Open-access Uma síntese da história cultural da imprensa brasileira no Brasil entre 1980 e 2010: rastros e vestígios de um jornalismo em transformação para a construção do “tempo midiático”

Una síntesis de la historia cultural de la prensa brasileña en Brasil entre 1980 y 2010: rastros y vestigios de un periodismo en transformación hacia la construcción del "tiempo mediático".

BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa: O Tempo Presente - Brasil 1980-2010. Rio de Janeiro: Ed. Mauad X, 2024.

Resumo

Esse texto apresenta uma resenha do livro sobre “História cultural da imprensa - o tempo presente – de 1980 -2010”, de autoria da pesquisadora Marialva Barbosa. A obra lançada em 2024 pela editora Mauad traça um panorama histórico da imprensa brasileira contemporânea, sutilmente dividida em duas partes. A primeira parte denominada de Relembranças, aborda “o dentro” e a segunda, Relembranças, “o fora”, para registrar a proximidade e o distanciamento com que a autora se relaciona com os fatos e as histórias que são contadas, em uma narrativa sutil e envolvente sobre os caminhos trilhados pela imprensa brasileira no arco desses trinta anos.

Palavras-chave
Imprensa; Brasil; História; Jornalismo

Abstract

This text presents a review of the book História Cultural da Imprensa – o tempo presente – 1980–2010, written by researcher Marialva Barbosa. Published in 2024 by Mauad, the work offers a historical panorama of the contemporary Brazilian press, subtly divided into two sections. The first, titled Relembranças: o dentro (“Remembrances: the inside”), and the second, Relembranças: o fora (“Remembrances: the outside”), articulate the author’s varying degrees of proximity and distance from the events and narratives she recounts. The result is a subtle and engaging narrative about the paths taken by the Brazilian press over a thirty-year period.

Keywords
Press; Brazil; History; Journalism

Marialva Barbosa é professora titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), com doutorado em História, dedica-se ao estudo da Comunicação e suas conexões com a história. A obra “História Cultural da Imprensa o tempo presente – Brasil 1980-2010” marca o fim de uma trilogia elaborada pela pesquisadora, que teve duas obras anteriores: a primeira aborda os primeiros anos da imprensa no Brasil no século XIX. É considerada uma contribuição importante para o estudo da passagem da monarquia para a república, de 1800-1900. O segundo livro, “História Cultural da Imprensa: Brasil 1900-2000”, traz um panorama da imprensa carioca desde a virada do século XIX para o século XX até os primeiros anos do século XXI mostrando a influência da imprensa no Brasil.

Depois de 14 anos do lançamento do segundo livro, em 2024, a autora apresenta mais uma contribuição para os estudos da imprensa brasileira. A obra “História Cultural da Imprensa – o tempo presente 1980-2010” está dividida em duas partes distintas, sendo a primeira parte denominada de relembranças, “o dentro”, e a segunda parte, relembranças, “o fora”. Antes das duas partes, na Introdução, a autora apresenta desafios, questionamentos e suas motivações para a escrita do livro. Barbosa deixa claras as suas pretensões a partir do modelo dialético de Walter Benjamin. A autora faz uma revisão de seus livros anteriores cuidando para não se repetir. Diante da impossibilidade de aprofundamento no extenso conteúdo da obra, aqui, selecionamos os pontos que mais nos envolveram no universo de uma obra que sintetiza trinta anos da imprensa brasileira.

Na parte I – Relembranças, “o dentro” refere-se aos espaços de locomoção entre o território e a memória da própria pesquisadora para montar o quebra-cabeça da história da imprensa brasileira. Essa primeira parte é composta por três capítulos que buscam elucidar a história da imprensa brasileira, com uma abordagem sutil de quem acompanhou e observou todos os movimentos a partir do eixo Rio-São Paulo. No primeiro capítulo, “O moderno na imprensa e nos jogos memoráveis”, são apresentados o processo e a busca pela modernização da imprensa depois de 21 anos de ditadura civil-militar. De acordo com a autora, a chegada dos modernos computadores nas redações tornou-se um verdadeiro símbolo de novos tempos para a imprensa do Brasil. “A década transforma-se num tempo de interregno entre um mundo que gradualmente deixava de ser analógico para tornar-se digital” (BARBOSA, 2024, p.16). As mudanças não eram apenas decorrentes dos avanços tecnológicos, mas, sim, de um projeto econômico liberal, que mudou também a profissão do jornalista. “Essas empresas adotam o modelo taylorista nas indústrias de mídia, seguindo os padrões neoliberalistas advogados pela política e pelo mercado (com mais intensidade a partir do governo de Fernando Collor [1990-1992]” (BARBOSA, 2024, p. 17). A partir da organização de um importante levantamento sobre a concentração dos diários nas capitais, é realizada uma pesquisa em nível nacional, entre vespertinos e matutinos que desapareceram entre os anos de 1960 e 1979. Tendo como referência os anos 1960, faz uma radiografia da imprensa brasileira e o seu processo de transformação no período. No final de cada capítulo da primeira parte, uma seção denominada “Iluminuras” apresenta os conceitos basilares que constituíram o processo de investigação da autora, com os principais autores e pesquisas, consultas, para “iluminar” o leitor e estimular o caminho para a pesquisa histórica. Ao final, sugere que o moderno jornalismo dos anos 1980 suplanta o movimento anterior identificando-o como atraso, e apresenta alguns conceitos basilares para os capítulos: “tempo presente”, “liberalismo e neoliberalismo” e “moderno”.

No segundo capítulo, o título “Espremendo (às vezes) ainda sai sangue” faz uma analogia ao clássico estudo “Espreme que sai sangue”, de Danilo Angrimani (1995). Barbosa (2024) enfoca os jornais qualificados como sensacionalistas, mas que se autointitulam populares, ou como o “novo jornalismo popular”. A reflexão sobre esses periódicos que são destinados, de acordo com os departamentos comerciais das empresas, ao público das classes C e D os faz serem identificados como jornais “feitos para o povo” e que revelam a “cultura do povo”. O sensacionalismo na imprensa, com a popularização das narrativas, teve seu primeiro momento na primeira década do século XX. O segundo momento ocorreu entre 1920-1930, quando jornais eram inteiramente dedicados a essas narrativas criminais. Um terceiro movimento dos jornais “para o povo” ocorre a partir de 1950, quando se acirram os embates entre o Partido Trabalhista Brasileira (PTB), a União Democrática Nacional (UDN) e os jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa e Luta Democrática. Na década de 1970, os jornais O Dia, no Rio de Janeiro, e Notícias Populares, em São Paulo, marcam o apogeu, estampando o escatológico e o grotesco em suas páginas. O último movimento identificado na publicação ocorre nos anos 1990, com os jornais O Dia e Extra, ambos no Rio de Janeiro. Trata-se de uma importante reflexão que busca entender “Que povo é esse?”, o que os jornais sensacionalistas buscam atingir no “mundo C”: suas características, seus anseios e suas leituras das sensações, o que buscam no “novo jornalismo popular”, calcado em fofocas, esportes, cidade, política e serviços. O final do capítulo, nas iluminuras, apresenta ao leitor um tratado sobre a imprensa popular e o povo, com todos os percursos para o aprofundamento das temáticas e uma série de autores catalogados.

O terceiro capítulo, “Diante das bancas de revistas”, começa com o retrospecto sobre as bancas de revista dos anos 1980 e 1990, por meio da propalada segmentação do mercado editorial das revistas. A reflexão sobre o significado da explosão do segmento, a partir da luta por leitores e a competição entre empresas jornalísticas, em decorrência de um mercado publicitário milionário, é detalhadamente explicitada nesse capítulo. A partir de dados oficiais das publicações, o mercado editorial e as empresas são apresentados de forma didática e fluida. Entre os levantamentos, em 1987, são identificadas e categorizadas 488 revistas por gênero, com 14 subcategorias. Dados sobre o perfil do leitor brasileiro estão relacionados com a segmentação das revistas. “O hábito de ler é maior nas chamadas classes A e B e naqueles que possuem maior grau de instrução” (Barbosa, 2024, p. 76). Alguns dados como “as mulheres suplantam os homens” também refletem no crescimento de revistas como Manequim, Nova e Capricho. Outro destaque no ramo editorial desse nicho é o aparecimento de revistas destinadas a segmentos específicos, como surf, vôlei, box e mergulho. Além disso, surgem várias publicações sobre informática e outras destinadas ao público jovem. A memória e parte da história da quinta revista de informação mais vendida do mundo – a Veja – integra esse capítulo. Vale a pena conferir os detalhes sobre o discurso, as estratégias e o reconhecimento da publicação. A perspectiva apresentada pela autora sob o signo do consumo das revistas demonstra que os públicos feminino e jovem são o foco preferido pelo setor. A reprodução de um trecho de uma entrevista do fundador da Editora Abril, Roberta Civita, ressalta a necessidade de se fazer pesquisa e falar com os leitores bem como ficar atento às vendas, às assinaturas, de forma rotineira, para dispor de um indicador lento, mas seguro, da situação. Para finalizar, as Iluminuras apresentam o contexto como um fator decisivo para a interpretação, principalmente, porque a autora estava inserida nesse contexto. De acordo com dados sobre pobreza e fome, ela fazia parte de uma minoria quantitativa de leitores diante do aumento e da segmentação das publicações nas bancas.

A parte II do livro – denominada de “Relembranças, o fora” é composta por mais três capítulos (capítulo 4, capítulo 5 e capítulo 6). No quarto capítulo “São os do Norte que vêm...”, a autora apresenta as suas justificativas de pesquisa para fazer um recorte fora do eixo Rio-São Paulo e ir em busca de referências da imprensa do Pará e do Amazonas, na área de Comunicação e outras. A observação inicial é de que o medo e a violência construídos pelos impressos traziam para a pesquisa a exclusão daqueles que viviam nestes territórios. Por meio de um olhar multifacetado, mas incompleto, a autora reconhece um silêncio relativo a questões contemporâneas, devido à proximidade e à distância, em relação aos discursos da mídia. A discussão sobre abordagem histórica, que pode ser generalista ou particularista, coloca no centro da questão da “variação de escalas”, para romper com silenciamentos e lógicas macroestruturais e hegemônicas, tratando das diversas histórias da imprensa no Brasil, ao trazer novas dimensões da imprensa brasileira, independentemente de seu contexto. Na capital paraense, duas questões são destacadas. A primeira é a relação entre a mídia e o poder local e a segunda, a narrativa calcada no popular, sendo que ambas as perspectivas têm vínculos com a questão da exclusão da região - uma imprensa à margem, devido à distância dos grandes centros políticos, econômicos e urbanos do país. Denominações como mídia regional, regiões jornalísticas, imprensa do interior, mídia de fronteira, mídia periférica foram inventariadas pela autora. Ao final do capítulo, além das inquietações provocadas, são levantados três pontos importantes sobre a história da mídia na Amazônia paraense, relativos às primeiras décadas do século XXI. O primeiro identifica as consequências perversas da colonialidade como determinante para os complexos processos de exclusão que se materializam nos jornais diários. O segundo identifica o poder oligárquico local, que faz com que os políticos filtrem as informações disponibilizadas. E o terceiro identifica o domínio do trágico e da violência nos periódicos.

O quinto capítulo, “Os gritos vêm das comunidades”, trata da primeira década do século XXI e a produção de incertezas relativas à forma e aos processos na grande imprensa e nos jornais produzidos por grupos não hegemônicos. A partir da digitalização, havia uma perspectiva de democratização dos meios de produção da comunicação, mas não foi isso que ocorreu. “A democracia da informação se transformou, algumas décadas depois, no barulho em incerteza da desinformação, utilizada cientificamente e com método” (Barbosa, 2024, p. 126). Nas décadas 1980-1990, houve uma multiplicação de mídias para os movimentos sociais, concomitante com o momento político e de restauração da ordem democrática. Com o tempo, houve a diminuição desses veículos e a migração para plataformas digitais. Depois de anos de silêncio, devido à ditadura, aqueles considerados divergentes, como as mulheres, os homossexuais e o negros, conseguem aos poucos expressão pública por meio da imprensa. No arquivo do serviço Nacional de Informação (SNI), em 1980, esse tipo de imprensa foi qualificada como “alternativa” e altamente perniciosa, como parte de um dossiê do Jornais da Imprensa Alternativa. Outra denominação recebida por alguns grupos foi a de “organizações subversivas”. O movimento e sua imprensa são apresentados a partir das pesquisas no arquivo da repressão, tendo Nêgo como o Jornal do Movimento Negro Unificado, entre outros. Um quadro de referência com a listagem da imprensa dos movimentos negros de 1980 até 1990 é organizado pela autora no decorrer do capítulo, totalizando 68 periódicos no país. No tópico “Dando voz a outros movimentos”, um importante registro sobre os anos 1990, a partir dos relatórios anuais de informação do Exército, foi produzido sobre a imprensa divergente, como também sobre as instituições responsáveis por edições de “Movimentos Populares”.

No sexto capítulo, “Uma trilha da imprensa: trilhas de pesquisa”, a autora explana sobre os seus caminhos, nem sempre lineares, para que a história da imprensa esteja refletida nas pesquisas brasileiras. Há um ressentimento pelo apagamento que estudos de Comunicação vêm sofrendo. Isso ocorre devido à falta de grupos de pesquisa nas principais associações científicas do campo. O resultado é a prevalência de uma “perspectiva histórica” culminando no que a autora denomina de “eterno ultrapresente”. A delimitação em três tendências, divide a primeira em pesquisas a partir de recortes, pedaços e tempos em desalinho. A segunda é denominada história envergonhada, e a terceira questiona a necessidade de obras de síntese. O resultado é um apêndice com as teses de Comunicação no período compreendido entre 2019 e 2020, com a listagem de 18 teses produzidas.

As considerações finais são nomeadas pela autora como Iluminuras Finais. Em “Tempo: último cenário”, a proposta é apresentar como a questão teórica do tempo foi a categoria principal das inúmeras reflexões propostas em todo livro. Uma gama de autores é citada para compor o cenário teórico e as escolhas para a obra, como Carlo Rovelli, Paul Ricoeur, Reinhart Koselleck, entre outros. As historicidades: a dimensão filosófica do ser e do tempo são reelaboradas a partir das três instâncias temporais – futuro, passado e presente, como elementos históricos-analíticos. Desse modo, é estabelecida uma interconexão entre historicidade e tempo a partir de digressões de autores como Ricouer e Heidegger, num processo de construção epistemológica do termo historicidade. Por fim, tempo e narrativa, como uma poética da história, a partir dos aportes teóricos da obra de Ricouer, são a base para a proposição de um conceito, o “tempo midiático”, um novo campo a ser explorado pelos historiadores da mídia. São esclarecidas as possíveis incompletudes nas reflexões e inflexões do tempo, sem deixar de fora o conector fundamental do ponto de vista metodológico, como os rastros e os vestígios do passado, arquivos e documentos, sem contar o constante estado da arte ou do conhecimento, nos principais bancos de pesquisa e revistas acadêmicas. Tudo isso possibilitou um grande volume de achados de pesquisa para compor essa obra de amplitude e dimensões reflexivas potentes, com as características da síntese, que busca contribuir para o entendimento e o aprofundamento de uma história da imprensa brasileira no tempo presente e com o recorte de trinta anos no período de 1980 até 2010. Boa leitura para quem quiser se aventurar e conhecer a imprensa brasileira do tempo presente!

  • Revisoras
    Cristine Gerk (português)
    Felicity Clarke (Inglês)
    Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ
  • sistema duplo cego
  • Como citar:
    KNEIPP, V. A. P. Uma síntese da história cultural da imprensa brasileira no Brasil entre 1980 e 2010: rastros e vestígios de um jornalismo em transformação para a construção do “tempo midiático”. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 49(2026) e2026109. https://doi.org/10.1590/1809-58442026109pt.
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Disponibilidade dos Dados

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REFERÊNCIAS

  • ANGRIMANI, Danilo. Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus, 1995.
  • BARBOSA, Marialva. (2024) História Cultural da Imprensa – o tempo presente Brasil 1980 -2010. Rio de Janeiro: Mauad, 2024.
  • BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Obras escolhidas, magia, técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.

Editado por

  • Editoras Chefes:
    Dra. Marialva Barbosa
    Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ
    Dra. Sonia Virginia Moreira
    Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ
  • Editores Executivos:
    Dr. Jorge C. Felz Ferreira
    Universidade Federal de Juiz de Fora, UFJF
    Dra. Ana Paula Goulart de Andrade
    Univ. Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ
  • Editor Associado
    Dr. Sandro Torres de Azevedo
    Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ
  • Editores Responsáveis pelo processo de recepção, desk review e avaliação:
    Ana Paula Goulart de Andrade (UFRRJ) e Jorge Carlos Felz Ferreira (UFJF)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Ago 2025
  • Aceito
    02 Jan 2026
  • Publicado
    30 Maio 2026
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