Open-access Análise de livre interpretação: uma metodologia multidimensional para análise dos dados qualitativos em educação científica

Resumo

A Análise de Livre Interpretação (ALI) constitui uma abordagem analítica e dialógica no âmbito da educação científica, que integra a interpretação de dados qualitativos com estratégias reflexivas, ancoradas no referencial teórico, na prática educacional e no conhecimento acumulado pelo pesquisador. Seus contornos analíticos respondem a pressupostos da pesquisa, articulando descobertas da análise de dados. A ALI se baseia em quatro eixos — biografização, estratégias, linguagem acadêmica e elementos da análise — que permitem compreender processos entrelaçados na pesquisa e um diálogo intenso entre pesquisador e participantes. Esses eixos interagem com o referencial teórico, gerando categorias baseadas na prática do pesquisador. O texto apresenta os fundamentos e exemplifica a aplicação da ALI, discutindo suas limitações e a compara com metodologias consolidadas. Ela contribui para pesquisas em educação científica, oferecendo uma abordagem inovadora para a compreensão de fenômenos complexos em contextos de negacionismo científico.

Palavras-chave
educação científica; abordagem metodológica; análise dos dados; pesquisa e educação

Abstract:

Free Interpretation Analysis (FIA) is an analytical and dialogical approach in science education. It integrates the interpretation of qualitative data with reflective strategies anchored in the theoretical framework, educational praxis, and the knowledge accumulated by the researcher. Its analytical contours address the research assumptions, articulating discoveries from data analysis. FIA is grounded in four interdependent axes — Biographization, Reflective Strategies, Academic Language, and Analytical Elements — which enable the understanding of intertwined processes in research and foster intense dialogue between researcher and participants. The interaction between these axes and the theoretical framework allows the emergence of conceptual categories based on the researcher’s practical experience. The text presents FIA’s foundations, exemplifies its application, discusses limitations, and compares it to established qualitative methodologies. FIA contributes to science education research by offering an innovative approach to understanding complex phenomena in contexts of scientific denialism, broadening reality comprehension through the researcher’s professional experience.

Keywords:
scientific education; methodological approach; data analysis; research and education

Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós

A liberdade de ser o que se pode ser como pesquisador nos traz até aqui. Esse sentimento e causa nos atravessa na defesa de uma livre pesquisa que nos torne mais éticos, responsáveis e libertos de amarras que enovelam o caminhar das análises, levando ao desânimo, ao sofrimento e muitas vezes à desistência da pesquisa. Segundo o Dicionário de Filosofia, em sentido geral, o termo liberdade é a condição daquele ou daquilo que é livre; que possui capacidade de agir por si próprio; autodeterminação; independência; autonomia. Pautados nestes ideais é que a Análise de Livre Interpretação (ALI) se configura. Embora este trabalho não adote um dispositivo analítico rigidamente estruturado e hierarquizado, busca-se que as categorias e estruturas de análise surjam a partir de reflexões críticas, especialmente no que concerne ao exercício da liberdade no âmbito da pesquisa. Nesse contexto, liberdade interpretativa é compreendida como a capacidade do pesquisador de engajar-se em um diálogo crítico com os dados, articulando teoria e prática de maneira ética e criativa, sem recorrer a categorias predefinidas (Gadamer, 2004). Tal tentativa se dá a partir de outras possibilidades que destacam as marcas das singularidades, das peculiaridades e do que em nós é autoral, identificável em sua condição de se sentir livre, seguro e amparado teoricamente para a realização de análises que darão embasamento e solidez às falas direcionadas à tessitura do objeto da pesquisa e de seus pressupostos.

De fato, temos em conta que, qualquer iniciativa de sistematização de um conceito de liberdade implica, fatalmente, seu engessamento numa depuração que pode não traduzir todo o seu significado. E aí está nosso maior desafio de superar determinados elementos operacionais nas pesquisas sobre a vida cotidiana. Isto é, provocar nossas análises e evocar a Academia para reflexões e fazeres dentro de novos parâmetros que ampliam visões e dialogam com subjetividades. O que por vezes, cobra um preço alto por isso. Por em cena novas propostas metodológicas produzem réplicas, movimenta pensamentos, principalmente porque as análises estão ligadas às formas metodológicas que contam com categorias, estruturas, classificações, regulações e ordenação. E isso foi aprendido fazer dentro de um sistema formal que pode limitar a reflexão e análise a outros potenciais da pesquisa na sua estrutura, composição, organização, originalidade, divulgação e partilha dos seus achados.

Reforçamos que a liberdade de ser livre para pensar, intuir, refletir, analisar e escrever expressa o que pretendemos na Análise de Livre Interpretação (ALI). Fato que coloca os pesquisadores em educação e ensino frente a outras possibilidades teórico-metodológicas onde novos caminhares são propostos. Novos percorreres, andares e avançares, acontecem em perspectivas diferentes daquelas postas em esquematizações prévias na tentativa de discursar sobre a pesquisa.

Ao contrário da intenção de fechar a questão com uma proposta única de sistematização da ALI, nos propomos a provocar a reflexão e o debate sobre a liberdade interpretativa na pesquisa. Ao considerarmos como participantes das pesquisas todos aqueles que, de modo mais visível ou mais sutil, deixam suas marcas tecidas e partilhadas em inúmeras possibilidades de trabalho as diferenças culturais, estão expressas aí a complexidade do pensamento. Dessa forma, aprofundamos o olhar e os significados atribuídos no viés das análises que apontam as complexas redes de saberes e afetos tecidos nos achados da busca metodológica (Morin, 1990, 1994; Villegas; Gonzáles, 2021).

Em Certeau (1994, 1996) podemos compreender que uma análise apurada e refinada da realidade e das práticas cotidianas não se reduz a conteúdos e metodologias, porém, como diz, pressupõe a soma de todo tipo de conhecimentos e de ausências entendidas nas formas de criação, evidenciando as artes de fazer, que são liberdades em meio às tessituras e repartes das reflexões acerca dos levantamentos realizados no mergulho do cotidiano. Acontecido de modo a interpretar na invisibilidade das práticas aquilo que se encontra nas leituras que propiciam a desnaturalização de fenômenos importantes, contrariando modelos universalmente ditados. É o sutil trazido à discussão, posto em debate.

Ainda inspirados na leitura do autor, podemos ver que a arquitetura harmoniosa do texto faz parte da prática do pesquisador que trabalha sobre uma situação ou fato previamente pensado e refletido, que tem como objetivo transformá-lo em análise articulada entre a teoria e o campo no recorte interdisciplinar. O caráter didático da análise deve estar explícito no escrito da pesquisa. A ALI se dedica a isso. A estrutura do texto, a perceptibilidade dos axiomas. A legitimidade do argumento tem referencial, que dá credibilidade as ideias numa ação do conteúdo sobre a forma, baseado na construção e desconstrução, a qual faz parte do cotidiano da pesquisa. Logo, o texto é o lugar do discurso, da delimitação de um recorte espacial e temporal, para ser analisado (Certeau, 1982).

Como uma das reflexões aqui provocadas, retomamos a uma das primeiras liberdades de uma pesquisa: os recortes. Em uma pesquisa científica fazemos escolhas em diversos momentos. Cada uma delas deve ser justificada com base em argumentos teórico-metodológicos e refletir, ao máximo, o retrato da realidade investigada, considerando também a responsabilidade ética, a autonomia do pesquisador e a soberania do campo de pesquisa, para que possamos avançar em nossos estudos.

Em uma pesquisa científica de natureza qualitativa, as escolhas devem ser refletidas com mais atenção por quem as faz e nunca são totalmente imparciais. Para a compreensão do objeto de estudo, o pesquisador, que invariavelmente se torna o escritor de todo o processo constitutivo da sua investigação, articula conhecimentos e novas descobertas a partir das opções que se desvelam à sua frente.

Fazer pesquisa envolve dedicar uma atenção excepcional e ponderar cuidadosamente sobre o que observamos e escutamos. Erickson (2012) defende que re-pesquisar significa buscar repetidamente, de forma recursiva, dados que auxiliem no embasamento ou refutamento dos pressupostos iniciais. As questões fundamentais na formulação de estratégias para coleta dos dados incluem considerar onde, como e com quem precisamos procurar as informações. Abordar essas questões é essencial para reunir evidências que sustentem as afirmações que desejamos fazer em resposta às principais perguntas de pesquisa delineadas no estudo. Entretanto o rigor não deve estar presente exclusivamente na etapa de coleta, mas especialmente na metodologia da análise dos dados, em especial nas pesquisas qualitativas.

Assim a ALI, surge por força de requisição de colegas de trabalho, ganha respaldo nas reflexões coletivas de um grupo de docentes do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), campus Nilópolis, e se avoluma nas discussões, reflexões e exercícios coletivos do grupo de pesquisa Ciência, Aprendizagem, Formação e Ensino (CAFE), ao qual este estudo está vinculado.

Na verdade, desde a leitura do artigo que descreve a ALI (Anjos; Rôças; Pereira, 2019) até a elaboração e relato desta descrição, participamos de reuniões de grupo de pesquisa e empreendemos leituras e inúmeras discussões sobre como instrumentalizar essa metodologia potencializadora para analisar dados qualitativos em pesquisas. Forças motrizes nos impulsionaram a escrever este terceiro ensaio, o qual objetiva tecer possíveis rotas metodológicas. A provocação para este ensaio é oriunda de diversas solicitações feitas por outros pesquisadores que acessavam a proposta da ALI, aos questionamentos feitos em palestras sobre a metodologia da ALI, além das trocas no grupo de pesquisa. Entretanto, especialmente, é fruto de uma pesquisa de doutorado sobre o protagonismo docente em sua formação continuada, que nos permitiu discussões e reflexões importantes para algumas definições e esclarecimentos (Nascimento, 2023).

A ALI assume contornos analíticos que fundamentam a resposta a uma indagação e a um pressuposto ao interligar conhecimentos e descobertas a partir das revelações encontradas durante a análise dos dados. As inferências são complementadas com as buscas e os garimpos feitos tanto no âmbito da teoria, quanto na soberania do campo para se chegar a uma resposta. Nesse sentido, a ALI tem se mostrado uma metodologia potencializadora para análise de dados, na qual a empiria experienciada dos pesquisadores é alimentada por um aporte teórico que se complementa no compêndio teórico, metodológico e analítico da leitura e dos achados no campo da pesquisa.

A ALI tem suas raízes em pesquisas realizadas no campo do ensino de ciências, porém é flexível o suficiente para ser adotada, discutida e expandida em diversas áreas do conhecimento. Em um contexto contemporâneo, marcado pelo surgimento de posturas negacionistas e disseminação de notícias falsas, é crucial reforçar a importância de um ensino fundamentado na natureza das ciências, com ênfase na perspectiva interdisciplinar (Catarino; Reis, 2021). Diante das fragilidades desse cenário, é necessário não apenas promover espaços de reflexão sobre a produção do conhecimento na área de Educação em Ciências, mas também assumir a responsabilidade de promover um ensino mais engajado na divulgação do conhecimento científico consolidado.

ALI: metodologia ou método?

Importante distinguir metodologia e método, palavras com alcances distintos. A metodologia é a abordagem estratégica a partir da qual a análise da sua pesquisa ocorre. O método são as etapas percorridas durante a análise, garantindo o alcance dos objetivos de uma pesquisa. Desta forma, defendemos que a Análise de Livre Interpretação (ALI) se configura como uma metodologia, delineada pelo paradigma da abordagem qualitativa, cujo método é desenhado para gerar dados e análises críveis e representativas da realidade estudada ( Triviños, 2008).

Representa uma proposta de análise dos dados qualitativos com liberdade dialógica na interpretação desses dados com uso de estratégias reflexivas e interpretativas. Por priorizar uma comunhão entre o olhar e pensar do pesquisador, ampliados pelas leituras e estudos realizados, ao que foi levantado e vivido no campo da pesquisa. Ainda que a ALI não se limita a etapas pré-fixadas, atendendo aos pedidos de nossos interlocutores, buscamos estabelecer não um método, mas um ponto de partida para aqueles que se interessaram pela metodologia. Não que o método não possa existir, mas pode ser definido pelo pesquisador no seu caminhar e autonomia que adquire na confiança do seu aprendizado, experiência e no domínio de suas buscas unidas ao seu saber. Por este motivo a ALI transborda as fronteiras da pesquisa em educação científica, podendo ser acolhida por outros campos das ciências humanas e sociais.

De acordo com Najmanovich (2003) precisamos subverter o jugo do feitiço metodológico. E é nessa tendência que a ALI se configura não como uma subversão, mas uma nova versão que contempla em especial os professores-pesquisadores. A autora discorre que

Na atualidade, depois de vários séculos sob o império do método, hipnotizados ainda pelo discurso moderno, estamos começando – ainda que timidamente – a sacudir-nos com o jugo desse feitiço metódico, a navegar nos mares da incerteza e da criatividade. Mas o preço que temos que pagar para isso inclui a renúncia à ilusão de um saber garantido e absoluto. Essa não é uma tarefa simples, pelo contrário, requer a aceitação de nossa finitude, de nossa limitação, de nossa incompletude radical de todo conhecer. Não obstante, essa é a única forma de abrir as portas à invenção, à imaginação, ao destino e à diferença. Em contrapartida, pelo espaço assim regenerado, poderá entrar o erro, mas, em caso contrário, não temeremos nada mais que a eterna repetição do mesmo, do já dado (Najmanovich, 2003, p. 34).

É pertinente lembrar que a ALI, em sua base constitutiva, aplicada em pesquisas sobre o ensino de ciências, é a arte da utilização de estratégias interpretativas e reflexivas. Ancorada nas bases epistemológicas da análise do discurso bakthiniano (Bakhtin, 2000), na compreensão da bricolagem proposta por Kincheloe (2007), e na atorialidade do professor (Nóvoa, 1995), ressaltamos o papel e a importância do professor-pesquisador (Alarcão, 2004) pautados nas compreensões de ética e responsabilidade de Morin (1990, 1994) e Certeau (1994, 1996).

Portanto, a ALI é uma metodologia que incorpora múltiplos procedimentos no processo de análise para alcançar o resultado da pesquisa, respeitando em seu percurso a centralidade da experiência do professor-pesquisador, respaldado em seu mergulho teórico. Para a interpretação das informações, o método da ALI coaduna de forma eficaz com instrumentos de coleta que envolvam observação, participação ativa, narrativas (comuns em pesquisas qualitativas). Ainda que a ALI nasça a partir de pesquisas qualitativas, sendo aplicada em análises documentais, entrevistas, (auto)biografias ou outros instrumentos de coletas, não há impedimentos em seu uso na interpretação de respostas de questionários mistos ou abertos.

Nesse caminhar, a ALI se constitui na reinterpretação constante dos fatos observados e/ou narrados, dos dados colhidos, do que se foi visto, ouvido, dito e expressado no campo da pesquisa. Por ser assim, na ALI a pretensa neutralidade do pesquisador é secundária, pois o diálogo e entendimento dos achados em campo passa, também, pela significação que o pesquisador na qualidade de observador-ouvinte coletou. Passa pela sua escuta qualificada, pelo interpretar gestos, intenções e falas.

As informações coletadas e a reinterpretação das respostas, são ressignificadas pelo agora pesquisador-escritor que se sente, na sua livre interpretação, seguro, amparado por saber ter sido criterioso, ético, orientado e convicto em suas análises. O pesquisador passa a ser considerado escritor, pois a ALI parte de narrativas no momento da descrição e análise dos dados à luz do referencial teórico em tela. É endereçada a pesquisadores de quaisquer campo do conhecimento que opte por este percurso metodológico, mas em especial, aqueles que embebidos de suas práticas, repensam e refletem sobre seus fazeres (Alarcão, 2004). Nesse sentido, a ALI se respalda na dimensão ética do pesquisador, que estudará a subjetividade, opiniões, visões e realidades dos sujeitos pesquisados, construindo participativamente sua interpretação.

Retomando as reflexões de Najmanovich (2003), romper com o conforto das metodologias e métodos conhecidos não é tarefa simples. Outrossim é desafiador, nos (des)caminhos metodológicos do processo científico, propor uma metodologia de análise com liberdade dialógica na interpretação dos dados. Não há aqui qualquer renúncia aos consagrados e bem-sucedidos métodos de análise, nem mesmo desistência explícita dos instrumentos e procedimentos metodológicos acadêmico-científicos com vasto domínio nas pesquisas, mas trata-se de abrir-se à multiplicidade de tratamentos possíveis aos dados para análise que a ALI proporciona.

Sem intuito de sistematização e amarras metodológicas, identificamos que ao privilegiar uma estrutura de análise que supera os modelos deterministas e exaustivos, ao utilizar uma interpretação dialógica que contribui para reflexões que extrapolam a estrutura amostral, se interessa primeiramente pelas peculiaridades que surgem no desenvolver da pesquisa, traduzindo-as conforme a compreensão do contexto em que a investigação está inserida.

A ALI é metodológica no que diz respeito à competência da escrita dos dados e estratégica como recurso de interpretação da lógica interna de compreensão desses dados. Todavia, não é mecânica, pois não submete o pesquisador a sistematizações engessadas. Pelo contrário, é uma metodologia viva, em construção reflexiva do próprio pesquisador que faz a análise. É uma construção aberta e de todos os que se dedicam à pesquisa de maneira assídua, paciente, determinada, firme, resoluta e perseverante. Os pesquisadores, por sua vez, interpretarão, refletirão, reinterpretarão, mergulharão e maturarão os dados coletados para escrever com profunda liberdade e responsabilidade, com a segurança de uma teoria imbricada em sua prática.

Um ensaio, não uma proposta de sistematização

Como autores que investigam a ALI, ainda não possuímos uma compreensão definitiva sobre a necessidade de desenvolver um único dispositivo analítico para os dados, pois isso contradiz o princípio fundamental dessa metodologia de análise. Entretanto, ao considerarmos feedbacks e sugestões, chegamos à conclusão de que é viável estabelecer a proposição de uma estrutura com base em eixos multidimensionais, os quais foram testados na tese de Nascimento (2023). Esses eixos possibilitam a exploração e análise dos dados da pesquisa em qualquer ponto de entrada. A inclusão ou exclusão de novos eixos na matriz de análise pode ser determinada pelo objeto e pelos objetivos da pesquisa, bem como pelo embasamento teórico e pela abordagem adotada pelo pesquisador. Assim, a ALI combina técnicas da biografização, da narrativa legítima e se estrutura a partir de quatro eixos multidimensionais interdependentes: biografização, estratégias reflexivas, linguagem acadêmica e elementos da análise, os quais estão ilustrados na figura 1 e descritos a seguir.

Figura 1
Eixos Multidimensionais da Análise de Livre Interpretação (ALI)

O eixo Biografização está pautado nas competências de análise e escrita, baseadas na lógica interna de processamento do que se foi coletado, utilizando os códigos pessoais das experiências ditas (narradas), lidas ou ouvidas (Alheit, 2011). A biografização, por ser harmônica às pesquisas qualitativas, reproduz, incontestavelmente, a fala do sujeito sobre si ou sobre algo vivido, pautada no contexto investigativo que o propõe como sujeito da pesquisa, opinando, descrevendo, explicando, argumentando e colocando o próprio entender como dado da pesquisa. Bragança (2018, p. 68) destaca que “as narrativas, em suas variadas formas de expressão — oral, escrita, imagética, videográfica — são capazes de impulsionar processos reflexivos”, logo, no contexto deste ensaio, entende-se que o pesquisador reinterpreta o discurso narrativo, (trans)formando os dados em um texto biografizado.

No status de escritor, o pesquisador realiza a análise, numa apropriação criativa de tudo que foi coletado, exercendo profunda reflexão sobre as observações documentadas, os resultados apurados e/ou medidos, as informações coletadas e qualquer outro elemento legítimo que seja constituinte para compreensão dos resultados. A escrita biografizada, no pressuposto da ALI, significa a prática ressignificada de escrita do pesquisador, que ao pesquisar-narrar, narrar-pesquisar, cria o movimento dialógico e cíclico de reflexão.

O eixo Elementos da Análise está organizado em quatro princípios essenciais para a escrita biografizada na ALI: (1) liberdade; (2) ética; (3) subjetividade; e (4) narrativa legítima. Os conceitos aqui se entrelaçam. A liberdade não significa descuido com as palavras ou empobrecimento textual, ao contrário, refere-se que, ao gestar um texto, o pesquisador pode mergulhar profundamente na essência do que lhe foi narrado, com a liberdade de plantar palavras com as sementes que a ele foram lançadas. Quanto à ética, há de se considerar, que esta se configura um elemento dimensional em qualquer pesquisa, como um pacto tácito já estabelecido em uma escrita rigorosamente comprometida com a verdade dos dados. No entanto, cabe ressaltar que na ALI, a ética é um elemento essencial, pela subjetividade dos dados qualitativos, exigindo ao pesquisador uma narrativa legítima da sua análise.

O eixo Estratégias Reflexivas concede ao pesquisador um processo de análise sequencial cíclico, baseado nas ações de interpretar, mergulhar, maturar e inovar os dados. O ciclo da análise conduz o pesquisador a (re)interpretações que eventualmente são retomadas em um novo mergulho, maturação e inovação dos dados analisados. A proposição de uma reflexão orientada pela centralidade da experiência do pesquisador, respaldado no mergulho teórico adequado a pergunta e aos objetivos da pesquisa.

O eixo Linguagem Acadêmica está pautado na apropriação do referencial teórico, o qual respalda a análise, refletindo e reverberando a experiência do pesquisador numa linguagem própria da Academia. Na condição de intérprete, o pesquisador, durante a fase de análise dos achados, tem a responsabilidade de traduzir, de forma competente e confiável, os resultados, segundo as normas epistêmicas da Academia.

A ALI pressupõe, primordialmente, um forte senso ético e crítico, tal qual toda metodologia interpretativa exige. O pesquisador analisa o conjunto dos dados qualitativos com plena liberdade reflexiva e expressa suas (in)conclusões na própria escrita, considerando sua singularidade produtiva enquanto pesquisador, ao mesmo tempo que amplia e potencializa um formato de análise de dados que valoriza a pluralidade do saber humano.

A complexidade de nossa experiência não se esgota na proposição de um dispositivo analítico que sistematize o percurso da Análise de Livre Interpretação (ALI). Pelo contrário, defendemos a utilização de uma combinação de técnicas distintas com objetivos analíticos, uma prática que não é nova, como evidenciada por Biar, Orton e Bastos (2021) em sua pesquisa intitulada A pesquisa brasileira em análise de narrativa em tempos de ‘pós-verdade’. Acreditamos que os processos complexos que se entrelaçam nas redes criadas durante a pesquisa serão guiados pela autonomia do campo, aliada ao referencial teórico, podendo inclusive derivar de categorias estabelecidas previamente por autores e/ou pela experiência do pesquisador. A liberdade de não se prender a um método específico busca não limitar a ALI, permitindo a criação a partir do contexto existente, possibilitando inovações nas análises e até mesmo o desenvolvimento de novas categorias.

Argumentamos a favor dessa liberdade com base na importância de os professores das várias Ciências compreenderem melhor seu objeto de estudo e seu trabalho. Eles devem promover, tanto em sala de aula quanto em suas pesquisas, a formação dos alunos através da construção de uma visão mais coerente das Ciências, suas naturezas e os conceitos que a compõem. Mais do que nunca, os professores de ciências possuam uma ampla gama de habilidades, informações e tecnologias, pois já não basta apenas conhecer bem a ciência, para ensiná-la atualmente, já que o desconhecimento da natureza da ciência e de como ela é produzida pode levar a distorções e ao surgimento de pósverdades e movimentos anticiência (Catarino; Reis, 2021). Portanto, é necessário reforçar temas importantes, já discutidos na literatura.

Aplicação prática da ALI: um exemplo empírico

Para ilustrar a operacionalização da ALI, recorremos à tese de doutorado de Nascimento (2023), que investigou o protagonismo docente na formação continuada por meio de entrevistas com egressos do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências (PROPEC), do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). O estudo explorou como o Mestrado Profissional influenciou a identidade docente dos entrevistados, utilizando a ALI para analisar suas narrativas. Este exemplo evidencia a capacidade da metodologia de integrar rigor teórico, profundidade reflexiva e inovação criativa, culminando no desenvolvimento de um curso de formação continuada inovador.

Eixo da Biografização — a pesquisadora realizou uma análise minuciosa das transcrições das entrevistas, identificando temas centrais à investigação, como a autonomia na formação profissional e o reprocessamento identitário docente. Como ilustração, a participante Maria (pseudônimo) relatou: “O PROPEC me permitiu visualizar a possibilidade de construir minha própria trajetória docente, rompendo com modelos preestabelecidos”. Ressalta-se que este excerto constitui uma síntese interpretativa elaborada pela autora, fundamentada em recortes das entrevistas com egressos do PROPEC e articulada aos conceitos mobilizados no resumo da tese. Por meio do método de biografização, Nascimento (2023) elaborou a seguinte síntese interpretativa: No PROPEC, Maria conquistou autonomia para ressignificar sua prática pedagógica e reconstruir progressivamente sua identidade profissional. Essa reconstrução narrativa manteve a autenticidade do discurso original enquanto o articulava ao marco teórico de Nóvoa (1995) sobre desenvolvimento identitário docente, assegurando tanto a validade empírica quanto o rigor teórico da análise.

Estratégias Reflexivas — seu emprego na análise de Nascimento (2023) foi exemplificado com o processo cíclico da ALI, envolvendo interpretação, imersão, maturação e inovação. A pesquisadora comparou iterativamente as narrativas, permitindo que a categoria protagonismo como autonomia emergisse organicamente. Essa categoria foi refinada por meio de um diálogo contínuo com o conceito de prática reflexiva de Schön (1983), demonstrando uma interação dinâmica entre dados e teoria. A fase de maturação envolveu revisitar os dados para garantir profundidade interpretativa, enquanto a inovação se manifestou na síntese criativa dos achados em insights acionáveis. Esse movimento reflexivo permitiu a Nascimento não apenas interpretar os dados, mas transformá-los em uma estrutura para aplicação prática, evidenciando a capacidade da ALI de fomentar perspectivas inovadoras sobre fenômenos educacionais complexos.

Linguagem Acadêmica — destacamos que o papel de Nascimento (2023) como intérprete foi central na tradução dos dados brutos em um discurso acadêmico robusto. Cada achado foi meticulosamente ancorado em constructos teóricos, refletindo uma apropriação sofisticada de referenciais acadêmicos. Por exemplo, a categoria protagonismo como autonomia foi articulada assim (Nascimento, 2023): O protagonismo docente emerge como a capacidade de exercer autonomia na formação, refletindo criticamente sobre a prática e reconstruindo a identidade profissional (Nóvoa, 1995; Schön, 1983). Essa formulação demonstra a habilidade da pesquisadora em entrelaçar dados empíricos com aportes teóricos, assegurando que cada afirmação analítica fosse sustentada por referências autorizadas. O uso rigoroso de teóricos como Nóvoa (1995), Schön (1983), e Marinas (2007) para contextualizar os achados destaca o domínio da linguagem acadêmica pela pesquisadora, conferindo credibilidade e profundidade à análise. Essa abordagem alinha-se à ênfase de Bakhtin (2000) no discurso dialógico, onde a voz da pesquisadora dialoga com as narrativas dos participantes e com a conversa acadêmica mais ampla.

No último eixo, Elementos da Análise, observa-se na tese um caminho orientado pelos elementos centrais da ALI — liberdade (categorias emergentes), ética (fidelidade aos dados), subjetividade (interpretação reflexiva) e narrativa legítima (baseada em transcrições). Esses elementos garantiram que o processo interpretativo permanecesse flexível e ético, equilibrando criatividade e rigor científico.

A principal contribuição da aplicação da ALI por Nascimento reside em seu caráter transformador. A partir dos resultados obtidos com a metodologia, a pesquisadora elaborou um curso de formação continuada em módulos, intitulado Formação Docente na Contemporaneidade, reconhecendo a complexidade da identidade docente em contextos sociais, políticos e ideológicos. Aproveitando a flexibilidade interpretativa da ALI o curso empodera professores a escolherem seus itinerários formativos. O curso foi implementado em duas ocasiões, com públicos diversos e validado por especialistas, promovendo autonomia ao permitir que os participantes selecionassem módulos alinhados às suas necessidades e interesses profissionais. Essa aplicação inovadora da ALI transcende a análise qualitativa tradicional, pois não apenas interpreta os dados, mas os traduz em uma intervenção educacional prática e escalável. A análise gerou categorias como autonomia formativa e identidade docente ressignificada, que informaram diretamente a estrutura modular do curso, validando a ALI como uma metodologia eficaz para desvendar processos complexos na formação de professores.

A ALI, ao captar significados subjetivos e dimensões contextuais de fenômenos educacionais, sociais e culturais, numa leitura interpretativa livre e sensível, permite construir análises densas a partir de narrativas, práticas e discursos, e cresce o número de grupos de pesquisa e pesquisadores que a adotam em diversas instituições. Entre muitas referências e usos que verificamos, trazemos alguns:

  • i. Educação: Borges (2024), do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e Cruz (2022), da Unigranrio, usam a ALI para interpretar contradições entre políticas educacionais e vivências escolares.

  • ii. Saúde: Pesquisadores da Unicamp (Silva; Novaes, 2023) para compreender representações do cuidado e da corporalidade.

  • iii. Ciências sociais: Carvalho e Oliveira (2024) aplicaram a ALI em abordagens hermenêuticas voltadas à articulação entre memória e estrutura social.

  • iv. No âmbito do multiculturalismo e diversidade (Nascimento; Gouvêa, 2020), a ALI funcionou simultaneamente como ferramenta teórica e metodológica para mapear tendências temáticas e quadros referenciais dos autores. Essa aplicação revelou a dupla capacidade da ALI: analisar sistematicamente a produção acadêmica mantendo uma reflexividade crítica sobre seus fundamentos epistemológicos.

Operando em diferentes modelos — exploratório (Guedes; Lima, 2024), híbrido (Nascimento; Gouvêa, 2020) e hermenêutico (Gontijo, 2024) —, a ALI exige rigor metodológico em três dimensões fundamentais: validação, com protocolos claros para evitar sobreposições com análises de conteúdo convencionais; sistematização, garantindo rastreabilidade das decisões analíticas através de documentação detalhada; e transparência, mantendo audibilidade do processo interpretativo. Como metodologia em consolidação, sua efetividade associa-se aos pilares da escuta sensível aos dados, a reconstrução contextualizada de significados e o engajamento crítico com a complexidade dos fenômenos investigados. Essa natureza dialética — que conjuga flexibilidade interpretativa e exigências de rigor — demanda, portanto, do pesquisador competências duplas como a criatividade analítica para capturar nuances e disciplina metodológica para sustentar inferências, especialmente em estudos sobre realidades sociais multidimensionais.

Em diálogo com metodologias qualitativas consolidadas, a ALI destaca-se por sua flexibilidade interpretativa. No entanto, diferentemente da análise de discurso de Orlandi (1999), que enfatiza estruturas discursivas e relações de poder, a ALI prioriza a narrativa subjetiva do pesquisador, integrando teoria e prática de forma dialógica. Já em relação à análise temática de Braun e Clarke (2006), que segue um processo sistemático de codificação, a ALI prefere favorecer reflexões cíclicas. As possibilidades da ALI residem em sua capacidade de captar subjetividades complexas, promover inovações práticas, pautada em uma abordagem ética e reflexiva.

Considerações adicionais

As pesquisas que adotam uma abordagem mais libertária em suas análises, inspiradas na liberdade como prática pedagógica (Freire, 1999), tendem a provocar debates e gerar desconforto no meio acadêmico. Até este comportamento de estranhamento, no entanto, é reconhecido na história da Ciência. Quando a Academia, por meio dos ad-hoc, exige a elaboração de dispositivos analíticos como etapa da metodologia da pesquisa, busca, não apenas o importante rigor metodológico, mas também conter o ideal libertário e contra-hegemônico. Aqui, fizemos o exercício oposto, nos vestimos de um referencial teórico reconhecidamente de peso para legitimar e sustentar a ALI como possibilidade real de o pesquisador protagonizar o que Certeau (1994), Morin (1994) e Najmanovich (2001) assinalaram para os novos caminhos metodológicos. Caminhos que ampliam o diálogo nos movimentos de uma tessitura de liberdade baseada na complexidade das redes cotidianas de intervenção, avaliação, diálogo e rompimento com a austeridade das certezas. Logo, a dúvida é o movimento da pesquisa.

Ao nos debruçarmos em cima das indagações que nos levaram à pesquisa no ensino de ciências, suscitadas pelo cotidiano profissional, iniciamos um processo de autoanálise, mostrando a nós mesmos o íntimo de nossa capacidade de construção e desconstrução dos pensamentos e perceptibilidades. Isso atende ao princípio de alteridade e empatia que nos guia no entendimento da vida coletiva e na subjetividade dos sujeitos. Fato que pode ser trabalhado tanto na análise qualitativa quanto na quali-quantitativa. Foi com base nas nossas experiências de pesquisa em ensino de ciências, de sala de aula, de escuta, de leituras e observações, que a ALI nasceu.

Nesta perspectiva, a modalidade profissional nas áreas de Ensino e Educação desempenha um papel importante (Rizzatti et al., 2020), permitindo que os professores e profissionais que atuam na educação, dedicando-se anos às escolas e outros setores educacionais, possam identificar categorias de análise fundamentados em suas práticas educativas. É essa expertise, aprimorada através de discussões com colegas, docentes e grupos de pesquisa de programas de pós-graduação, especialmente aqueles da modalidade profissional, que tem viabilizado as primeiras compreensões e proposições da Análise de Livre Interpretação (ALI) como um método de análise robusto e eficaz. A interação continua com os dados qualitativos do contexto educacional, combinada com a reflexão acerca do aporte teórico e prático, permite uma compreensão mais profunda e contextualizada dos desafios e oportunidades na área do Ensino de Ciências e da Educação.

A figura do professor-pesquisador nos é cara, dado o local de origem desta proposta metodológica. No entanto, a ALI não está destinada a um público exclusivo, mas a um público mais amplo. Compreendemos sim que o olhar do pesquisador é fundamental para organizar, classificar, esquematizar, estruturar e interpretar os dados, em decorrência dos procedimentos plurais utilizados. Esses procedimentos teceram, em redes criativas, os movimentos, processos, tentativas e possibilidades de pensar com liberdade a pesquisa. A apuração e a depuração dos achados da pesquisa em palavras que se movimentam é arte que se vincula a uma análise que não prescinde das ideias livres de amarras (Anjos, Rôças, Pereira, 2019; Rôças et al., 2020).

A liberdade interpretativa, conceituada como o processo dialético de construção de categorias mediante a interlocução entre dados empíricos e arcabouço teórico, constitui o cerne da ALI. Gadamer (2004, tradução nossa, grifos do autor) argumenta que a ‘arte’ de escrever estimula o pensamento do leitor em ‘movimento produtivo’, rejeitando o ‘meio retórico ou estético convencional’ e promovendo uma construção criativa de significados sem categorias preestabelecidas. Essa liberdade, contudo, exige responsabilidade ética, pois, como Gadamer (2004, p. 443, tradução nossa) afirma, “chegar a um entendimento não é uma mera ação, uma atividade proposital” ou uma imposição subjetiva, mas um diálogo que respeita a alteridade dos dados, evitando interpretações subjetivistas.

Analisar na forma livre e autêntica de pensar o outro e se pensar, como disse Certeau (1994, 1996) possibilita que o pesquisador inicie uma jornada de autoconhecimento, simultaneamente ao conhecer de outros na dimensão das suas vivências e dos diferentes significados de suas vidas. Assim, nenhuma pesquisa que se oriente pela abordagem qualitativa deve ser reflexo fechado e sem arestas da realidade, haja visto que as múltiplas camadas de conexões entre o objeto e situações de análises são, potencialmente, fruto das redundâncias observadas no transcorrer do tempo e fragmentos de uma pesquisa.

Nesse aspecto, contamos com as singularidades que constituem a complexidade e a necessidade de essa análise privilegiar os sujeitos em liberdades, assumidos como sujeitos complexos e encarnados. Como bem assinalou Najmanovich (2001, p. 93-94): “O sujeito, desde a perspectiva das ciências da complexidade, é uma ‘unidade heterogênea’, organização emergente da interação de suborganizações entre as quais se destacam a cognição, a emoção e a ação, que são as formas de interação do sujeito com o mundo”.

A responsabilidade de uma escrita nos moldes da linguagem acadêmica posta na análise da pesquisa, revela e descortina a composição e articulações utilizadas como recursos de compreensão do tema da pesquisa no meio em que ela se dá. A ALI alarga e elabora um modo de fazer e de criar conhecimento na liberdade, para compreender a pluralidade, as conexões e a complexidade das relações e situações vividas. Levando em consideração o que Najmanovich (2001, p. 94) nos disse, ou seja: “o sujeito não é um ser, uma substância, uma estrutura ou uma coisa senão um devir nas interações”. A ALI vai buscando seu lugar, vai se aprofundando nos diálogos e aderindo novos parceiros, por isso é processo vivo, aberto e em construção.

Para tanto, é esse sujeito que acessa todos os sentidos da vida que escreve, observa, registra, ressignifica, dialoga, concorda, retruca, cria e recria os passos de sua trajetória e experiências vividas. É o pesquisador que estuda e compreende um conjunto de teorias, conceitos, pensamentos, ideias que ampliam narrativas de análises, como possibilidades de potencializar expressões e fluxos de conceitos como o fio do nosso modo próprio de ser, nossa singularidade complexa de compreender. E tudo está ligado ao modo de contar o visto, o ouvido, o pensado e o sentido.

Então, trabalhar com interpretações no sentido livre de fazê-las, coloca para nós uma possibilidade de assumir as dimensões de autoria, autonomia, legitimidade, emancipação e pluralidade de estéticas na beleza da liberdade. É dar protagonismo à capacidade criadora e criativa dos pesquisadores, para que assumam os limites, imprevistos e amarras do caminhar, registrando os axiomas em palavras e interpretações que capturaram as sutilezas das falas, dos gestos, dos números, dos silêncios e das imagens que habitam nos discursos tornados visíveis e que são instituintes de reflexões originais na livre interpretação.

As solicitações de colegas para maior detalhamento da ALI evidenciam a dificuldade de alguns pesquisadores em aplicar um método não sistematizado, o que, talvez, seja uma limitação da ALI. Contudo, para pesquisadores capazes de estabelecer um diálogo reflexivo e aprofundado com seus dados empíricos, essa flexibilidade interpretativa representa a principal fortaleza da ALI, promovendo análises ricas e contextualmente situadas. A ALI exige rigor na validação e transparência para manter sua legitimidade científica, equilibrando liberdade criativa com responsabilidade metodológica. Assim, a ALI se consolida como uma metodologia que, embora desafiadora, oferece contribuições significativas para a pesquisa em educação científica.

Nos novos caminhares da ALI compreendemos que as críticas e verdades não são completas em si mesmas, porque estão sempre sujeitas às imprevisibilidades e aos não vistos e entrevistos. Assim, as articulações dos contextos da pesquisa vividos pelos pesquisadores na liberdade de suas análises destacam a necessidade deles caminharem para aquisição constante de conhecimento, pois como já nos diziam Maturana e Varela (1995), a vida é um processo de conhecimento estruturado na linguagem e ao tentarmos conhecer o conhecer, acabamos por nos encontrar com nosso próprio ser. Conhecer é escancarar portas e janelas ao que não tem fim, ao poço que quanto mais se cava, mais terra se tem a cavar.

Segundo os autores, o conhecimento do conhecimento compromete-nos a tomar uma atitude de ir contra a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não são provas da verdade. A ALI nos abre para esse caminho e diálogo, à medida que nos colocamos como autores no ineditismo dos nossos olhares àqueles conhecimentos novos que nos debruçamos. Nos ver no papel, também é um ato de coragem. E isso conduz a uma ética inescapável de nós que brota da ponderação do campo da pesquisa e produz a reflexividade que permite o ato de mirar a partir de uma perspectiva mais abrangente e coletiva, já que é fruto das relações com as ideias do pesquisador, de suas leituras, das vivências e das escolhas existentes.

A escrita na ALI possui forma acadêmica, e essa não é fruto do acaso, mas de buscas intensas. A análise dos dados oriundos das investigações, que posta em registro, descortina a relevância que a metodologia em seus novos caminhares tem para a sociedade na produção do saber. Está inscrita dentro das novas epistemologias, e inspiradas em Santos (2000) que podem combater a proliferação da razão cínica. Que pode reinventar caminhares de emancipação numa relação dialética.

Na ALI entendemos o que Santos (2000) nos falou acerca dos paradigmas serem passageiros e historicamente construídos. Novos paradigmas plurais e diversos estão sendo construídos, pensados, vividos, dentre os quais um des-pensar para um pensar que ressignifique elementos dos novos paradigmas, começando pela percepção que temos do mundo, da pesquisa, do fazer livre na sua responsabilidade de existência autoral, autônoma e coerente com a verdade buscada. Pesquisa, no nosso entendimento, também é isso.

Agradecimentos

Agradecemos ao Grupo de Pesquisa Ciência, Aprendizagem, Formação e Ensino (CAFE) pelo contínuo espaço de debate, pelas provocações intelectuais, leituras críticas e reflexões que enriqueceram as discussões deste evento. Gostaríamos também de agradecer o apoio financeiro da FAPERJ (Bolsa Cientista do Nosso Estado, projeto nº 204.155/2024) e ao IFRJ por tornarem possível parte da pesquisa apresentada, bem como reconhecer o compromisso de todos os membros na construção de um ambiente acadêmico colaborativo e inovador.

Este trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) — Brasil, por meio de uma Bolsa de Produtividade Nível 2 (processo nº 303431/2022-9).

  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Os dados da pesquisa estão incluídos no próprio texto do manuscrito.

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Editado por

  • Editor: Roberto Nardi 0000-0002-5018-3621

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Jun 2024
  • Aceito
    12 Jun 2025
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