Open-access Conhecimento médico sobre comunicação de más notícias: estudo tipo survey

Resumo

Na comunicação de má notícia, a ausência de técnicas adequadas pode comprometer a efetividade. Objetivou-se avaliar o conhecimento e experiência de médicos candidatos a residência sobre comunicação de más notícias. Trata de estudo tipo survey envolvendo 2.418 médicos, de especialidades clínicas e cirúrgicas. A comparação entre grupos foi realizada pelo teste qui-quadrado, de diferença pareada e análise de variância, com nível de significância p<0,05. 90% dos participantes não se sentem capacitados em comunicar más notícias, e 40% nunca receberam treinamento específico. Cerca de 29% não conhecem a existência do protocolo SPIKES. Na comparação entre grupos, candidatos a programas cirúrgicos consideram-se mais capacitados em comunicação e compactuam mais com o cerco do silêncio. A maioria dos médicos não se sente capacitada para uma comunicação eficaz. Futuros cirurgiões apresentaram menor capacidade para lidar com situações emocionais em comparação aos médicos de especialidades clínicas.

Palavras-chave
Comunicação em saúde; Educação médica; Internato e residência

Abstract

When communicating bad news, the lack of adequate techniques can compromise effectiveness. The objective was to evaluate the knowledge and experience of medical residents regarding the communication of bad news. This is a survey study involving 2,418 physicians from clinical and surgical specialties. The comparison between groups was performed using the Chi-square test, paired difference, and analysis of variance, with a significance level of p<0.05. Overall, 90% of participants do not feel trained to communicate bad news, and 40% have never received specific training. About 29% are unaware of the existence of the SPIKES protocol. In the comparison between groups, candidates for surgical programs consider themselves more skilled in communication and agree more with the circle of silence. Most physicians do not feel skilled in effective communication. Future surgeons showed less ability to deal with emotional situations compared to physicians in clinical specialties.

Keywords
Health communication; Education, medical; Internship and residency

Resumen

En la comunicación de malas noticias, la falta de técnicas adecuadas puede comprometer la eficacia. El objetivo fue evaluar los conocimientos y la experiencia de los médicos candidatos a la residencia sobre la comunicación de malas noticias. Se trata de un estudio tipo survey en el que participaron 2.418 médicos de especialidades clínicas y quirúrgicas. La comparación entre grupos se realizó mediante la prueba de chi cuadrado, la prueba de diferencias pareadas y el análisis de varianza, con un nivel de significación p<0,05. 90 % de los participantes no se sienten capacitados para comunicar malas noticias, y 40% nunca ha recibido formación específica. Alrededor del 29% desconoce la existencia del protocolo SPIKES. En la comparación entre grupos, los candidatos a programas quirúrgicos se consideran más capacitados en comunicación y están más de acuerdo con el cerco del silencio. La mayoría de los médicos no se sienten capacitados para una comunicación eficaz. Los futuros cirujanos mostraron una menor capacidad para manejar situaciones emocionales en comparación con los médicos de especialidades clínicas.

Palabras clave
Comunicación en salud; Educación médica; Internado y residencia

A comunicação é um processo que pode sofrer influências de fatores verbais, relacionados a informação, ou paraverbais 1,2. Na medicina, má notícia é entendida como qualquer informação transmitida a um paciente ou familiar que altere suas expectativas 3; também pode ser caracterizada como informação que provoca alteração drástica e negativa na vida da pessoa e em sua esperança de futuro 4.

Com o envelhecimento da população global, observa-se crescimento no número de óbitos decorrentes de complicações associadas a doenças crônicas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) 5,6, essas enfermidades são responsáveis por mais de 70% das mortes no globo. O médico, por sua vez, é o profissional geralmente encarregado de transmitir o diagnóstico, o prognóstico e as terapêuticas disponíveis. A angústia vivenciada, aliada à ausência de habilidades técnicas adequadas, gera incertezas ao profissional e pode resultar em situações adversas durante o processo comunicativo e a uma transmissão ineficaz de informações 7.

Com o objetivo de auxiliar os médicos nesse processo, diversos protocolos foram desenvolvidos, incluindo o SPIKES, que fornece um modelo estruturado para a comunicação de más notícias, o qual aborda aspectos como preparação do ambiente, percepção do paciente, transmissão das informações e suporte emocional 8.

Na graduação médica, ainda parece ser escasso o ensino da abordagem de controle de sintomas e manejo dos pacientes em cuidados paliativos e fim de vida, e por isso tornam-se cada vez mais necessárias estratégias para desenvolver essas habilidades e a capacidade de transmitir informações de maneira adequada. Torna-se evidente a necessidade de incluir o treinamento em comunicação de más notícias na grade curricular dos cursos de medicina, posto que é instrumento fundamental para a prática profissional e a promoção de um cuidado humanizado 7,9.

Este estudo objetivou avaliar o conhecimento dos médicos candidatos a programas de residência médica de especialidades clínicas e cirúrgicas sobre comunicação de más notícias.

Métodos

Trata-se de estudo survey transversal, que contou com a aplicação de questionário sobre comunicação de más notícias, direcionado a 3.850 médicos candidatos aos programas de residência de uma universidade federal em São Paulo, que fizeram prova para ingressar nos programas em novembro de 2016. No dia do concurso, uma equipe de colaboradores se reuniu quatro horas antes do início da prova para separar o material em envelopes de acordo com a capacidade de cada sala. Os questionários foram entregues e os participantes orientados uma hora antes do início da prova.

Os participantes foram esclarecidos quanto ao tema e objetivos da pesquisa e posteriormente assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE); aqueles que aceitaram participar receberam cópia do termo. Todos os questionários foram devolvidos antes do início da prova e acondicionados em caixas numeradas aleatoriamente.

Foram incluídos no estudo os participantes que responderam a 90% ou mais dos 28 itens do questionário. Foram excluídos questionários com preenchimento incorreto, rasurados, incompletos ou de candidatos que não assinaram o TCLE.

O instrumento utilizado foi elaborado por equipe de especialistas – composta por um médico, dois psicólogos e dois fisioterapeutas –, de modo que fosse autoaplicável em até 15 minutos. Inicialmente, estudos similares foram apresentados como base para definir as perguntas, com posterior análise da equipe para sugestões de melhorias. Após três reuniões presenciais, a versão final foi aprovada por todos os membros.

Após aprovação, foi realizado estudo-piloto com aplicação em dois grupos de dez médicos residentes de clínica médica, em momentos distintos, a fim de verificar o tempo médio de preenchimento e eliminar eventuais falhas de elaboração do instrumento. Verificou-se que o tempo médio de preenchimento foi inferior a dez minutos.

As perguntas formuladas no instrumento objetivam obter dados pessoais e demográficos dos participantes, informações sobre conhecimento em “comunicação de más notícias”, experiências prévias em cuidados paliativos e treinamento em comunicação de más notícias, assim como sobre o protocolo SPIKES.

Questionários foram separados e numerados, e seus resultados foram tabulados e armazenados em planilhas Excel para posterior análise no software SPSS-23. Para as variáveis contínuas, foram calculados média e desvio padrão. Frequência e proporção foram utilizadas para variáveis categóricas. A comparação das variáveis categóricas entre os grupos foi realizada pelo teste qui-quadrado. Quando necessário, foi utilizado o teste de diferença pareada. A comparação das variáveis contínuas entre os grupos foi realizada com análise de variância (Anova). Um valor de p menor que 0,05 foi considerado significativo.

Para analisar quais fatores influenciaram o conhecimento, a amostra foi dividida por um grupo de profissionais que entraram em acordo quanto a essa caracterização: 1) Grupo Clínicas, formado por 1.625 médicos que escolheram especialidades com características de realização de condutas não invasivas ou pouco invasivas; e 2) Grupo Cirúrgicas, formado por 745 médicos concorrentes a especialidades que realizam condutas mais invasivas ou cirúrgicas.

Resultados

Dos 3.850 candidatos (100%), 1.213 entregaram o questionário em branco e 219 responderam de maneira incompleta ou inválida. Foram incluídos no estudo, portanto, 2.418 candidatos (62,9%), que visavam 72 programas distintos. A especialidade com maior número de respondentes foi clínica médica (11%), seguida de cirurgia geral (7,49%), pediatria (7,03%), dermatologia (5,13%) e neurologia (4,71%).

Em relação aos dados sociodemográficos, a amostra foi composta, predominantemente, por sujeitos jovens (média de 27anos±2,94), do sexo feminino (60,7%) e solteiros (87,9%). A religião predominante foi a católica (56,9%), seguida da doutrina agnóstica (14,2%), espírita (12,8%) e evangélica (9,6%).

Em relação à formação universitária dos participantes, 1.159 (48,7%) procediam de instituições públicas e 1.223 (51,3%), de instituições privadas. Cerca de 898 participantes (37,5%) já haviam realizado outro programa de residência.

Quanto à experiência prévia em treinamento de comunicação, 61,2% da amostra (n=1.481) relatou ter recebido aulas sobre comunicação de más notícias durante a graduação, enquanto 61,8% (n=1.498) afirmaram ter participado de treinamentos específicos sobre o tema ao longo desse período. Aproximadamente 92% dos participantes consideram não ter concluído a formação com capacidade comunicativa satisfatória. Além disso, 88 indivíduos (3,6%) declararam nunca ter realizado comunicação de más notícias. A maior parte da amostra, 970 participantes (40,4%), relatou ter experiência na realização de uma a cinco comunicações.

Em relação ao ambiente considerado adequado para a realização de comunicação de más notícias, 97,3% da amostra (n=2.343) entende a necessidade de um ambiente privado, e 2,7% (n=66) não acredita ser necessário ou é indiferente ao ambiente.

A maior parcela dos participantes, 66,5% (n=1.597), discorda da afirmação de que “a comunicação de óbito para um familiar pode ser dada por qualquer membro da equipe multiprofissional”. Já 83,9% da amostra (n=2.013) concorda que a comunicação de má notícia deve envolver outros profissionais além dos médicos. Para 45,9% dos participantes, o médico é o profissional que melhor comunica más notícias, seguido do psicólogo (34,9%) e enfermeiro (0,9%).

A Tabela 1 apresenta as questões e respectivas respostas sobre condutas éticas relacionadas à comunicação de más notícias e ao comportamento do profissional perante familiares e pacientes.

Tabela 1
Respostas sobre condutas éticas relacionadas à comunicação de más notícias e ao comportamento do profissional perante familiares e pacientes

Em relação ao protocolo SPIKES, a letra E (Emotions), que corresponde à etapa em que os familiares expressam suas emoções durante a comunicação de más notícias, foi considerada a mais complexa, seguida pela K (Knowledge), na qual os médicos passam todas as informações técnicas consideradas difíceis de serem ditas.

A maioria dos respondentes (71,3%; n=1.697) discordou da afirmação de que não existem protocolos de comunicação de más notícias na literatura e de que a comunicação deve ser realizada apenas com base na experiência do médico. Por outro lado, 20,13% (n=479) concordaram com essa afirmação, enquanto 8,57% (n=204) relataram não saber.

Dos participantes, 65,14% (n=1.566) afirmaram conhecer o protocolo SPIKES, enquanto 34,86% (n=838) desconheciam essa ferramenta estruturada para a comunicação de más notícias. Quando questionados sobre qual etapa do protocolo SPIKES consideram mais desafiadora, a maior parte dos participantes indicou a fase “Emotion (E)” (29,20%; n=447), seguida por “Knowledge (K)” (22,86%; n=350) e “Invitation (I)” (21,88%; n=335). As demais etapas foram mencionadas com menor frequência: “Perception (P)” (11,69%; n=179), “Setting up (S)” (6,73%; n=103) e “Strategy and Summary (S)” (7,64%; n=117).

Comparação entre programas de clínicos × cirúrgicos

Na análise dos dados demográficos, comparando os profissionais que se candidataram a especialidades clínicas e cirúrgicas, observa-se que nas especialidades cirúrgicas os médicos apresentam menor idade média (26,78±2,88, p-valor=0,0089), são predominantemente do sexo masculino (51,9%, p-valor=0,0001) e solteiros (90,7%, p-valor=0,0346), oriundos predominantemente de universidade pública (53,6%, p-valor=0,0072) e na maior parte não realizaram residência anteriormente (28,6%, p-valor<0,0001).

Já os respondentes classificados como “especialidades clínicas” apresentaram maior idade média (27,12±2,96, p-valor=0,0089), são predominantemente do sexo feminino (66,7%, p-valor=0,0001) e solteiros (87,8%, p-valor=0,0346), oriundos predominantemente de universidade privada (53,5%, p-valor=0,0072) e realizaram residência anteriormente (28,6%, p-valor<0,0001).

Um número maior de profissionais que prestaram para especialidades cirúrgicas afirma ter tido aulas sobre comunicação de más notícias durante a graduação (65,5%), em comparação com especialidades clínicas (59,3%) (p-valor=0,0036). Assim como no quesito treinamento em comunicação, 62,2% dos participantes em especialidades cirúrgicas afirmam ter realizado treinamento em comunicação, em comparação a 61,6% dos participantes de especialidades clínicas (p-valor=0,7925).

Para especialidades cirúrgicas, 3,7% da amostra afirma nunca ter realizado comunicação de más notícias, 42,8% afirmam ter realizado de 1 a 5 comunicações, 18,2% afirmam ter realizado de 5 a 10 comunicações e 35,3% afirmam ter realizado mais de 10 comunicações.

Já para especialidades clínicas, 3,6% da amostra afirma nunca ter realizado comunicação de más notícias, 39,5% afirmam ter realizado de 1 a 5 comunicações, 19,4%, de 5 a 10 comunicações, e 37,5%, mais de 10 comunicações (p-valor=0,7925).

Para especialidades clínicas, apenas 6,7% da amostra (n=111) acredita que “os médicos se formam com boa capacidade de comunicar más notícias”. Para especialidades cirúrgicas, apenas 10,7% da amostra (n=81) concorda com a afirmação (p-valor=0,0008).

Em relação ao ambiente considerado adequado para a realização de comunicação de más notícias, 97,6% do grupo clínicas entende a necessidade de um ambiente privado, em comparação a 96,5% do grupo cirúrgicas (p-valor=0,3254).

Tabela 2
Respostas sobre condutas éticas relacionadas à comunicação de más notícias e ao comportamento do profissional perante familiares e pacientes, na comparação entre especialidades clínicas e cirúrgicas

Tabela 3
Conhecimento sobre a existência de protocolos de comunicação de más notícias, na comparação entre especialidades clínicas e cirúrgicas

Discussão

Neste estudo, 61,2% dos participantes relataram não ter treinamento sobre o tema, e 92% acreditam que médicos concluem sua formação sem boa capacidade em comunicação. Além disso, grande parte da amostra declarou ter realizado, no máximo, dez comunicações de más notícias ao longo da vida profissional, dado que evidencia experiência prática limitada.

Esses achados são consistentes com outras pesquisas. Um estudo conduzido com residentes de 19 especialidades médicas revelou que 95% dos participantes não receberam treinamento específico sobre comunicação de más notícias durante a graduação 10. Da mesma forma, Tavakol e colaboradores 11 observaram que apenas 8,6% dos residentes haviam frequentado cursos de aperfeiçoamento em comunicação durante esse período. Mesmo entre aqueles que receberam treinamento posterior, poucos relataram se sentir preparados para conduzir uma boa comunicação. Muneer e colaboradores 12 observaram que, embora 51% dos profissionais de sua amostra houvessem recebido algum tipo de treinamento em comunicação de más notícias, mais da metade (52%) ainda adotava abordagens próprias e improvisadas ao lidar com essa situação.

Este estudo contou majoritariamente com a participação de médicos jovens, recém-formados ou com poucos anos de experiência profissional. Esse recorte difere de pesquisas semelhantes, como a de Silveira, Botelho e Valadão 13, que avaliou 120 médicos de um hospital brasileiro, e a de Mostafavian e Shaye 14, que analisou 70 médicos de diferentes setores em dois hospitais universitários. Embora esses estudos não tenham considerado experiência prévia ou tempo de formação, identificaram déficits significativos nas habilidades de comunicação. Além disso, ambas as pesquisas concluíram que a implementação de estratégias de treinamento pode contribuir para o aprimoramento dessas habilidades.

Em relação às informações sobre as condições atual e futura dos pacientes, frequentemente informações acabam sendo transmitidas de maneira inadequada 13. Sobre o aspecto familiar, mais de 87% da amostra afirma que considera os pais do paciente os familiares mais difíceis de comunicar, e o óbito como o assunto mais complexo de ser informado. A alta frequência dessas respostas pode estar associada a concepções socioculturais segundo as quais a morte de um filho é evento “antinatural”, isto é, uma inversão da ordem natural da vida. Além disso, a perda de uma criança é frequentemente percebida como particularmente injusta, sob argumentos de que “teve pouco tempo de vida” ou ainda que “nunca fez mal a ninguém”. Assim, informar o óbito de crianças aos pais torna a tarefa de comunicar ainda mais difícil 15.

Brouwer e colaboradores 15 identificaram que há barreiras na comunicação dos médicos com os pais e avaliou as principais dificuldades relatadas por pais durante as conversas, tais como não solicitar informações da criança aos pais, sair da reunião com poucas informações devido à falta de clareza, uso de termos técnicos em excesso e presença de muitas pessoas durante as reuniões, além da preocupação dos pais para transmitir as más notícias aos próprios filhos sem orientação ou acompanhamento médico.

Neste estudo, observou-se que, ao serem questionados sobre a concordância em omitir informações ao paciente a pedido da família, mais de 30% dos médicos afirmaram apoiar essa prática, enquanto aproximadamente 15% relataram “não saber como agir”. Esses valores são superiores aos de um estudo semelhante 12, no qual 20,4% dos médicos concordavam em não revelar ao paciente informações sobre sua condição. Essa discrepância pode estar relacionada à maior heterogeneidade da amostra do mencionado estudo, que incluiu médicos com maior tempo de formação e experiência clínica, fatores que influenciam as percepções e condutas na comunicação de más notícias.

A “conspiração do silêncio” consiste em um acordo, explícito ou não, entre membros de um grupo para manter em segredo informações que, se expostas, podem ser prejudiciais para o grupo, os interesses ou os associados. Devido a falhas de comunicação, falta de conhecimento bioético, medo de perder a pessoa, estresse, incerteza de prognóstico, entre outras causas, a omissão de informações pode acarretar consequências como perda de autonomia, prejuízo na tomada de decisão e piora na qualidade de vida. Por isso, deve ser evitada, em favor de uma comunicação baseada na verdade progressiva 16.

Estudos realizados sobre a preferência dos pacientes em obter notícias sobre sua condição de saúde constataram que mais de 90% gostariam de saber tudo sobre seu diagnóstico, prognóstico e tratamento 17,18. Entretanto, em outro estudo, foi observado que algumas informações prestadas a pacientes com câncer, como os possíveis efeitos colaterais dos tratamentos, são consideradas dispensáveis por aproximadamente um terço dos avaliados 19. Por isso, é fundamental questionar o paciente sobre quais notícias deseja receber 16.

Um maior nível de espiritualidade do paciente e dos familiares foi considerado pelos respondentes como fator importante para amenizar o impacto da má notícia. O nível sociocultural da família é outro fator que pode facilitar o entendimento e aceitação das condições do paciente. Quando solicitados a se colocar na situação dos pacientes com doenças avançadas, praticamente 99% dos participantes responderam que gostariam que a notícia fosse dada diretamente a eles, sozinhos ou com um familiar, e mais de 90% gostariam que as informações fossem dadas de forma completa.

Acerca dos aspectos técnicos sobre como realizar a comunicação de más notícias, a maioria dos participantes respondeu que fazê-lo em ambiente privado é importante. Entretanto, um estudo com residentes em pediatria observou que 90% dos profissionais não se preocupam em garantir um ambiente de privacidade durante as reuniões familiares 20. Ademais, aproximadamente 35% excluíram os familiares dessa conversa. Estudo realizado em Portugal com 159 médicos evidenciou que, para essa mesma pergunta, 93% afirmaram que gostariam de saber tudo sobre seu diagnóstico e 83% gostariam de saber sobre seu prognóstico 21.

Uma parcela (28,7%) dos participantes desconhece a existência de quaisquer protocolos de comunicação e mais de 35% não conhecem o protocolo SPIKES, que é o mais utilizado para essa tarefa 22,23. Aos que conheciam o protocolo, foi perguntado que etapa era considerada de maior dificuldade de execução, e a resposta mais frequente foi a E, de Emotions, o que corrobora achados de outros estudos e evidencia que os médicos muitas vezes não se sentem seguros e confortáveis para lidar com as emoções que podem surgir durante uma reunião familiar 6,24.

Sobre a demonstração de empatia e sentimentos durante a comunicação de más notícias, uma parte afirma que considera errado o médico abraçar o paciente ou familiares (17,5%) ou chorar (26%) durante a reunião. É possível relacionar essa informação com a maior dificuldade encontrada na condução do protocolo SPIKES. Chorar ou demonstrar empatia e afeto pode ser percebido como demonstração de fraqueza ou falta de controle sobre a situação, ainda que os pacientes esperem que os médicos demonstrem sentimentos em uma reunião e que mostrem estar ao lado dessa família 17,24.

Quando questionados se a comunicação de más notícias deve envolver outros profissionais da equipe multidisciplinar, 16,1% dos respondentes consideraram ser indiferente ou responderam negativamente. A participação de outros profissionais pode ser fundamental, devido ao fato de o médico não saber detalhes do atendimento realizado pelos demais profissionais, informações que podem ser fundamentais para o planejamento do cuidado 25. Esse dado parece contraditório com o fato de que quase 35% da amostra afirma que o profissional que melhor dá uma má notícia é o psicólogo; 18,5% responderam que o profissional é indiferente e menos da metade afirmou que o médico é o profissional com melhor capacidade para comunicar más notícias.

Notícias referentes a diagnósticos ou prognósticos devem ser transmitidas por médicos e a equipe multiprofissional pode ser apoio importante nesse processo, como evidenciou um estudo com casos de pacientes pós-AVC que contaram com a participação de toda a equipe de saúde durante a reunião familiar, o qual chegou à conclusão de que a participação dos demais profissionais aumentou a confiança dos médicos em dar más notícias graças ao processo de consulta colaborativa da equipe 25.

Especialidades clínicas × especialidades cirúrgicas

Ao comparar os grupos, foram observadas diferenças como a predominância do sexo masculino e idade média menor no grupo de especialidades cirúrgicas, com maioria oriunda de escolas públicas e com menor percentual de profissionais que já haviam cursado programas de residência anteriormente.

Easson, Crosby e Librach 26 analisaram os principais livros de técnicas cirúrgicas dos Estados Unidos e observaram que fornecem pouca informação sobre comunicação de más notícias, processo de morte, efeitos da tomada de decisão sobre a família e tratamento ou manejo de sintomas. Apesar disso, os autores sugerem que, devido à frequência de óbitos decorrentes de procedimentos cirúrgicos, seria apropriado que mais informações sobre as questões analisadas fossem incluídas nos livros cirúrgicos 26.

Foi observado que, apesar de maior percentual do grupo de especialidades cirúrgicas afirmar ter tido aulas sobre comunicação de más notícias durante sua graduação, a ampla maioria dos participantes considera que os médicos não concluem suas graduações capacitados adequadamente para isso. Observou-se que no grupo de especialidades clínicas a consciência sobre limitações nessa habilidade é ainda maior do que no de especialidades cirúrgicas.

A visão negativa mais arraigada é a da morte como falha médico-cirúrgica. Os cirurgiões lutam por um resultado positivo que, tradicionalmente, significa recuperação da intervenção cirúrgica sem qualquer morbilidade significativa. Já no grupo de especialidades clínicas, as variáveis e aspectos técnicos são mais frequentemente relacionados a histórias. As respostas e desfechos do paciente sofrem influência do meio e das condições prévias, o que exige do clínico maior flexibilidade e resiliência na condução e tomada de decisões em seus casos 27. Ambos os grupos concordam que os pais são os familiares mais difíceis de informar. Falar sobre óbito e prognóstico foi considerado mais difícil do que falar sobre diagnóstico e cuidados paliativos, porém um percentual menor do grupo de especialidades cirúrgicas considerou a conversa sobre cuidados paliativos mais difícil em comparação ao grupo de especialidades clínicas.

Conforme observado neste estudo, quando existe demanda por maior habilidade de comunicação, encontram-se respostas mais controversas no grupo de especialidades cirúrgicas do que no de especialidades clínicas 28,29.

Sobre aspectos técnicos da comunicação de más notícias, observou-se discordância mínima, com maior percentual do grupo de especialidades cirúrgicas assegurando que más notícias deveriam ser dadas todas de uma vez, a fim de poupar mais sofrimentos posteriores. Também, com maior frequência, esse grupo afiançou que se deve concordar com a família caso deseje realizar um cerco do silêncio ou conspiração do silêncio. O resultado, além de reforçar o pragmatismo desse grupo em relação às especialidades clínicas, demonstra falha no conhecimento técnico, pois, conforme o art. 34 do Código de Ética Médica, é vedado ao médico deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta possa lhe provocar dano, devendo, nesse caso, fazer a comunicação a seu representante legal 30. Tal conduta pode levar ainda a desfechos negativos e sentimentos de medo, ansiedade, depressão, sofrimento, incompreensão e raiva, comuns em pacientes de cuidados paliativos que enfrentam o silêncio de seus parentes 16.

Ao analisarmos as respostas, verifica-se no grupo de especialidades cirúrgicas percentual maior de médicos que afirmam que o nível sociocultural pode ter influência na comunicação, que demonstrações de afeto e compaixão como chorar ou abraçar os familiares não são corretas, e que não se deve contar com a presença de outros profissionais além do médico durante uma comunicação. Isso demonstra a dificuldade dos cirurgiões com a resolução de conflitos que dependem de sua inteligência emocional e habilidades de comunicação 29.

Além disso, à questão de quais profissionais da equipe multiprofissional comunicam melhor uma má notícia, um grupo maior das especialidades cirúrgicas respondeu ser o médico, e um grupo menor respondeu ser o psicólogo em comparação com as especialidades clínicas. Isso talvez se deva ao perfil menos sujeito a influências emocionais dos médicos que escolhem especialidades cirúrgicas, que pode favorecer erros em um processo de comunicação 29.

Um estudo recente fez uma pergunta aos pacientes de cirurgiões: “O que eu desejo que meu cirurgião saiba?” 31. As respostas colhidas foram organizadas em três grupos e, no geral, versaram sobre ser tratado holisticamente e com dignidade; comunicação clara e definição de funções; e definição de expectativas. As respostas evidenciam, portanto, que os pacientes sentem falta de maior empatia e melhor comunicação dos médicos cirurgiões, são características que são mais frequentes nos médicos de especialidades clínicas, como se observou. Talvez essa característica seja pessoal desses profissionais, apresentada mesmo antes de frequentarem a residência de cirurgia 29.

Considerações finais

Os achados deste estudo reforçam a existência de lacunas na formação médica quanto à comunicação de más notícias, evidenciadas pela ausência de treinamento específico na graduação e pela percepção generalizada de que os profissionais não concluem sua formação devidamente preparados para essa prática. Mais de 90% dos médicos não se sentem preparados para ela ao saírem da universidade, e cerca de 40% nunca receberam treinamento formal. Apesar do conhecimento teórico sobre protocolos como o SPIKES, há dificuldades em aplicá-los na prática, especialmente ao comunicar óbitos e lidar com pais.

A comparação entre especialidades clínicas e cirúrgicas demonstrou diferenças no perfil dos profissionais e em suas abordagens. Médicos de especialidades cirúrgicas demonstraram menor preparo emocional em comparação aos candidatos a áreas clínicas, assim como maior tendência a uma abordagem pragmática e com menor adesão à participação de outros profissionais da equipe multidisciplinar.

Além disso, foi demonstrado que médicos com maior tempo de experiência, apesar de relatarem menor treinamento acadêmico, demonstram mais segurança na comunicação. Revelou-se que a etapa E (Emotions) do protocolo SPIKES é considerada a mais difícil para a equipe médica, o que reflete a dificuldade dos profissionais em lidar com a expressão de emoções durante essas interações.

Diante desses achados, destaca-se a necessidade de reformulação dos currículos médicos de modo que incluam treinamento estruturado em comunicação de más notícias, com abordagem tanto de aspectos técnicos quanto emocionais.

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  • Aprovação CEP-Unifesp 1346696
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Editado por

  • Editora responsável:
    Dilza Teresinha Ambrós Ribeiro

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Abr 2025
  • Revisado
    15 Ago 2025
  • Aceito
    12 Jan 2026
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