RESUMO
Com o aumento da taxa de suicídio de jovens e adolescentes, as escolas se veem obrigadas a encarar as temáticas morte, luto e suicídio. A partir da análise da série “Os 13 porquês” que trata dessas temáticas e por meio da psicologia analítica, apresentamos reflexões que podem abrir o debate sobre essas questões na escola. A análise da série seguiu os passos da análise de pesquisa qualitativa, com algumas adaptações: assistimos à série repetidas vezes, fizemos anotações, discutimos com especialistas, para finalmente, organizarmos as reflexões em categorias. Podemos concluir que, o/a enlutado/a por suicídio é alguém em sofrimento que também pode vislumbrar o suicídio como a saída para sua dor. No entanto, o apoio e a possibilidade de ressignificações no processo de luto serão operadores de sentidos que podem ajudar a/o enlutado/a a não focar na morte como única solução para o sofrimento. A instituição escolar pode atuar como facilitadora desse processo.
Palavras-chave:
suicídio; luto; escola
ABSTRACT
With the increase in the suicide rate of young people and adolescents, schools are forced to face the themes of death, mourning and suicide. From the analysis of the series “The 13 reasons why” that deals with these themes and through analytical psychology, we present reflections that can open the debate about these issues at school. The series analysis followed the steps of qualitative research analysis, with some adaptations: we watched the series repeatedly, took notes, discussed with specialists, and finally organized the reflections into categories. We can conclude that the person bereaved by suicide is someone in pain who can also envision suicide as a way out of his/her pain. However, support and the possibility of reframing the grieving process will be operators of meanings that can help the bereaved not to focus on death as the only solution to suffering. In this way, the school institution can act as a facilitator of this process.
Keywords:
suicide; grief; school
RESUMEN
Con el aumento de la tasa de suicidio de jóvenes y adolescentes, las escuelas se ven obligadas a encarar las temáticas muerte, luto y suicidio. A partir del análisis de la serie “Los 13 porqués” que trata esas temáticas y por intermedio de la psicología analítica, presentamos reflexiones que pueden abrir el debate sobre esas cuestiones en la escuela. El análisis de la serie siguió los pasos del análisis de investigación cualitativo, con algunas adaptaciones: asistimos la serie repetidas veces, hicimos anotaciones, discutimos con especialistas, para, finalmente, organizar las reflexiones en categorías. Podemos concluir que, el/la doliente por suicidio es alguien en sufrimiento que también puede vislumbrar el suicidio como la salida para su dolor. Sin embargo, el apoyo y la posibilidad de resignificaciones en el proceso de duelo serán operadores de sentidos que pueden ayudar la/el doliente a no enfocar la muerte como única solución para el sufrimiento. La institución escolar puede actuar como facilitadora de ese proceso.
Palabras clave:
suicidio; luto; escuela
INTRODUÇÃO
Segundo publicação da Organização das Nações Unidas1 de 2019, cerca de 800 mil pessoas se matam por ano, o que significa uma morte a cada 40 segundos. O suicídio tem sido a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, Cicogna, Hillesheim e Hallal (2019) notaram um aumento de 47% nas taxas de suicídio entre adolescentes e jovens de 10 a 19 anos, comparando-se o período de 2000 a 2015.
Embora o dado numérico não traga o drama e a profundidade de cada vida que se foi pelo autoextermínio e os impactos que isso deixou para o entorno, é evidente a necessidade de se estudar o assunto para melhor compreendê-lo e também para se construir mais caminhos de prevenção ao suicídio. Aqui, abordamos a prevenção do suicídio, tanto em sua acepção mais profunda quanto mais específica.
Em sentido amplo, prevenir a morte por autoaniquilamento diz respeito a toda e qualquer ação que melhore as condições de vida humana (Botega, 2015; Cassorla, 2017). Por outro lado, especificamente, podemos considerar prevenção também as intervenções mais pontuais como: campanhas que informam e propiciam o diálogo sobre o tema; divulgação da temática de modo responsável pela mídia; redução do acesso aos meios letais; investimento em saúde mental; apoio às pessoas enlutadas e/ou sobreviventes do suicídio, dentre outras possibilidades que podem ser criadas a partir de cada realidade na qual o suicídio se insere.
A escola pode ser também um espaço de criação de estratégias preventivas ao abordar a temática do suicídio de forma cuidadosa e conjunta com a comunidade escolar. Não é necessário esperar que um suicídio aconteça para que a escola coloque essa delicada temática em pauta. Falar do suicídio e entender que a ideação suicida tem sido muito presente em adolescentes e jovens é um importante caminho de prevenção. No entanto, a morte ainda é um tabu nas escolas e não é comum encontrarmos referências bibliográficas sobre como trabalhar a temática da morte e do luto em meio escolar (Alves & Kovács, 2016; Kovács, 2012).
Nesse sentido, pretendemos abordar as tentativas de suicídio, bem como o processo de luto por suicídio, por meio de cenas e diálogos (muitos deles em ambiente escolar) de uma série produzida pela Netflix: “Os 13 porquês” (Yorkey, 2017).
A análise da série foi realizada de modo similar às análises de pesquisa qualitativa, com entrevistas ou questionários abertos. Alves e Silva (1992), em um texto clássico, recomendam os seguintes passos para a realização de investigações qualitativas: (1) leituras exaustivas que permitam que os dados “impregnem” o/a pesquisador/a; (2) anotações de relações, interpretações, pontos críticos; (3) diálogo com outros/as pesquisadores/as para que a construção da análise do dado, embora não prescinda da subjetividade de quem analisa e interpreta, não caia no excesso de subjetivismo. A adaptação necessária para a análise da série envolveu, por parte dos/as autores/as, as seguintes etapas: (1) assistimos três vezes às duas temporadas da série analisada, separadamente; (2) fizemos anotações enquanto assistíamos à série; (3) realizamos reuniões sistemáticas de discussão e reflexão sobre a série entre nós e com pessoas convidadas, especialistas em algumas das temáticas abordadas na série, tais como bullying, juventude e saúde mental; (4) organizamos as ideias e cenas por meio de categorias de análise, que serão apresentadas no presente artigo, por meio de reflexões a partir da perspectiva da psicologia junguiana de suicídio e morte.
Concepções de morte e suicídio: ponto-de-vista junguiano
Nossas concepções de morte e suicídio partem das reflexões trazidas por Carl G. Jung (1946/1991) e James Hillman (1964/2016), nas quais a morte é vista como o oposto estruturante da própria vida, sem a qual a busca de sentido não se faz possível. Em todas as circunstâncias da vida, a certeza do fim é necessária para se viver o começo e o recomeço. Por outro lado, se vivemos em uma sociedade que teme e deseja enganar a morte como o próprio Sísifo2, há consequências de repetição para a estrutura psíquica, como o castigo que ele recebe dos deuses, pois a certeza da morte, no seu sentido de transformação da própria vida, engendra o nosso próprio potencial de transformação. Assim:
Começo e fim são aspectos inevitáveis de todos os processos. Todavia, se examinarmos de perto, verificamos que é extremamente difícil indicar onde começa e onde termina um processo, porque os acontecimentos e os processos, os começos e os fins constituem, no fundo, um contínuo indivisível (Jung, 1946/1991, p. 812).
Nesse sentido, Hillman (1964/2016) afirma que... “É na vida que surge o suicídio”, pois de algum modo, o suicídio é um impulso de transformação, uma vez que o desejo de morrer, na perspectiva junguiana, está relacionado com profundos significados simbólicos. Ou seja, o que uma pessoa em crise suicida quer matar dentro de si? Na sua vida, ao seu redor, no seu passado, nos seus pensamentos e/ou sentimentos? É inegável que há um desejo de matar uma vida falsa que não condiz com a sua alma e permitir que outra surja no lugar, o que fica claro na seguinte citação:
O suicídio é, então, o anseio para uma transformação rápida. Isto não é morte prematura, como poderia dizer a medicina, mas a reação tardia de uma vida entravada que não se transformou à medida que prosseguia. O indivíduo quer morrer imediatamente, e já, porque perdeu sua crise de morte antes (Hillman, 1964/2016, p. 85, destaque do autor).
Assim, se a pessoa em ideação suicida puder vivenciar as transformações que simbolicamente ela está buscando com a morte do corpo, esse desejo de autoaniquilamento pode se transformar.
A escola pode ser uma operadora dessas transformações? Escutar com atenção o que o público jovem e adolescente tem a dizer e debater suas questões não seria justamente uma forma de potencializar essas mudanças? A partir desses questionamentos, iremos refletir sobre a série “Os 13 porquês”, contextualizando as situações ambientadas na escola para pensar os seguintes pontos referentes ao suicídio: ideação suicida, tentativa e luto.
