TRADUÇÕES
Sobre virtudes e vícios
Aristóteles; tradução: M. Reus EnglerI
IUniversidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Encontra-se atualmente em período de doutorado sanduíche no Departamento de Filologia Clássica da Philipps Universität de Marburgo, Alemanha, com bolsa Capes. reusengler@gmail.com
Nota do tradutor
Ao texto intitulado "Sobre virtudes e vícios" apõe-se o duplo asterisco que, na edição das obras completas de Aristóteles, é sinal de autoria espúria. Segundo um de seus tradutores, H. Rackham que se baseia nas lições de Susemihl e Zeller , ele teria sido composto entre o primeiro século a.C e o primeiro d.C, por autor que, sem muita profundidade e argúcia (haud magni ingeni), segue as tendências do período eclético (a philosopho ecletico) e tenta resumir e conciliar (conciliare studebat) a ética aristotélica com elementos de filosofia platônica (tripartição da alma) e alguns rasgos de estoicismo, como se percebe pela antítese entre louvar/censurar. Assim, a primeira data tornaria possível atribuí-lo a alguém do círculo de Andrônico de Rodes que editou e comentou algumas obras de Aristóteles , e para tal hipótese contribui o fato de que uma cópia do manuscrito tenha sido conservada junto de outro tratado, "Sobre os afetos", que costuma ser atribuído a esse escoliarca. Contudo, outros eruditos discordam dessa solução e conferem ao texto data posterior, dado que tenha sido igualmente conservado nos "Florilégios" de Estobeu (V d.C) e numa versão dos manuscritos de Aristóteles, recebendo títulos diversos, como, por exemplo, "Sobre virtude" ou "De Aristóteles sobre virtudes". O tratamento descritivo das virtudes e vícios também demonstra que o trabalho se conecta aos "Caracteres" de Teofrasto. Segundo Ernst Schmidt, tradutor alemão, a mais antiga edição moderna do texto data de 1529, estando assim ausente na primeira edição Aldina. No entanto, com a publicação das obras de Estobeu (1535), bem como por seu cariz didático e sua curta extensão, o pequeno tratado recebeu várias edições acompanhadas da tradução latina, tornando-se popular entre os círculos letrados.
Para a presente tradução, utilizamos o texto grego da edição Loeb: ARISTOTLE. "Athenian Constitution; Eudemian Ethics; On virtues and Vices". Translated by H. Rackham. London: Loeb Classical Library, 1981. pp. 484-503. Além desta tradução, cotejamos também as seguintes:
ARISTOTELIS. "De virtutibus et vitiis". In: Opera Omnia. Graece et Latine. Cum indice nominum et rerum absolutissimo. Vol. Secundum. Paris: Didot, 1850.1
ARISTOTLE. "On virtues and vices". Translated by J. Solomon. In: J. Barnes (ed.). The Complete Works of Aristotle. Vol. II, pp. 1982-1986. Princeton: Princeton University Press, 1985.
ARISTOTELES. "Übier die Tugend". Übersetzung Ernst A. Schmidt. Band 18. Opuscula. Teil I. Berlin: Akademie Verlag, 1965.
Conquanto o texto não apresente grandes dificuldades, acrescentamos algumas notas que podem esclarecer ao leitor as razões de nossas perífrases e escolhas vocabulares, as quais, como se sabe, nunca podem ser evitadas na versão de um texto grego.
O tradutor.
M. Reus Engler
Sobre virtudes e vícios
I. [1249a] Louváveis são as coisas belas, censuráveis, as vergonhosas. E consideram-se as virtudes entre as coisas belas, e entre as vergonhosas, os vícios. Deste modo, louváveis são também as causas das virtudes, as coisas que as acompanham, os produtos que vêm a ser a partir delas e as suas obras, ao passo que censuráveis são as coisas opostas. Tomando-se em conta que a alma, conforme Platão, [1249b] seja composta de três partes, é a prudência a virtude da parte racional, da animosa,i tanto a mansidão quanto a coragem, e da desiderativa,ii a temperança e o autocontrole, e da alma como um todo, a justiça, a liberalidade e a magnanimidade. Em contrapartida, é a imprudência o vício da parte racional, da parte animosa, tanto a irascibilidade quanto a covardia, e da desiderativa, a intemperança e a falta de autocontrole, [1250a] e da alma como um todo, a injustiça, a avareza e a mesquinhez.iii
II. Prudência é uma virtude da parte racional, organizadora dos esforços voltados para a obtenção da felicidade. Mansidão é uma virtude da parte animosa pela qual as pessoas tornam-se desinclinadas à ira. Coragem é uma virtude da parte animosa pela qual as pessoas tornam-se imperturbáveis por temores relativos à morte. Temperança é uma virtude da parte desiderativa pela qual as pessoas tornam-se indiferentes aos prazeres vis concernentes aos gozos dos sentidos. Autocontrole é uma virtude da parte desiderativa pela qual as pessoas reprimem, com auxílio da razão, o desejo que as impele aos prazeres vis. Justiça é uma virtude da alma que reparte algo conforme o devido. Liberalidade é uma virtude da alma que faz gastar devidamente em relação às coisas belas. Magnanimidade é uma virtude da alma pela qual as pessoas tornam-se capazes de suportar ventura e desventura, honra e desonra.
III. Imprudência é um vício da parte racional e causa de viver mal. Irascibilidade é um vício da parte animosa pelo qual as pessoas tornam-se facilmente inclinadas à ira. Covardia é um vício da parte animosa pela qual as pessoas são perturbadas por temores, sobretudo os que se referem à morte. Intemperança é um vício da parte desiderativa pelo qual as pessoas tornam-se desejosas de prazeres vis e concernentes aos gozos dos sentidos. Falta de autocontrole é um vício da parte desiderativa pelo qual se escolhem os prazeres vis que a razão tenta evitar. Avareza é um vício da alma pelo qual as pessoas desejam obter lucros de todos os modos possíveis. Mesquinhez é um vício da alma pelo qual as pessoas tornam-se incapazes de suportar ventura e desventura, honra e desonra.
IV. Da prudência é próprio aconselhar-se, julgar os bens e males e tudo o mais que deve ser escolhido na vida e evitado; utilizar-se convenientemente dos bens disponíveis; portar-se de maneira escorreita para com os outros; estar ciente dos momentos oportunos; utilizar-se de forma arguta do discurso e da ação e ter experiência de todas as coisas úteis. Na verdade, a memória, a experiência e a argúcia existem cada uma delas a partir da prudência, ou acompanham a prudência; ou, em contrapartida, algumas delas são como que causas conjuntas da prudência, tal como a experiência e a memória, e algumas como que partes dela, tal como o bom conselho e a argúcia.
Da mansidão é próprio ser capaz de suportar com modos reprimendas e humilhações, e não incitar-se imediatamente à vingança, nem ser facilmente inclinado à ira, sendo, ao contrário, dócil de caráter e inimigo de contendas, e tendo tranquilidade na alma e estabilidade.
Da coragem é próprio ser imperturbável por temores relativos à morte, [1250b] confiante diante de coisas temíveis e ousado ante os perigos; e sobretudo preferir morrer de forma bela a salvar-se de forma vergonhosa, além de ser causa de vitória. É próprio ainda da coragem esforçar-se, ser firme e paciente e comportar-se de modo varonil. Acompanham a coragem ousadia, bravura e confiança, e ainda laboriosidade e resistência.
Da temperança é próprio não admirar os gozos dos prazeres corpóreos, e ser indiferente a todo o prazer sensorial [vergonhoso]; temer a desordem e posicionar-se perante a vida da mesma maneira nas coisas insignificantes e nas importantes. Acompanham a temperança disciplina, ordem, pudor e precaução.
V. Do autocontrole é próprio ser capaz de reprimir, por meio da razão, o desejo que incita a gozos sensoriais vis e a prazeres, e também ser firme e paciente, assim como ser capaz de suportar tanto privações advindas da natureza quanto dores.
Da justiça é próprio estar disposto a repartir conforme o devido, salvaguardar os costumes pátrios, os usos e as leis escritas, dizer a verdade no que está em disputa e proteger os acordos. As primeiras entre as coisas justas são aquelas relativas aos deuses, depois aos gênios protetores,iv depois à pátria e aos parentes, depois aos mortos. Entre elas está a piedade, que é na verdade parte da justiça ou algo que se lhe segue. À justiça seguem-se a santidade, a veracidade, a lealdade e o ódio à maldade.
Da liberalidade é próprio ser pródigo com os bens despendidos na obtenção de coisas louváveis e generoso em gastar no que é devido, ser auxiliador nas disputas e não tomar donde não se deve. O liberal é asseado no que se refere a roupas e habitação, e preparador de coisas extraordinárias e belas que propiciam agradável divertimento sem visar o lucro, e cuidadoso para com animais que têm algo de singular ou admirável. À liberalidade seguem-se a flexibilidade de caráter, boa educação, amor à humanidade, bem como o ser compassivo, amigo dos amigos, hospitaleiro e amante da beleza.
Da magnanimidade é próprio suportar decentementev ventura e desventura, honra e desonra, assim como não admirar o luxo, a lisonja, o poder e as vitórias em combate, mas possuir, em contrapartida, certa profundidade e grandeza de alma. Magnânimo é aquele que não faz muito caso da vida, e tampouco é aficionado pela própria sobrevivência.vi Simples de caráter e nobre, é capaz de suportar injustiça e não se tornar vingativo. Seguem-se à magnanimidade simplicidade de caráter e veracidade.
VI. Da imprudência é próprio julgar mal as coisas, aconselhar-se mal, portar-se mal para com os outros, utilizar-se mal dos bens disponíveis, sustentar [1251a] opiniões errôneas sobre as coisas belas e boas da vida. À imprudência seguem-se inexperiência, ignorância, falta de autocontrole, falta de jeito e de memória.
De irascibilidade existem três espécies: irritabilidade, amargueza e enfadamento.vii É próprio do irascível não ser capaz de suportar nem pequenas humilhações, nem menosprezos, mas ser, em contrapartida, retaliativo, vingativo e facilmente inclinado à ira por qualquer ato ou discurso que seja. Seguem-se à irascibilidade ser de caráter exasperado, ser propenso à mudança, azedume nas palavras, magoar-se com coisas insignificantes e sentir esses afetos de maneira rápida e em situação banal.
Da covardia é próprio ser facilmente movido por quaisquer temores que se apresentam, e sobretudo por aqueles relativos à morte e aos danos corpóreos, e considerar ser melhor salvar-se de qualquer maneira a morrer de forma bela. À covardia seguem-se frouxidão, falta de virilidade, desespero e mesquinhez; subjazem a ela, de resto, certa precaução e também subserviência de caráter.viii
Da intemperança é próprio escolher para si os gozos sensoriais dos prazeres daninhos e vergonhosos, e considerar felizes principalmente os que vivem em meio a tais prazeres; e ser dado ao riso, zombeteiro e chistoso, assim como ser leviano nas palavras e nos atos. À intemperança seguem-se indisciplina, descaramento, desordem, luxo, preguiça, despreocupação, negligência e frivolidade.
Da falta de autocontrole é próprio escolher para si os gozos sensoriais dos prazeres que a razão tenta evitar, e assumir que seria melhor não participar deles, mas participar deles mesmo assim, e acreditar que é preciso praticar atos belos e convenientes, porém abster-se deles por conta de prazeres. À falta de autocontrole seguem-se frouxidão, despreocupação e, em sua maioria, as mesmas coisas que se seguem à intemperança.
VII. De injustiça existem três espécies: impiedade, ganância e ultraje. Impiedade é uma negligência seja para com os deuses e os gênios protetores, seja para com os mortos, os parentes e a pátria. Ganância diz respeito aos acordos e consiste em tomar o que está em disputa contrariamente ao devido. Ultraje é aquilo em razão do quê os homens buscam prazeres para si, enquanto conduzem os outros à desgraça. Donde Eveno escrever sobre ele:
"Qualquer [que seja o ultraje], mesmo sem nada lucrar, comete injustiça".
É próprio da injustiça violar os costumes pátrios e os usos, desobedecer às leis e aos [1251b] governantes, mentir, perjurar, violar os acordos e as garantias. À injustiça seguem-se calúnia, impostura, falso amor à humanidade, maldade de caráter e perversidade.
De avareza existem três espécies: cobiça, mofineza e sovinice. Cobiça é o vício pelo qual as pessoas buscam lucrar de todos os modos possíveis e fazem muito mais caso do ganho do que da vergonha. Mofineza é o vício pelo qual as pessoas se tornam incapazes de gastar seus bens conforme o devido. Sovinice é o vício pelo qual as pessoas gastam mal e em poucas quantidades, e assim se prejudicam bastante por não fazer a despesa de modo oportuno. É próprio da avareza fazer o maior caso dos bens e não considerar nada que gere lucro uma ofensa, bem como uma vida mercenária, servil e sórdida, contrária ao amor pela honra e à liberalidade. À avareza seguem-se falar de ninharias,ix enfadamento [mesquinhez], baixeza, descomedimento, ignobilidade e ódio à humanidade.
Da mesquinhez é próprio não ser capaz de suportar nem honra nem desonra, tampouco ventura e desventura, porém, ao ser honrado, inflamar-se de orgulho com pequenas coisas, e ao ter boa fortuna, por outro lado, não levar isto em conta; ser incapaz de suportar a menor desonra, julgar qualquer fracasso a maior desventura, queixar-se de tudo e impacientar-se facilmente. De resto, de tal feitio é o mesquinho, que chama todas as humilhações de ultraje e desonra, mesmo aquelas que acontecem devido à ignorância ou ao esquecimento. À mesquinhez seguem-se falar de ninharias, reclamar do destino, desesperança e baixeza.
VIII. É próprio da virtude, de modo geral, ter uma disposição de alma séria, que se vale de movimentos tranquilos e regulares e é harmoniosa em todas as suas partes; por isso parece que a disposição de uma alma séria é o modelo de uma constituição política boa. É próprio da virtude, outrossim, fazer bem aos que o merecem, amar os bons e odiar os vis, e não ser retaliativo nem vingativo, porém gentil, afável e tolerante. À virtude seguem-se honestidade, razoabilidade, indulgência, otimismo e ainda coisas como ser amante do lar e dos amigos, ser camarada, hospitaleiro, amante da humanidade e da beleza. Tais características, pois, estão todas elas entre as coisas louváveis.
Do vício são próprias as coisas contrárias, e a ele também se seguem as coisas contrárias. Todas as características dos vícios e as coisas que se lhe seguem estão entre as coisas censuráveis.
