Trata-se de recorrer à arqueologia do saber, tal como empreendida por Foucault, em suas aulas entre os anos de 1970-1971 no Collège de France, para resgatar o lugar da mulher no contexto clássico grego. Nas primeiras aulas desse período, Foucault explora a subdivisão entre sofistas e filósofos que abalou de modo irreversível o lugar de saber e poder da sofística. Tal abalo consolida o viés da lógica aristotélica em detrimento da palavra em sua função de phármakon. Com esse recorte, a pesquisa arqueológica realizada por Barbara Cassin sobre a sofística, especialmente o Elogio de Helena, de Górgias, também se torna uma referência para compreender outra forma de saber tradicionalmente ligada às mulheres. Por meio de sua análise filológica e dos estudos da classicista Nicole Loraux (1993) sobre a figura de Aspásia, nota-se como a validade do que é tomado como verdade na tradição ocidental subdivide-se também por um corte de gênero subjacente, no qual modelos historicamente atrelados aos saberes das mulheres - ou femininos de maneira mais ampla - aparecem destituídos de valor, ao passo que formas ligadas aos modelos de pensamento masculino emergem alinhadas ao que é tido como verdadeiro e, portanto, contendo valor nas sociedades ocidentais.
Palavras-chave
Sofistas; Filósofos; Arqueologia; Aspásia; Helena.