RESUMO:
Existe uma relação retroalimentativa entre o trabalho editorial e as políticas editoriais que desempenha importante papel operacional nas atividades científicas envolvendo autores, editores, avaliadores, agências de fomento à pesquisa, bases indexadoras de periódicos, entre outros agentes. Nesse sentido, uma definição específica e consensual do conceito de políticas editoriais pode contribuir para a regulamentação da publicação científica. Este trabalho teve como objetivo analisar a relação entre as informações disponibilizadas nos sites de periódicos da área de Educação e suas políticas editoriais, bem como problematizar um conceito de “políticas editoriais”. Nesta pesquisa, de paradigma interpretativo e caráter qualitativo, foi realizada uma análise documental e temática das informações disponibilizadas nos sites de cinco periódicos. Os dados foram organizados em três principais categorias: sobre o periódico, fluxo editorial e questões éticas. Identificamos que há grande variação em relação às informações disponibilizadas nos sites, ainda que exista um núcleo comum, como foco, escopo e periodicidade. Informações acerca de submissões e avaliações de manuscritos variam em grau de especificidade entre os periódicos, sendo que apenas três deles indicam diretrizes para avaliadores. Todos os materiais consultados disponibilizam informações sobre ética em pesquisa e indicam documentos de referência, ainda que tais informações estejam organizadas de formas distintas entre os sites. A partir disso, foi proposta uma definição de “políticas editoriais” de caráter normativo, técnico e político, que, ao reivindicar caráter consensual, pode contribuir para a operacionalidade do trabalho editorial e para a tomada de decisões nas atividades relacionadas à publicação científica.
Palavras-chave:
editoração científica; publicação científica; gestão de periódicos; políticas editoriais
ABSTRACT:
There is a feedback relationship between editorial work and editorial policies that plays an important operational role in scientific activities involving authors, editors, reviewers, research funding agencies, journal indexing bases, and other stakeholders. In this context, a specific and consensual definition of the concept of editorial policies can contribute to regulating scientific publishing. This study aimed to analyze the relationship between the information available on the websites of education journals and their editorial policies, as well as problematizing the concept of “editorial policies”. In this research, with an interpretative paradigm and a qualitative nature, a documentary and thematic analysis was conducted on the information available on the websites of five journals. The data were organized into three main categories: about the journal, editorial flow, and ethical issues. We identified significant variation in the information provided on the websites, although there is a common core, such as focus, scope, and periodicity. Information on manuscript submission and evaluation varies in specificity among the journals, with only three providing explicit guidelines for reviewers. All consulted materials provide information on research ethics and reference documents, although this information is organized differently across the websites. Based on this, a definition of "editorial policies" with normative, technical, and political characteristics was proposed. By claiming a consensual nature, this definition can contribute to the operational efficiency of editorial work and decision-making in activities related to scientific publishing.
Keywords:
Scientific publishing; scientific publication; journal management; Editorial Policies
RESUMEN:
Existe una relación retroalimentativa entre el trabajo editorial y las políticas editoriales que desempeña un importante papel operativo en las actividades científicas que involucran a autores, editores, evaluadores, agencias de financiamiento de investigaciones, bases de indexación de revistas, entre otros agentes. En este sentido, una definición específica y consensuada del concepto de políticas editoriales puede contribuir a la regulación de la publicación científica. Este trabajo tuvo como objetivo analizar la relación entre la información disponible en los sitios web de revistas del área de Educación y sus políticas editoriales, así como problematizar el concepto de “políticas editoriales”. En esta investigación de paradigma interpretativo y de carácter cualitativo, se realizó un análisis documental y temático de la información disponible en los sitios web de cinco revistas. Los datos se organizaron en tres categorías principales: sobre la revista, flujo editorial y cuestiones éticas. Identificamos que existe una gran variación en la información proporcionada en los sitios web, aunque hay un núcleo común, como el enfoque, alcance y periodicidad. La información sobre la presentación y evaluación de manuscritos varía en grado de especificidad entre las revistas, y solo tres de ellas indican directrices para los evaluadores. Todos los materiales consultados proporcionan información sobre ética en investigación e indican documentos de referencia, aunque esta información esté organizada de manera diferente en los sitios web. A partir de esto, se propuso una definición de políticas editoriales de carácter normativo, técnico y político que, al reclamar un carácter consensuado, puede contribuir a la operatividad del trabajo editorial y a la toma de decisiones en las actividades relacionadas con la publicación científica.
Palabras clave:
Edición científica; publicación científica; gestión de revistas; Políticas Editoriales
INTRODUÇÃO
As políticas editoriais (PE) reúnem informações que definem a identidade de um periódico, indicando seu posicionamento acerca dos aspectos que envolvem a publicação científica. Levando em consideração que os periódicos constituem um dos principais veículos de comunicação científica na contemporaneidade, é importante que exista certa regulamentação das atividades editoriais, permitindo a tomada de decisão e a operacionalidade do fluxo editorial para diversos agentes envolvidos na atividade científica. Assim, as PE contribuem para a regulamentação desses processos.
Nessa perspectiva, as PE reúnem informações de referência para diferentes desdobramentos da atividade científica. Os autores se baseiam nesse documento para decidir se o periódico é um veículo de interesse para comunicarem seus resultados de pesquisa, bem como para adequarem seus manuscritos aos formatos exigidos. Além disso, os pesquisadores podem se basear nas PE para identificar se o periódico adota práticas predatórias. Os editores se baseiam nas PE para tomar decisões relacionadas ao fluxo editorial, assim como também são os responsáveis por elaborá-las, estabelecendo um mecanismo retroalimentativo entre trabalho editorial e PE. As diretrizes de avaliação fazem parte das informações disponíveis nas PE, servindo, ainda, como documento de referência para avaliadores. Além desses atores, agências de fomento à pesquisa, instituições de avaliação de programas de pós-graduação, bases de indexação de periódicos e comissões examinadoras de concursos e demais processos seletivos podem se basear nas PE de periódicos para estabelecer regras e critérios de avaliação. Desse modo, é necessário que essas informações sejam transparentes e de fácil acesso, sendo disponibilizadas, normalmente, nos sites dos periódicos.
Apesar de sua importância, consideramos que há uma demanda de um conceito de PE que seja específico, operacional e consensual dentro da gestão editorial de periódicos, principalmente na área de Educação. É importante ressaltar a especificidade das áreas, tendo em vista que diversos aspectos acerca dos quais os periódicos precisam se posicionar são particulares, como, por exemplo, a legislação para pesquisas envolvendo seres humanos da área de Ciências Humanas e bases de periódicos específicas. A partir do exposto, esta investigação partiu da seguinte pergunta: quais informações são disponibilizadas nos sites dos periódicos e como elas se relacionam com as PE? Tivemos como objetivos analisar a relação das informações disponibilizadas nos sites de periódicos da área de Educação com as suas PE, e problematizar um conceito de “políticas editoriais”.
As PE têm sido objeto de pesquisa e utilizadas como fontes de dados para responder a diversas perguntas relacionadas à publicação científica. Em relação às instruções para os autores, tem sido reportado que periódicos da área de Pediatria estavam atrasados em relação a disponibilizar orientações para padronização de publicações (Meerpohl; Wolff; Niemeyer, 2010), e que apenas uma pequena porcentagem de periódicos espanhóis das áreas de Ciência e Tecnologia buscam regulamentar a atribuição de autoria nas publicações (Ruíz-Pérez; Marcos-Cartagena; López-Cózar, 2014). Em contrapartida, as PE de periódicos brasileiros da área de Psicologia demonstraram adesão aos critérios de autoria do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE), sugerindo a regulamentação dessa prática (Freitas; Mainieri; Mármora, 2021).
No que tange ao Acesso Aberto, medidas que podem contribuir para um melhor aproveitamento das pesquisas, como adesão a Dados Abertos, não têm sido amplamente encorajadas por grande parte dos periódicos da área de Odontologia (Almaqrami et al., 2020), enquanto que 52% de uma amostra de periódicos da área de Comunicação e Informação tem incentivado o compartilhamento de dados (Silveira; Silva; Dall’agnoll, 2023). Ainda em relação à Ciência Aberta, modelo de comunicação adotado por periódicos da área da Saúde indexados na Scientific Electronic Library Online (SciELO), têm sido relatadas discrepâncias entre informações disponibilizadas na plataforma e no site de cada periódico (Bojo-Canales; Melero, 2023).
No que diz respeito às diretrizes de avaliação por pares, poucos periódicos da área de Ciências Humanas e Sociais divulgam informações e parâmetros de como essa etapa deve acontecer (Matos Cardoso, 2011). No que se refere aos aspectos éticos em pesquisa, alguns periódicos da área de Psiquiatria exigem o detalhamento do fornecimento de consentimento pelos participantes de pesquisa e sugerem que características que fazem os estudos serem moralmente controversos, mas não antiéticos, deveriam ser publicadas de forma análoga a limitações metodológicas (Strech; Metz; Hannes, 2014). A investigação de PE tem contribuído com a identificação de elementos importantes a serem considerados na reformulação das PE de outros periódicos em fase de revisão de seus documentos definidores (Beltrão; Silva, 2020).
Nessa perspectiva, as pesquisas têm se debruçado sobre ênfases particulares da publicação científica em diferentes áreas do conhecimento. Além disso, apesar da importância das PE representada nesses trabalhos, não tem sido abordada uma discussão acerca da definição desse conceito. A partir desse cenário, nesta pesquisa, a ênfase está sobre o conceito de PE de forma global, buscando abarcar diferentes dimensões da publicação científica, com enfoque na área de Educação.
Como referencial teórico de análise, nos fundamentamos no pragmatismo e na semiótica peirceana. A compreensão pragmatista da ciência a descreve como um empreendimento humano determinado a responder às perguntas colocadas por si mesma (Laudan, 1990; Prosdocimi, 2020). Para essa corrente filosófica, a experiência é a principal forma de acessar o conhecimento, e a definição de um objeto se dá a partir de seus efeitos (Laudan, 1990; Peirce, 2017). Nessa perspectiva, compreendemos as PE como um saber que tem um componente experiencial, produto da prática de editores científicos. A partir das análises, problematizamos um conceito de PE a partir de um diagrama triádico, alinhado à concepção triádica de experiência proposta por Charles Sanders Peirce (Peirce, 2017; Santaella, 1995).
Este artigo está organizado em quatro seções. Na metodologia, apontamos as etapas desenvolvidas para a coleta e análise dos dados a partir de periódicos selecionados por amostra intencional. Na seção de resultados, apresentamos os dados organizados a partir de um quadro de dupla entrada e descrevemos as categorias encontradas. Na seção de discussão, interpretamos os resultados encontrados e problematizamos o conceito de PE, discutindo diversos traços que tangenciam as práticas da gestão de periódicos. Concluímos o texto sintetizando os achados e discussões, tecendo sugestões para pesquisas que deem continuidade a esta investigação, e indicando diretrizes para editores de periódicos na seção de considerações finais.
METODOLOGIA
Esta pesquisa foi conduzida dentro do paradigma interpretativo, com dados de natureza qualitativa. Na pesquisa em educação, o paradigma está relacionado com o conjunto de valores que determinam como as perguntas são colocadas, como os desenhos de pesquisa são conduzidos, como são atribuídos significados e quais são os critérios de confiabilidade de uma pesquisa (Treagust; Won, 2023). No paradigma interpretativo ou construtivista, conforme descrito por Taylor (2014) e por Treagust e Won (2023), a ênfase está relacionada à compreensão de um fenômeno em profundidade e nas atribuições de sentido possíveis, que acontecem como resultado de uma interação prolongada dos pesquisadores com os dados. Dentro das abordagens possíveis de pesquisa qualitativa, realizamos uma análise documental combinada com análise temática, resultando em uma síntese criativa (Patton, 2014). A investigação se desdobrou por meio das seguintes etapas: i) seleção dos periódicos; ii) leitura flutuante do material; iii) identificação de categorias; e iv) síntese dos resultados.
Na pesquisa qualitativa, a amostragem é intencional: são selecionados casos representativos com riqueza de informações para uma investigação em profundidade. Nessas linhas, a definição do tamanho da amostragem depende de uma série de fatores, como a pergunta da pesquisa, a natureza dos dados coletados, a utilidade dos dados para responder às perguntas, a credibilidade e a disponibilidade de tempo e recursos, por exemplo. Assim, no momento do desenho da pesquisa deve-se considerar o equilíbrio entre número amostral e utilidade dos dados. A validade e o significado dos dados estão mais relacionados à riqueza de informação dos casos selecionados do que ao tamanho amostral (Patton, 2014). A partir disso, realizamos uma combinação da amostragem heterogênea com a amostragem teórico-dedutiva, buscando documentar a diversidade e os padrões compartilhados em um grupo de casos representativos (Patton, 2014). A seguir, descrevemos alguns critérios que indicam a confiabilidade nos periódicos selecionados e justificamos por que eles podem contribuir para responder às perguntas de pesquisa. Ressaltamos que, pelos mesmos critérios indicados, outros periódicos poderiam ser selecionados e que, em última instância, a seleção também está relacionada com a trajetória e visão de mundo dos pesquisadores.
O tamanho da amostra foi de cinco periódicos. A Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP) e a Cadernos de Pesquisa foram selecionados por pertencerem a órgãos governamentais (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira e Fundação Carlos Chagas, respectivamente); a Revista Brasileira de Educação (RBE) foi selecionada por pertencer ao órgão que regulamenta a pós-graduação na área de Educação no Brasil, a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd). Tais vínculos desses periódicos indicam sua representatividade em um contexto de tradição de pesquisa na área. O periódico Práxis Educativa, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), foi selecionado por estar vinculado ao Fórum de Editores de Periódicos da Área da Educação da ANPEd (Fepae). Além disso, o periódico se vincula ao indicador de ética, uma vez que contribui com discussões acerca de integridade na pesquisa. Ademais, tais periódicos estão indexados na Educ@, indexador on-line de periódicos da área de Educação mantido pela Fundação Carlos Chagas, com rigorosos critérios de indexação. Selecionamos o American Journal of Education (AJE) - Chicago com a intenção de incluir um periódico internacional, indexado nas bases de dados Scopus e Web of Science, e que pertence a uma editora de tradição em publicações científicas, The Chicago University Press. Dessa forma, consideramos suficiente essa amostra constituída por casos heterogêneos, que atendem aos objetivos de pesquisa e que ilustram a temática das PE, selecionados a partir de critérios de confiabilidade.
Após a definição da amostra, realizamos uma leitura flutuante, ou seja, uma leitura na íntegra de todas as seções dos sites de cada periódico, com a intenção de nos familiarizarmos com o material. Nesse momento, não houve preocupação em categorizar os dados ou emitir qualquer juízo. Em seguida, elaboramos categorias para agrupar os principais tópicos abordados nos sites dos periódicos a partir de padrões manifestados entre os pesquisadores ao longo de discussões posteriores à leitura flutuante. Nessa perspectiva, as categorias foram construídas a posteriori. Como síntese do trabalho, elaboramos um quadro de dupla entrada em que apresentamos as categorias cruzadas com os periódicos selecionados.
REFERENCIAL TEÓRICO
A área da Educação corresponde à Área 38 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O Relatório Qualis Periódicos da área, ferramenta que fundamenta a avaliação da produção científica de programas de pós-graduação, referente ao último quadriênio (2017-2020), disponível na Plataforma Sucupira, apresentou cerca de 80 periódicos classificados no estrato A1, número que equivale a 7,1% do total dos periódicos da área-mãe (Brasil, 2021). Não foram encontradas informações sobre PE nos critérios de avaliação dos periódicos, tendo sido o índice h do Google Scholar o principal critério para a classificação dos periódicos (Brasil, 2021).
Atualmente, o mercado editorial brasileiro e as atividades de pesquisa no Brasil têm passado por significativas modificações que interferem diretamente na atividade de editoração, como o aumento do número de periódicos geridos por equipes editoriais compostas por docentes e discentes de graduação e pós-graduação; a discussão de profissionalização do editor de periódicos científicos (Santos Cruz, 2020); além da recente mudança anunciada pela Capes em relação ao Qualis Periódicos, que não será mais utilizado no próximo quadriênio (2025-2028) para avaliar a produção científica de programas de pós-graduação (Schmidt, 2024). Internacionalmente, os temas voltados à Inteligência Artificial (IA) em diálogo com o campo acadêmico (Schäfer, 2023) e à Ciência Aberta (Almaqrami et al., 2020; Bojo-Canales; Melero, 2023) também impactam o cenário editorial e complexificam as atividades nele desenvolvidas, demandando o aprimoramento dos agentes que as colocam em prática.
Segundo Santos Cruz (2020), com relação à editoração, a equipe editorial de periódicos científicos deve ser qualificada de modo a apresentar habilidades e competências profissionais, a partir da formação técnica em gestão de processos, que permitam que todas as dimensões de sua política editorial sejam colocadas em prática. Nessa perspectiva, as PE são representadas por um conjunto de informações que estruturam um periódico científico e abarcam suas divisões e responsabilidades, estando diretamente associadas ao papel de editoras e editores em todas as etapas do processo editorial. De acordo com Gruzynski, Golin e Castedo (2008):
A definição da política editorial pressupõe a escolha do título e subtítulo do periódico, a área de conhecimento abrangida e o projeto editorial da publicação - no qual são descritos a sua missão, periodicidade, avaliação por pares, critérios de arbitragem, exigência de originalidade dos artigos, seções, idiomas, perfil de autores e leitores, requisitos normativos e dados sobre a circulação da publicação (Gruszynski; Golin; Castedo, 2008, p. 10).
Em suma, as PE refletem não apenas o perfil de um periódico, mas também suas diretrizes de gestão. Sua importância é caracterizada pela capacidade de atribuir identidade aos periódicos e de guiar as tomadas de decisão por parte da equipe editorial (Silveira; Silva; Dall’agnoll, 2023). Além disso, acrescenta-se o fato de que as PE desempenham um papel estratégico na qualificação e visibilidade dos periódicos científicos (Angelo et al., 2021), uma vez que precisam atender aos rigorosos critérios das bases de dados para serem indexadas (Santos Cruz et al., 2024).
Ao passo em que se salienta a relevância das PE para a existência dos periódicos, nota-se que a literatura concentra trabalhos que trazem a temática das PE, quase sempre, de maneira secundária, sendo associada a assuntos pilares de outras naturezas. No cenário encontrado a partir de levantamento bibliográfico sobre o tema em buscadores acadêmicos (Google Scholar, SciELO), as PE são meramente citadas ou apenas descritas na contextualização de estudos que abordam outros objetos do universo editorial, como a ética em periódicos (Magalhães et al., 2014; Tavares-Neto; Azevedo, 2009; Vilela; Londero, 2022), a propagação do regime de proteção de acesso e do licenciamento de conhecimento veiculado em periódicos (Feres et al., 2021) ou, ainda, a estrutura editorial de periódicos científicos (Trzesniak, 2009) e o produtivismo acadêmico (Kuhlmann Jr., 2015).
Consoantemente, poucas são as publicações encontradas tratando as PE como temática central. Por isso, vale destacar as de Silveira, Silva e Dall’agnoll (2023) e Dias (2024), que aborda a relação entre as PE e a incorporação e compartilhamento de dados científicos em periódicos científicos; e a de Beltrão e Silva (2020), que analisa as PE de periódicos nacionais da educação com o intuito de compará-las à PE do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi.
No cenário internacional, e dedicando-se a discutir como as PE preservam ou não a integridade de pesquisa, Stojanovski e Marusic (2017) analisam os periódicos predatórios da Croácia, contexto no qual se inserem. Apontam, antes, para o cenário mundial das publicações científicas, ao afirmarem que
[…] 70% research results are irreproducible, mostly due to selective reporting, pressure to publish, low statistical power and poor analysis, insufficient replication by the original research group, inadequate oversight/mentoring, poor experimental design, poorly described methods, unavailability of codes or raw data, as well as fraud and poor peer review (Stojanovski; Marusic, 2017, p. 292).
Nesse contexto, a discussão sobre PE pode contribuir com questões éticas vinculadas aos periódicos. A partir disso, os autores sinalizam sete elementos que são subvertidos por periódicos predatórios, sendo eles: corpo editorial; contato; taxas; nome e escopo do periódico; indexação e métrica; revisão por pares; e e-mails de spam. Para Stojanovski e Marusic (2017), esses itens comporiam, por conseguinte, as PE de um periódico sério e íntegro, ainda que os autores não se valham de mais definições para o conceito.
O debate sobre as PE também mostra pertinência para a formação de editores de periódicos. Gomes (2010) afirma que ainda há, contemporaneamente, ausência de formação específica para o profissional de editoração científica. Segundo o autor, “[...] não há uma formação específica profissional para o editor de revistas científicas, função normalmente ocupada por pesquisadores da área sem a necessária formação técnica para promover ou coordenar processos editoriais como um todo” (Gomes, 2010, p. 157). Dentro dessa formação técnica, que, para o autor, se faz em nível superior e com pós-graduação, incluir-se-ia também “[...] uma sólida formação cultural, que inclui o domínio de pelo menos um idioma a mais que o nativo, conhecimentos prévios sobre o mercado editorial em questão, capacitação para lidar com ferramentas específicas de gerenciamento de publicações” (Gomes, 2010, p. 159).
A partir disso, nos é clara a importância da profissionalização da carreira de editor científico, especialmente por ser este o responsável pela elaboração, muitas vezes, das PE adotadas por determinado periódico. Assim, o alinhamento de habilidades técnicas, conhecimento acadêmico e compreensão do funcionamento de publicações é central para a formação de editores de periódicos, haja vista que se espera que o editor parta de uma formação sólida, no contexto da academia, que o permita perceber nuances das áreas de pesquisa abordadas nos periódicos.
Partimos também do pressuposto de que a indexação de periódicos é determinante no que tange à visibilidade e à credibilidade das publicações acadêmicas (Santos Cruz et al., 2024). Uma vez indexados, os periódicos gozam de um olhar que compreende esse fator um indicador de qualidade, posto que os critérios para inclusão em tais bases frequentemente envolvem apreciação atenta de aspectos técnicos, como periodicidade, composição editorial e padrões éticos. Isso dito, a busca por indexadores é uma estratégia alinhada às PE que priorizam a excelência científica. Outro aspecto relevante das PE relacionadas à indexação é a expectativa de atração de submissões de maior qualidade, retroalimentando a reputação do periódico.
As PE, portanto, podem e devem ser utilizadas como fonte de dados para responder às mais diversas perguntas de pesquisa envolvendo periódicos científicos. Porém, também devem ser tratadas como o principal objeto de estudo, visando o desenvolvimento e a manutenção das suas particularidades, dado seu potencial de contribuir com a definição de padrões de qualidade de periódicos científicos.
RESULTADOS
Estruturamos a descrição dos resultados de acordo com as principais categorias estabelecidas no quadro categorial da pesquisa (Quadro 1). Organizamos as informações disponíveis nos sites dos periódicos em três categorias: sobre o periódico, fluxo editorial e questões éticas. Para cada uma dessas categorias, indicamos os tópicos que recortamos do corpus de dados e indicamos em quais periódicos eles estavam presentes.
Quadro de dupla entrada cruzando as informações das categorias “Sobre o periódico”, “Fluxo editorial” e “Questões éticas” (linhas) com as revistas investigadas (colunas).
Sobre o periódico
Todos os periódicos analisados apresentam uma seção intitulada “Sobre o periódico”. No entanto, o teor das informações varia entre eles.
O American Journal of Education dispõe em seu site a seção “About the Journal”, na qual apresenta a frequência de publicação, o fator de impacto, seu score de citação, objetivo, foco e escopo. Em seções exclusivas, aborda as temáticas de política de Acesso Aberto (apresentando as opções de green e gold open access), prevenção contra fraudes e mínimas exigências para publicação (American Journal of Education, 2023a).
O site da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP) apresenta brevemente seu histórico, descreve suas seções, expõe seus indexadores e indica a proposta de publicar artigos inéditos ou publicados previamente como preprints. É possível verificar informações sobre seu fluxo de publicação contínua, formato eletrônico e Acesso Aberto. O foco/escopo fica evidente na descrição das seções, mas não existe uma seção no site dedicada apenas a essa informação. Em contrapartida, a RBEP disponibiliza um Plano de desenvolvimento editorial, que “[...] define ações, recursos necessários e resultados almejados para os próximos 3 a 5 anos [...]” do periódico (Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 2023). Nesse documento, é possível verificar dados e informações estratégicas sobre suas premissas gerais, indexação e impacto, internacionalização, indicadores quantitativos, fontes de indexação, bibliotecas e bases.
A Revista Brasileira de Educação (RBE), publicada pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), em uma seção de apresentação, expõe áreas de interesse, seu fluxo de publicação e a informação de coedição por editora científica. Informações sobre fontes de indexação e patrocínio recebem seções exclusivas. A RBE fornece em seu site o documento Regulamento da Revista Brasileira de Educação, que aborda sua organização e seu funcionamento (Revista Brasileira de Educação, 2023).
Por sua vez, a Revista Práxis Educativa indica seu objetivo de “[...] publicar trabalhos que contribuam para o seu campo específico de investigação e que possam servir de referência para outros trabalhos de pesquisa [...]” e os requisitos mínimos para publicação de textos, como as diretrizes de submissão e questões éticas. Outras informações sobre o periódico não são apresentadas em seu site (Revista Práxis Educativa, 2023).
Em uma única seção, intitulada “Sobre o periódico”, o periódico Cadernos de Pesquisa dispõe em seu site informações condensadas referentes ao seu objetivo enquanto periódico, foco, escopo e requisitos para publicação. Além disso, ainda apresenta e descreve suas seções e expõe, de forma geral, seus critérios para avaliação dos manuscritos recebidos. Na mesma seção, o periódico revela sua modalidade de publicação contínua e on-line, seus idiomas de publicação e Acesso Aberto. Há seções específicas para a apresentação das fontes de indexação, bem como das informações referentes à ficha catalográfica (Cadernos de Pesquisa, 2023b). Não são fornecidas informações sobre fator de impacto, score de citação, indicadores bibliométricos, qualitativos ou quantitativos. Há, por fim, o tópico “Indicadores bibliométricos”, que, unanimemente, não figura entre as características apresentadas sobre os periódicos analisados.
Fluxo editorial
Ao considerar a questão do fluxo editorial, observou-se, especificamente, dois elementos paradigmáticos nos periódicos analisados: um que tange à submissão e outro concernente à avaliação. Ao debruçarmo-nos sobre os periódicos que constituem o corpus desta investigação, descrevemos, abaixo, os resultados encontrados.
A American Journal of Education, quanto à submissão, apresenta o detalhamento das condições para a publicação, bem como diretrizes para os autores que pretendem publicar no periódico, recomendações de formatação e explicações referentes ao manejo do manuscrito. Inclui, ainda, uma orientação para a formatação de textos. Sob a ótica da avaliação, o periódico contém uma seção em que trata da avaliação por pares, tal qual possui um espaço para as diretrizes para avaliadores e para editores. Notamos a ausência de documentos com templates pré-formatados, assim como uma aba para esclarecer eventuais dúvidas sobre o processo de avaliação por pares dos dossiês (American Journal of Education, 2023c).
A Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos trata, no eixo da submissão, de apresentar recomendações para a publicação, diretrizes para os autores, template para padronização da submissão e orientações para a formatação do texto a ser encaminhado. O eixo da avaliação, por sua vez, se resume à descrição do processo de avaliação por pares e às diretrizes para os avaliadores. Diretrizes para editores e um escrutínio do processo de avaliação por pares dos dossiês não constam dos dados disponibilizados pelo periódico (Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 2023).
Ao seu modo, a página da Revista Brasileira de Educação (ANPEd) se preocupa em apresentar informações que se reportam não só ao universo da submissão, como as condições para publicação, as diretrizes para os autores, os templates necessários e as orientações para a formatação de textos, mas também ao universo da avaliação, como uma pormenorização do processo de avaliação e as linhas principiológicas para os editores. O processo de avaliação por pares dos dossiês e diretrizes para avaliadores não foram encontrados no site (Revista Brasileira de Educação, 2023).
Em nossa incursão, observamos na Revista Práxis Educativa (UEPG) a exposição de informações que se vinculam à esfera da submissão, como as condições para a publicação no periódico, as diretrizes para os autores e as orientações de formatação, mas também dados que se afiliam à esfera da avaliação, a saber: explicitação do processo de avaliação e do processo de avaliação por pares dos dossiês. Há a ausência de templates a serem preenchidos e, também, de diretrizes para avaliadores e para editores (Revista Práxis Educativa, 2023).
Já o periódico Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas), à sua maneira, explicita, na página virtual, as condições de publicação, as diretrizes para os autores, os templates a serem utilizados, as orientações quanto à formatação do texto, o processo de avaliação dos manuscritos e as diretrizes para os avaliadores. Registramos, por fim, a ausência de quaisquer diretrizes para editores e descrição do processo de avaliação por pares dos dossiês (Cadernos de Pesquisa, 2023b; 2023c).
Questões éticas
Todos os periódicos mencionam os aspectos éticos em suas PE, entretanto, a forma como esse conteúdo está organizado em cada uma pode variar. Alguns periódicos dedicam uma seção exclusiva para explicar as questões éticas, enquanto que, em outros, essas informações estão distribuídas ao longo do site.
O periódico American Journal of Education (Chicago) - AJE, dedica uma seção específica para as declarações de ética. Nesta seção, apresentam-se os princípios éticos que guiam o trabalho do periódico, como uma forma de manter a confiança pública no conhecimento científico: integridade, generatividade, respeito pela dignidade e diversidade humanas, transparência e confiabilidade (American Journal of Education, 2023b). Além disso, o periódico especifica de forma detalhada como esses princípios se manifestam na responsabilidade dos autores, dos avaliadores e dos editores. Na seção de instruções para os autores, os princípios éticos são reafirmados e ressalta-se a importância da revisão duplo-cega (American Journal of Education, 2023c).
Outras seções específicas do AJE também mencionam os aspectos éticos: a seção “Prevenção a fraudes” em que se declaram algumas informações com a finalidade de evitar que os colaboradores sejam vítimas de fraudes de outras instituições que se passam pelo periódico (American Journal of Education, 2023e); a seção de direitos dos autores, em que se descrevem as versões do manuscrito (American Journal of Education, 2023f); e a seção de obtenção de permissão para uso dos artigos, dedicada a indicar em quais situações e de que forma cada versão do manuscrito pode ser utilizada (American Journal of Education, 2023d).
A Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, na seção “Diretrizes”, aponta a licença de uso Creative Commons, e declara que as boas práticas científicas do periódico estão alinhadas com as diretrizes do Committee on Publication Ethics (Cope). Na seção de normas gerais para apresentação dos originais, são descritos os procedimentos necessários para anonimizar as informações da submissão, bem como sua política de quarentena de 24 meses. No item “Diretrizes éticas”, a política editorial do periódico menciona o compromisso com a originalidade, a verificação de plágio e autoplágio por meio do software Similarity Check, os procedimentos de análise de má conduta científica e a política de retratação. Ainda são mencionadas em seções específicas a declaração de direito autoral e a política de privacidade, sendo a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Brasil, 2018) mencionada no Plano de Desenvolvimento Editorial (Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 2023).
A Revista Brasileira de Educação indica a licença de uso Creative Commons, do tipo BY, no item “Propriedade intelectual”. Nas “Condições para submissão”, afirma-se o compromisso com a originalidade dos manuscritos submetidos e a importância do anonimato para o processo de avaliação. Há, ainda, seções específicas para mencionar a “Declaração de direito autoral” e a “Política de privacidade” (Revista Brasileira de Educação, 2023).
A Revista Práxis Educativa também afirma seu compromisso com a publicação de obras originais na seção de “Condições para submissão”. Na seção de “Diretrizes para os autores” menciona-se a importância de não identificar a autoria nos manuscritos durante o processo de avaliação. Há uma seção dedicada apenas para descrever “Questões éticas”. A política editorial do periódico aponta a sustentação dessas diretrizes nos seguintes documentos: resoluções n.º 466 e 510 do Conselho Nacional de Saúde; Ética e integridade na prática científica, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Ética e Pesquisa em Educação: subsídios, e-book da ANPEd; e no manual American Psychological Association (APA). No site, existem especificações concernentes à questão ética quanto aos artigos, à autoria, ao plágio, autoplágio, e aos processos de avaliação. Além disso, existem seções específicas de “Declaração de direito autoral” e “Política de privacidade” (Revista Práxis Educativa, 2023).
O periódico Cadernos de Pesquisa indica em sua “Declaração de privacidade”, o compromisso com a Lei Geral de Proteção de Dados (Cadernos de Pesquisa, 2023b). Na seção de “Submissões”, também se afirma o compromisso com a originalidade e anonimato dos manuscritos (Cadernos de Pesquisa, 2023a). Em relação às permissões de uso, declara-se a adoção da licença Creative Commons BY-NC. A seção “Ética na pesquisa” é dedicada a descrever os procedimentos éticos a serem adotados nas pesquisas envolvendo seres humanos. Ainda vale destacar, aqui, as seções “Conflitos de interesse”, “Declaração de direito autoral” e “Política de privacidade” (Cadernos de Pesquisa, 2023a; 2023bc).
DISCUSSÃO
Compreendemos que a gestão de um periódico científico envolve diversos níveis de tomada de decisão para sua consolidação como um importante instrumento de comunicação científica. Nesse ambiente de tomadas de decisões, as PE compreendem o nível mais fundamental, consistindo em um horizonte que orienta decisões no âmbito das práticas editoriais no fluxo de trabalho, e que, consequentemente, apresentará consequências para o impacto do periódico em termos de métricas, citações, indexação e impacto social (Figura 1). Pensar um conceito de políticas editoriais é, portanto, fundamental para a estruturação de um periódico científico.
Diagrama indicando os níveis de tomada de decisão e práticas editoriais: políticas editoriais, fluxo de trabalho e impacto.
Como ilustrado pelo diagrama (Figura 1), acreditamos que as PE são constituídas pelas tomadas de decisões do corpo editorial de um periódico. Além disso, elas fundamentam a base de sua postura científica e editorial. Essas decisões definem o fluxo de trabalho em seu nível operacional, estabelecendo as atividades a serem desempenhadas pela equipe de acordo com suas funções individuais dentro do corpo editorial. E, certamente, a execução do fluxo editorial resulta no impacto do periódico, ou seja, na quantificação de seus indicadores, métricas, indexações e citações.
No tocante à primeira categoria, ao observarmos as seções “Sobre o periódico”, buscamos identificar o padrão de dados fornecidos em cada uma delas. Enquanto informações como foco, escopo, periodicidade, forma e requisitos para publicação ficam evidentes em todos os periódicos da amostra, elementos da ficha catalográfica, indicadores qualitativos, informações de fomento e fator de impacto são as informações que menos aparecem.
Tradicionalmente, informações como o objetivo do periódico, seu histórico, idiomas de publicação e suas fontes de indexação são expostas nos sites. Consonantemente, o quadro da pesquisa (Quadro 1) mostra que cada uma dessas categorias consta em três periódicos - a maioria da amostra. Em contrapartida, informações sobre o score de citação e a especificação de cada uma das seções publicadas pelo periódico, que também deveriam ser informações consensuais, são apontadas em apenas dois dos cinco periódicos do quadro.
Isso pode fazer com que os leitores questionem sobre a relevância da divulgação das informações menos frequentes apontadas pelos periódicos. No entanto, acreditamos que todos os tópicos presentes no quadro são de essencial apresentação, configurando como incompletas as PE que não os forneçam. Nesse sentido, cabe ressaltar que nenhum dos periódicos da amostra intencional apresentava, no momento da análise, dados sobre seus indicadores bibliométricos. Tal ausência é, de certa forma, curiosa, uma vez que esses indicadores são comumente associados à relevância e à credibilidade de um periódico. Entendemos que apesar de tal associação ser comum, a qualidade de um periódico não deve ser avaliada apenas a partir dessas métricas. À parte da discussão sobre este fato ser considerado justo, os indicadores bibliométricos servem como importantes parâmetros e critérios de indexação e de impacto do periódico, tornando-se, assim, imprescindíveis informações constituintes de sua PE.
Ao nos atentarmos à categoria do fluxo editorial, vislumbramos que ficam patentes dois movimentos distintos: o de solidificação e o de volatilidade dos aspectos presentes no corpus. Isto é, no que concerne à submissão, são comuns a todos os periódicos analisados a presença da pormenorização das condições para publicação, bem como das diretrizes para os autores e, também, das orientações para formatação de textos. Logo, evidenciam-se estes como elementos bem sedimentados da compreensão de política editorial científica.
A volatilidade, por sua vez, percebe-se pela noção de disponibilização de templates nas páginas dos periódicos, que está ausente em dois dos cinco materiais analisados. Isso revela uma diversidade de compreensão desses dados como sendo intrínsecos à PE de um periódico científico, em que, por vezes, para submeter um artigo, não se exigiria a padronização dentro de um modelo específico no ato do envio. Outras, todavia, prezam por esse procedimento, disponibilizando, assim, o template.
Os movimentos a que nos reportamos também se manifestam na esfera da avaliação, subtópico do fluxo editorial. Nessa dimensão, somente a descrição do processo de avaliação é que se firma como componente inerente à política editorial. Os demais aspectos por nós analisados, como o processo de avaliação por pares dos dossiês, as diretrizes para avaliadores e as diretrizes para editores, não constam em todas as páginas dos periódicos. Tal fato nos permite dizer que o nível avaliativo do fluxo editorial, à luz do corpus, é mais volátil e diverso, evidenciando, então, uma parte do campo das PE que se encontra em disputa.
Ademais, a leitura dos dados apresentados nos possibilita apontar para a necessidade de maior discussão, no campo dos periódicos científicos, sobre as dinâmicas de avaliação e do papel desses na veiculação de normas claras sobre o tópico em questão. Isso posto, seria possível esperar que cotidianas dúvidas sobre como se dão os processos avaliativos de dossiês e quais as diretrizes seguidas por editores e avaliadores de um determinado trabalho fossem dirimidas.
Em relação à categoria das questões éticas, consideramos que um periódico deve manifestar seu compromisso com a confiança pública no conhecimento científico para além de uma declaração, materializando essa responsabilidade no nível de detalhamento, especificidade e transparência em sua política editorial. Tal materialização consiste na disponibilização do documento de referências das práticas editoriais do periódico, que deve ser suficiente para garantir uma ação assertiva da equipe editorial, autores e avaliadores.
Ressaltamos que a ética na pesquisa implementada em um periódico não deve ser uma responsabilidade exclusiva dos editores, mas, sim, uma responsabilidade compartilhada entre editores, autores e avaliadores. Cada um desses agentes deve ter clareza de quais são as boas práticas de referência para sua conduta, as quais devem ser dispostas de fácil acesso na política editorial.
Existe diversidade nos documentos norteadores das boas práticas científicas dos periódicos - resoluções do Conselho Nacional de Saúde, documentos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, 2024), documentos do CNPq, diretrizes do Cope e verbetes da ANPEd, por exemplo - e todos indicaram algum documento de referência. Tendo em vista a existência de consonâncias que excedem tais documentos na comunidade científica tanto a nível nacional como internacional, e a possibilidade de identificação de convergências entre tais consensos, o quesito mais importante na organização da política editorial não consiste na presença de um documento de referência específico, mas a indicação de algum deles.
Verificamos que as questões éticas são transversais nas PE. Os periódicos organizam as informações acerca da ética em seções específicas, mas também podemos observar intersecções com essas questões em outras seções das políticas, como em “Condições para a submissão”, ou, ainda, relacionadas ao processo de avaliação.
Pensando na experiência da pessoa que busca informações nos sites dos periódicos, nos questionamos se há uma forma ideal de apresentá-las. Acreditamos que reunir todas as informações acerca dos aspectos éticos em uma única seção específica pode facilitar a navegação no site e a localização das respostas que os usuários buscam, sejam eles autores, avaliadores ou editores. Entretanto, tendo em vista a transversalidade da ética na editoração, alguma redundância pode ser esperada na organização da redação e estrutura do documento de PE.
A partir dos resultados e interpretações proporcionados através da investigação das informações disponibilizadas nos sites dos periódicos, propomos, a seguir, um conceito triádico de políticas editoriais. Peirce (2017), ao se debruçar sobre uma investigação fenomenológica das essências da experiência, organizou-a em três categorias fundamentais (Santaella, 1995). A primeiridade descreve a dimensão imediata da experiência, relacionada à potencialidade, ao choque, à surpresa e ao frescor. A secundidade, indica a dimensão de reação e confronto. A terceiridade está relacionada à síntese, mediação e regulação. Tais categorias não se organizam de forma cronológica, estando intimamente associadas no tempo. A partir desses elementos, buscamos problematizar três categorias fundamentais que sustentam o conceito de PE.
O conceito de política editorial apresentado por Gruszynski, Golin e Castedo (2008) abrange, majoritariamente, um caráter normativo das particularidades de um periódico e de sua estruturação para o recebimento de manuscritos e consumo por parte dos leitores. No entanto, acreditamos que, para além da normatização, as PE devem também compreender outras linhas de caráter i) técnico e ii) político, propriamente dito (Figura 2): i) o técnico deve apresentar todo o panorama geral quanto às informações sobre o periódico e seu fluxo editorial, permitindo que autores e leitores estejam a par de todas as etapas desde a submissão à publicação, atribuindo-lhes autonomia para submeter manuscritos respeitando as seções previstas pelo periódico, as particularidades da plataforma de submissão e os documentos necessários para a pré-avaliação e avaliação por pares; ii) o político, por sua vez, deve explicitar a postura da equipe editorial e, consequentemente, do periódico, frente a questões éticas, como as boas práticas envolvidas ao processo editorial, protocolos relacionados à má conduta, ética em pesquisa, direitos autorais, princípios para autores, informações sobre APCs, política de quarentena, política de retratação, integridade, além da prevenção de plágio e autoplágio.
Diagrama do conceito triádico de política editorial, indicando as dimensões normativa, técnica e política.
Na perspectiva peirceana, a dimensão técnica está relacionada à primeiridade, à medida que consiste na qualidade do periódico, naquilo que lhe identifica. A dimensão política relaciona-se à secundidade, uma vez que indica posicionamento e reação frente às questões editoriais que aparecem e demandam discussão. Por fim, a terceiridade está relacionada à dimensão normativa, tendo em vista seu caráter regulador. Assim, propomos que, de forma triádica e integrada, tais categorias compõem o conceito de PE.
Elaboramos esse conceito no seguinte enunciado: “as informações de dimensões normativas, técnicas e políticas sobre um periódico científico devem refletir suas escolhas e posicionamentos aplicados à execução do processo de seu fluxo editorial, sendo organizadas de forma coerente”. A partir disso, chamamos atenção para a união da dimensão normativa, presente no conceito de Gruszynski, Golin e Castedo (2008) às dimensões técnica e política citadas na definição do atual artigo. Juntas, tais dimensões compreendem suficientes modalidades de informações para apresentar um periódico ao público em um site, por exemplo, a mais comum ferramenta de apresentação dos periódicos na atualidade.
A conexão entre as dimensões normativa, técnica e política no conceito de PE reflete a estrutura triádica proposta. A dimensão normativa estabelece os protocolos que orientam o fluxo editorial, definindo como o periódico opera. A dimensão técnica descreve a operacionalização do periódico, ou seja, o que ele faz. Já a dimensão política manifesta por que o periódico adota determinadas práticas, evidenciando seu posicionamento diante das tendências editoriais. Desse modo, tais dimensões atuam de forma integrada, garantindo coerência entre diretrizes, processos e intencionalidades editoriais. Nessas linhas, para cada tópico relacionado às práticas editoriais - por exemplo: avaliação por pares, formatos de publicação e cobrança de taxas -, o periódico deve: i) posicionar-se politicamente acerca do tema (dimensão política), ii) aderir a uma norma existente ou regulamentar a prática (dimensão normativa) e iii) operacionalizar a execução dessa prática no fluxo editorial do periódico (dimensão técnica) de forma coerente com o posicionamento político e com a norma adotada.
A aplicabilidade e validação desse conceito triádico de PE podem ser exemplificados acerca da questão de acesso dos manuscritos, por um periódico hipotético que siga as normas do Director of Open Access Journals (DOAJ) ou outras diretrizes específicas para a publicação de periódicos (dimensão normativa), que operacionalize seu fluxo editorial por meio de softwares como o Open Journal Systems (OJS) (dimensão técnica), e que adote a política de Acesso Aberto como forma de ampliar e disseminar seu conteúdo (dimensão política). Ao reunir suas informações, o periódico do exemplo acima apresentará uma política editorial que contemplará, respectivamente, as dimensões normativa, técnica e política acerca da publicação em Acesso Aberto.
A partir dessa definição, um mesmo assunto editorial atravessa todas as dimensões das PE. Por exemplo, o formato de avaliação por pares ser aberto ou anônimo tem sido um tema de debate na comunidade de editores (Hamilton et al., 2020; Nassi-Caló, 2021). Na dimensão política, a equipe editorial deverá deliberar qual será o formato adotado e quais são os fundamentos científicos, éticos e editoriais para sustentar tal decisão. Na dimensão técnica, a equipe editorial deverá planejar como o fluxo editorial vai acomodar a avaliação por pares aberta, por exemplo. Por último, na dimensão normativa, a equipe editorial indicará instruções para autores e protocolos de como as avaliações serão publicadas, por exemplo.
Relacionando a definição proposta com os níveis de tomada de decisão nas práticas editoriais, podemos apontar como as PE são indispensáveis balizadoras para a inclusão de periódicos em fontes de indexação (Santos Cruz et al., 2024). Bufrem, Gabriel Júnior e Gonçalves (2010) apontam como a indexação de um periódico em bases científicas contribui para seu crescimento e consolidação como veículo de comunicação científica. As principais bases indexadoras realizam análise dos sites dos periódicos para avaliar não apenas suas publicações, mas também informações de natureza normativa, técnica e política. Nesse sentido, é inevitável afirmar que as PE, além de definirem os periódicos, também se constituem como fator crucial para o seu processo de crescimento, atuando como uma ferramenta que permite a autorregulação da produção científica.
Quanto ao seu papel em caracterizar um periódico, as PE se estabelecem como parâmetros que, quando associados a critérios rigorosos, podem diferenciar periódicos científicos éticos e íntegros dos crescentes e perigosos periódicos com práticas predatórias (Stojanovski; Marusic, 2017). A partir disso, cabe dizer que a clareza na exposição das PE colabora para a chancela da opinião pública quanto à reputação do periódico, garantindo a autores, leitores, editores e demais agentes do campo científico um acompanhamento recíproco e dialógico. Vale ressaltar, ainda, que a interpretação das informações para a identificação de práticas predatórias exige maturidade do pesquisador acerca do assunto, tendo em vista que “práticas predatórias” consiste em outro conceito que carece de uma definição consensual na área.
A partir do contexto discutido, notáveis periódicos que apresentam planos de ações frente às PE se destacam. A Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, por exemplo, conforme mencionado na seção de resultados, apresenta em seu site um documento chamado Plano de Desenvolvimento Editorial. Seria recomendável que todos os periódicos passassem a disponibilizar um documento que expõe os objetivos a serem atingidos, a médio e longo prazo, a fim de contemplar mudanças em suas PE - mudanças elaboradas a partir das três dimensões aqui discutidas.
Logo, como observamos por meio das reflexões de Gomes (2010), nos é evidente a necessidade de profissionalização da carreira do editor de periódicos e do olhar do pesquisador para assegurar a qualidade e a credibilidade dos periódicos. Para obter êxito na sistematização operacional do processo editorial, mostra-se fundamentalmente urgente tanto a formação do editor quanto seu aprimoramento técnico (Santos Cruz, 2020).
Dentre os desafios que podemos mencionar, estão a detecção de plágio, o tratamento de conflitos de interesse e a relevância e rigor científicos dos artigos a serem publicados. São esses profissionais, também, que poderão versar sobre temas da contemporaneidade que impactam todo o universo da comunicação científica, como a IA (Schäfer, 2023) e a Ciência Aberta (Almaqrami et al., 2020; Bojo-Canales; Melero, 2023), globalmente, e a mudança do Qualis Periódicos (Schmidt, 2024), localmente. Mostra-se premente, então, o compromisso com a ética e integridade acadêmica, visto queé sob essas bases que se consegue construir a excelência de um periódico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo, que teve como objetivo analisar a relação das informações disponibilizadas nos sites de periódicos da área de Educação com as suas PE, identificamos que existe variação entre sites de cada periódico. Em relação às informações sobre o periódico, dados sobre foco, escopo e periodicidade estão presentes nos sites de todos os materiais consultados, enquanto dados acerca de indicadores qualitativos, fator de impacto e sustentabilidade financeira estão presentes apenas em parte deles. As informações relacionadas à submissão e à avaliação dos manuscritos variam em grau de especificidade: apenas parte dos sites indicam templates para os autores e diretrizes de avaliação para avaliadores. No que diz respeito às questões éticas, todos os periódicos indicam um documento de referência para boas práticas editoriais e fornecem informações adicionais, ainda que a forma como estejam organizadas em cada site varie entre os materiais. Dessa forma, identificamos que os principais temas acerca desses documentos em relevantes periódicos da área de Educação são: informações sobre o periódico, fluxo editorial e questões éticas.
Cumprimos, ainda, com o objetivo de problematizar um conceito de “políticas editoriais”. Sugerimos que as PE de um periódico sejam elaboradas a partir de dimensões normativa, técnica e política. Trata-se de um conceito triádico que busca fornecer coerência para as PE, na medida em que os temas relacionados à prática editorial atravessam essas dimensões de forma transversal. Como instruções específicas para a elaboração de PE e disponibilização de informações nos sites dos periódicos, apontamos: i) buscar contemplar todos tópicos relevantes mencionados nas subcategorias do Quadro 1; ii) apresentar explicitamente foco e escopo do periódico; iii) disponibilizar os templates dos manuscritos; iv) apresentar as diretrizes de avaliação de forma específica; v) reunir uma seção específica para tratar de questões éticas; vi) revisar as PE periodicamente para alinhar com tendências editoriais; e vii) manter os sites dos periódicos atualizados para consulta pública.
Em relação às limitações da pesquisa, podemos apontar a amostra intencional, que à medida em que permitiu um aprofundamento investigativo e descritivo do material ao definir um recorte, limitou-se à análise de cinco periódicos. Portanto, as discussões e propostas tecidas neste texto fundamentam-se apenas no corpus investigado. Para que possam ser realizadas generalizações, seria importante que estudos posteriores investigassem a validação do conceito proposto em outros periódicos da área. É possível, ainda, refletir acerca da importância de considerar a viabilidade do conceito proposto para outras áreas do conhecimento dentro das Ciências Humanas, considerando suas especificidades.
Visando a ampliação da amostra, sugerimos, também, que novos estudos interessados no cenário editorial brasileiro busquem contemplar a diversidade regional na definição da amostra, buscando representatividade geográfica dos periódicos. Também apontamos como uma limitação da nossa pesquisa a construção das categorias, que podem apresentar certa flexibilidade. Em uma nova amostragem e coleta de dados, seria possível reorganizá-las para que ficassem mais específicas, tendo em vista o que é esperado de ser encontrado nas PE, ou com a intenção de apontar padrões distintos a partir do mesmo corpus de dados.
Ao realizar esta investigação, tangenciamos temas relevantes para a prática editorial relacionados às PE que merecem estudos pormenorizados. Nessa perspectiva, sugerimos perguntas para estudos que contribuam com as discussões contemporâneas da literatura ao se dedicar à investigação dos seguintes questionamentos: como as PE podem contribuir no combate às práticas predatórias e à prevenção de fraudes? Como despertar interesse de estudantes de pós-graduação para a formação em editoração científica? De que forma políticas públicas podem dar suporte à atividade de editoração científica na perspectiva da Ciência Aberta? Como as PE, alinhadas às instituições de pesquisa e fomento, podem superar obstáculos impostos pelo produtivismo acadêmico? Como a transparência do periódico em relação aos critérios de avaliação dos manuscritos pode contribuir para a melhoria da qualidade dos textos recebidos e da avaliação realizada pelos avaliadores?
A partir da nossa investigação, esperamos contribuir com a área de pesquisa em gestão de periódicos, ainda dispersa e pouco consolidada no Brasil, ao problematizar um conceito de PE. Além disso, esperamos contribuir com as práticas editoriais no que diz respeito à elaboração das PE.
AGRADECIMENTOS
O presente artigo relata uma investigação cuja provocação inicial se deu no contexto de discussões realizadas na Editora Ibero-Americana. Assim, agradecemos nominalmente ao Prof. Dr. José Anderson Santos Cruz pelas contribuições realizadas no momento da concepção da pesquisa.
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Editado por
Histórico
-
Recebido
29 Ago 2024 -
Preprint postado em
02 Ago 2024
10.1590/SciELOPreprints.9401 -
Aceito
26 Fev 2025




Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
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