Open-access A PRODUÇÃO DO DESEJO NA ESQUIZOANÁLISE: FORMULAÇÕES E DELIMITAÇÕES CONCEITUAIS

LA PRODUCCIÓN DEL DESEO EN EL ESQUIZOANÁLISIS: FORMULACIONES CONCEPTUALES Y DELIMITACIONES

RESUMO

O presente artigo tem por objetivo apresentar a formulação do conceito de desejo na esquizoanálise, especialmente, na obra O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia, estabelecendo um contraponto à sua constituição na psicanálise, bem como à matriz representacional, hegemônica no Ocidente no campo filosófico, sendo suporte de diversas teorias. Para tanto, apresentamos inicialmente como a produção do conceito de desejo em Deleuze e Guattari se deu como um esforço argumentativo para sustentar sua dimensão produtiva, em oposição à sua constituição como falta na tradição psicanalítica. Além disso, o conceito de desejo é mais uma peça da engrenagem maquínico-desejante-rizomática que é a escrita antiedipiana, como modo de enfrentamento ao transcendentalismo presente na matriz representacional própria da tradição moderna ocidental. Em seguida, esclarecemos os usos originais de Deleuze e Guattari fazem das noções de máquina e produção, para dizer dos fluxos incessantes que operam através do inconsciente e de seus processos, cujo sustentáculo são as conexões com a exterioridade, contrariamente tanto ao representacionismo e idealismo derivados da tradição platônico-kantiana, quanto às operações simbólicas identitárias no estruturalismo psicanalítico. Por fim, a conceitualização do inconsciente freudiano é apresentada para compreendermos a dimensão da falta na constituição do desejo nesse sistema teórico. Concluímos que a esquizoanálise elaborou uma compreensão criativa e original do desejo como produção, através do empreendimento literário-filosófico pela escrita rizomática.

Palavras-chave:
Esquizoanálise; psicanálise; desejo

ABSTRACT

This article aimed to present the formulation of the concept of desire in schizoanalysis, especially in “Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia”, establishing a counterpoint to its constitution in psychoanalysis, as well as to the representational matrix, hegemonic in the Western philosophical field, and supporting several theories. Therefore, we initially present how the production of the concept of desire in Deleuze and Guattari occurred as an argumentative effort to sustain its productive dimension, in opposition to its constitution as a lack in psychoanalytic tradition. Furthermore, the concept of desire is another cog in the machinic-desiring-rhizomatic gear that is anti-Oedipal writing, as a way of confronting the transcendentalism present in the representational matrix of modern Western tradition. Next, we clarify Deleuze and Guattari’s original use of the notions of machine and production to describe the incessant flows that operate through the unconscious and its processes, whose foundations are connections with exteriority. This contrasts with both representationalism and idealism derived from the Platonic-Kantian tradition and the symbolic operations of identity in psychoanalytic structuralism. Finally, the conceptualization of the Freudian unconscious is presented to help us understand the dimension of lack in the constitution of desire in this theoretical framework. We conclude that schizoanalysis developed a creative and original understanding of desire as production through the literaryphilosophical enterprise of rhizomatic writing.

Keywords:
schizoanalysis; psychoanalysis; desire

RESUMEN

Este artículo tiene como objetivo presentar la formulación del concepto de deseo en el esquizoanálisis, especialmente en “O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia, estableciendo un contrapunto a su constitución en el psicoanálisis, así como a la matriz representacional, hegemónica en occidente en lo filosófico campo, apoyando varias teorías. Por tanto, presentamos inicialmente cómo la producción del concepto de deseo en Deleuze y Guattari tuvo lugar como un esfuerzo argumentativo para sostener su dimensión productiva, en oposición a su constitución como carencia en la tradición psicoanalítica. Además, el concepto de deseo es una pieza más del engranaje maquínico-deseante-rizomático que es la escritura antiedípica, como forma de confrontar el trascendentalismo presentes en la matriz representacional de la tradición occidental moderna. A continuación, aclaramos los usos originales de Deleuze y Guattari de las nociones de máquina y producción, para decir los flujos incesantes que operan a través del inconsciente y sus procesos, cuyo pilar son las conexiones con la exterioridad, contrario tanto al representacionalismo como al idealismo derivado del tradición platónica-kantiana, en cuanto a las operaciones simbólicas de la identidad en el estructuralismo psicoanalítico. Finalmente, se presenta la conceptualización del inconsciente freudiano para comprender la dimensión de carencia en la constitución del deseo en este sistema teórico. Concluimos que el esquizoanálisis desarrolló una comprensión creativa y original del deseo como producción, a través del emprendimiento literario-filosófico por la escritura rizomática.

Palabras-clave:
Esquizoanálisis; psicoanálisis; deseo

Introdução

A relação entre a esquizoanálise e a psicanálise possui tensões, sobretudo no que se refere à noção de desejo. Preteseille & Rosanvallon (2009) identificam em O Anti-Édipo uma postura filosófica imanentista que toma o ser e o pensamento, a natureza e o artificial como elementos indiscerníveis, justapostos em um mesmo plano de imanência. Nesse empreendimento literário-filosófico, o desejo funciona como um conceito estratégico, pois permite que Deleuze e Guattari (2010) articulem noções heterogêneas sob um mesmo plano teórico, deslocando-se da leitura do desejo como falta, propagada pela psicanálise lacaniana em voga na época.

O desejo surge assim como potência positiva em oposição ao desejo como negatividade, vinculado ao gozo impossível, à falta inerente e à descarga necessária que torna o sujeito como ser da falta. Tratando o desejo como um processo maquínico de produção imanente ao devir socio-histórico, os autores atribuem um valor positivo a esse conceito. Ou seja, este deixa de se relacionar com atributos psíquicos ou fantasmáticos para, diferentemente do que ocorre com certa tradição psicanalítica, designar um processo inerente à construção do real, produtivo e desejante. Processo que é força política, potência transformadora e produtiva, devir pulsante capaz de atos revolucionários que se exerce por meio da intensidade. Num diálogo com Claire Parnet, Deleuze argumenta: “O desejo não é [...] interior a um sujeito, tampouco tende para um objeto: é, estritamente, imanente a um plano ao qual ele não preexiste, a um plano que precisa ser construído, onde partículas se emitem, fluxos se conjugam” (Deleuze & Parnet, 1998, pp. 72-73).

Nesse fragmento, identificamos um esforço de demarcação da originalidade da concepção de desejo pela esquizoanálise. A máquina antiedipiana nos faz percorrer caminhos, senão inéditos, ao menos estranhos, rebeldes às matrizes de subjetivação dominantes no ocidente. Deleuze e Guattari (2010) convidam-nos a transitar por territórios, cujos contornos se dão à margem das ontologias que, explícita ou implicitamente, sustentam as dicotomias entre o sujeito e o objeto, a interioridade e a exterioridade, a representação e a realidade. Eles fazem isso enfatizando a dimensão das relações, afirmando a realidade como produzida em meio a fluxos intensivos e devires, em uma autocriação permanente movida pelo desejo. Dessa maneira, a realidade é, em si, uma produção desejante.

Segundo Holland (1999), o artifício lexical ‘produção desejante’ funciona como um composto de elementos oriundos de âmbitos teóricos distintos. Trata-se, na visão desse autor, de um acoplamento conceitual que produz um duplo efeito, a saber: ele psicanalisa um conceito tradicionalmente ligado ao marxismo, a produção, ao mesmo tempo em que historiciza um termo fortemente marcado pela interpretação psicanalítica: o desejo. Já para Sibertin-Blanc (2011), o conceito de produção desejante é utilizado para caracterizar um processo ‘autopoiético’ que integra a vida humana na unidade indissociável da natureza e da história, do humano e do não humano. Dessa maneira, a ideia de produção é evocada para escapar às abordagens que aproximam, respectivamente, o desejo das noções de objeto, de falta e dos conflitos derivados da vida interna do sujeito (psicanálise), e da realidade socio-histórica (freudo-marxismos de Wilhelm Reich e de Herbert Marcuse). Consiste, portanto, em um acoplamento conceitual montado para dissolver as formas de pensar o desejo em termos representacionais e/ou de oposições. Para Dumouliè (2005, p. 145), esse deslocamento do desejo efetuado pelos autores “[...] supõe um trabalho de desmistificação […] dos discursos hegemônicos e de toda pretensão de fazer do desejo um objeto de saber ou de poder”.

Gilles Deleuze e Félix Guattari. imputam aos pensadores René Descartes, Immanuel Kant e Sigmund Freud participação decisiva na constituição, reprodução e reformulação dos pressupostos que fundamentam a compreensão do homem moderno sobre a estrutura da realidade. Todavia, a articulação entre eles não se dá de maneira absoluta, isto é, como se as especificidades dessas teorias fossem irrelevantes face a uma suposta estrutura formal comum subjacente. Ao longo do texto antiedipiano, as maquinações construídas por esses autores têm diferentes nuances. Elas fazem parte de estratégias argumentativas atreladas, muitas vezes, a acoplamentos construídos a partir de domínios heterogêneos, tais como a filosofia, a psicanálise, a antropologia, a literatura e tantos outros. Em razão disso, a compreensão do que está sendo lido ocorre, em certo grau, quando chegamos à conclusão do argumento em uma seção ou mesmo ao fim de um capítulo, ou nem isso. O texto é uma multiplicidade ‘rizoforme’ que se desenvolve segundo os princípios de conexão e de heterogeneidade e suas ‘matérias’ não se deixam capturar por esquemas lineares de axiomatização (Andoka, 2012). Ainda nessa direção, Lee (2014) aponta que estas conexões entre diversos elementos que possuem dimensões próprias e conservam suas diferenças, trata-se de uma estratégia que consiste em reunir fragmentos e diversificar as intensidades e afetos para construir um plano de imanência, de coexistência dessas dimensões ao invés de dicotomias.

Diante desta constatação, privilegiamos uma das conexões de O Anti-Édipo, em especial, o problema do desejo para a psicanálise e para a esquizoanálise. Para tanto, seguimos os contornos que a problematização desse conceito contrai num fragmento do diálogo no qual Deleuze e Guattari - ao trabalharem os conceitos de máquina desejante e de inconsciente maquínico - estabelecem com Freud em torno da matriz representacional do pensamento e do inconsciente edipianizado.

O maquínico como crítica ao representacional e ao estrutural

Sibertin-Blanc (2010) sugere que as críticas antiedipianas endereçadas às interpretações idealistas, sejam elas travestidas de filosofia, psicanálise ou de freudo-marxismo, fazem parte da tática argumentativa que demonstra que as produções desejante e social estão interligadas e possuem uma identidade de natureza que se diferenciam apenas em função dos tipos de regimes. Para o autor, ambos os processos, o desejo e o social, incidem sobre um plano de imanência de modo a constituir um agenciamento maquínico.

O conceito de máquina cumpre, então, uma função estratégica na analítica da produção desejante e não deve ser visto como mero recurso metafórico. Deleuze e Guattari (2010) defendem essa prerrogativa já no início da obra: “Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões” (Deleuze, & Guattari, 2010, p. 11). Mais adiante, reforçam: “[...] as máquinas desejantes nada representam, nada significam, nada querem dizer, e são exatamente o que se faz delas, aquilo que se faz com elas, o que elas fazem em si mesmas” (Deleuze & Guattari, 2010, p. 380). Cabe destacar que este conceito de máquina se opõe ao estruturalismo, dominante na época, que se pautava pela ordem discursiva e pela transcendência do simbólico. Frente à estrutura, sistema de lugares dependentes entre si, cujas transformações só ocorrem em seu seio, eles propõem a máquina enfatizando seu funcionamento através de engrenagens, peças que se articulam ao mesmo tempo em que vão se fazendo; operador maquínico é processual, produtivo, produtor de singularidades e de irreversibilidades. Se a estrutura transcende o indivíduo e se apresenta como imutável, universal e invariante, cujas explicações remetem a ela mesma, a máquina convoca a exterioridade, realizando-se na maneira em que se conectam, em que se engendram, nas forças que existem ‘fora’ dela.

No entanto, é muito difícil, mesmo para o leitor mais benevolente, julgar que o termo não se trata efetivamente de uma metáfora. Segundo Zourabichvili (2005), esse viés interpretativo é justificável, uma vez que a compreensão do conceito exige que o leitor transponha certo número de significações que a palavra máquina alude, ou seja, tudo aquilo que envolve o domínio da técnica, para outro campo semântico governado pela significação de desejo. As coisas ficam ainda mais confusas se tomamos expressões como ‘Ânus solar’, que os autores mantêm em itálico. Assim, como ler esses sintagmas senão metaforicamente?

Zourabichvili (2005) tenta superar esse aparente contrassenso a partir de uma análise original. O autor convida-nos a compreender cada conceito deleuzo-guattariano como um dispositivo que detém a teoria de sua própria literalidade. Nessa perspectiva, o conceito de máquina funciona em três níveis. No primeiro, temos O Anti-Édipo como uma teoria das máquinas desejantes. Essa definição remete a outro nível que, por sua vez, consiste em levar o leitor a conectar-se com o livro e a produzir a máquina leitor-Anti-Édipo. Em um terceiro nível, temos ainda o próprio livro como ilustração de uma máquina desejante que aflora livremente.

Tomemos, por enquanto, o conceito de máquina em seu plano textual. Lá, ele se associa às ideias de linha de montagem, de produção e de engrenagens em funcionamento. Ora, não se trata de explicar o funcionamento inconsciente ‘como’ o de uma máquina, nem tampouco tratá-lo ‘como’ mecanismo técnico-instrumental que substitui, prolonga ou projeta a ação do homem na natureza. Para Deleuze e Guattari (2010), o inconsciente é uma máquina de produção conectada a outras máquinas que emite, corta e registra fluxos. O inconsciente opera conectando-se às coisas (animais, sexualidade, política...) em um devir maquínico imanente e não-linear desprovido de origem e orientação prévias. A máquina desejante é, portanto, tudo o que pode conectar-se ao infinito em todos os sentidos e direções (Antonioli, 2003).

O conceito de máquina funciona, sobretudo, como um dispositivo crítico-analítico utilizado para desmontar certas operações ligadas ao aparelho racionalista-representacional e, principalmente, para fazer frente ao paradigma estrutural, como apontado acima. O desejo como produção opera através de um inconsciente maquínico, sendo que este contrapõe-se a alguns aspectos da matriz de pensamento que criou as condições epistemológicas necessárias para a constituição das ciências do homem. Referimo-nos a Descartes, ou melhor, às noções de dualismo e de interioridade decorrentes do seu sistema filosófico. Vale lembrar que a revolução cartesiana inaugura uma inadequação entre a certeza e a verdade do cogito e a certeza e a verdade do mundo, isto é, uma dicotomia que contrapõe res cogitans (a subjetividade do espírito) com res extensa (a exterioridade do corpo) (Vaz, 2004).

Nesse esquema dualista, a racionalidade torna-se uma propriedade interna ao pensamento subjetivo que adquire, em razão disso, o estatuto de representação da realidade. Consequentemente, o conhecimento ‘do fora’ passa a ser mediado pelas ideias que temos dentro de nós; ou seja, temos aqui a supremacia da interioridade, à qual a exterioridade se curva. A ordem das representações deve, então, desenvolver-se de forma a gerar certeza, por meio do encadeamento de ideias claras e distintas que seguem uma ordem do menos ao mais complexo (Taylor, 1997).

Segundo Sibertin-Blanc (2010), Deleuze e Guattari filiam a psicanálise a uma tradição, cujos princípios são atualizados pelo cogito cartesiano, embora não se restrinja a ele. O modelo de inconsciente edipianizado, expressivo, trágico-mítico - que estabelece um paralelo entre o inconsciente e os seus derivados e vincula o desejo à noção de falta - é visto ironicamente pelos autores como uma espécie de filosofia idealista repaginada. Neste contexto, Freud é tratado como herdeiro de uma tradição filosófica inaugurada por Platão e criticada, mas não superada, por Kant. Na seção I.4.2, Deleuze e Guattari (2010) sustentam essa tese, por meio de uma série argumentativa constituída por três conjuntos de problematizações sobre a natureza do desejo. Primeiramente, eles explicitam em que medida o desejo em Platão pode ser considerado uma concepção idealista, tal como se lê no seguinte trecho:

[...] a lógica do desejo não acerta seu objeto desde o primeiro passo, aquele da divisão platônica que nos faz escolher entre produção e aquisição. Assim que colocamos o desejo do lado da aquisição, fazemos dele uma concepção idealista (dialética, niilista) que o determina, em primeiro lugar, como falta: falta de objeto, falta do objeto real (Deleuze & Guattari, 2010, p. 41).

Em seguida, eles fazem referência a Kant - ou melhor, à sua abordagem dos limites do conhecimento em a Crítica da faculdade do juízo (Kant, 1993), e concluem que a concepção kantiana de desejo “[...] não põe em questão a concepção clássica do desejo como falta, mas se apoia nela, escora-se nela, contentando-se em aprofundá-la” (Deleuze & Guattari, 2010, pp. 41-42). Finalmente, eles se dirigem à psicanálise freudiana fazendo dela a representante da vanguarda idealista. Desse modo, Deleuze e Guattari (2010) identificam na explicação sobre o princípio de causalidade do inconsciente um dualismo que prolonga a fórmula platônico-kantiana. Eles fazem uma bricolagem que sobrepõe, em uma mesma figura teórico-crítica, as aporias do sujeito transcendental kantiano e as teorizações freudianas sobre a instituição do princípio de realidade e sobre o inconsciente representacional.

As críticas realizadas nesse contexto visam, principalmente, a função que o conceito de falta exerce na definição de desejo. Na seção I.4.2, elas são assim formuladas:

Concebido […] como produção, mas produção de fantasmas, o desejo foi perfeitamente exposto pela psicanálise. No nível mais baixo da interpretação, isso significa que o objeto real que falta ao desejo remete […] a uma produção natural ou social extrínseca, ao passo que o desejo produz intrinsecamente um imaginário que vem duplicar a realidade, como se houvesse ‘um objeto sonhado atrás de cada objeto real’ ou uma produção mental atrás das produções reais [...] Disso deriva a apresentação do desejo como ‘apoiado’ nas necessidades, mantendo-se a produtividade do desejo sobre o fundo das necessidades e da sua relação de falta com o objeto [...] Em suma, quando se reduz a produção desejante a uma produção de fantasmas, contentamo-nos em tirar todas as consequências do princípio idealista que define o desejo como uma falta, e não como produção, produção ‘industrial’ (Deleuze & Guattari, 2010, pp. 42-43, grifo do autor).

Nesse excerto, Deleuze e Guattari (2010) fazem alusão à temática da satisfação originária e exploram algumas implicações teóricas e epistemológicas dessa narrativa na conceitualização do inconsciente. Para entendermos a natureza dessas implicações, devemos ter em mente a função que a experiência de satisfação exerce na constituição do aparelho psíquico freudiano. Julgamos que a caracterização desse processo é crucial, já que a ontologia que lhe dá sustentação serve para Deleuze e Guattari (2010) como contraponto à formulação do inconsciente maquínico. Vejamos, então, do que se trata tal satisfação.

Em busca da satisfação: o desejo como falta

Freud (1969, 1976, 2004,) explica que o sujeito nos primórdios da existência é incapaz de distinguir a realidade externa dos seus processos internos. Essa conquista decorre das sucessivas experimentações que o bebê realiza na tentativa de ficar livre de um desconforto, cuja fonte ele não distingue. Nesse estágio de desenvolvimento (‘eu-realidade’) não há, portanto, separação entre o sujeito e o objeto. Trata-se de um momento arcaico da constituição do sujeito, no qual o eu busca satisfação pulsional pela via do autoerotismo.

Todavia, os rudimentos dos processos que permitem ao sujeito delimitar as suas fronteiras com o mundo externo já estão presentes nesse estágio originário. Eles estão relacionados às ações musculares que a criança realiza com o intuito de se livrar daquilo que lhe causa desconforto. Paulatinamente, o ‘eu-realidade’ passa a distinguir quais estímulos ele consegue ou não evitar. A partir de um certo momento, ele contrai uma nova lógica de funcionamento regida pelo princípio de prazer. Dito de modo esquemático, quando isso se efetua, o ‘eu-realidade’ transforma-se em ‘eu-prazer purificado’.

A capacidade de o sujeito distinguir o que diz respeito aos mundos interno e externo segue seu curso com a instituição do ‘eu de prazer purificado’. Nesse estado, o bebê relaciona-se com o mundo por meio dos mecanismos de introjeção e de projeção. Ele tende a introjetar tudo o que vivencia como prazeroso e a expulsar o que não lhe convém. Um tipo de experiência exerce um papel crucial nessa clivagem. Referimo-nos aqui à experiência de satisfação originária, cujas marcas são determinantes na dinâmica de funcionamento do desejo. Em ‘Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico’, Freud a descreve assim:

[...] desde o início exigências imperiosas oriundas de necessidades internas do organismo perturbavam o estado de repouso psíquico. Nesse estado, de modo análogo ao que ainda hoje ocorre todas as noites com nossos pensamentos oníricos, o pensado (o desejado) apresentava-se simplesmente de forma alucinatória. Foi preciso que não ocorresse a satisfação esperada, que houvesse uma frustração, para que essa tentativa de satisfação pela via alucinatória fosse abandonada. Em vez de alucinar, o aparelho psíquico teve então de se decidir por conceber [vorzustellen] as circunstâncias reais presentes no mundo externo e passou a almejar uma modificação real deste (Freud, 2004, p. 66).

Freud (2007) sugere que o bebê, em decorrência de um súbito desconforto, tende a investir nas lembranças (as imagens do objeto e da ação associada à descarga da excitação) do que outrora lhe proporcionou satisfação. Essas lembranças se formam a partir do desconforto, das necessidades físicas internas, em que um primeiro atendimento, uma imagem ligada ao traço de memória da satisfação da necessidade, funciona como um elo para outros traços, fundando assim o aparelho psíquico (Freud, 1995). Essa reativação se dá pela via da imagem do objeto que por sua vez, possui para o sujeito um estatuto idêntico ao da percepção originária. Ela adquire, não obstante, um caráter alucinatório incapaz de satisfazer a demanda atual do organismo. O bebê ‘percebe’, então, que uma representação mental suscitada pela fome, por exemplo, não produz os mesmos efeitos no organismo como o alimento. Ele primeiramente alucina, mas deve ajustar as suas expectativas em relação à realidade para que consiga realizar uma ação eficaz, em certa medida, às suas necessidades.

A vivência de satisfação está atrelada, portanto, à condição humana do desamparo, uma vez que não podemos provocar a ação específica de suprimir o desconforto. Isso significa que o organismo não dispõe, originariamente, do aparato cognitivo-biológico que o possibilite, por si próprio, elicitar uma ação capaz de atenuar as tensões provindas das excitações endógenas. O teste da realidade exerce um papel decisivo nesse contexto, já que permite à criança pôr fim a um adiamento devido ao pensamento e realizar uma ação que vai ou não propiciar alguma satisfação (Freud, 1969).

Na visão de Laplanche e Pontalis (1991), Freud recorre à experiência de satisfação para explicar, dentre outras coisas, a origem do objeto perdido e, consequentemente, a função da falta na constituição do desejo. É importante frisar que a busca pelo objeto perdido não é totalmente suprimida, uma vez que, conforme esclarecem Laplanche e Pontalis (1991, p. 530), “[...] a imagem do objeto satisfatório assume então um valor eletivo na constituição do desejo do sujeito. Ela poderá ser reinvestida na ausência do objeto real (satisfação alucinatória do desejo) e irá guiar sempre a busca ulterior do objeto satisfatório”.

Segundo Garcia-Roza (2009), Freud emprega o termo Vorstellung para designar um tipo de representante pulsional produzido a partir da inscrição de um objeto no aparelho psíquico. Ele chama nossa atenção para o fato de que o uso freudiano da noção de representação é distinto do estabelecido pela tradição filosófica alemã, especialmente em Hegel. Entretanto, embora os empregos sejam diferentes, tanto para Kant quanto para Freud, a noção de representação, central nos discursos dominantes sobre o desejo, se insere em teorizações que visam explicar a constituição de um sujeito para o qual a realidade se dá sempre por meio de processamento. Enquanto que para Kant os dados da experiência sensível (‘coisa em si’) são organizados por categorias a priori da apercepção, para Freud os objetos, também inacessíveis pela via direta, são sobrecodificados e inscritos como representações no aparelho psíquico. Portanto, é nesse sentido que Deleuze e Guattari (2010) consideram Freud herdeiro de uma tradição do pensamento que, enraizada na lógica da representação, faz da falta o princípio causal do desejo. Os autores efetuam assim uma associação rizomática dos dois autores, que se encontram circundados pela negatividade e por homogeneizações endurecidas, separando o desejo da sua potência.

Entretanto, não satisfeitos em tratar a psicanálise freudiana como idealista, eles vão além. Como sugerimos na segunda parte do texto, o conceito de inconsciente maquínico é proposto, também, como dispositivo crítico dirigido aos modelos teóricos inspirados no estruturalismo francês, outra proposta hegemônica na época. Ele serve para Deleuze e Guattari (2010) criticarem o idealismo freudiano e, para surpresa de uns, o idealismo lacaniano. Não se trata, nesse caso, de problematizar, nem denunciar uma suposta lógica representacional reproduzida por Lacan, já que o formalismo linguístico-estrutural no qual ele se inspira para desenvolver a primeira parte do seu ensino não deriva da matriz do pensamento representacional. Com o ensino lacaniano, eles travam um embate, sobretudo, com as interlocuções que o psicanalista francês faz com a teoria hegeliana do desejo transmitida por Kojève (2002)5. É essa interface que funciona de modelo para Lacan fazer seu retorno criativo a Freud e desenvolver sua própria teoria do desejo inconsciente, em que Deleuze e Guattari (2010) identificam a faceta do idealismo.

