Open-access DESAFIOS DA PARENTALIDADE NOS PRIMEIROS MESES DA PANDEMIA DE COVID-191

DESAFÍOS DE LA PARENTALIDAD EN LOS PRIMEROS MESES DE LA PANDEMIA DE COVID-19

RESUMO

Distanciamento social é uma das medidas preconizadas pelas autoridades sanitárias para conter a disseminação do SARS-CoV-2. O imperativo do confinamento doméstico desencadeou profundas alterações na rotina das famílias, impondo novos desafios ao exercício da parentalidade. Mães se viram, repentinamente, responsáveis pelo acompanhamento escolar dos filhos no cenário doméstico, simultaneamente com a manutenção de seu trabalho por via remota. Este estudo tem como objetivo compreender as repercussões do confinamento provocado pela COVID-19 sobre a parentalidade e as práticas de cuidado de crianças. Foram realizadas entrevistas individuais por meio digital com 20 mães de 29 a 45 anos. Os dados foram agrupados e categorizados por meio da análise temática. Concluímos que a crise sanitária global precipitou novas demandas de cuidados dos filhos em idade escolar. Rupturas e (des)continuidades da rotina afetaram de forma diferenciada os membros da família, gerando sofrimento psíquico em mães e filhos em meio a um cenário de ameaças difusas e incertezas em relação ao futuro.

Palavras-chave:
COVID-19; isolamento social; parentalidade

ABSTRACT

Social distancing is one of the measures recommended by health authorities to contain the spread of the SARS-CoV-2. The imperative of domestic confinement has unleashed profound changes in the routine of families, imposing news challenges to the exercise of parenthood. Mothers have suddenly found themselves responsible for the schooling of their children in the domestic setting, simultaneously with the maintenance of their work remotely. This study aims to understand the repercussions of the confinement caused by COVID-19 on parenting and childcare practices. Individual interviews were conducted by digital means with 20 mothers aged 29 to 45. The findings were grouped and categorized by thematic analysis. We conclude that global health crisis precipitated new demands for school-age child care. Ruptures and (dis)continuities in the routine affected the family members in different ways, generating psychic suffering in mothers and children amidst a scenario of diffuse threats and uncertainties regarding the future.

Keywords:
COVID-19; social isolation; parenting

RESUMEN

El distanciamiento social es una de las medidas recomendadas por las autoridades sanitarias para contener la propagación del SARS-CoV-2. El imperativo del encierro doméstico ha provocado profundos cambios en la rutina de las familias, imponiendo nuevos retos al ejercicio de la paternidad. Las madres se han encontrado de repente con la responsabilidad de la asistencia escolar de sus hijos en el ámbito doméstico, simultáneamente con el mantenimiento de su trabajo a distancia. Este estudio pretende comprender las repercusiones del confinamiento provocado por el COVID-19 en las prácticas de crianza y cuidado de los niños. Se realizaron entrevistas individuales por medios digitales a 20 madres de entre 29 y 45 años. Los datos se agruparon y clasificaron mediante un análisis temático. Concluimos que la crisis sanitaria mundial precipitó nuevas demandas de atención a los niños en edad escolar. Las rupturas y (dis)continuidades en la rutina afectaron a los miembros de la familia de diferentes maneras, generando sufrimiento psíquico en madres e hijos en medio del escenario de amenazas difusas e incertidumbres respecto al futuro.

Palabras clave:
COVID-19; aislamiento social; cuidado parental

Introdução

O ritmo exponencial de propagação do vírus SARS-CoV-2, agente etiológico da COVID-19, a partir de 2020, resultou em intensas e súbitas transformações no cotidiano das pessoas. Trata-se de uma doença infecciosa, altamente contagiosa e até então desconhecida, para a qual não existia, no início, uma vacina para proteção da população ou medicamento com comprovada eficácia para combater seus sintomas (Barlett et al., 2020; Sola et al., 2023). A COVID-19 não se limita a um problema de saúde, dadas as suas repercussões sistêmicas (Oliveira et al., 2020a), que acarretaram um choque sem precedentes nas sociedades e economias, desencadeando uma crise que atingiu, especialmente, os grupos vulneráveis (Sola et al., 2024). Toda a população foi afetada, embora de modo desproporcional. Mulheres, em particular, estiveram no centro dos esforços de resposta à pandemia (United Nations Women, 2020).

O distanciamento social foi adotado pelas autoridades sanitárias dos países afetados pela pandemia, incluindo o Brasil, e resultou no fechamento abrupto das escolas, estádios e alojamentos, suspensão do trabalho e do comércio não essencial, cancelamento de voos e viagens, com restrição expressiva da movimentação e circulação da população (Oliveira-Cardoso et al., 2020). No cenário doméstico, com a suspensão das aulas e a adoção do home office na maior parte do mercado formal de trabalho, houve intensificação das interações familiares. A educação, nos níveis fundamental e médio, adotou o ensino remoto, imputando às famílias a responsabilidade pelo acompanhamento e viabilização das aulas e tarefas didáticas. Assim, o espaço doméstico compartilhado passou a concentrar as atividades de trabalho dos adultos, de educação e estudos dos filhos e do lazer, o que gerou tensionamentos na vida familiar, sobretudo, nas relações parento-filiais (Fundação Oswaldo Cruz, 2020; Oliveira et al., 2021), sobrecarregando as mulheres, principais responsáveis pelo cuidado.

Considerações psicanalíticas acerca da parentalidade

A parentalidade é um campo profícuo para reflexões sobre os impactos subjetivos da pandemia. Esse construto passou a ser utilizado no campo psicanalítico na França, na década de 1960, para definir a experiência de tornar-se pai e mãe (Gorin et al., 2015). A construção psíquica da parentalidade articula os projetos constituídos no imaginário parental sobre os filhos, as relações afetivas estabelecidas no percurso de seu desenvolvimento e as questões sociais e econômicas que compõem o modo como são construídos os vínculos. Pensar a experiência de parentalidade no contexto da pandemia exige um esforço reflexivo sobre as diversas singularidades que as famílias vivenciam no cenário atual, de modo a apreender sua importância nos processos de constituição subjetiva, tema que atravessa a obra de Freud até os autores contemporâneos. Ao tratar do vínculo com a figura materna, Freud (1996) considera que a mãe é “[...] estabelecida por toda a vida como o primeiro e mais forte objeto amoroso e como protótipo de todas as relações posteriores” (Freud, 1996, p. 202). Entretecidas com as reflexões apresentadas neste texto, as teorizações sobre o complexo de Édipo e o narcisismo trouxeram contribuições para a compreensão do processo de constituição subjetiva e de como as experiências iniciais têm ressonâncias na vida adulta, além de reverberarem na relação que o sujeito estabelece com a realidade externa e nos vínculos estabelecidos em seu percurso de vida.

A constituição psíquica do sujeito se dá a partir dos vínculos iniciais e do modo particular como a criança se insere no contexto familiar. Desde os primórdios da formação do vínculo conjugal entre o par amoroso, a criança permeia o imaginário dos pais e, antes mesmo de sua chegada, já é parte do psiquismo familiar (Lebovici, 2004). Na construção do vínculo parento-filial são fixadas as fundações das relações interpessoais; esse vínculo atua como organizador do psiquismo infantil, servindo como rede de amparo e de subjetivações conscientes e inconscientes determinantes para a constituição psíquica da criança. Assim, o “[...] psiquismo familiar tem como objetivo auxiliar a criança a construir experiências psíquicas próprias, processar melhor suas angústias e, principalmente, permitir e contribuir para a constituição do seu mundo interno” (Scholz et al., 2015, p. 17).

Ao abordar a parentalidade é necessário considerar que as figuras materna e paterna desempenham papéis distintos no processo de subjetivação, cada qual por meio do exercício de suas funções, igualmente relevantes e complementares na constituição do psiquismo infantil (Simões & Santos, 2021). O exercício harmonioso dessas funções possibilita a construção de um tecido vincular no qual a criança pode se sentir sustentada para ‘ser no mundo’ (Winnicott, 2021). Os cuidados são oferecidos em um espaço intersubjetivo que configura o ambiente familiar, que por sua vez está inserido no contexto macrossocial com suas teceduras, nuances e características próprias. Porém, o filho não é reservatório passivo dos cuidados parentais que recebe, mas um ser ativo em interação com os pais e o mundo.

O cuidado parental é o elemento articulador que intersecciona o passado da herança familiar, as experiências vividas no presente e as expectativas futuras, configurando a experiência singular da parentalidade e da filiação. O aparelho psíquico parental precede o sujeito que, ao nascer, já se vê inserido em um grupo e no jogo vincular que o antecede, sendo herdeiro e portador dos anseios e do ideal de continuidade do grupo e, reciprocamente, o conjunto é a trama que sustenta o lugar simbólico a ser ocupado pela criança (Kaës, 2011).

Parentalidade e pandemia: tecendo reflexões no calor da hora

Durante a primeira onda da pandemia, a população mais jovem foi considerada de menor risco para desenvolver complicações graves em decorrência da exposição ao novo coronavírus. A despeito dessa aparente menor suscetibilidade às manifestações mais severas da COVID-19, crianças e adolescentes compõem uma das populações mais vulneráveis ao impacto emocional de eventos traumáticos que perturbam suas vidas diárias. Tal situação reforça a importância dos papéis parentais para o enfrentamento da crise sanitária na esfera familiar (Bartlett et al., 2020). Assim, é essencial levar em consideração o grau de sofrimento latente das crianças e jovens, desencadeado e/ou agravado pelas mudanças disruptivas na rotina familiar e na dinâmica social (Oliveira et al., 2020b, 2020c).

Para pensar as condições subjetivas de crianças e pais vivendo a experiência inédita de uma situação de pandemia, é imperioso levar em consideração o caráter de construção histórica da família e atentar para o fato de que as reações despertadas pela excepcionalidade da situação pandêmica refletem o lugar ocupado pela experiência de crise no aparelho psíquico familiar (Kaës, 2011). A instituição familiar passou por profundas transformações no decorrer das últimas décadas, em consonância com as mudanças sociais e culturais que impactaram o mundo do trabalho e o conhecimento científico. Vivencia-se também um processo de transformação das experiências vinculares, que repercute nos modos como se configuram subjetivamente o vínculo parento-filial na contemporaneidade.

Alguns marcadores sócio-históricos são considerados decisivos para compreensão desse processo, como a conquista pela mulher do controle sobre o próprio corpo a partir da regulação da contracepção com a pílula anticoncepcional, direito ao divórcio e à inserção maciça da mão de obra feminina no mercado de trabalho. No Brasil, as mulheres representam dois terços da força de trabalho envolvida em atividades de cuidado remuneradas (Santos et al., 2020a).

O contexto recente de transformações na organização familiar resultou na ascensão do protagonismo da figura materna e concomitante enfraquecimento e declínio da figura paterna (Simões & Santos, 2021). Diante de tantas mutações a família contemporânea pode ser considerada um lugar de poder descentralizado e horizontal, pautado nos valores contemporâneos do individualismo, da indiferenciação geracional e da lógica consumista (Roudinesco, 2003). Esses fenômenos têm alterado os modos de cuidado, tornando os vínculos familiares mais frágeis e instáveis, resultando em novos contornos para a constituição subjetiva.

Face a tais considerações, este estudo tem como objetivo compreender as repercussões do confinamento provocado pela pandemia de COVID-19 sobre a parentalidade e as práticas de cuidado de crianças.

Método

Trata-se de um estudo transversal, descritivo-exploratório com abordagem qualitativa.

Participantes

O corpus de pesquisa foi constituído por 20 mulheres adultas, mães e trabalhadoras, com idades entre 29 e 45 anos, provenientes de diferentes municípios do interior paulista. Os critérios de elegibilidade foram: ser mãe de pelo menos uma criança de até dez anos de idade, ter vínculo empregatício ativo e estar trabalhando em home office durante os primeiros meses da pandemia. Foram excluídas mulheres que estavam em trabalho remoto apenas parcialmente ou profissionalmente inativas. A coleta de dados foi interrompida quando foi alcançada a saturação dos dados (Fontanella et al., 2011). Do total, 13 mulheres eram casadas e viviam com o marido, duas solteiras que moravam na casa dos pais e cinco divorciadas, responsáveis pelo cuidado das crianças em tempo integral. O número de filhos variou de um a três e a renda familiar de 3 a 25 mil reais.

Instrumentos

Formulário de dados sociodemográficos: composto por itens como idade, escolaridade, religião, profissão, renda, estado civil, número e idade dos filhos, constituição familiar.

Entrevista aberta: iniciada por uma questão disparadora: ‘Conte-me sobre suas experiências em família com o isolamento social decorrente da pandemia’.

Procedimento

A coleta de dados foi realizada entre abril e julho de 2020. As entrevistadas foram arregimentadas por meio do procedimento de amostragem conhecido como ‘bola de neve’, iniciado com uma primeira indicação de terceiros. A partir da primeira entrevista, foram indicados outros nomes de participantes, e assim sucessivamente (Maia, 2020).

As entrevistas foram realizadas por meio de plataforma digital ou por chamada de vídeo/áudio em aplicativo de smartphone, respeitando-se a preferência das participantes, com duração média de 90 minutos. Foram gravadas digitalmente e transcritas na íntegra.

A análise dos dados se baseou na proposta da análise de conteúdo temática, de acordo com os seis passos propostos por Braun e Clarke (2006), que compreendem um minucioso percurso que vai da pré-análise e exploração do material até o tratamento dos resultados obtidos, com base no referencial teórico adotado. Desse modo, as entrevistas foram lidas e relidas exaustivamente em busca de recorrências nos conteúdos. Após esta etapa exploratória, os dados foram organizados em unidades de significado, que resultaram em categorias temáticas. Tais categorias foram construídas a partir do consenso intersubjetivo entre três pesquisadores e permitiram dar visibilidade à perspectiva das mães com filhos em etapas iniciais do desenvolvimento em meio à pandemia da COVID-19.

O foco foi colocado nos significados atribuídos às repercussões do confinamento provocado pela COVID-19 sobre a parentalidade e os cuidados das crianças. Com base no marco teórico e no objetivo do estudo, a análise envolveu a articulação entre as categorias obtidas e a produção científica sobre a temática da maternidade na contemporaneidade, na confluência de perspectivas psicológicas, sociológicas e antropológicas, tendo como eixo ordenador as teorizações da Psicanálise das Configurações Vinculares (Kaës, 2011).

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética, CAEE no. 30248920.8.0000.5401.

Resultados e discussão

A análise temática permitiu elaborar duas categorias, que sintetizam os desafios do exercício da parentalidade no cenário pandêmico e seus impactos nas práticas de cuidado infantil e nos vínculos familiares.

Revisão de prioridades e ideais: novos desafios da parentalidade em meio à pandemia

O enfrentamento da situação crítica deflagrada pela crise sanitária colocou em xeque alguns ideais e o modo como eles se configuravam nas famílias até a irrupção da pandemia. Percebemos nos relatos das participantes que o núcleo familiar se organizava basicamente em torno do trabalho, da escola e de alguns valores relacionados à busca de realização pessoal. Parte expressiva dos investimentos maternos se concentrava na obtenção de ganho financeiro para atender aos ideais materiais de consumo para assegurar o conforto da família, enquanto que o cuidado com os filhos pequenos era delegado a outras pessoas da rede pessoal de apoio social - babás, avós, irmãos mais velhos - ou instituições de suporte, como escola e creche. Essa organização demarca a experiência da parentalidade. Os pais, ao atenderem os anseios de sustento econômico da família, dão concretude a determinados valores e ideais, buscando ser reconhecidos como ‘bons pais’. Com o advento da pandemia, algumas mães começaram a desconfiar das fragilidades dos ideais nos quais se apoiavam seu modo de vida.

A pandemia veio e tirou todo o eixo em que giravam os nossos planos. De um dia para o outro não tinha escola, não tinha viagem, não tinha visita à casa dos avós. Ficamos sozinhos, trancados em casa, com a responsabilidade de nos proteger, de proteger nossos filhos e, ainda, de cuidar para que passassem por essa experiência sem grandes danos [...] (Beatriz, 45 anos, artista plástica).

Outras mães sintetizam as ressonâncias subjetivas desse momento peculiar das famílias: “[...] ficamos praticamente as crianças e eu juntas 24 horas” (Maíra, 35 anos, gerente de banco). “Vejo como sou importante para ela. Como preciso aguentar firme para não deixar transparecer que estou com medo. Preciso passar segurança e alegria” (Talita, 37 anos, professora).

Um dado relevante para compreender o impacto emocional da pandemia nas famílias são os índices alarmantes de desemprego no Brasil. A paralisação da economia gerou rápida deterioração das condições econômicas das famílias. Considerando que 87,4% das famílias brasileiras têm arranjo monoparental (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2014) e que as mães necessitam exercer atividades laborais fora de casa, com o fechamento repentino de escolas e creches as entrevistadas se viram em uma situação de não ter com quem deixar os filhos enquanto trabalhavam. Ao mesmo tempo, percebem que nem sempre conseguem auxiliá-los a contento com as aulas remotas.

Assim, ao discutir a pandemia no Brasil, é preciso levar em consideração que o cenário de desigualdade social no país repercute em disparidades na saúde, colocando em maior risco as famílias economicamente desprivilegiadas, uma vez que questões como empregabilidade, renda, acesso a saneamento básico e alimentação de qualidade impactam diretamente a saúde. Nessas condições, o exercício da parentalidade torna-se ainda mais desafiador para mães que exercem atividade remunerada, uma vez que a crise sistêmica explicita iniquidades preexistentes. Em alguns casos pode-se pensar a parentalidade no sentido da luta cotidiana de mães pela sobrevivência, buscando assegurar as condições materiais para que seus filhos tenham suas necessidades básicas garantidas e que se mantenham em segurança enquanto elas trabalham, pois lhes cabe o papel de prover a subsistência familiar. Nesse cenário, o fechamento das escolas é uma barreira para seguirem com seu trabalho com a segurança que tinham antes.

Zanetti e Gomes (2011) apontam a ‘fragilização das funções parentais’, referindo-se aos impasses vivenciados pelos pais na contemporaneidade. Atravessados por pressões de discursos culturais, modelos de conduta, prescrições de especialistas e imperativos sociais, as mães se encontram absorvidas por inúmeras exigências, o que gera insegurança e dificuldades em exercer as funções de cuidado. Muitas vezes elas demandam dos profissionais de educação e saúde orientações para lidarem com seus filhos.

Diante de um cenário contemporâneo marcado pelo consumismo e individualismo, enfraquecimento da figura paterna e do poder patriarcal, a figura materna se vê sobrecarregada: “Me sinto sobrecarregada com todas as ocupações, velhas e novas” (Paula, 36 anos, advogada). “[...] às vezes me sinto sobrecarregada, sem esperança e muito preocupada” (Lívia, 39 anos, comerciante). “Me sinto angustiada, exausta” (Laura, 38 anos, contadora). A situação fica ainda mais complexa com as novas demandas que emergem em tempos de pandemia. ‘Novas ocupações’ (cuidar dos filhos em tempo integral, sem apoio externo) são introduzidas por força das circunstâncias e se acumulam com ‘velhas ocupações’ (serviços domésticos) que já faziam parte da rotina familiar.

As restrições de circulação acarretam a centralização dos cuidados das crianças no ambiente familiar. As participantes referiram que o excesso de responsabilidades em suas mãos as deixava inseguras e temerosas. Percebiam que, pelo fato de sempre terem trabalhado fora de casa, os filhos tendem a se tornar excessivamente autônomos, precocemente imbuídos de responsabilidades, além de exigentes. Essa ‘inversão de papéis’ é outra marca do cuidar de filhos na atualidade: os descendentes ‘amadurecem’ mais cedo, desenvolvem autossuficência, como se eles ‘se fizessem por si mesmos’, muitas vezes por estarem entregues à própria sorte, e nesse quadro idealizado, tendem a ser pensados ​pelos adultos como se encarnassem a fonte idealizada de conhecimento e poder.

Os relatos maternos sugerem que essa conjuntura social que predomina no capitalismo avançado tem se tornado mais exacerbada nos tempos de excepcionalidade em que vivemos, exigindo uma renegociação das regras pactuadas anteriormente por pais e filhos diante da premência de sobreviver à crise emergencial e se fortalecer diante das adversidades. Como referiu Beatriz, os pais tentam ser figuras inspiradoras de confiança e segurança para seus filhos; além de protegê-los, sentem que precisam poupá-los de eventuais traumas e devem “[...] cuidar para que passem por essa experiência [pandemia] sem grandes danos”.

Me sinto muito cobrada, me sinto com medo, angustiada, sem apoio e ainda penso o tempo todo no impacto disso na vida do meu filho. Quero ser a melhor mãe para ele nesse período, mas não sei se vou conseguir, me sinto frágil, parece que virei um cristal, ou uma geleia mesmo [risos nervosos] (Beatriz, 45 anos, artista plástica).

Lúcia narra seu sofrimento atroz: “[...] fico estressada, tenho crises de choro diárias, a pandemia parece que intensifica tudo e fico morrendo de medo deles pegarem o vírus. Passo álcool gel em todo mundo, em tudo, é até engraçado [...]” (Lúcia, comerciante, 35 anos).

Com o maior tempo de convívio familiar, as demandas, inquietações, dúvidas e curiosidades dos filhos se aguçaram. Nesse contexto, a pressão sobre as mães é redobrada, o que as leva a reavaliarem seu compromisso com a criação dos filhos.

Eu sinto que estou tendo uma oportunidade de ter maior proximidade com o meu filho. Isso me deixa insegura? Muito! Mas, ao mesmo tempo, tem detalhes que consigo perceber agora que, no dia-a-dia, eu não percebia. Eles me abraçam e dizem: “vai ficar tudo bem, mamãe?” E eu choro. Choro de medo, choro de angústia de não estar passando confiança para eles, mas, ao mesmo tempo, eu tenho consciência do meu papel de mãe, sinto que tenho que ser forte, que segurar as pontas para eles e essa nossa proximidade me fortalece pra tocar pra frente (Bruna, 37 anos, advogada, grifo nosso).

A pandemia acarretou mudanças nos papéis sociais e ocupacionais. Observa-se que as mães avaliam positivamente a oportunidade de olharem de um modo diferente para o vínculo, o que possibilita aberturas no cotidiano para ressignificarem suas relações. As apreensões são muitas, mas também há esperança de que os novos desafios possam fortalecê-las e que elas consigam permanecer ‘inteiras’, conforme exprimiu uma mãe. A situação atual criou a oportunidade de mudarem o entendimento que tinham e de reposicionarem o lugar de referência que ocupam na família, o que faz aparecer o desejo de flexibilização de papéis e a possibilidade de ressignificarem o lugar parental, ocupando-o com mais leveza. As mães relatam que passaram a valorizar mais a atitude de abertura ao diálogo e à afetividade, como meio de mitigar os efeitos negativos do confinamento no desenvolvimento infantil.

Pesquisas apontam os impactos do confinamento na saúde mental da população (Moura et al., 2022; Oliveira et al., 2020a; Souza et al., 2020). Sintomas de ansiedade, depressão e estresse podem ser potencializados pela restrição da liberdade, falta de controle sobre os acontecimentos e ausência de perspectiva para a solução da crise. Os dados denotam que as mães se percebem sobrecarregadas e suscetíveis a manifestações de sofrimento. Isso emergiu em falas pungentes nas quais manifestam que a pressão (‘cobrança’) é cada vez maior e que percebem que o apoio que recebem é insuficiente, o que incrementa sentimentos negativos, como angústia e temor de não darem conta de atender todas as demandas.

Com o prolongamento da crise sanitária e a manutenção das medidas de restrição à circulação e interação social, o estresse e a sobrecarga das famílias tendem a aumentar (Oliveira et al., 2021). A maioria das participantes relatou alguma queixa relacionada, sobretudo, a sintomas de ansiedade. Para tentar reduzir os impactos emocionais e ‘controlar os nervos’, as mães recorriam a estratégias de alívio do estresse, como relaxamento, caminhada, oração e busca de atividades prazerosas.

Fragilidades e (des)continuidades dos vínculos no cenário do distanciamento social

Algumas fragilidades vinculares, possivelmente preexistentes, vieram à tona ou foram explicitadas com a situação de confinamento. O fechamento de creches e escolas onerou sobremaneira às já super atarefadas mães. A situação de crise e anomia, por outro lado, expôs certas mazelas que o sistema produtivo, via de regra, mantém ocultas. O trabalho doméstico das mulheres ainda é desvalorizado e recoberto pelo manto da invisibilização, o que contribui para manter as opressões a que o gênero feminino está submetido no cotidiano. Com a explosão global da pandemia, esse cenário ganha novos contornos e uma expressão dramática, com mulheres exauridas no afã de dar conta de supervisionar atividades escolares dos filhos, nos mesmos espaços e horários em que trabalham em home office, cuidam da casa, da alimentação, saúde e vestuário da família, geralmente sozinhas. Beatriz sintetizou esse impasse decorrente da sobreposição de inúmeros papéis e funções: “Me sinto muito cobrada e com medo, me sinto angustiada, sem apoio [...]”.

Ao examinar a expansão do trabalho feminino nas últimas décadas, nota-se que as mulheres passaram a experimentar um acúmulo crescente de papéis e funções que se agregaram aos encargos domésticos tradicionais que sempre estiveram em suas mãos. O ingresso das mulheres no mercado de trabalho ampliou as assimetrias de gênero e as desvantagens enfrentadas frente aos privilégios masculinos (Braga et al., 2020). As mulheres passaram a agregar o papel de trabalhadora e a compartilhar a responsabilidade pelo sustento da família, e continuaram a assumir solitariamente as atividades afeitas ao espaço privado. A divisão social do trabalho não só prossegue injusta, como aprofunda as iniquidades de gênero.

Como se isso não bastasse, pelo enfraquecimento e declínio do poder patriarcal, observa-se aumento crescente dos índices de violência doméstica contra as mulheres e do registro de feminicídio (Oliveira et al., 2020b). Uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência física e/ou sexual em todo o mundo (Hirata, 2015), o que convida a pensar no quanto a dominação masculina contribui para definir o modo de inserção das mulheres no mercado de trabalho, marcado pelo desvalor da força de trabalho feminino, que se reflete na remuneração inferior e na naturalização da feminização das atividades vinculadas ao cuidado, incluindo a educação das crianças (Braga et al., 2020).

Ao articular essas ideias ao cenário da pandemia, não resta dúvida de que a experiência aguda da crise ajuda a explicitar as fraturas e a fragilidade da vincularidade na forma atual do capitalismo avançado (Santos et al., 2020b). Isso transparece no excerto de fala emocionada de uma das participantes:

[...] A pandemia é como se fosse um “presta atenção” pessoal: “ei, olhe a vida, você tem que ser forte, tem alguém que depende de você, se frustre, se feche, olhe tudo ao seu redor”. Nossa, como é difícil fazer isso, né? A gente vê como a gente é pequena, como a gente não tem suporte nenhum para viver essas situações. Mas com quem a gente pode contar? Nossa, é muito forte tudo o que estamos vivendo... sem perspectivas, sem saber o que será de nós daqui pra frente. Nossa, que medo! (Lúcia, 35 anos, comerciante, grifo nosso).

O tom emocional que atravessa esse depoimento se repete em todas as entrevistas e aponta na mesma direção: a pandemia abriu um horizonte de incertezas e as mulheres que têm filhos para educarem sentem mais intensamente a magnitude de suas responsabilidades. Relatam dificuldades em exercer o lugar de continência, empatia e solidariedade com a dor do outro, habilidades que são inerentes ao trabalho de fortalecimento do tecido vincular no qual o sujeito precisa se sentir apoiado para que possa confiar genuinamente no mundo e no futuro, especialmente em momentos de crise (Kaës, 2011). Por outro lado, são fomentadas as reflexões críticas que sugerem as potencialidades transformadoras do momento pandêmico. Algumas mães se questionam se estaria a humanidade diante de uma oportunidade de ouro para se pensar os destinos do planeta, das relações humanas, da gestão do trabalho e dos afetos. Também se pode olhar para a experiência perturbadora da pandemia como uma alavanca para o questionamento da produção da ‘normalidade’ que se tinha até então e, portanto, um chamado para a reflexão a respeito de um tecido vincular esburacado (Benghozi, 2010), com a fragilização do papel das figuras parentais, que são estruturantes do psiquismo infantil. A crise instaurada possibilitou um olhar para os lugares parentais, alertando para a urgência de ocupá-los com outros sentidos, redimensionando o significado dos legados intergeracionais.

Uma das mães empregou em seu relato o termo ‘chamamento’ diante das demandas atuais dos filhos. Ela percebeu que, mesmo amedrontada e temerosa em relação ao futuro e à vida, precisava se manter firme e estar disponível para os filhos, porque era uma figura que inspirava segurança para as crianças e o ‘estar junto’ se mostrava mais do que nunca importante para preservar a coesão familiar. Essa mãe sentia que estava conseguindo se reorganizar ao gerenciar seu tempo diante da vida corrida e dos dias que se sucediam uns aos outros, muitas vezes passando despercebidos. Mesmo sem poder ainda discriminar com clareza as demandas dos filhos e dela própria, as solicitações que emanavam dessa conexão entre mãe e crianças estavam sendo organizadoras para a subjetividade dela.

Nesse relato, assim como em outros, percebe-se que a pandemia, com sua tragédia anunciada em um contexto de múltiplos traumatismos sociais, pode ser entendida como uma ‘convocação’, um chamado à presença afetiva, cuidadosa, compartilhada e solidária, destacando a importância do encontro revelador com uma parentalidade que pode ser vivida como potência de cuidado, atenção, confiança e criatividade na tentativa de assegurar a linha de continuidade do ser no mundo (Winnicott, 2021). A experiência da pandemia ‘convoca’ mães e filhos a ocuparem outro lugar de conexão das maneiras possíveis de se reinventarem em suas formas próprias de se vincularem e serem mães.

É verdade que os avanços obtidos nas últimas décadas forneceram oportunidades de questionamento dos lugares historicamente construídos no modelo patriarcal de família, impondo a necessidade de reorganização das tarefas domésticas e das funções exercidas pelo casal parental, o que em tese colaboraria para maior horizontalidade na relação entre os parceiros. Porém, apesar das transformações do lugar ocupado pela mulher no espaço privado, o que a escuta das participantes deste estudo evidenciou é que ainda é tímido o compartilhamento das tarefas domésticas pelo homem das camadas médias, pois é flagrante a sobrecarga de responsabilidades que já recaíam sobre o gênero feminino mesmo antes da pandemia. Esse achado é consistente com a literatura (Braga et al., 2020; Macêdo, 2020; Souza et al., 2020), apontando para uma dimensão de vulnerabilidade que precisa receber atenção das políticas públicas.

Com a descontinuidade da vida institucional, as famílias não contam mais com a rede de apoio e proteção oferecidos pelas instituições de cuidados dos filhos, o que incrementa a condição de sobrecarga parental. A literatura sobre parentalidade em situações de conflagração, cenários de guerra e desastres naturais aponta para a importância das habilidades parentais de favorecer uma comunicação aberta e sincera com os filhos, fortalecendo os vínculos familiares por meio do apoio, acompanhamento e orientação nos estudos, lazer, alimentação, dentre outras atividades (Bartlett et al., 2020; Wang et al., 2020). Mas a parentalidade é um processo aberto, um dispositivo vincular tecido na história do casal parental com o nascimento dos filhos, inserido no contexto sociofamiliar delineado por cada cultura e profundamente marcado por essas características.

Os desafios enfrentados pela parentalidade no momento pandêmico fomentam reflexões sobre a crise do cuidado em um cenário de instabilidade e incertezas agravadas pelo desconhecimento de uma realidade que interpela a capacidade humana de lidar com conflitos. Por exemplo, não se sabe quase nada sobre os possíveis efeitos da COVID-19 e possíveis sequelas no desenvolvimento infantil de crianças acometidas (Barlett et al., 2020). Outro aspecto digno de atenção é que a pandemia visibiliza a necessidade de pensar o cuidado de si das mulheres de meia idade que são mães, como um caminho para a possível mitigação de condições vulnerabilizantes no desenvolvimento das crianças, por meio da criação de práticas suportivas e emancipatórias, afirmando a produção do cuidado como um espaço de respeito pela vida. Desse modo, é preciso problematizar os impactos subjetivos das práticas de cuidado durante a pandemia da COVID-19, com foco no direito na proteção das mulheres (Souza et al., 2020), nas demandas subjetivas, com um olhar para o cuidar de quem cuida.

Articulando os resultados obtidos

O fechamento compulsório das escolas privou os filhos do contato regular com amigos e professores. A isso se somaram as dúvidas parentais quanto à preservação das condições de saúde dos entes queridos, as perdas financeiras e possíveis tensões nos relacionamentos, fomentando incertezas e temores quanto ao futuro. O prolongamento das medidas restritivas de contato social e a imprevisibilidade em relação ao retorno às atividades regulares, como as aulas presenciais, amplificam o cenário de instabilidade. Diante de tais experiências, os pais são desafiados a aumentar sua sensibilidade a novas demandas emocionais dos filhos e necessitam ter disponibilidade para oferecer apoio e sustentação em frequência e intensidade maiores do que estavam habituados até então.

Estudos têm evidenciado que o aumento da sobrecarga de trabalho doméstico e o acúmulo de tarefas de cuidado voltado aos familiares - crianças, idosos e doentes - têm recaído quase que exclusivamente sobre as mulheres (Braga et al., 2020; Macêdo, 2020; Souza et al., 2020). Somado a isso, as medidas restritivas de acesso aos grupos de convívio habitual têm impossibilitado que mulheres interajam em espaços externos de trocas e que usufruam plenamente de suas redes de suporte social. Contudo, ainda há pouca divulgação de dados que permitam estimar o impacto dos marcadores de gênero e étnico-raciais sobre a disseminação dos efeitos da pandemia nos grupos que se encontram em situação de vulnerabilidade (Braga et al., 2020).

O imperativo do confinamento levou as famílias a voltarem subitamente sua atenção para o interior de suas casas, em um movimento centrípeto que retira o investimento dos objetos externos. O espaço doméstico se converteu em um território híbrido, múltiplo e compartilhado, interseccionando diferentes cenários que anteriormente eram separados (trabalho, escola, socialização, descanso, lazer), resultando em acúmulo das tarefas de cuidado com a casa e a alimentação (Braga et al., 2020; Macêdo, 2020). A distribuição assimétrica de papéis familiares faz com que os impactos dessa experiência não sejam proporcionais, e muito menos igualitários. O excesso de tarefas domésticas onera desproporcionalmente a vida da mulher trabalhadora, tensionando a divisão entre espaço público e privado, que aliás sempre permeou a construção da identidade feminina. Com a nova realidade, as dificuldades de atender os ideais superegoicos do que seria supostamente uma ‘boa mãe’ e uma ‘boa profissional’ expõem as mulheres a situações de conflito e sofrimento, exacerbando sentimentos de culpa e angústias relacionadas a essas experiências (Rocha-Coutinho, 2011). O desejo de dar o melhor de si foi manifestado por várias mães, como Beatriz, uma das entrevistadas, que disse: “[...] quero ser a melhor mãe para ele nesse período, mas não sei se vou conseguir”. No entanto, o trabalho feminino e sua relação com a maternidade foram socialmente construídos como antagônicos, como se um fosse impedimento para o outro. A autoexigência, que parece ser exacerbada em tempos de pandemia, contribui para fragilizar a mulher, como transparece na expressão utilizada por Beatriz: “[...] me sinto angustiada [...] frágil [...] parece que virei um cristal”.

Desse modo, concluímos que a experiência insólita da pandemia parece reativar conflitos latentes, explicitando as contradições enfrentadas cotidianamente pelas mães no exercício de suas múltiplas funções, gerando tensionamentos que algumas vezes levam ao desejo de silenciar as crianças, omitir sua existência para se manterem concentradas nas questões do trabalho e preservarem o emprego, ou até mesmo estabelecer uma suposta hierarquia e escolha entre um ‘ou’ outro papel, uma vez que as configurações laborais são sexistas e não acolhem as demandas específicas do trabalho feminino.

As transformações da contemporaneidade produziram rupturas importantes no tocante aos enquadres sobre os quais repousa a vida psíquica, “[...] os pertencimentos comunitários, as crenças partilhadas provedoras de certezas, as alianças fundadas nos interditos fundamentais” (Kaës, 2011, p. 20). A parentalidade, enquanto vínculo primordial do contexto familiar, já atravessava intensas mudanças no decorrer do processo histórico que incidiram na sua organização, alterando o lugar e as funções desempenhadas por mães e pais em cada época. Kaës aponta para as falhas observadas nas funções metapsíquicas. Essas funções afetam a estruturação e desenvolvimento da vida psíquica, uma vez que funcionam como o enquadre para que a vida psíquica possa se desenvolver, de acordo com os investimentos e lugares determinados pelo grupo familiar para cada um de seus membros.

Como a parentalidade ocupa um lugar privilegiado nos investimentos iniciais dos filhos e organiza a vida sexual e os interditos culturais básicos no seio da família, no cenário da pandemia as funções parentais assumem um lugar de destaque perante a situação de crise deflagrada pelas perdas e rupturas que atingiram os lares e fragilizaram o grupo familiar. Os filhos, confinados sob o mesmo teto com seus pais sobrecarregados, temerosos e ameaçados diante das inseguranças e forças disruptivas que emergem no novo cotidiano, necessitam como nunca dos investimentos e, principalmente, da sustentação narcísica e o apoio dos pais para o enfrentamento da crise.

No entanto, foi possível perceber nas entrevistas realizadas que as funções metapsíquicas já se encontravam enfraquecidas anteriormente à pandemia. Quando a crise eclode, além de sobrecarregadas as mães se sentem desamparadas ante os enfrentamentos necessários para funcionarem como figuras de apoio para seus filhos. Ademais, mães, filhos e famílias não estão desconectados do cenário social, marcado pela lógica consumista e individualista que marca o nosso tempo e que está sendo radicalmente desafiada pela pandemia. Refletindo o contexto de fragilização parental e da dificuldade dos pais em colocar os interditos simbólicos de modo a ocuparem uma posição de assimetria no cenário doméstico, além da sobrecarga materna e do esmaecimento paterno, percebe-se o quanto tais ausências e sobrecargas, aliadas à presença muitas vezes autoritária das instituições na vida familiar, exacerbam as fragilidades preexistentes à onda pandêmica.

No cenário contemporâneo de busca e intensificação dos individualismos, em suas diferentes formas de manifestação, é crucial pensar o fortalecimento das instituições e dos pertencimentos coletivos, para que possam funcionar como fontes de sustentação dos vínculos e das famílias no momento em que é preciso se recompor para resistir às turbulências. É necessário aprender a extrair o que há de melhor dessa crise sem precedentes na história recente. Dessa maneira, o cenário pontual da pandemia poderia ser aproveitado para o fortalecimento vincular e a renovação das instituições, reforçando a aliança entre famílias, escolas, instituições de saúde e seus profissionais, além dos grupos coletivos e organizações sociais e comunitárias, que devem funcionar de maneira a permitir a elaboração compartilhada das experiências de sofrimento, perda e luto.

No momento de retração compulsória do contato social, é preciso investir na criação de espaços de troca, em que recursos possam ser partilhados (por exemplo, com a mediação das TIC) para que se possam elaborar simbolicamente as rupturas e alterações provocadas pela experiência única que está sendo vivida pela geração atual. Muitas das participantes se mostraram esperançosas e confiantes na possibilidade da mudança. Como afirma Kaës (2011), as famílias e instituições compõem uma organização psíquica inconsciente resultante do agenciamento coletivo que precede o sujeito, impondo as relações que sustentam as identidades e mantêm os membros unidos, baseados nos acordos e conluios psíquicos pactuados, fornecendo a continuidade das redes e conjuntos intersubjetivos.

Considerações finais

Este estudo objetivou compreender as repercussões do confinamento provocado pela pandemia de COVID-19 sobre a parentalidade e as práticas de cuidado de crianças. Os resultados proporcionaram uma compreensão a respeito dos impactos emocionais iniciais do confinamento e das novas demandas para mães que se viram, repentinamente, responsáveis tanto pela manutenção, por via remota, de seu trabalho remunerado, como pelo acompanhamento e cuidados de seus filhos no contexto doméstico.

A pandemia deflagrou uma crise estrutural no espaço macrossocial que se ramificou no âmbito microssocial da família, gerando rupturas na rotina e na experiência do mundo conhecido, reverberando nos vínculos com pessoas, instituições e lugares ocupados anteriormente - escola, trabalho, grupos sociais. Para responder às adversidades, as mães, buscam respaldo e inspiração em sua história vincular, transmitida na cadeia intergeracional, para poderem desenvolver recursos para lidar com os desdobramentos da crise. Enfrentam uma jornada sinuosa, permeada por angústia e temores de não estarem à altura dos desafios. Tentam se manter fortes e inabaláveis para inspirarem segurança para os filhos, oferecendo apoio e a continência necessária para o fortalecimento das relações parentais e parento-filiais. Porém, a percepção de estarem sozinhas, sem poderem contar com suporte suficiente de outros familiares e instituições para darem cabo das tarefas de manutenção do lar e supervisão dos filhos, incrementa a sensação de desamparo, fazendo-as se sentirem fragilizadas e ‘isoladas dentro do isolamento’, o que coloca a necessidade de pensar em espaços que ofereçam intervenções suportivas para acolher o sofrimento psíquico dessas mães.

Embora não seja possível determinar com precisão quais serão as consequências da pandemia na saúde mental de mães e filhos, este estudo salienta a necessidade de atenção e monitoramento. Os desafios à saúde do binômio mãe-filho são maximizados em um contexto de instabilidade e disrupção, com esgarçamento da rede de proteção social. Os dados fornecem subsídios que circunscrevem a relevância de pensar os cuidados direcionados à saúde mental das mães, provendo apoio, informações, recomendações e orientações que possam mitigar os riscos vivenciados no cenário da COVID-19.

Referências

  • Barlett, J. D., Griffin, J., & Thomson, D. (2020). Resources for supporting children’s emotional well-being during the COVID-19 pandemic https://www.childtrends.org/publications/resources-for-supportingchildrens-emotional-well-being-during-the-covid-19-pandemic
    » https://www.childtrends.org/publications/resources-for-supportingchildrens-emotional-well-being-during-the-covid-19-pandemic
  • Benghozi, P. (2010). Malhagem, filiação e afiliação: psicanálise dos vínculos casal, família, grupo, instituição e campo social Vetor.
  • Braga, I. F., Oliveira, W. A., & Santos, M. A. (2020). “História do presente” de mulheres durante a pandemia da COVID-19: feminização do cuidado e vulnerabilidade. Revista Feminismos, 8(3), 190-198. https://periodicos.ufba.br/index.php/feminismos/article/view/42459/23919
    » https://periodicos.ufba.br/index.php/feminismos/article/view/42459/23919
  • Braun, V., & Clarke, V. (2006). Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, 3(2), 77-101. https://doi.org/10.1191/1478088706qp063oa
    » https://doi.org/10.1191/1478088706qp063oa
  • Fontanella, B. J. C., Luchesi, B. M., Saidel, M. G. B., Ricas, J., Turato, E. R., & Melo, D. G. (2011). Amostragem em pesquisas qualitativas: proposta de procedimentos para constatar saturação teórica. Cadernos de Saúde Pública, 27(2). https://doi.org/10.1590/S0102-311X2011000200020
    » https://doi.org/10.1590/S0102-311X2011000200020
  • Freud, S. (1996). Esboço de psicanálise. In S. Freud. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 23, pp. 153-224). Imago. Trabalho original publicado em 1940[1938].
  • Fundação Oswaldo Cruz. (2020). Saúde mental e atenção psicossocial na pandemia COVID-19: crianças na pandemia COVID-19 http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/covid19/fiocruz/saude_mental_covid19_fiocruz_cartilha_criancas_na_pandemia.pdf
    » http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/covid19/fiocruz/saude_mental_covid19_fiocruz_cartilha_criancas_na_pandemia.pdf
  • Gorin, M. C., Mello, R., Machado, R. N., & Féres-Carneiro, T. (2015). O estatuto contemporâneo da parentalidade. Revista da SPAGESP, 16(2), 3-15.http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702015000200002&lng=pt&tlng=pt
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702015000200002&lng=pt&tlng=pt
  • Hirata, H. (2015). Mudanças e permanências nas desigualdades de gênero: divisão sexual do trabalho numa perspectiva comparada. Friedrich Ebert Stiftung Brasil, 7. https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/12133.pdf
    » https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/12133.pdf
  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] (2014). Estatísticas de gênero: uma análise dos resultados do censo demográfico 2010. IBGE.
  • Kaës, R. (2011). Um singular plural: a psicanálise à prova do grupo (L. Rouanet, trad.). Loyola.
  • Lebovici, S. (2004). Diálogo Letícia Solis-Ponton e Serge Lebovici. In M. C. Silva, & L. Solis-Pontom (Orgs.), Ser pai, ser mãe: parentalidade: um desafio para o terceiro milênio (pp. 21-27). Casa do Psicólogo.
  • Macêdo, S. (2020). Ser mulher trabalhadora e mãe no contexto da pandemia COVID-19: tecendo sentidos. Revista do NUFEN, 12(2), 187-204. https://dx.doi.org/10.26823/RevistadoNUFEN.vol12.nº02rex.33
    » https://doi.org/10.26823/RevistadoNUFEN.vol12.nº02rex.33
  • Maia, A. C. B. (2020). Questionário e entrevista na pesquisa qualitativa: elaboração, aplicação e análise de conteúdo Pedro e João.
  • Moura, A. A. M., Bassoli, I. R., Silveira, B. V., Diehl, A., Santos, M. A., Santos, R. A., Wagstaff, C., & Pillon, S. C. (2022). Is social isolation during the COVID-19 pandemic a risk factor for depression? Revista Brasileira de Enfermagem, 75(suppl 1), e20210594. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2021-0594
    » https://doi.org/10.1590/0034-7167-2021-0594
  • Oliveira, W. A., Oliveira-Cardoso, E. A., Silva, J. L., & Santos, M. A. (2020a). Impactos psicológicos e ocupacionais das sucessivas ondas recentes de pandemias em profissionais da saúde: revisão integrativa e lições aprendidas. Estudos de Psicologia (Campinas) 37, e200066https://doi.org/10.1590/1982-0275202037e200066
    » https://doi.org/10.1590/1982-0275202037e200066
  • Oliveira, W. A., Magrin, J., Andrade, A., Micheli, D., Carlos, D., Fernandez, J., Silva, M., & Santos, M. (2020b). Violência por parceiro íntimo em tempos da COVID-19: scoping review. Psicologia, Saúde & Doenças, 21(3), 606-623. https://doi.org/10.15309/20psd210306
    » https://doi.org/10.15309/20psd210306
  • Oliveira, W. A., Silva, J. L., Andrade, A. L. M., Micheli, D., Carlos, D. M., & Silva, M. A. I. (2020c). A saúde do adolescente em tempos da COVID-19: scoping review, Cadernos de Saúde Pública, 36(8), e00150020. https://doi.org/10.1590/0102-311X00150020
    » https://doi.org/10.1590/0102-311X00150020
  • Oliveira, W. A., Andrade, A. L. M., Souza, V. L. T., De Micheli, D., Fonseca, L. M. M., Andrade, L. S., Silva, M. A. I., & Santos, M. A. (2021). COVID-19 pandemic implications for education and reflections for school psychology. Psicologia: Teoria e Prática, 23(1), 1-26. https://doi.org/10.5935/1980-6906/ePTPC1913926
    » https://doi.org/10.5935/1980-6906/ePTPC1913926
  • Oliveira-Cardoso, E. A., Silva, B. C. A., Santos, J. H., Lotério, L. S., Accoroni, A. G., & Santos, M. A. (2020). The effect of suppressing funeral rituals during the COVID-19 pandemic on bereaved families. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 28, e3361. http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.4519.3361
    » https://doi.org/10.1590/1518-8345.4519.3361
  • Rocha-Coutinho, M. L. (2011). De volta ao lar: mulheres que abandonaram uma carreira profissional bem-sucedida com o nascimento dos filhos. In Féres-Carneiro, T. (Org.), Conjugalidade, parentalidade e psicoterapia (pp.122-137). Casa do Psicólogo.
  • Roudinesco, E. (2003). A família em desordem (A. Teles, trad.). Jorge Zahar.
  • Santos, G. B. M., Lima, R. C. D., Barbosa, J. P. M., Silva, M. C., & Andrade, M. A. C. (2020a). Cuidado de si: trabalhadoras da saúde em tempos de pandemia pela COVID-19. Trabalho, Educação e Saúde, 18(3), e00300132. https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00300
    » https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00300
  • Santos, M. A., Okamoto, M. Y., Emidio, T. S., & Maia, B. B. (2020b). As tramas do trabalho vincular: contribuições psicanalíticas para pensar os impasses e ideais contemporâneos. Revista Brasileira de Psicanálise, 54(4), 117-132. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2020000400009&lng=pt&tlng=pt
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2020000400009&lng=pt&tlng=pt
  • Scholz, A. L. T., Scremin, A. L. X., Bottoli, C., & Costa, V. F. (2015). O exercício da parentalidade no contexto atual e o lugar da criança como protagonista. Estudos de Psicanálise, (44), 15-22. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372015000200002&lng=pt&tlng=pt
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372015000200002&lng=pt&tlng=pt
  • Simões, M., & Santos, M. A. (2021). Paternity and parenting in the context of eating disorders: an integrative literature review. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 37, e37459. https://doi.org/10.1590/0102.3772e37459
    » https://doi.org/10.1590/0102.3772e37459
  • Souza, A. S. R., Souza, G. F. A., & Praciano, G. A. F. (2020). A saúde mental das mulheres em tempos da COVID-19. Revista Brasileira de Saúde Materno-Infantil, 20(3), 663-665. https://doi.org/10.1590/1806-93042020000300001
    » https://doi.org/10.1590/1806-93042020000300001
  • United Nations Women. (2020). In focus: gender equality matters in COVID-19 response http://www.unomen.org/en/news/in-focus/in-focus-gender-equality-in-COVID-19-response
    » http://www.unomen.org/en/news/in-focus/in-focus-gender-equality-in-COVID-19-response
  • Wang, G., Zhang, Y., Zhao, J., Zhang, J., & Jiang, F. (2020). Mitigate the effects of home confinement on children during the COVID-19 outbreak. The Lancet, 395, 945-947. http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30547-X
    » https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30547-X
  • Winnicott, D. W. (2021). Tudo começa em casa (P. C. Sandler, trad.). Ubu. Trabalho original publicado em 1986.
  • Zanetti, S. A. S., & Gomes, I. C. (2011). A “fragilização das funções parentais” na família contemporânea: determinantes e consequências. Temas em Psicologia, 19(2), 491-502. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2011000200012&lng=pt&tlng=pt
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2011000200012&lng=pt&tlng=pt
  • 1
    Suporte e Financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, Bolsa de Produtividade em Pesquisa PQ-1A.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    21 Abr 2021
  • Aceito
    01 Abr 2022
location_on
Universidade Estadual de Maringá Avenida Colombo, 5790, CEP: 87020-900, Maringá, PR - Brasil., Tel.: 55 (44) 3011-4502; 55 (44) 3224-9202 - Maringá - PR - Brazil
E-mail: revpsi@uem.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro