Resumo
A mobilidade acadêmica é um tema amplamente estudado em diferentes áreas. O objetivo deste artigo é analisar a literatura sobre a mobilidade acadêmica internacional (MAI), nas modalidades inbound e outbound, identificando redes de colaboração de pesquisa, autores e periódicos mais influentes, bem como grupos de interesse retratados e estudantes, destacando tópicos e abordagens teóricas. Foi realizada uma revisão de literatura bibliométrica e integrativa, no período de 2005 a 2022, na base de dados acadêmica Web of Science (WoS), resultando na análise bibliométrica de 851 artigos e na revisão integrativa dos 42 artigos mais citados entre os autores destacados. Como resultados, foram mostradas relações entre publicações, autores e temas, com destaque para alguns autores centrais e periódicos que têm sido, simultaneamente, produtivos e relevantes. Com a revisão integrativa, foram identificados os principais tópicos ‒ motivações e resultados da MAI, mercado de trabalho e carreira, aspectos socioeconômicos, políticas educacionais dos países e gestão de Instituições de Ensino Superior (IES), desigualdades na MAI, circulação de cérebros e impacto da COVID-19 ‒, as teorias mais usadas ‒ capital humano, capital social, escolha racional, motivações push-pull, educação e treinamento vocacional, tipos de mobilidade internacional ‒ e os grupos de interesse retratados nas publicações ‒ estudantes, graduados, docentes, pesquisadores, instituições de ensino superior e governos dos países. Sugerem-se estudos que integrem sujeitos e entidades participantes do processo, com foco em políticas educacionais e sociais, tendo soluções para diminuição das desigualdades e permitindo acompanhar as mudanças de contexto político, econômico e social.
Palavras-chave:
Mobilidade acadêmica internacional; Gestão da mobilidade acadêmica; Revisão bibliométrica; Revisão integrativa de literatura; Mobilidade inbound e outbound
Abstract
Academic mobility is a widely studied topic in different fields. The aim of this article is to analyse the literature on International Academic Mobility (IAM), both inbound and outbound, identifying research collaboration networks, the most influential authors and journals, as well as the interest groups portrayed and students, highlighting topics and theoretical approaches. A bibliometric and integrative literature review was carried out from 2005 to 2022 on the Web of Science (WoS) academic database, resulting in a bibliometric analysis of 851 articles and an integrative review of the 42 most cited articles among the authors highlighted. The results showed relationships between publications, authors, and themes, highlighting some central authors and journals that have been both productive and relevant. With the integrative review, the main topics were identified ‒ motivations and outcomes of the MAI, labour market and career, socio-economic aspects, educational policies of the countries and management of higher education institutions (HEIs), inequalities in the MAI, brain circulation and the impact of COVID-19 ‒, the most used theories ‒ human capital, social capital, rational choice, push-pull motivations, vocational education and training, types of international mobility ‒ and the interest groups portrayed in the publications ‒ students, graduates, teachers, researchers, higher education institutions and governments of the countries. Studies are suggested that integrate subjects and organisations participating in the process, with a focus on educational and social policies, finding solutions to reduce inequalities and enabling changes in the political, economic, and social context to be monitored.
Keywords:
International academic mobility; Management of academic mobility; Bibliometric review; Integrative literature review; Inbound and outbound mobility
Resumen
La movilidad académica es un tema ampliamente estudiado en diferentes campos. El objetivo de este artículo es analizar la literatura sobre Movilidad Académica Internacional (MAI), tanto entrante como saliente, identificando las redes de colaboración en investigación, los autores y revistas más influyentes, así como los grupos de interés retratados y los estudiantes, destacando temas y enfoques teóricos. Se llevó a cabo una revisión bibliográfica bibliométrica e integradora, desde 2005 hasta 2022, en la base de datos académica Web of Science (WoS), que resultó en el análisis bibliométrico de 851 artículos y en la revisión integradora de los 42 artículos más citados entre los autores destacados. Los resultados mostraron relaciones entre publicaciones, autores y temas, destacando algunos autores y revistas centrales que han sido productivos y relevantes. Con la revisión integradora, se identificaron los principales temas ‒ motivaciones y resultados de la MAI, mercado de trabajo y carrera profesional, aspectos socioeconómicos, políticas educativas de los países y gestión de las instituciones de enseñanza superior, desigualdades en la MAI, circulación de cerebros e impacto de la COVID-19 ‒, las teorías más utilizadas ‒ capital humano, capital social, elección racional, motivaciones push-pull, educación y formación profesional, tipos de movilidad internacional ‒ y los grupos de interés retratados en las publicaciones ‒ estudiantes, graduados, profesores, investigadores, instituciones de enseñanza superior y gobiernos de los países ‒. Se proponen estudios que integren a los sujetos y organizaciones participantes en el proceso, con especial atención a las políticas educativas y sociales, que busquen soluciones para reducir las desigualdades y permitan hacer un seguimiento de los cambios en el contexto político, económico y social.
Palabras clave:
Movilidad académica internacional; Gestión de la movilidad académica; Revisión bibliométrica; Revisión bibliográfica integradora; Movilidad entrante y saliente
INTRODUÇÃO
A mobilidade acadêmica internacional (MAI) não é um tema recente na literatura e tem chamado a atenção de diferentes áreas de conhecimento e grupos de interesse, como docentes e pesquisadores que procuram parcerias para o desenvolvimento e a disseminação de conhecimento, as instituições de ensino superior (IES) em processo de internacionalização e aqueles responsáveis por políticas educacionais e de fomento dos países (Gümüş et al., 2020; Shen et al., 2022). Os objetivos com a internacionalização das organizações e a mobilidade geográfica das pessoas podem ser de diferentes naturezas, dada à inserção dos países num mundo mais sem fronteiras e integrado, do ponto de vista da solidariedade, conforme defendido por organizações como a Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura (Unesco), ou da perspectiva capitalista e mercantilista, como uma estratégia de crescimento das IES, que procuram ocupar espaços e atender a demandas que instituições locais não conseguem suprir (Altbach & Knight, 2007; R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021).
Quando os programas de mobilidade acadêmica internacional são efetivos, justificam os investimentos, pois abrem novos mercados, alavancam o desenvolvimento e o compartilhamento de conhecimento, tecnologias, bem como estreitam parcerias e desenvolvem competências interculturais necessárias à formação e à atuação mais completa de docentes e discentes (Luce et al., 2016; Stallivieri, 2017). Do ponto de vista do conhecimento científico, amplia-se a discussão sobre ações e formas de avaliação de resultados da mobilidade acadêmica, sua aproximação com o campo de estudos de competências interculturais, contemplando diferentes ópticas e interessados, como poder público, órgãos de fomento, instituições de ensino superior, docentes, discentes e pesquisadores (R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021; Stallivieri, 2017).
O debate sobre a mobilidade acadêmica é também um ponto que integra a composição geopolítica mundial, afetando e compondo a circulação global de cérebros, a geração e a disseminação de conhecimento, além de seus resultados para os países envolvidos (Oldac, 2022; Ramos & Velho, 2011; Shen et al., 2022), com todos os seus vieses e desequilíbrios, como na comparação entre países do Norte e do Sul global. Por exemplo, com base em dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), países da América Latina se inserem de forma periférica, com baixos índices de recepção, porém com elevado número de envios de estudantes com destino a países ricos e desenvolvidos (Altbach & Knight, 2007; R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021).
Já há várias revisões de literatura sobre a MAI, que apresenta como fato comum o enfoque na mobilidade estudantil e representa o maior volume desse tipo de movimentação (Abdullah et al., 2014; Gümüş et al., 2020; Shen et al., 2022). Cada tipo de revisão contribui com recortes específicos, como análise da adaptação cultural, experiências de aprendizado e benefícios percebidos (Abdullah et al., 2014; Gümüş et al., 2020), sendo poucas as que envolvem análises bibliométricas para mostrar panorama das publicações, redes de colaboração para pesquisa, coautoria e citações, principais tópicos abordados, entre outros dados relevantes para conhecer esse campo de conhecimento (Gümüş et al., 2020).
Diante disso, evidenciou-se uma lacuna de pesquisa: a necessidade de uma revisão de literatura mais abrangente. Nessa direção, elaborou-se a seguinte questão: de forma geral, qual é o panorama da produção acadêmica sobre a MAI?
Para responder a essa pergunta, foi feita uma revisão de literatura combinando a bibliométrica com a integrativa, com o objetivo de analisar a literatura sobre a MAI, nas modalidades inbound e outbound, identificando as redes formadas para colaboração de pesquisa, os autores mais influentes e os principais tópicos estudados, levando em conta os diferentes grupos de interesse retratados, além dos estudantes, como os responsáveis por políticas educacionais e de fomento, instituições de ensino superior, docentes e pesquisadores, para depois destacar os temas e as abordagens teóricas. Entende-se a modalidade inbound como o fluxo de chegada de discentes, docentes e pesquisadores num país, enquanto a mobilidade outbound é o fluxo de saída desses indivíduos para mobilidade acadêmica em instituições de ensino de outros países (Shen et al., 2022).
A coleta dos dados foi feita delimitando o período de busca entre os anos de 2005 e 2022, na base de dados acadêmica Web of Science (WoS). Como apontado por Abdullah et al. (2014), Gümüş et al. (2020) e Shen et al. (2022), houve um salto significativo na produção acadêmica sobre o tema a partir de 2005, explicado, em parte, pelo aumento do número de pessoas com experiência da mobilidade acadêmica, pelo interesse de outras áreas de conhecimento (para além da Educação) e pelo forte impulso para a internacionalização das IES. Como contribuição, espera-se apresentar um panorama abrangente e integrativo das pesquisas no período analisado, observando a trajetória do tema, de redes de autoria e colaboração, bem como grupos de interesse retratados, para apontar avanços, lacunas, assuntos ausentes e sugestão de uma agenda de pesquisa.
REFERENCIAL TEÓRICO-EMPÍRICO
O interesse pela MAI não é recente e remonta aos anos 1950, com a massificação do ensino superior ocorrida logo após a Segunda Guerra Mundial (Gümüş et al., 2020; Shen et al., 2022). Houve, porém, um notável crescimento a partir dos anos 1980 (Altbach & Knight, 2007; Gümüş et al., 2020) e, mais recentemente, a partir de 2005, com a atenção dada ao tema por diferentes áreas de conhecimento, como a sociologia, a psicologia social, a economia e a administração, somando-se à área de educação, um reflexo do aumento do fluxo desse tipo de mobilidade internacional aliado ao impulso à internacionalização de instituições de ensino superior (Gümüş et al., 2020; Shen et al., 2022). Um dos objetivos basilares da MAI é auxiliar na promoção do desenvolvimento sociocultural e da convivência multicultural (Knight, 2012); por isso, ela é um dos aspectos estratégicos para o desenvolvimento dos países, sendo um elemento relevante na definição de diretrizes educacionais, em políticas públicas e no direcionamento de agências de fomento (R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021; Oldac, 2022).
A mobilidade acadêmica pode ser entendida como o processo que envolve o deslocamento de estudantes, pesquisadores e docentes entre instituições de ensino, podendo ser intra ou internacional, presencial ou virtual, com ou sem financiamento das instituições de ensino e com tempo de duração variável, dependendo dos objetivos envolvidos (Unesco, 2019). Numa revisão sobre a produção acadêmica acerca do tema entre 1980 e 2013, Abdullah et al. (2014) constataram que a maior parte dos estudos tratava da experiência presencial, acadêmica e social dos estudantes, e que muitas das responsabilidades na gestão desse tipo de mobilidade ficava a cargo das universidades e de seu respectivo corpo docente.
Na perspectiva das IES, a mobilidade acadêmica de estudantes, pesquisadores, docentes e parcerias internacionais impulsionam o desenvolvimento (R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021). A internacionalização dessas instituições acontece também por meio da mobilidade acadêmica que precede outras ações mais complexas, como a dupla titulação, a unificação de currículos, a cooperação em pesquisa, entre outras (Altbach & Knight, 2007; Luce et al., 2016). Um dos pressupostos, portanto, da internacionalização de uma IES é promover o respeito às diferenças e o reconhecimento da identidade cultural, bem como contribuir para a socialização do conhecimento, gerar novas oportunidades de trabalhos, entre outros aspectos positivos gerados com esse processo (Luce et al., 2016; R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021; Stallivieri, 2009).
Do ponto de vista de uma lógica capitalista e mercantilista, a internacionalização das IES é uma estratégia de crescimento para além de suas fronteiras, ocupando espaços e atendendo a demandas que instituições locais não conseguem suprir. Portanto, esse movimento, liderado pelo Norte global, tende a reproduzir e aumentar as desigualdades geradas pela concentração de riqueza, de conhecimento e de poder (Altbach & Knight, 2007), pois as instituições de países ricos têm e recebem mais recursos, conseguem atrair e reter diferentes estudantes, docentes e pesquisadores, sem falar no domínio intelectual e cultural, dados os interesses geopolíticos e econômicos envolvidos (Lima & Maranhão, 2009).
Sob um prisma econômico, a MAI impacta países e regiões, pois movimenta valores significativos com a crescente competição para atrair e reter estudantes, docentes e pesquisadores, além dos investimentos feitos por governos e instituições de ensino no preparo e no envio para essa experiência internacional (Oldac, 2022). Países se alternam nos rankings de mais procurados, sendo aqueles mais desenvolvidos e de língua inglesa (Estados Unidos, Reino Unido e Austrália) os principais hospedeiros, enquanto países asiáticos de economia emergente (China, Coreia do Sul, Índia e Arábia Saudita) têm sido os principais locais de envio de estudantes (Gümüş et al., 2020; Moscaritolo et al., 2022). Alguns fatores, entre eles a pandemia da COVID-19 e o aumento da xenofobia, têm levado a algumas mudanças nesse fluxo, principalmente no leste asiático (Mok & Zhang, 2022; Mok et al., 2022).
Dados da Associação Internacional de Educadores (Nafsa) mostram que os estudantes internacionais contribuíram com mais de 36 bilhões de dólares para a economia estadunidense em 2016, enquanto o Brasil investiu, entre 2011 e 2016, mais de 1,5 bilhão de dólares com pagamento de IES estrangeiras hospedeiras de estudantes brasileiros (R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021). Em 2017, havia em torno de 5,2 milhões de estudantes em mobilidade internacional no mundo, com mais de 60% de crescimento com relação ao ano 2000, quando o total de estudantes chegou a 2 milhões (Moscaritolo et al., 2022). Assim, a internacionalização das IES se configura como um instrumento de reprodução de desigualdades entre os países, reforçando a desproporção entre o Norte e o Sul (Brooks, 2015; Lima & Maranhão, 2009; R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021).
As IES criam e mantêm programas de MAI, relacionados ou não com outras ações de internacionalização, com iniciativas próprias de convênios e acordos bi e multilaterais, ou associando-se a outras instituições e instâncias governamentais. Um programa de MAI pode ser revisado e ampliado ao longo de sua existência e envolver diferentes etapas e responsáveis. As etapas mais comuns são: preparação; envio/recebimento de estudantes, docentes e pesquisadores; o retorno deles ao país de origem (Luce et al., 2016; Melo et al., 2021). A discussão e a proposição de melhorias em programas de mobilidade acadêmica contribuem não somente para estudantes, docentes e pesquisadores em geral, mas também para a consolidação da internacionalização das IES, por isso o interesse tem aumentado (Melo et al., 2021). São muitas as ações para cooperação entre elas, visando, entre outros objetivos, aumentar sua presença e relevância internacional (Luce et al., 2016).
A MAI pode ter foco somente na saída (outbound) dos indivíduos de sua comunidade acadêmica, na chegada (inbound) ou em ambas (Shen et al., 2022). Lima e Maranhão (2009) denominam esses 2 tipos de internacionalização de ativa e passiva. A primeira é aquela em que a instituição recebe estudantes, docentes e pesquisadores visitantes por meio de políticas e programas de atração desses perfis de mobilidade acadêmica e para a publicação de estudos em seus veículos de divulgação. Já a segunda se caracteriza pelo deslocamento de alunos, docentes e pesquisadores para outras IES, em diferentes países, e pela publicação de pesquisas de sua comunidade acadêmica em veículos de divulgação dessas instituições estrangeiras.
Um aspecto relevante sobre os programas de MAI diz respeito aos elementos e às formas para sua concepção e avaliação (Luce et al., 2016; Melo et al., 2021). Para isso, é preciso observar a discussão e a elaboração de políticas públicas voltadas a essa experiência, seus objetivos e metas, passando pelas ações específicas das IES e a mensuração da efetividade dos resultados da mobilidade para a finalidade de internacionalização. Do ponto de vista dos estudantes, é importante compreender o contexto de origem, as diferentes necessidades de preparação e acompanhamento, além de observar diversos tipos de resultados e efeitos que essa experiência pode acarretar (Brook, 2015; Melo et al., 2021; R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021).
Por ser um tema de interesse de diferentes grupos e campos de conhecimento, a MAI tem sido estudada por meio de diversas lentes teóricas, sendo a teoria push-pull - motivos que levam a sair do país de origem e a escolher o destino - uma das mais utilizadas, principalmente nas pesquisas que analisam o viés dos indivíduos em mobilidade e as instituições de ensino. Já os estudos sobre o processo e os resultados da MAI têm adotado abordagens da psicologia cultural para tratar da adaptação intercultural e do desenvolvimento de competências interculturais; teorias do campo da sociologia, como a do capital humano, para analisar a circulação de cérebros; ou teoria do capital social para explorar as relações desenvolvidas com a mobilidade internacional, além de perspectivas dos estudos migratórios, da formação de redes de cooperação, entre outros (Shen et al., 2022).
Mesmo com distorções e desigualdades, com políticas e episódios mais restritivos, como foi durante a pandemia da COVID-19, a maior parte dos autores continua favorável à MAI, enfatizando os ganhos que a experiência pode trazer para indivíduos, instituições e países, com a necessidade de avanços e melhorias, como a criação e a expansão de políticas públicas com foco na interculturalidade, na solidariedade, no respeito e no compartilhamento de conhecimento (Gümüş et al., 2020; Lima & Maranhão, 2009; Oldac, 2022; R. B. Pessoni & A. Pessoni, 2021).
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Quando um tema está em expansão em sua produção acadêmica, torna-se difícil acompanhar seu panorama de publicações, o estado da arte, por isso uma revisão de literatura se transfigura num dos métodos de investigação mais relevantes (Torraco, 2005; Snyder, 2019). Para este estudo, foi realizada uma revisão de literatura composta por bibliométrica, numa primeira etapa, complementada por uma integrativa.
A revisão bibliométrica permite observar determinado domínio de conhecimento, utilizando softwares estatísticos para explorar parâmetros e elementos das publicações (Paul & Criado, 2020), como o desempenho de artigos, periódicos e autores, padrões de colaboração e constituintes de pesquisa, visando demonstrar a estrutura intelectual sobre o tema analisado (Donthu et al., 2021) e pondo em evidência as influências teóricas e metodológicas entre os autores (Vogel & Guttel, 2013). Os métodos de análises de cocitação e de acoplamento bibliográfico demonstram se há paridade textual entre os artigos por meio do comportamento referencial dos autores e o estabelecimento de relações intertextuais entre as publicações (Vogel & Guttel, 2013). O acoplamento bibliográfico mede a relação entre dois documentos a partir da quantidade de referências comuns, ao passo que a análise de cocitação mensura a relação entre dois artigos, com base no número em que são citados de maneira concomitante, determinando as contribuições mais influentes (Grácio, 2016).
Na revisão integrativa, o intuito é criticar e sintetizar o conteúdo da produção acadêmica, rever teorias existentes e impulsionar novas abordagens e fundamentos. Ela é direcionada pela avaliação crítica que desconstrói a literatura científica em determinado campo de estudo em várias frentes, identificando, com isso, as contribuições e os aspectos problemáticos representados na literatura (Snyder, 2019). Uma revisão integrativa pode focar nos tópicos considerados mais maduros sobre o tema, nos tópicos emergentes ou em ambos. Elas são apropriadas quando há evidências contraditórias, mudança na direção e na forma como um fenômeno é relatado, bem como quando surgem pesquisas sobre o tema em diferentes campos (Torraco, 2005).
Assim, foram seguidas algumas etapas para a revisão de literatura, iniciando com a elaboração da questão de pesquisa: “de forma geral, qual é o panorama da produção acadêmica internacional sobre a MAI?”. Em seguida, foi escolhida a fonte de dados, a base WoS, por ser reconhecida e frequentemente utilizada para estudos de revisão nos campos do ensino superior (Abdullah et al., 2014; Gümüş et al., 2020). Na terceira etapa, que trata de um estudo longitudinal, foi definido o período a ser pesquisado: 2005 a 2022. A escolha pelo ano inicial se deu por ser o ano em que houve um salto na produção acadêmica sobre o tema, graças ao aumento no número de pessoas em mobilidade acadêmica, ao interesse de outras áreas de conhecimento e ao forte impulso para a internacionalização das IES (Abdullah et al., 2014; Shen et al., 2022).
Como quarta etapa, foram escolhidas as palavras-chave international mobility, para fazer a busca inicial, de forma mais abrangente, de acordo com o objetivo da pesquisa e da literatura que incorpora nesse termo conceitos de mobilidade científica, organizações, pesquisadores e estudantes (Shen et al., 2022). Adicionalmente, foram feitas outras pesquisas com termos isolados e combinados, no singular e plural: international migration of students, international students mobility, international educational exchange, global student, global academic mobility e international higher education.
Em termos de distribuição da produção ao longo dos anos e dos principais autores citados, os resultados encontrados foram muito similares, sendo que, em grande parte, os artigos diferentes tratavam mais de outros aspectos, como carreira e empregabilidade, ou tinham foco somente nos estudantes, já tratados em outras revisões, como as de Abdullah et al. (2014) e Gümüş et al. (2020). Por isso, escolheu-se, para as próximas etapas, o resultado da busca inicial com o uso do termo international mobility.
Em seguida, foram aplicados os filtros áreas de interesse, período e tipo de documentos. As áreas de interesse foram: business, management, sociology, education educational research, anthropology, geography, psychology social, cultural studies, public administration e psychology educational. Em pesquisa prévia, observou-se que a área que mais concentra publicações sobre o tema é a de educação, porém foram inseridas outras que também representam diferentes grupos de interesse sobre MAI, dentro das grandes áreas de ciências sociais aplicadas e humanas, para tentar capturar uma visão mais ampla sobre a produção acerca do tema. Foram deixadas de fora áreas relacionadas com saúde, tecnologia e engenharias que também têm publicações sobre MAI, mas com outro escopo e objetivos. Como parâmetro de tipo de documentos, somente foram considerados artigos completos, de revisão e acesso antecipado.
A quinta etapa foi a coleta de dados, que ocorreu em junho de 2022, resultando em 2.013 artigos. Posteriormente, em janeiro de 2023, foi realizada uma busca adicional para complementar a coleta de artigos de 2022, somando-se 248 à contagem inicial, totalizando 2.261 artigos. A sexta etapa foi a obtenção e a triagem dos dados. A exportação da base WoS foi feita para o formato MS-Excel, com a opção full record de cada registro, garantindo a organização e verificando a padronização dos dados. Em seguida, foi feita a triagem dos artigos, por meio da leitura de títulos e resumos, executada em 2 momentos, por membros diferentes da equipe de pesquisa, gerando uma lista final de 851 artigos, os quais tinham como foco principal a mobilidade acadêmica internacional.
A sétima etapa foi a análise bibliométrica dos artigos, com o auxílio do Microsoft Office Excel, para exame e apresentação da distribuição de frequência dos dados, enquanto as análises de citações, cocitações, acoplamento bibliográfico e co-ocorrência de palavras-chaves foram realizadas com o uso do software VOSviewer, escolhido por ser um projeto freeware, conter ampla documentação sobre seu funcionamento, ter interface gráfica robusta e ser compatível com a base WoS.
O Quadro 1 apresenta uma síntese dos indicadores bibliométricos analisados nesta revisão.
A oitava e última etapa foi a revisão integrativa. Para definição da literatura para esta revisão, considerou-se o agrupamento de autores com os seguintes parâmetros: no mínimo 5 publicações e pelo menos 100 citações, observando os dados de mapeamento científico e rede social de autores demonstrados pela revisão bibliométrica. Com base na análise destes parâmetros, 42 artigos foram escolhidos para a revisão integrativa. Não foram definidas categorias de análise a priori, mas se buscou identificar e analisar os principais tópicos tratados nesses artigos, abordagens teóricas utilizadas e grupos de interesse retratados. Com isso, foi possível compreender as diferentes perspectivas sobre a mobilidade acadêmica internacional, relacionando-as com os tipos de fluxo (inbound e outbound), ao longo do período analisado.
APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
1ª etapa: análise bibliométrica
A Figura 1 apresenta as publicações ao longo do tempo e a linha de tendência. Nota-se que as publicações cresceram. Os últimos 5 e 10 anos representam, respectivamente, 72,15% e 91,42% do número total de publicações do período analisado. Entre os anos de 2005 e 2010, a média de artigos era de 3,5 publicações por ano. Entre 2011 e 2020, foi de 36 por ano, saltando para 176 por ano nos últimos 2 anos.
Esses resultados confirmam os trabalhos de Gümüş et al. (2020) e Shen et al. (2022) sobre o fato de esse tema estar em ascensão, em especial nos últimos 10 anos. Outro fator que poderia justificar o maior interesse nessa área são os números de autores envolvidos em estudos sobre a MAI, como será comentado adiante, na Figura 4. Outra explicação para esse aumento, que poderia se dar pelo interesse de novas áreas, não se comprovou, pois os resultados apontaram que mais de 80% dos artigos que tratam a MAI como tema central continuam sendo da área de educação, com a de gestão e a de sociologia representando 5% cada uma, com crescimento nos últimos 5 anos da pesquisa.
O número de citações é um indicador que aponta uma relevância de produções, autores e periódicos, de modo que se pode compreender melhor a produção acadêmica. No Quadro 2, estão listados os 10 artigos mais citados entre 2005 e 2022.
