Resumo
O patrimônio histórico cultural de uma cidade precisa estar ligado à sua memória histórica, cultural, artística e ambiental, deve ser entendido como herança de um povo, que possibilita ao homem o entendimento do tempo. Com vistas à identificação do patrimônio baiano, o projeto estruturante da Sec-BA: Educação Patrimonial e Artística (EPA), desenvolvido no Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, em Guanambi-BA, proporcionou aos estudantes envolvidos a compreensão do Geopatrimônio e da Geopreservação dos patrimônios que caracterizam a identidade da cidade de Guanambi. Os resultados do EPA colaboraram com a construção de uma aprendizagem significativa na produção do conhecimento. A pesquisa retratou monumentos do patrimônio de Guanambi através de ações essenciais: exercício do direito à cultura, conservação dos valores históricos, artísticos e estéticos, a formação de uma nova mentalidade cultural.
Palavras-chave:
Educação patrimonial e artística; patrimônio; preservação; geografia
Abstract
The cultural historical heritage of a city needs to be linked to its historical, cultural, artistic and environmental memory, it must be understood as the heritage of a people, which enables man to understand time. With a view to identifying Bahian heritage, the Sec-BA structuring project: Patrimonial and Artistic Education (EPA), developed at Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, in Guanambi-BA, provided the students involved with the understanding of Geoheritage and Geopreservation of heritage that characterizes the identity of the city of Guanambi. The EPA results contributed to the construction of significant learning in the production of knowledge. The research portrayed monuments of Guanambi's heritage through essential actions: exercise of the right to culture, conservation of historical, artistic and aesthetic values, the formation of a new cultural mentality.
Key words:
Patrimonial and artistic education; patrimony; preservation; geography
Resumen
El patrimonio histórico cultural de una ciudad debe estar vinculado a su memoria histórica, cultural, artística y ambiental, debe entenderse como patrimonio de un pueblo, que permite al hombre comprender el tiempo. Con el objetivo de identificar el patrimonio bahiano, el proyecto estructurante del Sec-BA: Educación Patrimonial y Artística (EPA), desarrollado en el Colegio Estadual Governador Luiz Viana Filho, en Guanambi-BA, proporcionó a los estudiantes involucrados la comprensión del Geopatrimonio y la Geopreservación del patrimonio. que caracteriza la identidad de la ciudad de Guanambi. Los resultados de la EPA contribuyeron a la construcción de aprendizajes significativos en la producción de conocimiento. La investigación retrató monumentos del patrimonio guanambiano a través de acciones esenciales: ejercicio del derecho a la cultura, conservación de los valores históricos, artísticos y estéticos, formación de una nueva mentalidad cultural.
Palabras clave:
Educación patrimonial y artística; patrimônio; preservación; geografia
Introdução
Geopatrimônio, um termo novo que vem do ingles (geoheritageou geological heritage), definido por Eberhardt, a partir dos anos 90, cujo significado corresponde ao conjunto dos elementos naturais geológico-geomorfológicos e seus sistemas paisagísticos. No entanto, Rodrigues (2008) aborda a utilização do termo Geopatrimônio em detrimento do termo patrimônio geológico, uma vez que o geopatrimônio é constituído por todo o conjunto de elementos naturais abióticos existentes na superfície da Terra que devem ser preservados devido ao seu valor patrimonial. Nesse sentido, percebe-se que o geopatrimônio inclui o patrimônio geológico, patrimônio geomorfológico, patrimônio hidrológico, sendo constituído pelos componentes da geodiversidade.
A geodiversidade é a variação natural da aparência geológica (rochas, minerais, fósseis), da geomorfologia (forma e dinâmica do relevo) e do solo, considerando ainda fatores bióticos e abióticos” (Araújo, 2005). Dessa forma, reconhece no geopatrimônio registros históricos dos processos de interação e integração cultural dos homens às condições da superfície do planeta.
Em função à necessidade de inserir a riqueza da biodiversidade do planeta nas discussões e estratégias conservacionistas mundiais, necessita ainda de mecanismos próprios de conservação e divulgação desse patrimônio (geoconservação), a fim de serem transmitidos às futuras gerações como uma herança coletiva, devido o seu valor científico-educacional, ecológico ou cultural.
