Open-access Ocupando o apocalipse com Lucas Matos

Occupying the apocalypse with Lucas Matos

Ocupando el apocalipsis con Lucas Matos

Resumo

Este artigo se dedica à leitura do poema “ocupando o apocalipse com laurie”, publicado no livro 1989, do poeta carioca Lucas Matos (2018). O objetivo é compreender como o poema elabora as formas de trabalho e o discurso escatológico contemporâneos. Para isso, empreendemos uma análise crítica, que considera aspectos rítmicos, gráficos e figurativos; interdisciplinar e comparada, que mobiliza conhecimentos da economia e da antropologia econômica, em especial, a obra do ativista anarquista David Graeber. Concluímos que o poema de Lucas presentifica o fim do mundo e, ao mesmo tempo, propõe que o “ocupemos” com a imaginação de alternativas, políticas, comunitárias, mais livres.

Palavras-chave:
poesia brasileira contemporânea; antropologia econômica; apocalipse

Abstract

This article is dedicated to analyzing the poem “ocupando o apocalipse com laurie”, published in 1989 by Rio de Janeiro native poet Lucas Matos (2018). The aim was to understand how said poem elaborates contemporary forms of labor and eschatological discourse. To do this, a literary critical analysis was carried out, which considers rhythmic, graphic, and figurative aspects; and an interdisciplinary and comparative analysis, drawing from economics and economic anthropology, particularly the work of anarchist activist David Graeber. In conclusion, Lucas’s poem brings forth the notion of the end of the world while simultaneously proposing that we “occupy” it with the imagination of political, communal, freer alternatives.

Keywords:
contemporary Brazilian poetry; economic anthropology; apocalypse

Resumen

Este artículo se dedica a la lectura del poema “ocupando el apocalipsis con laurie”, publicado en el libro 1989 del poeta carioca Lucas Matos (2018). El objetivo es comprender cómo el poema elabora las formas de trabajo y el discurso escatológico contemporáneos. Para ello, emprendemos un análisis crítico que considera aspectos rítmicos, gráficos y figurativos; un análisis interdisciplinario y comparativo que moviliza conocimientos de la economía y la antropología económica, especialmente la obra del activista anarquista David Graeber. Se concluye que el poema de Lucas presenta el fin del mundo y, al mismo tiempo, propone “ocuparlo” imaginando alternativas políticas y comunitarias más libres.

Palabras-clave:
poesía brasileña contemporánea; antropología económica; apocalipsis

INTRODUÇÃO

O livro 1989, de Lucas Matos (2018), foi publicado pela editora 7Letras em 2018. É o segundo livro do poeta carioca, que também editou a Bliss: Revista de Poesia (2009) e a revista-disco Bliss Não Tem Bis (2013), ambas em coletivo com Clarissa Freitas e Márcio Junqueira. Na orelha de 1989, Lucas se descreve como “ator, poeta e professor de Língua e Literatura no CAp-UERJ”1, onde exerceu cargos de assessor da direção, chefe de departamento e coordenador de núcleo e disciplina. Lucas é conhecido na cena da poesia carioca também pelas leituras performáticas e vocalizações de seus poemas, no “CEP 20.000” e outros eventos. Seu segundo livro ficou entre os finalistas do Prêmio Rio de Literatura de 2019 (O Globo, 2019).

Os poemas de 1989 se estruturam em versos livres “curtos com enjambements radicais” (Britto, 2011, p. 143) que nos fazem “tropeçar” na leitura, ou tirar nosso fôlego. Se caracterizam pela imprecisão nas vozes, pela descontinuidade e fragmentação das cenas, e pela sobreposição de imagens que exigem uma segunda ou terceira leitura para serem apreendidas dentro do contexto. São poemas lacunares que exigem um leitor ativo e participativo, disposto ao trabalho.

O presente artigo faz uma leitura crítica de “ocupando o apocalipse com laurie”, um poema longo de 1989, no qual vislumbramos experiências, palavras e rotinas da vida contemporânea; particularmente, de jovens adultos brasileiros que moram em grandes centros urbanos sob a égide da precarização do trabalho, público e privado, qualificado ou não. O recorte de leitura que escolhemos foi justamente o do trabalho, mercantilizado, burocratizado e incessante. Em “ocupando o apocalipse com laurie”, vemos índices do ritmo frenético da mente ansiosa, os conflitos entre patrões e empregados, o salário instável, a perda de direitos trabalhistas, tudo isso em meio a anúncios do apocalipse porvir, como no fragmento abaixo (Matos, 2018, v. 50-84):

50 o patrão do coveiro é
feito qualquer patrão
tem um pé de cabra e
um taco de beisebol
ventilador de teto raspando
55 a cabeça dos funcionários
este mês não tem salário
e mês que vem quem sabe
não é uma faca nos rins
estilhaço na córnea
60 que me derrubam
do cavalo

filho hoje eu vou deixar o túmulo vazio

o patrão está satisfeito
os mortos estão satisfeitos
65 mas não tem geladeira na cozinha
ligo para a entrega de pizzas
quem sabe o miguel do turno das 22
aceite os meus sorrisos
chama chama ninguém viu miguel
70 a minha avó era uma presbiteriana
da baixada fluminense e tinha
uma imagem muito clara do futuro
de como o mundo acaba
em fogo
75 em fogo
como no livro do apocalipse
como no livro do apocalipse
e quando eu tinha 10
ela me disse que o mundo
80 acabaria em 1 ano
eu passei o ano orando
lendo a bíblia e me
distanciando dos amigos e
parentes

Essa obsessão com o fim do mundo não é exclusividade da nossa geração, tampouco das sociedades mais integradas ao sistema capitalista como o vivenciamos hoje. São inúmeros os registros de narrativas, mitos e previsões escatológicas ao longo da história humana. Não obstante, “algumas dessas imaginações ganharam uma nova vida a partir dos anos 90 do século passado, quando se formou o consenso científico a respeito das transformações em curso do regime termodinâmico do planeta” (Danowski; Viveiros de Castro, 2017, p. 15). O que desejamos investigar neste artigo é justamente a forma como nós, agora, experimentamos esse fim de mundo, nos concentrando em sua manifestação na literatura. O objetivo, portanto, é discutir como “ocupando o apocalipse com laurie” retrata essa emergência, com foco na questão do trabalho. Serão analisados que discursos são mobilizados e que diálogos são estabelecidos; quais são as cenas, os personagens, o ritmo, o tom que compõem o fim do mundo nesse poema; e como essa manifestação se insere no contexto mais amplo da escatologia2 contemporânea, no realismo capitalista.

