Open-access O espetáculo da “Outra”

CARVALHO, Renata. . Manifesto TranspofágicoSão Paulo: Editora Monstra, 2022

Esta resenha propõe uma análise da representação do corpo travesti de Renata Carvalho no livro Manifesto Transpofágico, publicação oriunda do espetáculo de mesmo nome. Renata Carvalho é atriz, dramaturga, diretora, com diversos prêmios na carreira. É também transpóloga (antropóloga de temáticas trans) e criadora do Monart (Movimento Nacional de Artistas Trans), construindo o Manifesto Representatividade Trans Já. Analiso o seu livro para discutir como a presença de uma travesti no palco busca desmistificar estereótipos de gênero quanto à população transvestigênere.

Manifesto Transpofágico nasce como peça-performance de Renata Carvalho, sendo reeditada em livro em 2022 pela Editora Monstra, em iniciativa editorial da ONG Casa 1 – organização que abriga pessoas LGBTQIAPN+ em vulnerabilidade.

O livro conta com edição bilíngue (inglês e português) e, ainda, com duas brochuras extras, que trazem versões em espanhol e em francês do texto. E a introdução do livro é da pesquisadora e ativista Jacqueline Gomes de Jesus, especialista em transvestigênereidade.

A capa de Manifesto Transpofágico – reprodução da cena inicial do espetáculo teatral – instaura uma primeira imagem, ao mesmo tempo casual e incomum: vestindo apenas uma calcinha, um corpo... de uma travesti. As rubricas iniciais indicam o rosto de Renata no breu, num jogo de luzes cênicas. Parada, sem dizer sequer uma palavra, Renata instaura a sua manifestação e dramaturgia – a sua travaturgia. As primeiras linhas de texto coadunam à impressão inicial: “Hoje eu resolvi me vestir com a minha própria pele. O meu corpo travesti”. Junto, o letreiro garrafal: TRAVESTI. TRAVESTI. TRAVESTI.

Prontamente, Renata estabelece a referida encenação teatral entremeada pelo artivismo (arte+ativismo) queer, fazendo da atriz uma agente de mediação social – termo utilizado por autores como Leandro Colling (2019) – na defesa de que “o corpo das pessoas artistas não é um suporte para a arte – o corpo já é a sua arte” (Colling, 2019:31).

Outra descrição relatada no livro consiste na marcação de Renata no palco, de braços abertos, como Cristo – e essa é uma associação possível pelo fato de a atriz ter interpretado a figura cristã no Evangelho Segundo Jesus, sofrendo diversas ameaças. O texto descreve a projeção de palavras, escritas em jornais, em seu corpo. Na região do colo e dos joelhos, lê-se “AIDS”. É a tipificação do “corpo patologizado” – termo utilizado por Renata. Como ela afirma, se o vírus era nomeado “peste gay”, a mãe dele era travesti.

CIStema e a SIDAnização da diferença

O corpo travesti, ao fugir da norma cisgênera, torna-se o “Outro” – ou aqui, a “Outra”. Por ser destituída de capital social, essa “outra” torna-se desviante ao rejeitar regras sociais pré-estabelecidas, regras essas que tendem a ser aplicadas mais a certos indivíduos e grupos do que a outros.

Para Stuart Hall (2016), o uso de tipos sociais cria regimes de classificação, que fixam a diferença, em um exercício constante de poder, culminando na criação do estereótipo – uma série de características pré-concebidas de um indivíduo – e do estigma – construções simbólicas que se tornam reducionistas.

O livro rememora que, na década de 80, com o surgimento do HIV/AIDS – a síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA) –, gays, bissexuais e travestis passaram a ser uma população associada à infecção, na ideia de que primordialmente tal “grupo de risco” espalharia o vírus e, portanto, devia ficar à margem, numa espécie de apartheid sanitário. Assim, o estereótipo – que atrelava a esses corpos o sexo e libertinagem – deu lugar ao estigma: o estigma do corpo doente, do corpo perigoso. E quem o define assim?

Judith Butler (1998) aponta que o normal e o anormal se constituem mutuamente, sendo criados social e culturalmente. Tais definições se dão a partir de relações de forças, que operacionalizam divisões e hierarquizações. Em outras palavras, o normal só existe por meio de um parâmetro que define o anormal, e vice-versa. “O sujeito é construído mediante atos de diferenciação que o distinguem de seu exterior constitutivo” (Butler, 1998:21).

Contudo, essas forças se distinguem nos efeitos desse poder, já que uma é vista como dominante, enquanto a outra, marginal, é passível de ser exterminada.

Na medida em que é uma operação de diferenciação, de produção de diferença, o anormal é inteiramente constitutivo do normal. Assim como a definição da identidade depende da diferença, a definição do normal depende da definição do anormal. Aquilo que é deixado de fora é sempre parte da definição e da constituição do "dentro". A definição daquilo que é considerado aceitável, desejável, natural é inteiramente dependente da definição daquilo que é considerado abjeto, rejeitável, antinatural. A identidade hegemônica é permanentemente assombrada pelo seu Outro, sem cuja existência ela não faria sentido. Como sabemos desde o início, a diferença é parte ativa da formação da identidade (Silva, 2000:74).

Uma passagem de Manifesto recupera a dessas forças de opressão – especialmente do Estado – a partir da encenação da chamada “Operação Tarântula”, que visava “tirar de circulação” as travestis em prostituição no centro de São Paulo. Nessa operação, diversas delas foram presas, extorquidas, estupradas e torturadas. Nisso, passaram a se mutilar com lâminas, de modo a repelir a ação policial – no temor dos agentes de se contaminarem.

O livro relata ainda que a Mídia – como detentora de grande poder – operou a criação de uma agenda de pânico moral, tornando travestis e outros corpos LGBTQIAPN+ alvos da preocupação pública. Uma rubrica da dramaturgia indica que Renata surge diante de projeção de imagem com recortes de jornais, tal qual o que diz “Guerra às Travestis”. Logo, ela explicita que tal repressão foi adotada pela população civil, como se via nos muros de bairros, pichados: “Ajude a limpar São Paulo. Mate uma travesti por noite”.

Como ressaltado por Hall e corroborado pela escritora Ana Maria Gonçalves, a diferença cria o medo, que opera de modo a justificar a violência, assim, resultando na dominação. Ou seja, a opinião pública busca salientar a diferença em seu caráter negativo, de modo a construir uma diferença que diminui, segrega, mas que é vendida num discurso de que “somos todos iguais”, no intuito de camuflar as especificidades de cada identidade.

O texto retrata ainda as consequências desses estereótipos e estigmas. O estereótipo do sexo ligado a esses corpos torna as identidades travestis fetichizadas: uma corporeidade “exótica”, “proibida” e “devassa” – tornando o Brasil, ao mesmo tempo, o país que mais mata travestis e o que mais consome conteúdo pornográfico com travestis.

Numa retroalimentação, esses estereótipos geram estigmas que as levam – em vista da prostituição compulsória de jovens expulsas de casa – às ruas, aos espaços de sexo pago, à drogadição, à pornografia. Em resumo, à marginalização.

O uso do artigo gramatical masculino em partes do texto, na referência às travestis, estabelece crítica a mais uma forma de poder, que reforça modos de subjugação: a linguagem. Hall (2016) aponta que a linguagem opera uma potente estrutura de poder, gerando o que Michel Foucault (1988) nomeia de discurso. As coisas são significadas pelo uso que fazemos delas; as palavras não são imanentes ao indivíduo, são construídas. A representação se dá, portanto, na produção de sentido pela linguagem. Foucault pontua que, embora a noção de diferença possa ser analisada na chave positiva ou negativa – pois é essencial para o significado; só sabemos o que é noite por sabermos o que é dia –, um dos polos sempre é dominante nessa lógica binária, numa relação, de novo, de poder: na diferenciação entre cisgênero e transgênero, por exemplo, o cis é a norma.

Renata aborda, no texto, a forma que negar a identidade feminina de uma travesti é como modo recorrente de perpetuá-la como uma identidade desajustada, não-pertencente; portanto, estrangeira enquanto identidade desajustada. (Howard Becker, 2008 apud Hall, 2016)

E se essas lógicas binárias por vezes são reducionistas, Renata é categórica: é travesti! Uma identidade do guarda-chuva não-binário. Pontua que não quer se passar por uma mulher cis, embora sua identidade esteja dentro do portfólio da mulheridade/feminidade. Ser travesti é uma forma de significar também pela linguagem!

Hall aponta ainda que o significado surge na troca entre os interlocutores. Mesmo o polo cis sendo dominante, ele só passou a ter tal classificação social quando vivências trans o trouxeram à tona; pois, se as pessoas transvestigêneres passaram a ser vistas como o Outro/a Outra/u Outre, elas também passaram a ver como outro o cis-heteronormativo1.

Nesse movimento de significação, Manifesto resgata termos como boneca (travesti), trottoir (prostituição), alibã (policial), colocada (sob efeito de droga) e tia (viver com HIV), que figuraram o léxico de travestis em seus “guetos”, de forma a se comunicarem em segurança por meio de uma linguagem cifrada2, mas, principalmente, de modo a pertencerem. Afinal, falar a mesma língua é compartilhar o mesmo código cultural.

Tais palavras são explicadas e problematizadas nas referências do texto – espaço em que Renata condensa os principais pontos da sua pesquisa como transpóloga –, tecendo digressões históricas e experienciadas de suas práxis.

A TRANScodificação de discursos

A falta de representatividade fixa uma representação dominante na sociedade, conforme Fernanda Paraguassu (2021). Não por acaso, travestis contam com uma expectativa média de vida de 35 anos, estando 90% delas na prostituição, segundo o livro. Desse modo, ocupam o lugar mais baixo da hierarquia social. Por isso, Renata frisa que expõe seu corpo até naturalizá-lo, humanizá-lo. Tal postura coaduna com a defesa de Hall (2016), de que não há relação de poder sem contestação. Renata racha a hegemonia pelas beiradas ao afrontar modelos enraizados e criar narrativas alternativas.

Na parte final do livro, a artista descreve provocações possíveis de serem feitas ao público. A dramaturgia postula que ela compartilhe a sua intimidade e requisita o mesmo de quem a lê/assiste: Quem tem uma travesti na família? Quem já beijou uma travesti? Quem já convidou uma travesti para a ceia de Natal? Renata conduz o questionário com um discurso irreverente e leve. A artista diz, em entrevistas, que a narrativa é construída de modo a não abalar a fragilidade cisgênera. Por isso, estudou comunicação não-violenta e nunca diz que alguém é transfóbico, mas sim que reproduz práticas de transfobia enraizadas. Tais táticas encontram em Hall (2016) a noção de transcodificação, um modelo de estratégia de contestação que visa a reversão do estereótipo, sobretudo pela substituição de imagens negativas por positivas. Um discurso ainda mais nítido da transcodificação surge na descrição da cena final de Manifesto: ao som da música My Body Is a Cege, Renata ergue os braços e canta, enquanto tradução da canção projeta-se sobre o seu corpo – “Liberte o meu espírito. Liberte meu corpo”.

É, portanto, pela palavra – escrita, falada e cantada por Renata Carvalho – que sua corporeidade se põe à mostra e à prova, tornando o pretenso rótulo do que é ser um corpo com seios e pênis uma representação positiva, possível e, principalmente, viva. Viva!

Referências bibliográficas

  • BUTLER, Judith. Fundamentos Contingentes: o feminismo e a questão do "pós-modernismo". cadernos pagu (11), Campinas, SP, Núcleo de Estudos de Gênero-Pagu/Unicamp, 1998, pp.14-28 [ https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8634457 - acesso em: 15 ago. 2023].
    » https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8634457
  • CARVALHO, RENATA. Manifesto Transpofágico. São Paulo, Editora Monstra, 2022.
  • COLLING, Leandro (org.). Artivismos das dissidências sexuais e de gênero. Salvador, Editora Edufba, 2019.
  • FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber Rio de Janeiro, Edições Graal, 1988.
  • HALL, Stuart. Cultura e representação Rio de Janeiro, Ed. PUC-Rio Apicuri, 2016.
  • PARAGUASSU, Fernanda. Unidade 5 [Stuart Hall]: Introdução ao espetáculo do Outro. On-line. YouTube, 26/08/2021 [ https://www.youtube.com/watch?v=MiBPwl77PjI - acesso em: 15 ago. 2023].
    » https://www.youtube.com/watch?v=MiBPwl77PjI
  • RENATA Carvalho, agente. SPCULTURA, 24/10/2016 [ https://spcultura.prefeitura.sp.gov.br/agente/20698/ - acesso em: 15 ago. 2023].
    » https://spcultura.prefeitura.sp.gov.br/agente/20698/
  • SILVA, Tomaz Tadeu. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org. e trad.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, Vozes, 2000, pp.73-75 [ http://ead.ucs.br/orientador/turmaA/Acervo/web_F/web_H/file.2007-09-10.5492799236.pdf - acesso em 12 mar. 2024].
    » http://ead.ucs.br/orientador/turmaA/Acervo/web_F/web_H/file.2007-09-10.5492799236.pdf
  • 1
    Ainda são apontadas outras duas correntes desse pensamento quanto à diferença: uma, antropológica, que defende que a diferença é a base simbólica do que chamamos de cultura, nascendo do choque causado pela defesa de perturbação da ordem cultural vigente; enquanto outra, psicanalítica, aponta que o “outro” é fundamental para a construção de si, mesmo na recusa de reconhecer a existência da diferença.
  • 2
    A maior parte dessas palavras vem do pajubá, linguagem informal utilizada principalmente pela comunidade LGBTQIAPN+, incorporando palavras de origem africana, conforme detalha o livro.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Out 2024
  • Data do Fascículo
    Set 2024

Histórico

  • Recebido
    20 Ago 2023
  • Aceito
    21 Maio 2024
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