Open-access As lutas do povo Guarani-Kaiowá analisadas pelas geografias das diferenças

The struggles of the Guarani-Kaiowá people analyzed through the geographies of differences

Las luchas del pueblo Guarani-Kaiowá analizadas a través de las geografías de las diferencias

IORIS, Antonio Augusto Rossotto. Geographies of Difference, Indifference and Mis-difference: The Guarani-Kaiowa People and the Myths of Brazilian Development. London: Bloomsbury Publishing, 2025

Resumo

Este é um livro que trata da questão territorial, essencial para entender as disputas espaciais de diferentes relações e grupos. O livro é resultado de um conjunto de projetos de pesquisa, de viagens de campo, eventos e entrevistas. Está organizado em duas partes. Na primeira, o autor apresenta os conceitos de diferença, indiferença e mis-diferença, contribuindo com uma Geografia Crítica para a análise das lutas do povo Guarani-Kaiowá. Na segunda parte, dedica-se à interpretação das resistências do povo Guarani-Kaiowá contra a indiferença e a mis-diferença pelas ações das retomadas. Ioris analisa como os conceitos são manipulados pelo capitalismo para promover a territorialização do modo de produção capitalista produzindo mercadorias e desigualdades. A retomada cria o tekoha que produz a indigeneidade/territorialidade como território ancestral e do futuro, é onde se é, fortalecendo a descolonização e ampliando as lutas contra a indiferença e à mis-diferença.

Palavras-chave:
Guarani-Kaiowá; espaço; diferença; indiferença; mis-diferença.

Abstract

This is a book that deals with the territorial issue, essential to understanding the spatial disputes of different relationships and groups. The book is the result of a series of research projects, field trips, events and interviews. It is organized into two parts. In the first, the author presents the concepts of difference, indifference and mis-difference, contributing with a Critical Geography to the analysis of the struggles of the Guarani-Kaiowá people. In the second part, he dedicates himself to the interpretation of the resistance of the Guarani-Kaiowá people against indifference and mis-difference through the actions of the “retomada”. Ioris analyzes how concepts are manipulated by capitalism to promote the territorialization of the capitalist mode of production, producing commodities and inequalities. The reoccupation creates the tekoha that produces indigeneity/territoriality as ancestral and future territory, it is where one is, strengthening decolonization and expanding the struggles against indifference and mis-difference.

Keywords:
Guarani-Kaiowá; space; difference; indifference; mis-difference.

Resumen

Este es un libro que aborda la cuestión territorial, esencial para comprender las disputas espaciales de diferentes relaciones y grupos. El libro es el resultado de una serie de proyectos de investigación, viajes de campo, eventos y entrevistas. Está organizado en dos partes. En el primero, el autor presenta los conceptos de diferencia, indiferencia y desdiferencia, contribuyendo con una Geografía Crítica al análisis de las luchas del pueblo Guaraní-Kaiowá. La segunda parte está dedicada a la interpretación de la resistencia del pueblo guaraní-kaiowá frente a la indiferencia y la indiferencia ante las acciones de las reocupaciones. Ioris analiza cómo los conceptos son manipulados por el capitalismo para promover la territorialización del modo de producción capitalista, produciendo bienes y desigualdades. La reanudación crea la tekoha que produce indigeneidad/territorialidad como territorio ancestral y futuro, es donde uno está, fortaleciendo la descolonización y ampliando las luchas contra la indiferencia y la desdiferencia.

Palabras clave:
Guaraní-Kaiowá; espacio; diferencia; indiferencia; desdiferencia.

