Resumo
Neste estudo, avaliou-se a satisfação acadêmica de estudantes de graduação da Universidade Save, localizada na região sul de Moçambique, através da Escala de Satisfação com a Experiência Acadêmica, questionário sociodemográfico e uma pergunta de livre expressão. Os 285 participantes frequentavam oito cursos e tinham idades entre 19 e 43 anos. As análises descritivas e análise de variância foram realizadas com auxílio do software Statistical Package for the Social Sciences. Os resultados indicam que a maioria dos estudantes estava satisfeita com os elementos da dimensão do curso. Os discentes mais satisfeitos foram do sexo masculino, com companheiros, dos cursos de Gestão de Recursos Humanos, Psicologia Educacional, História, Agropecuária, Química e Psicologia, do turno pós-laboral e com idades superiores a 35 anos. Os participantes sugerem a melhoria das condições de ensino existentes, gestão do curso, relacionamento interpessoal entre professores/estudantes, atendimento público institucional, qualidade de professores, políticas de assistência estudantil e taxas de mensalidades.
Palavras-chave
satisfação acadêmica; qualidade de ensino; educação superior; universidade.
Abstract
This study assessed the academic satisfaction of undergraduate students at Save University, located in the southern region of Mozambique, using the Academic Experience Satisfaction Scale, a sociodemographic questionnaire, and an open-ended question. The 285 participants attended eight courses and were between 19 and 43 years old. Descriptive analyses and analysis of variance were performed using the software Statistical Package for the Social Sciences software. The results indicate that most students were satisfied with the elements of the course dimension. The most satisfied students were male, with partners, in the courses of Human Resource Management, Educational Psychology, History, Agriculture, Chemistry, and Psychology, in the after-work shift, and over 35 years old. The participants suggested improvements in the existing teaching conditions, course management, interpersonal relationships between teachers/students, institutional public services, quality of teachers, student assistance policies, and monthly tuition fees.
Keywords
academic satisfaction; quality of teaching; higher education; university.
Resumen
Este estudio evaluó la satisfacción académica de estudiantes universitarios de Universidad Save, ubicada en la región sur de Mozambique, utilizando la Escala de Satisfacción de Experiencia Académica, un cuestionario sociodemográfico y una pregunta de libre expresión. Los 285 participantes asistieron a ocho cursos y tenían entre 19 y 43 años. Se realizaron análisis descriptivos y análisis de varianza utilizando el software utilizando el software Statistical Package for the Social Sciences. Los resultados indican que la mayoría de los estudiantes estaban satisfechos con los elementos de la dimensión del curso. Los discentes más satisfechos fueron los varones, con parejas, de las carreras de Gestión de Recursos Humanos, Psicología Educativa, Historia, Agronomía, Química y Psicología, por la noche y mayores de 35 años. Los participantes sugieren mejoras en las condiciones actuales de enseñanza, la gestión de los cursos, las relaciones interpersonales entre profesores y estudiantes, los servicios públicos institucionales, la calidad docente, las políticas de asistencia a los estudiantes y los costos de matrícula.
Palabras clave
satisfacción académica; calidad de la enseñanza; educación superior; universidad.
1 Introdução
A história do ensino superior em Moçambique é recente, quando comparada com a de outros países da África e do mundo. Ela surge no ano de 1962 através do Decreto n.º 44.530/1962, de 21 de agosto, quando foram criados os Estudos Gerais Universitários de Moçambique (Egum) em resposta às críticas dos movimentos nacionalistas das colónias portuguesas (Taimo, 2010). Posteriormente, por meio do Decreto-Lei nº. 43.779/1968, de dezembro de 1968, foi criada a Universidade de Lourenço Marques (ULM), que, com a independência nacional proclamada a 25 de junho de 1975, ela foi transformada em Universidade Eduardo Mondlane (UEM) (Bene et al., 2022; Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior [MCTES], 2023; Taimo, 2010).
Até metade da década de 1980, a UEM era a única Instituição do Ensino Superior (IES) no país. No âmbito das reformas socioeconômicas e políticas iniciadas no final da década de 1980, que resultaram na mudança do regime político socialista de orientação marxista-leninista para o de economia de mercado, o Governo aprovou, em 1992, a Lei n.º 6/92, de 6 de maio - Sistema Nacional da Educação (SNE) -, revogando a Lei n.º 4/83, de 23 de março de 1983, em que, por meio desta, o Estado passou a permitir a participação de outras entidades, incluindo comunitárias, cooperativas, empresariais e privadas no processo educativo, conforme previsto na alínea b) do artigo 1 (Moçambique, 1992). É dentro desse quadro legal que foi aprovada, em 1993, a primeira lei do ensino superior - Lei n.º 1/93, de 24 de junho de 1993 -, admitindo a criação de IES privadas (Moçambique, 1993) e, a partir de 1995, assiste-se no país ao surgimento de novas instituições dessa rede.
No entanto, o aumento significativo de IES e de estudantes moçambicanos começou a ser registrado expressivamente a partir do ano de 2000. Esses avanços são justificados pela abertura de novas IES, que passaram de 44, em 2015, para 56, em 2023, das quais 22 públicas, entre universidades, academias, escolas superiores e institutos superiores (MCTES, 2023). Ante essa nova conjuntura política de massificação das IES no país, aliada à crise econômica que assola Moçambique, sobretudo desde 2016, tem-se gerado uma concorrência e competitividade diferencial entre elas, em que cada IES luta para a sua permanência no cenário educacional com um número favorável de estudantes. Para tal, muitas IES usam diversas técnicas de retenção e atracão de estudantes que vão desde a implementação de cursos técnicos, redução do tempo de duração de cursos e introdução de várias modalidades e regimes de ensino (Salomão; Abacar; Aliante, 2018) e mudança dos critérios de admissão de exame de admissão (vestibular no Brasil) para análise documental para ingressantes dos cursos de ensino a distância e pós-laboral.
Além dessas técnicas consideradas atrativas aplicadas pelas IES nas suas políticas de concorrência ao cenário educacional, estas necessitam manter um grau aceitável de satisfação acadêmica da comunidade estudantil no sentido de retê-los e atrair os outros. Nos últimos anos, porém, sobretudo no período de 2020 a 2025, as IES moçambicanas passaram a enfrentar uma crise de candidatos, tanto públicas como privadas.
A título de exemplo, no período em alusão, muitas IES públicas moçambicanas (exemplo: Universidade Save, Universidade Eduardo Mondlane, Universidade Rovuma, Universidade Licungo, Universidade Púnguè, Universidade Joaquim Chissano e Escola Superior de Jornalismo) não tiveram candidatos suficientes para o início de alguns cursos, sendo obrigadas a fazerem repescas dos concorrentes não admitidos, até mesmo chegaram a permitir o ingresso dos candidatos que tivessem apenas interesse em frequentar tais cursos, mesmo sem terem feito inscrição inicial e exames de admissão. Mesmo assim, alguns cursos dessas universidades não tiveram candidatos suficientes para seu arranque. Desse modo, avaliar a satisfação acadêmica de estudantes internos constitui um importantíssimo diagnóstico institucional e passo para compreender o seu nível e os respectivos antecedentes, de modo orientar as IES a se posicionarem e a ajustarem melhor as suas políticas no cenário educacional moçambicano na atualidade, cada vez mais complexo e competitivo.
O termo “satisfação” pode ser aplicado em diferentes contextos, tais como comerciais, profissionais e acadêmicos, sugerindo a existência de várias definições em função da área do conhecimento em que é aplicado. A satisfação, associada aos diversos contextos da experiência acadêmica, pode ser entendida como a apreciação que os estudantes realizam da instituição, clima acadêmico, curso e relações interpessoais (Almeida et al., 2020). Estes autores concebem a satisfação acadêmica como uma variável da vida de um estudante que envolve sua percepção, engajamento e realização pessoal e profissional com o meio acadêmico. Para Surdez-Pérez, Sandoval e Lamoyi (2018), a satisfação acadêmica pode ser definida como bem-estar experimentado pelos estudantes por sentirem que suas expectativas acadêmicas são atendidas como resultado das atividades realizadas pela instituição para atender às suas necessidades educacionais. E, na ótica de Gomes, Dagostini e Cunha (2013), a satisfação do estudante está relacionada com a imagem positiva que ele tem da sua universidade e do curso que frequenta. Quando o balanço entre as expectativas e as vivências se traduz em uma frustração de tais aspirações, então, esperam-se níveis significativos de insatisfação.
Partindo dessa premissa, Osti e Almeida (2022) e Osti et al. (2020) alertam que é importante conhecer como os estudantes estão se relacionando com a instituição de forma geral, incluindo sua satisfação com o curso, os recursos da própria instituição, seus serviços e a vida no campus. Isso demostra que existem diversos fatores que contribuem para a satisfação acadêmica. De um modo geral, Vecchio (2012) classifica as fontes de satisfação em duas categorias, a saber: intrínseca e extrínseca. As fontes intrínsecas originam-se do próprio indivíduo e têm valor psicológico. E as fontes extrínsecas originam--se externamente ao indivíduo, ou seja, são forças de controle além da pessoa.
No âmbito dos fatores extrínsecos, Ramos et al. (2016) objetivaram conhecer os fatores que determinavam a satisfação com a experiência acadêmica entre 26 estudantes da graduação em Enfermagem de uma universidade pública do Sul do Brasil. Emergiram três categorias como resultados, das quais duas estiveram relacionadas à satisfação acadêmica, a saber: determinantes acadêmicos e curriculares (disciplinas e metodologias de aprendizagem) e determinantes sociais (qualidade das relações interpessoais). No mesmo país, outra pesquisa identificou os elementos de satisfação dos acadêmicos no Meio-Oeste catarinense em uma amostra de 150 participantes, tendo apontado que a maior satisfação estava relacionada com a localização do campus, o relacionamento interpessoal com os professores e com a coordenação (Gambirage et al., 2017).
Na China, na revisão de meta-análise de Than e Khaing (2020), constatou-se que fatores pessoais (autoeficácia, motivação e experiência universitária), instrucionais (cursos, ambiente de aprendizagem e ensino e instrução), sociais (presença social e relação aluno-professor), universitários (qualidade do serviço, custo e reputação) e relacionados ao resultado (perspectivas de emprego e habilidades desenvolvidas) foram os preditores mais fortes da satisfação acadêmica. Na mesma direção, Gu e Lu (2023), em sua revisão de literatura, descobriram que os fatores que influenciam a satisfação dos estudantes universitários eram compostos por sete dimensões, a saber: reputação escolar; ambiente escolar; melhoria pessoal; gestão organizacional; suporte logístico; qualidade do ensino; e encargos e subsídios. Entre eles, qualidade do ensino, ambiente escolar, gestão organizacional e suporte logístico são as categorias principais.
Na Espanha, De-Juan-Vigaray et al. (2024) verificaram a aquisição de competências, o desenvolvimento de capacidades, os métodos de ensino, o corpo docente envolvido, a gestão do curso e as instalações e infraestrutura das aulas como as variáveis antecedentes da satisfação dos estudantes. Ademais, o cumprimento das expectativas dos estudantes também era um preditor da fidelidade destes à instituição de ensino superior onde estudavam.
A investigação da satisfação acadêmica mostra-se tão relevante na atualidade e tem sido objeto de estudo em diversas pesquisas da área de Educação e Psicologia, pois pressupõe-se que a sua percepção por parte dos estudantes interfere no envolvimento deles com a instituição, implicando a decisão de nela permanecer ou não (Almeida et al., 2020; Bardach et al., 2020; Biswas et al., 2024; Osti et al., 2020). A satisfação dos estudantes, portanto, é um índice importante para avaliar a qualidade do ensino superior e a competitividade das faculdades e/ou IES (Gu; Lu, 2023). Por essa razão, a pesquisa deste construto é vista como elemento importante na avaliação da eficácia institucional e dos contextos educativos, possibilitando às instituições reestruturarem sua organização para se adaptarem às necessidades dos estudantes (Hue; Chi; Hao, 2023; Schleich; Polydoro; Santos, 2006).
A pesquisa sobre a satisfação acadêmica no cenário internacional tem merecido destaque em razão do aumento do número e diversidade de estudantes no ensino superior e da necessidade de as instituições tentarem compreender as condições que favorecem a permanência e a conclusão dos cursos por parte dos seus estudantes. A satisfação do alunado é entendida como fator determinante para a sua permanência e sucesso acadêmico (Gu; Lu, 2023; Kuzehgar; Sorourkhah, 2024; Osti; Almeida, 2022), pois altos níveis de satisfação dos estudantes são essenciais para a criação de um ambiente de aprendizagem favorável e produtivo, especialmente no ensino superior (Boyd et al., 2022; Yu et al., 2021). Apesar disso, em Moçambique a temática ainda é pouco investigada.
Adicionalmente, a realização desta pesquisa é justificada por outras razões de ordem profissional dos proponentes. Desse modo, considerando que o país tem registrado um avanço significativo na expansão do ensino superior e no aumento de número de estudantes universitários integrantes e pertencentes a diferentes realidades sociais, culturais e econômicas nos últimos anos (Bene et al., 2022; MCTES, 2023), a temática de satisfação acadêmica deveria despertar interesse de vários pesquisadores moçambicanos, em vista a trazer à tona resultados cientificamente validados que podiam auxiliar as instituições a compreenderem os níveis e os fatores da satisfação acadêmica, de modo a fomentar ações e políticas públicas que visem a garantir altos níveis de satisfação da comunidade acadêmica, assegurando a permanência e conclusão dos cursos dos estudantes. Mais ainda, estas pesquisas poderiam incrementar a produção acadêmica da temática e fomentar o desenho e implementação de políticas públicas institucionais que visem a garantir maiores níveis de satisfação acadêmica.
Do ponto de vista profissional, cabe informar que a maioria dos autores deste trabalho é docente vinculado à Universidade Save, que é uma IES pública criada em 2019, resultado da descentralização da Universidade Pedagógica, afetos na Faculdade de Educação e Psicologia, e que a satisfação acadêmica constitui um objeto de seu interesse. Considerando o tempo de existência desta universidade, urgiu a necessidade de realizar a avaliação da satisfação dos estudantes em relação a diferentes aspectos da sua vida acadêmica, de modo a identificar o nível e os condicionantes e a colher sugestões dos estudantes sobre os aspectos por melhorar. Os resultados alcançados são essenciais para garantir a certificação dos cursos oferecidos pela IES investigada, pois a avaliação da satisfação acadêmica dos estudantes é uma das exigências do Conselho Nacional de Avaliação de Qualidade do Ensino Superior (CNAQ), uma instituição equivalente à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no Brasil.
E sendo uma universidade reestruturada e inserida num cenário educacional moçambicano altamente competitivo, esta precisa se autoafirmar a partir da garantia de altos níveis da satisfação dos estudantes, o que pode favorecer, possivelmente, a atração de novos candidatos. Esse cenário descrito despertou interesse aos pesquisadores a desenvolverem este estudo, que visibiliza o nível de satisfação acadêmica, os elementos relacionados ao grau de satisfação dos estudantes e os aspectos a serem melhorados a nível da unidade orgânica e das coordenações dos cursos. A exploração desses elementos pode auxiliar a tomada de decisão pelos gestores da instituição investigada com evidências científicas, no sentido de reestruturar as suas ações para atender às necessidades reais dos estudantes. Outrossim, os resultados alcançados servirão de base para sustentar o referencial teórico em futuras pesquisas.
Diante do exposto, o objetivo geral desta investigação foi de avaliar a satisfação acadêmica dos estudantes de Universidade Save, Extensão da Massinga, localizada na região Sul de Moçambique. De modo específico, buscaram-se os seguintes objetivos: compreender o nível de satisfação acadêmica de estudantes; verificar a variação da satisfação acadêmica em função das variáveis sociodemográficos e estudantis; identificar os antecedentes da satisfação acadêmica e explorar os aspectos por melhorar a nível da unidade orgânica de Massinga e dos cursos na perspectiva dos estudantes.
2 Metodologia
Esta pesquisa é explicativa e quantitativa. De acordo com Gil (2008, p. 28), as pesquisas explicativas “[...] são aquelas pesquisas que têm como preocupação central identificar os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenómenos”. Este é o tipo de pesquisa que mais aprofunda o conhecimento da realidade, porque explica a razão, o porquê das coisas, e pode-se dizer que o conhecimento científico está assentado nos resultados oferecidos pelos estudos explicativos.
Para Creswell, J., e Creswell, D. (2018, p. 336), pesquisa quantitativa “[...] visa testar teorias objetivas, examinando as relações entre as variáveis”. Para esses autores, tais variáveis podem ser medidas por instrumentos padronizados, para que os dados números possam ser analisados por procedimentos estatísticos. Desse modo, a opção desses tipos de estudo justifica-se pelo fato de possibilitarem a compreensão dos fatores relacionados à ocorrência dos fenômenos, por um lado, e envolvimento de um tamanho maior de participantes, assim como uso de instrumentos padronizados e permitirem efetuar análises estatísticas dos dados, por outro lado.
A coleta de dados foi realizada por meio dos seguintes instrumentos: questionário de dados sociodemográficos e acadêmicos, Escala de Satisfação com a Experiência Acadêmica (Esea) e uma pergunta de livre expressão. O questionário sobre os dados sociodemográficos foi elaborado pelos autores, com a finalidade de obter informações pessoais e acadêmicas, tais como: idade, situação conjugal, sexo, curso, ano de frequência e turno. Essas informações foram usadas para determinar o perfil dos participantes e verificar as variações do nível da satisfação acadêmica entre os estudantes.
A Esea é um instrumento da autoria de Schleich, Polydoro e Santos (2006), composta por 35 itens, compreendendo três dimensões: satisfação com o curso (13 itens: 1, 5, 8, 12, 13, 14, 21, 25, 28, 31, 33, 34 e 35; α = 0,90), satisfação com a oportunidade de desenvolvimento (10 itens: 2, 3, 6, 9, 10, 11, 17, 23, 24 e 26; α = 0,87) e satisfação com a instituição (12 itens: 4, 7, 15, 16, 18, 19, 20, 22, 27, 29, 30 e 32; α = 0,87). Em relação à confiabilidade interna, na versão original obteve-se um coeficiente alfa de Cronbach de 0,94, indicando uma ótima consistência interna dos seus itens na avaliação da satisfação com a experiência acadêmica.
O instrumento é respondido numa escala do tipo Likert de cinco pontos: 1) “nada satisfeito”, 2) “pouco satisfeito”, 3) “satisfeito”, 4) “bem satisfeito”; e 5) “completamente satisfeito”. Em termos da avaliação da satisfação acadêmica, os participantes que sinalizam nos pontos 1 e 2 estão insatisfeitos com o item referenciado e de 3 a 5 estão satisfeitos, sendo que o 5 revela que o estudante está altamente satisfeito ou encantado. Conforme esse critério, foram organizadas duas categorias através do somatório das frequências dos pontos 1 e 2 (insatisfeitos) e 3, 4 e 5 (satisfeitos) para aferir o número total para cada uma dessas categorias.
Além do excelente valor do alfa de Cronbach que a Esea apresenta, a preferência por esse instrumento para avaliar a satisfação acadêmica reside no fato de a literatura científica revelar que ele tem sido habitualmente utilizado nos últimos tempos, superando algumas das insuficiências psicométricas de outras medidas, e, mais ainda, no fato de ser redigido em língua portuguesa e ser de fácil aplicação (Ramos et al., 2015; Salomão; Abacar; Aliante, 2018). Por final, foi feita uma questão aberta - de livre expressão aos estudantes - que solicitava que indicassem e descrevessem os aspectos a serem melhorados em todos os contextos da Universidade Save, Extensão da Massinga.
O tratamento de informações coletadas foi feito com o auxílio do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 22,0. Os dados foram, inicialmente, inseridos na base de dados de Excel e migrados para o SPSS. Com base no SPSS, realizaram-se análises descritivas simples (médias, desvio-padrão e frequências) para a determinação do perfil sociodemográfico dos participantes, do grau de satisfação acadêmica e seus antecedentes e dos elementos por melhorar. Igualmente, realizou-se a inspeção da propriedade interna da Esea através do cálculo do valor de alfa de Cronbach, assim como a Análise de Variância (Anova, one-way) para a comparação das médias das dimensões da Esea em função das características sociodemográficas e acadêmicas.
Participaram deste estudo 285 dos 1.172 estudantes regularmente matriculados em diferentes cursos de graduação no ano letivo de 2022 na Universidade Save, Extensão da Massinga. A amostra investigada enquadra-se na tipologia não probabilística, por acessibilidade (Gil, 2008), ou seja, foram envolvidos aqueles estudantes que, depois de receberem o convite feito pelos pesquisadores, consentiram voluntariamente em participar da pesquisa.
Dos 285 participantes, a maioria (n=173; 60,7%) era do gênero feminino, com idades variadas de 19 a 43 anos (M=24,74; DP=4,79). Quanto aos cursos a que estes estavam vinculados, 66 (23,2%) eram de Biologia, 37 (13,0%) de Agropecuária, 36 (12,6%) de Psicologia Educacional, 33 (11,6%) de Química, 30 (10,5%) de História, 29 (10,2%) de Física, 28 (9,8%) de Psicologia e 26 (9,1%) de Gestão de Recursos Humanos.
Quanto ao ano de frequência, 175 (61,0%) estavam no 4º ano, 56 (19,6%) no 2º ano e 55 (19,4%) no 3º ano. No que tange ao turno que frequentavam, 231 (81,1%) eram do laboral e 54 (18,9%) do pós-laboral. No que diz respeito à situação conjugal, a maioria (n=174; 61,1%) declarou não ter companheiro. Desse modo, esta investigação envolveu estudantes de 2º a 4º ano, do regime presencial, que aceitaram voluntariamente participar dela, de ambos os gêneros e de diferentes cursos. Pelo contrário, foram excluídos estudantes do 1º ano, do regime de ensino a distância e de outros níveis de ensino.
A coleta de dados foi realizada entre os meses de setembro e outubro de 2022 na Universidade Save, Extensão da Massinga, antecedida pela solicitação de autorização feita por meio de uma carta dirigida ao diretor da extensão, que foi respondida favoravelmente. Após a autorização pela direção máxima da instituição, os pesquisadores contataram as direções dos cursos para a sua apresentação, pedido de colaboração e disponibilização de tempo para a aplicação dos instrumentos de pesquisa.
A aplicação dos instrumentos de pesquisa ocorreu nas salas de aula no período disponibilizado pela coordenação dos cursos e docentes. Antes de serem administrados os questionários aos estudantes, os pesquisadores lhes explicavam os objetivos, os procedimentos metodológicos da pesquisa, bem como solicitavam sua participação voluntária. Aos estudantes que consentiram livremente em participar da pesquisa foram entregues os questionários impressos para o seu preenchimento individual. Houve garantia do anonimato e confidencialidade das informações, pois não foi solicitado o nome de nenhum participante; apenas os pesquisadores tiveram acesso aos questionários respondidos.
Depois da aplicação dos questionários, foi feita uma triagem para verificar se todos eles estavam devidamente preenchidos. Desse processo resultou a inutilização de certos questionários devido a vários motivos, tais como: preenchimento incorreto e omissão de algum dado. Para questões de identificação dos questionários, a cada um dos participantes foi atribuído um código SA, seguido do respectivo número segundo a sequência dos participantes, ficando, por exemplo: SA1, SA2, SA3, SA4 … SA285.
A divulgação e socialização pública dos resultados ocorreu por meio da apresentação do resumo no IV Seminário Internacional de Investigação Científica e XIV Seminário de Divulgação de Projetos Financiados pelo Fundo Nacional de Investigação (FNI), que teve lugar na cidade de Maputo, no período de 19 e 20 de outubro de 2022, de modo híbrido, bem como nas festividades do dia 5 de setembro de 2024, Dia da Universidade Save.
3 Resultados
3.1 Análise descritiva de confiabilidade da Esea
A Tabela 1 apresenta resultados de análise descritiva (médias e desvio-padrão) e confiabilidade interna (valores de alfa de Cronbach) da Esea-35 e dos itens. No que diz respeito às médias dos itens e dimensões, os resultados indicam que, de um modo geral, a dimensão que obteve maior média é a de satisfação com o curso (M=3,12). Isso revela que a maioria dos estudantes investigados estava satisfeita com diversos aspectos dessa dimensão. Como prova disso, sete dos 13 itens que compõem essa subescala tiveram uma média acima de três, a saber: relacionamento interpessoal com os colegas do curso; conhecimento dos professores sobre o conteúdo das disciplinas que ministram, bem como relevância do conteúdo das disciplinas; interesse dos professores em atender aos estudantes durante as aulas, chats, fóruns e no decorrer das disciplinas no geral; estratégias de ensino utilizadas pelos professores; disponibilidade dos professores em atender aos alunos fora da sala de aula e adequação do conteúdo para a formação.
Ainda na Tabela 1, as dimensões de satisfação com a instituição e com a oportunidade de desenvolvimento apresentaram médias abaixo de três, o que sugere que há uma insatisfação dos estudantes pesquisados em relação aos itens que compõem essas duas subescalas. Como evidência, na dimensão de satisfação com a instituição, apenas dois dos 12 itens alcançaram a média de três, que são: segurança oferecida pela instituição e limpeza da instituição. No fator de satisfação com a oportunidade de desenvolvimento, observou-se que somente um item (exemplo: meu envolvimento nas atividades do curso) dos 10 é que alcançou uma média superior ao ponto de corte: três.
Em relação aos valores da inspeção da confiabilidade interna, a Esea revelou atingir um excelente valor global de alfa de Cronbach de 0,92. Quanto aos valores de cada dimensão, os alfas de Cronbach são de 0,87, 0,79 e 0,74 para os fatores de satisfação com o curso, satisfação com a instituição e oportunidade de desenvolvimento, sucessivamente.
3.2 Análise de variância entre as dimensões da satisfação acadêmica e as variáveis sociodemográficas dos estudantes investigados
Conforme a Tabela 2, os estudantes dos cursos de Gestão de Recursos Humanos, Psicologia Educacional, História, Agropecuária, Química e Psicologia do 2º e 4º anos, dos dois regimes, com variadas idades, mostraram-se mais satisfeitos com a dimensão do curso. Nas dimensões de satisfação com as oportunidades de desenvolvimento e com a instituição, apenas estudantes com idade superior a 35 anos revelaram sua satisfação.
3.3 Aspectos por melhorar para assegurar níveis altos de satisfação acadêmica: perspectivas dos participantes
Finalmente, de modo a explorar os aspectos institucionais e do ambiente acadêmico que devem ser melhorados na percepção dos estudantes investigados, foram solicitados aos participantes para relatá-los, e os resultados das respostas dessa questão de livre expressão são apresentados na Tabela 3.
Com se observa na Tabela 3, os elementos da categoria de condições da universidade e do ensino-aprendizagem foram os mais mencionados, seguidos de organização e gestão do curso, relacionamento interpessoal, atendimento público, qualidade de professores, políticas de assistência estudantil, mensalidades e documento institucional de identificação dos estudantes.
4 Discussão
Os resultados deste estudo indicam que a maioria dos estudantes estava satisfeita com a dimensão do curso e insatisfeita com as dimensões de satisfação com a instituição e a oportunidade de desenvolvimento. De igual modo, Fadel et al. (2018), ao compreenderem a satisfação acadêmica com o recurso ao mesmo instrumento usado neste estudo, constataram que médias mais elevadas foram observadas na dimensão de “satisfação com o curso”, enquanto as dimensões “satisfação com a instituição” e “oportunidade de desenvolvimento” obtiveram médias menores, porém próximas entre si. Na mesma senda, Assis, Moura e Alves (2020), ao analisarem a satisfação acadêmica de estudantes, observaram elevadas expectativas em relação às questões de dimensão de satisfação com o curso, tais como: compromisso da instituição com a qualidade do ensino e da pesquisa, conhecimento dos professores sobre o conteúdo das disciplinas que ministram e relacionamento com os professores e colegas de classe.
Soares et al. (2021) desenvolveram um estudo em que objetivaram identificar as características que compõem a satisfação dos estudantes universitários com o curso superior e verificaram que o papel do professor e a grade curricular assumiam destaque como elementos de satisfação acadêmica. No que tange à satisfação com o curso, detectou-se que a grade curricular bem articulada impactava positivamente na percepção que os alunos tinham da universidade, e isso refletia a importância que a universidade atribuía ao curso e ao discente. Em sentido oposto, a insatisfação com o curso ocorria quando a IES proporcionava atividades extracurriculares de baixa qualidade, estrutura precária no campus e pouca oferta de estágios. A insatisfação também se relacionava principalmente ao não vivenciar aspectos práticos da profissão ou com a pouca qualidade da informação fornecida.
Em Moçambique, Campira, Almeida e Araújo (2021) analisaram a satisfação acadêmica de estudantes universitários através de uma amostra de 30 participantes que responderam a um roteiro de entrevista semiestruturada. Os resultados indicaram que os aspectos da satisfação estavam relacionados com a aprendizagem (exemplo: qualidade de aprendizagem e metodologias de ensino), relações interpessoais (exemplo: respeito mútuo entre a comunidade acadêmica, colaboração e amizade entre os estudantes), infraestrutura (exemplo: localização e condições do campus), perspectivas sobre a carreira (exemplo: sucesso profissional em função do aprendido e expectativas do bom desempenho profissional) e curso (exemplo: satisfação com o currículo do curso).
Pelo contrário, outras pesquisas anteriores (Helfenstein et al., 2020; Oliveira et al., 2022; Pereira et al., 2018; Rossato; Pinto; Müller, 2020; Suehiro; Andrade, 2018) tiveram resultados divergentes. Pereira et al. (2018) e Rossato, Pinto e Müller (2020), por exemplo, analisando a satisfação de estudantes de uma universidade pública por meio das suas experiências acadêmicas, constataram que os discentes revelaram elevados níveis de satisfação geral com o curso, com a instituição e com as oportunidades de desenvolvimento. Na investigação de Suehiro e Andrade (2018), constatou-se que o menor nível era da satisfação na dimensão satisfação com o curso. Já Oliveira et al. (2022) investigaram a satisfação de estudantes e verificaram que os acadêmicos se apresentaram indiferentes aos domínios satisfação com o curso, oportunidade de desenvolvimento e satisfação com a instituição.
Em relação à análise de variância na satisfação dos estudantes investigados com as variáveis sociodemográficas e acadêmicas, os resultados obtidos apontaram que os alunos que frequentavam os cursos de Gestão de Recursos Humanos, Psicologia Educacional, História, Agropecuária, Química e Psicologia do 2º e 4º anos do regime pós-laboral (curso noturno), com idades superiores a 35 anos, foram os mais satisfeitos com a dimensão do curso. De modo similar, Silva e Oliveira Júnior (2016) verificaram que a satisfação acadêmica variava em função da área científica do curso, encontrando- -se níveis mais elevados de satisfação entre estudantes de Ciências Humanas e níveis mais baixos junto de estudantes da área de Ciências Exatas.
A satisfação acadêmica com o curso dos discentes do curso noturno pode ser justificada, possivelmente, pela situação empregatícia deles, uma vez que a maioria já se encontrava empregada e inserida no mercado de trabalho, tendo uma certa estabilidade financeira (Osti et al., 2020). Neste mesmo estudo, a dimensão aprendizagem e rendimento acadêmico foi apontada como fator de satisfação entre estudantes das áreas de Ciências Humanas e Biológicas, e a maior insatisfação se manifestou em estudantes da área das Ciências Exatas, os quais afirmavam dificuldade na obtenção das médias mínimas exigidas pela universidade. Em relação ao ano do estudo, estes resultados divergem daqueles obtidos por Czapievski e Sumiya (2014), que notaram que os estudantes do 3º ano eram os mais satisfeitos na dimensão satisfação com o curso.
Os participantes deste estudo sugeriram melhorar as condições da universidade e do ensino-aprendizagem na organização, na gestão do curso, no relacionamento interpessoal, no atendimento público, na qualidade de professores, nas políticas de assistência estudantil, na redução das mensalidades e na provisão do documento institucional de identificação dos estudantes. Kuzehgar e Sorourkhah (2024), ao identificarem os fatores que afetavam a satisfação e a insatisfação dos estudantes universitários, obtiveram resultados que indicaram um nível significativo de insatisfação com a dimensão educacional e os métodos de ensino dos professores. Além disso, na dimensão administrativa, a insatisfação era mais concentrada nas áreas de serviços de assistência social e instalações universitárias. Na dimensão administrativa, o não cumprimento correto das responsabilidades levou à insatisfação dos alunos.
Considerando que a satisfação acadêmica tem influência nos aspectos que vão desde o desempenho acadêmico até a saúde mental dos discentes, ratifica-se a sugestão de Chico, Osti e Almeida (2022) referente à necessidade da realização de mais estudos na área e aplicações periódicas de questionários e/ou escalas que avaliem a satisfação dos estudantes do ensino superior. Investigações mais consistentes, tomando amostras mais numerosas e de diferentes instituições, cursos e regimes, assim como diversos instrumentos de coleta de dados, podem ajudar a identificar as fragilidades presentes nas instituições, tal como sejam encontrados os maiores descontentamentos presentes dentre os estudantes, para que assim possam ser planejadas medidas de controle a fim de evitar sofrimento por parte dos graduandos e evitar uma possível evasão acadêmica no ensino superior. De modo específico, é fundamental a direção da Universidade Save levar em consideração estes achados, assim como dar continuidade aos estudos desta temática e alargá-los para outras extensões.
5 Considerações finais
Este estudo teve como objetivo avaliar a satisfação acadêmica de estudantes da Universidade Save, Extensão da Massinga. Os resultados indicaram que a maioria dos estudantes estava satisfeita com o curso e insatisfeita com as oportunidades de desenvolvimento e com a instituição. Constatou-se variação dos níveis de satisfação acadêmica com os dados sociodemográficos dos estudantes. Esses resultados podem auxiliar a direção da instituição investigada na tomada de decisões estratégicas no sentido de atuar sobre os aspectos negativos referidos pelos discentes de modo a melhorá-los, assim como fundamentar futuras pesquisas. A melhoria desses aspectos não só pode contribuir para elevar o grau de satisfação dos alunos, bem como no combate à evasão acadêmica.
Este estudo foi desenvolvido junto aos estudantes de uma universidade pública. Desse modo, sugere-se que a avaliação de satisfação acadêmica seja feita de modo contínuo nessa instituição, pois compreende um construto psicológico cujos fatores condicionantes são dinâmicos e contextuais. Igualmente, é desejável o alargamento deste tipo de pesquisas para toda a Universidade Save e outras instituições de ensino superior do país. Tais sugestões são dadas no entendimento de que o diagnóstico e a avaliação da satisfação acadêmica auxiliam a compreender as fragilidades e deficiências nas instituições do ensino superior e apresentam descobertas importantes a respeito do sucesso e permanência do estudante universitário.
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Como citar este artigo (ABNT):
ALIANTE, Gildo; LAITA, Armando Venâncio; GOVENE, Edson Pensamento; JOSÉ, Coutinho Maurício. Satisfação acadêmica de estudantes de graduação da Universidade Save, em Inhambane, Moçambique. Educação & Formação, Fortaleza, v. 10, e14968, 2025. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/redufor/article/view/e14968
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Editado por
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Editora responsável:
Lia Machado Fiuza Fialho
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