pesquisa. (p. 12)
Em relação aos detalhes práticos das pesquisas, os relatos autobiográficos às vezes fornecem informações sobre o trabalho de campo (Dubet, Bourdieu ou Chombart de Lauwe, por exemplo). Eles também aludem, por vezes, ao papel das redes profissionais ou sociais na facilitação da pesquisa. Balandier, por exemplo, sugere que sua posição como administrador e seus contatos políticos lhe abriram certas portas. Wieviorka (2007) observa, sem entrar em detalhes, que sua equipe foi recebida sem demora por Jan Strzelecki, uma importante figura intelectual na Polônia, quando decidiram realizar pesquisas no país. Em outros casos, o trabalho de campo “chega” ao pesquisador, na forma de contratos concluídos com empresas. Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot (2021) enfatizam esse ponto em relação ao seu trabalho no CNRS. Crozier (2002) relata ter sido regularmente solicitado por grandes empresas e Wieviorka (2007) menciona pedidos da direção da Empresa francesa de produção e fornecimento de eletricidade (EDF). No entanto, leitores fora desses círculos têm dificuldade em discernir os esforços prévios de prospecção ou mobilização de redes de contatos. Tudo acontece mais ou menos como se a reputação do pesquisador atraísse contratos — o que sem dúvida é verdade às vezes, mas certamente nem sempre. A questão do financiamento é abordada com ainda mais cautela. Os valores alocados nunca são especificados. Morin (1994), por exemplo, lembra as críticas feitas à pesquisa de Plozévet, relacionadas aos supostos montantes importantes do orçamento, todavia concentra-se principalmente em demonstrar a qualidade científica do trabalho realizado. Wieviorka (2007) conta que um projeto de pesquisa sobre terrorismo foi financiado graças à intervenção de François Dubet, então presidente da EHESS, que “recorreu às suas economias pessoais”. De modo geral, os narradores demonstram certa reserva em relação ao dinheiro e se esforçam para demonstrar que mal dispunham dos recursos necessários para conduzir as pesquisas. Por fim, a publicação dos trabalhos não parece ser um problema para as figuras de destaque que têm longas autobiografias. Balandier (1997) menciona, com um tom despreocupado, que tinha contatos na Gallimard graças a Michel Leiris. Bourdieu (2004) não diz uma palavra sobre a facilidade com que foi publicado pela Minuit, assim como Morin e Crozier não o fazem em relação às suas respectivas editoras. Estamos, portanto, bem distantes das preocupações dos sociólogos menos conhecidos, para quem encontrar uma editora pode ser uma tarefa árdua, porém necessária para avançar na carreira. Dominique Schnapper (2006, citado em Busino) é uma das poucas a revelar essa realidade: “Para ser reconhecido em uma área, não basta publicar um livro, mesmo em dois volumes; é preciso oferecer um verdadeiro serviço pós-venda, multiplicar as apresentações e as publicações suplementares ou repetitivas e tornar-se reconhecido como ‘especialista’” (p.178).
Problemas específicos da autobiografia de um sociólogo
Pontos cegos
O próprio princípio do testemunho autobiográfico, como vimos, incentiva os autores a enfatizarem os aspectos positivos. É difícil encontrar relatos em que o narrador se deprecia, destaca as fragilidades de sua carreira ou se apresenta como um pesquisador de segunda categoria. De maneira mais ampla, ninguém admite ter trabalhado às pressas, ter cometido erros por negligência, ter publicado textos de menor importância ou ter-se apropriado discretamente de ideias de outros. A autobiografia intelectual, portanto, contribui para reforçar, em vez de prejudicar, a imagem do autor, especialmente porque muitas vezes oferece a oportunidade de discorrer longamente sobre suas ideias. O principal ponto cego nesse tipo de narrativa está, portanto, na construção da imagem de si mesmo como profissional competente. Essa natureza “inquestionável” da reputação acadêmica obscurece as fraquezas comuns, as pequenas disputas ou o uso estratégico de recursos institucionais. As informações desfavoráveis só podem ser obtidas comparando diferentes relatos, por meio de rivalidades pessoais. A motivação financeira, em particular, desaparece do quadro. As remunerações, o prestígio dos cargos ou o exercício do poder nunca são enfatizados. Mendras (1995), por exemplo, relata que dirigia um Citroën 2CV no início da carreira e que os salários eram baixos no CNRS, mas não menciona melhorias posteriores. Jean Cazeneuve (1989), por sua vez, justifica sua ida para a direção da TF1 (canal de televisão francês), destacando seu desejo de colocar a teoria em prática, sem uma palavra sobre o aspecto financeiro. Além disso, nenhum narrador explora seriamente as implicações do “nepotismo”, detalhando sua trajetória profissional, seus recrutamentos ou suas promoções por meio de conexões sindicais, políticas ou ativistas, como se esses fatores fossem secundários diante do talento do indivíduo. Assim, o papel desempenhado pelas redes de extrema esquerda em certos recrutamentos do CNRS nunca é mencionado. As “relações” são geralmente descritas em termos de afinidades intelectuais ou pessoais, sem referência a inclinações ideológicas, sejam de esquerda sejam de direita. Besnard (2004), por exemplo, diz sobre sua entrada no CNRS através do círculo de Boudon, sem explicar a dimensão política dessa filiação:
Após duas ou três tentativas frustradas, fui integrado ao CNRS em janeiro de 1982, pelo canal normal, embora pudesse ter entrado “fora do sistema estabelecido”, e fui, portanto, alocado ao GEMAS (grupo de pesquisa), como havia solicitado. A escolha do GEMAS ocorreu de forma bastante natural, como se não fosse uma escolha. [...] Fiz amizade com Mohamed Cherkaoui e tinha boas relações com os outros pesquisadores da equipe. E havia também o prestígio de R. Boudon e F. Bourricaud, o prestígio deles, mas também o liberalismo deles em relação à pesquisa. (p. 398)
A força das redes, qualquer que seja sua natureza — ou seja, não apenas política, mas também institucional, familiar, até mesmo étnica e sexual — nunca fica clara. Bourdieu (2004), por exemplo, não teoriza sobre o efeito das sucessivas contribuições recebidas que lhe permitiram evitar os combates na Argélia, obter um cargo em Argel ou ser recrutado para a École des Hautes Études (Escola dos Estudos Avançados em Ciências Sociais). Ele revela, de passagem, que “Lévi-Strauss o acolheu muito jovem, quando ele ainda não havia publicado nada na École des Hautes Études” (p. 61). Relatos desse tipo, às vezes, dão a impressão de que o provinciano que chega a Paris encontrará facilmente intelectuais proeminentes, será convidado espontaneamente a contribuir para revistas ou projetos de pesquisa e lhe serão “oferecidos” cargos, sem qualquer estratégia meticulosa para penetrar em círculos influentes. Quando o autor menciona seus apoios, a força diferencial da rede social que ele é capaz de mobilizar nunca é enfatizada. Dubet (2012), por exemplo, cita abertamente o apoio do político famoso Lionel Jospin.
Tudo isso parece mais ou menos evidente, sugerindo implicitamente que a incapacidade de outros sociólogos de mobilizar tal apoio pode decorrer da falta de habilidades ou motivação. O ponto cego comum é, em última análise, a importância da ambição. Esses relatos levam o leitor ingênuo a acreditar que uma carreira progride quase automaticamente, desde que se dê bem com os colegas e se dedique seriamente a pesquisas promissoras. Passeron (citado em Passeron et al., 1996), por exemplo, não explica nem justifica as etapas de sua carreira, preferindo falar sobre suas ideias, mesmo quando questionado sobre o assunto. É quase como se os narradores nunca estivessem em busca de reconhecimento ou honras, nem mesmo aqueles que ingressaram no Institut de France ou foram eleitos para o Collège de France. Bourdieu (2004), por exemplo, apesar de dar alguns detalhes sobre a campanha que teve de realizar para sua eleição para o Collège de France (sem mencionar a concorrência de Boudon e Touraine), descreve esta instituição como “um lugar de consagração para hereges [...] situado afastados de todos os poderes temporais sobre a instituição académica” (p. 107). No entanto, é bastante claro, como Cazeneuve (1989) afirma com bastante honestidade, “que ninguém é eleito para uma das cinco academias do Quai Conti sem o ter desejado, exceto em alguns casos excecionais” (p. 176). Os sociólogos geralmente são menos abertos sobre o tema do prestígio do que os praticantes das ciências exatas, que estão em constante competição para ter seus nomes associados a “descobertas” e que não fazem segredo de sua busca incessante por reconhecimento3. Os sociólogos de nosso corpus não descrevem uma competição genuína, mas sim, círculos relativamente fechados de “apaixonados”, trabalhando juntos para dar a conhecer o mundo. A ausência de prêmios prestigiosos torna a competição menos pronunciada e menos visível. Bourdieu evoca, assim, a dedicação ao trabalho de seus colegas de laboratório, a serviço das ciências sociais, sem permitir que o leitor não iniciado compreenda o poder conferido pela direção de um grande laboratório que pode contar com uma revista e uma editora.
