Open-access Textos sobre podcasts, vozes sobre feminismos

HACK, Aline. Feminismos e podcasts. Coimbra, Portugal: Blimunda, 2023

“Eu vejo que há uma solidariedade muito grande entre as produtoras para que esses caminhos sejam mantidos abertos, para que esses caminhos sejam visíveis”, disse Aline Hack, no episódio #1 da quarta temporada do podcast Elas Pesquisam (2023). Hack é a organizadora do livro Feminismos e Podcasts (2023). Essa nova coletânea é um projeto de encontro e colaboração feminista, no qual Hack reuniu mulheres que vêm utilizando o podcast para construir, engajar, provocar, divulgar ideias feministas. Muitas são pesquisadoras nas áreas das Ciências da Comunicação e das Ciências Sociais; outras são professoras destas e outras áreas; grande parte é de comunicadoras e podcasters. Ao ler os textos reunidos no livro, sentimos naturalmente a vontade de ouvir suas vozes, na medida em que compreendemos a diversidade de feminismos que articulam e projetam em seus podcasts. O livro nos convida a deixarmo-nos levar por boas experiências de comunicação, militância, pesquisa e docência; conhecer estratégias feministas e interseccionais; refletir sobre novas perspectivas de futuro. A criatividade e as ferramentas de comunicação andam juntas com as feministas podcasters, dialogando com diversos grupos sociais que buscam a descentralização da comunicação, somando vozes na luta contra o machismo, racismo, classicismo, capacitismo e a LGBTfobia.

O livro, publicado pela Editora Blimunda1, recebeu financiamento coletivo através de uma campanha que articulou redes feministas e de podcasters. A publicação conta com apresentação da organizadora do livro, Aline Hack; prefácio da antropóloga, professora da UnB e produtora do podcast Mundaréu, Soraya Fleischer e dez capítulos que perpassam estratégias feministas e práticas interseccionais na podosfera. A edição é de Bruna Schlindwein Zeni, a revisão ortográfica de Mariana dos Santos, capa e ilustrações de Suzane Lopes, layout e diagramação de Laura Guidali Amaral. O livro completo está disponível para a compra no site da Editora Blimunda. Os créditos, sumário e prefácio podem ser lidos gratuitamente, no sítio eletrônico do Mundaréu, para que se possa conhecer a ideia geral da obra2.

Uma importante base de dados, presente em diversos capítulos, é a PodPesquisa3, realizada pela Associação Brasileira de Podcast (ABPOD) desde 2008. Esta é uma ferramenta que possibilita acompanhar o desenvolvimento do podcast no Brasil. Cabe adiantar, porém, que a podosfera ainda é um ambiente predominantemente masculino, embora, nos últimos anos, a presença das mulheres veanha crescendo, como podcasters e ouvintes. A PodPesquisa 2020-2021, por exemplo, apontou que 75,7% dos produtores de podcast são homens, apenas 23,3% são mulheres e 0,1% se declaram não-binários. Além disso, 58% dos produtores são brancos e 40% têm renda acima de R$3.000 por mês. Sobre a produção por região, 54,21% dos podcasts do Brasil se concentram na região Sudeste, sendo uma grande parte produzida na cidade de São Paulo. Também vale destacar que na PodPesquisa 2019 subiu 8% o número de ouvintes interessadas em debates feministas, se comparado com o ano anterior, totalizando 18,6% das respondentes.

Os dados, argumentos e experiências relatadas nos capítulos colaboram para identificar os desafios e as possíveis soluções para a democratização das mídias e, para além disso, a construção de redes feministas e formas diversas de comunicação. Exemplo de estratégias de democratização das mídias são as campanhas #MulheresPodcasters, #PodosferaPreta, #LGBTPodcasters, que têm o objetivo de ajudar o público a encontrar programas produzidos por e/ou com a participação de mulheres, pessoas pretas e LGBTQIA+. Há também o projeto #OPodcastÉDelas, que acontece todo mês de março desde 2017, incentivando a participação de convidadas mulheres nos podcasts.

No primeiro capítulo, “A jornada da heroína podcaster”, a roteirista e especialista em redes digitais, Ira Croft, convida-nos a embarcar nos dez estágios de desenvolvimento da mulher protagonista. Baseada no livro Jornada da Heroína, de Maureen Murdock, Croft traz diversos questionamentos sobre os padrões masculinizados aos quais nossas carreiras e nossas narrativas são submetidas, explicitando isso por meio da própria podosfera brasileira, que é predominantemente masculina. A partir de quais pontos de vista queremos construir nossas narrativas, projetos pessoais e carreiras? Croft nos lembra que cada jornada individual faz parte de uma construção coletiva, de forma que esse modelo pode inspirar diversas pessoas a serem protagonistas de histórias que transformam e rompem padrões.

No segundo capítulo, a jornalista e engenheira multimídia Ariane Ferreira demonstra que o discurso dos meios de cultura de massa cria e reproduz hierarquias de gênero desde a produção até o consumo das mídias. Para a autora, apesar de a sociedade em rede e os podcasts promoverem o engajamento em torno de pautas não-hegemônicas, como questões de gênero, raça, sexualidade, entre outras, quem acessa esses conteúdos ainda é, majoritariamente, o público masculino, branco e de classe média alta. Assim, a audiência dos programas de podcast pode ser traduzida pelo título deste capítulo, “Elas falam para que eles possam escutar”. Ferreira nos incita a pensar em novos conhecimentos e linguagens para transformar a hegemonia masculina na indústria cultural.

O capítulo seguinte, “Consumo de ativismo e os podcasts”, pode apresentar pistas sobre a manutenção dessa hegemonia branca e masculina na indústria cultural. A pesquisadora em comunicação e consumo Luizy Aparecida da Silva Carlos alerta para as estratégias do mercado ao pasteurizar pautas e debates, apropriando-se de bandeiras políticas como forma de lucro. Em contraposição, Carlos apresenta exemplos de ativismo digital pautados na ideia de consumidor-cidadão, que foca no protagonismo individual por meio da decisão de compra. Um exemplo é o podcast Mamilos, da produtora B9, que realizou parcerias com empresas para alavancar debates como a violência contra a mulher, situações de tratamento do câncer de mama, entre outros. Vale questionar até que ponto a ideia de consumidor-cidadão tensiona o mercado hegemônico, ou colabora para a apropriação de bandeiras políticas pelas empresas e, consequentemente, com a manutenção do capitalismo patriarcal.

As mídias, como o podcast, borram a fronteira entre consumo e ativismo, de forma que é importante olhar com cuidado para as ideologias por trás das formas de comunicação. A pesquisadora em comunicação Rafaela Martins de Souza aborda, no quarto capítulo do livro, “O podcast como ferramenta possível para uma comunicação feminista”. A comunicação comunitária se coloca como uma forma de resistência e de pertencimento à comunidade, envolvendo participação e controle tanto dos produtores quanto daqueles para quem é produzido tal material. Assim, é possível compreender as possibilidades e limitações da comunicação dentro do sistema capitalista, visando a uma comunicação verdadeiramente feminista que romperá com a lógica patriarcal.

Nos capítulos seguintes, o livro evidencia múltiplas formas de produzir conhecimento e ação feministas. “Gênero e cinema na rede” é o título do quinto capítulo, escrito pela antropóloga e criadora do projeto Feito por Elas, Isabel Wittmann. Ela reflete sobre a exclusão feminina no cinema e apresenta o Feito por Elas, um projeto que se iniciou em 2016, com curadorias de cinema e televisão, redação de notícias e notas, além do podcast homônimo e quinzenal que aborda as sobreposições o audiovisual e os campos políticos abarcados por gênero, corpo, sexualidade e feminismo. A autora aponta como a presença feminina em uma posição de comando e tomada de decisão beneficia as mulheres que trabalham na indústria cinematográfica como um todo, aumentando a representatividade feminina na frente e atrás das câmeras.

No capítulo “Mulheres Podcasters”, a pesquisadora em comunicação e produtora do podcast Hora Queer/Doutora Drag Alice dos Santos Silva reflete sobre as teorias feministas da tecnologia, a articulação ciberfeminista na podosfera brasileira e o movimento em torno da hashtag que dá título ao capítulo, criada por Ira Croft em 2014, cujo objetivo foi ajudar o público a encontrar programas produzidos por mulheres e com a participação delas. Assim, ainda que as mulheres produtoras de podcast que se engajam para incluir outras mulheres na podosfera não se reivindiquem enquanto ciberfeministas, essas articulações compõem uma forma de atuação preocupada com o acesso e a visibilidade feminina para o desenvolvimento de tecnologias, como o podcast.

O livro vai ficando mais interessante conforme vamos conhecendo as práticas interseccionais expressas nos podcasts. O sétimo capítulo, intitulado “A humanização de mulheres negras na podosfera brasileira”, com autoria da cientista da comunicação e cofundadora do podcast Malamanhadas Aldenora Teófilo Vieira Santos Cavalcante, discute o conceito de autodefinição no contexto do feminismo negro. Ela exemplifica isso com o podcast Afetos, apresentado por Gabi Oliveira e Karina Vieira. A construção de uma voz coletiva e autodefinida é um ato de resistência histórico do feminismo negro, promovendo gestos de empoderamento que rompem com as imagens de controle e estereótipos associados às mulheres negras. O podcast Afetos é um exemplo de programa que traz a perspectiva de suas apresentadoras – duas mulheres negras –, como elas se sentem e são afetadas pelos acontecimentos e assuntos levantados. Cavalcante analisa especificamente dois episódios, o #53 – “Escrevivências” e o #59 – “Autodefinição”, e conclui que ambos trazem perspectivas que estimulam e empoderam as mulheres negras a colocarem sua voz no mundo e serem sujeitas de suas próprias narrativas.

No capítulo “Ativismo digital feminista e interseccionalidade”, as sociólogas Cláudia Costa e Eliana Coelho da Silva abordam questões de gênero e regionalidade no Elas pesquisam, podcast, criado e produzido pelas autoras desde 2019. O objetivo é conversar sobre temas que estão em alta no debate público, levando à perspectiva de mulheres especialistas do campo acadêmico, especialmente aquelas nordestinas. Porém, as autoras argumentam que as produções dessas mulheres ainda têm pouca visibilidade, de forma que o Elas Pesquisam ousa ressaltar os seus feitos e quebrar estereótipos a partir da afirmação do sotaque, da gaiatice e da condição de corpo-voz de mulheres nordestinas.

O nono capítulo, intitulado “De pensando o sexo a falando sobre o sexo”, com autoria do cientista político Thiago Coacci, apresenta algumas hipóteses para a formação de um campo de pesquisa sobre feminismos e podcasts. O autor remete ao tráfico das obras feministas, aos zines e às traduções feitas por coletivos e ativistas realizadas nas diferentes ondas feministas, para pensar a resistência e a circulação dos saberes feministas, e ele chega até a atualidade com o seu podcast Larvas Incendiadas. A rapidez da produção na podosfera serve como uma espécie de sinalizador de tendências de novos debates, que ainda não apareceram nos livros ou mesmo em revistas, aproximando feminismos de distintos países e promovendo um debate intergeracional. Coacci se pergunta se esses podcasts circulam majoritariamente entre pessoas que já tinham contato e interesse pelo feminismo ou se chegam a novas arenas. Ele também pergunta o que haveria de novo nos saberes feministas produzidos na podosfera, questões que podem nortear futuras pesquisas.

O último capítulo, “Olhares podcast”, é de autoria de Aline Hack, pesquisadora em Direitos Humanos, organizadora deste livro e produtora do Olhares, um podcast feminista de entrevistas e debates sobre temas como lutas sociais de mulheres, direitos humanos e direitos de gênero, publicado desde 2017. A partir da base de dados da ABPOD, Hack analisou, por uma perspectiva semiológica, os 20 episódios de maior audiência do Olhares. As trocas e culturas narradas no podcast colaboram na construção de debates teóricos, mas também reverberam no íntimo de cada uma, em um processo de percepção contínua de formas de opressão. Assim, Hack propõe que construamos uma sociedade em rede, que possa usar esse conhecimento na política, colaborando nos processos de conscientização e transformação estrutural para uma sociedade mais digna para as mulheres e outras populações vulnerabilizadas e invisibilizadas.

Nesta novíssima coletânea, a leitora aprenderá sobre diversas estratégias de produção de podcasts, além de inteirar-se sobre questões feministas, especialmente, maneiras de fazer as comunicações descentralizadas. O livro nos incita a escutar os podcasts de todas as autoras, assim como nos dá vontade de falar, de contar as nossas próprias histórias, de conhecer mais podcasts e nos vincular a outras feministas que têm como prática política a construção de discursos diversos e novos olhares sobre os feminismos e a comunicação.

Referências bibliográficas

  • AFETOS. [Locução de]: Gabi Oliveira e Karina Vieira. [S.I.]: Afetos, [s.d.]. Disponível em: https://open.spotify.com/show/3cEqpvXRLIyOZXAJTOERBR Acesso em: 04 set. 2024.
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  • ASSOCIAÇÃO Brasileira de Podcasters (ABPOD). Podpesquisa 2019. Disponível em: https://abpod.org/podpesquisa-2019/ Acesso em: 04 set. 2024.
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  • ASSOCIAÇÃO Brasileira de Podcasters (ABPOD). PodPesquisa Produtor 2020-2021 Disponível em: https://abpod.org/wp-content/uploads/2020/12/Podpesquisa-Produtor-2020-2021_Abpod-Resultados.pdf /. Acesso em: 04 set. 2024.
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  • DOUTORA DRAG. [Locução de]: Dimitra Vulcana. [S.I.]: Mídia Ninja, [s.d.]. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/show/2dAReUcmAoXxwcDoLeWSoy Acesso em: 23 abr. 2024.
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  • ELAS PESQUISAM. [Locução de]: Cláudia Costa e Eliana Coelho da Silva. [S.I.]: Elas Pesquisam, [s.d.]. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/show/797xwDBujZPT9R3O5E7kOM Acesso em: 04 set. 2024.
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  • ELAS PESQUISAM, Uma conversa sobre Feminismos e Podcasts. [Locução de]: Cláudia Costa e Eliana Coelho da Silva. [Entrevistadas]: Aline Hack e Bruna Schlindwein Zeni. [S.I.]: Elas Pesquisam, fev. de 2023. Podcast. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/0fOUQlLPPkn6BwZjTRQvQ6?si=f8fa4906c60543b6 Acesso em: 04 set. 2024.
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  • FEITO POR ELAS. [Locução de]: Isabel Wittmann. [S.I.]: Feito por Elas, [s.d.]. Podcast. Disponível em: https://feitoporelas.com.br/ Acesso em: 21 abr. 2024.
    » https://feitoporelas.com.br/
  • HACK, Aline (org). Feminismos e podcasts 1º edição. São Paulo: Blimunda, 2023.
  • LARVAS INCENDIADAS. [Locução de]: Thiago Coacci. [S.I.]: Larvas Incendiadas, [s.d.]. Podcast. Disponível em: https://larvasincendiadas.com Acesso em: 23 abr. 2024.
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  • MURDOCK, Maureen. A jornada da heroína: a busca da mulher para se reconectar com o feminino. Tradução de Sandra Trabucco Valenzuela. 1º ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2022.
  • MALAMANHADAS. [Locução de:] Aldenora Teófilo Vieira Santos Cavalcante. [S.I.]: Malamanhadas Produtora, c2021. Podcast. Disponível em: https://www.malamanhadas.com/ Acesso em: 04 set. 2024.
    » https://www.malamanhadas.com/
  • MAMILOS: diálogos de peito aberto. [Locução de]: Juliana Wallauer & Cris Bartis. [S.I.]: B9, c2002-2024. Podcast. Disponível em: https://www.b9.com.br/shows/mamilos/ Acesso em: 21 abr. 2024.
    » https://www.b9.com.br/shows/mamilos/
  • MUNDARÉU. [Locução de]: Daniela Manica, Soraya Fleischer, entre outras. [S.I.]: Mundaréu, 15 jun. 2020. Podcast. Disponível em: https://mundareu.labjor.unicamp.br Acesso em: 04 set. 2024.
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  • OLHARES. [Locução de:] Aline Hack. [S.I.]: Olhares, [s.d.]. Podcast. Disponível em: https://olharespodcast.com.br/ Acesso em: 04 set. 2024.
    » https://olharespodcast.com.br/

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    Abr 2025

Histórico

  • Recebido
    23 Abr 2024
  • Aceito
    23 Jan 2025
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