Open-access Faces do envelhecer: percepção de crianças sobre a pessoa idosa e o envelhecimento

Rostros del envejecimiento: la percepción de los niños sobre las personas mayores y el envejecimiento

Resumo

Objetivos  identificar a percepção de crianças sobre a pessoa idosa e o envelhecimento por meio de desenhos.

Método  pesquisa qualitativa exploratória desenvolvida com crianças de escolas públicas. Os dados foram coletados no período de fevereiro a junho de 2024 em duas escolas de ensino fundamental I e três de ensino fundamental II, totalizando 320 crianças. A cada criança foi solicitada a realização de um desenho expressando sua percepção da pessoa idosa e do processo de envelhecimento. Foram incluídos na pesquisa os desenhos das crianças cujos pais autorizaram a participação. Os dados foram analisados pela abordagem psicológica da Gestalt-terapia.

Resultados  o total de 271 crianças participou do estudo. Os desenhos coletados foram categorizados em 12 elementos representativos. Dentre eles, os de maior representatividade sobre o envelhecimento foram: natureza, ciclo da vida, felicidade/amor, como também de pessoas idosas expressando dor, sofrimento e debilidade. Poucos desenhos mostraram a pessoa idosa em atividades funcionais.

Considerações finais e implicações para a prática  embora a percepção infantil do envelhecer traga elementos positivos, a fragilidade e a incapacidade da pessoa idosa estão fortemente presentes. Esses achados oferecem subsídios para intervenções educacionais/sociais com as crianças de modo a promover uma visão mais positiva e inclusiva da pessoa idosa na sociedade.

Palavras-chave:
Crianças; Dinâmica Populacional; Envelhecimento; Idoso; Relações Familiares

Abstract

Objectives  to identify children's perception of older adults and aging, through drawings.

Method  this exploratory qualitative study was conducted with children from public schools. Data were collected from February to June 2024 in two elementary schools and three middle schools, totaling 320 children. Each child was asked to draw a picture expressing their perception of older adults and the aging process. Drawings from children whose parents authorized their participation were included in the study. Data were analyzed using the Gestalt therapy approach.

Results  a total of 271 children participated in the study. The collected drawings were categorized in to 12 representative elements, and the most representative ones of aging were: nature, life cycle, happiness/love, as well as elderly people expressing pain, suffering and weakness. Few drawings showed older adults in functional activities.

Final considerations and implications for practice  although children's perception of aging brings positive elements, the fragility and incapacity of older adults are strongly present. These findings may guide educational/social interventions with children in order to promote a more positive and inclusive view of the elderly in society.

Keywords:
Child; Population Dynamics; Aging; Older adult; Family Relations

Resumen

Objetivos  identificar la percepción de los niños sobre las personas mayores y el envejecimiento, a través de dibujos.

Método  este estudio cualitativo exploratorio se realizó con niños de escuelas públicas. Los datos se recopilaron entre febrero y junio de 2024 en dos escuelas primarias y tres de educación secundaria, con un total de 320 niños. A cada niño se le pidió que dibujara una imagen que expresara su percepción de las personas mayores y el proceso de envejecimiento. Se incluyeron en el estudio los dibujos de los niños cuyos padres autorizaron su participación. Los datos se analizaron mediante el enfoque de la terapia Gestalt.

Resultados  participaron en el estudio 271 niños. Los dibujos recopilados se clasificaron en 12 elementos representativos, y los más representativos del envejecimiento fueron: la naturaleza, el ciclo vital, la felicidad/amor, así como las personas mayores que expresan dolor, sufrimiento y debilidad. Pocos dibujos mostraban a la persona mayor em actividades funcionales.

Consideraciones finales e implicaciones para la práctica  aunque la percepción del envejecimiento por parte de los niños aporta elementos positivos, la fragilidad e incapacidad de las personas mayores están fuertemente presentes. Estos hallazgos ofrecen subsidios para intervenciones educativas/sociales con niños para promover una visión más positiva e inclusiva de las personas mayores en la sociedad.

Palabras-clave:
Niño; Dinámica Poblacional; Envejecimiento; Personas Mayores; Relaciones Familiares

INTRODUÇÃO

A dinâmica populacional tem se intensificado significativamente no Brasil e no mundo, marcada pelo acelerado processo de envelhecimento, que constitui uma das principais características da transição demográfica na sociedade contemporânea. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a população com 65 anos ou mais passou de 21 milhões, em 2010, para 33 milhões, em 2022.1,2

No Brasil, é importante mencionar que entre as regiões Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sul e Sudeste, a maior concentração de população idosa encontra-se nas regiões Sul e Sudeste, onde quase 13% da população estão com 65 anos ou mais. Destaca-se que a idade mediana da população brasileira alcançou 35 anos em 2022, o que representa um aumento de seis anos em comparação a 2010. Além disso, o índice de envelhecimento também apresentou crescimento expressivo: em 2022, havia 55,2 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, enquanto em 2010 esse índice era de 30,7. Ao considerar a população com 60 anos, o índice estava na proporção de 80 pessoas idosas para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, em 2022.2,3

O fenômeno da dinâmica populacional correlaciona-se também a mudanças comportamentais da população, refletindo na queda de natalidade e mortalidade materno-infantil, o que, atrelado às melhorias de qualidade de vida e acesso da população aos serviços de saúde, refletem o aumento da expectativa de vida.4

No entanto, a nova estrutura etária da população acarretará desafios para as políticas públicas, principalmente, no que se refere à relação entre jovens e idosos. Para os jovens, a população estudantil compreenderá uma população relativamente menor do que a expectativa para 2050. Em contrapartida, a população idosa, que se encontra em plena ascensão, demandará maiores necessidades com relação aos recursos destinados à saúde e à previdência social.5

Atualmente, a convivência multigeracional em um mesmo ambiente já é uma realidade, seja familiar, no trabalho e até mesmo no lazer, o que se reflete em enfrentamentos de diversos desafios sociais. A discussão desse processo complexo da longevidade familiar multigeracional torna-se crucial no que se refere a subsídios que favoreçam boas tratativas para esse fenômeno.6,7

Nessa lógica, é importante que a sociedade esteja preparada para o convívio com a população idosa em diversas situações, pois as pessoas idosas estão cada vez mais presentes no âmbito social, em diferentes papéis. No entanto, não se pode ignorar que a nova geração, muitas vezes identificada como a geração da tecnologia, pode demonstrar incômodo diante desse processo. Nessa perspectiva, infere-se que cabe à a pessoa idosa adaptar-se ao novo contexto da vida moderna. Essa incompreensão sobre o fenômeno do envelhecimento e o declínio funcional senescente esperado favorece a disseminação de estereótipos associados à população idosa, retratando-a como pessoas lentas e debilitadas.8,9

É certo que a família acaba se tornando a mais direta fonte de apoio informal e psicossocial das pessoas idosas, constituindo uma relação de conflito e cooperação entre os entes. O mesmo processo acontece com a criança nos primeiros anos de vida. Sabe-se que os ambientes imediatos à criança, como a convivência no meio familiar ou a frequência regular em um ambiente coletivo educacional influenciarão o curso do desenvolvimento infantil. Portanto, quanto melhor for a qualidade do ambiente familiar, melhor será o desempenho motor, psicossocial e cognitivo da criança.10

No entanto, quando este convívio entre pessoas idosas e crianças se torna escasso, consequentemente, as representações sociais entre ambos podem se tornar distorcidas, fortalecendo, na criança, a visão deturpada e estereotipada da pessoa idosa.9 A valorização do convívio social entre crianças e pessoas idosas, orientada por premissas de educação em gerontologia, tem sido associada a impactos positivos no enfrentamento de preconceitos relacionados à velhice. Portanto, pesquisas que valorizam a transformação social por meio da educação infantil corroboram com a transformação social no convívio da pessoa idosa na sociedade.11

A troca de experiências entre as gerações é descrita na literatura como um instrumento potente para que a discriminação da pessoa idosa seja interrompida. Assim, ao considerar que uma criança em processo de desenvolvimento, em fase de novos aprendizados significativos para sua formação como pessoa, ao valorizar a experiência de vida de uma pessoa idosa, certamente desenvolverá uma relação prazerosa e respeitosa, de forma a ressignificar percepções multigeracionais.12 Dessa maneira, é importante ressaltar que a forma como é estabelecida a relação entre crianças e pessoas idosas será crucial para impactar a forma como essa criança considerará esses indivíduos na sociedade e, consequentemente, ao adulto/idoso que se tornará no futuro.13,14

Assim, considerando o acelerado processo de envelhecimento populacional, associado ao fato de que crianças e pessoas idosas irão conviver mais próximas, bem como a importância desse convívio para a ruptura de estereótipos sobre a pessoa idosa, esta pesquisa objetivou identificar a percepção de crianças sobre a pessoa idosa e o envelhecimento, por meio de desenhos.

MÉTODO

Pesquisa qualitativa exploratória desenvolvida em Escolas Estaduais de Ensino Fundamental I e II de um município de médio porte do interior paulista, constituída por 34 escolas desse nível de ensino.

Importante destacar que o ensino fundamental se classifica como Ensino Fundamental I (EF I) e Ensino Fundamental II (EF II); assim, o EF I, compreende do 1º ao 5º ano, com idade infantil de seis a dez anos. Já o EF II, compreende as séries de 6º ao 9º ano, e as crianças têm idades entre 11 e 14 anos. Dentre as 34 escolas do referido município, seis apresentam apenas o EF I, quatro apresentam o EF I e II e 24 apresentam apenas o EF II. Para este estudo, foram selecionadas, aproximadamente, oito escolas, distribuídas nas regiões norte, sul, leste e oeste do município. Dessas, cinco participaram da pesquisa, sendo duas do EF I e três do ensino EF II. Não houve possibilidade de coleta de dados nas demais escolas, por motivos particulares das instituições de ensino.

Os participantes da pesquisa foram crianças regulamente matriculadas no EF I e II nessas escolas públicas, na faixa etária de seis a 14 anos de idade. Como critério de inclusão, foi adotada a condição mínima de a criança estar matriculada e frequentando regularmente a escola, independentemente do sexo. Os critérios de exclusão foram: a impossibilidade cognitiva de participação da pesquisa, como as crianças com deficiências; crianças cujos responsáveis legais não autorizaram sua participação. Nessa lógica, todas as crianças do ensino fundamental das escolas selecionadas foram convidadas a participar da pesquisa e devidamente informadas quanto ao objetivo do estudo, assim como seus pais ou responsáveis. Para participarem da pesquisa, as crianças precisaram apresentar autorização dos pais ou responsáveis, por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assinado, por serem menores de idade.

O contato com os responsáveis pelas crianças, professores das classes escolares e direção da escola foi realizado pessoalmente pelos pesquisadores deste estudo, previamente à coleta. A coleta de dados ocorreu no período em que a criança estava na escola, de maneira organizada e ajustada às atividades escolares, sem provocar prejuízo à dinâmica de ensino, conforme orientado pela direção das escolas.

Os dados foram coletados no período de fevereiro a junho de 2024, por meio de desenhos lúdicos elaborados pelas crianças participantes da pesquisa. O desenho foi produzido em uma folha de papel sulfite fornecida pela equipe de pesquisadores. Na folha, as crianças foram orientadas quanto ao preenchimento de seus dados sociodemográficos como fase escolar, idade e sexo. Na sequência, as crianças executaram a seguinte comanda: “Faça um desenho da imagem que vem à sua cabeça quando você pensa em uma pessoa idosa e no envelhecimento”. Além da folha padrão, materiais escolares como lápis de cor (12 cores), lápis preto, borracha, régua e apontador, foram fornecidos para garantir a homogeneidade de condições.

Após a entrega das folhas, foi disponibilizado um tempo de, aproximadamente, 40 a 50 minutos para a execução e finalização do desenho pela criança. Ao término, foi solicitado às crianças que escrevessem uma frase explicando o que o desenho representa para ela. Durante toda a atividade, os pesquisadores permaneceram junto aos participantes para resolver possíveis dúvidas ou dificuldades apresentadas pelas crianças. O total de 320 crianças participaram da pesquisa; entretanto, 271 crianças devolveram o TCLE assinado pelos pais ou responsáveis e seus respectivos desenhos foram incluídos no estudo.

Após a coleta dos dados, os desenhos foram organizados em dois grupos. O grupo representado pelo EF I, que totalizou 137 desenhos, e outro grupo representado pelo EF II, totalizando 134 desenhos. Os dados sociodemográficos foram descritos de acordo com a distribuição de cada grupo (EF I e EF II).

A análise dos desenhos também foi realizada de acordo com o grupo categorizado - EF I e EF II -, e a abordagem psicológica da Gestalt-terapia foi utilizada como referencial de análise. A abordagem Gestalt-terapia consiste em uma perspectiva relacional da natureza humana, tendo como ponto central a ideia de que a experiência humana se dá através da interface entre o indivíduo e o ambiente em que está inserido.15 Logo, a escolha da referida abordagem se justifica pelo fato de que ao trabalhar com crianças, a comunicação não se restringe apenas à linguagem verbal, pois não existe apenas uma única forma predominante de diálogo com o público infantil. Para crianças, o desenho vai além de uma atividade recreativa, ele representa uma maneira de interagir e se conectar com o ambiente ao seu redor. Traços e rabiscos funcionam como uma espécie de registro para narrar histórias, brincadeiras, vontades, desejos e pensamentos.16

As categorias de análise foram construídas de forma indutiva, a partir da observação recorrente de temas e padrões nos desenhos. Inicialmente, foram realizados exames preliminares para identificação de tais padrões. Em seguida, os desenhos foram agrupados segundo dimensões comuns identificadas nas representações. A categorização foi realizada pelos pesquisadores de forma independente e, posteriormente, discutida até o alcance de consenso, como forma de garantir maior confiabilidade à análise.

A pesquisa foi encaminhada ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos para validação, de acordo com a Resolução nº 510/2016, sendo aprovada sob o parecer: 6.625.206. Todos os participantes que aceitaram participar da pesquisa receberam as informações pertinentes por meio do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido, por serem menores de idade. No entanto, como descrito anteriormente, apenas as crianças cujos pais/responsáveis assinaram o TCLE participaram do estudo. Preservando o anonimato das crianças participantes, elas foram identificadas com a letra P (participante) seguida do número do desenho. Assim, P1 se refere ao participante do desenho número 1.

RESULTADOS

Caracterização dos participantes

A amostra da pesquisa constituiu um total de 271 desenhos, considerando as duas escolas de EF I e as três escolas de EF II. Dentre as crianças do EFI, a maior parte da amostra tinha oito anos de idade; no EF II, a maioria relatou ter 11 anos de idade. Com relação ao sexo, 123 crianças eram do sexo feminino e 148 crianças do sexo masculino. A Tabela 1 apresenta a caracterização da amostra em maiores detalhes.

Tabela 1
Caracterização da amostra de acordo com a fase escolar, idade e sexo. Marília, 2024.

Análise dos desenhos

A análise dos dados coletados baseou-se em elementos selecionados a partir dos desenhos das crianças, utilizados como uma técnica projetiva no contexto da Gestalt-terapia. Nessa abordagem da Psicologia, as técnicas projetivas são ferramentas que permitem acessar conteúdos internos do indivíduo, como emoções, percepções e padrões de comportamento, a partir da expressão espontânea e criativa. Essas técnicas possibilitam que a criança projete, de forma simbólica, aspectos de sua vivência emocional em um meio externo, facilitando a identificação e compreensão de sentimentos, desejos e angústias. O desenho, especificamente, é visto como uma representação concreta do estado emocional e dos processos internos da criança, proporcionando um meio lúdico para que ela expresse as experiências subjetivas e aquilo que, muitas vezes, não consegue verbalizar.17

Dessa forma, partindo da análise dos desenhos apresentados pelas crianças, 12 elementos representativos foram elencados a fim de categorizar os achados expressos. Importante ressaltar que o mesmo desenho por vezes apresentou diferentes elementos, e, portanto, apresentado em mais de um elemento representativo. A Tabela 2 apresenta os elementos representativos categorizados, distribuídos conforme o grau escolar da criança.

Tabela 2
Elementos representativos observados nos desenhos das crianças participantes, distribuídos entre as escolas de EF I e II. Marília, 2024.

A Figura 1 ilustra um desenho representativo de cada elemento decodificado na análise da Gestalt-terapia. Observa-se que os desenhos dos elementos de natureza trouxeram figuras de árvores, flores e jardins. O sol e as nuvens também estiveram presentes nesse elemento. Os desenhos de casa/lar, expressaram pessoas idosas em sofás, assistindo televisão. Além disso, nesse elemento representativo, desenhos como relógios e utensílios de cozinha estiveram presentes. Os elementos de dor e/ou debilidade foram representados por desenhos com pessoas idosas apoiadas em bengalas, além da curvatura da coluna vertebral sempre correlacionada com a dificuldade de deambulação. Outros desenhos desse elemento expressaram pessoas idosas em cadeiras de rodas.

Figura 1
Desenhos representativos de cada um dos 12 elementos categorizados, elaborados pelas crianças participantes. Marília, 2024.

Os elementos representativos de felicidade, amor, sorriso e diversão trouxeram desenhos de pessoas idosas sorrindo, expressando felicidade e satisfação correlacionada a alguma atividade desenvolvida no momento, como colher frutas da árvore por exemplo. Já os elementos de pessoas idosas na companhia dos netos e/ou outras pessoas, trouxeram desenhos que destacaram a companhia da pessoa idosa, demonstrando a preocupação em não deixar essa pessoa idosa sozinha.

Os elementos do ciclo da vida foram representados por desenhos de bebê, criança, adolescente, adultos e pessoa idosa, seguindo a ordem cronológica do nascimento ao envelhecimento. Os elementos sobre o final da vida, sofrimento e/ou morte foram expressos por figuras de caixão e até mesmo uma pessoa em óbito, com os olhos fechados em sinal de cruz.

Os elementos de idosos precisando de ajuda foram representados por desenhos com pessoas idosas atravessando a rua, sendo auxiliadas por outra pessoa, além de desenhos em que a pessoa idosa recebia ajuda para carregar sacolas de compras. Os elementos de idosos em atividades funcionais retrataram pessoas idosas cuidando de jardins ou da própria casa. Já os desenhos do elemento relacionado à saudade apresentaram pessoas idosas em jardins, por vezes, até simbolizando a morte dessa pessoa; no entanto, as crianças escreveram frases de amor e saudade para com essa pessoa desenhada na folha.

Os elementos de solidão foram representados por desenhos de pessoas idosas sozinhas, com expressões de entristecimento. Nos elementos representados por desenhos sem pessoas, observou-se desenhos de coração, por vezes representando sinais de ruptura, como algo já desgastado.

DISCUSSÃO

Os elementos representativos apresentados na Tabela 2 foram elencados conforme a frequência expressa pelas crianças como técnica projetiva, a partir dos desenhos e elaborados com base em dois preceitos relevantes da Gestalt-terapia: o contato e o aqui-e-agora.

O conceito de contato refere-se ao processo pelo qual o indivíduo interage com o ambiente e com as pessoas ao seu redor e, através dele, assimila e dá significado ao seu campo de experiências.18 Já o conceito de aqui-e-agora, ressalta a importância de focar no presente, tanto em termos temporais quanto espaciais, permitindo que a criança se concentre nas suas experiências atuais. Isso possibilita a exploração de emoções, pensamentos, sensações e percepções que estão ocorrendo no momento, facilitando uma interpretação pessoal do que acontece em seu mundo interno e no ambiente ao redor, promovendo uma conexão mais profunda com a experiência vivida.19

A literatura aponta que, ao realizar um desenho prospectivo de si, a criança expressa sua projeção do que aquele fenômeno representa para ela.13 Dessa forma, pode-se notar que os achados expressos nos desenhos das crianças participantes desta pesquisa apresentaram percepções sobre o processo de envelhecimento sob diferentes experiências, permeando por aspectos relacionados à felicidade e amor, mas também à dor, debilidade e solidão.

Ao correlacionar elementos da natureza como nuvens, pássaros, árvores e flores ao processo de envelhecimento, a criança busca expressar uma projeção positiva relacionada àquele fenômeno. No entanto, uma pesquisa realizada com a mesma proposta, trouxe nos resultados desenhos considerados felizes, com elementos de natureza quando associados à infância ou juventude, destacando a tristeza para o enfrentamento da velhice.13

Pessoas idosas na companhia de crianças, expressa por meio dos desenhos que simbolizavam avós e netos, trouxe um significado importante para o processo de relação multigeracional. As interações de relacionamento entre as pessoas idosas e as crianças, quando influenciadas por sentimentos de bem-estar e satisfação, favorecem uma percepção positiva sobre o processo de envelhecimento. Nessa mesma lógica, a figura da casa, por exemplo, pode ser representada como um símbolo de conforto e estabilidade, descanso e segurança, sendo reflexo de um ambiente construído por memórias, histórias e experiências de vida.12

Compreende-se por família, um conglomerado de pessoas que são unidas por relações afetivas ou com certo grau de parentalidade, e que vivem em um mesmo ambiente. Dessa forma, constroem-se relações íntimas de cuidados e proteção, considerando um ambiente harmônico e respeitoso. Nessa lógica, para a pessoa idosa, o contato com a família acaba por gerar certo bem-estar psicossocial, quando estabelecidas relações respeitosas e confortáveis.20

Uma pesquisa realizada no Piauí descreveu a percepção da pessoa idosa sobre como sua família lhe percebe na velhice. Identificou-se que, mesmo frente às divergências familiares, expressões de companheirismo e cuidados foram destacados nos discursos analisados, o que implica no propósito acolhedor e integrador que o ambiente familiar promove tanto para pessoa idosa quanto para os demais familiares envolvidos.21

Para que o processo do envelhecimento se desenvolva de forma respeitosa e harmoniosa no convívio familiar, as relações multigeracionais devem acontecer na perspectiva da segurança, confiança e tranquilidade. Nesse contexto, as relações familiares tendem a se desenvolver de forma mais positiva e produtiva para todas as gerações. A convivência multigeracional mostra-se relevante não apenas ao processo de envelhecimento, mas também para o fortalecimento de uma consolidação de uma nova perspectiva da pessoa idosa na sociedade. Essa relação deve ser baseada no respeito e na valorização dos envolvidos, favorecendo assim, a construção de diferentes relacionamentos interpessoais.14-22

O ato de envelhecer pode desencadear sentimento de insegurança e medos; assim, o convívio de pessoas idosas com pessoas mais jovens, em um ambiente saudável, pode favorecer a preservação da autonomia e independência da pessoa idosa, e este vem a contribuir com sua experiência de vida aos mais jovens.23

Os desenhos construídos a partir da ideia de dor e/ou debilidade podem estar relacionados à forma como as crianças internalizam e expressam suas percepções e emoções, de acordo com o que observam ao seu redor. Essas crianças podem ter vivenciado situações com seus avós e/ou com pessoas idosas com comprometimento na saúde. Um estudo desenvolvido com adolescentes retratou sob a percepção desse público sobre as pessoas idosas. Embora os adolescentes tenham apresentado concepções positivas com relação ao processo de envelhecimento e à pessoa idosa, 50% da amostra participante referiram aspectos negativos da velhice, como, por exemplo, a dependência funcional da pessoa idosa.24

Historicamente, a pessoa idosa é rotulada como um indivíduo oposto aos jovens, que se apresentam, socialmente, em dinâmicas funcionais, ativas e produtivas. Isso significa que a pessoa idosa está fortemente associada à dependência, improdutividade, isolamento social, enfermidade, incapacidade, declínio e morte. Dessa forma, a pessoa idosa sofre rejeições sociais, sendo vista, pejorativamente, com um ser disfuncional. Essa herança social contribui para que as crianças desenvolvam e sustentem a afirmação de que a pessoa, uma vez sendo idosa, passa a não ter mais valor para a sociedade.25 Na presente pesquisa, essas colocações foram expressas em desenhos que representaram o final da vida de um indivíduo, bem como o sofrimento e a morte, exemplificadas com cruz e caixão, que pode ter sido internalizada por programas de desenho animado e por experiências pessoais de lutos e perdas vivenciadas.

As pessoas idosas também foram representadas por desenhos que sinalizavam situações de dependência, correlacionando a velhice a uma pessoa fragilizada, vulnerável e debilitada, fazendo uso de bengalas e até mesmo de cadeiras de rodas. Esses achados coadunam com pesquisas que também apresentaram concepções de pessoas idosas associadas a declínios funcionais e estereótipos que sinalizam dificuldades físicas e visuais, além de favorecer a solidão e o abandono da pessoa idosa.13,25 O processo de solidão da pessoa idosa é descrito na literatura como um retrato de um indivíduo menos ativo na sociedade, ou seja, sua disfunção física e social o torna uma pessoa insignificativa para a sociedade.26

A literatura destaca ainda que, embora a pessoa idosa sofra com os preconceitos impostos à sua disfunção orgânica natural do processo de envelhecimento, um bom gerenciamento do convívio entre crianças e idosos, com vistas à compreensão da importância de desfrutar de boas experiências de vida para um ensinamento sobre condutas pessoais, implicará na ruptura de conceitos preconceituosos e rotulados.14-27 Além disso, pode-se evidenciar a consolidação de novos conceitos sobre o processo de envelhecer após a inserção de ações educacionais em gerontologia, sobretudo para crianças, favorecendo assim, atitudes acolhedoras, respeitosas e inclusivas para com a pessoa idosa na sociedade.13

CONSIDERAÇÕES FINAIS E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

Este estudo produziu uma coleta de dados significativa sobre a percepção infantil do envelhecimento, revelando que os desenhos infantis refletem experiências pessoais e simbolizam uma rede complexa de significados. Após a análise dos desenhos realizados pelas crianças participantes, por meio da Gestalt-terapia, foi possível evidenciar a projeção infantil sobre a velhice ou até mesmo a sua própria projeção ao ficar idosa. Dessa forma, o panorama encontrado expressa aspectos positivos, como carinho nas relações intergeracionais, mas também temas como solidão e morte. A associação entre a natureza e o envelhecimento aponta para o uso de metáforas acessíveis, auxiliando na compreensão lúdica do ciclo da vida e sugerindo aplicações pedagógicas. A presença de temas como saudade reforça a interconexão entre memória e identidade emocional infantil, destacando a influência da perda nessa construção.

A presente pesquisa limita-se pelo fato de ter sido aplicada em apenas um município do interior paulista, fazendo-se necessárias novas pesquisas em diferentes partes do Brasil. Contudo, o estudo avança no que se refere aos subsídios para políticas educacionais que promovam uma visão inclusiva e positiva do envelhecimento, uma vez que os resultados indicam a necessidade de abordagens educacionais que discutam o envelhecimento e o luto, desafiando estereótipos que a população idosa ainda apresenta. Portanto, espera-se que este estudo possa contribuir com futuras pesquisas que visem a inquietação sobre o processo estereotipado que o envelhecimento enfrenta, assim como para os órgãos de responsabilidade social, de forma a inspirar novas propostas de políticas educacionais que abordem as necessidades das pessoas idosas de forma acolhedora e respeitosa.

AGRADECIMENTOS

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES).

DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no artigo.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001, sendo parte de um PDPG-POSDOC (PDPG - Pós-Doutorado Estratégico) nº Processo CAPES 88887.799298/2022-00.

REFERÊNCIAS

  • 1 Oliveira AS. Transição demográfica, transição epidemiológica e envelhecimento populacional no Brasil. Hygeia; Rev Bras Geogr Med Saude. 2019;17(31):69-79. http://doi.org/10.14393/Hygeia153248614
    » http://doi.org/10.14393/Hygeia153248614
  • 2 Gomes I, Brito V. Censo 2022: número de pessoas com 65 anos ou mais de idade cresceu 57,4% em 12 anos. Agência IBGE Notícias [Internet], 1 nov. 2023 [citado 2023 nov 29]. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos
    » https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de
  • 3 Cardoso E, Dietrich TP, Souza AP. Envelhecimento da população e desigualdade. Rev Econ Polit. 2021;41(1):23-43. http://doi.org/10.1590/0101-31572021-3068
    » http://doi.org/10.1590/0101-31572021-3068
  • 4 Martins TCF, Silva JHCM, Máximo GDC, Guimarães RM. Transição da morbimortalidade no Brasil: um desafio aos 30 anos de SUS. Cien Saude Colet. 2021;26(10):4483-96. http://doi.org/10.1590/1413-812320212610.10852021 PMid:34730637.
    » http://doi.org/10.1590/1413-812320212610.10852021
  • 5 Nascimento MV, Diógenes VHD. Transição demográfica no Brasil: um estudo sobre o impacto do envelhecimento populacional na previdência social. Rev Evidenc Contab Finanç. 2020;8(1):40-61. http://doi.org/10.22478/ufpb.2318-1001.2020v8n1.45463
    » http://doi.org/10.22478/ufpb.2318-1001.2020v8n1.45463
  • 6 Freitas VS, Naiff LAM. Representações sociais sobre envelhecer com deficiência: um estudo com famílias. Estud Interdiscipl Envelhec. 2021;26(1):3-20. http://doi.org/10.22456/2316-2171.77280
    » http://doi.org/10.22456/2316-2171.77280
  • 7 Balduino Jr GC, Paiva NAA. Convivência familiar e vulnerabilidade da pessoa idosa: fundamentos para aplicação da Lei da Alienação Parental. Civilistica.com [Internet]. 2024; [citado 2025 jul 3];13(1):1-33. Disponível em: https://civilistica.emnuvens.com.br/redc/article/view/945
    » https://civilistica.emnuvens.com.br/redc/article/view/945
  • 8 Rabelo VRC, Arruda A. Representações em construção entre idosas e jovens expostos a novas práticas sociais na velhice. Psicol Rev. 2020;26(1):63-82. http://doi.org/10.5752/P.1678-9563.2020v26n1p62-81
    » http://doi.org/10.5752/P.1678-9563.2020v26n1p62-81
  • 9 Leal A. Jovens e velhos: representações sociais cruzadas – o contributo da animação socioeducativa na reconfiguração das representações sociais entre jovens e velhos: o projeto ‘entre nós: os livros’. Estud Interdiscipl Envelhec. 2021;25(3):295-312. http://doi.org/10.22456/2316-2171.118144
    » http://doi.org/10.22456/2316-2171.118144
  • 10 Morais RLS, Carvalho AM, Magalhães LC. O contexto ambiental e o desenvolvimento na primeira infância: estudos brasileiros. J Phys Educ. 2016;27(1):2714-6. http://doi.org/10.4025/jphyseduc.v27i1.2714
    » http://doi.org/10.4025/jphyseduc.v27i1.2714
  • 11 Todaro MA. Construção da Escala Todaro: atitudes de crianças em relação a idosos. Horizontes. 2017;35(1):141-50. http://doi.org/10.24933/horizontes.v35i1.313
    » http://doi.org/10.24933/horizontes.v35i1.313
  • 12 Silva RL, Medina P. Crianças pequenas e a pessoa idosa: contribuição intergeracional. Rev Eletrôn Esquis Educa [Internet].2019; [citado 2025 jun 28];10(22):618-33. Disponível em: https://periodicos.unisantos.br/pesquiseduca/article/view/808
    » https://periodicos.unisantos.br/pesquiseduca/article/view/808
  • 13 Todaro MA, Cachioni M. Representações da velhice: uma análise dos desenhos de crianças, antes e depois de uma ação educativa gerontológica. Horizontes. 2022;40(1):022045. http://doi.org/10.24933/horizontes.v40i1.1212
    » http://doi.org/10.24933/horizontes.v40i1.1212
  • 14 Todaro MA, Cachioni M. Literatura Infantil para “ouvisentir”: por uma educação anti-idadista. Oikos Fam Soc Debate. 2023;34(2):1-15.
  • 15 Esch CF, Jacó-vilela AM. Gestalt-Terapia chega ao Brasil. Memorandum Mem Hist Psicol. 2019;36:1-29. http://doi.org/10.35699/1676-1669.2019.6847
    » http://doi.org/10.35699/1676-1669.2019.6847
  • 16 Velasco CS. O desenho como dispositivo terapêutico na Gestalt-terapia [trabalho de conclusão de curso]. Volta Redonda: Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Fluminense; 2018.
  • 17 Oliveira EDF, Grubits S. O desenho na Gestalt-terapia: a versatilidade dos traços em interface com a prática clínica. Estud Pesqui Psicol. 2020;19(4):1036-50. http://doi.org/10.12957/epp.2019.49300
    » http://doi.org/10.12957/epp.2019.49300
  • 18 Furtado JR, Gaspar FP. As polaridades controle e confiança na sociedade contemporânea a partir da gestalt-terapia. Rev Abordagem Gestált. 2022;28(1):60-9.
  • 19 Mesquita GRO. Aqui-e-agora na Gestalt-Terapia: um diálogo com a sociologia da contemporaneidade. Rev Abordagem Gestált. 2011;17(1):59-67. http://doi.org/10.18065/RAG.2011v17n1.8
    » http://doi.org/10.18065/RAG.2011v17n1.8
  • 20 Santana ES, Mendes FRP, Gobira NCMS, Oliveira AS, Lopes AOS, Xavier TT et al. O cuidado destinado ao idoso dependente: motivações de cuidadores do Brasil e de Portugal. Psicol Teor Prat. 2021;23(3):1-29. http://doi.org/10.5935/1980-6906/ePTPSP13428
    » http://doi.org/10.5935/1980-6906/ePTPSP13428
  • 21 Araújo LF, Castro JLC, Santos JVO. A família e sua relação com o idoso: um estudo de representações sociais. Psicol Pesqui. 2018;12(2):14-23. http://doi.org/10.24879/2018001200200130
    » http://doi.org/10.24879/2018001200200130
  • 22 Lima AOP, Silva RMD, Gonçalves JL, Cunha MMT, Capelo MRTF, Baixinho CRSL et al. Sentidos das relações intergeracionais de adolescentes no convívio com a pessoa idosa. Cien Saude Colet. 2025;30(5):e00642025. http://doi.org/10.1590/1413-81232025305.00642025 PMid:40465905.
    » http://doi.org/10.1590/1413-81232025305.00642025
  • 23 Melo LD, Arreguy-Sena C, Gomes AMT, Parreira PMD, Pinto PF, Rocha JCCC. Social representations elaborated by elderly people about being elderly or aged: structural and procedural approaches. Rev Enferm UFSM. 2020;10:e53. http://doi.org/10.5902/2179769238464
    » http://doi.org/10.5902/2179769238464
  • 24 Oliveira FM, Abreu DPG, Gomes GC, Silva BT, Oliveira SM, Figueiredo TR. A percepção de adolescentes sobre o envelhecimento velhice e o ser idoso. Res Soc Dev. 2022;11(13):e162111335150. http://doi.org/10.33448/rsd-v11i13.35150
    » http://doi.org/10.33448/rsd-v11i13.35150
  • 25 Lindolpho MC, Caldas CP, Silva MGM, Tavares TJPC, Carvalho RVC, Silva BMC. Personalidade e autocuidado de cuidadores de idosos: estudo transversal. Res Soc Dev. 2020;9(7):e760974537.
  • 26 Martins JA, Watanabe HAW, Braga VAS, Jesus MCP, Merighi MAB. Idosos com deficiência física: vulnerabilidades em relação ao corpo, ambiente físico e social. Rev Bras Enferm. 2020;3(Suppl 3):e20190175. http://doi.org/10.1590/0034-7167-2019-0175 PMid:32667414.
    » http://doi.org/10.1590/0034-7167-2019-0175
  • 27 Silva IMD, Gonçalves JP. Os estudos das representações sociais sobre a velhice em contextos educacionais. Estud. interdiscipl. Envelhec. 2021;26(2):105-22. http://doi.org/10.22456/2316-2171.98322
    » http://doi.org/10.22456/2316-2171.98322

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2025
  • Aceito
    23 Jul 2025
location_on
Universidade Federal do Rio de Janeiro Rua Afonso Cavalcanti, 275, Cidade Nova, 20211-110 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil, Tel: +55 21 3398-0952 e 3398-0941 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: annaneryrevista@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro