Open-access INSTAR A PALAVRA – Antonio candido e a dinâmica na comunicação

Instar la Palabra – Antonio Candido y la dinámica en la comunicación

RESUMO

Antonio Candido (1918-2017) foi um sociólogo e crítico literário, cujas contribuições para o campo da Comunicação se estenderam por várias linhas de pesquisa. O propósito deste artigo é identificar as perspectivas dinâmicas que o pensamento do autor permite. Embora seus trabalhos tendam a adquirir feições sistematizadas, é possível avançar sobre primas menos estáveis, principalmente a partir do problema da brasilidade. Com a intenção de explorar esse horizonte, será observado o conjunto de colaborações para a Folha de S. Paulo durante década de 1990, que reúne resenhas de lançamentos, obituários e textos políticos. Essas contribuições estimulam, inclusive, outras óticas para o exame da oralidade e da radiodifusão no país.

Palavras-chave
Antonio Candido; Comunicação; Brasilidade; Dinâmica; Cultura popular

ABSTRACT

Antonio Candido (1918–2017) was a sociologist and literary critic, whose contributions to the field of Communication fall within the scope of several lines of research. This article aims to characterize the dynamic perspectives that the author’s thought make possible. Although his oeuvre tends to acquire systematized characteristics, unstable perspectives can be explored, mainly based on the issue of Brazilianness. To explore such perspectives, we observed his 1990s collaborations to Folha de S. Paulo, collecting reviews of releases, obituaries and political texts. These contributions foster other perspectives for examining orality and broadcasting in Brazil.

Keywords
Antonio Candido; Communication; Brazilianness; Dynamics; Popular culture

RESUMEN

Antonio Candido (1918-2017) fue un crítico de periódicos y sociólogo, cuyas aportaciones al campo de la Comunicación abarcaron varias líneas de investigación. El propósito de este artículo es identificar las perspectivas dinámicas que permite el pensamiento del autor. Si bien sus obras tienden a adquirir rasgos sistematizados, es posible explorar la instabilidad, principalmente desde el problema de la brasilidad en Brasil. Con la intención de explorar este horizonte, se observará el conjunto de colaboraciones de Folha de S. Paulo durante la década de 1990, que reúne reseñas de lanzamientos literarios, obituarios y textos políticos. Estos aportes alientan otras perspectivas para examinar la oralidad y la radiodifusión en el país.

Palabras clave
Antonio Candido; Comunicación; Brasilidad; Dinámica; Cultura popular

“Ter começado a minha atividade literária como crítico de uma revista de estudantes, em seguida como crítico titular de um jornal em São Paulo, portanto, veículos que exigem a comunicação... Eu creio que minha experiência de jornalismo crítico foi fundamental 1 ”(Candido, 1995)

O sociólogo e crítico literário Antonio Candido (1918-2017) manteve proximidade com o campo da Comunicação: seja na colaboração com veículos impressos, entre os séculos XX e XXI; seja devido às aplicações de suas reflexões a respeito do público leitor, dos gêneros literários e da circulação de textos de intelectuais brasileiros de diferentes períodos no universo acadêmico. Nessa área, seus estudos especialmente sobre a crônica desempenharam função decisiva para a cobertura na imprensa, do cotidiano das cidades aos acontecimentos esportivos – com destaque para o futebol. A propensão ao sistematismo, presente no legado do autor, facilitou essa utilização.

Este artigo se concentra nas vivazes perspectivas que o pensamento de Candido possibilita aos trabalhos em Comunicação. Para isso, assume como corpus textos publicados na Folha de S. Paulo durante os anos 1990. Um horizonte menos estático pode ser proveitoso para o campo – uma vez que, assim como o próprio autor reconhece, trata-se de uma dimensão da realidade social fundamentada por trocas2. Existem, em seus escritos, indícios que permitem leituras a respeito dessas instabilidades e a proposta passa a ser identificar como se articulam esses elementos. Entretanto, não é permitido negligenciar o interesse por planos quase absolutos: ao se dedicar às obras de Machado de Assis (2023e), Oswald de Andrade (2023d), Carlos Drummond de Andrade (2023g) e Guimarães Rosa (2023h), há a busca por esquemas que compartimentem características, com fases específicas.