Como a carreira não é apresentada como um motor do trabalho, nossos autores raramente se mostram frustrados, amargurados ou reivindicativos, exceto quando certos livros são considerados “mal compreendidos” por seus pares. Bourdieu (2004), por exemplo, se apresenta como alvo de fofocas e calúnias contra uma obra amplamente incompreendida: “Tive sorte”, diz ele, “de poder viver por muito tempo em relativa indiferença em relação ao sucesso social. ... Era provável e normal que eu permanecesse incompreendido e desconhecido por muito tempo” (p. 91). Em seu caso, como em outros, os episódios menos bem-sucedidos de sua carreira são lembrados apenas por terceiros, por exemplo, Wieviorka a respeito de Touraine:
No início da década de 1980, Alain Touraine acaba de perder para Pierre Bourdieu a cátedra de sociologia no Collège de France. É uma ferida para ele e também para aqueles próximos a ele. É preciso dizer que a oposição entre Touraine e Bourdieu se cristalizou ao longo da década de 1970.
(Ténédos, 2006, p. 35)
Por fim, um último ponto cego diz respeito às relações com os colegas. Rivalidades e conflitos de orgulho parecem inexistentes, ou pelo menos sem impacto nas carreiras. Também não fica claro o que exatamente os narradores devem às pessoas com quem trabalharam (por exemplo, Chombart de Lauwe e seus numerosos colaboradores, ou Bourdieu com Sayad ou Darbel). Aron (1983) se destaca de seus pares, ao escrever:
Determinado a cumprir integralmente minhas obrigações, criei, no âmbito da Sexta Seção, um centro de pesquisa intitulado Centro Europeu de Sociologia Histórica. Pierre Bourdieu foi seu secretário-geral e animador, na realidade seu diretor de fato, até a ruptura causada pelos acontecimentos de 1968. (p. 349)
Mas esse tipo de confissão faz parte de uma tentativa de construir uma imagem pública completa de si mesmo de forma a ser convincente. O “chefe”, embora possa ser autoritário, sabe como conceder autonomia a seus colaboradores. Bourdieu e Mendras, da mesma forma, apresentam-se como chefes tranquilos que gerenciam seu grupo em um espírito de camaradagem e respeito e, se acreditarmos em Crozier (2002) sobre seu estilo de gestão: “Foi assim que gradualmente me tornei um pequeno chefe. Mas não um chefe por direito divino, muito pelo contrário, mas aquele líder de esquadrão que vive dentro de sua pequena tropa, que cuida de tudo para ela e com ela” (p. 130).
O sociólogo como intelectual, antes de tudo
A interação entre pontos cegos e a obsessão com a imagem de si mesmo direcionam as narrativas sobre a construção da imagem do sociólogo como intelectual acima de tudo. Os narradores se apresentam espontaneamente como produtores de ideias, não como funcionários públicos em construção de sua carreira. Rosanvallon (2018), por exemplo, descreve seu trabalho e sua gênese detalhadamente, mencionando apenas de passagem seu acesso a cargos profissionais cada vez mais prestigiosos. O leitor fica com a impressão, a partir desse tipo de narrativa, de que pesquisadores com ideias parecem progredir automaticamente.
A insistência na figura do “intelectual” permite igualmente obscurecer a dimensão propriamente profissional e concorrencial das carreiras acadêmicas. Os narradores tendem a apresentar sua trajetória como guiada sobretudo por convicções intelectuais, compromissos políticos ou inquietações teóricas, e não como resultado de estratégias de posicionamento em um espaço competitivo. Tal construção remete à tradição francesa do intelectual engajado, consolidada desde o caso Dreyfus e, posteriormente, encarnada por figuras como Sartre ou Aron. Apesar de suas diferenças políticas e intelectuais profundas, ambos contribuíram para impor uma representação do intelectual como produtor autônomo de ideias, relativamente dissociado das lógicas ordinárias da carreira universitária.
Não basta, porém, ser um professor ou pesquisador sério. A falta de explicações dos motivos do sucesso e os longos desenvolvimentos sobre o valor das publicações estabelecem implicitamente a figura do intelectual. Bourdieu (2004) escreve, com bastante seriedade: “Muitas vezes me defini, um pouco por brincadeira, como líder de um movimento para libertar as ciências sociais do imperialismo da filosofia” (p. 94). Cada um, assim, demonstra, à sua maneira, uma certa pretensão de originalidade que, por vezes, assume a forma de um distanciamento em relação aos outros, de uma situação um tanto excepcional
De forma semelhante, Aron (1983) faz de seu envolvimento político e de sua longa trajetória no jornalismo uma garantia de sua singularidade. Moscovici (2007) organiza seu distanciamento da França e da comunidade da pesquisa como o foco central de suas declarações. Crozier (2002) afirma que era um outsider em um meio de indivíduos multidiplomados ou comunistas e que suas questões eram inicialmente pouco compreendidas. Morin (1994) enfatiza seu ecletismo e sua liberdade, apresentando-se como um caso excepcional e inclassificável. Por fim, Castel (2007) descreve sua posição da seguinte forma:
Minha relação com a instituição universitária é simultaneamente engajada e distante. [...] Não estou totalmente em sintonia com este meio cujos jogos por vezes me parecem estranhos e ridículos, e mantenho a sensação de que poderia estar em qualquer outro lugar completamente diferente. (p.21)
Em alguns casos, a ênfase na originalidade leva a uma espécie de construção exemplar da própria imagem pública. Morin, por exemplo, publicou uma dúzia de textos (livros e artigos) nos quais evoca sua vida pessoal, seu engajamento político, sua participação na Resistência, suas pesquisas e assim por diante. Aron, como vimos, optou por uma grande autobiografia literária e política que o apresenta como um homem de valores que enfrenta inúmeros inimigos. Da mesma forma, Lévi-Strauss, que iniciou sua carreira acadêmica como sociólogo no Brasil, narra essa experiência em Tristes Trópicos de forma épica: viagem difícil, chegada a um mundo acadêmico provinciano, amadorismo dos estudantes e a Amazônia a ser descoberta ao longo de aventuras surpreendentes.
Precauções na teoria e autoindulgência na prática
Nossas observações mostram como é difícil para o sociólogo autobiográfico se apresentar como um intelectual original, um cidadão exemplar, um indivíduo cativante, sem parecer ceder ao narcisismo embelezador. Jean-Philippe Bouilloud (2007), portanto, tem razão ao observar que: “A imodéstia de se tomar como modelo ou de defender sua própria causa, sendo juiz e parte sem a ajuda de um terceiro fiador, exige estratégias retóricas de argumentação e persuasão que são necessariamente ocultas, e cuja exposição minaria a ambição” (p. 10).
Essa contradição se encontra até mesmo na construção dos depoimentos, que geralmente começam com precauções metodológicas e negações que não são posteriormente confirmadas pelo conteúdo das próprias narrativas. Assim, para citar apenas alguns exemplos, Pierre Tripier (2012), no início de seu curto relato, afirma que a celebração narcisista e a autojustificação são as armadilhas mais óbvias, mas “sei que vou cair nelas, mesmo que tente escapá-las” (p. 151). Pierre Fougeyrollas (2007) expressa escrúpulos semelhantes antes de suas confissões: “Mesmo fazendo um grande esforço de sinceridade, como eu mesmo fiz ao preparar minha apresentação, mesmo ao contar a vocês o que acredito ter vivenciado, não estarei involuntariamente envolvido em um processo de reconstrução do meu passado?” (p. 137). Duvignaud fala de “uma continuidade inventada posteriormente com a idade” (2007), embora seu texto seja uma justificativa de suas escolhas e de seus trabalhos ao longo de sua carreira.
Eugène Enriquez (2019), antes de falar longamente sobre sua própria pessoa e seus gostos, se questiona:
O que se pode dizer sobre a sua vida, sobre a escolha da profissão e sobre os referenciais teóricos que foram escolhidos, senão que se desenvolve uma narrativa que assume o caráter de uma ficção agradável, que lisonjeia o narcisismo do autor e se adorna com virtudes sedutoras para os ouvidos dos ouvintes? (p. 35)
Dubet (2019) também admite que desconfia das “narrativas que inventam uma coerência, uma consistência, uma ‘vocação’, um ‘destino’, onde na maioria das vezes só existem ocorrências fortuitas, circunstâncias, arbitragens entre competências, bem como estruturas sociais” (p. 38). Por fim, Vincent de Gaulejac (2007) alerta para o perigo de ceder a ilusões finalistas, deterministas, retrospectivas e narcisistas (p. 167).
Todavia, apesar de estarem cientes dos riscos associados a este exercício, nossos autores, inclusive os mais cautelosos e preocupados em situar sua trajetória em um contexto social e geracional, acabam cedendo à tentação de narrativas egocêntricas e à omissão estratégica de certos detalhes. O sociólogo, portanto, não é necessariamente o melhor testemunho do funcionamento de seu próprio meio quando o trata pela ótica de sua trajetória individual. Entrevistando professores de ensino fundamental do oeste da França, Peneff (1987) descreveu bons testemunhos autobiográficos como “indivíduos que não se inclinam a ser cegos sobre sua situação pessoal, que não se inclinam a evadir as dificuldades da explicação social por meio de clichês banais ou explicações estereotipadas” (p. 8). A análise dos relatos autobiográficos de sociólogos confirma, de certa forma, essa observação: enquanto os professores de ensino fundamental se consideram membros de um coletivo profissional, confrontados com condições semelhantes e engajados em um trabalho compartilhado, os sociólogos insistem em destacar a singularidade de sua trajetória, suas rupturas diante dos dogmatismos, a coragem de suas posições. Mesmo aqueles que se descrevem como membros de uma geração, como Dubet, esquecem de problematizar a natureza excepcional de suas trajetórias profissionais. Nenhum deles se apresenta como mero funcionário público pertencente a uma profissão comum e operando sob restrições comuns. Comprometidos com o reconhecimento de seu trabalho, eles buscam, acima de tudo, afirmar a relevância e a originalidade de suas ideias. Daí as recorrentes demonstrações de autopromoção, as críticas sutis dirigidas a certos detratores e as homenagens prestadas a seus mentores e discípulos.
É sem dúvida na obra de Bourdieu (1986) que o contraste entre as críticas metodológicas e a autobiografia se torna mais evidente. Depois de criticar A ilusão biográfica, que leva o narrador a inventar significado, lógica para a sua história, até mesmo a se tornar “o ideólogo da sua própria vida” (p. 69), ele se vê obrigado a apresentar seu relato autobiográfico como algo diferente de um relato autobiográfico. Como observa Nathalie Heinich (2005) com certo sarcasmo, “ao ler, percebe-se que se trata de facto de uma narrativa em primeira pessoa da vida do autor, o que corresponde à definição mínima do género autobiográfico” (p. 216). Bourdieu (2004) afirma, portanto, ser um “autoanalista” em vez de um autor de autobiografia, na medida em que afirma estar apresentando o estado do “campo” em que sua trajetória se desenvolveu: na verdade, observações dispersas sobre o domínio da filosofia sobre as ciências sociais na década de 1950, na época em que algumas figuras de proa dirigiam firmemente os primeiros laboratórios de sociologia parisienses. O restante do livro não escapa não apenas às armadilhas que ele já havia criticado (invenção de uma missão, de uma coerência, etc.), mas também aos clichês das autobiografias em geral: “retrato em forma de busto” e autojustificação, sem dúvida tornadas necessárias após severas críticas de alguns de seus antigos colegas a partir da década de 1980.4
O interesse limitado das autobiografias de sociólogos
Após esta análise do nosso corpus, a questão permanece em saber qual é a real contribuição que as autobiografias de sociólogos podem oferecer à análise de carreiras. As observações críticas aqui feitas não pretendem, de forma alguma, negar o interesse das autobiografias. Pelo contrário, sua ausência cria uma lacuna significativa — como demonstrado, por exemplo, pelo caso de Durkheim, de quem não temos nenhum relato pessoal. Essas narrativas permitem reconstruir as relações entre certos atores, esclarecer episódios de recrutamento ou escolhas de pesquisa e esboçar o clima intelectual de uma determinada época ou meio. Elas constituem, portanto, uma fonte útil para a história interna da disciplina, como enfatiza Bouilloud (2009). No entanto, as limitações se tornaram evidentes para ele, assim como para nós: falta de descrição das condições e dos meios de ascensão na carreira, pontos cegos em relação a lutas pelo poder e dinheiro, autojustificação e até mesmo autoconsagração. “Os mecanismos complexos de bifurcação são às vezes completamente ignorados, os esforços empregados são mascarados sob o disfarce de ocorrências fortuitas quase fabulosas, e nada se sabe sobre os trabalhos preliminares que estão na base de tais ocorrências” (Bouilloud, 2009, p. 311).
Mais fundamentalmente, o interesse do uso das autobiografias é prejudicado por uma lacuna e uma orientação estrutural. A lacuna evidente diz respeito a uma dimensão que, no entanto, é fundamental para a análise sociológica: os interesses dos atores e os meios pelos quais eles os servem. A orientação estrutural reside na descrição do mundo do trabalho a partir de um ponto de vista egocêntrico. Ao ocultar ou eufemizar interesses reais, as autobiografias apresentam trajetórias de carreira mais ou menos desprovidas de significado e motivação: acasos felizes, oportunidades fortuitas ou recompensas merecidas levam o narrador do ensino médio a cargos profissionais prestigiosos. Ao afirmar que não desejava realmente seguir carreira e, às vezes, nem mesmo ter pensado em se tornar um sociólogo, o narrador não nos ajuda a problematizar e compreender os mecanismos reais por trás dessas trajetórias. Essa postura cria uma impressão de superficialidade. Os verdadeiros motivos das trajetórias, os conflitos, as arbitragens, permanecem implícitos, e o leitor deve adivinhá-los a partir de conhecimentos externos. Quanto mais consagrado é o autor da autobiografia, mais ele busca aprimorar sua imagem e mais delicado se torna o trabalho analítico. Na maioria dos casos, como vimos, emerge um padrão recorrente: o autor afirma estar falando para “deixar um rastro” de suas experiências ou de uma época específica. Sua carreira aparece como uma sucessão de etapas “naturais”. Ele se apresenta como trabalhador e talentoso, tendo aproveitado as oportunidades oferecidas, reconhece a ajuda de certos colegas, ao mesmo tempo em que atribui seu sucesso aos seus próprios méritos. Essa estrutura narrativa se baseia em expectativas implícitas em relação ao leitor: presume-se que este seja benevolente, interessado na obra do autor e pouco disposto a questionar seu relato. Esta é uma manifestação típica do “pacto autobiográfico”, analisado por Philippe Lejeune (1975): o leitor é convidado a adotar o ponto de vista do narrador em vez de questioná-lo e, portanto, a não questionar uma imagem pública “suavizada”.
Apesar das afirmações dos princípios que estabelecem a primazia do grupo, da geração ou do “campo de estudo”, a orientação egocêntrica produz muitas vezes relatos carentes de fatos e tendenciosos. É evidente que as principais limitações dessas autobiografias estão relacionadas ao próprio método. Na maioria dos casos, o autor não é explicitamente questionado pelo entrevistador: fala livremente, com suas próprias palavras e segundo seu próprio quadro de interpretação. No entanto, narrar a própria vida inevitavelmente significa relatar os acontecimentos a partir da perspectiva de seus próprios interesses e através das lentes de sua autoestima. Os sucessos tendem a parecer naturais, enquanto os fracassos são facilmente reinterpretados como injustiças. A reinterpretação retrospectiva do passado em benefício próprio introduz, portanto, um viés constante, mesmo entre os autores mais preocupados com a integridade intelectual. Essas falhas são inerentes a toda escrita autobiográfica, mas são amplificadas naquelas cujas carreiras se basearam na construção de uma autoimagem positiva — uma condição implícita para o sucesso no mundo acadêmico. De fato, é difícil entender qual seria o interesse, ao final de uma carreira, em revelar o acúmulo de fraquezas, erros ou concessões que se tentou pacientemente corrigir ou ocultar. Esse tema da imagem pessoal também influencia a forma como os sociólogos falam de seus pares. Ataques explícitos contra colegas ainda vivos são raros: ninguém tem interesse em desencadear uma guerra de revelações que prejudicaria a reputação de alguém e, de forma mais ampla, a imagem da área. Isso resulta em um relativo silêncio em torno dos relatos autobiográficos de outros. As poucas correções — aquelas, por exemplo, de Boudon a respeito de Mendras ou Isambert-Jamati — dizem respeito a detalhes. Aprenderíamos muito mais se todos se arriscassem a ler atentamente os relatos de seus pares e a apontar as imprecisões, as omissões ou as reconstruções abusivas — mas o preço seria, sem dúvida, novas disputas. Sociólogos menos conhecidos seriam obrigados a falar sobre aqueles que os contrataram, patrocinaram ou prejudicaram. Obteríamos uma compreensão mais clara das relações de poder, do clientelismo e de certas razões ocultas do fracasso ou do sucesso. De modo geral, os aspectos menos gloriosos das carreiras só podem emergir com clareza a partir dos escritos daqueles que se sentem marginalizados ou reivindicativos.
Por fim, a autobiografia de um sociólogo permanece, acima de tudo, um exercício agradável, tanto para o escritor quanto para o leitor: permite revisitar uma época, adentrar no cotidiano de um determinado meio, descobrir a gênese de pesquisas famosas ou vislumbrar figuras que permaneceram sem testemunho direto. Mas a verdadeira dinâmica das carreiras só se torna aparente para aqueles que já estão familiarizados com seu funcionamento interno. Daí a necessidade de situar essas narrativas dentro de uma pesquisa mais ampla, baseada no uso de arquivos e entrevistas direcionadas, particularmente com testemunhas periféricas. Sendo assim, a autobiografia só pode ser um complemento à pesquisa empírica mais ampla, e não um substituto. O pesquisador corre o risco de ter empatia, aderir às declarações de sinceridade dos autores e sucumbir à dupla ilusão da autobiografia: primeiro, aquela que anima o narrador que acredita estar contando sua história honestamente, e segundo aquela do leitor que, tendo a impressão de adentrar em uma subjetividade pode ceder à ideia de que o passado volta à vida à medida que a história se desenrola. Paradoxalmente, os sociólogos — especialistas em objetivar trajetórias e desnaturalizar mecanismos sociais — mostram-se frequentemente pouco inclinados a aplicar integralmente esse mesmo olhar reflexivo às suas próprias carreiras.
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Revisão textual:
Normalização bibliográfica (APA 7ª Ed.), preparação e revisão textual em português: Vera Lúcia Fator Gouvêa Bonilha verah.bonilha@gmail.com.Versão em inglês: Francisco López Toledo Corrêa francisco.toledocorrea@gmail.com.
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Uso de I.A.:
A autoria afirma que não utilizou recursos de Inteligência Artificial (IA) em nenhuma fase do processo de preparação ou elaboração do manuscrito de sua autoria, incluindo, entre outros, recursos de geração de texto, imagens, código, resumos, traduções ou análises.
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Concurso para ser professor universitário
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Veremos, por exemplo, o testemunho do matemático Cédric Villani (2013) ou, antes dele, o de Max Planck (1960).
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Em suas memórias, Aron (1983) o descreveu como “um líder de culto autoconfiante e dominador, um especialista em intrigas acadêmicas, implacável com qualquer um que pudesse ofuscá-lo” (p. 350). A filha de Aron, Dominique Schnapper (citado em Busino, 2006), posteriormente corroborou a descrição do pai, descrevendo Bourdieu como um ambicioso alpinista social. As críticas mais duras, no entanto (autoritarismo, fraude intelectual), vieram de uma ex-aluna, Jeannine Vèrdes-Leroux (1998).
Disponibilidade de dados:
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
Referências
- Abou, S. (1972). Immigrés dans l’autre Amérique Plon.
- Aron, R. (1983). Mémoires Julliard.
- Balandier, G. (1997). Conjugaisons Fayard.
- Bertaux, D. (1980). Les récits de vie: Perspective ethnosociologique Nathan.
- Besnard, P. (1979, jan./mar.). A formação da equipe do Ano Sociológico. Revue Française de Sociologia, 20 (1), 7-31.
- Beyer, R. (1965). Préface à la présente édition. In Vie de Benvenuto Cellini Julliard.
- Boudon, R. (2010). La sociologie comme science (Collection Repères). La Découverte.
- Bouilloud, J.-P. (2007). Le défi autobiographique. In Itinéraires de sociologues (suite…) (pp. 9–30). L’Harmattan.
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