Open-access MANUAIS DE DIDÁTICA COMO FONTE E OBJETO DE ESTUDO: UMA REVISÃO DE LITERATURA1

MANUALES DE DIDÁCTICA COMO FUENTE Y OBJETO DE ESTUDIO: UNA REVISIÓN DE LITERATURA

RESUMO:

Este artigo tem como objetivo apresentar um balanço de pesquisas que tomam os manuais de Didática como fonte e/ou objeto de estudo. Para tanto, buscou-se empreender uma revisão de literatura nas seguintes bases de dados: SciELO, catálogo de teses e dissertações da Capes, Google Acadêmico e anais do Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino. Trata-se da etapa inicial de uma pesquisa mais ampla, que teve como objeto de investigação a constituição histórica da identidade da Didática. Isso foi possível por meio da análise de livros destinados à formação de aspirantes ao magistério e professores em exercício, com foco em manuais de Didática produzidos no Brasil, em Portugal e na Espanha, entre 1930 e 1970. Na primeira parte, são apresentados os procedimentos metodológicos e os resultados quantitativos do levantamento bibliográfico sobre manuais de Didática como objeto e/ou fonte de estudo. Na segunda parte, realiza-se uma síntese descritivo-analítica dos 16 trabalhos encontrados, destacando-se compreensões sobre os manuais, objetivos dos estudos, recorte temporal e os principais resultados. Por fim, são indicadas contribuições destas pesquisas e lacunas que podem ser objeto de investigação em estudos futuros.

Palavras-chave:
Manuais de didática; história da didática; formação de professores; revisão de literatura

ABSTRACT:

This article aims to present an overview of studies that examine didactic handbooks as both sources and/or objects of study. Therefore, a literature review was conducted using the following databases: SciELO, the Capes theses and dissertations catalog, Google Scholar, and the proceedings of the Brazilian National Meeting on Didactics and Teaching Practices (ENDIPE). This article represents the initial stage of a broader research project that investigates the historical constitution of the identity of didactics. This was possible through the analysis of books intended for the education of pre-service and in-service teachers, focusing on Didactics handbooks produced in Brazil, Portugal, and Spain, between 1930 and 1970. The first part of this article presents the methodological procedures and quantitative results of the bibliographic survey of Didactics handbooks as both sources and/or objects of study. The second part provides a descriptive and analytical synthesis of the 16 studies found, highlighting their understandings of these handbooks, the objectives of the studies, the time frame, and their main findings. Finally, the article discusses their contributions and identifies research gaps that may be addressed in future investigations.

Keywords:
Didactics handbooks; history of didactics; teacher education; literature review

RESUMEN:

Este artículo tiene como objetivo presentar un balance de investigaciones que toman los manuales de Didáctica como fuente y/u objeto de estudio. Para ello, se buscó emprender una revisión de literatura en las siguientes bases de datos: SciELO, Catálogo de tesis y disertaciones de CAPES, Google Académico y anales del Encuentro Nacional de Didáctica y Prácticas de Enseñanza. Se trata de la etapa inicial de una investigación más amplia que tuvo como objeto de investigación la constitución histórica de la identidad de la Didáctica por medio del análisis de libros destinados a la formación de aspirantes al magisterio y profesores en ejercicio, con enfoque en manuales de Didáctica producidos en Brasil, Portugal y España entre 1930 y 1970. En la primera parte, son presentados los procedimientos metodológicos y los resultados cuantitativos del levantamiento bibliográfico sobre manuales de Didáctica como objeto y/o fuente de estudio. En la segunda parte, se realizó una síntesis descriptivo-analítica de los dieciséis trabajos encontrados, destacándose las comprensiones sobre los manuales, objetivos de los estudios, recorte temporal y los principales resultados. Por fin, son indicadas contribuciones de estas investigaciones y huecos que pueden ser objeto de investigación en estudios futuros.

Palabras clave:
Manuales de didáctica; historia de la didáctica; formación de profesores; revisión de literatura

INTRODUÇÃO

Os manuais de Didática fazem parte de uma categoria mais abrangente de livros voltados para a formação pedagógica de professores, frequentemente referenciados na historiografia da educação como “manuais pedagógicos”. Concorda-se com Catani e Silva (2010) de que o conhecimento sobre as especificidades desses livros permite “ampliar o que se sabe sobre a formação e o exercício do magistério, sobre a profissão e as ciências da educação, uma vez que eles traduzem o que se considera, em cada momento, “‘o que há de melhor’ a ser feito pelos professores” (apud Oliveira; Duarte; Vieira, 2010, p. 4).

Os estudos sobre manuais escolares, entre eles os destinados à formação de professores, constituem um campo já consolidado na história da educação, no Brasil e no exterior. No âmbito dessa produção, destaca-se a chamada “manualística”, termo cunhado por Agustín Escolano Benito (2012) para designar o campo de estudos que compreende os livros escolares como uma classe específica de textos, dotada de estatuto pedagógico e cultural próprio. Nas últimas décadas, observou-se o crescimento de investigações que tomaram os manuais como fonte e objeto de análise. No caso dos livros destinados à formação de professores, percebe-se o foco de análise na recepção e circulação de ideias pedagógicas, na articulação com a história da profissão docente, e, ainda, na mobilização dos manuais como fonte de análise de disciplinas específicas do currículo das escolas normais, dos institutos de educação e cursos de preparação para o magistério.

O significativo crescimento de estudos sobre manuais de formação de professores, por sua vez, tem levado à constante necessidade de balanços da produção, de modo a sintetizar o conhecimento acumulado, apontando o que já se sabe sobre um determinado tema e o que ainda é preciso aprofundar. É inspirado nesse tipo de investigação que se situa o objetivo deste estudo: realizar uma revisão de literatura sobre pesquisas acadêmicas que tomam os manuais de Didática como fonte e/ou objeto de estudo, apresentando uma síntese descritivo-analítica dos trabalhos localizados.

No contexto dos estudos sobre manuais de formação de professores, estariam também os livros de Didática recebendo atenção de estudiosos da educação? O que as pesquisas têm enfatizado sobre os manuais de Didática na formação de professores? Quais os títulos dos livros mobilizados? Que recortes temporais estão sendo privilegiados nas pesquisas? O que ainda precisamos compreender mais? Essas são questões norteadoras deste trabalho.

O artigo foi organizado em duas partes. Na primeira, são apresentados os procedimentos metodológicos e os resultados quantitativos do levantamento bibliográfico. Na segunda, realiza-se uma síntese descritivo-analítica dos trabalhos encontrados, destacando-se compreensões sobre os manuais, objetivos dos estudos, recorte temporal e os principais resultados. Por fim, são indicadas as principais contribuições destas pesquisas e as lacunas que podem ser objeto de investigação em estudos futuros.

Nesta pesquisa se aprofundaram estudos sobre a construção da Didática como disciplina e campo epistemológico no Brasil, advogando-se em favor da preservação da história e da memória da profissão docente.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E DADOS EVIDENCIADOS

A revisão de literatura que subsidiou metodologicamente este estudo foi realizada na fase inicial de uma pesquisa mais ampla que teve como objeto de investigação a constituição histórica da identidade da Didática por meio da análise de manuais produzidos no Brasil, em Portugal e na Espanha, entre 1930 e 19702. O levantamento de produções é uma etapa fundamental nas pesquisas, afinal, “somente a partir de uma revisão de literatura poderemos compreender melhor o que já foi escrito sobre nossa ideia geral inicial, e, então, definir a perspectiva pela qual pretendemos estudar determinado fenômeno” (Mattar; Ramos, 2021, p. 40).

O primeiro critério de inclusão dos trabalhos no levantamento foi tratar de manuais de formação de professores no contexto brasileiro. O segundo critério diz respeito a trabalhos que apresentassem os descritores de busca no título e/ou no resumo. Sobre a escolha dos descritores, importa registrar que, inicialmente, optou-se por empreender o balanço de trabalhos considerando tanto os manuais de pedagogia/pedagógicos, de modo geral, quanto os de Didática, de modo específico3. Os descritores utilizados foram: a) manuais de Pedagogia, manuais pedagógicos, livros de Pedagogia; b) manuais de Didática, livros de Didática e compêndios de Didática.

A fim de explicitar a especificidade da natureza dessas obras, registra-se aqui, ainda que brevemente, o que se compreende por: a) manuais pedagógicos: categoria mais abrangente de “livros destinados ao ensino de disciplinas profissionalizantes dos currículos de instituições de formação docente, no caso, aquelas diretamente relacionadas com questões educacionais, a saber, a pedagogia, a Didática, a metodologia e a prática de ensino” (Silva, 2003, p. 30); b) manuais de Pedagogia: contemplados na categoria “manuais pedagógicos”, mas, de forma mais específica, consideram-se os livros destinados à teorização da Pedagogia como campo científico afeto à educação, normalmente recomendados para as cadeiras de Pedagogia/História da Pedagogia, e c) manuais de Didática ou de ensino de Didática: também contemplados na categoria “manuais pedagógicos”, mas, de forma ainda mais específica, consideram-se os livros recomendados para a cadeira de Didática/Didática geral.

De modo a abranger um conjunto mais amplo de estudos, optou-se pela busca nas seguintes bases de dados: Scientific Electronic Library Online (SciELO), catálogo de teses e dissertações da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Google Acadêmico (Google Scholar, em inglês) e Anais do Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino (ENDIPE). No caso das bases SciELO e catálogo de teses e dissertações da Capes, selecionaram-se os trabalhos que apresentassem os descritores supracitados no título e/ou no resumo. Na base SciELO, ainda foram utilizados os seguintes filtros de busca: Coleções: Brasil > Periódicos: todos > Anos de publicação: todos > Áreas temáticas: Ciências humanas > Tipos de literatura: todos. Já nas bases Google Acadêmico e Anais do Endipe, a busca foi realizada considerando-se apenas os trabalhos que apresentassem os descritores no título, sem utilização de outro filtro de busca, desde que se referissem a estudos produzidos no Brasil. É importante destacar que o Endipe é um dos eventos de maior relevância no contexto educacional e o mais emblemático no campo da Didática. Os encontros acontecem bianualmente, e os trabalhos apresentados são publicados nos anais do evento. Nesta pesquisa, consideraram-se as edições dos anos de 1982, 1983, 1985, 1994, 1996, 1998, 2012, 2016, 2018, 2020 e 2022. Ressalta-se que não foram localizados os anais das edições de 1987, 1989, 1991, 2002, 2004, 2006, 2010 e 2014, seja em razão de problemas técnicos nas páginas eletrônicas consultadas à época da pesquisa, seja pela ausência de digitalização e disponibilização no site da Associação Nacional de Didática e Práticas de Ensino (Andipe). O levantamento contemplou produções publicadas entre 1985 - ano da primeira pesquisa localizada - e 2024, correspondente ao último ano de realização das buscas nas bases selecionadas.

Foram excluídos os trabalhos sobre manuais de disciplinas específicas do currículo, como os “manuais do ensino de... (matemática, geografia etc.)” ou de “metodologia do ensino de... (matemática, geografia etc.)” ou de “Didática de... (aritmética, história etc.)”. De modo a não haver duplicidade, excluíram-se aqueles que já haviam sido localizados em uma das bases pesquisadas. A síntese quantitativa dos trabalhos pode ser observada na tabela a seguir:

Tabela 1
Síntese quantitativa dos trabalhos localizados

Como se pode observar na apresentação quantitativa dos trabalhos localizados, há uma predominância de estudos com os descritores manuais de Pedagogia / manuais pedagógicos / livros de Pedagogia. Destes, a grande maioria faz referência ao termo “manuais pedagógicos” por se tratar de uma categoria mais abrangente, como já explicitado.

Ainda que o levantamento bibliográfico tenha considerado tanto os manuais pedagógicos/de Pedagogia quanto os manuais de Didática, o foco de análise deste estudo concentra-se na categoria “Manuais de Didática” ou de “ensino de Didática”. Como se pode observar na Tabela 1, foi localizado um total de 16 trabalhos com os descritores manual de Didática/manuais de ensino de Didática/livro de Didática no título e/ou no resumo: um na base SciELO, 10 na base de teses e dissertações da Capes, três no Google Acadêmico (excluindo-se teses e dissertações que já haviam sido identificadas na base da Capes) e dois nos Anais do Endipe. Foram desconsiderados trabalhos que apresentavam os termos “manuais didáticos” ou “livros didáticos” no título e/ou no resumo, ainda que vinculados à formação de professores, por não explicitarem a análise específica de manuais de Didática. O quadroa seguir sintetiza, em ordem cronológica, as pesquisas encontradas no levantamento bibliográfico.

Quadro 1
Pesquisas sobre manuais de Didática como fonte e/ou objeto de estudo (1985-2024)

O primeiro dado que o levantamento evidenciou é o de que, em termos quantitativos (um total de 16 trabalhos), pode-se considerar que é pequeno o número de pesquisas que assumem os manuais de Didática como fonte/objeto de estudo, especialmente se considerarmos a abrangência temporal de quase 40 anos entre a primeira pesquisa localizada (1985) e a última (2024).

Um segundo dado que o levantamento delineia diz respeito ao título e ao resumo dos trabalhos e o lugar que os manuais de Didática neles ocupa. Seis pesquisas trazem os manuais de Didática como objeto central de suas análises (Lobo; Raumel; 1985; Araújo, 2001; Campos, 2009; Hegeto, 2014; Hegeto; Garcia, 2014; Vilar, 2022). Por sua vez, 10 pesquisas mobilizam os manuais de Didática como fonte para o desdobramento dos temas centrais de investigação, quais sejam: a utilização da biblioteca escolar como recurso de ensino-aprendizagem (Silva, 1991); discursos sobre a disciplina escolar (Lima, 1999); prescrições sobre lições, deveres e tarefas para casa (Paula, 2000); discursos e saberes sobre materiais didáticos (Fiscarelli, 2004); planejamento de ensino (Chiquito, 2007); práticas e representações de moralização na escola pública paulista (Silva, 2011); aritmética (Silva, 2018); saberes para ensinar matemática (Almeida, 2021); graduação do ensino de cálculo (Ferreira; Valente, 2021); psicologia nos manuais de Didática e a Didática da Psicologia (Silva; Lima, 2024). Os manuais de Didática, assim, comparecem nas pesquisas mobilizadas tanto como objeto central de estudo quanto como fonte que ajuda a construir interpretações analíticas sobre determinados aspectos do processo educativo, sobretudo em perspectiva histórica.

Um terceiro elemento a ser mencionado é a região brasileira de vínculo institucional dos autores: São Paulo foi o estado de vínculo de oito pesquisadores, seguido de cinco autores do Paraná, dois de Minas Gerais, um do Rio de Janeiro, um de Mato Grosso do Sul e um da Bahia.

Outra informação que o levantamento delineia é a da tipologia de trabalhos que foram desenvolvidos sobre manuais de Didática no Brasil. A maior parte das pesquisas - 11, no total - foi desenvolvida com vistas a obter uma titulação acadêmica, sendo oito mestrados e três doutorados. Alguns destes trabalhos, produzidos antes de 2014, não estão disponíveis em formato digital no catálogo de teses e dissertações da Capes e/ou nos repositórios das respectivas universidades. Para acessá-los, foi necessário realizar uma busca em outros meios eletrônicos, solicitar serviço de digitalização das bibliotecas e/ou entrar em contato direto com os autores. Duas pesquisas não foram localizadas em formato digital, mas puderam ser acessadas fisicamente, uma vez que foram publicadas como livro. É o caso da dissertação de Waldeck Carneiro da Silva (1991), intitulada A utilização da biblioteca escolar como recurso de ensino-aprendizagem em livros de Didática, cuja versão em livro recebeu o título Miséria da biblioteca escolar (1995). O mesmo ocorre com a dissertação de Rosilene Batista de Oliveira (2004), intitulada Material didático: discursos e saberes, publicada como livro, com o mesmo título, em 2008. Doravante, ao se fazer referência a essas pesquisas, adota-se a data de publicação dos livros (Silva, 1995; Oliveira, 2008), uma vez que o conteúdo das dissertações foi acessado exclusivamente nesse formato.

Por fim, registra-se que a leitura dos trabalhos permitiu identificar outras referências de produções relevantes para o estudo sobre livros de Didática, mas que não foram consideradas neste levantamento bibliográfico por não terem sido localizadas nas bases de dados selecionadas a priori. É o caso, por exemplo, da dissertação de Maria Luisa de Aguiar Amorim, intitulada Análise dos conteúdos dos livros textos de Didática: reprodução ou transformação social?, defendida em 1986, na Universidade Federal do Ceará, que não consta no catálogo de teses e dissertações da Capes.

Apresentados a metodologia e o apanhado dos dados iniciais, passa-se à síntese descritivo-analítica dos trabalhos inventariados.

MANUAIS DE DIDÁTICA COMO FONTE E/OU OBJETO DE INVESTIGAÇÃO

Há uma concordância entre os artigos e as dissertações/teses de que os livros destinados à formação de professores, enquanto objetos de mediação entre o conhecimento pedagógico específico e os modos de utilizá-los em sala de aula, são fontes potentes para a pesquisa sobre a história da profissionalização docente, bem como para conhecer os conteúdos e métodos de ensino privilegiados em diferentes momentos históricos. Contudo, há especificidades entre os objetivos, as fontes, o recorte temporal e os principais resultados das pesquisas, que serão apresentadas ao longo dessa seção.

Síntese descritivo-analítica dos estudos

O trabalho publicado por Lobo e Raumel (1985, p. 25) teve como objetivo “levantar subsídios para refletir criticamente sobre a seleção e utilização do livro didático, na área de Didática”. Para as autoras, o livro didático é “um material difícil de ser superado como um meio para a aprendizagem de informações e desenvolvimento de habilidades intelectuais” (p. 25). O estudo indicava, em meados da década de 1980, que a investigação educacional ainda estava começando a se voltar ao estudo dos manuais de ensino, apesar da disseminada presença e utilização desses objetos no ambiente escolar. A investigação das autoras considerou a análise de três manuais de Didática produzidos entre as décadas de 1970 e 1980, revelou “uma ênfase exacerbada em demonstrar o como fazer, baseado em modelos pré-concebidos de planos de aula e, específicas técnicas de ensino” e, ainda, que os livros examinados “referem-se tão somente à dimensão técnica enfatizando planos estabelecidos e, possivelmente, alienando o professor do processo de ensino e suas operações o que possibilitaria o repensar de um novo papel do livro de Didática” (p. 32).

Em sua dissertação, Silva (1995) pretendeu investigar a forma e o conteúdo pelos quais os livros de Didática se expressavam sobre o uso da biblioteca na educação escolar. Para tanto, analisou um conjunto de livros de Didática mais indicados aos estudantes de licenciatura das universidades do Rio de Janeiro, no período de 1988 a 1990. Como resultado, constatou que apenas um abordava o papel da biblioteca no processo de ensino-aprendizagem. Logo, concluiu que, “do ponto de vista de uma abordagem explícita, a grande maioria dos livros de Didática mais indicados nas universidades fluminenses silencia completamente quanto às possibilidades de inserção da biblioteca escolar naquele processo” (p. 40-41).

A dissertação de Lima (1999) teve como objetivo examinar as recomendações para a conquista e a manutenção da disciplina, presentes nos discursos de periódicos educacionais e manuais de Didática produzidos entre 1940 e 1960. Ao tratar dos livros destinados aos alunos do curso normal, a autora afirmou que uma das características dessas obras é a linguagem acessível e mesmo convidativa à leitura, apresentando-se como “um verdadeiro guia do estudante em seus primeiros passos como professor”; outra característica importante desses livros “é a recorrência de exemplos e de regras detalhadas que deveriam ser seguidas para favorecer o êxito” (p. 35). Ao final da pesquisa, a autora considerou que as sugestões apresentadas nos manuais de Didática pretendiam ajudar os professores a manter a ordem na aula, mas também disciplinar sua própria atuação. Para combater os “maus hábitos docentes”, que prejudicavam as aulas e a manutenção da disciplina, “apresentava-se várias estratégias de ensino que estavam de acordo com os preceitos da Escola Nova e que deveriam garantir um ensino mais produtivo e prazeroso para professores e alunos” (p. 195).

Os manuais de Didática também são tomados como fonte documental na dissertação de Paula (2000), que teve como objetivo interrogar as prescrições destinadas aos professores sobre os deveres, as tarefas e lições para casa. Para a autora, os manuais são considerados como “uma possível interpretação das teorias, uma tradução, uma mediação, mas que muitas vezes normatizaram e legitimaram um modo de fazer e pensar a escola e na escola” (p. 2). Após analisar um conjunto de manuais produzidos entre as décadas de 1960, 1970 e 1980, a autora considerou os deveres/tarefas/lições de casa, entre outras coisas, como “uma prática escolar debatida, questionada, sem consenso, uma luta de sentidos estabelecida por diferentes correntes pedagógicas em diferentes momentos políticos ora mais evidentes, ora menos evidentes como agora” (p. 188).

O artigo de Araújo (2001) assinala a influência dos livros de Didática para a prática pedagógica dos professores, como “meios de objetivação e simplificação do trabalho docente, desde Coménio (século XVII), dada a intenção que eles têm de guiar a ação docente, oferecendo normas e regras para organizar o espaço da sala de aula [...]” (p. 77). Partindo dessa compreensão, o estudo pretendeu discutir o conteúdo da disciplina de Didática oferecido em nível médio, na cidade de Campo Grande - MS, por meio da análise de livros de Didática produzidos no final do século XX, especialmente nas décadas de 1980 e 1990. Dentre os resultados:

O estudo evidenciou que a entrada da produção recente (1997/1999) e de linha teórica histórico-crítica ocorre essencialmente nos cursos em nível superior, em que não há adoção de livros textos, mas uso de bibliografia variada, entre monografias e periódicos, o que intervém no modo de organização das aulas, que deixa de ser ditado pelo manual didático. [...] A presença de obras desatualizadas e de outras correntes teóricas ainda se mantém, bem como o ecletismo. Também a definição de critério para a escolha da bibliografia é mais clara e coerente na expressão dos docentes do nível superior. A extensa produção da área na década de noventa não tem tido a acolhida esperada, bem como, não é hegemônica em nossas escolas, a perspectiva histórico-crítica que a embasa (Araújo, 2001, p. 103-104).

Na dissertação de Fiscarelli (2008, p. 22), os manuais de Didática são considerados como materialização de um conhecimento sistematizado, “cuja legitimidade é conferida pela cientificidade do campo pedagógico”. A pesquisa busca compreender como se constitui o saber sobre materiais didáticos e que regimes de verdade são criados a partir deles. O conhecimento sobre este campo de saber constituído em torno de materiais didáticos é realizado a partir da análise de três modalidades de discurso: o discurso pedagógico, o discurso da política educacional e o discurso dos professores do ensino fundamental da rede pública paulista. Dentre as fontes mobilizadas, foram selecionados três livros de Didática produzidos entre as décadas de 1950 e 1970. Como conclusão, a autora afirmou que:

O diálogo com as fontes permitiu perceber que esses três discursos - pedagógico, da política educacional e dos professores do ensino fundamental - vêem os materiais didáticos como objetos dinamizadores da prática docente, motivadores da aprendizagem e da criatividade dos alunos, concretizadores do conhecimento, modernizadores das práticas escolares, organizadores do conteúdo a ser ensinado, redutores do excesso de verbalismo em sala de aula, facilitadores do processo de ensino-aprendizagem (Fiscarelli, 2008, p. 175).

Na dissertação de Chiquito (2007), os manuais de Didática, assim como a revista Nova Escola, são considerados tanto produtos quanto produtores das relações de poder-saber e orientadores da prática pedagógica. A análise das orientações, dos encaminhamentos e das prescrições curriculares contidas nessas obras permitiria entender o manual de Didática como “um artefato que nomeia, classifica, ordena e controla tanto os sujeitos-professores como os modos de ser sujeito, os modos da docência” (p. 19). Partindo dessa concepção, a pesquisa teve como objetivo analisar as narrativas de professores acerca do planejamento de ensino na interface com as políticas curriculares. Para tanto, o autor mobilizou um conjunto de mais de 15 manuais de Didática produzidos entre 1950 e 2000, além de diferentes edições da revista Nova Escola. Como resultado, indica “uma estreita correspondência entre os enunciados dos professores e aqueles provenientes dos textos modernos que se encontram também nos manuais de Didática até os anos 80” (p. 117). No que tange ao planejamento, “os manuais de Didática do período que se estende dos anos 50 aos anos 80 do século XX insistem em cristalizar os roteiros para a definição de objetivos educacionais devidamente classificados e inscritos em rígidas taxionomias” (p. 134).

Em Campos (2009, p. 11), os manuais didáticos, dentre eles os de Didática e Metodologia de ensino, são entendidos como “objetos de mediação entre o conhecimento específico e os modos de utilizá-lo em sala de aula” e, portanto, percebidos como “objetos extremamente ricos como fonte para pesquisar a história da profissionalização docente nas escolas normais e universidades, bem como para conhecer os conteúdos e métodos que são privilegiados em diferentes momentos históricos”. Diferentemente dos trabalhos anteriores, este não busca realizar uma análise do conteúdo dessas obras, mas, sim, “sistematizar um instrumento de pesquisa composto especialmente por manuais de Didática, Metodologia e Prática de Ensino utilizados para a formação de professores”, visando “organizar uma base de dados, a Base Ensino, paralelamente ao projeto Manbras, que possibilite encontrar, a partir das buscas localizadas, os livros produzidos e publicados sobre a temática selecionada” (p. 11-12). Como resultados, foi localizado e sistematizado um conjunto de 271 obras de Metodologia, Didática geral e Didáticas específicas, produzidas entre 1890 até 2006, que passaram a compor a base Ensino do projeto Manuais Brasileiros (Manbras). Segundo a autora, “a organização do conhecimento contribuiu para compreender que é real a necessidade de organizar o que já foi produzido na área da educação para que se possam recuperar as informações válidas e legitimar o conhecimento” (p. 77).

Para Silva (2011, p. 71), os livros utilizados nos cursos de formação de professores “reforçam o que consideram ser o comportamento ideal para um docente”, na medida em que definem “as atitudes desejáveis aos professores e alunos através do que elogiavam ou censuravam”. A tese apresentada pela autora teve como objetivo compreender, mediante a perspectiva sócio-histórica, como foram configuradas e mobilizadas as práticas e representações de moralização na escola pública paulista em um período que compreende a democratização de oportunidades de educação e que alterou o modelo de escola que era mantido desde a época republicana (1948-1978). Como fonte de investigação, foram selecionados manuais de Didática e Metodologia de ensino, revistas pedagógicas e legislação vigente entre as décadas de 1940 e 1970. Como conclusão, a pesquisa permitiu perceber práticas de moralização diversas fundamentadas mediante variados discursos que obedeciam a três eixos principais: psicológico, religioso e cívico.

Em Hegeto (2014, p. 12), se reconhece que os conhecimentos contidos nos manuais “expressam e influenciam o ensino em determinada época, sugerindo regras e normas, legitimando conteúdos, ideais e discursos e que, ainda, manifestam relações com disciplinas e currículos dos cursos de formação de professores”. A tese teve como objetivo contribuir para compreender a Didática enquanto uma disciplina escolar que tem sua trajetória marcada pelas discussões e controvérsias em torno do seu objeto e papel nos cursos de formação de professores. Por meio da análise de um conjunto de manuais produzidos entre as décadas de 1980, 1990 e 2000, a autora pretendeu “evidenciar as finalidades da disciplina [de Didática], no âmbito das transformações ocorridas nas últimas décadas quanto à formação de professores” (p. 18).

Da mesma forma, o artigo de Hegeto e Garcia (2014) trata das configurações da Didática como disciplina escolar, tomando como material empírico manuais de Didática geral publicados no Brasil entre as décadas de 1980 e 2000. As autoras consideram essas obras como “livros destinados a ensinar a ensinar” que “expressam, com diferentes abordagens e a partir de concepções diferenciadas, elementos que constituem a Didática enquanto uma disciplina voltada à formação de professores” (p. 21). Como resultado, aponta-se que os debates acadêmicos no campo da Didática resultaram na focalização do objeto da disciplina em torno do ensino e dos elementos da ação docente, ressignificando suas finalidades. Além disso, destaca-se um movimento de reaproximação dos conteúdos e finalidades da Didática com o espaço da sala de aula e com o ensino, sem desconsiderar outras dimensões que envolvem o trabalho docente.

Silva (2018, p. 59) ressalta que os manuais de Didática “reúnem teoria e sugestões de metodologias de modo a auxiliar o trabalho do professor em sala de aula, compilando em um mesmo impresso a doutrina da pedagogia, legislações e exemplos de procedimentos a serem seguidos”. A autora também chama a atenção para a relevância de analisar a própria materialidade desses impressos, afirmando que, tanto o escrito quanto as características físicas, são “aspectos do passado importantes para a compreensão de um fato, de uma reforma, de um movimento ideológico, como por exemplo, a disseminação dos princípios do Movimento da Escola Nova no Brasil” (p. 59). A dissertação teve como objetivo investigar orientações pedagógicas para o ensino da Aritmética presentes em dois manuais de didática produzidos entre as décadas de 1930 e 1940. A pesquisa resultou na compreensão de que os dois manuais analisados trazem, em sua maioria, saberes para ensinar Aritmética que envolvem, simultaneamente, recomendações de conteúdos, procedimentos e metodologias para o ensino na escola primária, aos moldes das propostas reformistas da Escola Nova.

A dissertação de Almeida (2021) também tem como objeto de estudo os saberes para ensinar matemática a partir da análise de manuais de Didática geral e Didática da matemática. Conforme a autora, por meio do conteúdo acadêmico aprendido no curso de formação e da prática em sala de aula, “os professores vão construindo os saberes para ensinar, a forma como o conteúdo a ser ensinado vai ser transmitido aos alunos e esses saberes vão construindo a profissionalidade” (p. 25). O objetivo da pesquisa foi identificar, em obras dessa natureza, como os saberes para ensinar matemática estavam representados durante o período do Movimento da Matemática Moderna. Para tanto, além dos manuais específicos de Didática da matemática, a autora mobiliza três manuais de Didática geral produzidos na década de 1960. Como conclusão, verificou-se a predominância dos seguintes saberes para o ensino da matemática: a observação como recurso didático; a comparação como estratégia de ensino; situações do dia a dia usadas no contexto de ensino; uso de objetos cotidianos e de artefatos como régua, desenhos e trabalhos manuais; e separação entre aritmética e geometria.

O ensino da matemática também foi objeto de estudo de autoria de Ferreira e Valente (2021). Para esses autores, os manuais didáticos destinados à formação de professores são considerados “fontes privilegiadas para se analisar a graduação do ensino, o passo a passo que o professor deveria seguir para transmitir os saberes”, uma vez que podem ser lidos como “importantes instrumentos de interpretação dos discursos pedagógicos que circulam em uma dada época” (p. 120). O artigo por eles apresentado buscou fazer um exercício teórico de análise do manual Didática nas escolas primárias, do professor paulista João Toledo, a partir da graduação do ensino de cálculo. Ou seja, a análise considerou um manual específico publicado na década de 1930. Como resultado, os autores consideraram que a obra analisada possibilitou constatar que João Toledo construiu uma sequência de ensino que parte do método intuitivo e avança até apresentar sinais de uma pedagogia científica.

No trabalho de Vilar (2022, p. 179), apresentado no XXI Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino, a Didática é pensada como um componente curricular dos cursos de formação de professores, tanto da Pedagogia quanto das demais licenciaturas, uma vez que é “considerada uma área de base à docência em sua dimensão de saber para ensinar, ou seja, faz parte da profissionalização do professor”. Partindo desta perspectiva, a investigação empreendida pela autora visou analisar como foram sendo produzidas as configurações da Didática e sua reafirmação/especificidade de orientar os professores para a teoria e prática do ensino-aprendizagem, tomando um conjunto de manuais de Didática produzidos entre as décadas de 1950 e 1960 como fontes de investigação. Dentre os resultados, ressalta-se que a análise realizada “possibilitou entender como a disciplina Didática foi sendo configurada na medida em que os manuais pedagógicos apresentaram mais do que saber a ensinar, saberes para ensinar, contribuindo para a formação dos professores e a renovação do ensino” (p. 175).

Por fim, no último trabalho localizado nesta pesquisa, de autoria de Silva e Lima (2024, p. 3), os manuais de ensino são considerados como um dos componentes da disciplina, uma vez que “estão relacionados a uma série de outros textos, oficiais ou programáticos aos quais eles se submetem; aos planos de ensino dos professores, feitos muitas vezes a partir da consulta aos manuais; às produções dos alunos”. A fim de compreender como as ideias de inovação pedagógica são dadas a ler aos professores, o artigo analisa manuais de Didática e psicologia usados na Escola Normal entre 1900 e 1960. O estudo permitiu identificar zonas de intersecção entre a Didática e a Psicologia nos manuais usados nas aulas dessas disciplinas da Escola Normal e discursos educacionais presentes tanto numa matéria quanto na outra. Além disso, percebeu-se que o atravessamento das fronteiras entre as duas disciplinas derivou de um lugar comum onde se defenderam as amplas premissas da Escola Nova.

Em outras palavras, foi a ideia de inovação pedagógica que uniu a Didática e a Psicologia e da qual, ao mesmo tempo, emanaram as especificidades de cada uma delas: a legitimação científica dos argumentos coube mais à Psicologia; a prescrição das formas de ensinar foi papel assumido mais claramente pela Didática (Silva; Lima, 2024, p. 18).

A fim de explicitar os recortes temporais abarcados pelas pesquisas, construiu-se o quadroa seguir, no qual são destacadas as décadas de publicação das obras selecionadas pelos autores dos estudos contemplados nesta revisão.

Quadro 2
Autores e datas de publicação das obras selecionadas

Como se pode observar, os trabalhos abarcam, de modo geral, um período que vai de 1890 a 2006. Apenas um trabalho contemplou manuais de Didática do final do século XIX (Campos, 2009). A grande maioria voltou-se para obras produzidas no século XX, sendo que quatro mobilizaram manuais publicados entre as décadas de 1900 e 1930 (Campos, 2009; Silva, 2018; Ferreira; Valente, 2021; Silva; Lima, 2024) e quatro contemplaram manuais produzidos entre 2000 e 2006 (Chiquito, 2007; Campos, 2009; Hegeto, 2014; Hegeto; Garcia, 2014). Percebe-se, portanto, um foco de análise em manuais produzidos entre as décadas de 1940 e 1990.

A análise dos trabalhos ainda indicou algumas estratégias de seleção dos manuais, quais sejam: levantamento de livros utilizados nos cursos de formação de professores segundo programas ou planos de ensino de universidades de diferentes regiões do Brasil; conversa ou aplicação de questionário com docentes que lecionam a disciplina Didática, de modo a identificar as obras mais indicadas aos estudantes; elevado número de edições das obras em um determinado período; levantamento bibliográfico em catálogos ou repositórios institucionais; acervos de instituições de ensino superior; consultas em grandes editoras dos livros de Didática; revisão bibliográfica em estudos que apresentam autores de manuais de Didática que têm sido mais indicados por professores de Didática nos cursos de licenciatura; levantamento de títulos em bases de dados institucionais, bibliotecas de universidades e em sebos.

Ao todo, os trabalhos citaram e/ou mobilizaram um conjunto de mais de uma centena de manuais de Didática e, deste modo, não seria viável apresentar aqui os títulos de todas as obras. Contudo, é relevante fazer dois destaques. O primeiro deles é que, mesmo sendo considerados pelos autores como livros de Didática, muitas das obras citadas não apresentam a palavra “Didática” no título, ainda que façam referência a termos correlatos, como metodologia, práticas de ensino, pedagogia, planejamento, avaliação e organização do ensino. O segundo aspecto a destacar é que há obras que possuem muitas edições, sendo recomendadas para a formação de professores em diferentes décadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O levantamento quantitativo realizado nesta pesquisa revela a predominância de trabalhos com os descritores manuais de pedagogia, manuais pedagógicos ou livros de pedagogia (84 estudos). Destes, a grande maioria apresenta o termo “manuais pedagógicos” no título, possivelmente por se tratar de uma categoria mais ampla de livros destinados à formação pedagógica dos professores. O levantamento quantitativo ainda evidenciou que é pouco expressivo o número de pesquisas que assumem a categoria manuais de Didática ou de ensino de Didática como fonte/objeto de estudo (16 trabalhos), especialmente se considerarmos a abrangência temporal de quase 40 anos entre a primeira pesquisa localizada (1985) e a última (2024).

A revisão de literatura realizada neste estudo possibilitou conhecer, não de maneira exaustiva, mas significativa, a produção de manuais de Didática brasileiros. Dos 16 estudos selecionados, seis trazem esses manuais como objeto central de suas análises, e 10 os mobilizam como fonte para o desdobramento de outros temas centrais de investigação. Ou seja, os manuais de Didática comparecem nas pesquisas, sobretudo em perspectiva histórica, tanto como objeto central de estudo (ainda que em menor quantidade) quanto como fonte de investigação que ajuda a construir interpretações analíticas sobre determinados aspectos do processo educativo.

Quanto às compreensões sobre os manuais de Didática destinados à formação de professores, há uma concordância entre os artigos e as dissertações/teses de que são objetos de mediação entre o conhecimento pedagógico específico e os modos de utilizá-lo em sala de aula. A maioria dos trabalhos ressalta os manuais como fontes potentes para a pesquisa sobre a história da profissionalização docente, bem como para conhecer os conteúdos e métodos de ensino predominantes ao longo do tempo. Além disso, observa-se que, em diversos estudos analisados, os manuais tendem a apresentar a Didática como uma disciplina centrada no “ensinar a ensinar”, privilegiando prescrições e regras de ação docente em detrimento de princípios e fundamentações teórico-metodológicas das práticas de sala de aula. A maioria dos trabalhos analisou o conteúdo dos manuais pela perspectiva de discurso, considerado tanto como produto quanto produtor das relações de poder-saber na interface com as políticas curriculares.

No que diz respeito ao recorte temporal, os estudos abarcam, de modo geral, um período que vai de 1890 a 2006, mas o foco de análise está em manuais produzidos entre as décadas de 1940 e 1990. Assim, uma lacuna percebida refere-se ao estudo de manuais produzidos no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, bem como de livros indicados para disciplina de Didática que vêm sendo produzidos no século XXI. A leitura transversal dos estudos também permite identificar que, embora abordem manuais de épocas distintas, é possível perceber deslocamentos históricos na configuração da Didática como disciplina: de um momento de busca por legitimação científica e aproximação com a Psicologia, passando por uma fase de forte normatização técnica do ensino, até debates mais recentes sobre sua identidade epistemológica e seu papel na formação de professores. Outro aspecto relevante a ser considerado em estudos futuros é a compreensão sobre a identidade da Didática como disciplina e campo epistemológico em uma perspectiva transnacional, tomando manuais produzidos em diferentes países como fonte de investigação.

Por fim, os dados aqui levantados indicam que há muitos estudos sobre a história da Pedagogia, mas o mesmo parece não ocorrer com a história da Didática, pelo menos se considerarmos as pesquisas que tomam os manuais de formação de professores como fonte e objeto de investigação. Além disso, o levantamento sugere que os estudos sobre manuais pedagógicos e de Didática vêm sendo produzidos e divulgados predominantemente pelo campo da história da educação, o que aponta a relevância e a necessidade de aprofundamento de estudos sobre a história da Didática pelo próprio campo. Nesse sentido, a lacuna identificada evidencia não apenas a necessidade de ampliação das investigações, mas também a urgência de que a Didática se constitua como objeto de análise de sua própria história, reconhecendo nos manuais de formação de professores um espaço privilegiado de produção, circulação e disputa de sentidos que conformam sua identidade disciplinar.

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    » https://www.andipe.com.br/xxi-endipe-2022
  • 1
    Artigo publicado com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES/Brasil para os serviços de edição, diagramação e conversão de XML e financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq/Brasil para tradução do artigo para o Inglês
  • 2
    Trata-se da pesquisa de pós-doutorado realizada pela autora no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de São Paulo (USP), sob supervisão da Profa. Dra. Vivian Batista da Silva, vinculada ao Projeto Temático FAPESP “Saberes e práticas em fronteiras: por uma história transnacional da educação (1810-...)”.
  • 3
    O mapeamento de pesquisas sobre “manuais pedagógicos/de Pedagogia” e “manuais de Didática” foi realizado durante licença para capacitação (out.-dez. 2023), vinculada ao projeto “A Didática em manuais pedagógicos: definições e prescrições (1920-1960)”, coordenado pela autora na UFSC, com supervisão da Profa. Dra. Isabel Maria Sabino de Farias (UECE), a quem se registra agradecimento.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
    Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editor de seção:
    Suzana dos Santos Gomes

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

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