Open-access Visualidades camponesas no assentamento Zumbi dos Palmares (RJ): encontros entre cultura visual, espacialidades e ensino

Peasant visualities in the Zumbi dos Palmares settlement (RJ): encounters between visual culture, spatialities and teaching

Visualidades campesinas en el asentamiento de Zumbi dos Palmares (RJ): encuentros entre cultura visual, espacialidades y enseñanza

Resumo

A imagem da terra preparada para o cultivo pode alegoricamente apontar para as visualidades camponesas enquanto campo fértil de investigação e aprendizados. Nessa trilha, a escrita desse trabalho tem como objetivo contribuir para os estudos sobre visualidades, espacialidades e ensino, no contexto da reforma agrária popular no norte fluminense. Isso inspira a questão: como visualidades no assentamento Zumbi dos Palmares contribuem para processos educativos na/da espacialidade do campo? Com o intuito de responder tal pergunta, o trabalho propõe o diálogo teórico-conceitual entre os campos da Cultura Visual, das Espacialidades e da Cultura e Educação Popular, somados à um exercício de leituras de visualidades coletadas em campo. A metodologia participativa possibilitou a coleta de dados e orientou a discussão que reforça a imagem de solo fértil de pesquisa, como referência à espacialidade no/do assentamento em constante transformação. Portanto, a análise proposta indica novas miradas para a vida no campo, caminhando em direção a um projeto de sociedade menos desigual, justa e atenta ao que ensinam as visualidades camponesas.

Palavras-chave:
Assentamentos rurais; camponês/campesinato; educação do campo; reforma agrária.

Abstract

The image of the land prepared for cultivation can allegorically point to peasant visualities as a fertile field for research and learning. In this vein, this paper aims to contribute to studies on visualities, spatialities and teaching in the context of popular agrarian reform in northern Rio de Janeiro. This inspires the question: how do visualities in the Zumbi dos Palmares settlement contribute to educational processes in the spatiality of the countryside? To answer this question, the paper proposes a theoretical-conceptual dialog between the fields of Visual Culture, Spatialities and Popular Culture and Education, together with an exercise in reading visualities collected in the field. The participatory methodology made data collection possible and guided the discussion that reinforces the image of fertile research soil, as a reference to the constantly changing spatiality of the settlement. Therefore, the proposed analysis indicates new ways of looking at life in the countryside, moving towards a project for a less unequal, fair society that is attentive to what peasant visualities teach.

Keywords:
Rural settlements; Peasant/peasantry; Rural education; Agrarian reform.

Resumen

La imagen de la tierra preparada para el cultivo puede señalar alegóricamente las visualidades campesinas como un campo fértil para la investigación y el aprendizaje. En esta línea, este trabajo pretende contribuir a los estudios sobre visualidades, espacialidades y enseñanza en el contexto de la reforma agraria popular en el norte de Río de Janeiro. Esto inspira la pregunta: ¿cómo contribuyen las visualidades en el asentamiento Zumbi dos Palmares a los procesos educativos en la espacialidad del campo? Para responder a esta pregunta, el trabajo propone un diálogo teórico-conceptual entre los campos de la Cultura Visual, las Espacialidades y la Cultura Popular y la Educación, junto con un ejercicio de lectura de las visualidades recogidas en el campo. La metodología participativa posibilitó la recolección de datos y orientó la discusión que refuerza la imagen de suelo fértil para la investigación, como referencia a la espacialidad en/del asentamiento que está en constante cambio. Por lo tanto, el análisis propuesto indica nuevas perspectivas sobre la vida en el campo, avanzando hacia un proyecto de sociedad menos desigual, justa y atenta a lo que las visualidades campesinas enseñan.

Palabras-clave:
Asentamientos rurales; campesinado; educación rural; reforma agraria.

Cheganças

Ando devagar, mas insisto em caminhar contrariando muitas vezes o curso das contingências, pois a vida segue... a vida segue para o infinito para antes e depois de mim, a vida segue (Bambu Amarelo, assentado, 2021).

Como alegoria para os saberes e conhecimentos camponeses, a escrita desse trabalho parte da imagem dos sulcos e bancos na terra. A imagem de preparo da terra, elevada e sulcada (Imagem 1), bem como do plantio de sementes que exigem tempo e cuidado para se tornar alimento, inspiram reflexões a respeito da diversidade de aprendizados em solo camponês. Sem pressa e resistindo às contingências da vida, o trabalho que nos dá a ver a fotografia que abre este texto, junto ao trecho da poesia, indica o contorno educativo das visualidades experenciadas no campo.

Imagem 1
Trabalhadora rural, Núcleo 4 - assentamento Zumbi dos Palmares (RJ).