Na Figura 2, analisa-se a quantidade de citações por artigos, os quais são representados pelo sobrenome do autor principal e o ano de publicação. Aqueles com um número igual ou maior a 50 citações estão num grande agrupamento formado por vários clusters. Esses agrupamentos são formados por forças de ligações graças à proximidade e à complementaridade temática e metodológica entre os autores. Quanto maior o tamanho do círculo representado, maior o número de citações, e as cores, per si, não têm significado; somente demonstram a formação de clusters diferentes, os quais apresentam publicações voltadas à investigação da mobilidade acadêmica de estudantes do ensino superior, abrangendo motivações, experiências, fluxos, direção (inbound ou outbound), além de explorar a gestão de políticas aplicadas para estudantes internacionais em programas de mobilidade. Na parte mais à esquerda da Figura 2, estão representados esses clusters de modo ampliado.
Na Figura 3, o mapa de calor apresenta as publicações de Froese (2012), Gonzalez et al. (2011) e Li e Bray (2007), em destaque, como as mais citadas do período: 298, 192 e 166, respectivamente, como já apresentado no Quadro 2.
Em relação ao conteúdo dos 3 artigos mais citados, o trabalho de Li e Bray (2007) aborda os fatores impulsionadores e limitantes no fluxo de estudantes chineses do ensino superior em Hong Kong e Macau; o de Gonzalez et al. (2011), os determinantes do fluxo de mobilidade internacional de estudantes no programa europeu Erasmus; o de Froese (2012), as motivações e a adaptação intercultural de autoexpatriados acadêmicos na Coreia do Sul. Ao visualizar o mapa de calor, observa-se que o artigo de Froese (2012), apesar de ser um dos mais citados, não tem ligação com outros.
Ao contrário, os artigos de Gonzalez et al. (2011) e de Li e Bray (2007) apresentam ligações entre si, colocando-os muito próximo no mapa de calor, aumentando, assim, seu brilho e o tamanho na figura. O número total de autores no período foi de 1.803 para 851 artigos, média de 2,12 por artigo, o que sugere coautorias. Com base na Figura 4, observa-se a distribuição do número de autores por ano, destacando que houve aumento de interesse de mais pesquisadores pelo tema. Entre os anos de 2018 e 2022, está concentrado 69,61% do total de autores, acompanhando os dados de crescimento de publicações por ano.
Na Figura 5, estão considerados os autores com pelo menos 1 publicação e 50 citações ou mais, não havendo ligação entre eles, como se visualiza na parte mais à direita da figura. Mas há agrupamentos, mostrados na parte central, o que confirma ligações entre aqueles que produziram mais artigos e os mais citados.
Assim, aplicado o parâmetro de 5 publicações por autor, foi possível visualizar esses agrupamentos à esquerda na mesma figura, chegando ao número de 13 autores, que representam 9,52% do número total de publicações no período. Quanto às citações que esses autores tiveram, correspondem a 12,31% da contagem total. Aqueles com maior número de publicações, com um total de 8 cada, são: Ka Ho Mok, Nicolai Netz, Ly Thi Tran e Jannecke Wiers-Jenssen. Apesar do mesmo número de artigos, há disparidade, se considerado o número de citações, sendo os mais citados: Ly Thi Tran, Nicolai Netz e Rachel Brooks, o que mostra a importância de usar diferentes indicadores para fazer o mapeamento científico (Donthu et al., 2021).
A Figura 6 apresenta a quantidade de publicações dos 13 autores mais profícuos e a quantidade total de citações.
Na Figura 7, veem-se os 4 clusters dos autores mais profícuos - aqueles com o maior número de publicações no período - e suas parcerias de autorias, além de fortes ligações dos subtemas. O primeiro cluster, formado por Jenna Mittelmeier, Ashley Gunter e Parvati Raghuraman, não obstante sua produção em conjunto, publicaram individualmente sobre internacionalização do ensino superior num contexto do Sul global e da África do Sul. Já o segundo, formado por Nicolai Netz, Christof van Mol e Jannecke Wiers-Jenssen, abrangem estudos de mobilidade de estudantes europeus, explorando a trajetória pós-mobilidade e a construção de redes de relacionamentos, mercado de trabalho, renda e outros.
No terceiro cluster, Ly Thi Tran, Rachel Brooks e Peidong Yang falam da experiência intercultural de estudantes, docentes e pesquisadores de um ponto de vista mais subjetivo, com abordagens sociológicas e psicossociais. No quarto, composto por Wenqin Shen, Ka Ho Mok e Anne C. Campbell, são abordados temas mais atuais, como a pandemia da COVID-19, a sustentabilidade, aspectos sociais e estudos direcionados à MAI de estudantes chineses.
Quanto aos periódicos, a contagem foi de 248 revistas que publicaram os 851 artigos e obtiveram um total de 11.930 citações. O Quadro 3 apresenta as 14 revistas mais citadas. Ao comparar os dados sobre número de publicações com número de citações por revista, é possível observar assimetrias, como a revista Journal of Studies in International Education, que publicou o maior número de artigos (91), mas é a segunda em número de citações. As revistas Economics of Education e Educational Researcher publicaram 2 artigos cada, porém têm mais de 200 citações, o que pode denotar diferentes graus de reconhecimento entre as revistas e autores que publicam em cada uma. As 14 revistas mais citadas concentram 65,08% do total de citações e somente 38,5% do número total de publicações de artigos.
Quanto à abordagem de pesquisa, conforme a figura 8, 413 artigos (48,9% do total) são de abordagem qualitativa, 353 (41,8% do total) são descritos como pesquisas de abordagem quantitativa e 78 (representando 9,2% do total) são descritos como pesquisas de abordagem mista. A distribuição da abordagem de pesquisa no período de 2005 a 2022 apresenta uma constante crescente nas 3 formas, mas se destaca a abordagem qualitativa a partir de 2017, com uma queda em 2019, voltando a crescer no ano seguinte e se mantendo assim até 2022. Desse modo, denota-se a importância, numa análise da bibliometria, de compreender como os autores pesquisaram aquele fenômeno, buscando fatores subjetivos e em profundidade ou fatores mensuráveis e objetivos. Isso dará pistas do que pode ser encontrado na literatura sobre o tema.
Para a análise das relações intertextuais entre as publicações, serão analisadas as cocitações e o acoplamento bibliográfico, relevantes para traçar as interações intelectuais e as conexões estruturais das pesquisas. No que se refere às cocitações, que são os pares de publicações mais citadas concomitantemente, foram selecionadas as referências com número mínimo de 20 citações, como mostrado na Figura 9. Entre os clusters formados, ou seja, entre as publicações com maior força de ligação, dois agrupamentos contam com as publicações mais co-citadas, como mostrado no recorte na mesma figura.
O primeiro cluster é formado pelas publicações de Altbach e Knight (2007), Knight (2004), Li e Bray (2007) e Mazzarol e Soutar (2002), enquanto o segundo, por Brooks e Waters (2011) e Finlay et al. (2012). Destaca-se, mais uma vez, a relevância do artigo de Li e Bray (2007), o mais citado no período e um dos mais co-citados.
Já para a análise de acoplamento bibliográfico, que determina a quantidade de bibliografias em comum num grupo de artigos, foram selecionadas aquelas com no mínimo 50 citações em similaridade. Na Figura 10, são apresentados os artigos que mais se valeram de bibliografias em comum e se nota a formação de vários clusters interligados com maior força de ligação por sua similaridade e complementaridade temática e metodológica. Mais uma vez, confirma-se que as publicações mais citadas, Gonzalez et al. (2011) e Li e Bray (2007), têm uma forte ligação entre si, enquanto a obra de Froese (2012), apesar de utilizar referências bibliográficas em comum, está isolada e apresenta pouca ligação com o restante dos artigos publicados no período analisado.
Quanto às palavras-chaves, foi definido o parâmetro no VosViewer de, no mínimo, 5 aparições. Na Figura 11, o termo higher education é um ponto centralizador e está relacionado com os mais diferentes clusters de publicações, como aquele que concentra termos como strategic institucional management. Palavras similares entre si, como student mobility, international student mobility e international student, também têm significativa representatividade, dado o termo de busca utilizado (international mobility), reforçando a proximidade dos resultados de busca na base WoS.
Destacam-se os termos que remetem a países ou regiões onde ocorrem esse tipo de mobilidade - por exemplo, East Asia, Chinese students, Europe, Australia, Malaysia, Vietnan e Korea -, tanto como origem quanto como destino, evidenciando interesse de pesquisa por países asiáticos.
A análise longitudinal da frequência de palavras-chaves entre 2016 e 2022 evidenciou a concentração de palavras entre 2018 e 2020. Como mostra a Figura 12, representando o uso de termos ao longo do tempo, confirma-se a mudança, mesmo que vários desses sejam sinônimos. Há poucas ligações com os anos iniciais, apontando que as publicações estavam concentradas, primeiramente, no estudo da MAI e na internacionalização do ensino superior como um único processo.
Mais recentemente, houve aumento da pluralidade de palavras como international students, higher education e international student mobility, vinculadas a outros termos, como educação transnacional, identidade, gênero, mobilidade social, além de referências a países do Leste asiático, como Vietnã e China. Isso confirma o crescimento da produção acadêmica, com a concentração de publicações relacionadas com estudantes em diversas perspectivas e contextos, com menor número de publicações tratando das instituições de ensino, dos docentes e de outros pesquisadores.
Como mostrado na Figura 13, ao analisar o recorte mais atual, os termos de maior ocorrência foram COVID-19 pandemic, COVID-19, systematic review e short-term mobility, o que indica que fatores ambientais tiveram impacto sobre a MAI e uma tendência de publicações focadas nas experiências de curto período.
Ao restringir o parâmetro no VosViewer em 10 ocorrências, foi realizada a análise da formação de clusters temáticos, evidenciando as ligações entre os termos, como mostrado na Figura 14. Nota-se a formação de 5 agrupamentos temáticos, sendo os 3 principais (1, 2 e 3) mais fortemente interligados. O cluster 4 tem sua força com o 1, já o 5 está mais isolado, tendo fraca ligação com o 1 e o 2 e nenhuma com o 3.
Os clusters 1 e 2 estão ligados à internacionalização da educação via mobilidade acadêmica, migração, transnacionalização e processo de globalização, sob aspectos como o geográfico e o social, retratando o deslocamento de interesses de um continente ou país para outro. Já o cluster 3 é mais institucional, foca no processo de mobilidade acadêmica, com escopo na internacionalização do ensino - sobretudo superior -, em processos de ensino e de aprendizagem, bem como em programas de intercâmbio de estudantes, pesquisadores e de conhecimento. O cluster 4 inclui temas relacionados com a educação transnacional e o desenvolvimento de competências interculturais envolvidas, ao passo que o 5 engloba temas recentes referentes às pesquisas desenvolvidas sob o contexto da pandemia.
2ª etapa: análise integrativa
A análise dos dados da revisão bibliométrica ajudaram a identificar os artigos para a revisão integrativa, considerando os autores mais destacados, com no mínimo 5 publicações e 100 citações. Baseado nessas análises, foram identificados 6 principais autores e 42 artigos de sua autoria com outros pesquisadores, que foram os selecionados para a revisão integrativa. Trata-se de Ka Ho Mok, Rachel Brooks, Nicolai Netz, Ly Thi Tran, Peidong Yang e Jannecke Wiers-Jenssen. Como já apontado, não foram definidas categorias de análise a priori, mas se buscou examinar os principais tópicos tratados, as abordagens teóricas utilizadas e os grupos de interesse retratados.
Inicialmente, um ponto identificado foi que muitos estudos acadêmicos e instituições que fornecem dados oficiais sobre a MAI não diferenciam o tipo de estudante em mobilidade internacional, o que confunde e torna difusa a compreensão sobre quais são os reais problemas e desafios de cada grupo - por exemplo, entre estudantes de graduação e de pós-graduação. Como imaginado, há maior foco na mobilidade inbound por parte de estudos de autores oriundos do Norte global ou cujas pesquisas tratem de países ricos e desenvolvidos. Já os autores e os estudos voltados à realidade de países emergentes e do Sul atentam mais para as questões da mobilidade outbound.
Com relação aos tópicos mais abordados, foi feita uma classificação em 7 principais, entendendo que eles estão presentes, muitas vezes, de forma combinada nos diferentes artigos analisados. Esses 7 tópicos foram nominados como: as motivações e os resultados da MAI; o mercado de trabalho e a carreira; os aspectos socioeconômicos; as políticas educacionais dos países e a gestão de IES; as desigualdades no contexto da MAI; a MAI na circulação de cérebros; o impacto da COVID-19.
Os diferentes fatores ligados a motivações e resultados da MAI são o tópico principal em alguns estudos ou o pano de fundo de outros, mas questões sempre presentes em todos eles. Acerca desse tópico e do mercado de trabalho e carreira, para os estudantes chineses, estudar no exterior resulta em empregabilidade e na valorização por parte dos empregadores e da sociedade, em detrimento dos que têm diplomas nacionais (Mok, 2018). Logo, entende-se o empenho em incentivar e financiar os filhos em universidades estrangeiras bem-conceituadas, causando o maior fluxo de estudantes em mobilidade internacional outbound: China para Reino Unido e Estados Unidos (Mok, 2018; Mok et al., 2020).
Wiers-Jenssen (2008) mostra que os estudantes que fizeram mobilidade internacional e voltaram do exterior graduados têm mais oportunidades para o primeiro emprego do que aqueles que não fizeram. Já ao analisar noruegueses não étnicos com experiência de estudo no exterior, Storen e Wiers-Jenssen (2010) apontam que realizar a MAI não influencia significativamente no risco de desemprego no início da carreira e na incompatibilidade de habilidades dos graduados noruegueses. Na Alemanha, Kratz e Netz (2018) apontam que experiências de MAI levam a trabalhos em contextos internacionais e ao estabelecimento de redes no exterior. Também observaram que tais indivíduos estão mais propensos a mudar de empregador e trabalhar em grandes empresas e multinacionais barganhando salário. Netz (2021) aponta para um crescimento salarial após experiência internacional em médio prazo. Isso se deve às características individuais de autosseleção, e não à experiência internacional em si.
Outro aspecto é que os estudantes em mobilidade de nível social mais alto se beneficiam mais que os estudantes de origem mais baixa quanto à empregabilidade. Ademais, os resultados positivos de aumento de renda só são percebidos pelos estudantes de alto nível social, de modo que não tiveram um efeito significativo entre os graduados de baixa renda (Netz & Gruettner, 2021). Isso já foi percebido pelos próprios estudantes de baixa renda. Löerz et al. (2016), afirmam que, para esses alunos, a estadia no estrangeiro é menos benéfica e raramente existe a intenção numa MAI. Outro aspecto é a maior sensibilidade desse grupo ao custo da mobilidade, não apenas o econômico-financeiro. Logo, a classe social influencia na mobilidade internacional, e o contato anterior com o estrangeiro leva à predisposição a deslocar-se para o exterior, destacando também os aspectos socioeconômicos em sua análise.
Nessa mesma direção, Netz e Jaksztat (2017) defendem que os estudantes de alta renda são mais expostos ao fator internacional e que, a partir de experiências cumulativas no exterior, os custos psicológicos, emocionais e informativos envolvidos na MAI se tornam menores. Isso é confirmado em trabalhos mais recentes, como os de Mok e Zhang (2022) e de Brooks e Waters (2022), sobre a MAI estudantil funcionar como meio de reprodução das desigualdades sociais, mais problemático em países onde há financiamento público da mobilidade. Isso confere muitas responsabilidades aos formuladores de políticas públicas de MAI e aos gestores das IES, confirmando as questões de desigualdades no contexto da MAI.
Com esse tópico, Yang (2020) traz uma visão mais pessimista em relação ao retorno do investimento da mobilidade internacional de estudantes, definindo-o como cada vez mais incerto e dependente de marcadores sociais de desigualdade e da capacidade de absorção do mercado de trabalho dos países de origem e de destino. Outras pesquisas em contexto europeu analisaram os retornos dos investimentos públicos com a MAI, além do retorno direto para os estudantes envolvidos. Hovdhaugen e Wiers-Jenssen (2021) apontam a influência do risco de desemprego no início da carreira e a incompatibilidade de habilidades de noruegueses numa condição social de desvantagem, em comparação com outros estudantes noruegueses em melhor condição social, apontando a necessidade de políticas públicas efetivas de inclusão. Um fator limitante à mobilidade internacional é a faixa etária. Tanto na pesquisa aplicada em países europeus (Netz, 2015) quanto na China (Yang, 2022), verificou-se que a MAI é realizada por estudantes cada vez mais jovens.
Já a questão do custo financeiro de estudar no exterior teve perspectivas diferentes a partir da origem da renda, de recursos próprios ou de terceiros. Uma questão levantada por Netz (2015) são os filhos menores de 18 anos, identificados como fatores limitantes à MAI. Já os que têm filhos e se dispõem a fazer a MAI, estão sob forte influência dos papéis de gênero, o que acarreta um notável fator de desigualdade para a experiência feminina no exterior. Na pesquisa de Brooks (2015), estudantes-pais no exterior do sexo feminino estão mais propensos a assumir, paralelamente aos estudos, os cuidados com os filhos de forma compartilhada com os companheiros. Os pais-estudantes puderam se dedicar inteiramente aos estudos, pois suas companheiras se responsabilizavam pelos cuidados dos filhos.
Ressaltam-se outros aspectos socioeconômicos que podem compor a relação motivação-recompensa esperada com a mobilidade internacional. É o caso de estudantes do Reino Unido, um país hub de mobilidade inbound, ou seja, um ponto central de atração e de concentração de estudantes e pesquisadores. Lá, os estudantes não são motivados pela empregabilidade e pela mobilidade social; utilizam essa experiência apenas para perpetuar seus privilégios (Waters & Brooks, 2010). Eles desejam experiências pessoais, a oportunidade de postergar o início da carreira e prolongar a vida estudantil. Tran (2016) ilustrou perspectivas de estudantes internacionais na Austrália que interpretam a MAI como recurso para ajudá-los a se tornar o tipo de pessoa, profissional ou cidadão a que aspiram ser.
Brooks e Waters (2009) realizaram uma pesquisa com estudantes britânicos em universidades de elite nos Estados Unidos, constatando que eles tinham como expectativa uma segunda chance de sucesso, o que não conseguiram no Reino Unido. Em sua pesquisa, Tran e Pham (2016) exploraram a visão do “eu” no engajamento intercultural desses estudantes, o equilíbrio entre suas identidades individuais e o desejo da vivência que, potencialmente, geram reciprocidade de ideias, trocas de conhecimentos, entre outros.
Brooks e Waters (2009) analisam também os efeitos de interesses coletivos com a MAI impulsionada por políticas públicas e incentivos financeiros em contraposição a interesses de indivíduos de alguns países ricos e desenvolvidos do Norte, relacionando os aspectos socioeconômicos com questões analisadas no âmbito da circulação de cérebros entre os países. Nessa mesma direção, Tran e Vu (2018) comentam sobre a MAI e a possibilidade da fuga de cérebros, tema que não se limita apenas a interesses pessoais, mas também a coletivos, graças ao enorme potencial de recursos culturais e intelectuais dos envolvidos. Várias são as políticas que tentam incentivar o retorno dos estudantes: acordos de vínculo, termos e condições de repatriações vantajosas e argumentos morais enfatizando suas obrigações com seu Estado-nação (Brooks & Waters, 2021).
Para alguns autores, a circulação de cérebros, mais especificamente a fuga de cérebros, não é percebida como desvantajosa para os países, como apontado por Wiers-Jenssen (2008). A autora argumenta que há um enriquecimento, seja na internacionalização do capital humano do país destino, seja pelo posterior retorno ao país de origem trazendo experiências internacionais, redes de contatos e parceiros no exterior, entendendo que a fuga de cérebros, em alguns casos, pode ser temporária. Na China, as garantias percebidas pelo retorno ao país desestimulam a fuga de cérebros e é entendida de forma positiva ao representar o soft power chinês (Mok, 2016), trazendo outra perspectiva ligada às políticas educacionais dos países e a gestão de IES.
Além da questão do retorno de estudantes e pesquisadores, alguns estudos tratam da preparação para a MAI como uma responsabilidade de docentes, IES e governos. Tran (2013) apresenta a necessidade de adaptação de professores e estudantes à educação e ao treinamento vocacional como ponto de partida para a preparação tanto para receber quanto para enviar pessoas para MAI. Para Tran e Bui (2021), é preciso analisar os impactos sociais para a diplomacia australiana da MAI de estudantes do programa New Colombo Plan Students. Sobre esse mesmo programa, Tran et al. (2022) focam na preparação para a mobilidade outbound, com a abordagem de saber, agir e tornar-se um estudante em mobilidade internacional em países do Leste asiático.
Na visão de autores de países desenvolvidos, como Brooks e Waters (2021), as motivações de políticas fomentadoras ao retorno de estudantes não partem de democracias liberais, e sim de países ditos quase autoritários, partindo de diferentes ideias sobre identidade nacional, motivações políticas, econômicas e objetivos de curto e longo prazo, visão que pode ser questionada, já que países como o Brasil estabelecem normas de retorno ao país quando há concessão de ajuda financeira por meio de bolsas de estudo, por exemplo.
A conjuntura global mais recente, modulada pelos impactos da COVID-19 e por movimentos antiglobais e anti-China, principalmente no ocidente, mudaram o cenário da mobilidade internacional estabelecido nas últimas décadas. O tradicional fluxo Leste-Oeste tem sido ponderado por estudantes chineses, que agora veem uma nova alternativa nas universidades de ponta do Leste asiático (Mok, 2022; Mok et al., 2021). As incertezas e as proximidades culturais e geográficas têm sido os principais fatores para a escolha de destino, aponta a pesquisa de Mok et al. (2022). Esse deslocamento pode causar diversas consequências na distribuição global da mobilidade acadêmica, com seus hubs inbounds já estabelecidos, podendo impulsionar a revisão de políticas de atração de estudantes internacionais (Wiers-Jenssen, 2023).
Alguns autores não declaram uma abordagem teórica ou uma teoria de referência. Aqueles que o fazem, acabam se amparando em teorias já conhecidas e estabelecidas, como a push-pull e seus modelos sobre motivações para a MAI - em alguns casos, com a teoria das escolhas racionais. Já a teoria do capital humano é a base de estudos com foco maior nas questões de mercado de trabalho e carreira, com discussões acerca da gestão de IES e políticas de atração e retenção de cérebros. Uma das teorias mais utilizadas, seja como contraponto das antes citadas, seja para explorar os aspectos socioeconômicos e de desigualdade atrelados à MAI, é a do capital social, de Pierre Bourdieu. Tais achados corroboram os resultados de Shen et al. (2022). Adicionalmente, foram identificadas algumas abordagens teóricas envolvendo pedagogia internacional, interações interculturais, agência e questões éticas.
Sobre os grupos de interesse na MAI, todos os estudos incluíram outros atores além dos estudantes em mobilidade, mesmo se tratando de fatores relativos a motivações e resultados desse tipo de mobilidade. Os aspectos inerentes a mercado de trabalho e carreira foram analisados envolvendo estudantes, graduados, IES, empresas e governos. Já sobre aspectos socioeconômicos, a desigualdade no contexto da MAI e os impactos da COVID-19, os estudos examinaram o papel de estudantes, IES e governos nas perspectivas institucional e social. Por fim, a gestão de IES e as políticas educacionais e sociais voltadas à MAI e à circulação de cérebros envolveram mais os interesses de instituições de ensino e dos governos dos países.
CONCLUSÃO
Este artigo analisou a produção acadêmica sobre a MAI, do período de 2005 a 2022, na base de dados WoS. Para isso, realizou-se uma revisão bibliométrica em conjunto com uma integrativa de literatura. Os resultados permitiram apresentar um panorama da produção acadêmica com o mapeamento científico e a rede de colaboração entre autores, evidenciando um campo já com certo grau de maturidade, com alguns periódicos proeminentes e agrupamentos temáticos e de colaboração estabelecidos.
A revisão integrativa permitiu identificar os principais tópicos dos estudos dos autores mais profícuos e citados, como motivações e resultados da MAI, mercado de trabalho e carreira, aspectos socioeconômicos, políticas educacionais dos países e gestão de IES, além de desigualdades na MAI, circulação de cérebros, MAI e impacto da COVID-19. Esses tópicos têm sido estudados sob diferentes lentes teóricas, destacando-se as teorias do capital humano e social, bem como a da escolha racional relacionada com a teoria push-pull. Mesmo sendo os estudantes de graduação o principal público a fazer a MAI, os estudos levaram em conta outros grupos de interesse, confirmando a importância e o impacto desse tipo de mobilidade para empresas, instituições de ensino e países.
Permanece disseminado o entendimento entre os autores de que a mobilidade acadêmica e a internacionalização das IES reproduzem desigualdades, sendo mais problemático em países onde há financiamento público. Isso confere responsabilidades aos formuladores de políticas educacionais e de políticas públicas voltadas a mobilidade e estratégias de gestão do processo de internacionalização das IES. Dependendo do país e da região, a MAI pode fazer parte de uma política educacional mais ampla, com a expectativa de volta para o país de origem - como no caso de países asiáticos, principalmente a China -, ao contrário de países do Sul, como os da África e os da América do Sul, cuja experiência de mobilidade pode ser uma oportunidade de nova vida e emprego, impulsionando a fuga de cérebros em maior medida do que em países desenvolvidos.
Por fim, para uma agenda futura de pesquisa, foram feitas sugestões de acordo com os principais tópicos encontrados na revisão integrativa, apresentada no Quadro 4.
Com relação às limitações desta pesquisa, há que considerar que as classificações em áreas feitas pela base WoS são dinâmicas e sofrem alterações ao longo dos meses - por exemplo, uma das áreas escolhidas se chamava business e, atualmente, é denominada business economics, podendo levar a outros resultados. Para estudos futuros que pretendam desenvolver revisões sistemáticas da literatura, sugerem-se combinações de outros termos, áreas e bases de dados, além de outras técnicas, ferramentas e softwares de análises, sendo possível explorar outros resultados importantes para ampliar perspectivas referentes ao tema.
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Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente (Janaína Maria Bueno). O conjunto de dados não está publicamente disponível devido a fazer parte de um estudo mais amplo que ainda está em andamento e conter informações que podem comprometer a privacidade de participantes da pesquisa.
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Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente (Janaína Maria Bueno). O conjunto de dados não está publicamente disponível devido a fazer parte de um estudo mais amplo que ainda está em andamento e conter informações que podem comprometer a privacidade de participantes da pesquisa.



















Fonte: Elaborado pelos autores com base em
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