A disposição para procurar estruturas abrangentes se manifesta de modo eloquente quando os esforços se dirigem à formação de um sistema literário no Brasil (2023f). Para entender as dificuldades na consolidação do público leitor e na distribuição de livros, o mesmo viés se expressa (2023j). Isso torna a missão deste artigo profundamente complexa. O conceito de dinâmica, para o campo da Comunicação, está inserido em um prisma que prioriza o movimento, com a preponderância da oralidade em detrimento dos parâmetros estáveis, de seriedade, fornecidos por círculos formais marcados pelo comedimento (Herbert Neto, 2024, p. 129). Embora Candido eleja como foco as tradições livrescas, há um latente potencial nesse cenário.

Em oposição à ênfase limitada aos livros sistemáticos, que dão corpo a visões totalizantes, a alternativa é valorizar igualmente os trabalhos esparsos. Serão consideradas, então, as publicações na imprensa com a assinatura do autor e aquelas que posteriormente foram agrupadas em coletâneas. Concisos e acessíveis, esses registros oferecem retratos dos instantes em que determinada edição vem a público – será levada em conta, aqui, a década anterior à virada para o novo milênio, período de maturidade do escritor. O direcionamento a simultaneamente obras de fôlego e escritos fragmentados vai no mesmo sentido.

A partir desta apresentação, o artigo terá três seções. A primeira constitui um esforço para demonstrar os diferentes usos do pensamento do autor no campo da Comunicação. Principalmente para a cobertura esportiva, as iniciativas têm seguido tendências precisas. A segunda se propõe a identificar os indicativos que conferem movimento ao legado de Candido. A paisagem com que seu pensamento lida sublinha nuances políticas e históricas, além de propiciar estudos que encarem as complexidades dos media de maior amplitude, proeminentes desde a primeira metade do século XX. Então, considerações finais serão expostas.

‘Sou um homem mais da palavra falada3’: Candido e a Comunicação

A aproximação com documentos históricos de Luca (2005) é pertinente para que a década de 1990 da Folha de S. Paulo seja mensurada. A autora reconhece em jornais e revistas registros legítimos, mas reitera que nada contido nas páginas é carregado de neutralidade, o que exige dos estudiosos precaução para notar as opções por trás da hierarquia de matérias e da diagramação (Ibidem). Isso aponta para os diferentes modos de leitura e para a circulação das publicações, assuntos interessantes para uma pesquisa que busque identificar os trânsitos que constituem a Comunicação. Luca (2005) sublinha as diretrizes comerciais e editoriais dos veículos: nessa direção o caso do jornal é emblemático. Um dos principais conglomerados do setor, o Grupo Folha tem histórico antidemocrático que remete à Ditadura Civil-Militar (Kushnir, 2004) e é retomado no século XXI (Almeida, 2016) – embora reivindique a condição de guardião de direitos civis.

Permanências e descontinuidades com esses valores ficam evidentes ao longo do exame: a Folha de S. Paulo em especial esteve vinculada a projetos intelectualidade paulista, bem representada por Candido, a despeito da origem carioca e da juventude vivida entre Minas Gerais e França. Os trabalhos que se amparam no autor não se concentram na radiodifusão. Se os expedientes presentes na produção das emissoras de rádios e dos canais de televisão carecem de análises com essas propostas, nos veículos impressos a realidade é antagônica. A aplicação à imprensa escrita é predominante. Para a leitura de jornais e revistas, os esquemas de Candido estimularam ações para diferentes gêneros. Sob a mesma orientação, a diversidade é uma distinção inegável: compartilham das referências investigações que partem dos campos da Educação Física, da História e da Comunicação.