Em virtude de tais reflexões e, diante dos fenômenos estéticos da vida no meio rural, abre-se um campo fértil de estudo. No que concerne às pesquisas dessa natureza, talvez seja lacunar investigações sobre o pensamento visual em lugares que distam dos grandes centros urbanos. Igualmente, investigar a riqueza de saberes acumulados por pessoas que vivem no/do campo pode contribuir para estudos sobre espaços não formais de ensino e seus protagonistas. Portanto, esse trabalho tem como objetivo contribuir com os debates sobre visualidade, ensino e espacialidade no contexto rural.

Logo, frente aos fenômenos estéticos da vida camponesa no norte fluminense, questiono: como visualidades no assentamento Zumbi dos Palmares contribuem para processos educativos na/da espacialidade do campo? Para responder a essa desafiadora pergunta, proponho diálogos entre campos da Cultura Visual, da Cultura e Educação Popular e das Espacialidades, junto a uma breve análise de imagens sobre o referido assentamento.

A estrutura teórica do trabalho propõe o diálogo sobre visualidades, em Mirzoeff (1999) e Mitchell (Mitchell, 2002), em consonância com as categorias analíticas do espaço social, em Santos (2008a), interrelacionando-as com a perspectiva de ensino preconizada, em Freire (2014), Brandão e Fagundes (2016).

A abordagem qualitativa da proposta metodológica participativa fundamentada em Brandão (1981) possibilitou a coleta de dados apresentada, cujo campo de investigação se dá no assentamento Zumbi dos Palmares, no norte fluminense. E aqui, nessa proposta de trabalho, ganham ênfase as questões estético-educativas ou pedagógico-visuais, como talvez se possa classificar a visualidade camponesa.

Espaços como esse promovem debates sobre precariedade, exiguidade de bens/aparelhos educacionais e culturais, ausências e silenciamentos. Mas, para além desses aspectos, proporciona leituras sobre uma estética que escape às influências do processo de urbanização dominado pelo avanço do capital.

Sendo assim, além da construção de enlaces entre os campos teórico-conceituais apresentados, a empiria vivenciada indica a constante transformação da espacialidade no/do campo. Face aos resultados analíticos de alguns processos de criação estética no Zumbi, as leituras de como ocorrem a elaboração de visualidades no campo evidencia seu contorno diverso, inclusivo e educativo.

Desenho metodológico

O desenho metodológico aqui proposto foi concebido para explorar as visualidades camponesas no/do assentamento Zumbi dos Palmares (RJ), campo da investigação a ser caracterizado adiante, e dialoga com os estudos sobre visualidades, espacialidades e ensino. Cabe mencionar que o estudo é parte de uma investigação de doutoramento em curso.

Fundamentado na metodologia participativa, essa escolha reflete a valorização do conhecimento popular e o diálogo entre teoria e prática, conforme defendido por Brandão (1981). A abordagem qualitativa possibilitou a coleta e análise de dados, aqui apresentados parcialmente e fruto da interação direta com pessoas que vivem e convivem no assentamento. Essa relação entre o campo teórico e empírico, reforça a compreensão do espaço rural como lugar vivo, dinâmico e educativo.

Colaboram com o trabalho pessoas assentadas da reforma agrária no assentamento Zumbi dos Palmares e agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Campos dos Goytacazes, RJ. Seguindo os parâmetros éticos para a realização de trabalhos de pesquisa com seres humanos, todas concordaram em colaborar com a investigação e foram identificadas por nomes relacionados à natureza.

A investigação estruturou-se em três etapas:

  • 1. Observação, entre 2019 e 2024, cuja participação de um dos investigadores em atividades cotidianas no assentamento permitiu experiências visuais criadas no local;

  • 2. Identificação, na qual foram selecionadas visualidades que apontavam para processos educativos e culturais do assentamento. A exemplo disso, a mística e os equipamentos de trabalho agrícola que figuram este texto;

  • 3. Análise, à luz das referências teóricas que articulam Cultura Visual (Mirzoeff, 1999), espaço social (Santos, 2008) e educação popular (Brandão, 1981; Freire, 2014).

Um aspecto central da metodologia foi a colaboração das pessoas que vivem e convivem no assentamento, o que promoveu a construção coletiva do conhecimento, como sugerido por Brandão (1981). Essa abordagem trouxe desafios significativos, como o equilíbrio entre o respeito às subjetividades e o rigor científico, o que favoreceu. Contudo, esses desafios enriqueceram o processo de investigação, evidenciando a relevância do trabalho nos debates subjacentes à cultura visual, ensino e educação popular.

