Open-access LUIZ ANTONIO MACHADO DA SILVA E A SOCIOLOGIA URBANA NO BRASIL

Conheci o professor Luiz Antonio Machado da Silva em abril de 2005 no Instituto de Estudos da Religião, em um seminário sobre lideranças de favela. Estávamos próximos e participávamos do debate. Sem muita cerimônia, fui trocando com ele algumas ideias sobre o governo de Leonel Brizola. É possível dizer que aquela interação foi muito distinta da relação tensa da minha seleção para o doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ) um ano antes. O melhor de tudo, em minha avaliação sulista, foi vê-lo sair do seminário para ter tempo de assistir ao jogo do Fluminense naquela noite. Ao longo daquele ano, eu me tornei sua orientanda e dei início às leituras de Luc Boltanski, Bruno Latour, Veena Das e teóricos que ganhavam a atenção de Machado em suas inquietações sobre o mundo social, conflito, sofrimento, ordem e a temática urbana naquele momento. Frequentemente tínhamos diálogos em momentos distintos sobre o termo amplo “forma de vida”. Esse termo era acessado nos debates sobre sociabilidade violenta e suas insatisfações quanto ao rendimento conceitual de algumas ideias que orbitavam em torno do desenvolvimento teórico do conceito.

Aprender sob sua orientação era viver o desconcerto diário de ser sacudida nas categorias de análise do meu objeto de pesquisa, que, segundo ele, “era mais difícil do que se pensava”. Depois das correções nas primeiras cinco páginas, a metodologia ia ganhando forma e sabíamos qual era o ponto, qual era a indagação e qual era a limitação a transpor. Deixei de lado as certezas que carregava sobre os movimentos sociais após um desses encontros. E não retornei mais ao tema na tese, desci ao miúdo de um cotidiano que naqueles anos era mais semelhante a um mosaico. Éramos orientados com frequência de forma coletiva, e essa herança segue na minha atuação docente e na coordenação do Núcleo Cidade, Cultura e Conflito. É possível afirmar que gerações formadas pelo professor Luiz Antonio Machado dão continuidade a um legado que é teórico, metodológico, relacional e carregado de inquietações sobre nossa forma de fazer e registrar nossas pesquisas, particularmente a vida cotidiana (Leite; Araújo; Menezes, 2021).

Nesta comunicação apresento a última palestra feita pelo professor Luiz Antônio Machado da Silva na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), em junho de 2016. O material aqui apresentado reúne caminhos de pesquisa, a genealogia do conceito de sociabilidade violenta e um panorama sócio-histórico importante para a compreensão da relação entre economia, mudança social, urbanização brasileira e criminalidade. Não há dúvida sobre a atualidade e a relevância teórica das reflexões apresentadas neste documento, a considerar marcações históricas como a primeira crise do petróleo em 1973, a eleição de Leonel Brizola para o governo estadual do Rio de Janeiro, a chegada da cocaína no mercado de drogas fluminense e o crescimento da criminalidade urbana conectada a esse mercado. Esses eventos são apresentados de forma relacional e encaminham uma leitura dos processos que hoje estão na agenda da segurança pública, particularmente as facções que atuam na capital fluminense.

Quando comecei a pensar essa comunicação, lembrei-me com certa insistência de um autor: Didier Eribon,1 escritor francês que definia um certo impacto de intelectuais como Michel Foucault e Gilles Deleuze em suas palestras. A presença, o cachecol, a voz, a entonação. A produção de uma gravidade que transformava uma fala em um evento. Julgo que essa é a melhor forma de definir as participações públicas do professor e pesquisador Luiz Antonio Machado da Silva.2

Creio que todos aqueles e aquelas sob o efeito das aulas do professor Machado concordam com uma verdade: nós seguimos em diálogo constante.3 Algo entre uma crítica mais suave, mais irônica ou realmente preocupante que costumava destroçar o que tentávamos dizer. Com uma frase simples: “Acho que você quis dizer isto, mas não foi isto que você disse”.

Ninguém passou pela sua orientação ou convivência sem viver essas etapas. E essa é possivelmente a grande herança de uma forma de pensar a partir do questionamento de conceitos adotados como caminhos de explicações para os fenômenos estudados. Eu, como alguém que vinha de uma formação nas leituras de Pierre Bourdieu e convencida de que o funk seria sempre um problema para o Estado, mantive continuamente uma condição de aprendizado discordante. O que me fez aprender sobre o Rio de Janeiro, suas muitas possibilidades e como era preciso sair de uma forma polar de ver o mundo social.4

A construção de um problema de pesquisa foi, para mim, o ensinamento mais fundamental dessa relação. De que movimento eu falava, bradava Machado nos corredores do ifcs em 2008. Dos movimentos sociais, do movimento do tráfico, do movimento dos corpos na favela. E novamente: “Acho que você quis dizer isto, mas não foi isto que você disse”.

Assumindo que o mundo é conflito, luta, em uma perspectiva weberiana, Machado se posicionava criticamente em relação à distinção estrutura/conjuntura, optando por adotar uma concepção na qual a análise tomasse o mundo social como um/em “processo permanente e inacabado de mudança social”. Não o fim da história, crítica feita na palestra a Francis Fukuyama.5

Sua vinda à UENF e sua palestra de 2016 serão a base da minha comunicação. Se o conteúdo da palestra não era inteiramente novo, pois tratou de temas centrais com os quais Machado vinha trabalhando, ele nos servirá como um guia de leitura e uma agenda de pesquisa. Uma vez que o conceito de sociabilidade violenta possibilitou diálogos constantes, críticas e reflexões, ele aparecerá aqui em conexão com o que chamarei de crise do mundo do trabalho após a primeira crise do petróleo de 1973. Não seria exatamente uma crise, mas um deslocamento do protagonismo até então ocupado pelos trabalhadores. A leitura indicada para a compreensão dessas transformações profundas seria o trabalho do sociólogo Francisco de Oliveira, “O surgimento do antivalor” (1988).

Antes de desenvolver essa conexão entre a crise do petróleo6 e seus impactos para pensar a cidade do Rio de Janeiro, vou chamar a atenção para o passo atrás necessário. Questionar as formas de classificação que estabelecem os estudos sobre violência. Olhar a violência como uma representação social e não como coisa em si. Essa operação não é fácil e esse é um preceito básico para o estudante de ciências sociais ao ler Émile Durkheim. Nada é transparente.

Em relação à forma como escrevemos/investigamos/descrevemos o que fazemos em nosso ofício, Machado sempre defendeu que “qualquer interpretação é sempre uma tradução”. O texto apresentado por ele elabora uma crítica a certo dualismo canonizado a partir de 1980, cristalizado na oposição coletivismo e individualismo metodológico. Para compreender o mundo é preciso levar a sério que “os seres humanos são imanentemente capazes de se orientar na vida social intersubjetiva de uma forma competente”. Ou, em linguagem direta, “as pessoas sabem onde têm o nariz”.

E, a partir desses pressupostos, entramos na discussão para pensar as relações sociais. Partiremos do interesse de Machado em pensar o conflito de longo prazo sobre a sociabilidade urbana, a sociabilidade nas cidades. E, para realizar esse exercício, ele recorre a Henri Lefebvre (2016), no clássico O direito à cidade, à tese de que “haveria uma transformação histórica profunda no processo de urbanização da humanidade e as cidades se transformaram de obra em produto e, na medida em que as cidades se transformaram em produto, isso colocava em questão o direito à cidade, porque [...] entrava aí a luta de classes, em que os opositores se reconheciam como capital de um lado e trabalho do outro”.

Machado oferece outra forma de pensar essas sociabilidades urbanas: a possibilidade de estar na cidade, socialmente da cidade. E, seguindo esse caminho, seria possível compreender as histórias urbanas de várias cidades. Algo que, na visão de nosso professor, David Harvey tem feito, mas de forma “extremamente parcial e extremamente radicalizada”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Eribon, Didier. Michel Foucault, 1926-1984. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
  • Eribon, Didier. Retorno a Reims. 2. ed., Belo Horizonte: Âyiné, 2024.
  • Fishlow, Albert. “A economia política do ajustamento brasileiro aos choques do petróleo: uma nota do período 1974/84”. Pesquisa e Planejamento Econômico, v. 16, n. 3, 1986, pp. 507-50.
  • Freire, Jussara; Rocha, Lia de Matos. “Para uma sociografia da sociologia urbana brasileira: a obra de Luiz Antonio Machado da Silva”. Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia, n. 28, 2010, pp. 69-91.
  • Fukuyama, Francis. O fim da história e o último homem. Trad. de Aulyde S. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
  • Lefebvre, Henri. O direito à cidade. 5. ed., São Paulo: Centauro, 2016.
  • Leite, Márcia Pereira; Araújo, Marcella; Menezes, Palloma. “Luiz Antonio Machado da Silva: um intelectual da mais ‘fina estampa’ nas ciências sociais brasileiras”. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 23, 2021. Disponível em: <Disponível em: https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202121pt >. Acesso em: 18/3/2025.
    » https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202121pt
  • Oliveira, Francisco de. “O surgimento do antivalor”. Novos Estudos Cebrap, v. 22, n. 3, 1988, pp. 8-28. Disponível em: <Disponível em: https://novosestudos.com.br/produto/edicao-22/ >. Acesso em 15/2/2024.
    » https://novosestudos.com.br/produto/edicao-22/
  • 1
    Filósofo e sociólogo francês. Entre suas obras mais conhecidas no Brasil está a biografia de Michel Foucault (Eribon, 1990). Eribon faz parte de um circuito de escritores que borra as fronteiras entre as áreas do conhecimento. Frequentando círculos importantes de intelectuais, como Georges Dumézil e Pierre Bourdieu, Eribon tem refletido sobre o lugar da biografia, da ficção, e ofertado a sua própria história como tema (Eribon, 2024).
  • 2
    Sobre a trajetória acadêmica de Luiz Antonio Machado da Silva, ver Jussara Freire e Lia de Matos Rocha (2010).
  • 3
    Em 2005 participei do curso de Machado no IUPERJ sobre Luc Boltanski e, em 2008, do curso sobre literatura e favela. Mantínhamos encontros coletivos semanais de orientação.
  • 4
    A questão sobre a construção do objeto de pesquisa e o caminho metodológico como indissociáveis durante a escrita, particularmente a dificuldade de separar o mundo cotidiano e suas categorias de análise, avaliação, julgamento, compreensão, e nosso recorte sobre o que coletamos em campo.
  • 5
    É preciso refletir sobre os impactos desse artigo na época de sua publicação. A conjuntura histórica era o desmantelamento da União Soviética e a descrição do autor sobre “a vitória do Ocidente, do mundo capitalista” (Fukuyama, 1989).
  • 6
    Albert Fishlow (1986) oferece um panorama macroeconômico do lugar do Brasil durante a crise do petróleo. Os termos econométricos são complexos, mas auxiliam-nos a compreender as decisões sobre economia tomadas nesse período e como elas afetaram o mercado interno e externo nacional.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    2025
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