Essa temática, sob o prisma de Deleuze e Guattari (2010), está no cerne do idealismo psicanalítico, que coloca a representação no centro do psiquismo, e se associa aos fantasmas, encenações de realização do desejo inconsciente correlativas à satisfação primária, cenas imaginárias em que este aparece se realizando. Longe então de romper com o princípio idealista da representação, a psicanálise se enreda nele ainda mais, já que concebe o desejo “[…] como aquilo que produz o fantasma e produz a si próprio separando-se do objeto, mas também reduplicando a falta, levando-a ao absoluto, fazendo dela uma incurável insuficiência de ser” (Deleuze & Guattari, 2010, p. 42).

Frente a esse modelo representacional-idealista, Deleuze e Guattari (2010) propõem o conceito de inconsciente real conectado aos processos sócio-históricos. Na verdade, eles reconhecem o mérito da invenção psicanalítica do desejo e da inovação da teoria, contudo, censuram o fechamento na representação e no Édipo; os autores de O Anti-Édipo tentam romper com a clivagem operada no desejo pela ação da falta, inaugurando, com isso, um novo campo conceitual. Essa tarefa não deve ser entendida como um jogo criativo que substitui processos psíquicos por metáforas inspiradas em termos político-econômico-industriais. A crítica dirigida ao idealismo psicanalítico tem como meta a afirmação de uma pragmática do desejo, que tem no conceito de máquina desejante o cerne de sua originalidade. Nessa direção, o desejo torna-se força política, potência transformadora e produtiva, devir pulsante capaz de atos revolucionários, pois busca sempre novas conexões, funcionando por exterioridade e não por interioridade. Ou seja, eles arremessam o desejo no campo do social, desatrelado-o da representação e de estruturas universais; desejo que se produz por agenciamentos, por engrenagens heterogêneas. Assim, toda produção é desejante, porque funciona segundo um processo que foi descoberto originariamente no campo psíquico do inconsciente, mas não se reduz a isso. Esse processo enfatiza que o desejo não é patrimônio do psíquico, mas sim um modo de funcionamento da realidade, o afirmando como produtivo, não restitutivo.

Vale ressaltar, que os usos que Deleuze e Guattari (2010) fazem de Freud não se restringem à problematização e/ou refutação teórica. O diálogo com o fundador da psicanálise é prolífico e funciona de diferentes maneiras, servindo, assim, a fins variados. O efeito cáustico da crítica endereçada a Freud é produzido principalmente nas interfaces estabelecidas com o inconsciente edipianizado. Algo que não sentimos quando os autores pinçam outros aspectos da teoria freudiana, como, por exemplo, a noção de processo primário, forma de funcionamento do real. Nesse caso, o diálogo com Freud assume um valor positivo-criativo e é uma peça importante para entendermos o funcionamento das máquinas desejantes, unidades elementares que realizam o desejo como processo produtivo.

As tramas do desejo entre conexões e conclusões

Ao longo do texto analisamos alguns aspectos envolvidos num fragmento do diálogo que Deleuze e Guattari (2010) estabelecem com a psicanálise em O Anti-Édipo com o intuito de problematizar o desejo nesse contexto. No trecho que selecionamos para analisar as concepções de desejo na esquizoanálise e na psicanálise, os autores fazem do “[...] princípio idealista que define o desejo como uma falta” (Deleuze & Guattari, 2010, p. 43) o mote que serve de contraponto para discutir o conceito de inconsciente maquínico. Eles defendem a tese de que a noção de desejo em Freud nada mais é do que a atualização de uma tradição idealista que tem Platão e Kant como precursores.

Nota-se, entretanto, que a maneira como Deleuze e Guattari (2010) usam o termo idealismo parece, à primeira vista, extremamente genérica e, ao mesmo tempo, simplificadora. Isso porque tratar Platão, Kant e Freud como integrantes do idealismo seria uma interpretação não apenas incorreta, como extremamente reducionista. Será que os autores tratam diferentes sistemas de pensamento como semelhantes? Avaliamos que não, e temos razões para pensar desse jeito, sobretudo porque os autores tratam os conceitos como possibilidades, afirmando que estes possuem coordenadas textuais definidas conforme os tipos de problemas que cada autor procura responder e insistindo no caráter associativo e inventivo dos mesmos, importante lição que eles nos ensinam sobre a criação conceitual em O que é a filosofia? (Deleuze & Guattari, 1992).

Para sustentar o desejo como potência afirmativa e não como falta, Deleuze e Guattari (2010) utilizam um estilo da escrita rizomática, desenvolvendo os temas e os conceitos em um sistema aberto objetivando contrapor os discursos hegemônicos. Para concluir, sabemos que, quando operamos um recorte sobre o texto corremos o risco, se atribuirmos ao que lemos um valor absoluto, de identificar simplificações que não se aplicam quando consideramos o texto no seu conjunto. Esse é o risco que assumimos quando decidimos analisar a noção de desejo na psicanálise e na esquizoanálise com base em um único fragmento de O Anti-Édipo.

A análise aqui empreendida nos permitiu compreender que a concepção do desejo é como desejo do outro - reintroduzida no seio da teorização do inconsciente estruturado com uma linguagem -, que liga, na visão de Deleuze e Guattari (2010), os idealismos de Lacan ao de Platão, Kant e Freud. No fim das contas, e apesar de tantos deslocamentos teóricos, a psicanálise não passa de uma concepção idealista do desejo como falta, como carência, primado da negatividade. Pensamentos que se deslocam da proposta dos autores que defendem o desejo como força vital que não comporta nenhuma limitação ou representação.

A máquina deleuzo-guattariana, diferentemente do inconsciente edipianizado e do estruturado como uma linguagem, conecta o homem e a natureza para tentar formar uma unidade desprovida de qualquer resíduo de subjetividade transcendente, dicotomia ou de desconexão. O homem-máquina acopla-se a outras máquinas para formar agenciamentos horizontais de superfície que nada representam, metaforizam e apenas funcionam. O desejo não é falta e nem é causado por ela, e deve ser libertado dessa premissa, pois sua única lei é produzir sempre o produzir, isto é, inserir o produzir no produto de tal modo que não haja mais diferença entre esses termos. Fica nítido, então, a quais pressupostos Guattari (1988) ataca ao afirmar que o inconsciente é constituído por uma trama que:

[...] não seria senão o próprio possível, o possível à flor da linguagem, mas também o possível à flor da pele, à flor do socius, à flor do cosmos [...] por que colar-lhe esta etiqueta de inconsciente maquínico? Simplesmente para sublinhar que está povoado não somente de imagens e de palavras, mas também de todas as espécies de maquinismos que o conduzem a produzir e reproduzir essas imagens e palavras (Guattari, 1988, p. 10).

Evocar o maquínico é um modo de enfatizar que a produção, seja ela desejante ou social, “[...] é a mesma produção, mas sob dois regimes diferentes” (Deleuze & Guattari, 2010, p. 504), recolocando o real como algo que se produz entre fluxos moleculares e estratos molares, não relacionado a um plano idealista produzido por uma falta primordial. Esse pensamento possui a potencialidade de nos voltarmos aos processos, não aos objetos, que se engendram mutuamente através das máquinas desejantes, sociais, técnicas, artísticas etc. e desviarmo-nos de suas fixações nos estratos molares que subjugam os modos de existir, de viver e de relacionar. Trata-se de voltarmo-nos à coextensividade produtiva entre desejo e social.

[…] a produção social é unicamente a própria produção desejante em condições determinadas. Dizemos que o campo social é imediatamente percorrido pelo desejo, que é o seu produto historicamente determinado, e que a libido não tem necessidade de mediação ou sublimação alguma, de operação psíquica alguma e de transformação alguma para investir as forças produtivas e as relações de produção. Há tão somente o desejo e o social, e nada mais (Deleuze & Guattari, 2010, p. 46).

Assim, o inconsciente maquínico nos faz percorrer intensidades e adentrar universos transformacionais, em vez de reprodutivos e estratificados em funções edípicas e representações. Trata-se de um processo de enunciação maquínica que atravessa dimensões heterogêneas - não apenas psíquicas -, abrindo-se a engrenagens variadas e inventivas.

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  • 5
    Lembremos que o conceito de Desejo (Begierde) exerce um papel crucial no sistema filosófico que Hegel desenvolve para explicar o processo da identidade da consciência em sua luta pelo reconhecimento. Para Hegel, o desejo é fator antropogênico, ligado a um processo dialético pelo qual o indivíduo pode constituir-se como um Eu humano livre, consciente de si e da sua historicidade. O Desejo é sempre mediatizado por outro desejo, uma vez que, “[...] para que haja consciência-de-si, é preciso que o desejo se dirija a um objeto não-natural, algo que ultrapasse a realidade dada. Ora, a única coisa que ultrapassa o real dado é o próprio desejo” (Kojève, 2002, p. 12).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    02 Jul 2021
  • Aceito
    21 Nov 2022
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