Open-access Conhecimento de bioética entre discentes e docentes

Resumo

A grade curricular do curso de medicina tem na matriz a disciplina de bioética e deontologia, que visa preparar o aluno para o futuro profissional, com intuito de fazê-lo compreender e lidar com os aspectos biopsicossociais de situações que surgirão no exercício de sua profissão. Trata-se de estudo descritivo, observacional, de corte transversal, com 105 participantes, divididos em três grupos: alunos que já tiveram a disciplina, alunos que não tiveram a disciplina e professores/preceptores. Após aplicação de questionário, os grupos foram comparados por meio do teste qui-quadrado. Alunos que não haviam tido a disciplina de bioética apresentaram menor porcentagem de acertos em todas as questões. Ser médico, e ter a vivência prática, foi significativo apenas em uma questão, demonstrando que a disciplina foi efetiva em prover esse conhecimento a alunos e que a prática médica pode levar a um automatismo, o que demanda reflexão.

Palavras-chave
Bioética; Teoria ética; Medicina

Abstract

The medical program curriculum includes bioethics and deontology courses, aiming to prepare students for the professional future, to make them understand and deal with the biopsychosocial aspects of situations that will arise in professional practice. This is a descriptive, observational, cross-sectional study with 105 participants, divided into three groups: students who have completed the course, students who have not completed the course, and professors/preceptors. After applying a questionnaire, the groups were compared using the chi-square test. Students who had not completed the bioethics course had a lower percentage of correct answers in all questions. Being a physician and having practical experience was significant only in one question, demonstrating that the course was effective in providing students with bioethics knowledge and that medical practice can lead to automatism, which requires reflection.

Keywords
Bioethics; Ethics theory; Medicine

Resumen

El currículo de la carrera de medicina contiene en su matriz la asignatura de bioética y deontología, que tiene como objetivo preparar al estudiante para el futuro profesional para hacerlo comprender y abordar los aspectos biopsicosociales de situaciones que se presentarán en el transcurso de su profesión. Se trata de un estudio descriptivo, observacional, de corte transversal, con 105 participantes, divididos en tres grupos: estudiantes que ya tomaron la asignatura, alumnos que no la tomaron y profesores/preceptores. Tras la aplicación del cuestionario, se compararon los grupos mediante la prueba de chi-cuadrado. Los estudiantes que no habían tomado la asignatura de bioética presentaron un menor porcentaje de aciertos en todas las preguntas. Ser médico, y tener la vivencia práctica, fue significativo solo en una pregunta, lo que demuestra que la asignatura fue efectiva en proporcionar este conocimiento a los estudiantes, y que la práctica médica puede llevar a un automatismo, que requiere reflexión.

Palavras clave
Bioética; Teoría ética; Medicina

Para a formação do estudante de medicina, é necessária a abordagem humanista dos assuntos, e é por isso que a grade curricular do curso tem em sua estrutura a disciplina de bioética e deontologia, que visa preparar o aluno para o futuro profissional com intuito de fazê-lo compreender e lidar com os aspectos biopsicossociais e espirituais das situações que surgem no exercício da profissão. No âmbito da educação médica, é bem discutida a melhor maneira de ensinar bioética para os alunos, tendo em vista que há uma grande exigência da sociedade de que se tornem profissionais moralmente competentes.

Por outro lado, o currículo médico no Brasil negligencia a bioética, destacando mais exclusivamente a formação técnica. Isso interfere na formação do aluno como médico, já que temas importantes como sigilo médico, aborto e publicidade médica são abordados naquela disciplina. Esses tópicos serão dilemas que surgirão com a prática médica, e, para a tomada de decisões, é necessário saber os princípios e os valores bioéticos.

Atualmente, o médico responde a três esferas durante o exercício de sua profissão – penal, civil e ética-profissional – e, para não se envolver com questões bioéticas, ele necessita de outras habilidades além do conhecimento teórico-prático, como prudência e capacidade de julgamento moral de suas ações. Caso contrário, o médico sofre uma punição, necessária, do ponto de vista ético, para assegurar a proteção dos pacientes. No ano de 2020, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CRM) registrou 3.995 processos éticos em andamento, dos quais 666 foram instaurados, e 355 dos médicos foram considerados culpados. Isso reforça a importância da aprendizagem dos aspectos básicos da bioética durante a formação acadêmica1-7.

A maioria dos estudos aborda o conhecimento dos alunos relativamente ao Código de Ética Médica, mas não há estudos que comparem os profissionais médicos e os discentes. Dessa forma, o objetivo deste estudo foi avaliar a percepção dos estudantes de medicina e dos docentes médicos de uma faculdade do interior do estado de São Paulo e compreender a necessidade de criar métodos para a transmissão do conhecimento bioético.

Método

Trata-se de estudo descritivo, observacional, de corte transversal, de abordagem quantitativa e qualitativa, realizado na Faculdade de Ciências Médicas de São José dos Campos – Humanitas, localizada no interior do estado de São Paulo.

A pesquisa foi realizada de setembro a dezembro de 2022, e a população estudada é composta por estudantes de medicina, professores e preceptores médicos vinculados à instituição. De acordo com o objetivo do estudo, os alunos foram separados entre aqueles que já haviam tido a disciplina de bioética (a partir do nono período) e aqueles que não a haviam cursado ainda (primeiro a sétimo período). Como critério de exclusão, foram retirados alunos que estavam cursando a disciplina de bioética no momento da pesquisa, profissionais médicos não vinculados à instituição e aqueles que se recusaram assinar o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). A amostra inicial foi de 107 indivíduos, selecionados aleatoriamente. Após aplicação dos critérios de exclusão, obteve-se amostragem final de 105 indivíduos, entre os quais 35 universitários que já haviam tido a disciplina de bioética, 35 alunos que não a haviam tido e 35 professores. Foram aplicados o TCLE e um questionário a todos os participantes, de forma presencial. O questionário continha dez perguntas objetivas com os principais temas de bioética que são comumente vistos na prática. As respostas eram do tipo verdadeiro ou falso.

Na análise estatística, foram calculadas, para cada questão, a frequência e a porcentagem de acertos por grupo. Os grupos foram comparados por meio do teste qui-quadrado, e o nível de significância adotado foi de 5%. Os resultados foram compilados e formatados em tabelas e gráficos.

Resultados e discussão

No total, 105 indivíduos participaram do estudo, todos concordando com a utilização de suas respostas para fins científicos. Em relação ao perfil dos estudantes, a maioria se encontrava no quinto ano do curso de medicina, correspondendo a 48,5% (n=34) dos participantes; em segundo lugar, no segundo ano, com 25,7% (n=18); depois, no terceiro ano, com 12,8% (n=9); no primeiro ano, com 8,57% (n=6); no quarto ano, com 2,85% (n=2); e, por último, no sexto ano, com 1,42% (n=1), conforme demonstrado na Figura 1.

Figura 1
Número de estudantes e respectivos anos no curso de medicina

Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos em determinadas questões. O grupo que não teve aulas apresentou o menor índice de acerto entre todos nas seguintes questões:

  • “Para a realização de aborto após estupro, a vítima deverá fazer um boletim de ocorrência antes do procedimento” (p<0,001);

  • “Se uma vítima de estupro der entrada em ambiente hospitalar e desejar realizar aborto, é necessário comunicar às autoridades policiais” (p<0,001);

  • “Se houver objeção de consciência, o médico poderá escolher não realizar o aborto, contanto que tenha outro profissional para fazer o procedimento e a paciente não esteja em risco iminente de morte” (p=0,002);

  • “É permitido colocar resultados de procedimentos estéticos como ‘antes e depois’ em redes sociais, desde que o paciente autorize” (p=0,004).

Já na questão “O médico que realiza o diagnóstico do paciente de morte encefálica deve pertencer à mesma equipe de transplantes, para assegurar a veracidade do diagnóstico” (p=0,018), o grupo de professores apresentou maior acerto.

Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nas seguintes questões:

  • “Se um familiar, de até segundo grau, não concordar com a doação do órgão do familiar falecido, o transplante não poderá ser feito, mesmo se o paciente falecido tiver um documento comprovando que se poderia doar seus órgãos” (p=0,190);

  • “As publicações médicas em redes sociais devem conter apenas o nome, o CRM e o endereço do consultório do profissional” (p=0,684);

  • “Para pesquisa com seres humanos, dependendo da complexidade, não é necessário submeter o trabalho a um comitê de ética e pesquisa” (p=0,230);

  • “Omissão de socorro é pena destinada exclusivamente a profissionais da saúde” (p=0,402);

  • “No Brasil, se o paciente estiver em quadro clínico grave devido a doença terminal, o médico poderá abreviar sua morte, pois estará respeitando os princípios éticos de autonomia, beneficência e não maleficência” (p=0,695).

A Tabela 1 apresenta a porcentagem de acertos de cada um dos grupos, por questão.

Tabela 1
Comparação entre os grupos a partir de cada questão

A Figura 2, a seguir, mostra a porcentagem de acerto por questão e grupo. Questões seguidas de * e com barras coloridas apresentam diferença estatisticamente significativa entre os grupos.

Figura 2
Porcentagem de acerto por questão e grupo

Em relação às três questões de aborto, houve significância estatística entre os grupos, de forma que ter tido aula ou ter vivenciado isso na prática profissional auxiliou para a correta marcação da resposta. Sobre a questão de morte encefálica e transplante de órgãos, os profissionais médicos se saíram melhor que os alunos, provavelmente devido à minúcia da prática médica sobre equipes que a questão trazia. Em relação à questão de mídia social, que obteve significância estatística, aqueles que tiveram aula ou eram médicos sobressaíram nos acertos, demonstrando que, antes de ter aula, poucos alunos conheciam a proibição da postagem de procedimentos.

A disciplina de bioética é ministrada no oitavo período, em aulas expositivas e com uso de metodologias ativas de problem-based learning (PBL) e team-based learning (TBL), baseadas em casos reais ou situações possíveis de prática de conflito bioético. Silva, Leão e Pereira8 comprovam que a mudança da metodologia do ensino de ética e bioética é capaz de modificar a percepção e o interesse dos alunos por meio de novas estratégias (introdução de debates, participação de profissionais de outras áreas etc.), permitindo-lhes, inclusive, lidar com dilemas éticos. Estudos apontam que as metodologias que se mostraram melhores para a aquisição do conhecimento, como ensino em pequenos grupos e TBL, não são capazes de mensurar o resultado do processo formativo, que é a aquisição em longo prazo de competências e habilidades9.

No estudo de Almeida e colaboradores10, dos 331 alunos que foram questionados em relação ao período mais adequado para estudo da bioética, 28,7% indicaram o primeiro semestre, e 21,4%, todos os semestres, o que mostra a importância do ensino de bioética de forma constante e precoce na grade curricular médica. No entanto, um ponto sobre o qual ainda não existe consenso é o ano em que a disciplina deve ser lecionada. Há uma inclinação a fazê-lo no primeiro ano do curso de medicina ou a partir dele, e então contextualizar nas demais disciplinas do curso11.

Os profissionais médicos já formados e atuantes nos cenários práticos frequentemente se julgam detentores da sabedoria da ética médica. No entanto, nos estudos que avaliam o conhecimento discente e docente em relação ao Código de Ética Médica, pode-se observar pontuações parecidas entre os grupos. Mesmo ponderando que alunos possam ter conhecimento similar devido ao fato de terem tido contato recente com aulas de bioética, isso não exclui o fato de docentes lidarem diariamente com questões de bioética, as quais precisam ser aplicadas na prática. Dessa maneira, precisam ser profissionais atualizados e exemplos para os discentes no quesito ético11.

Considerações finais

Em todas as questões, não ter tido aula reduziu a porcentagem de acerto, o que indica que ter aulas de bioética antes do oitavo período, ou pelo menos ter algum tipo de abordagem durante os períodos, pode ser benéfico. Com isso, objetiva-se que os alunos conheçam e respeitem o Código de Ética Médica, pois verão cenários práticos e lidarão com pacientes desde o começo da faculdade.

Ser médico e experienciar isso na prática foi significativo em apenas uma questão, demonstrando que ter a disciplina de bioética é efetivo no conhecimento dos alunos e que nem sempre a prática médica será superior ao conhecimento adquirido em sala de aula. Em todo caso, é necessário mais estudo, com uma amostragem maior, para avaliar se o impacto das aulas é de fato superior ao da prática.

Agradecimento

Agradecimento à Denise Carvalho da Silva Serrano – Bibliotecária que contribuiu com a organização e normalização técnica do artigo.

Referências

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  • Editora responsável:
    Dilza Teresinha Ambrós Ribeiro

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    07 Nov 2024
  • Revisado
    27 Fev 2025
  • Aceito
    07 Mar 2025
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