Nesse sentido, o percurso analítico relaciona os pressupostos teóricos e a empiria vivenciada, valorizando as experiências visuais nos cotidianos do campo. Além disso, colabora para uma análise científica que auxilie a compreender como a organicidade de processos visuais participam da espacialidade camponesa. Por fim, a partir das convergências conceituais e práticas, a análise das imagens considera os aspectos estético-educativos da visualidade no contexto da luta pela terra e da reforma agrária.

Abeirando o campo de pesquisa enquanto solo fértil e pedagógico

Em 2019, ao conhecer o assentamento Zumbi dos Palmares, na região norte do estado do Rio de Janeiro, algumas inquietações moveram o que hoje se configura como objeto de pesquisa. Em razão do Sarau Cultural pela reforma agrária, desde a entrada no assentamento até a observação das ações visuais realizadas na atividade, foram provocados questionamentos em torno de como ocorrem os processos de criação da visualidade ali.

A questão de partida desse texto nasce então do estranhamento ao olhar para uma estética de certo modo familiar, dadas as minhas origens periféricas, e do desejo em compreender como essa visualidade contribuiria para processos educativos na/da espacialidade desse lugar. Nessa trilha, é importante situar o contexto histórico e sociopolítico do maior assentamento rural do estado do Rio de Janeiro.

Como o mapa de localização demonstra (Imagem 2), o Plano de Desenvolvimento de Assentamento (PDA) Zumbi dos Palmares - cuja configuração se dá em dois municípios do Estado do Rio de Janeiro, a saber, Campos dos Goytacazes e São Francisco de Itabapoana - se estabelece no contexto político da reforma agrária na região Norte Fluminense no final dos anos 1990. Seu nome homenageia a luta quilombola e afrodescendente que até o tempo presente segue em disputa por dignidade e respeito (MST, 2007).

Imagem 2
Mapa de localização do P.A. Zumbi dos Palmares.

Às margens do Rio Paraíba do Sul, o Zumbi é organizado em núcleos que vão do 1 ou 5, onde o primeiro está mais próximo do centro urbano de Campos e o último cruza o município de São Francisco. Cabe problematizar que tal processo de criação e planejamento aponta para possibilidades analíticas quanto às semelhanças, distinções, sentidos, compreensões e leituras desse território atualmente.

Conforme Alentejano (2011) contextualiza, o assentamento constitui-se como uma das primeiras iniciativas do Movimento dos Trabalhadores Sem-terra (MST), no estado do Rio de Janeiro. Desde meados dos 1990, essa região tem sido o principal palco da luta pela terra e o local com o maior número de ocupações e desapropriações, em virtude da crise do setor sucroalcooleiro. O autor contextualiza:

Foi sob as ações do MST no Rio de Janeiro, no início dos anos 90, que foram organizadas as primeiras ocupações de terras de usina no estado. Entretanto, durante um tempo, essas [ações] es se limitaram à periferia da região canavieira, isto é, os municípios de Macaé e Conceição de Macabu. Somente em 1997 a atuação do MST atingiu o coração da região, quando foram ocupadas as terras da Usina São João, situada a 7 km do centro de Campos dos Goytacazes (Alentejano, 2011, p. 33).

A crise acarretou a falência de dezenas de usinas de álcool e açúcar, e assim, o reduto tradicional de exploração desses recursos e da força de trabalho sofreu transformações que redesenharam as formas de organização social e modelos alternativos de viver na/da terra, sobretudo nesse território. Isto justifica a afirmação desse espaço, e os processos educativos nele experenciados, como lugar de resistência, re-existência e existência de um modo de vida mais digno e mais justo.

Sob a perspectiva do bem-viver, os modos de ver, perceber e sentir dos sujeitos que habitam o assentamento, conforme anunciam as descobertas aqui apresentadas, são o dar a ver das desobediências visuais cuja estética coloca em suspensão mecanismos de poder estabelecidos e determinados que atuam na manutenção das desigualdades sociais no Brasil.

Ora, se a terra deixa de cumprir a sua função social, deveria se aplicar o que preconiza a constituição (Brasil, 1988) e garantir imediatamente o direito à terra e dela viver. No entanto, historicamente tal acesso é conquistado às custas de disputas e enfrentamentos por parte de muitos setores da sociedade e organizações populares. Inclusive, custando vidas, cruelmente ceifadas.

Seria então possível, num espaço que resulta dessas tensões, experenciar processos educativos, estéticos, políticos, sociais e culturais que forjem subjetividades evidenciando visualidades circunscritas numa epistemologia camponesa?