A série “Os 13 porquês”
A série “Os 13 porquês” é baseada em livro homônimo (Asher, 2009) que conta a história de uma jovem, chamada Hannah Becker, estudante do correspondente ao ensino médio nos Estados Unidos que se suicida e deixa 13 fitas cassetes direcionadas cada uma delas para uma pessoa da sua escola (12 são estudantes também e o último é o conselheiro da escola). As fitas narram os motivos de sua decisão de tirar a própria vida, focando uma ou mais situações vividas com a pessoa cuja gravação é dedicada.
A série tem quatro temporadas, lançadas anualmente desde 2017. Nosso objetivo neste artigo é analisar as duas primeiras temporadas, em que a questão do suicídio é uma temática central.
A 1ª temporada se aproxima bastante do livro com uma diferença importante: no livro, o personagem principal Clay Jensen, que está na 11ª fita, escuta todas as fitas de uma vez, sem interrupção, sem intervenções e sem diálogo com as outras pessoas indicadas nas fitas.
Na série, há uma complexa rede de intrigas e agressividade com clima constante de suspense, segredos e ameaças. Clay, além de viver um luto silencioso, tem alucinações frequentemente envolvendo Hannah e acusações de responsabilidade sobre a morte dela. Essa temporada mostra o impacto da morte de Hannah para todos/as os/as envolvidos/as nas fitas e nas histórias narradas nelas, mas sobretudo o receio de que as fitas sejam descobertas, já que elas denunciam bullying, humilhação, machismo, invasão de privacidade, desrespeito, várias ilegalidades e dois estupros (há um terceiro estupro na segunda temporada, mas isso acontece depois da gravação das fitas).
Além disso, na série, Clay vai em busca das pessoas acusadas em cada uma das fitas, a fim de saber se é verdade o que Hannah disse e, muitas vezes, se vinga desses/as acusados/as. Diferente do livro, em que não há acesso aos/às demais personagens, na série, é possível ver que a estratégia das fitas funciona como uma forma de Hannah ser ouvida por pessoas que a desprezaram. No entanto, isso não seria uma forma de romantização do suicídio, já que gravar as fitas envolveu a fantasia de como a morte e o conteúdo delas poderiam impactar aqueles/as que magoaram, humilharam e violentaram Hannah ou se omitiram diante do bullying que ela viveu? Essa romantização poderia funcionar como ‘gatilho’ para o suicídio - utilizamos gatilho como uma metáfora para falar de fatores e situações precipitantes da ideação ou do ato suicida.
Na 2ª temporada, não há nenhum embasamento no livro. Essa temporada começa com um suspense deixado nos últimos episódios da temporada anterior: há outra tentativa de suicídio. Alex Standall, que está na 3ª fita, tenta se matar e sobrevive com uma deficiência motora, sequela dessa tentativa.
Por um lado, se entendemos que o suicídio ou a tentativa de morte autoinfringida é uma mensagem, um gesto de comunicação (Marquetti, 2014), então, escutar o que essas pessoas queriam comunicar pode trazer muitos elementos para a compreensão do ato suicida, bem como pode instrumentalizar melhor os programas de prevenção do suicídio. Ainda que de forma problemática e controversa, a série em questão permite mergulhar no universo das motivações para o ato suicida.
No entanto, vale a pena ressaltar que especificamente em relação à temática do suicídio, tanto o livro quanto a série “Os 13 porquês” não seguiram as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS, 2000), nos seguintes pontos: não publicar cartas suicidas, não informar detalhes do método utilizado, não colocar o suicídio como algo glorioso ou atribuir culpados. Uma orientação cumprida pela série foi a de deixar informações sobre onde pedir ajuda. Ainda assim, pelo sucesso e alcance que a série teve sobretudo no lançamento da primeira temporada, julgamos proveitoso analisar seu conteúdo de modo a aproveitá-lo para ilustrar questões que envolvem o luto por suicídio, bem como as tentativas de autoextermínio.
As frases que iremos citar foram transcritas da dublagem em português da série. Elas estão em itálico, para marcar essa diferença em relação às outras citações e, obviamente, há o limite da falta de todo o contexto midiático em que ela foi produzida, ou seja, seu impacto que é uma experiência estética, não só racional e que não pode se reduzir às frases selecionadas. No entanto, entendemos que as frases podem exemplificar o caminho reflexivo que escolhemos para pensar as temáticas da tentativa de suicídio e do luto por suicídio a partir da série. Além disso, os personagens e contextos serão apresentados para que a reflexão sobre a série seja compreensível para aqueles/as que não a assistiram ou não se recordam dos detalhes.
O contexto escolar na série “Os 13 porquês” e a crise suicida
Logo após a morte de Hannah, a direção da escola faz, junto com a organização estudantil, uma campanha contra o suicídio com cartazes falando sobre a importância de buscar ajuda. A mensagem que a escola passa com essas ações é de que a responsabilidade pela morte de Hannah era unicamente dela mesma. No entanto, a 1ª temporada toda será exatamente construída para mostrar que Hannah foi vítima de uma série de violências, abandonos, traições, falsidades, humilhações, bullying etc. - grande parte dessas situações aconteceu no ambiente escolar ou estava correlacionada a ele.
A última fita gravada por Hannah, no mesmo dia em que se matou é direcionada para Porter, o conselheiro da escola. Ela disse, na fita, que ao procurar por ele estava dando à vida uma última chance. Porter mostra o quanto os adultos e a escola estão despreparados para lidar com alguém em sofrimento, que sinaliza que não quer mais viver, pois ele não consegue oferecer apoio a ela. Quando ela diz, nas entrelinhas, que sofreu um estupro, ele afirma que ela deveria esquecer ou denunciar à polícia - o que faz com que ela se feche novamente e vá embora.
No 12º episódio da 2ª temporada, ele diz que não teve formação para lidar com esse tipo de dificuldade, mas ao ser demitido, entrega para a direção uma lista de estudantes que precisam de atenção, justamente por uma possível fragilidade emocional.
Notamos que ao longo das duas temporadas, Porter se transforma enquanto personagem. A intenção da série com a construção desse personagem parece ser a possibilidade de os adultos se reposicionarem diante do sofrimento das/os jovens, indo além das aparências, o que fica claro no último episódio da segunda temporada, quando Porter diz: “Nem todo aluno que chega até você com dor sabe dizer onde dói. [...] Acham que o machucado deles nunca vai sarar. Então, eles não nos contam, fogem e tentam ser a pessoa que queremos que seja.”
Essa frase contém vários pontos importantes da relação estudantes-docentes: a complexidade da comunicação entre eles/as e o jogo de expectativas e aparências que enviesam os olhares e posturas de ambos os lados.
A comunicação, como já dissemos, é um dos pontos que fazem parte da complicada trama que envolve a ideação e o ato suicida. As aulas de Comunicação, ministradas pela profa. Bradley, foram um espaço em que isso se tornou evidente. As propostas da professora não impactaram as dificuldades de Hannah comunicar sua dor. Hannah deixa um bilhete anônimo em uma dinâmica dessas aulas, que demostrava que ela tinha pensamentos suicidas. A professora leu o bilhete em voz alta e citou lugares onde poderia obter ajuda, que Hannah não procurou. No tribunal, a professora diz que não procurou os pais para não abalar a confiança do/a estudante em questão.
Aqui, esse dilema evidencia a delicadeza da situação. Por um lado, é preciso não abalar a confiança da/o estudante, porém não dialogar com a família e demais pessoas vinculadas a ele ou ela, também não permite que estratégias coletivas, conjuntas com o/a estudante, sejam criadas para transformar as situações que estão facilitando a ideação suicida.
Na série, fica claro que a dificuldade em abordar o suicídio atinge a todos/as na comunidade escolar. Logo após a morte de Hannah, um estudante pede para não falar mais do assunto. Em outro momento, na 2ª temporada, quando Alex volta para escola, depois de um tempo em recuperação pela sua tentativa de suicídio, um colega o adverte de que não poderiam falar de suicídio na escola, porque a direção havia proibido. Tal proibição parece ser pelo medo do “contágio suicida” e infelizmente ainda é muito frequente na maioria das escolas. Isso fica claro em uma fala do diretor sobre Hannah: “Ela não foi uma heroína, não tem nada a ensinar.”
O medo de que um suicídio possa estimular outras tentativas ou suicídios efetivos é compreensivo e, desde as pesquisas de Durkheim (1897/2011) mostra-se uma realidade. No entanto, falar do assunto não significa estímulo ao suicídio, muito pelo contrário. Colocando em pauta as angústias que as pessoas em ideação suicida vivenciam sozinhas, novos significados são possíveis e com isso, outras alternativas podem ser viáveis, de modo que a própria morte não seja vista necessariamente como única solução.
Clay e uma forma de viver o luto por suicídio: alucinar
A vida dos/as enlutados/as por suicídio pode se tornar um caos pelas dificuldades que o processo de luto por suicídio traz. Na vida real, as motivações sobre a decisão de tirar a própria vida são levadas com a pessoa que partiu por suicídio. Ainda que ela deixe um bilhete ou carta de despedida, não é possível acessar o universo complexo de motivações que fez parte dessa decisão.
No entanto, esse questionamento continua atormentando o/a enlutado/a até que consiga fazer um processo de elaboração do seu luto em que as memórias de quem se foi possam encontrar lugar em meio a todos esses sentimentos e dores.
Nesse sentido, Fukumitsu (2018) pergunta: quem mata quem quando um suicídio acontece? Ou seja, para quem fica, há uma necessidade urgente de reconstrução dos sentidos da vida, uma vez que o suicídio de uma pessoa com quem se tem vínculo significa uma série de questionamentos e enfrentamento de sentimentos complexos, tais como culpa, vergonha, sensação de rejeição, medo de que o suicídio se repita na família ou com outras pessoas próximas etc.
Nesse sentido, especialistas em suicidologia têm utilizado o termo “sobrevivente” não apenas para as pessoas que tentaram se matar e sobreviveram, mas também para todas e todos aqueles/as que foram impactados/as com uma morte por suicídio, isto é, para os/as enlutados/as (Botega, 2015; Botega, Silveira, & Mauro, 2010; Fukumitsu & Kovács, 2016).
Uma diferença entre o luto por suicídio e outros tipos de luto está no apoio que as pessoas enlutadas por outro tipo de morte recebem, mas que os/as enlutados/as por suicídio relatam não receber. Muitas vezes por não saber o que dizer ou fazer, as pessoas próximas se afastam ou não tocam no assunto (Caselatto, 2018; Fukumitsu & Kovács, 2015).
Nesse sentido, o acolhimento da dor do/a enlutado/a com a validação do seu processo de sofrimento e ressignificação da vida pós perda, bem como a possibilidade de rituais de despedida ou de expressão da dor podem justamente combater esses malefícios da censura à expressão e, consequente, sofrimento de perda.
No caso da série, a maior parte dos personagens são enlutados. Três deles (Clay, Justin e Alex) anunciam o desejo de morrer em alguns momentos, o que mostra que considerar o/a enlutado/a como sobrevivente também é um cuidado no sentido de atentar para as possibilidades grandes dele/a também vir a fazer uma tentativa, como aconteceu com Alex e será comentado no próximo item. Algo que pode aumentar as chances de isso acontecer é justamente o/a enlutado/a não poder viver e/ou expressar seu sofrimento.
O luto não é doença, então não precisa ser tratado e não tem tempo certo para ocorrer (Guedes, 2018). O/A enlutado/a precisa ser acolhido/a em sua dor e sofrimento, mas também precisa aprender a pedir ajuda - esse processo pode ser facilitado por vias terapêuticas ou a vivência em um grupo de apoio.
De todo modo, o luto por suicídio vai exigir a necessidade de ressignificar vivências traumáticas e se reconciliar com a vida porque a morte fica imersa no cotidiano do/a enlutado/a. Esse é um processo lento, difícil e gradual, mas possível. As marcas do luto podem virar cicatrizes e levar a novos caminhos (Fukumitsu & Kovács, 2016).
A escola pode ser o cenário de fundo onde ocorre um suicídio ou pode ser o cenário principal, em que narrativas e experiência de preconceito, bullying, humilhação, assédio etc. estimulam as ideias suicidas. Seja em uma ou outra situação, ocorrida uma tentativa ou um suicídio efetivo, o ambiente escolar pode ser esse espaço de apoio mútuo para que estudantes, docentes e o corpo escolar como um todo, possa buscar novos sentidos ao ocorrido.
As autoras supracitadas analisam as falas de filhos/as de pessoas que se mataram e concluem: “O suicídio causa tanto impacto que não fica claro o que de fato se perde. A exatidão é abalada e, assim como a relação com aquele que se suicidou se modifica, a pessoa enlutada também muda” (Fukumitsu & Kovács, 2016, p. 9).
A questão do tempo e das marcas que ficam nos/as enlutados/as pode ficar clara na seguinte fala de uma mulher que perdeu o pai por suicídio aos 17 anos, na pesquisa de Fukumitsu e Kovács (2016): “Apesar de ter feito 15 anos, estou há 15 anos em terapia. Eu toco frequentemente no assunto do meu pai, quando falo no assunto, falo do suicídio, falo da minha relação com ele, falo da culpa” (p. 9).
De algum modo, é esperado que a expressão maior da dor se dê logo após a morte, no enterro ou sete dias depois, mas as expressões mais claras de dor após esse período não são permitidas socialmente. No entanto, a forma de se viver um luto é muito particular. Não há um tempo certo para as elaborações necessárias que conseguem transformar a dor em saudade. Caselatto (2018) alerta: “o luto não franqueado é fator de risco para complicações no processo de luto e favorece o desenvolvimento de distúrbios de ordem física e psíquica, resultantes da censura e da banalização da dor. (p. 213)”
Na série, Clay, em um momento de discussão com o amigo Tony, diz: “Você está alterado” e Clay responde: “Por que ninguém está alterado?”. Clay é o personagem que convida todos/as os/as outros/as envolvidos/as a viverem o luto pela morte de Hannah de forma mais verdadeira, principalmente pela expressão de sua raiva, mas para além da raiva, Clay vive o luto internamente por meio da alucinação. As alucinações visuais e auditivas são comuns em pessoas enlutadas (Worden, 2013).
Na 1ª temporada, as visões de Hannah estão relacionadas com o contexto em que elas aparecem: em alguns momentos, ela está nos corredores da escola, sala de aula, na quadra, no meio de um jogo, No entanto há uma mudança na 2ª temporada, pois a alucinação de Hannah passa a falar com Clay. Embora a alucinação seja um caminho que possibilita ao personagem elaborar a perda que está vivendo, será que a construção do roteiro nesse sentido não traz uma romantização do suicídio? O fato da alucinação de Clay dialogar com ele e se justificar porque se matou de alguma forma pode alimentar a fantasia de quem está em ideação suicida de controle e impacto na vida das pessoas ao seu redor.
Em alguns momentos, Clay diz para a alucinação de Hannah: “Nunca vou conseguir te perdoar”. Porém, no final da 2ª temporada, quando a família faz o enterro simbólico de Hannah em uma igreja alguns meses depois de sua morte, Clay faz o discurso que enlutados/as que passam por bons processos terapêuticos de elaboração do luto muitas vezes conseguem fazer:
A vida é dividida em antes e depois de Hannah [...] O que eu mais tenho medo é de te esquecer. A segunda coisa que eu mais tenho medo é de não conseguir te deixar partir. [...] Eu pergunto para ela todo dia porque ela fez o que fez. Mas eu não tenho a resposta. Ela levou a resposta com ela quando se foi. E me deixou. E deixou todos nós: bravos, vazios, confusos. E eu sei que essa dor nunca vai embora. Mas vai chegar um dia em que não vou sentir isso toda hora. A raiva não vai ser tão intensa, outros sentimentos vão sumir. E no fim só vai sobrar o amor. [...] Eu te amo e te deixo partir.
Após essa fala, a alucinação sai da igreja e não aparece mais. Outra cena interessante que evidencia o desenvolvimento do laço entre os/as personagens está no último episódio da 2ª temporada, durante um baile da escola, em que a maioria dos/as personagens principais está presente e muitos deles/as estão se divertindo. Há um abraço coletivo em Clay, quando é tocada a música dele e de Hannah, devido a outra festa, nesse mesmo lugar.
No decorrer da 1ª temporada, é construído um vínculo entre os/as personagens acusados/as nas fitas, o que fica claro nessa cena e que alcança grande parte dos personagens principais. Isso parece ser interessante porque mostra justamente aquela “costura vincular” que estava faltando entre eles/as e que faltou a Hannah: a possibilidade de dialogar com alguém, de desabafar, de permitir que a fala seja um caminho de elaboração do sofrimento, ou seja, de ter a sua dor vista, cuidada e respeitada.
Um tentante de suicídio que sobreviveu: Alex
Existem vários tipos de suicídio, tanto que alguns autores/as escrevem sempre no plural, tal como Bastos (2009). Há pessoas que anunciam claramente sua intenção e outras que não dão nenhum sinal de que estão pensando em se matar. Tanto em caso de tentativas frustradas ou fatais, para quem convive com o/a tentante, a dor, a culpa e a perplexidade estão presentes. No primeiro caso, por não ter agido a ponto de evitar a ação suicida (o que nem sempre é possível) e no segundo, por não ter percebido antes o quanto a pessoa não estava bem. Na série, Hannah mostra pequenos sinais, mas que não são explícitos. Já Alex que faz uma tentativa e sobrevive, anunciou em vários momentos que pensava em morrer. Isso vai aparecer tanto na 1ª temporada, quanto nas cenas retrospectivas da 2ª.
A tentativa de suicídio é uma situação complexa que também é revestida pelo tabu que envolve a morte autoinfringida efetiva. Se entendemos que o suicídio é uma mensagem, um gesto de comunicação, então, escutar o que essas pessoas queriam comunicar pode trazer muitos elementos para a compreensão do comportamento suicida, bem como pode instrumentalizar melhor os programas de prevenção do suicídio.
Alex é o personagem que mais demonstra culpa e um dos únicos a querer falar sobre as situações denunciadas por Hannah nas fitas. Como já dito no item anterior sobre luto, a culpa é um sentimento bastante presente em qualquer luto, sobretudo no luto por suicídio e que, com certeza dificulta o processo de elaboração, pois deixa a/o enlutada/o preso/a na fantasia do que poderia ter feito de diferente que levasse a um desfecho que não fosse a morte da pessoa querida. Não é fácil superar a culpa, mas somente superando-a de alguma forma, é possível que outras elaborações sobre tudo o que envolveu a vida e as possíveis motivações da pessoa que se matou ou que tentou se matar tenham lugar.
No caso de Alex, além da culpa demonstrada antes e depois da sua tentativa, ele tem sequelas físicas e emocionais da tentativa de suicídio. Ele não se lembra do que aconteceu um mês antes da tentativa. Não se lembra também do conteúdo das fitas. Ele vê a carta que deixou antes do ato suicida em que tinha escrito: “eu poderia ter impedido” e não consegue entender o porquê escreveu isso antes de tentar se matar. Esse mistério acompanha, praticamente, toda a 2ª temporada. Até que ele consegue se lembrar de que ouviu os gritos de Hannah no dia que ela foi estuprada.
Alex diz, em alguns momentos: “Não posso falhar nisso também”, se referindo à tentativa de suicídio frustrada, mas também a uma sensação de fracasso muito comum em tentantes.
Toda essa angústia dificilmente será simbolizada se o/a tentante não tiver apoio e acolhimento. Marquetti e Leite (2018) defendem que enfrentar a tentativa de suicídio e buscar nela, junto com o/a tentante, possíveis novos sentidos é permitir ao sujeito um reposicionamento diante de sua dor, pois a escuta pode facilitar a compreensão do ato suicida, uma vez que a verdade do sujeito precisa ser reconhecida. Os autores afirmam que, para algumas pessoas, é preciso chegar perto da morte para compreender a vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O ato suicida é um acontecimento complexo que envolve uma série de fatores, causas e consequências. Trata-se de um gesto de comunicação, embora represente a dificuldade de comunicação. Uma leitura do suicídio feita pela psicologia junguiana envolve questionar o que uma pessoa em crise suicida deseja matar dentro de si ou na sua vida. Ou seja, a ideação suicida esconde o potencial transformador da morte em vida, no sentido da necessidade imposta pela própria vida de mudarmos cotidianamente. Na ausência dessas mudanças, uma dor transformada em angústia existencial pode se tornar tão intensa que dá lugar a crise suicida. No entanto, o acolhimento dessa dor para que ela seja ressignificada pode diminuir a ideação suicida.
No caso do/a enlutado/a pelo suicídio, vale lembrar que ele/ela é alguém em sofrimento que também corre o risco de visualizar o suicídio como a saída para sua dor. Nesse sentido, é evidente que o apoio e a possibilidade de ressignificações no seu processo de luto serão operadores de novos sentidos que não valorizem a morte como a única saída.
O conjunto de estratégias cuidadosamente pensadas para pessoas enlutadas por suicídio ou instituições em que uma morte desse tipo aconteceu é chamado de posvenção (Fukumitsu & Kovácz, 2016; repsu, 2018). A realização desse trabalho deve ser feita por alguém de fora da instituição, ou seja, que não esteja enlutada e que seja capacitada para tal.
No caso das escolas, uma avaliação envolvendo a necessidade da comunidade escolar3 deve ser feita, com base nas situações que envolveram o suicídio, o perfil da pessoa que se foi, o impacto que essa morte teve sobre a comunidade escolar, a vulnerabilidade dos/as estudantes e equipe escolar, as crenças da escola etc. As atividades que decorrerão dessa avaliação podem envolver: palestras, rodas de conversa, grupos, atendimentos individuais, dentre outras. A ideia inicial aqui é permitir que se fale abertamente sobre a morte que aconteceu, os sentimentos que ficaram, pensar coletivamente sobre como cuidar dos/as que ficaram, sobretudo daqueles/as mais impactados/as com esse luto.
Em um segundo momento, é possível que reflexões sobre as fases comuns no processo de luto (e as particularidades do luto por suicídio) auxiliem as pessoas enlutadas a ir entendendo seus sentimentos, permitindo que a dor seja transformada. Após algum tempo, variável dentro do ritmo dos/as enlutados/as, é interessante que novas propostas que de alguma forma dialoguem com os projetos de vida da comunidade escolar possam ter lugar, tais como projetos de arte, cultura, música, educação ambiental etc. Essas novas ideias ajudam a reequilibrar, ainda que momentaneamente, o investimento energético (do ponto-de-vista psíquico) entre vida e morte, auxiliando na ressignificação das emoções, sentimentos, crenças no processo de luto.
Dessa forma, é importante que todas essas atividades sejam de participação espontânea para que, de fato, possam auxiliar na elaboração do luto. Por outro lado, a escola não precisa viver uma tentativa ou suicídio efetivo de um/a estudante para abordar o assunto, assim é possível trazer a temática para o ambiente escolar, ao longo de um processo delicado, para não o abordar de forma superficial e pontual. Nesse sentido, deixamos três sugestões de estratégias para iniciar o assunto suicídio nas escolas.
1) Um primeiro ponto é trazer a temática, primeiramente, para a comunidade escolar. De modo geral, o suicídio não é fácil de ser abordado pelos adultos também. Pode haver pessoas enlutadas ou em ideação suicida também na equipe escolar. Isso significa que os adultos também precisam ser cuidados para que o assunto chegue de forma refletida aos/às estudantes. Um processo formativo constante para equipe escolar pode facilitar que as expressões de sofrimento dos/as jovens não sejam julgadas, mas que também não fiquem ‘soltas’, sem apoio e orientação. Esse preparo maior por parte dos adultos pode auxiliar que os/as estudantes desenvolvam confiança para falarem de suas questões, de ideação suicida ou outros sofrimentos.
2) A partir dessa familiarização com o tema, é possível maior atenção para situações e estudantes que necessitem de cuidado, como por exemplo, mudanças de comportamentos, quedas de rendimento escolar e maior isolamento de algum/a estudante. Além disso, as temáticas que costumam estar associadas aos fatores predisponentes para crises suicidas, tais como término de relacionamento, bullying e cyberbullying (ou bullying virtual), período de provas pode ser mais debatidas e enfrentadas, facilitando para que a escola crie canais de comunicação em que a/o jovem se sinta confiança para lidar com suas emoções, ideias, projetos etc. Rodas de conversa podem ser um começo para efetivar essa estratégia. O bullying e cyberbullying são temáticas que além de serem abordadas precisam ser combatidas, para que o clima escolar vá superando estratégias comuns de violência escolar. A diminuição da violência escolar é um fator de prevenção do suicídio.
3) A escola também poderá utilizar peças de teatro, filmes ou séries que falam de suicídio para iniciar a discussão do tema, assim como dinâmicas em que os/as alunos/as digam o que eles/as gostariam de ouvir quando estão em dificuldades podem auxiliar o estreitamento do vínculo dos/as jovens com os adultos da equipe escolar. Para tal, as relações com familiares potencializam o diálogo com as necessidades dos/as jovens e suas ideias. Muitas vezes, os/as próprios estudantes têm ideias criativas para trazer temáticas complexas para o ambiente escolar. Palestras sobre saúde mental e pesquisas desenvolvidas pelas/os próprios estudantes também podem mobilizar o ambiente escolar para que haja um clima mais aberto ao assunto de modo delicado e com profundidade.
Todas essas estratégias e muitas outras podem fazer parte de novas pesquisas para que possamos aprender formas de manejo da ideação e crise suicida, em um trabalho constante de prevenção do suicídio também no ambiente escolar.
Enfim, concluímos que, tanto para estudantes em crise suicida quanto para escolas enlutadas por suicídio, o espaço escolar pode construir, ainda que não seja tarefa fácil, esse espaço de apoio, escuta, ressignificação que permita que da própria vida se expresse os anseios, medos, desejos em relação à morte, para que assim a morte não seja necessariamente a única forma de lidar com a vida.
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Personagem da mitologia grega que engana a morte por duas vezes e depois recebe como castigo a tarefa infinita de subir um monte carregando uma grande pedra, que sempre rola novamente para baixo. O filósofo Albert Camus (1942/2010) faz uma análise desse mito e o suicídio.
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Vale ressaltar que como comunidade escolar entendemos o corpo docente, administrativo, profissionais de limpeza e cozinha, estagiários/as etc.
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Dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação.
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