Foi possível enxergar nos acontecimentos dignos de acompanhamento pela cobertura noticiosa os personagens explorados pelo jornalismo literário (Serelle, 2020). As elaborações por escrito, que lançam mão de recursos estéticos caros à literatura, são tema do estudo, apoiado na perspectiva de Candido, de Serelle (Ibidem). No conjunto geral, entretanto, a atenção a essas inclinações na produção jornalística não é tão frequente. Já as ferramentas oferecidas pelo escritor para a avaliação das crônicas (Candido, 2003) têm sido profícuas. É ao pensador que Golin, Rizzatti e Zuanazzi (2022) recorrem para sustentar suas argumentações acerca do jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul. Reconhecer que o estudo tratou do caderno de cultura da publicação é imprescindível. Inicialmente, porque ratifica os vínculos do escritor com as artes; por conseguinte, por sublinhar uma seção que não parece ter o predomínio no escopo total de iniciativas que se escoram em Candido para avaliar veículos impressos.

Em comparação, o universo esportivo é alvo sensível desse empenho, mesmo que por meio de abordagens distintas. A crônica futebolística se configura como o principal núcleo. Marques a princípio de modo mais conciso (2001) e adiante de maneira extensa (2003) se lança nesses registros textuais, com ênfase em períodos de Copas do Mundo de futebol masculino. As descrições, em tons épicos ou passionais, de atletas ou figuras que participaram de jornadas vitoriosas, atraíram estudiosos. Para exemplificar, Nelson Rodrigues merece um estudo de Lise e Capraro (2017). As colunas do cronista e dramaturgo passam por um exame amparado por Candido. Os textos compõem essas descrições sobre as conquistas, principalmente da seleção brasileira. Lise, Musse e Capraro (2018) esmiuçam a escrita de Ruy Castro sobre o mesmo colunista e o jogador Garrincha: a pesquisa ilumina a tendência a trabalhar com livros, de autoria de brasileiros ou estrangeiros, que abordam o futebol. Castro, a título de exemplo, é reconhecido por seu ofício de biógrafo (Ibidem).

Com o mesmo ferramental teórico, Lise se debruça sobre o escritor britânico Nick Hornby (2018) – que aproveita diferentes prismas do futebol, a exemplo da experiência dos torcedores. Ainda sobre os livros, Ignácio (2011) se atém ao autor brasileiro Flávio Carneiro, outra vez à luz de Candido. Nascimento (2014) trata dos entrecruzamentos da modalidade com a literatura de modo geral, sem delimitar autor, escola e períodos específicos. Em algum nível, esses acenos recuperam a vocação inicial de Candido, que a despeito da formação em Ciências Sociais, reforçava um enquadramento aos estudos literários, com destaque para o contexto brasileiro4.

Resiste um paralelo com a função que a modalidade passou a exercer no mesmo intervalo de tempo. Helal (2011) reitera que, com os desempenhos bem-sucedidos de clubes e da seleção nacional, o futebol se consolidou como um elemento de coesão e suscitou representações, com forte apelo no país, dos anos 1930 ao século XXI. Outros pesquisadores reconheceram o esporte como um traço da brasilidade sob outras óticas (Negreiros, 2003; Simas; Rufino; Haddock-Lobo, 2020). As conexões com Candido encontram na relação com o sentimento pátrio um decisivo ponto de contato. Com atenção voltada para a participação política, Ridenti (2010; 2014) seleciona demonstrações difundidas por veículos de grande penetração para problematizar o nacionalismo.

A importância das disputas em Candido é maior. Para defender a inserção nos inalienáveis direitos humanos, o autor não limita o universo literário ao mundo dos livros, a círculos de literatos ou a confrarias de críticos, especialistas. Pelo contrário, coloca em evidência a capacidade de fabulação nessa luta pela garantia da literatura na vida social (2023i). Ou seja, a habilidade de imaginar, criar e fruir de histórias não se restringe às tradições livrescas e se difunde por classes sociais diferentes entre si (p. 190). Para defender que isso é global o escritor enumera expressões culturais que se servem da aptidão para fabular, a exemplo do samba e do carnaval (p. 189).

Não é necessário se alongar na constatação de que, para a questão da nacionalidade, o samba desempenhou função semelhante a do futebol desde a primeira metade do século XX, diante da concomitância dos processos de industrialização e urbanização (Gomes, 2008). A defesa da literatura como direito humano a ser garantido é transversal, não somente mobilizada em prol do Brasil. Os atravessamentos políticos assim não vêm à luz apenas quando entra em discussão o sentimento pátrio, embora outras ponderações acerca da história do país enfrentem tensionamentos entre conservadorismo e radicalidade (Candido, 2023k).

Não obstante tenha se interessado por tradições populares, como no estudo sobre a cultura caipira (2017), Candido não se ateve ao futebol, nem de maneira sistemática, nem de forma episódica. Em algumas passagens, até destaca a repulsa que práticas esportivas causavam nos grupos de intelectuais dos quais fez parte5. O que a princípio parece dissuadir as tentativas de compreender as ligações do esporte com a ideia de nação, na verdade, promove um incentivo: o autor desenvolveu uma abordagem especial para lidar com a brasilidade, que reforça as disputas políticas, fortalece olhares históricos e, principalmente, acentua o dinamismo.

Os registros na Folha de S. Paulo são ocasionais e a assinatura de Candido apareceu em cadernos como “Cotidiano”, “Ilustrada” e “Mais!”. Em determinado momento, o colaborador chegou a reivindicar dos críticos métodos firmes para a análise da ficção e da não-ficção, como se a tendência ao esquematismo fosse uma exigência para o sucesso na função6. A sistematização de protocolos para mensurar as qualidades literárias é reconhecida, sobretudo, como um sinal de maturidade para o ofício7. Entre a publicação de trecho inédito de novo volume ainda no prelo8 e o elogio à conexão da linguagem das ruas9 com narrativas em livros10, é reiterada sua condição de intelectual público.

‘Ativa era, sobretudo, a crítica de jornal11’: perspectivas dinâmicas

Em mais de uma ocasião, o espaço ocupado foi definido pela tomada partido: ora pela escolha de um candidato durante a corrida presidencial12; ora na justificativa de um manifesto lançado contra intervenções urbanísticas em áreas residenciais13. A relação com a rotina eleitoral era familiar ao crítico, mas aos propósitos deste estudo talvez a camada proeminente nos textos seja a predisposição para embates políticos, sociais e culturais. Trata-se de um posicionamento definido pelo comedimento: no intervalo em questão, Candido se debruça sobre o engajamento na literatura14, em tom que sustenta a mesma moderação – a exemplo de quando observou as interpretações acadêmicas sobre o desenvolvimento político, econômico e social do Brasil15 ou ao examinar a elaboração, no século XX, de romances16. A sobriedade é um fator distintivo porque permite que a aproximação com as pautas vinculadas à justiça social, mas não provoca o conservadorismo com acenos à radicalidade17.

Outras linhas gerais são perceptíveis. Havia textos especiais em virtude de lançamentos do mercado editorial18, dedicado a escritores recém-falecidos19 e para homenagear a obra de pensadores em edições temáticas20. É interessante notar a construção da memória da Universidade de São Paulo (USP) a partir das palavras do crítico literário, com as constantes referências a colegas acadêmicos e, consequentemente, a edificações de suas reputações. Outro intérprete do Brasil, Darcy Ribeiro, parece combinar alguns desses parâmetros durante o período: seu obituário apresenta indicativos nessa direção.

Com a morte do senador, escritor e cientista social – que se dedicou, na maturidade, aos entrelaçamentos do futebol com a brasilidade (Ribeiro, 2014) –, Candido se lançou, na publicação paulistana, a uma ode à obra do pesquisador21. É com esse propósito que são mencionados trechos de escritos recentes, publicados pouco antes da sua partida, e reavaliados os movimentos de Ribeiro, da juventude ao período avançado de sua fase produtiva22. É a descrição da cena do velório que colabora para o entendimento das tensões em torno da brasilidade, ao mesmo tempo que atribui instabilidade a símbolos nacionais.

O título do texto funéreo é “As três bandeiras”. Os pavilhões que repousavam sobre o caixão de Ribeiro durante a cerimônia na Academia Brasileira de Letras: o do Brasil; o de Minas Gerais, estado natal do escritor; e o do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra23. De acordo com Candido, aquele congraçamento estabelecia um patriotismo atento às desigualdades do país, mas avessos a provincianismos – em confluência com a atitude que foi mantida ao longo da vida do pensador cujo corpo, àquele momento, repousava ao centro do ritual de despedida24. O sentimento nacional, suscetível a tensionamentos simbólicos, não é desenvolvido de modo mais transversal pela publicação, afinal o propósito era expor a profundidade do último ato com Ribeiro na cena pública.

No texto, o amálgama do edifício Petit Trianon, no Rio de Janeiro, com traços nacionais e estaduais é rico em sentidos. A oportunidade deixa que sejam entrevistos os confrontos políticos ao redor da brasilidade, tão pertinentes para a Comunicação. A deferência à vitalidade intelectual de Ribeiro não é uma exceção. Na Folha de S. Paulo, Candido elogia a capacidade de pensadores que versam sobre diferentes temas, mesmo que sem a mesma especialização25. A habilidade é um mérito principalmente quando se desdobra para nuances entendidas como dignas de menos interesse pelos círculos ilustrados. É criticado, portanto, o preconceito social contra manifestações associadas aos setores apartados dos principais núcleos decisórios.

No caso, são mencionadas as religiões de matriz africana e diversas expressões artísticas de descendentes da população escravizada26. A salvaguarda da universalidade é uma constante: a partir do mesmo enfoque em propostas menos rígidas na Comunicação por meio do legado de Candido, é preciso se deter na defesa do autor do status de direito humano da literatura (2023i). A princípio porque essa intervenção pública sugere o mesmo direcionamento à circulação das ideias. O autor defende a universalização em oposição a visões excludentes ou aristocráticas da arte (Ibidem). Ainda mais em um país como o Brasil, cujas desigualdades haviam sido denunciadas em outras ocasiões – inclusive no obituário de Ribeiro para o jornal27.

“Uma palavra instável” é um ensaio de 198428 que traça o panorama do sentimento patriótico ao longo do século XX – a formação educacional no país, os confrontos no seio da política institucional, as bandeiras que despertaram o engajamento de movimentos pela transformação da sociedade ou, ao contrário, pela restauração das características hidrófobas do país são trazidos à tona (2023m). Nesse cenário, ser brasileiro é menos o pertencimento estático e naturalizado à nação do que a resultante de vetores díspares, por vezes diametralmente opostos, que oscilam historicamente. Não há brasilidade essencial. Por isso, o olhar através das décadas é predominante no estudo: a instabilidade que atribui o título ao texto é a do nacionalismo.

O panorama histórico se desenrola ao redor da perplexidade que as diferentes apropriações desse sentimento suscitam. Forças políticas adversárias reivindicam a posição de guardiões do país, a depender do inimigo externo da ocasião (Candido, 2023m, p. 234). A postulação a autênticos representantes dos interesses do Brasil vacila de tempos em tempos, e os elementos que servem de base para essa retórica podem residir em tradições populares inclusivas (p. 238) ou em opressivas negações das diversidades (p. 243). Ao se aproximar da conclusão, Candido se manifesta diretamente: “o objetivo deste artigo foi verificar por alto a flutuação da palavra nacionalismo (que é uma espécie de ímã atraindo limalhas diferentes conforme a hora), com preferência pelos aspectos culturais” (grifo do autor, p. 244).

O autor esboça denominações para essas experiências distintas – “podem ser consideradas formas de nacionalismos o ufanismo patrioteiro, o pessimismo realista, o arianismo aristocrático, a reivindicação da mestiçagem, a xenofobia, a assimilação dos modelos europeus, a valorização da cultura popular” (Candido, 2023m, p. 244-245). Os trânsitos, no limite, conceberam certa espécie singular de patriotismo. Candido elenca mais casos nessa direção: “o conservantismo político, as posições de esquerda, a defesa do patrimônio econômico, a procura da originalidade etc. etc. Tais matizes se sucedem ou se combinam, de modo que por vezes é harmonioso, por vezes, incoerente” (p. 245). Expressamente, o autor demarca que “esta flutuação e esta variedade mostram que se trata de uma palavra arraigada na própria pulsação da sociedade e da nossa vida cultural” (Candido, 2023m, p. 245).

A alusão ao estudo, publicado em livro, é oportuna porque existe uma decisiva recorrência. Mais de dez anos depois, o mesmo tema motivou outra publicação, com título igual, dessa vez na Folha de S. Paulo29. É instigante que o texto de 1995 recorra a um pulsar social para iniciar a reflexão a respeito das oscilações do sentimento nacional, em formulação muito parecida a dos anos 1980. O que veio a público com o jornal mantinha semelhanças com a versão anterior, apesar do espaço reduzido com que teve de negociar. Por exemplo: a defesa de que o nacionalismo permanecia uma estratégia indispensável foi sustentada em ambas as ocasiões30.

Nas duas ocorrências, entretanto, o reconhecimento do regime instável da palavra resgata aspectos do obituário de Ribeiro. A descrição do velório constata que a união das três bandeiras equaciona os tensionamentos presentes no pavilhão nacional: as violências que o Brasil pratica, enquanto Estado ou conjunto de símbolos, são anuladas pela presença imagética do movimento social que reivindica a distribuição agrária. O episódio insta o nacionalismo às suas inclinações inclusivas, até subversivas, e reaviva as dimensões de disputa simbólica que a trajetória, esboçada por Candido, trata como eixo para o entendimento histórico do que é ser brasileiro. A instabilidade com que o patriotismo convive leva a hipóteses provocativas.

Os conflitos que o conceito provoca induzem à luta pelo sentimento nacional, em gesto semelhante ao realizado pelo mesmo autor quando trata dos direitos humanos. Em outras palavras, ao identificar essas características Candido torna o conceito suscetível a tamanhos atritos. Assim, são instaurados atravessamentos políticos com Candido que, a rigor, devem ser buscados em todos os enunciados. E é aí que reside outra sugestão: há uma inconstância inerente aos conceitos, que transcende as idiossincrasias do Brasil. O caráter instável da palavra, à mercê de condições históricas e opções retóricas, não deve ser menosprezado em nenhuma análise textual. O sociólogo e crítico e literário, que estimou pertinências e inconveniências de estudos prioritariamente focados na hermenêutica social (Candido, 2023b), coloca à prova as leituras estáticas de registros por escrito a reboque da brasilidade.

Sob esse prisma, os veículos de radiodifusão são passíveis de novos olhares. A dinâmica da Comunicação no rádio e na televisão é digna de mais estudos, a exemplo de suas consequências para a cena pública. Quando estão em questão particularmente os impasses relativos à nação, essas perspectivas fortalecem as considerações sobre a real força que os veículos de grande alcance exerceram a partir do século XX: por conseguinte, no momento levado em conta por Candido no ensaio sobre o nacionalismo. É um período em que alterações técnicas se sucederam intensamente com o aumento da abrangência dos media e de trocas em tempo real.

‘Compatibilizar as exigências do rigor acadêmico com a lhaneza31’: considerações finais

A obra de Antonio Candido tem sido reeditada na primeira metade dos anos 2020, com ensaios críticos inéditos de autoria de pesquisadores de gerações diferentes32. As deferências conferidas por instituições universitárias também têm sido reiteradas33. As sinalizações precisam fazer com que emerjam diferentes visões acerca do legado do autor: em vez de um bloco monolítico, visões plurais acerca do trato com o texto, das relações que a sociedade trava com a literatura e até do desenvolvimento do Brasil. Este artigo assumiu como foco esse ponto, mesmo que de modo fracionado, para impulsionar outras ações na mesma direção.

Em vários sentidos, a proposta vai na contramão da totalidade do pensamento do autor. Essa inversão, entretanto, não é arbitrária: parte de registros com a assinatura de Candido – que inclusive tiveram grande circulação por meio da imprensa. Em contexto de retomada, é uma tentativa de identificar traços contracanônicos nos estudos acerca do sentimento nacional, dos significados em torno dos conflitos políticos e das interpretações possíveis da própria linguagem. Não deixa de ser, então, uma crítica a pontos menos cravados pelo signo da intensidade. É, simultaneamente, um esforço que pode fortalecer iniciativas na mesma direção, sobretudo para estimular a pluralidade no campo de pesquisas.

Avaliações propriamente literárias de Candido, conduzidas por meio dos conceitos centrais de sua obra, podem ajudar a testar esses indicativos a respeito da instabilidade da palavra. O propósito do trabalho foi, todavia, explorar as interconexões com a Comunicação – e, para isso, textos de abrangência diferenciada têm enorme valor. O artigo não se lança em uma exegese completa do legado do autor, nem tem a pretensão de esgotar, em visão única, a sua perspectiva sobre o campo. A disposição é oposta: considerar até as impressões fragmentárias, com o argumento de que esses indícios favorecem o rompimento com uma paisagem imóvel. No futuro, outras ações podem dar corpo a essas buscas por dinamismo.

Privilegiar depoimentos, entrevistas e relatos em primeira pessoa é uma estratégia para conferir centralidade à dimensão oral dos trabalhos de Candido. O artigo não assume esse como um de seus objetivos, mas ao citar pontualmente trechos de declarações do autor demonstra que alguns indicativos determinantes constam nesses registros – hoje disponíveis em plataformas de vídeo na internet ou em acervos de instituições de ensino e memória. A afirmação de que o ofício de orador, que compunha a atividade docente, era mais importante do que seus escritos34 é significativa por sinalizar uma mudança de prioridade. Por outro lado, o tom comedido e agradável dos depoimentos não deve encobrir as ambiguidades do autor.

Perspectivas específicas a respeito da raça no Brasil (Candido, 2023l), a reticência ante aspectos ainda restritivos das universidades (Candido, 2033a) e até outras tomadas de posição no cenário partidário para as disputas eleitorais (Morais, 2022, P. 349) devem ser ponderadas nos mesmos moldes: a severidade para contemplar os pormenores se conjuga com certa ternura na consideração de tradições nem sempre levadas a sério em ambientes acadêmicos. A construção da memória sobre a USP, que tem sido colocada em xeque nos últimos anos (Silva, 2020), merece mais empenho dos estudiosos. Pôr o conceito de cultura popular diante desse cenário aberto por Candido é uma atitude que também pode ser muito valiosa. É ampla a bibliografia que aprofunda as conexões dos conflitos sociais presentes nessas tradições (Chauí, 2013; Canclini, 2005; Martín-Barbero, 2009; Bakhtin, 2010).

Não obstante se concentre nos núcleos ilustrados da vida pública brasileira, o autor nota uma instabilidade que se aproxima daquela enfatizada pelos Estudos Culturais. O empenho para destacar essas características compõe um conjunto que se propõe a problematizar o pensamento social brasileiro, a exemplo de trabalhos a respeito de Gilberto Freyre (Herbert Neto, 2021), Darcy Ribeiro (Herbert Neto, 2023), Lélia González (Herbert Neto, 2025a) e Sueli Carneiro (Herbert Neto, 2025b). Em abordagem mais abrangente, também se concilia com estudos sobre a cultura popular por meio de poetas como Torquato Neto (Herbert Neto, 2024b) e Ferreira Gullar (Herbert Neto, 2024a). Em suma, esse viés sujeito a intensas modificações pode abrir direcionamentos distintos para as pesquisas que se voltem para a circulação de ideias, os trânsitos entre intelectuais e a palavra falada.

  • 1
    Depoimento concedido à Universidade Federal de Pernambuco em 1995. Os títulos das seções partem de citações literais das declarações de Antonio Candido na oportunidade. Vídeo disponível em: <bit.ly/40YAi3i>. Acesso em 3 de abril de 2024.
  • 2
    Afirmação de Antonio Candido que consta no mesmo depoimento (Ibidem).
  • 3
    Trecho do depoimento de Antonio Candido, disponível em: <bit.ly/40YAi3i>. Acesso em 3 de abril de 2024.
  • 4
    A afirmação reaparece em vários momentos do depoimento à UFPE. Disponível em: em: <bit.ly/40YAi3i>. Acesso em 3 de abril de 2024.
  • 5
    Texto sobre Fernando de Azevedo, publicado em 10 de abril de1994, disponível em: <bit.ly/41xRWg9>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 6
    Resenha sobre o crítico Álvaro Lins, publicado em 4 de junho de 1995, disponível em: <bit.ly/3Xcylzh>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 7
    Ibidem.
  • 8
    Trecho inédito de ensaio sobre Guimarães Rosa, publicado em 3 de janeiro de 1999, disponível em: <bit.ly/3CZJpsC>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 9
    Resenha de livro de Cristiano Mascaro, publicada em 17 de abril de 1996, disponível em: <bit.ly/4k9ktzB>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 10
    Obituário de João Antônio, presente na edição de 1º de novembro de 1996. Disponível em: <bit.ly/4hZELud>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 11
    Trecho do depoimento de Antonio Candido, disponível em: <bit.ly/40YAi3i>. Acesso em 3 de abril de 2024.
  • 12
    Referência à declaração de voto no candidato à presidência Luís Inácio Lula da Silva, publicada em 30 de setembro de 1994. Disponível em: <bit.ly/3D6WVuw>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 13
    Resposta ao manifesto pró-reforma da Faria Lima, publicada em 4 de abril de 1994. Disponível em: <bit.ly/42XmBEC>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 14
    Referência a João Cabral de Melo Neto, presente em texto de 10 de outubro de 1994. Disponível em: <bit.ly/4k6wtll>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 15
    O longo comentário sobre Sérgio Buarque de Hollanda, presente na edição de 25 de janeiro de 1998, ilustra isso. Disponível em:<bit.ly/417RtiX>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 16
    Presente no trecho inédito de ensaio sobre Guimarães Rosa, publicado em 3 de janeiro de 1999, disponível em: <bit.ly/3CZJpsC>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 17
    Essa inclinação também está presente na resposta ao manifesto pró-reforma da Faria Lima, publicada em 4 de abril de 1994. Disponível em: <bit.ly/42XmBEC>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 18
    É o caso da reedição da obra de Azevedo, resenhada em 10 de abril de 1994. Disponível em: <bit.ly/4i5wzb4>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 19
    O exemplo é o texto funéreo dedicado a João Luiz Lafetá, publicado em 28 de janeiro de 1996. Disponível em: <bit.ly/3XbyUtk>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 20
    O caso de Darcy Ribeiro, registrado na edição de 5 de novembro de 1995, é ilustrativo. Disponível em: <bit.ly/4b7LijA>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 21
    “As três bandeiras”, texto em questão, foi publicado em 2 de março de 1997 na Folha de S. Paulo. Disponível em: <bit.ly/3XaTNot>. Acesso em 3 de abril de 2024.
  • 22
    Ibidem.
  • 23
    Ibidem.
  • 24
    Ibidem.
  • 25
    Resenha dedicada a Roger Bastide, publicada em 10 de janeiro de 1997. Disponível em: <bit.ly/4gSnqSi>. Acesso em 1ode novembro de 2024.
  • 26
    Ibidem.
  • 27
    Disponível em: <bit.ly/3XaTNot>. Acesso em 3 de abril de 2024.
  • 28
    Data da publicação, que posteriormente foi reunida com outros textos esparsos no livro Vários Escritos (2023).
  • 29
    “Uma palavra instável”, texto em questão, foi publicado em 27 de agosto de 1995 na Folha de S. Paulo. Disponível em: <bit.ly/41mNgcz>. Acesso em 3 de abril de 2024.
  • 30
    Ibidem.
  • 31
    Trecho do depoimento de Antonio Candido, disponível em: <bit.ly/40YAi3i>. Acesso em 3 de abril de 2024.
  • 32
    Referência à Coleção Antonio Candido, cuja descrição está disponível em: <bit.ly/4gJljjT>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 33
    Menção a titulação como professor benemérito da USP concedido a Candido. Informações da própria universidade, disponíveis em: <bit.ly/3EMJccS>. Acesso em 1º de novembro de 2024.
  • 34
    Ibidem.
  • Sistema duplo cego
  • Financiamento:
    Este estudo conta com apoio do Programa de Apoio a Projetos Internacionais de Pesquisa Científica, Tecnológica e de Inovação do CNPq.
  • Artigo submetido à verificação de similaridade
  • Como citar:
    HERBERT NETO, E. Instar a palavra – Antonio Candido e a dinâmica na comunicação. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 48, e2025118. https://doi.org/10.1590/1809-58442025118pt.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    05 Abr 2025
  • Aceito
    01 Jul 2025
  • Publicado
    30 Dez 2025
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