Vejamos que, fruto de longos processos da reforma agrária no Brasil, o assentamento foi criado a partir da divisão das terras consolidada em 1998. Por meio da desapropriação e implementação do Projeto de Desenvolvimento de Assentamento (PDA), tal processo, em sua complexidade, envolveu militantes do MST, agentes da CPT, pesquisadores e agentes técnicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Atualmente, segundo o órgão, habitam essas terras 506 famílias.

Destaca-se que, fruto da reforma agrária, o assentamento rural - lugar que dista da centralidade urbana e localizado em suas periferias - é a expressão que descreve territórios articulados a elementos do planejamento humano e à ação de grupos sociais identitários, educativos, culturais, organizações e instituições que se estabelecem pelo poder no espaço (Caldart, 2012).

Assim, essa designação também fala da projeção da produção do trabalho, ao revelar relações de poder sobre esse mesmo espaço, relações essas caracterizadas por valores, saberes e conhecimentos populares, fruto da luta de classes. Desenha-se, dessa forma, a imagem da resistência, da igualdade, da espacialidade que ensina e do acesso democrático aos direitos dados a ver pela visualidade, como discutiremos adiante.

Esse contexto inspira uma outra problematização, fundamental para a discussão deste trabalho. Ainda que seja próprio dos grandes centros urbanos a concentração de boa parte do que é legitimado hegemonicamente e visibilizado em termos visuais (e artísticos), as manifestações estéticas desenvolvidas nesse território, seriam uma resposta. Ou, como arrisca-se dizer, imagens-problema.

Afinal, em um contexto cuja exclusão social ainda é tão acentuada, tais manifestações entram na disputa narrativa que desafia a indiferença. Frente às contradições e convergências nas disputas pela terra, no contexto da reforma agrária brasileira, este ensaio problematiza o assentamento Zumbi dos Palmares enquanto um espaço pedagógico desobediente de discursos que não os seus próprios.

Por isso, em meio às suas visualidades, a criação desse território, em toda sua profusão de saberes estético-políticos, inspira posicionamentos educativas, transbordando a ideia do pedagógico como algo restrito à escola, determinado, verticalizado e imposto (Andrade, 2016). Assim, a transformação de um lugar que outrora recebia a alcunha de invadido, hoje, legitimamente denominado assentamento desvela a “rebeldia necessária para fazer a reforma agrária” (citando um dos lemas do MST) que estabelece um espaço social (e visual) possível.

Nesse caminho, o horizonte que a paisagem do Zumbi alegoricamente evoca, aponta para a afirmação da práxis visual própria desse lugar (Imagem 3). Lugar que permite sempre uma mirada adiante, onde a ação de seus sujeitos confere uma vida digna, cuja espacialidade irrompe com a negação de direitos que o mundo injusto e desigual insiste em promover. Sua visualidade dá a ver outra possibilidade de vida.

Imagem 3
Pôr-do-sol no Assentamento Zumbi dos Palmares.

Visualidades, espacialidades, cultura e educação popular: encontros possíveis

A escolha dos eixos teóricos para este ensaio, a saber, os campos de estudos da Cultura Visual, de Espacialidades e da Cultura e Educação Popular são aqui postos em diálogos. Exercitar seus enlaces sustenta a base de conhecimento que poderá apontar respostas para a questão de partida e servir à análise dos processos de criação de visualidades no assentamento, em seu potencial educativo.

A partir do pensamento de Mirzoeff (1999), em suas considerações sobre Cultura Visual, o autor destaca as visualidades como um tipo de tática. Nelas, as criações funcionariam como estratégia estética, as quais exploram as ambivalências, interstícios e lugares de resistência na vida cotidiana. para além do sinônimo de imagem, convergem uma diversidade de aspectos que inclui, mas transborda o visual.

Funcionam como uma estratégia, cujo resultado seria um modo que torna visível as técnicas que efetivam os desejos. Sob esse entendimento, as interlocuções entre visualidades, espacialidades, cultura e educação popular partem do exercício de destacar suas convergências interdisciplinares, bem como a diversidade de sentidos e motivações atribuídos ao que se cria esteticamente.

Por tanto, a análise de visualidades no meio rural convoca considerar quais aspectos se relacionam à espacialidade. Afinal, em um território enraizado na luta pela terra e direitos, a criação estética se presentifica em todo seu processo e existência. Isto é, a criação de um assentamento de reforma agrária tensiona além da questão política e de direitos humanos, a arte, a cultura e a educação, dentre tantas outras áreas do conhecimento. E assim, tais dimensões ao serem associadas na análise espacial, podem aprofundar a compreensão do mundo camponês.

Fruto dessa elaboração, a criação de visualidades na espacialidade do assentamento poderia evidenciar contornos educativos quanto à diversidade cultural e inclusão social, por exemplo. Ao passo que processos estéticos revelam tantas dimensões do tecido social (Mitchell, 2002), considerar as transformações urgentes e sonhadas por tantas pessoas ganhariam forma e poderiam apontar para um mundo menos desigual.

Ou seja, o que uma casa e o seu quintal, pinturas em um muro, o paisagismo doméstico, as dinâmicas de plantio, as fotografias numa caixa ou indumentárias feitas à mão podem desvelar sobre o assentamento e seus modos de ensinar? As respostas dessa questão abrem um profícuo campo de investigação e descobertas.

Em perspectiva, temos, portanto, o entendimento de que formas visuais no meio rural, colocam em suspensão a função da estética determinada hegemonicamente como legítima e institucionalizada. Ao participar da vida ordinária, essa visualidade evoca pensamentos, ideias, informações e imagens, como num campo de batalha (Mirzoeff, 1999).

Ou seja, na disputa narrativa reivindicada em nosso tempo agudamente envolto de imagens visuais, modos de ver mais inclusivos e diversos acolhem a imagem ordinária, como veremos adiante. Falo daquela imagem não institucionalizada, mas da que compõe a paisagem visual cotidiana e, portanto, passível de leitura e debate. Ademais, suas funções se transformam constantemente e, em seus processos, modificam estruturas definidas, endurecidas e estabelecidas. Nessa direção, Mirzoeff (1999) argumenta que:

Essa história da cultura visual destacaria aqueles momentos em que o visual é contestado, debatido e transformado, constantemente desafiando o lugar de interação social e definição em termos de classe, gênero, sexual e identidades racializadas (Mirzoeff, 1999, p. 17).

Sob a perspectiva da construção visual do social (Mitchell, 2002), o trabalho com imagens na Cultura Visual afirma toda a diversidade de eventos visuais, preocupando-se como se mostra o ver. Não se nega em suspeitar, duvidar, perguntar. A base teórica e conceitual dessa ideia implica não apenas o visível, mas também o invisível, o não visível, o não notado e o não visto, como provoca o autor. Isso leva a pensar sobre quem vê o que, como vê, quando é permitido ver e, finalmente, quem autoriza ou desautoriza esse ver.

Isso apoia a problematização de uma possível função dominante da visualidade elaborada no campo, a qual escaparia à servidão e ao padrão hegemônico de beleza excludente e dominado pelo capital simbólico, no campo da Arte (Bourdieu, 1989). E ainda, esse objeto de estudo dessa visualidade acrescentaria novas formas ao panorama expressivo da atualidade, bem como outras maneiras de visualizar o campo e seus processos visuais, desfronteirando os limites impostos discursos e narrativas que uniformizam o que se pensa sobre meio rural.

Por isso, é importante justificar o emprego da palavra estética aplicada ao longo desse texto. Nesse caso, tal ideia opõe-se ao ideal de representação, perfeição, apreciação do belo clássico e juízo de valor impostos pelo sistema dominante e colonizador. Logo, olhar para visualidades que acontecem no campo, implica compreender uma estética capaz de ensinar sobre um projeto de sociedade que valoriza os saberes e conhecimentos de todas e todos.

Em diálogo com esse pensamento, a análise espacial proposta por Santos (2008a) nos auxilia a perceber a manifestação estética camponesa, enquanto ação que transforma o espaço em meio ao seu potencial educativo e transformador. A construção teórica do autor propõe leituras do espaço interrelacionando forma, função, estrutura e processos, indissociavelmente.

Em consequência disso, o autor partilha o entendimento do espaço banal como espaço de todas, de todas as práticas, bem como suas rugosidades. Pois, em meio aos seus vincos, refere-se à acumulação de tempo, valorizando a historicidades, cultura e demais manifestações que o constituem (Ribeiro, 2012). Nesse ponto, a alegoria do sulco na terra, enquanto produção da vida, evidencia altos e baixos do fluxo que dá sentido à vida e às ações dos sujeitos no espaço.

E, a visualidade fruto desse processo, converge saberes socioculturais dinâmicos, fluidos e organicamente modificados, criando a representação cultural do espaço (Santos, 2008b). Em consonância com esse entendimento, as espacialidades assentam-se na autoria, no protagonismo de quem habita o espaço.