Buscando alcançar tais objetivos, este artigo adota uma metodologia interdisciplinar, convocando autores da economia brasileira e da antropologia econômica, em especial o ativista anarquista David Graeber. Além disso, a abordagem crítica evidencia os aspectos formais, estilísticos, retóricos e rítmicos que são mobilizados no poema para criar seus efeitos e afetos no leitor contemporâneo. Nossa hipótese é de que “ocupando o apocalipse com laurie” presentifica o fim do mundo e, ao mesmo tempo, propõe que o “ocupemos” com a imaginação de alternativas, políticas, comunitárias, mais livres. O poema faz isso por meio do humor, do diálogo com outras obras e pela contundência de algumas imagens:

85 até que finalmente o grande dia chegou
e não aconteceu absolutamente nada
apenas outro dia
e eu lembro o dia em que ela morreu
estava muito animada
90 parecia um passarinho no poleiro
na beira da cama diante da janela
do hospital à espera da
morte
ela vestia uma camisola rosa
95 e penteava o cabelo para
estar bonita na hora
que cristo viesse buscá-la
não tinha medo só
que no último minuto
100 aconteceu uma coisa que mudou
tudo
depois de uma vida inteira de
orações e previsões sobre o fim do mundo
ela entrou em pânico
105 e ela entrou em pânico
porque não conseguia decidir
se botava ou não um
chapéu
e então ela morreu
110 entrou para o futuro em
pânico sem absolutamente nenhuma
ideia do que se feltro palha
véu iria acontecer em
seguida (Matos, 2018).

Em 2020, vivemos radicalmente o fim do mundo que conhecíamos até então. As ruas silenciaram subitamente. Os que podiam, permaneceram enclausurados por meses; os que não podiam, se arriscaram à penúria ou à doença. Ficou ainda mais em evidência a precarização sistemática dos serviços públicos de saúde, agravada após seis anos de governos neoliberais, empenhados na degradação das políticas já estabelecidas, na privatização de serviços essenciais e instituições de Estado, e na erosão sistemática da democracia. No governo de Jair Bolsonaro, negacionista contumaz, a crise na saúde causada pela COVID-19 tornou-se tragédia humanitária, com participação direta dos militares brasileiros. A reação pusilânime das instituições republicanas não evitou as mais de 700 mil mortes decorrentes da doença, e nos legaram para sempre imagens e narrativas apocalípticas de cemitérios improvisados, covas rasas, pacientes morrendo asfixiados em leitos de hospital, idosos padecendo em casas de repouso, famílias se desagregando pela doença, pela miséria, pela fome.

“Ocupando o apocalipse com laurie” foi publicado em 2018. De certa forma, o poema anteviu um futuro próximo, anunciado repetidamente nos últimos anos pelas autoridades climáticas e pelos analistas políticos, que observavam com apreensão a emergência de governos extremistas, negacionistas, em todo o mundo. Por isso, acreditamos que o poema de Lucas Matos contribui decisivamente para a compreensão de nosso tempo, como objeto artístico capaz de reconfigurar nossa sensibilidade e nosso olhar para o cotidiano.

DESENVOLVIMENTO

there it is again
that funny feeling
Bo Burnham

“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” (Fisher, 2020, p. 10). Esta frase, atribuída a Frederic Jameson e Slavoj Žižek, é bastante conhecida nas Ciências Humanas. Acreditamos que tenha sido assim por ela presentificar radicalmente as nossas crises: imaginativas, ecológicas, reprodutivas, econômicas, existenciais. É a frase que resume o que Mark Fisher (2020, p. 10) chama de realismo capitalista: “o sentimento disseminado de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, sendo impossível imaginar uma alternativa a ele”.

Em seus ensaios, Fisher (2020) nos chama a atenção para o fenômeno de transformação da cultura em valor monetário, pelo sistema de equivalência geral; é nesta dessacralização massiva, “conversão de práticas e rituais em meros objetos estéticos” (Fisher, 2020, p. 12), apreciação irônica dos sistemas de crenças, que resta o poder do realismo capitalista. O (aparente) desencantamento do mundo é proclamado pelo sistema como uma virtude: estamos agora protegidos “dos perigos resultantes de acreditar demais” (Fisher, 2020, p. 13), imunes ao fanatismo que pode nos levar à ruína: para isso, basta que rebaixemos nossas expectativas. Enfim, a brutalidade capitalista ainda é melhor do que imaginar outro mundo – e correr o risco de ele ser mais brutal.

David Graeber também constrói parte de seu argumento nos livros Dívida (2016a) e The Utopia of Rules (2016b) fundamentado em certa atitude “realista”, inclusive de setores considerados progressistas (Graeber, 2016a, p. 482). Em Dívida, Graeber (2016a) sugere que o capitalismo tem uma relação ambígua com a concepção do apocalipse: se “por um lado, seus defensores muitas vezes se sentem obrigados a dizer que ele é eterno, pois insistem que é o único sistema econômico viável possível”, por outro, “parece que no instante em que uma parte significativa da população começa de fato a acreditar nisso e, particularmente, começa a tratar as instituições de crédito como se fossem durar para sempre, todo o sistema sai de controle” (Graeber, 2016a, p. 450). Em The Utopia of Rules, ao desenvolver sua crítica da burocracia, o antropólogo sugere que movimentos contrários às estruturas de opressão, agentes de violência e desigualdade, muitas vezes incorporaram práticas burocráticas para negociar sua própria existência:

temos que ser realistas e não pedir muito. Reformas de bem-estar são mais realistas do que exigir a redistribuição geral das riquezas; uma transição pelo socialismo de estado é mais realista do que dar poder a conselhos de trabalhadores eleitos democraticamente e etc.3 (Graeber, 2016b, p. 84).