Observa-se que geoconservação é uma temática que envolve práticas com o intuito de preservação da geodiversidade, à medida que relaciona-se ao meio ambiente. Nesse sentido, Munõz(1988), refere-se a expressão ´geoconservação´com uma parcela específica da geodiversidade; por issso patrimônio geológico é:
[…] constituído por georrecursos culturais, que são recursos nãorenováveis de índole cultural, que contribuem para o reconhecimento e interpretação dos processos geológicos que modelaram o Planeta Terra e que podem ser caracterizados de acordo com seu valor (científico, didático), pela sua utilidade (científica, pedagógica,museológica, turística) e pela sua relevância (local, regional, nacional e internacional). (Munõz, 1988, p. 85).
Considerando a incorporação do patrimônio às diferentes formas de manifestação cultural, associadas ao patrimônio natural, verifica-se que o patrimônio histórico cultural está em constante movimento, sob um prisma de construção, através de “memórias coletivas diversificadas e de políticas de preservação e de institucionalização destes símbolos culturais nacionais” (Fonseca, 2005, p. 35).
O patrimônio natural constitui-se fator de importância e de intercâmbio para o patrimônio histórico cultural. Fonseca (2009), refere-se ao patrimônio natural, como um conjunto de bens que pertencem a diferentes domínios, designadamente o biológico (que destaca como o mais desenvolvido), o geológico (que considera geralmente desvalorizado) e o paisagístico.
[…] o patrimônio natural deve ser reconhecido e valorizado por todos e, dessa responsabilização, devem decorrer direitos e deveres para os cidadãos. (Fonseca, 2009, p. 18-19).
Nesse intuito, a geoconservação, ou seja, a conservação e proteção do geopatrimônio, bem como o uso sustentável desse patrimônio concebe o fortalecimento da identidade do território brasileiro através das memórias: histórica, cultural, artística e ambiental.
O patrimônio histórico cultural de uma cidade precisa estar ligado a sua memória histórica, cultural, artística e ambiental, uma vez que patrimônio significa herança. Dessa forma, o patrimônio cultural deve ser entendido como herança de um povo, um conjunto de bens e valores representativos para sociedade.
No que diz respeito à legislação, o Art.1º, paragrafo III da Lei 7.347/85, patrimônio cultural abrange todos os "bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico". E todo bem cultural deve ser preservado, na íntegra, suas características essenciais.
Conforme Grunberg (2007), patrimônio cultural “são todas as manifestações e expressões que a sociedade e os homens criam” (Grunberg, 2007, 24. p) e que se acumulam com as gerações anteriores.
No entanto, cada geração ou segmento social evidencia essa cultura, a modifica de acordo com sua própria necessidade e a faz um patrimônio dinâmico que vai ser mudado, valorizado e preservado ao longo do tempo. Nesse contexto, percebe-se que a compreensão do patrimônio cultural possibilita o entendimento da tríade do tempo: passado-presente-futuro, através do tripé: educação-homemmundo, que permite ao homem o conhecimento de si, do outro e do mundo.
A educação é um processo permanente e sistemático de aprendizagem educacional que ao objetivar-se no patrimônio cultural como fonte primária de conhecimento, torna-se uma educação patrimonial. De acordo com Horta (2004), a
Educação Patrimonial é um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sócio-cultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Este processo leva ao reforço da autoestima dos indivíduos e comunidades e à valorização da cultura brasileira, compreendida como múltipla e plural (Horta, 2004, p. 3).
A partir da experiência e do contato direto com as evidências e manifestações da cultura, e em sua variedade de aspectos, sentidos e significados, o projeto de Educação Patrimonial e Artística (EPA), trata-se de um projeto estruturante da Secretaria de Educação do Estado da Bahia, a SEC-BA, desde 2012. Em síntese o EPA, segundo a SEC-BA (2016), tem como objetivo avivar o debate e incrementar as práticas culturais nos campos da história, da arte, do patrimônio, da juventude e da democratização desses saberes e dos espaços históricos, com vistas à identificação do patrimônio baiano, a preservação da memória cultural e a apropriação da história e da cultura.
O projeto de Educação Patrimonial e Artística (EPA), desenvolvido no Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, em Guanambi-BA, no ano de 2022, através das aulas de Geografia, proporcionou aos estudantes envolvidos a compreensão do Geopatrimônio e da Geopreservação dos inúmeros patrimônios que caracterizam a identidade da cidade de Guanambi, no intuito de instigar o aluno a pesquisar e conhecer com profundidade a história e cultura da cidade, assim como as origens do patrimônio escolhido para seu objeto de pesquisa e apresentá-lo à comunidade escolar a nível local, regional e estadual.
Guanambi, município localizado no sudoeste da Bahia (Mapa 01) com 87.817 habitantes(IBGE, 2022),possui um considerável acervo patrimonial histórico e ambiental material4, composto por bens paisagísticos, históricos, arqueológicos e artísticos, o que facilitou aos alunos a escolha dos distintos tipos de patrimônios.
O acervo patrimonial escolhido pelos alunos do 1º ao 3º ano do Ensino Médio nos turnos diurno e noturno foram: A Pedra do Índio, a barragem de Ceraíma, o Lajedo Novo, o Parque da Cidade e o Umbuzeiro, patrimônios ecológico e ambiental da cidade. O acervo patrimonial histórico cultural apresentou uma ascendência determinante na pesquisa: Casa do Escritor, Casa do Poço Comprido, Casa de Dona Dedé, Mercado das Artes, Mercado Municipal, monumento de Marco Zero da cidade, o Colégio Luiz Viana e a Escola Getúlio Vargas, escolas mais antigas; e Centro Administrativo de Guanambi.
O patrimônio imaterial também mostrou-se relevante na pequisa para a Feira do Conhecimento, com o Livro de Causos e as Receitas de Chás caseiros das avós.
Metodologia
Guanambi possui um considerável acervo patrimonial histórico cultural e ambiental, constituído por bens paisagísticos, históricos, arqueológico e artístico, o que facilitou aos alunos a escolha dos distintos tipos de patrimônios.
A pesquisa no campo patrimonial adotou os procedimentos metodológicos: pesquisa bibliográfica, levantamento prévios dos patrimônios, análise de documentos e fotografias, observação sistemática seguida por registro fotográfico, visita in locu, entrevistas, elaboração e construção dos resultados.
Os alunos, sob orientações do professor de geografia, construíram álbuns (de forma livre, usando a criatividade, originalidade de cada equipe) com os registros diagnósticos dos olhares fotográficos da pesquisa coletada em campo (máximo 10 páginas com imagens e textos, totalizando 20 laudas). As experiências de pesquisa culminaram na exposição dos álbuns no colégio para apreciação do público e dos avaliadores, uma vez que os trabalhos foram produzidos para um concurso de competição entre os alunos das escolas estaduais da Bahia, cujo primeiro momento, a competição faz-se necessário ser local e por conseguinte disputa regional e estadual.
Resultados e discussões
Patrimônio histórico é um tema complexo, uma vez que sua diversidade muitas vezes não é proporcional à velocidade dos interesses sociais, e segundo Kotherapud Paião 2010, enquanto não existir uma percepção de que a valorização da cultura “pode e deve tornar-se um instrumento de desenvolvimento, um agente transformador, gerador de resultados concretos na nossa economia, ainda teremos muitas dificuldades na preservação de nosso patrimônio” (Kother apud Paião 2010).
E para tal, a “participação e atuação da sociedade civil é imprescindível nesse processo”, pois equilibra as forças no momento de uma decisão de preservação, já que a especulação imobiliária não limita suas ações e nem respeita um valor material e estético, que “conserva em si elementos da história do lugar e de sua população”.
Diante dessa perspectiva, o desenvolvimento da Educação Patrimonial e Artística projeto estruturante da SEC - BA, baseado na análise patrimônio cultural de Guanambi e no incentivo dos alunos à preservação, permitiu o conhecimento e a valorização do patrimônio histórico, artístico das manifestações culturais e, possibilitou ainda, um “processo ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua herança cultural, capacitando-os para um melhor usufruto destes bens, e propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos” (Bahia, 2016) num processo contínuo de aprendizagem significativa, de criação cultural.
Com base no artigo 216 da Constituição Federal, constituem patrimônio cultural brasileiro,
os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão;
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver;
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
(Brasil, CF. Art. 216)
Considerando as discussões tecidas em sala de aula, sobre o direito do patrimônio público como legado para todas as gerações, a valorização da natureza como monumento do patrimôniocultural, os alunos atrelados em equipes escolheram os patrimônios, tendo em vista os patrimônios ambientais: Pedra do Índio e Lajedo Novo, e os patrimônios históricos: Casa do Escritor, Colégio Luiz Viana e o Centro Administrativo.
De acordo com os documentos oficiais do município: Lei Orgânica do Município, Plano Diretor e o Código de Defesa do Meio Ambiente, é responsabilidade do município a proteção do patrimônio ambiental: da flora, da fauna, dos recursos e belezas naturais, bem como a preservação do patrimônio histórico e cultural, das áreas dos sítios arqueológicos (Pedra do Índio, Pedra do Cogumelo, Pedra do Leão e Leocádia).
Segundo Castro (2010), a Pedra do Índio faz parte do patrimônio cultural permanentedo município, portanto, verifica-se na pesquisa, que a Pedra do Índio (painel 1) é um patrimônio ecológico, ambiental e histórico da cidade, visto que é considerado um sítio arqueológico por ter vestígios rupestres.
A Toca do índio, assim como também é conhecida, localiza-se a aproximadamente 5 km da cidade, “já foi morada importante de índios que habitavam a região” e “sua formação rochosa oval deixa transparecer uma fenda sustentada por muitos blocos de pedras em cujo teto existem inúmeros desenhos ruprestres”, (Ariel, 1999. p.83). Observa-se na foto C desenhos ruprestres, que foram visualizados e registrados durante a pesquisa pela equipe responsável a esse patrimônio, que relatou:
A pedra maior é sustentada por várias outras pedras menores, ela é como se fosse a parte de cima de uma toca de índio, daí vem o seu nome. A pedra tem muitas pinturas rupestres feitas, provavelmente, com terra vermelha. Seus desenhos dão a impressão de pessoas e animais, são simples, mas que desperta muita curiosidade pelo lugar. Termos ido à pedra, foi algo desafiador, algo nunca vivenciado antes. Foi uma experiência ótima, adquirimos conhecimento histórico pelo objeto patrimonial escolhido e nos surpreendermos, pois os significados vão além do valor material e estético, conservando elementos da história do lugar e de sua população. (Relato da Equipe. Pesquisa de campo, 2022).
O contato direto com o patrimônio incitou os alunos na produção do álbum, com indicadores avaliativos de acordo com regimento, embora as descobertas e impactos da realidade alçaram voos além do objetivo da aventura patrimonial, apresentando soluções para os problemas identificados no patrimônio.
Assim sendo, o patrimônio como enfatiza Candau (2002, p. 90) pode ser também considerado um produto do trabalho da memória que, com o decorrer do tempo e segundo alguns critérios muito variáveis, seleciona certos elementos herdados do passado para inclui-los na categoria de objetos patrimoniais.
Outro patrimônio natural indagado pelos alunos foi o Lajedo Novo (painel 2), uma formação rochosa, localizado na parte central da cidade entre os bairros Santo André, Marabá e Santa Luzia, já “foi reservatório natural de água que serviu à população durante muito tempo” (Ariel, 1999. p.84), no passado remoto. Hoje é uma área de preservação histórica, cultural e ambiental.
Percebe-se um caldeirão, como era chamado no passado, que deveria ser valorizado como patrimônio, entretanto é relegado pelo poder público em relação a sua importância histórica e ambiental, bem como pela população circundante ao lajedo que não utiliza mais as suas águas para suprir as necessidades diárias, uma vez que os bairros na atualidade possuem uma estrutura urbana completa.
No entanto, esse inselbergue5 retrata, segundo Pelegrini (2006) como “as relações entre natureza e cultura têm se manifestado nas concepções do patrimônio e norteado ações pontuais na esfera da reabilitação dos núcleos históricos e no âmbito da educação patrimonial e ambiental”, contudo essas ações deveriam ser tomadas pela sociedade como instrumentos para a construção da cidadania e do desenvolvimento sustentável. Mediante esse contexto, Borba (2011), ressalta que
é preciso romper com as velhas concepções acerca do conceito de meio ambiente, que é algo que vai muito além do seu simples aspecto natural. Somente assim conseguiremos protegê-lo em sua inteireza, assegurando que os bens de valor cultural, que também são essenciais à sadia qualidade de vida de todos nós, possam ser usufruídos pelas presentes e pelas futuras gerações. (Borba, 2011. p. 38)
Percebe-se, neste entendimento, que a noção de meio ambiente é muito ampla, abrangendo todos os bens naturais e culturais, embora seja influenciada pela cultura das pessoas que as constroem, portanto, essa concepção torna-se um produto cultural, resultado de um processo de consolidação da ação da atividade humana sob o meio ambiente. Esse processo foi construído ao longo do tempo e está carregado de referências simbólicas de importância na história da sociedade, uma vez que estão relacionadas com a identidade do local.
A articulação espacial entre os bens culturais, edificações e manifestações culturais forma o patrimônio histórico de uma cidade, e constitue-se na imagem de pertencimento e identidade dessa cidade através do espaço vivido.
A referência histórica do patrimônio de Guanambi para o EPA (painel 3), constou-se de ícones referenciais para os alunos pesquisadores: Casa do Escritor, Casa do Poço Comprido, Casa de Dona Dedé, Mercado das Artes, Paróquia de Santo Antônio, Mercado Municipal, monumento de Marco Zero da cidade, o Colégio Luiz Viana e a Escola Getúlio Vargas, escolas mais antigas; e Centro Administrativo de Guanambi.
No que se refere à Casa do Escritor (foto 1), memorial do escritor e ex prefeito de Guanambi: Teixeirinha (Domingos Antonio Teixeira), foi construída em 1930 e a partir de 2006 transforma-se em museu particular, organizado e sistematizado com regimento interno próprio, aberto ao público.
O museu localiza-se na Praça Gercino Coelho, no centro da cidade e agrega um memorial histórico arquitetônico, documental e artístico sobre a vida e a obra de Teixeirinha, permitindo ao visitante voltar ao passado e reviver as lembranças da antiga Vila do Beija-Flor, origem de Guanambi. Nesse propósito, o grupo se dedicou na construção do album, tendo como estrutura uma maquete da casa, contendo informações biográficas da vida do escritor e registro fotográfico dos objetos antigos pertencentes a Teixeirinha.
Constata-se que o museu mantém viva a memória do escritor através dos seus familiares e, segundo Nora (1993) a memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido,
ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente: a história, uma representação do passado. (Nora,1993, p.9).
Em consonância com Nora, Carsalade apud Paião 2010, faz uma correlação memória / história, quando afirma que “o patrimônio é responsável pela continuidade histórica de um povo, de sua identidade cultural. Além disso, cria personalidades únicas para cada cidade e favorece a orientação e a apreensão do espaço urbano” (Carsalade, apud Paião, 2010).
Tendo em vista o rol da memória guanambiense, em outro grupo, os alunos elencaram o Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, como uma referência de patrimônio histórico de Guanambi. A primeira escola ginasial da cidade, fundada em 1954 chamava-se "Ginásio de Guanambi". Em 1957 surge outra, a “Escola Normal São Lucas”, inaugurada em 1957, porém ambas particulars. Em 1970, com a junção destes dois estabelecimentos de ensino, surgiu o atual Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho, inaugurado na gestão do governador da Bahia, Luiz Viana Filho (foto 2).
Halbwachs (1990, p. 27-52) afirma que “cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios”.
O desvendar da história do colégio através da memória individual de cada entrevistado (funcionários mais antigos) e da coleta de imagens, a pesquisa rendeu um trabalho significativo, com um acervo de informações que motivou a equipe construir o álbum em forma de escudo do colégio, a fim de mostrar aos demais estudantes a relevância social da escola na comunidade.
Para Reis (2012), a valorização do patrimônio se dá de acordo com o grau de importância que ele tem para a vida de cada um, “o sentimento de alegria e orgulho demonstra o real valor atribuído aos patrimônios, o forte laço afetivo e o sentimento de pertencimento ao lugar” (Reis, 2012, p.45).
O Centro Administrativo (foto 3) é uma referência nova para o patrimônio público de Guanambi, pois foi inaugurado em 11 de maio de 1986, está localizado na praça Henrique Pereira Donato, Centro.
No que diz respeito à geoconservação do patrimônio, averiguou-se na pesquisa que o patrimônio ambiental é invadido, usado e abusado pela sociedade com atos não condizentes com o local, (como foi observado pelas equipes). E para tal, faz-se necessário a conscientização e educação patrimonial com o compromisso para as novas gerações, pois a devastação do patrimônio representa a perda da história e da identidade, bem como a sua conservação representa a materialização da história e da identidade cultural coletiva.
Como Meira apud Paião 2010, aborda, “[...] não depende só do poder público, mas também da sociedade”, porque promovem debates e potencializam ações de preservação e restauração. Contudo, a destruição do patrimônio histórico significa não apenas perda de identidade, mas de cidadania e de pertencimento aos locais e aos grupos comunitários. Carsalade apud Paião 2010, focaliza a destruição do patrimônio como drama da cultura contemporânea à medida que a acumulação e a destruição de bens artísticos afetam a consciência e a identidade, a ética e a estética, o sentimento e o sentido da trajetória.
O patrimônio imaterial também mostrou-se relevante na pequisa para a Feira do Conhecimento, com o Livro de Causos e as Receitas de Chás caseiros das avós.
Considerações finais
Observa-se que os resultados do EPA colaboraram com a construção de uma aprendizagem significativa na produção do conhecimento, visto que a pesquisa retratou monumentos do patrimônio histórico cultural de Guanambi através de ações essenciais para o exercício do direito à cultura, para a conservação dos valores históricos, artísticos e estéticos, e a formação de uma nova mentalidade cultural.
Nesse contexto, Le Goff (1997), enfatiza a importância da memória, para reavivar o passado ou para que ele não seja esquecido, assim, ela é um elemento essencial, por preparar o homem a atualizar impressões e informações passadas, fazendo com que a história se eternize na consciência humana através do sentimento de pertencimento e da identidade individual e coletiva, para a libertação humana.
Portanto, os resultados evidenciam a relevância social dos patrimônios históricos e ambientais estudados, uma vez que são de tal importância para a identidade de Guanambi e de seu povo. Embora haja uma legislação fundamentada para a defesa e conservação do patrimônio, ainda existem muitos desafios e isso reflete na construção das pessoas como cidadãos, pois todos têm direitos ao patrimônio público. É notável pensar em movimentos de conscientização para que as pessoas se clarifiquem da importância que têm os monumentos locais que fizeram e fazem parte da história da cidade.
Como nas políticas públicas, sua aplicabilidade e fiscalização efetivas, através do cerceamento das áreas ambientais, garantirão que não sejam invadidas, uma vez que preservar o patrimônio histórico cultural ou o geopatrimônio de uma cidade é acondicionar as marcas de sua história ao longo do tempo e, assim, assegurar a perspectiva da formação/construção da identidade e diversidade cultural coletiva.
Referências
- ARAUJO, Eugénia (2005) - Geoturismo: Conceptualização, Implementação e Exemplo de Aplicação ao Vale do Rio Douro no Sector Porto-Pinhão Dissertação de Mestrado, Escola de Ciências, Universidade doMinho, 213 p.
- ARIEL, Claúdio. [et all]. Guanambi: nossa terra, nossa gente, nosso orgulho Prefeitura Municipal de Guanambi: Gráfica Giordani,1999.
- BAHIA. Governo do Estado; SUPED - Superintendência de Políticas para a Educação Básica. Síntese EPA-2016, Estado da Bahia. Salvador: SUPED, 2016, 6p.
- BORBA, André weissheimer. Geodiversidade e geopatrimômio como bases para estratégias de conservação: conceitos, abordagens, métodos de avaliação e aplicabilidade no contexto do Estado do Rio Grande do Sul. Pesquisas em Geociências Instituto de Geociências, UFRS. Porto Alegre, RS, 2011.
- BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.
- BRASIL. Lei 7.347, de 24.07.85 Lei da Ação Civil Pública
- CANDAU, Joël. Antropologia de la memoria. Buenos Aires, Nueva Visión, 2002.
- CASTRO, Jane M. L.Bacias hidrográficas de Guanambi: uso, ocupação e conservação. Exlibris, 2010.
- FONSECA, Maria Helena (2009) - Estabelecimento de critérios e parâmetros para a valoração do património geológico português. Aplicação prática ao património geológico do Parque Natural de Sintra-Cascais. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, 166 p.
- FONSECA, Maria Cecília Londres. O Patrimônio em processo - Trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFRJ; MinC- IPHAN, 2005.
- GRUNBERG, Evelina. Manual de atividades práticas de Educação Patrimonial Brasília, DF: IPHAN, 2007.
- GUANAMBI. Plano Diretor Participativo de Guanambi Guanambi, 2009.
- GUANAMBI. Lei n.º 034/01. Código de Defesa do Meio Ambiente Guanambi, 2001.
- HALBWACHS, Maurice. A Memória coletiva. São Paulo: Vértice Editora, 1990.
- HORTA, M. L. P; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane Q. Guia Básico da Educação Patrimonial Museu Imperial / IPHAN - MINC, Brasília, 1999.
-
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) Censo demográfico 2022 Disponível em:http://www.ibge.gov.br/home/ Acesso janeiro de 2024.
» http://www.ibge.gov.br/home/ -
IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Artistico Nacional) Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/276 Acesso entreabril de 2017 a janeiro de 2018.
» http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/276 - LE GOFF, Jacques. Patrimônio histórico, cidadania e identidade cultural: o direito à memória. In: BITTENCOURT, Circe (Org.) O saber histórico na sala de aula São Paulo: Contexto, 1997. p.139 e 138.
- MUÑOZ, E. Georrecursos culturales. Geologia Ambiental. ITGE, Madrid, 1988.
- NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto história, São Paulo, n.10, 1993.
-
PAIAO, Cristiane. Patrimônio histórico: uma questão de cidadania.Disponível em: http://www.dicyt.com/noticia/patrimonio-historico-uma-questao-de-cidadania.Campinas, 05 de nov. de 2010. Acesso em 18 de abril de 2017.
» http://www.dicyt.com/noticia/patrimonio-historico-uma-questao-de-cidadania.Campinas -
PELEGRINI, Sandra C. A. Cultura e natureza: os desafios das práticas preservacionistas na esfera do patrimônio cultural e ambiental. Dispnível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882006000100007.Rev Bras. Hist. vol. 26 n.51. São Paulo, Jan./Jun 2006. Acesso em 26.01.2018.
» http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882006000100007.Rev - REIS, Aline da Silva. Patrimônio histórico, cultural e ambiental de Palmas de Monte Alto: um olhar sob a luz das representações sociais. In: SILVA, Joaquim P. Territórios e ambientes da serra de Monte Alto Vitória da Conquista: Edições UESB, 2012.
-
RODRIGUES, Maria Luísa. FONSECA, André. A valorização do geopatrimónio no desenvolvimentosustentável de áreas rurais. Anais VII CIER - Cultura, Inovação e Território, Coimbra, Portugal, out. 2008. Disponivel: http://sper.pt/oldsite/actas7cier/PFD/Tema%20II/2_14.pdf Acessoem 16 de janeiro de 2018.
» http://sper.pt/oldsite/actas7cier/PFD/Tema%20II/2_14.pdf
-
Editor: Altemar A. Rocha








Fonte: Castro, 2017.
Fonte: Pesquisa de campo, 2022. Foto A, B e C. Fabrícia Souza, agosto de 2022.
Fontes: Foto A.
Fonte: Gonçalves, setembro de 2022.
Foto: Oliveira, 2020. Fonte:
Fonte: Pesquisa de Campo, 2020. Igor Cruz, julho de 2022.
Fonte: Pesquisa de Campo, 2020. Gabriel Oliveira, agosto 2022.