À luz dessa compreensão, as visualidades conferem visibilidade e funcionalidade às ideias e à dimensão política dos homens lentos do período chamado meio-técnico-científico-informacional, discutido por Santos. Ele expõe:

Os homens "lentos", por seu turno, para quem essas imagens são miragens, não podem, por muito tempo, estar em fase com esse imaginário perverso e acabam descobrindo as fabulações. A lentidão dos corpos contrastaria então com a celeridade dos espíritos? (Santos, 2008b, p. 41)

A força imanente das fabulações suscitadas pelos homens comuns se dá em oposição ao conforto que as luzes da cidade provêm. A mesma força que se converte em visualidades que resistem e questionam os espaços opacos e os espaços luminosos apontados por Santos. Eis aí o cerne da dimensão educativa dos fenômenos visuais no lugar que escapa propositalmente dessas luzes.

Isso nos permite elaborar que as formas visuais camponesas, com suas diversas funções, na estrutura do assentamento, podem criar processos educativos que ensinem sobre o modo de vida camponês, seus valores, suas ideias e sua epistemologia.

Santos (2008a) elabora o espaço como um produto social em constante transformação. Ele explica que o espaço habitado, construído, constituído e em permanente reconstrução se dá por meio da ação (Santos, 2007). O autor expõe que considerar apenas a forma - o visual, no caso de nossa investigação -, levará ao mero empirismo, esvaziando e fragilizando a análise de como se elaboram espacialidades.

Isso significa dizer que, olhar para a cultura e seus processos estéticos é também fazer referência às interpretações das espacialidades. Pois, práticas culturais podem expor o que é estrutural e próprio de cada pessoa e seu meio de vida. Para isso, Santos expõe:

A cultura, forma de comunicação do indivíduo e do grupo com o universo, é uma herança, mas também um reaprendizado das relações profundas entre o homem e o seu meio, um resultado obtido por intermédio do próprio processo de viver (Santos, 2007, p. 81).

Apreender parte da totalidade de determinada estrutura, e nela sua cultura e o que ela ensina, tal qual nos apresenta o autor, é buscar sua abrangência, dinâmica e história constituídas no espaçotempo. Portanto, os processos de feitura e apreciação visual não deixam de se fazer presença como proposição organicamente educativa, política e estética.

Nessa trilha, os pressupostos teóricos da Cultura e Educação Popular, contribuem com o entendimento do protagonismo popular na criação da vida. Essa concepção afirma um giro de posição a respeito da criação da visualidade, da espacialidade e do ensino em espaços não escolares. A práxis visual do homem lento emancipa, liberta e evidencia o pensamento “[...] capaz de superar a via puramente sensível da captação dos dados da realidade, por uma via crítica” (Freire, 1963). Sobre isso, Brandão (1981) expõe:

Não custa pensar a razão pela qual, durante muito tempo, uma das características universalmente mais aceitas para definir o que é "cultura popular" era justamente o seu anonimato. Ou seja, entre outras coisas, o que a distingue da nossa é que, enquanto o erudito da cultura e a necessidade da identidade pessoal do autor, o que torne legítima a popular é que nela ele não exista, ou porque foi esquecido no tempo, ou porque, não tendo atores de história, o povo não deve ter também autores de sua própria cultura (Brandão, 1981, p. 10).

A função da educação, na perspectiva popular e contra hegemônica, sobretudo no contexto do sistema capitalista, assume um papel de formação de indivíduos críticos, além de ser uma ação “instrumentalizadora de profundas transformações político-sociais na sociedade brasileira” (Brandão; Fagundes, 2016, p. 92). Ademais, a funcionalidade dessa perspectiva em espaços de ensino não formais, como o assentamento, reconhece e evidencia as vivências, as lutas e a composição do pensamento que, enquanto ação estética, transformam as realidades e fundamentam a ideia de práxis visual.

Seguindo essa reflexão, a educação, a cultura e a arte popular também podem estimular abordagens descolonizadoras do pensamento, centradas numa concepção inclusiva, participativa e cooperativa. Sua pertença orientada por uma epistemologia popular, feita e protagonizada pelo povo, produz criticamente suas espacialidades e nelas, visualidades em sentido ampliado.

No bojo dessa compreensão, a estética vivenciada no campo, em seu contorno educativo, seria resultado do trabalho e da experiência humana criativa, emancipada, livre e crítica (Freire, 2014). E, ao convergir os saberes e conhecimentos do povo e para o povo, evidenciam a formação e a transformação da realidade pelas mãos de quem cria sua própria visualidade.

Semeando leituras

Como exercício analítico à luz do debate teórico proposto, apresentamos duas análises, a partir do recorte empírico e enlace entre os conceitos visualidade, espacialidade, cultura e ensino. Quanto ao primeiro exemplo de leitura de visualidades, retomamos a vivência no Sarau Cultural pela reforma agrária, em 2019. Sendo este o primeiro contato com o campo investigado, e provocador das inquietações aqui partilhadas, considera-se a mística (Imagem 4) uma das experiências visuais como imagem-problema. Quanto mais observa-se sua elaboração, mais perguntas e dúvidas são inauguradas.

Imagem 4
Fotografia de Mística do Sarau Cultural pela Reforma Agrária, Núcleo 4 - assentamento Zumbi dos Palmares (RJ).

Ao decupar a fotografia, pode ser visualizado um conjunto diverso de objetos que compõem as ocorrências visuais do Sarau Cultural pela Reforma Agrária realizado em 2021. Sobre o tecido policromado de chita estão pincéis, tintas, publicações, instrumentos, plantas e o simbólico boné do MST. Cercados por folhagens colhidas no local, os elementos constituem um complexo visual, afirmando a mística como expressão da cultura, da arte e dos valores que constituem a experiência camponesa (Bogo, 2012). Ela é a manifestação que se inventa em toda celebração coletiva e opera a visualização de discursos que valorizam a estética da natureza e o saber e conhecimento popular.

Sem perder de vista a polissemia de leituras, a mística coloca em questão as formas de aprender tradicionais e ensina sobre valores preciosos não apenas para o campo, mas para a própria existência humana. Evidenciam denúncia, anúncio, a natureza como valor, a cultura e seu contorno educativo, numa visualidade que instiga leituras para além do visual.

Em sua composição coletiva, feita a muitas mãos, reúne elementos naturais, artísticos e poéticos, implicando funcionalidades estéticas, educativas, políticas, simbólicas e culturais nas ocasiões em que é utilizada. A mística convida à sua decupagem do todo de sua forma para assim, proceder leituras do que pretende fazer perceber antes de determinado encontro. Embora apresentem certa objetividade, as leituras se avolumam a cada mirada no conjunto que considero um dos mais desafiadores e poéticos na visualidade experenciada no campo e em suas atividades culturais.

Lembro-me de observar curiosamente a composição dos elementos no chão, escolhidos de forma cuidadosa e, sobretudo, coletiva, a partir do que estava disponível no próprio local. O tecido, as folhas, os instrumentos e suas cores e formas, chamam atenção para o que se pensa, sente e para onde se olha no campo. Por isso, ainda que chamar a visualidade camponesa de educativa poderia ser um pleonasmo (Andrade, 2016), sua própria existência amplia, questiona e tenciona modos de aprendizado, respondendo, de algum modo, à pergunta de partida desse estudo.

Os elementos constitutivos dessa imagem expandem o fazer visual da mística ao desmontar e questionar formas de aprender ditas tradicionais. Se presentificam na vida e, em suas práticas ordinárias, evidenciam a singularidade, a criatividade e a inventividade da práxis visual no/do campo.

Olhar para a mística, também como ação do pensamento estético-político, semeia reflexão e colhe posicionamento crítico diante das desigualdades e exclusões sociais. Afinal, sua criação é propositiva ao superar e denunciar visualmente formas de ideologia e dominação nos discursos. Por essa razão, o caráter educativo tensionado por essa manifestação da visualidade camponesa, reconhece os traços identitários e subjetivos dos sujeitos envolvidos em sua criação, bem como ensina sobre o pensamento vivenciado nessa estrutura.

Um segundo caso, numa apresentação inicial de caráter descritivo, temos a seguir equipamentos para o preparo do cultivo: o arado, a grade niveladora e a sulcadora, respectivamente.

Arar, nivelar e sulcar a terra, como ensina o gestual do assentado através dos frames de vídeo (Imagem 5), são ações que fazem visualizar a terra sulcada, cuja brotação do cultivo se dá em meio a esses rasgos feitos no solo. Ao inspirar o título deste trabalho, essa paisagem é fruto da operação desses equipamentos, os quais são responsáveis pelo preparo do solo para receber as sementes. Tais operações conduzem o olhar para o campo em seu conjunto de técnicas que o constituem.

Imagem 5
Frames de vídeo sobre equipamentos de trabalho agrícola, assentamento Zumbi dos Palmares (RJ).

Imagem 6
Fotografia de cultura, assentamento Zumbi dos Palmares (RJ).

Em uma das conversas com o assentado Madeira Pau Peroba, observei que sua relação com esses aparelhos não se limita à técnica, mas funciona como uma extensão de seu pensamento, como discutido por Santos (2008a). Quando ele explica a função de cada equipamento, enfatizando o preparo, corte e recorte da terra, é visualizado seu conhecimento e saber.

A visualidade do plantio em questão, abarca a força não apenas física, mas também a inteligência de quem trabalha e vive da agricultura. Entre ideias, pensamento e disputa narrativa, como aponta Mirzoeff (1999), a práxis visual camponesa ganha forma e funções do plantar ao colher. Qual sentido teria no uso técnico desse ferramental alheio à capacidade de invenção do trabalhador rural?

Isto é, olhar para esse processo dá a ver os resultados da luta pelo acesso à vida digna. Essa imagem, tão comum nos cotidianos do assentamento, ao mesmo tempo que é semeadura que produz o alimento, é também colheita, fruto das disputas históricas pela reforma agrária no Brasil.

As adaptações manuais acopladas aos equipamentos tornam sua prática de cultivo ainda mais dinâmica, ágil e funcional. São as formas, em suas funções específicas nessa estrutura, criando processos estéticos, educativos e culturais (Santos, 2008a). Ajustes sabiamente construídos são explicados com muita alegria e entusiasmo pelos trabalhadores conforme minha observação em campo. Quando falam em revirar, tombar, aplanar e desenhar os sulcos na terra afirmam uma prática que explicita o modo de fazer que se opõe à objetificação do sujeito camponês, valoriza seus saberes, suas subjetividades e o seu próprio modo de fazer a vida.

Portanto, se a espacialidade pode ser afirmada como sistema de objetos e ações, como Santos (2008b) nos ensina, a visualidade dá a ver esse sistema num posicionamento educativo da práxis visual camponesa. Reafirmando assim, a função social da terra, agindo na manutenção de seu conhecimento e tornando o trabalho na terra a visualização da vida digna.

Desse modo, o fazer estético-político do trabalho na terra, da semeadura até a colheita, age como rebeldias visuais pois rompem à lógica de dominação tecnológica dos grandiosos empreendimentos do agronegócio, seus maquinários e propagandas midiáticas. Além de pôr em suspensão a dicotomia campo/cidade, evidencia que no meio rural a vida segue e, a despeito das contingências, avança, se faz e se refaz

Algumas considerações

Em localidades onde se dá a luta pela terra, a exemplo do assentamento Zumbi dos Palmares (RJ), o estudo apontou que as visualidades assumem um caráter educativo ao anunciar formas de ensinar e aprender por caminhos estéticos. Vinculada às espacialidades e educação popular, essa mesma visualidade promove uma epistemologia que valoriza a sabedoria popular e sua inventividade enquanto partícipes de transformações sociais no meio rural.

Mediante a inserção no cotidiano do campo estudado, a metodologia participativa permitiu a imersão na complexa realidade do assentamento. A observação participante possibilitou encontrar manifestações visuais como a mística e a paisagem que partem do conhecimento camponês. Ancoradas em experiências coletivas e no protagonismo popular, a visualidade identificada afirma a legitimidade do conhecimento popular, cuja força imanente desvela uma pedagogia estética.

O diálogo entre Cultura Visual, Espacialidades e Educação Popular destacou as visualidades nos cotidianos do assentamento enquanto formas de resistência e emancipação. Nessa direção, além do percurso metodológico contribuir com tais campos de estudo, as descobertas visuais proporcionadas pelas etapas de observação e identificação evidenciaram o dinamismo e a organicidade imagética do assentamento.

Apesar de não configurar a totalidade de manifestações estéticas do campo investigado, as imagens ali encontradas colaboram para a valorização da sabedoria e do conhecimento popular. Pautadas pela participação, colaboração e protagonismo camponês, suas atividades culturais ou práticas laborais integram estética, espacialidade e processos educativos.

Em consequência disso, a breve discussão e análise propostas convocam olhar em direção às tantas estéticas possíveis na vida, sobretudo no meio rural. Nessa perspectiva, este trabalho reafirma a interdisciplinaridade das visualidades camponesas e as compreende como força imanente, criativa, inventiva e expressiva do povo.

Diante da fartura de conhecimento do que se aprende com pessoas que vivem no/do campo, os processos estético-educativos vivenciados no assentamento evocam horizontes de dignidade. Portanto, em um cenário desafiador como o apresentado, as imagens deste manuscrito não fazem referência apenas à luta pela terra e direitos. Elas também inspiram um projeto de sociedade que rompa com desigualdades e anunciam novas miradas para uma vida mais plena, digna e feliz.

  • Como citar este artigo
    SILVA, Leandro de Souza; QUEIROZ, Paulo Pires de. Visualidades camponesas no assentamento Zumbi dos Palmares (RJ): encontros entre cultura visual, espacialidades e ensino. Revista NERA, v. 28, n. 1, e10118, jan.-mar., 2025. DOI: 10.47946/rnera.v28i1.10118.

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  • O processo de editoração deste artigo foi realizado por Camila Ferracini Origuela e Lorena Izá Pereira.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    12 Out 2023
  • Revisado
    01 Dez 2024
  • Aceito
    13 Dez 2024
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