Para o autor, quando somos realistas, o que efetivamente fazemos é admitir o potencial de uso da violência contra nós. De forma semelhante, Fisher (2020, p. 143) identifica o sucesso do neoliberalismo como um sintoma da falha da esquerda em responder adequadamente aos anseios revolucionários de Maio de 68. A partir daí, o realismo capitalista seria vendido para nós por gerentes “que nos dizem que agora os tempos são outros” (Fisher, 2020, p. 144).

Fisher (2020) localiza o estabelecimento do realismo capitalista nos anos 1980, período em que “o acordo interclasse pós-Segunda Guerra Mundial, que garantiu aumentos dos salários reais – em troca do aumento de produtividade –, chegou ao fim” (Federici, 2022, p. 63); em que o slogan thatcherista “não há alternativa” consolidou-se como profecia autorrealizável. Daí que uma das grandes armadilhas para a arte finissecular, segundo Fisher (2020), seria sua entrada acrítica neste jogo: assumir certa afetação cínica, reproduzir o real naturalista, despir “o mundo de ilusões sentimentalóides para mostrá-lo ‘como realmente é’: uma guerra hobbesiana de todos contra todos, um sistema de perpétua exploração” (Fisher, 2020, p. 21). De outra forma, poderia também assumir uma moral tipicamente anticapitalista, que performa para nós o nosso anticapitalismo, “nos autorizando assim a continuar consumindo impunemente” (Fisher, 2020, p. 26).

Uma de nossas perguntas na análise de “ocupando o apocalipse com laurie” deriva das denúncias de Fisher (2020): será que o poema é um desses objetos que performam o anticapitalismo para seus leitores, permitindo-lhes ser hipócritas em paz? Acredito que uma leitura atenta do poema aqui trabalhado nos permite afirmar que não é facilmente deglutido: exige certo esforço de deslocamento. Por isso, a leitura pode engatilhar a imaginação do impossível, permitindo sua desestabilização como tal, ou seja, pode revelar o “natural” ideológico como contingente, qualidade da política emancipatória (Fisher, 2020, p. 34). Esta leitura pode ser realizada em torno dos versos 1-49 do poema de Lucas Matos (2018):

OCUPANDO O APOCALIPSE COM LAURIE
sabe aqueles dias que você acorda
e diz
pois é hoje eu vou deixar o túmulo vazio
?
5 então
pois é hoje eu vou deixar o túmulo vazio
o túmulo sim e um caixão
cheio de ar e das marcas das
digitais de um vendedor zeloso e
10 fracassado vou até ligar para o
coveiro rapaz por que você não
tira o dia de folga aproveita
o mês manda ver as férias
que você sempre quis uma
15 viagem para o norte é tão boa
quanto o rumo para o sul e se
você pega um desvio à direita
ou à esquerda quem sabe
o fantasma que te espera na esquina
20 eu digo
olha hoje eu vou deixar o túmulo vazio
quando ligo e o telefone
chama chama e o coveiro está
ausente
25 alô laurie falando
imagina o dia chegou
um estranho te acorda na cama
você não lembra como ele e você
acabaram aqui
30 e ele é só indagações de que servem
estas garras e dentes afiados
você tem um focinho no lugar
do umbigo você corre ao
banheiro com pressa
35 com medo de ficar de frente
para o espelho alguém
acordou de um pesadelo
e o monstro é você
imagina uma mosca
40 do tamanho de um carro
imagina um carro
do tamanho da mosca
o sol nasceu o sol se pôs
este é o tempo
45 tudo que pertencia ao
tamanho do carro
está no tamanho da mosca
e também ao contrário

Tipicamente, pensamos no termo “ocupação” por duas vias. Ele pode ser uma operação agressiva e destrutiva — como a colonização dos indígenas americanos, a instalação de Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP) nas favelas cariocas, ou incursões militares em territórios alheios — ou uma iniciativa para a mudança em favor do bem-estar social — , como as ocupações das escolas públicas por secundaristas em 2015 e 2016, ou de praças e prédios por movimentos sociais, como Occupy Wall Street e Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Neste segundo caso, a ocupação em geral ocorre com participação popular direta e gestão democrática dos recursos; os ambientes são repensados em benefício dos ocupantes, com distribuição ordenada das funções em prol do coletivo.

Talvez seja interessante pensar numa ocupação do apocalipse, no poema, por essa segunda via. Como já dito, o apocalipse foi sequestrado: imaginar o fim do mundo torna-se a única forma de se imaginar o fim do capitalismo; geralmente, por meio de um colapso climático, causado por este mesmo capitalismo. O futuro coloniza o presente, paralisando o imaginário e, assim, nossa capacidade de conceber outras possibilidades e agir para torná-las realidade. De certa forma, “ocupar o apocalipse” pode ser lido, então, como a tentativa de recuperar e reconfigurar o significado do fim do mundo, associando-o não mais a um (único) fim (possível), mas a um retorno a possíveis recomeços.

A ideia do recomeço pós-apocalíptico está anunciada logo de início, no refrão do poema: “hoje eu vou deixar o túmulo vazio” (v. 3)4. Essa imagem do túmulo vazio remete ao capítulo da ressurreição de Cristo no Novo Testamento (João, 20:1-9; Mt 28:1-10; Mc 16:1-8; Lc 24:1-12), referência cristã que é reforçada pela infância religiosa da voz poética (uma delas, pelo menos) e pela avó presbiteriana5. A afirmação do túmulo vazio carrega em si o paradoxo da vida que resiste e supera a morte, ao mesmo tempo que nos lembra de sua inexorabilidade. A certeza do “hoje” topicalizado cria a dúvida do amanhã, e a repetição do refrão emula a necessidade constante deste movimento positivo no “agora”: hoje, eu não vou morrer; hoje, eu vou renascer. A formulação também parece ecoar o verso de Belchior (1976), “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”6.

A alternância da morte com o renascimento aparece também na alternância das vozes que compõem o coral do poema. Logo de início, no verso “sabe aqueles dias que você acorda” (Matos, 2018, v. 1), o “você” nos interpela como participantes num diálogo. Esse “você” também parece espelhar o “eu” poético; o artifício prosaico do “sabe” reforça a intenção retórica de identificação com o enunciado. Mas, logo adiante, o “você” se torna também pronome para o coveiro, ampliando mais uma vez a ambiguidade do termo: “vou até ligar para o/ coveiro rapaz por que você não/ tira o dia de folga...” (Matos, 2018, vs. 10-12). Adentramos uma zona instável, e passamos a nos perguntar quem são os personagens dessa cena. Tudo se complica quando outra voz, mais confessional, biográfica, parece tomar a palavra para si e mudar o tom, fenômeno tornado mais evidente pelo itálico no texto: “imagina o dia chegou...” (Matos, 2018, v. 26).

Quem atende o telefonema é laurie, referência à cantora, compositora, performer, poeta e cineasta norte-americana Laurie Anderson7. O título do poema anuncia que a ocupação do apocalipse seria acompanhada pela artista. Sua presença também fica evidente pelos personagens e procedimentos que Lucas mobiliza, baseado nas obras de Laurie. Transitory Life traz a lembrança da avó morta, “com maquiagem que ela nunca usou em vida”8 (Anderson, 2010). “O Superman”, hit de 1981, emula a voz de uma secretária eletrônica em resposta a alguém que liga e não é atendida. A canção cria uma atmosfera ameaçadora: prepare-se para o que vem aí, semelhante aos anúncios sobre o fim do mundo iminente (Anderson, 1982)9. “Ocupando” se aproxima de “O Superman” pela sobreposição de imagens surreais; pelo alerta para a destruição iminente, interpretada numa voz “seca”, levemente irônica; e pelo recorrente uso da colagem. A recontextualização ou reescrita é um dos procedimentos de 1989. Em “ocupando”, ela é a forma preferencial para estabelecer diálogos, com Laurie Anderson e o próprio Ricardo Domeneck, seu tradutor, com a Bíblia, com Belchior, e outros que vão brotar ao longo da análise.

Aqui, e em outros momentos da leitura, percebemos a aguda consciência formal e o caráter experimental do poema. A profusão das imagens em acúmulo (a mosca do tamanho do carro, os lençóis vazios, todas as coisas embrulhadas em folhas de bananeira) alterna com a clareza da prosa nas células narrativas (o neto aguardando o apocalipse anunciado pela avó, o sujeito na praça da carioca vendo o pregador ao microfone), que funcionam como dispositivos de coesão, junto com o refrão (hoje eu vou deixar o túmulo vazio); mesmo assim, a sensação de caos se mantém. Ampliamos o escopo, tentando ver o poema como uma unidade. Aguardamos o coveiro aparecer, apesar de não precisarmos mais de seus serviços, assim como aguardamos o fim do mundo: ambos são figuras constantes e à espreita. Esperando ao telefone, transitamos por digressões que criam dois apocalipses concomitantes: o belo, em que moscas são do tamanho de carros, em que “envelhecerão as crianças/ um mar de vidro mesclado de fogo” (Matos, 2018, vs. 216-217), em que tudo acaba num clarão; e o terrível, o cotidiano, quando não se sabe se o salário vai cair, o dia amanhece para lençóis vazios, a pia está lotada de louça suja, e você é o vilão do conto de fadas:

115 sabe aqueles dias que você acorda
e os lençóis estão vazios
como o gosto na sua boca
a manhã aquece a casa
não encontra pessoa na sala
120 nos quartos no banheiro
nos pulmões pálpebras paredes
ressoa
amor hoje eu vou deixar o túmulo vazio
a campainha toca estão os três
125 à porta o juiz o carrasco o assassino
saio pela janela feito desenho
animado um cordame de lençóis
e fronhas eles entram deixa
que eu mostro a casa alguém
130 quer cafezinho indago das férias
se cada um recebeu em dia o terço
tenho pensado muito sobre a clt
o início dos movimentos sindicais
na década de 1920 um deles acende
135 uma vela e outro menciona comovido
o sr. getúlio um de nós
pede para falarmos coisas horríveis
porque estamos tristes sabemos
estamos tristes e a beleza pode
140 passar a impressão errada é
com muito delicadeza que eu volto ao
refrão hoje vocês sabem
já é noite quente quando os três se
vão pela janela as ruas da vila quase
145 um deserto me encaminho para a
louça suja é tão difícil desembaraçar
o que é simplesmente fim do fiapo
de um novo começo
imagina todas as coisas
150 estão embrulhadas em folhas de bananeira
pneus dos carros telefones para-brisas
cada página dos livros cada grão
de areia nas praias as praias
todas embrulhadas em folhas de bananeira
155
155 e os seus amigos embrulhados até
os seus órgãos internos passam
vozes e são como o vento
correndo entre os dedos
‘já estamos preparados para quando queimarem
160 a quarta parte da terra
já estamos preparados para que venham
todos animais de peçonha
todos animais de rapina
todas as pestes e pragas
165 enquanto cantamos chegamos ao ponto
de abate assim nos fizemos mais
tenros você levantou sua foice sobre
a terra e o nosso aroma é doce
na sua presença’
170
170 é aí que você se toca
toda essa conversa de
folhas de bananeira
abriu seu apetite (Matos, 2018).

Em suas interrupções e cortes abruptos do verso (“que você sempre quis uma/ viagem para o norte é tão boa/ quanto o rumo para o sul e se” [Matos, 2018, vs. 14-16], “e o monstro é você/ imagina uma mosca” [Matos, 2018, vs. 39-40] ou então “este mês não tem salário/ e mês que vem quem sabe” [Matos, 2018, vs. 56-57]), “ocupando” nos dá a ver certa experiência neurótica no acúmulo acelerado de informações, índice de certa sensibilidade contemporânea. Ao mesmo tempo, tudo se dá no marasmo da demora. A espera acontece em mise en abyme: enquanto aguardamos o coveiro atender, o neto aguarda o apocalipse, a avó aguarda a morte (e a revelação), os funcionários aguardam as férias e o 13º cair. A estrutura lembra o drama de Vladimir e Estragon à espera de Godot. Os personagens de Beckett “têm dificuldade de perceber a passagem do tempo; por vezes não sabem diferenciar se o que vivem é realidade ou sonho” (Côrtes; Vescovi, 2022). Em “ocupando”, “acordamos” sem distinguir entre o “real” e o onírico, permanecendo em uma zona de vigília. Enquanto esperamos, somos jogados abruptamente de uma cena para outra. A predominância de verbos no presente do indicativo eterniza e suspende a linearidade temporal, e as micronarrativas se encadeiam sem transição aparente10. Memórias (“a minha avó era uma presbiteriana...” [Matos, 2018, v. 70]) se intercalam com previsões em tom apocalíptico (“imagina todas as coisas/ estão embrulhadas em folhas de bananeira...” [Matos, 2018, v. 149-150]) e referências bem localizadas da atualidade (o neoliberalismo, os movimentos sindicais). Tudo isso contribui para nossa sensação de vertigem durante a leitura/espera.