Introdução

Em dezembro de 2024, recebemos um e-mail do nosso caro amigo geógrafo e professor Antônio Ioris, da Escola de Geografia e Planejamento da Universidade de Cardiff, no País de Gales. Ele nos informa do lançamento de seu novo livro e solicitava que sugeríssemos alguém para fazer uma resenha na Revista NERA. Devido às nossas parcerias e das diversas contribuições do professor Ioris, recebendo estagiárias e estagiários de doutorado e mestrado, por sua participação em projetos de pesquisa e docência de nossas universidades, e por sua participação no Conselho Editorial da Revista NERA, senti-me também compromissado a ler sua obra e apresentá-la para as leitoras e leitores do nosso país. Depois de ler o livro, conclui que estava diante de uma obra, cujo ineditismo exigia nova leitura. Trata-se de uma pesquisa teórica densa a respeito das geografias das diferenças para analisar as trajetórias das resistências do Povo Guarani-Kaiowá. Dei o melhor de mim para compreender esse trabalho feito com tanta dedicação e respeito, que agora apresento com muita honra a minha leitura sobre este livro exemplar.

O mundo da diferença, indiferença e da mis-diferença

Os povos originários lutam, há séculos, contra o capitalismo, para defenderem seus territórios. Isso significa não só defender a terra, mas também o corpo, a memória, a água e o ar. O modo de produção capitalista é uma relação social hegemônica global que constrói seus próprios territórios e modelos de desenvolvimento, impondo perspectivas centradas na padronização, diminuindo as diferenças até a sua eliminação. Uniformiza paisagens, roupas, comidas e visões de mundo. Esse modo de produção mercantiliza ao extremo, homogeneíza todos os espaços, inclusive corpos e mentes. Tudo que não se enquadra nos modelos capitalistas é desterritorializado. Povos originários e grupos socioterritoriais não capitalistas têm lutado há séculos contra a padronização capitalista tanto nos países das metrópoles, quanto nos países colonizados.

Este livro analisa as lutas do povo Guarani-Kaiowá pelas Geografias da Diferença, da Indiferença e da Mis-diferença. É sobre este povo que é vítima dessa desterritorialização ou espaçocídio e, ao mesmo tempo, lutadores da reterritorialização. A obra conta com densas referências teóricas críticas que contribuem para a interpretação do tema da pesquisa, ou seja: como o povo Guarani-Kaiowá resiste ao processo de desterritorialização e constrói a reterritorialização? Todavia, o que interpreta de fato é o método criado e utilizado por Antonio Ioris (2025) ao relacionar pensamentos e práticas em diálogos entre as bibliografias com a luta do povo Guarani-Kaiowá. O livro é essencialmente denso no sentido filosófico em que Ioris, a partir do tema estudado, debate com Hegel, Marx, Derrida, Badiou, Žižek, Nietzsche, Fanon, Lefebvre, Quijano, Radcliffe, Massey, Reclus, Lenin, Krenak, Kopenawa, entre outros e outras.

A contribuição de Ioris (2025), em suas várias perspectivas críticas, para compreender as geografias das diferenças, a partir do debate teórico é pensar a diferença como conceito relacional, ou seja, multidimensional uma relação social, política, ambiental, cultural, econômica, que surge da interação e identidade, ou seja espacial. Para o autor a diferença é uma prioridade por ser uma construção desde o princípio da existência, cujo processo se atualiza na produção espacial e territorial, por meio de ações materiais e imateriais, de conflitos e contradições (Ioris, 2025). A diferença é manifestada pela ação política e tem consequências objetivas em nossas vidas, que podem espacializar (e territorializar) ou desespacializar (espaçocídio), combinando reações e ações em novas experiências que transformam as realidades. Esta análise tem como referência a dialética hegeliana da diferença como arma crítica que também ajuda a compreender as contradições do capitalismo. Neste contexto, o conceito precisa ser sucessivamente confrontado com a mis-diferença.

Enquanto a diferença é fundamental para a interação e a busca do equilíbrio entre classes, grupos e nações, o conceito a indiferença, que também é central neste livro, é uma relação social usada para ignorar, desvalorizar, desnaturalizar as diferenças, tornada um mecanismo que sustenta um sistema de exploração, criando injustiças, espaços de subalternidade e desterritorialização, ampliando desigualdades e opressão. O capitalismo manipula a diferença através da mercantilização em que o valor de uso está subordinado ao valor de troca. Com esta ação, latifundiários e corporações do agronegócio, por exemplo, expropriam os indígenas e produzem territórios de exploração, onde a indiferença impede o reconhecimento dos indígenas e os marginaliza. Neste ponto, em sua crítica à indiferença, como conceito central nas relações de poder, Ioris entende que a ação política dos Guarani-Kaiowa reterritorializa a diferença como condição de transformação de suas realidades.

Para a manutenção da desterritorialização, os latifundiários e as corporações utilizam a mis-diferença, que é o mal uso da diferença pelo capital, que não respeita os significados da diferença, introduzindo sentidos da indiferença, ampliando as desigualdades e as injustiças. Ainda promove preconceitos através de fatos com racismo, cultura, e o conhecimento em geral. A mis-diferença nega a possibilidade de interpretar a diferença pela oposição absoluta, reduzida à lógica econômica, criada para manutenção das relações hegemônicas de poder. Se a indiferença é o ato consciente de ignorar as particularidades da diferença, a mis-diferença é caracterizada pela negação de reconhecer as diferenças. Ela é usada como expressão de poder para criar hierarquias com superiores e inferiores, ampliar distâncias, naturalizar o racismo e o espaçocídio. Essa relação é expressão territorial central do capitalismo, que produz fronteiras, desterritorialização e espaços de dependência, trabalho subordinado para produzir a acumulação do capital e se territorializar. Todavia, a mis-diferença também dialeticamente produz o seu contrário, como por exemplo, a resistência do povo Guarani-Kaiowá pelas retomadas.

As seculares lutas do povo Guarani-Kaiowa contra a desterritorialização

A segunda parte, Ioris (2025) analisa a consolidação da resistência Guarani-Kaiowá em uma leitura da história do território deste povo, através dos diversos momentos das lutas, desde o processo de colonização ao espaçocídio e às retomadas. A colonização utilizou-se da indiferença ignorando as diferenças socioculturais e da mis-diferença para criar falsas diferenças como a suposta superioridade dos colonizadores e de sua visão de mundo para controlar os territórios: terra e mente. Com essa estratégia, os europeus inventaram uma visão distorcida dos indígenas, como inferiores, sem direitos e condenados a todo tipo de violência, culminando com a desterritorialização. É importante destacar que a desterritorialização não é o fim de um povo, mas é com certeza a retomada de novas lutas, inclusive pelo território, como demonstrado neste livro.

A formação do Brasil pós-independência não mudou as relações com os povos indígenas. As diferenças dos povos continuaram sendo ignoradas, ampliando a violência e a expropriação. O avanço da fronteira agrícola os deslocavam, enquanto outros permaneciam em territórios de resistência e subordinados. O uso da mis-diferença por todas as instituições foi um processo que procurava destruir as identidades indígenas “integrando-os” ao modelo de desenvolvimento capitalista. O povo Guarani-Kaiowá é uma referência de resistência à conversão religiosa e às visões exóticas, nem mesmo a maioria dos intelectuais que visitaram o Brasil não esteve livre do da mis-diferença, lendo as culturas indígenas a partir dos valores europeus. A resistência indígena é uma resistência territorial composta de várias lutas, como demonstrado nesta obra.

São lutas contra a expropriação das terras, contra a destruição de suas culturas e memórias, contra e etnocídio. Do agroextrativismo (extração da erva mate) ao agronegócio (monocultivo da soja), o desenvolvimento agrário promoveu a indiferença com a desterritorialização de grande parte do povo Guarani-Kaiowá, que através da mis-diferença foram vistos como obstáculos ao desenvolvimento, à decadência, ao atraso, sendo a extinção um caminho natural. Os conhecimentos ancestrais, os xamãs foram desvalorizados e suas casas destruídas. O espaçocídio como destruição continuada de todas as dimensões dos territórios e corpos. Ioris compara o povo Guarani-Kaiowa com o povo palestino, com processos e elementos similares, invasão colonial e neocolonial, impedimento de relação com o território, confinamento, invisibilidade, fragmentação territorial etc.

A reação à indiferença e à mis-diferença é um dos pontos fortes da resistência indígena. As manifestações de suas participações políticas evidenciam suas diferenças, suas identidades e culturas em um firme processo de superação, no desenvolvimento de seus territórios sendo permanentemente disputados. Ainda, a relação com outras instituições se fortalecendo, tornando-os ainda mais visíveis a partir do que são de fato: uma população na retomada do tekoha, que os Guarani-Kaiowá definem como "o lugar onde se é" (Ioris, 2025). As diferenças são resistências que na cultura do povo Guarani-Kaiowá inclui as memórias do espaço ancestral, enfrentamento, tragédia e renascimento. A retomada é presente, passado e futuro ao mesmo tempo, é reterritorialização direta contra a mis-diferença. Contra o modelo hegemônico do agronegócio e a padronização do capitalismo.

A retomada é um ato de descolonização e define o tekoha como um território de renascimento, de recriação de identidades, é a fonte da ancestralidade e do presente, é onde se é, é impossível separar o tekoha do povo Guarani-Kaiowá, porque é a razão da existência e por essa mesma razão este povo forma um dos mais importantes movimentos socioterritoriais, entre toda diversidade de movimentos que lutam, em diversas partes do mundo, contra a descolonização e contra o capitalismo. Neste ponto, Ioris aborda o tema “ação indígena universal”. Há múltiplos sentidos nessa afirmação, desde o reconhecimento da multiescalaridade, pois cada tekoha é uma parte do mundo, cada retomada é um obstáculo à territorialização do modelo de desenvolvimento predatório do capitalismo, através do agronegócio. Ao criar o tekoha, os Guarani-Kaiowá produzem sua indigeneidade ou territorialidade própria, emancipadora, onde o território não é mais produtor de commodities, mas torna-se pela ação um espaço de vida. Esta é a resposta à mis-diferença. Ioris interpreta esse processo através da luta de classes e indigenismo. Afirma que ao capitalismo usar a mis-diferença para inferiorizar etnias e classes, acaba por fomentar a defesa das diferenças das identidades socioterritoriais.

Para concluir, reproduzo uma afirmação de Ioris (2025) que aproxima as lutas dos indígenas, camponeses e assalariados: “Ser indígena não é necessariamente ser proletário ou camponês, mas na medida em que proletários e camponeses mobilizam suas prerrogativas de identidade para se opor às pressões capitalistas e rejeitar a mercantilização do trabalho, da terra e dos recursos, o não-ser-capitalista dos camponeses e proletários tem laços estreitos com o ser-mais-indígena dos grupos indígenas” (Ioris, 2025, p. 181). Esta multidirecionalidade da indigeneidade reforça e compartilha as resistências, conectando diversas lutas de classe por emancipação, conquistas e retomadas.

  • Como citar esta resenha
    FERNANDES, Bernardo Mançano. As lutas do povo Guarani-Kaiowá analisadas pelas geografias das diferenças. Revista NERA, v. 28, n. 1, e10815, jan.-mar., 2025. DOI: 10.47946/rnera.v28i1.10815.

Referências

  • IORIS, Antonio Augusto Rossotto. Geographies of Difference, Indifference and Mis-difference: The Guarani-Kaiowa People and the Myths of Brazilian Development London: Bloomsbury Publishing, 2025.
  • O processo de editoração deste artigo foi realizado por Lorena Izá Pereira e Camila Ferracini Origuela

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    22 Jan 2025
  • Aceito
    22 Fev 2025
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