Resumo
Este ensaio examina as contribuições da literatura grega para a educação contemporânea e sua aplicabilidade no contexto escolar. A partir das obras Ilíada, de Homero, e Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, expõe de que modo a literatura pode constituir uma fonte essencial para o saber docente. O estudo apresenta um planejamento fundamentado no uso do teatro como estratégia para o desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais dos alunos. A metodologia do plano adotado baseia-se na intertextualidade e na adaptação didática dos textos clássicos ressaltando sua importância na formação moral e intelectual dos alunos. A pesquisa enfatiza o papel central da literatura clássica na construção do saber docente e os desafios inerentes à sua implementação no ambiente escolar.
Palavras-chave
História da Educação; Literatura Clássica; Teatro; Docência
Abstract
This essay examines the contributions of Greek literature to contemporary education and its applicability in the school context. Using Homer’s Iliad and Hesiod’s Works and Days as examples, it demonstrates how literature can constitute an essential source for teaching knowledge. The study presents a lesson plan based on the use of theater as a strategy for developing the students’ cognitive and socio-emotional skills. The methodology of the adopted plan is based on intertextuality and the didactic adaptation of classical texts, highlighting their importance in the moral and intellectual development of students. The research emphasizes the central role of classical literature in the construction of teaching knowledge and the challenges inherent in its implementation in the school setting.
Keywords
History of education; classical literature; theater; teaching
Introdução
Conhecer a literatura clássica humanística é remeter ao passado por meio de fontes mitológicas, poéticas, literárias, históricas, filosóficas e políticas que marcaram a formação de sociedades passadas. Autores da antiguidade expuseram crenças e valores que comunicavam, em suas obras, referências que se tornaram exemplos de uma vida educada coerente com a sua época. Nessa perspectiva de estudos em história da educação, este ensaio está fundamentado na educação, por meio de textos clássicos, demonstrando como ela pode estar presente no ambiente escolar de forma simples e direta e, assim, contribuir para o saber docente dos tempos atuais.
Esta é uma produção acadêmica introdutória para interessados em conhecer fontes da literatura e da educação clássicas e o modo como elas podem ser colocadas em prática. No âmbito geral, e de forma razoada, este texto entende a literatura como um meio de se conhecer a educação na antiguidade baseada na tradição grega que busca formar o indivíduo focando no desenvolvimento intelectual, moral e cultural. Logo, o seu objetivo é ensinar a pensar de forma crítica, a comunicar-se bem e a agir de maneira ética e responsável, de modo que prepare o indivíduo para a vida em sociedade (Jaeger, 2001).
Em específico, a pesquisa se limitou ao recorte da tradição grega, tendo como fonte a literatura clássica homérica por meio de produções que conseguissem apresentar exemplos e indícios que pudessem ser analisados e adaptados para serem colocados em prática, de modo que os resultados da pesquisa não ficassem restritos a conclusões teóricas.
Metodologicamente, foi realizada uma pesquisa básica que vislumbrou contribuir de forma criativa por meio de bibliografia de historiadores da educação e literatura gregas. A partir das fontes selecionadas, o intuito da pesquisa foi o de produzir novos conhecimentos que fossem úteis para o avanço do pensamento científico em Educação (Silva & Menezes, 2001). A pesquisa bibliográfica não constitui, pois, uma colcha de retalhos de citações ou repetições do que já foi dito sobre determinado assunto, mas o resultado de um exame criterioso com enfoque e abordagem que podem contribuir com inovações (Marconi & Lakatos, 2005), pois levanta novos questionamentos que colaboram no processo de produção científica.
Nesse sentido, o desenvolvimento da pesquisa baseou-se no que Borges (2007) entende ser profícuo ao explorar o diálogo entre a literatura passada e os autores contemporâneos, relacionando temas como o tempo à memória e à intertextualidade e mostrando de que modo ideais clássicos podem contribuir com o pensamento moderno. Na mesma perspectiva, e condizente com o tema em estudo, Eliot (1997) acredita que a fonte autêntica é o resultado enraizado das tradições literárias anteriores, num diálogo contínuo com o passado. O estudo de obras clássicas constitui, nesse sentido, uma forma de ampliar e refinar o entendimento que temos da literatura atual.
De acordo com Frier (2017), a literatura conecta seus leitores a elementos que estão além do entendimento gramatical do texto, remetendo a uma origem primitiva, uma vez que essas histórias refletem o imaginário cultural das primeiras sociedades. O autor atribui à presença da literatura no cotidiano o papel de promover a boa leitura, a fala e a escrita, além de considerar a educação da imaginação como um meio de proteção individual e resistência às ilusões da cultura massificada (Frier, 2017).
A pesquisa procedeu às seguintes etapas: primeiramente, a localização das fontes, seguida da leitura criteriosa e da seleção do material que poderia contribuir para a atividade proposta; num terceiro momento, realizaram-se o fichamento, a análise e a ordenação das informações (Severino, 2016); por fim, foram elaborados os planos de aula em que os exemplos antigos pudessem ser pensados e adaptados para serem utilizados nas escolas.
Considerando que os estudos em história da educação ultrapassam suas próprias fontes, foi necessário buscar em outras áreas do conhecimento o entendimento de uma época. Em seus ensaios sobre estética, Schiller (2002) argumenta que a criação artística e literária deve ser guiada por princípios universais que transcendem o tempo. O autor entende a arte como uma forma de educação moral e estética, profundamente enraizada nas tradições clássicas, e as obras literárias como uma extensão do pensamento clássico. Logo, a citação e a intertextualidade com autores como Homero e Hesíodo, dentre outros, são partes fundamentais do processo de uma elevada formação. Para esta pesquisa, escolheu-se, então, analisar as linguagens da literatura e do teatro como exemplos de educação clássica.
Para a seleção das obras literárias, foram pesquisadas referências na educação da Grécia Antiga: Ilíada, de Homero; e Os trabalhos e os dias, de Hesíodo, em específico, representações do período nomeado didaticamente de homérico (1200 – 800 a.C.) (Romilly, 2001). As referências históricas, mitológicas e literárias selecionadas se voltaram aos textos integrais traduzidos para o português brasileiro. No segundo momento, foram analisadas algumas adaptações destes textos que pudessem ser utilizadas por professores da Educação Básica.
Delimitação da pesquisa
A história antiga, em muitos casos, remete a uma época anterior à escrita em que a importância dada à língua e à oralidade está relacionada a uma forma de identificação desses povos. As crônicas, histórias, mitos e alegorias constituíram o imaginário poético do período homérico até o apogeu político e cultural alcançado com a consolidação das cidades-estados do período clássico. Foi, portanto, pela linguagem que o povo heleno se reconheceu, e a adoção da escrita influenciada pelos fenícios possibilitou os registros de obras, autores e personagens conhecidos de suas histórias.
Encontram-se também, nas obras de Homero e Hesíodo, ensinamentos relacionados ao comportamento em sociedade que remetiam a um ideal moral. Por meio de seus textos, formaram-se a identidade, o imaginário e a mentalidade de uma época e de uma educação das relações humanas. As histórias que retratavam a origem (teogonia) e suas relações com humanos (teodiceia) refletiam “todo um manual de moral prática, ensinando, por meio de exemplos, todos os preceitos, a começar pelos da civilidade pueril e virtuosa; melhor ainda: pela prática da exegese alegórica, Homero era utilizado para ilustrar sua própria filosofia.” (Marrou, 2017, p. 43).
Uma vez realizada a seleção das obras, a leitura, a análise e a crítica, buscou-se extrair de forma criteriosa os sentidos retratados por seus autores que representavam a cosmovisão (Kant, 2012) de uma época e seus elementos educativos. Para uma leitura direcionada e o entendimento dos conhecimentos extraídos, o texto foi organizado de modo diretivo, ressaltando o potencial para ser utilizado como prática.
Conteúdo educativo da Ilíada
Sobre o período homérico, foram analisados dois autores, Homero e Hesíodo. De Homero, foram eleitos dois de seus personagens, Aquiles e Heitor; e de Hesíodo, seus personagens Hesíodo e Perses.
Historicamente, o período homérico marcou o fim da civilização micênica e o início de uma nova fase cultural, em que a educação baseada na tradição oral teve um papel fundamental. Durante esse período, de séculos marcados por invasões e conquistas, a educação esteve fortemente enraizada na poética. As obras de Homero, como Ilíada e Odisseia, foram os textos centrais desse processo educativo. A partir de histórias heroicas e míticas, os jovens gregos não apenas aprendiam habilidades de combate, como também valores éticos e sociais.
A Ilíada narra a Guerra de Troia, um conflito lendário entre os aqueus e os troianos. Segundo a narrativa, essa guerra começou quando Páris, príncipe de Troia, raptou Helena, a esposa de Menelau, rei de Esparta. Os poemas de Homero retratam o heroísmo e a tragédia dessa guerra utilizando figuras, a exemplo de Aquiles e Heitor, para ensinar virtudes como a coragem e o sacrifício. Um dos trechos mais marcantes da epopeia expressa o desejo de Aquiles de enfrentar seu destino para buscar a glória (Homero, 2015).
Aquiles é um dos principais heróis da mitologia grega e o protagonista da Guerra de Troia. Ele é descrito como o maior guerreiro dos aqueus (gregos) e é filho de Peleu, um homem mortal, e de Tétis, uma deusa marinha. A poética conta que, desde jovem, Aquiles foi criado para se tornar o maior dos heróis, mas com uma escolha crucial: ter uma vida longa e pacífica, sem glória, ou uma vida curta e gloriosa. Enquanto herói, Aquiles escolhe a glória imortal no campo de batalha, mesmo sabendo que morreria jovem.
Nesse contexto, Aquiles, filho da deusa Tétis e do mortal Peleu, é um guerreiro invencível, exceto pelo calcanhar, seu único ponto vulnerável. No início do poema, Aquiles é tomado por uma profunda ira contra o líder grego Agamenon, que toma sua escrava Briseida. Sentindo-se desrespeitado, Aquiles se recusa a lutar, retirando-se do campo de batalha. Sem Aquiles, os gregos sofrem grandes perdas e os troianos, liderados por Heitor, avançam. Heitor, o príncipe troiano, é o principal defensor de sua cidade e um líder moralmente íntegro. Ele luta com coragem para proteger Troia, sua família e seu povo. Heitor também é um personagem trágico, consciente de que, mesmo lutando com bravura, Troia está destinada à derrota.
A trama culmina quando Heitor mata Pátroclo, o amigo e companheiro de armas de Aquiles, que lutava com a armadura de Aquiles na tentativa de salvar os gregos. A morte de Pátroclo desperta, em Aquiles, um desejo incontrolável de vingança. Ele retorna ao campo de batalha com uma fúria devastadora, decidido a matar Heitor. Aquiles e Heitor finalmente se enfrentam diante das muralhas de Troia.
Heitor, sabendo que está destinado à derrota, enfrenta Aquiles com coragem, mas é derrotado e morto em combate. Neste trecho do Canto XXII, é possível entender a habilidade bélica e o preparo de Aquiles como guerreiro ao analisar como seria seu ataque definitivo. “Via-se, apenas, a parte em que do ombro separa a clavícula o tenro colo, a garganta, onde o ataque é funesto para a alma. Quando contra ele avançava, o Pelida1, aí, lhe enterra a hasta longa, atravessando-lhe a ponta de bronze o pescoço macio” (Homero, 2015, p.458).
Em um gesto de humilhação, Aquiles amarra o corpo de Heitor a sua carruagem e o arrasta ao redor das muralhas de Troia. O corpo de Heitor é finalmente resgatado por seu pai, o rei Príamo, que vai ao acampamento grego suplicar a Aquiles por uma trégua para enterrar seu filho. Esse ato final de compaixão encerra a Ilíada, destacando os temas de honra, coragem e o destino trágico dos heróis. A relação entre Aquiles e Heitor simboliza o conflito entre o heroísmo individual e a responsabilidade coletiva, sendo que ambos são retratados como figuras complexas movidas pela honra e pelo destino.
Aquiles como figura educativa
Como personagem da Ilíada, Aquiles representava um ideal heroico para os gregos antigos. Ele era o símbolo da areté, ou excelência, tanto física quanto moral, que era o objetivo de todo cidadão grego. Sua escolha de buscar a glória imortal à custa de uma vida curta era vista como um exemplo da dedicação ao dever e à honra, que são valores fundamentais na sociedade grega daquela época, que vivia sob invasões e conquistas.
Do ponto de vista educativo, o personagem Aquiles ensinava aos jovens a importância do heroísmo, da honra e do cumprimento do destino. Ele mostrava que a vida do guerreiro era feita de escolhas difíceis, em que o sacrifício pessoal em nome de um ideal maior era admirável. Além disso, o temperamento colérico demonstrava suas falhas humanas, que também funcionavam como advertências, pois mostravam que até os maiores heróis poderiam ser consumidos por suas emoções e que era necessário equilibrar bravura com temperança e compaixão. Isso significa que o herói não era perfeito e tinha suas fraquezas. No trecho do Canto I, é possível ver os efeitos causados por Aquiles ao ter Criseide retirada de seus braços. “Canta-me a Cólera – ó deusa – funesta de Aquiles Pelida, causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta e de baixarem para o Hades as Almas de heróis numerosos e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães tirados e como pasto das aves” (Homero, 2015, p.55).
Portanto, Aquiles educava tanto pela virtude quanto pelos erros, servindo de exemplo de como as ações de um indivíduo podem afetar toda a comunidade e de como a busca pela glória deveria ser equilibrada com a sabedoria e o autocontrole. Em síntese, Aquiles era uma figura educativa para a Grécia antiga, porque representava os ideais heroicos da virtude, da coragem e da honra, ao mesmo tempo que seus defeitos ofereciam lições valiosas como a falta de controle emocional.
Heitor como figura educativa
Em termos educativos, Heitor oferece uma contraposição valiosa a Aquiles. Enquanto o último é impulsionado por sua busca de glória individual, Heitor é movido por seu compromisso com a comunidade e sua lealdade à família. Ele representa o ideal do líder que coloca o bem coletivo acima de seus interesses pessoais, algo que os gregos valorizavam imensamente na figura de um bom cidadão e governante.
Heitor ensinou aos jovens a importância da responsabilidade cívica do sacrifício pessoal e da moderação. Ele não buscava a glória pela glória, mas sim a preservação de sua cidade e de seu povo. Essa característica faz de Heitor um exemplo de virtude cívica e dedicação, especialmente no contexto grego, onde a liderança da pólis (cidade) era um valor fundamental.
A relação de Heitor com sua família, especialmente com sua esposa Andrômaca e seu filho Astíanax, apresenta outro aspecto educativo: ele não é apenas um guerreiro, mas também um pai e marido dedicado. Seu encontro com Andrômaca, retratado no Canto VI, mostra o clamor da esposa que implora para não retornar ao campo de batalha, expondo o conflito entre o dever público e o desejo de proteger sua família. Andrômaca diz:
És para mim, caro Heitor, assim pai como mãe veneranda, és meu irmão, de igual modo, e marido na idade florente. [...] Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro de casco ondulante: Tudo isso, esposa, também me preocupa; mas quanta vergonha dos outros homens e, assim, das Troianas de peplos compridos, eu sentiria se, infame, fugisse às pelejas cruentas. Isso meu peito proíbe, ensinando-me a ser valoroso e a combater sempre à frente dos fortes guerreiros de Troia (Homero, 2015, p.167).
Heitor também é um símbolo trágico. Sua morte nas mãos de Aquiles não é apenas a derrota de um guerreiro, mas a queda de um líder que lutou até o último momento para salvar sua cidade. Sua tragédia ensina sobre a inevitabilidade do destino e a necessidade de enfrentar adversidades com dignidade e coragem, mesmo quando o resultado é desfavorável.
Heitor x Aquiles: lições contrastantes
Enquanto Aquiles é admirado por sua força individual e sua coragem desmedida, Heitor é reverenciado por seu senso de dever e sacrifício altruísta. Ambos são heróis, mas apresentam enfoques muito diferentes sobre o significado de ser um herói: Aquiles representa a busca pela glória pessoal e o confronto com o próprio destino; Heitor exemplifica o herói que luta pelo bem comum, pela família e pela cidade, mesmo sabendo que a derrota é inevitável.
Essa oposição entre os dois personagens oferece lições importantes aos jovens da época. Heitor ensina que o verdadeiro herói é aquele que luta pelo bem coletivo e que o sacrifício e a responsabilidade são qualidades indispensáveis para um líder.
Por seu lado, Heitor é uma figura educativa por sua dedicação ao dever, sua coragem moral e seu amor pela família e pela cidade-estado. Ele ensina aos gregos e a todos que estudam a obra de Homero que o verdadeiro valor de um herói não está apenas em sua força física ou em sua busca por glória individual, mas também em sua responsabilidade para com os outros e na sua capacidade de sacrificar-se pelo bem comum.
Os dois modelos de heroísmo, representados como arquétipos, Aquiles e Heitor, eram exemplos para os jovens gregos. Eles eram ensinados a enfrentar desafios com a honra e a bravura de Aquiles e com a responsabilidade para sua comunidade e sua família como Heitor. O ideal heroico de Homero não só educava, mas também promovia o senso de identidade coletiva, formando o cidadão grego em todos os aspectos de sua vida.
Este exemplo é explicado por Marrou (2017), no entendimento de que o verdadeiro espírito heroico deveria ser o equilíbrio entre os dois modelos, assim como um cavalheiro que buscava a educação de si mesmo, pelo seu esforço e pelo fortalecimento de um espírito guerreiro, intelectual e cortês, como também por ser dono de suas emoções, voltado à liderança e ao protagonismo para com seu grupo.
Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo
Se Homero transmitia valores heroicos, Hesíodo, em sua obra Os Trabalhos e os Dias, oferecia um entendimento profundo da relação entre os homens e os deuses. Ela se destaca como uma fonte de ensinamento moral e prático para a vida cotidiana dos gregos, especialmente os camponeses e os agricultores.
Trata-se de um poema que aborda a importância do trabalho árduo e da justiça dirigido a Perses. Hesíodo, narrador e autor da obra, que assume o papel de conselheiro moral, acredita que o trabalho árduo é a chave para uma vida próspera e justa. Perses, o irmão de Hesíodo, é criticado por sua preguiça e por tentar obter riquezas injustamente, por meio de decisões judiciais corruptas. Hesíodo repreende Perses por sua falta de esforço e o adverte sobre as consequências da preguiça e da injustiça.
A Justiça escuta e o Excesso esquece de vez!
Pois esta lei aos homens o Cronida dispôs:
que peixes, animais e pássaros que voam
devorem-se entre si, pois entre eles, Justiça não há;
aos homens deu Justiça que é de longe o bem maior;
pois se alguém quiser as coisas justas proclamar
sabiamente, prosperidade lhe dá o longevidente Zeus;
mas quem deliberadamente jurar com perjúrio e,
mentindo, ofender a Justiça, comete irreparável crime;
deste, a estirpe no futuro se torna obscura,
mas do homem fiel ao juramento a estirpe será melhor.
(Hesíodo, 1996, p. 43)
A obra ensina, portanto, que o trabalho árduo, a justiça e a honestidade são essenciais para a prosperidade. Hesíodo apresenta uma visão moral, na qual os deuses recompensam aqueles que trabalham com dedicação e punem os ociosos ou injustos. O poema oferece conselhos práticos sobre agricultura e as melhores épocas para o plantio e a colheita, ao mesmo tempo que reforça o valor do esforço e do comportamento ético. Em resumo, Os Trabalhos e os Dias é um guia moral e prático, em que o sucesso e a harmonia na vida dependem do esforço constante como caminho para uma vida justa.
Conteúdo educativo de Os Trabalhos e os Dias
Quanto aos valores humanos, Hesíodo ensina que o trabalho é uma virtude fundamental e o ócio leva à pobreza e ao infortúnio. Ele instruiu os camponeses sobre as estações de cultivo e como trabalhar a terra para garantir boas colheitas, enfatizando que a vida produtiva é abençoada pelos deuses.
A obra contém lições sobre justiça, anunciando contra a corrupção e a ganância. Hesíodo defende que os homens devem viver de forma justa e honesta, pois os deuses punem os injustos e recompensam os virtuosos. Ele cita Zeus como o guardião da justiça e adverte contra a prática de atos imorais.
Nessa perspectiva, Hesíodo critica a decisão injusta, tomada por juízes corruptos, que favoreceu Perses na disputa pela herança e enfatiza que uma injustiça eventualmente será punida pelos deuses. Ele ensina que a justiça e a equidade são fundamentais para uma vida em harmonia com os outros e com as leis divinas. O poema também faz uso de mitos para ilustrar lições morais. Um dos mitos mais importantes é o de Pandora2, a primeira mulher criada pelos deuses, que abriu uma jarra (mais tarde interpretada como uma caixa) contendo todos os males do mundo. Esse mito serve como uma advertência contra a curiosidade e a desobediência.
Hesíodo também prega a moderação e a autossuficiência como virtudes. Ele encorajou os homens a viverem de acordo com seus meios, sem depender dos outros ou explorar os fracos. Isso reflete a ética agrícola e camponesa que permeou a sociedade grega da época. Hesíodo instrui Perses a viver de forma modesta, não tentando ganhar mais do que o necessário e não dependendo de riquezas simples ou favores. A moderação e a autossuficiência são apresentadas como as melhores formas de viver uma vida tranquila e honesta. Como diz o autor: “Fartado disto, fazer disputas e controvérsias contra bens alheios poderias. Mas não haverá segunda vez para assim agires. Decidamos aqui nossa disputa com retas sentenças, que, de Zeus, são as melhores” (Hesíodo, 1996, p. 25).
A obra de Hesíodo fornecia um guia de conduta aos gregos comuns, mostrando que o trabalho honesto e o respeito às normas divinas eram essenciais para viver em harmonia com os deuses e com a comunidade. A educação promovida pelo poeta é voltada para o cotidiano, valorizando o trabalho, a justiça e a prudência. Enquanto os jovens gregos aprendiam valores heroicos com Homero, Hesíodo ensinava a ética da vida comum, formando indivíduos conscientes de suas responsabilidades e da importância do esforço e da justiça em suas vidas.
Essas lições sobre trabalho, justiça e respeito à ordem divina eram fundamentais na educação dos gregos, pois reforçavam a importância de uma moralidade baseada na obediência às leis divinas. A hierarquia entre deuses e homens, descrita por Hesíodo, era vista como um reflexo da ordem social e política que regia a sociedade grega. A obra de Hesíodo, assim como a de Homero, contribuía para um tipo de educação, tanto na sua espiritualidade quanto no desenvolvimento de seu caráter cívico.
Teatro como modelo educativo
Nota-se que o uso do teatro como método educativo neste projeto está fundamentado na tradição grega clássica, especificamente na educação homérica, que visava formar o indivíduo de maneira integral. A educação grega preparava o jovem não apenas para o domínio das armas e dos esportes, mas também para a retórica, a poesia e a reflexão sobre os valores humanos. O treinamento não fazia sentido se não pudesse ser colocado à prova em competições, momento em que as habilidades eram testadas, e a excelência (areté) era alcançada. O teatro era utilizado para retratar dilemas morais e questões cívicas, tornando-se uma ferramenta educacional poderosa, que não apenas transmitia histórias míticas, mas também explorava a natureza humana, as emoções e as relações sociais e políticas. Ele era usado para moldar cidadãos que fossem conscientes dos dilemas éticos que surgiam em suas vidas (Vernant, 2020).
Trabalhar com teatro baseado na literatura grega, hoje em dia, permite aos jovens: a) desenvolver empatia de modo que, ao interpretar personagens complexos, os alunos vivenciem dilemas e emoções de diferentes pontos de vista; b) aprimorar habilidades de leitura e interpretação de texto com a adaptação de textos clássicos, desenvolvendo a habilidade de analisar profundamente as nuances de uma obra; c) cultivar o trabalho em equipe: o teatro é uma atividade colaborativa, em que cada aluno desempenha um papel crucial, seja como ator ou parte da equipe técnica, criando uma experiência de interdependência e colaboração.
Ao selecionar o teatro como a principal estratégia pedagógica, resgata-se a herança cultural grega, que valoriza a competição como um instrumento de motivação e superação. A competição entre as duas equipes, cada uma representando uma obra homérica – Ilíada e Os Trabalhos e os Dias – espelha a antiga prática de desafios nos quais os jovens gregos competiam pela honra, pelo reconhecimento e pelo aprimoramento de suas habilidades.
Dessa maneira, a escolha do teatro como metodologia, aliada à competição entre grupos, estimula os alunos a se esforçarem mais, incentivando-os a buscarem o sucesso por meio da dedicação e do trabalho em equipe, valores profundamente enraizados na tradição educativa grega. Na próxima seção, será apresentado o planejamento, tendo como fonte os exemplos e os indícios clássicos orientadores da educação.
Planejamento: teatro na escola
O planejamento é um documento orientador para que professores possam visualizar a possibilidade de diferentes fontes de modo criativo com os alunos. Sua organização foi pensada para que as ações possam ter uma lógica de aprendizado, interação e envolvimento das equipes compostas por estudantes, professores, coordenadores e outros que se envolverem e contribuírem. Eis o planejamento:
Análise, desafios e estratégias para o uso do teatro e da literatura grega clássica como prática pedagógica
Obras da literatura grega, como Ilíada e Os Trabalhos e os Dias, foram e continuam sendo essenciais para o entendimento da cultura ocidental. Essas epopeias, reconhecidas não apenas por serem registros artísticos e fonte de um imaginário antigo, foram também fontes morais, estéticas, cívicas e filosóficas que orientaram o caráter de uma época. Exemplos ilustrativos de honradez, justiça e heroísmo são tratados como dilemas enfrentados pelos personagens que proporcionam ao leitor, neste caso, aos estudantes, a oportunidade de refletir sobre questões fundamentais da vida em sociedade.
A valorização da leitura, com foco na literatura grega clássica, fomenta o pensamento crítico e o desenvolvimento da capacidade argumentativa, visto que muitas dessas obras não apresentam respostas simples para os dilemas propostos, convidando os leitores a examinarem a complexidade das escolhas humanas. O trabalho com esses textos no ambiente escolar oportuniza a reflexão sobre questões atemporais, a exemplo de coragem, destino, orgulho, trabalho e justiça, desenvolvendo uma visão ampla do que significa viver de maneira ética e responsável (Jaeger, 2001).
O teatro, baseado na literatura clássica grega, oferece uma experiência prática e envolvente de aprendizado. Encenar personagens, como Aquiles, Heitor, Hesíodo e Perses, desperta nos alunos não apenas a vontade de ler e compreender os textos, mas a de reviver os dilemas e as virtudes desses personagens. O teatro desenvolve habilidades como a comunicação verbal, a expressão corporal, o trabalho em equipe e a criatividade. Paralelamente a essas habilidades práticas, há um desenvolvimento intelectual mais profundo, uma vez que os alunos precisarão interpretar os personagens, entender o contexto histórico e cultural e adaptar os valores e os ensinamentos para suas próprias realidades (Vernant, 2020).
As competências previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como pensamento crítico, protagonismo e resolução de problemas, são amplamente exploradas por meio do teatro. A atividade teatral na escola, tendo como base a literatura clássica, também promove o desenvolvimento de competências socioemocionais ao criar um ambiente em que os alunos trabalham juntos para alcançar um objetivo comum (Spolin, 2008).
Nesse aspecto, a literatura grega e o teatro oferecem às crianças e aos jovens uma experiência educativa que transcende o mero aprendizado teórico. Eles passam a vivenciar valores essenciais da paideia grega, como a coragem, a justiça e o respeito à comunidade enquanto aprimoram suas habilidades intelectuais, como a leitura crítica e a interpretação de textos. Esse tipo de educação favorece o que se considera ser uma educação capaz de incentivar os estudantes a serem cidadãos responsáveis, reflexivos e conscientes de suas ações (Spolin, 2008).
Assim sendo, o contato com a literatura desperta ainda um espírito de curiosidade e o desejo pelo conhecimento, essencial para o crescimento intelectual. A prática de interpretar, adaptar e encenar textos clássicos desenvolve a autonomia intelectual, ao mesmo tempo que cultiva o apreço pela história, pela filosofia e pela cultura, criando jovens com uma visão de mundo mais completa e bem fundamentada (Nussbaum, 2015).
Mesmo reconhecendo os benefícios da literatura clássica, há, ainda, barreiras significativas para a sua implementação eficaz nas escolas. A primeira dificuldade está relacionada à formação dos professores que, muitas vezes, carecem de uma preparação mais aprofundada em cultura clássica e literatura grega. Não é necessário ser um profundo especialista em literatura clássica, mas é importante que o responsável pelo planejamento conheça os textos integrais para uma abordagem segura.
Outro desafio é o distanciamento dos alunos dos livros e dos textos clássicos. Muitos estudantes se sentem desmotivados a ler obras clássicas, que exigem mais atenção e reflexão (Pennac, 1994; Desmurget, 2021). A linguagem arcaica e o conteúdo denso, com temáticas filosóficas e complexas, podem parecer distantes da realidade imediata dos jovens, em um cenário educacional dominado por estímulos digitais e rápidos. Esse fator pode dificultar a conexão inicial dos estudantes com os livros, exigindo dos professores um esforço extra para adaptar e contextualizar os textos de forma acessível.
Nesse contexto, a formação dos professores emerge como um aspecto crítico. O teatro exije competências específicas, como expressão corporal, trabalho em equipe e domínio de técnicas narrativas, que devem fazer parte da formação dos professores para uma melhor condução das atividades teatrais. A ausência desses conhecimentos pode resultar em insegurança e limitações na capacidade de explorar plenamente o potencial pedagógico desta metodologia.
Um outro obstáculo significativo diz respeito à disponibilidade de recursos de tempo e espaço. Ensaios teatrais demandam várias sessões para o desenvolvimento do texto, da interpretação e da ambientação, e podem não caber em um currículo já sobrecarregado de disciplinas e conteúdos. Ademais, poucos ambientes escolares oferecem espaços adequados para ensaios e apresentações, como auditórios ou palcos. A escassez de materiais para figurinos, iluminação e sonoplastia pode limitar também a qualidade das produções e, consequentemente, comprometer a qualidade do engajamento dos alunos. Em uma era dominada por tecnologias digitais, práticas como o teatro, que demandam tempo, dedicação e exposição pública, podem ser vistas como desinteressantes ou intimidadoras por muitos alunos.
A questão envolvendo a autoconfiança dos próprios estudantes também é um desafio a ser enfrentado. Muitos alunos podem se sentir desconfortáveis ou inseguros ao se apresentarem diante dos colegas, especialmente em idades em que a insegurança e a timidez são comuns. O medo de falhar ou de ser julgado pelos colegas constituem também barreiras comuns que podem dificultar a participação ativa, exigindo dos educadores uma abordagem cuidadosa para encorajar os alunos, construir um ambiente de confiança e possibilitar que eles se expressem de maneira autêntica e confiante.
Em síntese, o teatro na escola enfrenta diversos desafios práticos e pedagógicos que podem limitar o alcance e a profundidade das atividades propostas. O conjunto de habilidades exigidas pelo teatro, que vão além das competências habituais do currículo escolar, como expressão corporal, dicção, controle de palco e atuação, demanda uma orientação especializada dos professores. Para superar esses desafios, são necessárias estratégias criativas por parte dos professores e da escola, como o uso de adaptações interdisciplinares e o emprego de recursos visuais e tecnológicos que aproximem os estudantes desse universo literário.
No que concerne ao papel das escolas, é essencial que elas implementem estratégias que não apenas minimizem os obstáculos, mas que evidenciem o impacto educativo do teatro. Para tanto, uma abordagem inicial envolve a capacitação docente: oferecer oficinas específicas de expressão teatral, workshops de teatro educativo e expressão corporal, bem como metodologias interdisciplinares pode preparar os professores para conduzirem projetos com segurança e criatividade. Parcerias com artistas ou grupos teatrais locais também podem enriquecer o processo formativo tanto para professores quanto para alunos (Spolin, 2008).
Nesse contexto, a integração do teatro ao currículo regular pode facilitar sua implementação, e as atividades teatrais podem ser alinhadas a conteúdos de disciplinas como Língua Portuguesa, História e Arte, promovendo uma abordagem interdisciplinar e justificando seu uso dentro da carga horária existente. Além disso, é importante adotar abordagens inclusivas que considerem as necessidades emocionais dos estudantes, como a criação de um ambiente seguro e de apoio, onde os alunos possam explorar seus talentos sem medo de julgamento garantindo uma participação ativa, bem como estratégias como trabalhos em grupo, mentorias entre pares e dinâmicas que promovam a autoexpressão.
Outra forma de contribuir está no uso criativo dos espaços da escola como o pátio ou outras áreas comuns para realização de ensaios e apresentações. A criação de um espaço dedicado ao teatro, mesmo que simples, ajuda a estabelecer uma rotina de ensaios e demonstra o compromisso da escola com a atividade. A promoção de atividades colaborativas, como um projeto de equipe, ajudaria também no desenvolvimento de habilidades socioemocionais e no espírito de cooperação entre os estudantes. A escola pode orientar os alunos para trabalharem em grupo, distribuindo tarefas relacionadas à produção teatral, como cenografia, iluminação, figurino e direção. Dessa forma, todos os envolvidos desenvolvem suas habilidades em diversas áreas, mesmo aqueles que não atuam no palco podem convidar os pais e a comunidade para assistir às apresentações. Com isso, a escola valoriza o esforço dos alunos e cria um senso de propósito para a atividade. Esse envolvimento não só motiva os estudantes, como também fortalece os laços entre a escola e a comunidade, dando visibilidade ao trabalho realizado.
O teatro tem potencial de contribuir diretamente para o desenvolvimento de competências previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como citadas no planejamento. Por exemplo, ao representar personagens da literatura grega, os estudantes podem desenvolver competências como Empatia e Trabalho em Equipe: EF69LP50 - destaca a capacidade de adaptar e interpretar textos narrativos e poéticos, um componente essencial em atividades teatrais; Comunicação Oral e Escrita: EF69LP19 e EF69LP52 - estimulam a clareza na expressão oral e o uso de recursos linguísticos e paralinguísticos, fundamentais para as apresentações teatrais (Brasil, 2018).
Nesse sentido, é possível que as escolas desenvolvam estratégias que incentivem o amor pela leitura e pelo conhecimento, como o uso de adaptações teatrais interdisciplinares. A competição entre os grupos, fundamentada na tradição homérica, é um exemplo de como a gamificação pode ser utilizada para aumentar o engajamento e incentivar o esforço coletivo. A abordagem de um currículo multidisciplinar que incorpora diversas áreas do conhecimento, à semelhança do modelo grego, promove a formação de indivíduos versáteis e críticos. O planejamento contribui para o uso de metodologias ativas com técnicas como debates, discussões em grupo e estudos de caso, inspiradas no método socrático; e estimula o pensamento crítico e a participação ativa dos alunos. Além disso, pode estimular a valorização da cultura local, pois, assim como os gregos valorizavam sua tradição, é essencial que o currículo contemple o estudo da cultura e da história local, fortalecendo a identidade e o senso de pertencimento dos alunos.
Baseado na literatura clássica grega, o teatro oferece não apenas a oportunidade de reviver tradições culturais, mas também de desenvolver habilidades socioemocionais essenciais. Encenar personagens como Aquiles e Heitor promove o autoconhecimento, o autocontrole e a capacidade de compreender diferentes perspectivas. Ademais, trabalhar em equipe em um projeto teatral ensina aos alunos a importância da colaboração, da negociação e do respeito mútuo, elementos cruciais para a convivência em sociedade. Superar as barreiras e integrar o teatro de forma consistente, no ambiente escolar, são ações significativas para que a instituição enriqueça o currículo e promova uma educação mais completa que prepare os estudantes para desafios intelectuais, sociais e emocionais. Essa prática reafirma a relevância da literatura e do teatro como pilares do desenvolvimento humano integral.
Considerações finais
A atividade escolar planejada com base na literatura clássica grega, especificamente, na Ilíada, de Homero, e em Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, proporciona um retorno às origens da formação humanística ocidental. A cultura clássica grega, ao unir o desenvolvimento intelectual, moral e físico, oferece um modelo educacional que visa à formação integral do indivíduo, estabelecendo bases sólidas para o desenvolvimento de competências essenciais.
Nesse contexto, a literatura clássica grega faz parte de uma tradição, de uma linha mestra que conduz ao conhecimento por meio de questões importantes para o tema educação. Jaeger (2001) identificou a importância da literatura para formação do homem grego, mas deve-se ressaltar que a educação clássica não se limita a uma doutrina fechada e hermética de um só autor ou período da história. Outras referências de mesma importância como Miguel de Cervantes, Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Herman Melville, Machado de Assis, Graciliano Ramos, José de Alencar, Monteiro Lobato, Raquel de Queiroz, dentre outros, também são exemplos de inspiração para atividades teatrais no espaço escolar.
Para Frye (2017), a imaginação e a contribuição da educação, pela via poética, são incentivos à leitura dos clássicos desde a infância. Esse repertório contribuirá para o universo mítico que será vivenciado por gerações, sendo continuamente reinterpretado. Para isso, é importante pensar em uma estrutura de leitura guiada de modo que nada deve ser imposto, mas apenas orientado, respeitando as preferências e os interesses de crianças e jovens.
Apesar dos desafios, o maior objetivo de trabalhar com a literatura clássica na escola é cultivar o conhecimento pela arte, pela cultura e pela história. Trata-se do acesso a discussões de caráter atemporal pela abordagem de temas que foram tratados há mais de 2 mil anos e que, ainda hoje, possuem sua relevância. O ensino da literatura grega oferece uma oportunidade para que os alunos compreendam a importância de aprender com o passado e, ao mesmo tempo, reflitam sobre os desafios do presente. Se apresentadas de forma interessante, essas obras podem proporcionar às crianças e jovens o desenvolvimento de habilidades intelectuais e despertar sensibilidade cultural e apreciação pela riqueza do patrimônio cultural da humanidade.
É notório que cultivar o amor pelo conhecimento requer uma abordagem contínua e integrada. Com esse intuito, a escola deve ser um ambiente que desperte a curiosidade e o prazer pelo aprendizado, promovendo atividades que unam a teoria à prática, como a literatura e o teatro. Assim, a educação supera a transmissão de informações, formando indivíduos críticos, criativos e eticamente comprometidos com a sociedade (Pennac, 1994).
Para sublinhar um desafio contemporâneo, a busca do professor deve ser por uma formação que transcenda o âmbito acadêmico, especialmente quando este não proporciona uma formação completa e transformadora. Esse caminho intelectual próprio é também conectado a obras fundamentais que enriquecem o saber docente ao oferecer uma compreensão profunda da vida e das experiências humanas. Nesse contexto, a literatura torna-se essencial para ampliar os horizontes e nutrir o entendimento sobre o papel do educador. É crucial que o professor supere o comodismo dos cursos convencionais de graduação e pós-graduação e construa um percurso intelectual fundamentado em textos que iluminem o conhecimento e o saber coerente e rico em valores capazes de gerar experiências duradouras na vida dos estudantes.
Apresentar princípios e valores referentes à literatura clássica tem potencial para contribuir para o pensamento pedagógico da atual Educação, como se observa no planejamento da competição “Heróis de Troia e as virtudes do destino: uma jornada grega no teatro e na poesia”, que oferece uma oportunidade valiosa para o desenvolvimento dos alunos. Trata-se de fontes de ampliação de habilidades criativas e criadoras de processos metodológicos que estimulam o ensino-aprendizagem e instigam o senso crítico e de responsabilidade bem como o desenvolvimento da autonomia, da personalidade e da resolução de problemas.
A atividade teatral a partir de textos da literatura clássica no currículo convencional das escolas, embora desafiadora, oferece um caminho potente para a construção de competências intelectuais e socioemocionais e para a superação de limitações, demandando dos professores autonomia para o desenvolvimento de seus estudos e aprofundamentos na área, cujo foco deve ser a ampliação de sua visão docente e a construção de um currículo próprio que estimule a reflexão, a crítica e o aprendizado por meio da experiência.
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Revisão textual:
Normalização bibliográfica (APA 7ª Ed.), preparação e revisão textual em português: Maria Thereza Sampaio Lucinio <thesampaio@uol.com.br>Versão e revisão em língua inglesa: Roberto Candido <traducao@tikinet.com.br>
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1
Era chamado de Aquiles Pelida, por ser filho de Peleu, seu pai.
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2
A história de Pandora retrata uma mulher que recebeu vários presentes dos deuses, o que inclui curiosidade, beleza e talentos. E dentre os presentes tinha um jarro que continha todos os males do mundo, como a doença, a morte, o sofrimento e a inveja. Movida pela curiosidade que lhe foi concedida por um dos deuses, Pandora abriu o jarro e, ao fazê-lo, liberou esses males na Terra, afetando toda a humanidade. Apenas um único elemento permaneceu dentro do jarro após ela fechá-lo rapidamente: a esperança. O mito de Pandora ilustra uma explicação mitológica grega para a origem do sofrimento humano e das adversidades que enfrentamos. Ao abrir o jarro, Pandora trouxe o mal ao mundo, mas deixou a esperança como uma possibilidade de conforto e consolo para a humanidade.
Disponibilidade de dados:
Os dados estão disponíveis sob demanda dos pareceristas.
Referências
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- Frye, N. (2017). A imaginação educada (A. Teixeira, B. Geraidini & C. Gomes, Trad.). Vide Editorial.
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- Marrou, H-I. (2017). História da educação na Antiguidade Kírion.
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- Vernant, J-P. (2008). Mito e pensamento entre os gregos (H. Sarian, Trad.). Paz e Terra.
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Editores responsáveis:
Editor Associado: Adrián Cangi <https://orcid.org/0000-0002-0755-6699>Editora Chefe: Chantal Medaets <https://orcid.org/0000-0002-7834-3834>