Há uma espera em particular que destaco: a de miguel, o entregador de pizzas do turno das 22, que ninguém viu. Miguel aparece em uma sequência de estrofes que nos contam dos conflitos entre patrões e empregados (Matos, 2018, vs. 50-69). As imagens de violência física — o pé de cabra, o taco de beisebol, a faca nos rins, os estilhaços na córnea — se confundem com a violência também física causada pela penúria. Sem salário, sem geladeira, sem dinheiro e sem tempo para suas atividades reprodutivas, o sujeito precarizado passa a depender de outros sujeitos, também precarizados: os que fazem as pizzas, os que as entregam até tarde da noite, mas que, aqui, não atendem a chamada. São Miguel Arcanjo, líder dos exércitos de Deus contra Satã no Apocalipse, está ausente e não nos protege mais.

A cena evoca personagens típicos do cotidiano urbano nos últimos anos: milhares de jovens “empreendedores de si mesmos”, despojados de seus direitos trabalhistas, operando conforme a falsa simetria entre esforço e recompensa. Outros milhares são aqueles que, sem tempo para se dedicar à sua reprodução, terceirizam-na a outros tantos trabalhadores do cuidado, tão ou mais desvalorizados: “em nossa sociedade parece haver uma regra geral de que, quanto mais evidentes os benefícios coletivos de uma função, menos remunerada ela será”11 (Graeber, 2019, p. xviii) — pense aqui em professoras, garis, enfermeiros. A precarização do trabalho é abrangente: atinge tanto os empregos “estáveis”, ampliando as horas despendidas na burocracia e na metrificação da produtividade, quanto as atividades características do mercado informal.

Em Adeus ao trabalho?, Ricardo Antunes (1999) faz uma síntese dessas mesmas discussões (especialmente entre os marxistas), sobre as mudanças no regime de acumulação e suas repercussões no mundo do trabalho desde a década de 1980. À medida que diminuía a classe operária tradicional, especialmente nos países de capitalismo avançado, havia a “progressiva expansão do trabalho assalariado”, especialmente no setor de serviços, acompanhada pela subproletarização: intensificação do trabalho parcial, “terceirizado”, informal. Em comum a tais categorias estão “a precariedade do emprego e da remuneração, a desregulamentação das condições de trabalho [...] e a consequente regressão dos direitos sociais, bem como a ausência de proteção [...] sindicais” (Antunes, 1999, p. 44).

A classe trabalhadora brasileira tem sofrido com essa tendência já há algumas décadas. No livro Valsa brasileira, Laura Carvalho (2018) sugere que a política econômica empreendida entre 2006 e 2010 tinha como um de seus pilares a distribuição de renda, efetivada pela valorização real do salário-mínimo e pelos programas bem-sucedidos de transferência condicionada de renda. Ambos suscitaram a inclusão de parte significativa da população no mercado de consumo, o que levou à “expansão de setores cuja produção demandava uma mão de obra menos qualificada. É o caso de muitos setores de serviços e da construção civil, que cresceram de forma expressiva” (Carvalho, 2018, p. 22).

Laura Carvalho (2018) explica que as famílias na base da pirâmide foram fundamentais para o aquecimento do mercado interno, num ciclo virtuoso de crescimento que se aliou ao acesso facilitado ao crédito e aos investimentos públicos. Com o aumento no nível de renda, as famílias incorporaram produtos e serviços antes inacessíveis, o que se refletiu na maior participação do setor de serviços no PIB. Laura Carvalho (2018) conclui que o aumento dos salários em setores de baixa produtividade, pela maior demanda de mão de obra pouco qualificada, também contribuiu para a distribuição de renda na base da pirâmide.

No livro, a autora destrinchou as repercussões desse modelo de crescimento nos anos seguintes, dentre elas o aumento da inflação e o acirramento no conflito distributivo. Interessa pensar o crescimento do setor de serviços no Brasil pari passu o fenômeno mais geral. Se em países como Brasil e Índia tivemos políticas ativamente voltadas para o crescimento por meio do consumo interno — por transferência de renda e acesso ao crédito, por exemplo —, nos países do primeiro mundo é comum que se atribua essa tendência à mecanização e à realocação das indústrias para países do Sul Global — em especial, os do Leste Asiático.

A transição para o setor de serviços aconteceria de duas formas. Primeiro, por meio da criação de novos postos de trabalho, especialmente aqueles associados ao setor informacional e gerencial: são corretores, assistentes administrativos, consultores, secretários, atendentes de escritório, teleoperadores, contadores, profissionais da TI, secretários, RH etc. Os outros cargos (menos qualificados) do setor derivam das necessidades do primeiro: são serviços mais identificados com a indústria do cuidado, como segurança e limpeza de prédios corporativos, atendentes em petshops e entregadores de pizza que existem, fundamentalmente, porque todo o resto está ocupado demais trabalhando muito (Graeber, 2019, p. xvi)12.

O miguel de “ocupando o apocalipse com laurie” desempenha uma função típica da indústria do cuidado precarizada. Federici (2022) chama a atenção para seu despontar justamente à época da inserção massiva das mulheres no mercado de trabalho, sob condições muito mais desvantajosas, a partir da década de 1980. Sem a possibilidade de negociar condições que lhes permitissem conciliar o trabalho fora de casa com os cuidados da família e da comunidade, as mulheres tiveram de recorrer à “comercialização do trabalho doméstico, [...] [que] provou ter sérias limitações, a começar pelo alto custo e a baixa qualidade dos serviços prestados” (Federici, 2022, p. 260). A autora nos lembra, por exemplo, das altas taxas de obesidade infantil, associadas à dependência do fast-food e outros alimentos de baixa qualidade nutricional. No Brasil, vale observar a inflação nos preços da alimentação fora de casa e nos serviços pessoais justamente à época do boom dos serviços, entre 2006 e 2010.

Outra manifestação, menos visível, da indústria do cuidado está encarnada nos professores, instados a performar funções que os responsáveis, pressionados a trabalhar incessantemente, não dão conta (Fisher, 2020, p. 49). Além disso, a precarização da atividade docente deriva do que Graeber (2019) chama de “bullshitização” do trabalho13: o incremento de funções burocráticas e administrativas de caráter dúbio, como o preenchimento de relatórios, formulários e ementas detalhadas, registro de taxas de aprovação e frequência justificadas, elaboração de avaliações dentro de modelos específicos, revisão dos módulos ao final do curso, tudo isso dentro de uma estrutura idealizada por consultorias externas — sem falar nos procedimentos igualmente exaustivos na disputa por recursos. Enquanto isso, proliferam as ladainhas dos objetivos, dos resultados esperados, das metas, “ao mesmo tempo em que ganha força a retórica neoliberal sobre o fim do comando vertical e centralizado” (Fisher, 2020, p. 72). A suposta horizontalização é seguida de perto pela maior vigilância sobre os trabalhadores — no caso dos professores, a vigilância é construída e mantida também pelos próprios trabalhadores, por meio de instrumentos e práticas que servem para metrificar milimetricamente sua produtividade.

A leitura de “ocupando o apocalipse com laurie”, e do livro 1989 como um todo, nos leva a questionar a estrutura mesma sobre a qual se assenta o trabalho na contemporaneidade — e sua relação com o apocalipse. Faz sentido pensar o coveiro, o patrão, a voz poética e miguel pela chave da “bullshitização” (para além da precarização)? Se sim, quais as implicações? É possível imaginar uma realidade em que menos trabalho não signifique pauperização? Em que possamos advogar por “menos empregos”, menos horas de trabalho, sem que isso pareça uma afronta moral? Em que pensemos criticamente que tipos de trabalho devem existir — e quais estão aí apenas reproduzindo uma burocracia que, no fim das contas, não contribui tanto assim para adiar o fim do mundo (Krenak, 2020, p. 12-13)?

Retornando ao poema, percebemos que a sensibilidade contemporânea se dá no horizonte comum e imaginado: as referências aos bancos, ao salário, às notícias, aos hospitais, aos veículos. O vocabulário constrói mais vividamente não a multidão e o choque, mas a virtualidade e a atomização do indivíduo diante de sistemas que governam nossa vida, nos quais depositamos nossa passiva confiança: para comer, há o mercado; para pagar, há o cartão de crédito; para divertir, há o streaming; para dormir, há a farmácia.

O andar do poema tende à falta de saída: a cada estrofe, a cada história, o fim do mundo se torna mais presente. Nesse movimento, contudo, encontramos algo além dos distúrbios e incômodos do sujeito e das condições de existência impostas pelo seu entorno: o desejo por desembaraçar o fim do fiapo de um novo começo14. Há em “ocupando” rotas de fuga, indicadas já no refrão, que apontam para possíveis alvoradas pós-apocalípticas: a mais evidente é o humor, que brota nas súbitas mudanças de frequência do poema, nas imagens inusitadas, nos comentários metalinguísticos. É o caso da cena com a avó que, à beira da morte, entra em crise por conta de um chapéu (“depois de uma vida inteira de/ orações e previsões sobre o fim do mundo/ ela entrou em pânico/ e ela entrou em pânico/ porque não conseguia decidir/ se botava ou não um/ chapéu” [Matos, 2018, vs. 102-108]). É o caso da cena de desenho animado: a voz poética que foge pela janela num cordame de lençóis e fronhas e reaparece no mesmo lugar, abrindo a porta para o juiz, o carrasco e o assassino – três burocratas do apocalipse, que se sentam para tomar café e se afogar em queixumes e nostalgia (Matos, 2018, vs. 124-140). O humor também está na estrofe “é aí que você se toca/ toda essa conversa de/ folhas de bananeira/ abriu seu apetite” (Matos, 2018, vs. 170-173) depois de uma sequência de alta tensão de anúncio do fim do mundo, que desloca o “você” de uma estrofe para outra. Está no tom melodramático, lembrando a música popular de fossa, em “o neoliberalismo já bebi já sofri/ o fim do fim já comi já me fodi” (Matos, 2018, vs. 187-188). Podemos recuperar, aqui, a intertextualidade com as performances de Laurie Anderson, em cujo trabalho o humor brota em “non-sequiturs absurdos que incomodam por recusar a quebra de expectativa, o arremate da piada, a não ser que demos o salto para um significado cosmológico” que “só depende de nós”15 (Van Spanckeren, 1985, p. 97):

ou eu poderia dizer
175 a partir de agora esta porta vai ficar aberta
ou eu poderia dizer
esta casa não conta mais derrotas
ou eu poderia dizer
levanta povo o cativeiro acabou
180 o mundo estou sabendo
a vida estou sacando
me disseram poemas
e não era o crepúsculo
e não era o calor da noite de verão
185 era cedo e minhas irmãs sérias
me olhavam
o neoliberalismo já bebi já sofri
o fim do fim já comi já me fodi
em quantas línguas o café da manhã
190 começa com café
eu gosto dessa frase
encarei a alfabetização como quem compra um peixe
que tem espinha
eu gosto dessa frase
195 tudo passa sobre a terra
eu perguntei ao meu mestre
se existia alguma meditação
para quando o fim estiver se aproximando
procure escutar os sons ao seu redor
200 ele disse bom está ok
mas pode ser que você não consiga a concentração necessária
ou que o barulho seja infernal e daí
é quase impossível ficar apenas escutando
então lembre da primeira vez que você sentiu
205 medo e depois lembre a última até os fios
de cabelo na nuca se arrepiarem
e pense
é assim que os mortos veem os vivos
eu saí de lá com uma estranheza
210 uma espécie de confusão
na praça da carioca
um pregador lia ao microfone
trechos do apocalipse
eu nunca tinha reparado
215 a beleza das imagens
o dia em que envelhecerão as crianças
um mar de vidro mesclado de fogo
a ruína completa e definitiva
e me lembrei quando tinha 10
220 entrou um rato em casa
a minha avó saiu atrás dele
vassoura em punho e
palavrões em língua estrangeira
porque em língua nossa oh o pecado
225 quando matou o bicho e me viu
com o olhar aterrado ela disse
e se a besta e seus vencedores
os cavaleiros com seus flagelos
as trombetas a postos
230 tudo está pronto para soar
e dar fim ao mundo mas
eles têm mais medo
de nós do que nós
deles
235 quando o coveiro afinal atende
oxalá ele diz eu não descubro nunca
as razões de estarmos vivos nessa terra
hoje eu vou deixar o túmulo vazio
por que não aproveita o espaço
240 planta jardim floresta
ou então
meus inimigos
? (Matos, 2018).

O humor kitsch (irônico, mas não cínico) do poema desestabiliza os aspectos mais terríveis da vivência contemporânea elaborados por ele — mas não é a única estratégia a criar frestas na escatologia. É possível indicar, por exemplo, um momento de virada de tom no poema, no verso “ou eu poderia dizer” (Matos, 2018, v. 174); o próprio valor semântico da conjunção que inicia a estrofe nos encaminha para vias alternativas de ver e expressar. O verso, repetido em sequência, introduz frases que lembram clichês de superação típicos de coach ou pastores de igrejas neopentecostais (“a partir de agora esta porta vai ficar aberta”, “esta casa não conta mais derrotas”, “levanta povo o cativeiro acabou” (Matos, 2018, vs. 175, 177 e 179). O mundo em desarranjo, solitário, dá lugar ao mundo sabido, que não é o prometido pelos cartões de crédito e comerciais de plano de saúde — é o mundo que nós e você conhecemos, e que já acabou. O fim do fim nós já vivemos, o fundo do poço é aqui — e vamos deixar o túmulo vazio mesmo assim. No poema, o porvir se mistura com o presente: o apocalipse já é aqui, por isso ocupá-lo é ato contínuo, no gerúndio.

Nesse ponto, acreditamos que a voz poética recusa a morte não mais pelo estribilho, mas pela contundência: “eu gosto dessa frase/ tudo passa sobre a terra” (Matos, 2018, vs. 194-195), nos diz Iracema; os apocalipses são periódicos, nos dizem os ameríndios (Danowski; Viveiros de Castro, 2017, p. 107), com que o poema dialoga em “encarei a alfabetização como quem compra um peixe/ que tem espinha” (Matos, 2018, vs. 192-193). No entanto, se a destruição do mundo como o conhecemos é iminente, imaginar um mundo “sem vida” — sem relação, sem alteridade — tampouco faz sentido. Afinal, “os humanos não são os únicos seres interessantes e que têm uma perspectiva sobre a existência. Muitos outros também têm” (Krenak, 2020, p. 32). Ao acionar tais epistemologias, argumento, o poema resiste ao realismo capitalista, que inibe nossa criatividade, nossa capacidade de enxergar outras formas de existência. Ele nos convoca mais de uma vez a imaginar (“imagina o dia chegou/ imagina uma mosca/ imagina um carro/ imagina todas as coisas” [Matos, 2018, vs. 26, 39, 41 e 149]). Quando diz que os vivos são o maior medo dos mortos — e não o contrário —, ele nos convida a ocupar efetivamente o apocalipse com imaginação, suspender o céu, ampliar o horizonte existencial: “plantar jardim floresta”, injetar vida, inclusive a dos “meus inimigos” (Matos, 2018, vs. 240-242).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Lucas Matos ingressou como professor na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) às vésperas da maior crise pela qual a instituição passou em sua história, durante a qual professores e funcionários ficaram meses sem salário, e estudantes, sem bolsa. A crise na UERJ foi reflexo da falência do Estado do Rio, cujos governadores foram presos em sequência por envolvimento em casos de corrupção. Foi neste período que Lucas atuou como assessor da Direção de seu Instituto, participando ativamente da luta sindical e, ao mesmo tempo, insistindo em criar alternativas para que os estudantes concluintes do CAp-UERJ não ficassem totalmente desamparados no ano de seu vestibular. Foi também nesse período, em 2016, que os estudantes do CAp-UERJ ocuparam sua escola, como parte de um movimento nacional de protesto pela melhoria da educação pública.

“Ocupando o apocalipse com laurie” é inegavelmente um produto literário de seu tempo. Tematiza o trabalho mercantilizado, precarizado, burocratizado, e anuncia o fim do mundo, que vivenciamos pouco depois de sua publicação, com a pandemia. Mas é um trabalho linguístico, artístico, que reconfigura nosso olhar para os fenômenos e discursos à nossa volta. É um poema sobre nossa capacidade de imaginar um fim do capitalismo que não signifique o fim do mundo — ou, pelo menos, o fim de todos os mundos. É um poema sobre possibilidades, que não se projetam num futuro incerto, mas são performadas no aqui e agora. Ao insistir em não deixar o túmulo vazio, a voz poética recusa a morte, ao mesmo tempo em que anuncia uma nova existência – uma performance desafiadora e imanente de liberdade.

  • Manuscrito decorrente de tese de doutorado Desembaraçar o fim do fiapo de um novo começo: Uma leitura do trabalho em 1989, de Lucas Matos, defendida em abril de 2024 na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
  • Financiamento:
    Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Notas

  • 1
    Instituto de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
  • 2
    Utilizo o termo conforme seu significado teológico: “Doutrina acerca das coisas que hão de suceder depois do fim do mundo; doutrina sobre o fim do mundo e da humanidade” (Escatologia, 2024).
  • 3
    Tradução nossa do original: “Normally, they do so as a kind of compromise. One must be realistic and not demand too much. Welfare state reforms seem more realistic than demanding a broad distribution of property; a ‘transitional’ stage of state socialism seems more realistic than jumping immediately to giving power to democratically organized workers’ councils, and so forth”.
  • 4
    Para facilitar a leitura, indicarei a linha do verso citado no corpo do artigo como “v(erso). número da linha”.
  • 5
    Seria interessante aprofundar uma leitura de “ocupando” à luz das tendências messiânico-milenaristas dos movimentos pentecostais e neopentecostais, em franca ascensão no Brasil nas últimas décadas, bem como a influência da teologia da prosperidade em seus discursos. Essas correntes do cristianismo parecem, muitas vezes, instaurar o medo (e a possibilidade de redenção) por meio do anúncio reiterado do fim. A ligação das igrejas com o dinheiro e o poder político também é uma porta de entrada que o poema nos oferece, em diversos momentos. Não me aprofundo nessa aproximação no artigo, mas registro como um possível desdobramento, e como sugestão para outros leitores-críticos.
  • 6
    A canção foi sample do rap “AmarElo”, de Emicida, com participação de Majur e Pabllo Vittar, no celebrado álbum homônimo (2019).
  • 7
    Esse diálogo com a performance — a vocalização pública do poema, em particular — é interessante inclusive por ser uma prática de Lucas Matos na cena da poesia carioca. Não sei se Lucas já leu “ocupando” dessa forma, mas gosto de imaginar como ele o faria — e como nós o faríamos, também.
  • 8
    Tradução nossa do original: “And grandma in the pancake makeup she never wore in life”.
  • 9
    O poeta Ricardo Domeneck publicou uma tradução de “O Superman” no blog Modo de Usar & Co (Anderson, 2008).
  • 10
    Neste sentido, podemos aproximar a linguagem do poema da linguagem no Livro do Apocalipse, de João. Como no Livro, o poema é uma máquina de gerar imagens, uma em cima da outra. Me lembra as narrativas de crianças do ensino fundamental I, que encadeiam um acontecimento fantástico no outro de forma frenética, com vários “aí” como elemento coesivo.
  • 11
    Tradução nossa do original: “in our society, there seems to be a general rule that, the more obviously one’s work benefits other people, the less one is likely to be paid for it”.
  • 12
    Essa enumeração coaduna com a de Annunziato (1989, p. 107), citado por Antunes (1999, p. 43): o setor de serviços incluiria “tanto a ‘indústria de serviços’ quanto o pequeno e grande comércio, as finanças, os seguros, o setor de bens imóveis, a hotelaria, os restaurantes, os serviços pessoais, de negócios, de divertimentos, da saúde, os serviços legais e gerais”. Trinta anos depois, Graeber (2019, p. 147-149) argumenta que é preciso distinguir de forma mais precisa esse setor, com isso, encontrando outros padrões de interesse.
  • 13
    Graeber (2019) desenvolve este argumento no livro Bullshit jobs. Mantemos o termo anglicizado por não chegar a uma tradução que contemplasse os aspectos da precarização e da farsa, simultaneamente, fundamentais para a definição do conceito.
  • 14
    Talvez uma referência ao verso da canção “O nome da cidade”, composta por Caetano Veloso e interpretada por Maria Bethânia: “Não há meada, é só o fio” (1984). No livro Letra só: sobre as letras, Caetano (2003) diz que compôs a canção inspirado em A hora da estrela, de Clarice Lispector (2003, p. 56). Puxar os fios de “ocupando” é se deparar constantemente com diálogos inusitados como esse.
  • 15
    Tradução nossa do original: “absurd non-sequiturs create the angst by refusing to unravel themselves or fall into patterns or punch lines unless we leap to a sense of cosmological significance: [and, as with Schneemann,] we sense that this leap to significance is up to us”.

Referências

  • ANDERSON, Laurie (1982). O Superman. Big Science
  • ANDERSON, Laurie (2008). O Superman Tradução de Ricardo Domeneck. Disponível em: http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/03/o-superman-laurie-anderson.html Acesso em: jun. 2023.
    » http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/03/o-superman-laurie-anderson.html
  • ANDERSON, Laurie (2010). Transitory life Homeland.
  • ANTUNES, Ricardo (1999). Adeus ao trabalho? São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas.
  • BELCHIOR (1976). Alucinação Rio de Janeiro: PolyGram.
  • BRITTO, Paulo Henriques (2011). Para uma tipologia do verso livre em português e inglês. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 13, n. 19, p. 127-144.
  • CARVALHO, Laura (2018). Valsa brasileira: do boom ao caos econômico. São Paulo: Todavia.
  • CÔRTES, Ana Maria; VESCOVI, Gabriela (2022). O vazio beckettiano em Esperando Godot. Jornal da Unicamp Disponível em: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/o-vazio-beckettiano-em-esperando-godot Acesso em: mar. 2024.
    » https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/o-vazio-beckettiano-em-esperando-godot
  • DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo (2017). Há mundo por vir? Desterro: Cultura e Barbárie; Instituto Socioambiental.
  • EMICIDA (2019). AmarElo São Paulo: Laboratório Fantasma.
  • ESCATOLOGIA (2024). Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Lisboa: Priberam Informática. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/escatologia Acesso em fev. 2024.
    » https://dicionario.priberam.org/escatologia
  • FEDERICI, Silvia (2022). Reencantando o mundo: feminismo e a política dos comuns. Tradução de Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante.
  • FISHER, Mark (2020). Realismo capitalista Tradução de Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato e Maikel da Silveira. São Paulo: Autonomia Literária.
  • GRAEBER, David (2016a). Dívida: os primeiros 5000 anos. São Paulo: Três Estrelas.
  • GRAEBER, David (2016b). The utopia of rules Nova York: Londres: Melville House.
  • GRAEBER, David (2019). Bullshit jobs Londres: Penguin Books.
  • KRENAK, Ailton (2020). Ideias para adiar o fim do mundo São Paulo: Companhia das Letras.
  • MATOS, Lucas (2018). 1989 Rio de Janeiro: 7 Letras.
  • O GLOBO. Prêmio Rio de Literatura divulga os seus finalistas. O Globo, Rio de Janeiro, nov. 2019. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/premio-rio-de-literatura-divulga-os-seus-finalistas-23973144 Acesso em: mar. 2024.
    » https://oglobo.globo.com/cultura/premio-rio-de-literatura-divulga-os-seus-finalistas-23973144
  • VAN SPANCKEREN, Kathryn (1985). A funny thing happened on the way to the apocalypse. Studies in American Humor, New Series 2, v. 4, n. 1/2, p. 94-104.
  • VELOSO, Caetano (2003). Letra só: sobre as letras São Paulo: Companhia das Letras.
  • Editor:
    Paulo César Thomaz

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    28 Mar 2024
  • Aceito
    22 Jul 2024
location_on
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: revistaestudos@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro