
A minissérie “Pssica”, baseada no livro homônimo de Edyr Augusto (2015), pode exigir a atenção dos espectadores durante vários dias. Não ter lido o livro pode ter como um dos efeitos imediatos a vontade de lê-lo e verificar o que uma e outra linguagem podem agregar às emoções que o tema e os problemas ali tratados suscitam.
De início, vale o registro de que visitantes e moradores de Belém, vagando pela Cidade Velha e nos ambientes urbanos do centro, podem ter se deparado com a equipe de filmagem de “Pssica” em um dos terrenos nas proximidades do Porto do Sal, por trás da Igreja do Carmo e em lugares comuns daquela área, frequentados pela equipe de produção e atores. Certamente, conversas com alguns integrantes da equipe terão provocado muita curiosidade sobre o que seria dali produzido. Além disso, a protagonista é natural de Belém, o que pode ter motivado e levado mais ainda os conterrâneos e conhecedores da região a assistir aos episódios.
Uma conexão necessária que a minissérie suscita é a da generalização de tecnologias de registro de imagens e o seu uso inadequado e sem controle social, deixando os jovens vulneráveis a agressões por quadrilhas e setores que perpetuam formas de dominação que historicamente deveriam ser consideradas anacrônicas, mas que permanecem presentes no mundo contemporâneo. Revela aspectos da Antropologia Social em que se entrelaçam grupos urbanos e os que vivem em contato direto com a natureza, embora interagindo com a malha de serviços e equipamentos sofisticados e entendidos como modernos. O foco da abordagem da minissérie é a violência no ambiente ribeirinho articulado com a dinâmica da metrópole, em que se faz presente uma economia marginal ao controle do Estado e da sociedade civil.
O primeiro e o segundo episódio da minissérie são chocantes. Provocam impacto pelo grau de violência e pelo cenário que é muito comum a quem vive e transita pelas ilhas na região do estuário amazônico. Nomes de lugares, apelidos e fenótipos de pessoas os aproximam mais ainda e despertam uma empatia imediata com o território que serve de cenário e o que nele se vive.
Quatro episódios se articulam em uma narrativa plena de muita ação, durante quase quatro horas de envolvimento dos espectadores. No primeiro, a vida de uma adolescente ribeirinha, Janelice, é completa e rapidamente modificada por causa da divulgação nas redes sociais de uma cena de intimidade dela com um namorado. As consequências da difusão das imagens têm impacto imediato na escola em que a garota estuda e onde passa a ser vítima de chacota e humilhação pelos colegas. Em seguida, o pai da jovem toma conhecimento do fato, a partir de terceiros, e reage violenta e publicamente, tentando impedir a visualização do audiovisual. A mãe, evangélica, ao saber do ocorrido, reage enviando a protagonista para a casa de uma tia, em Belém. O assédio do marido dessa tia leva a garota a evitar a casa e a presença do companheiro da tia e, constrangida, passa a perambular pela cidade, se envolve em uma rede de prostituição que a sequestra e escraviza, submetendo-a a uma sequência de violências sexuais.
Histórias paralelas se entrelaçam, desde a de um investigador mobilizado pelo pai da protagonista e que se dispõe a achar o fio da meada para encontrar a jovem, passando pela dinâmica de uma quadrilha de ratos d’água que assalta embarcações e estabelecimentos ribeirinhos, uma ex-guerrilheira colombiana que perde marido e filho em um dos assaltos dos ratos d’água e a própria rede de tráfico de garotas sequestradas e fornecidas para bordéis, políticos, fazendeiros e coronéis da região.
Um ponto-chave do entrelaçamento de histórias é o rapto de Janelice, a jovem ribeirinha em situação de vulnerabilidade, e o duplo assassinato ocorrido no comércio da família da colombiana. As cenas do rapto de Janelice e do assalto ao armazém e à residência do casal de comerciantes deixam como resultado o marido e o filho da colombiana mortos. A sequência de cenas do rapto de Janelice conduz a um grupo de jovens sequestradas para serem submetidas à escravidão sexual por cafetões que exercem sua atividade ilegal entre o Marajó e a Guiana Francesa. Estas cenas conjugadas têm um conteúdo que associa a perda da família pela colombiana e a perda da família pela adolescente ribeirinha. No final da minissérie, juntam-se as duas mulheres em uma interpretação possível de que elas restabelecem suas perdas familiares, ficando como mãe e filha ou como amigas, fundidas pelas histórias de sofrimentos e superação.
Além dessas histórias, também aparece, secundariamente, mas não menos importante, o caso de uma jovem indígena que, vítima de sequestro, é apartada do irmãozinho menor de idade, que procura desesperadamente encontrar a irmã e retornar ao convívio dos seus.
A evisceração da violência da qual mais se ouve falar do que se vivencia, ou se vivencia tangencialmente nos centros urbanos, sem que a população se dê conta da proximidade, é gritante, intensa e instigante aos moradores de Belém. A revelação da vulnerabilidade da infância e juventude ao tráfico de pessoas, ao assédio sexual, à intolerância religiosa, aos preconceitos, ao racismo, à misoginia e às diversas formas de perversidade, incluindo-se a disputa armada e a política, são chocantes na abordagem de “Pssica”.
O enredo da minissérie é muito bem elaborado, evocando signos entranhados na cultura amazônica, como o mergulho na água dos rios e igarapés, a floresta, as palafitas, a música, a mestiçagem de raças e as pregações evangélicas. Uma das mesclagens que remete à panamazônia é a mistura de línguas, representadas predominantemente por personagens do Brasil, falando português, da Colômbia, se expressando em espanhol, e da Guiana Francesa, falando francês, inglês e algumas expressões crioulas.
A caracterização das personagens e dos tipos masculinos e femininos com cabelos cortados e pintados como expressões de populações periféricas, os bordéis, as fazendas latifundiárias do Marajó, a algazarra dos ataques dos ratos d’água e a rede de bandidagem, remetendo às mais variadas transgressões, como o tráfico de jovens de populações tradicionais, o garimpo ilegal e a comercialização de madeira de lei, não deixam dúvidas sobre a amplitude e a complexidade antropológica da abordagem sobre os problemas da região.
O mais instigante da minissérie é a demonstração de poderes paralelos ao do Estado, tornando-o inócuo e ineficiente, mesmo contando com sua presença institucional e esforços de agentes desse mesmo Estado que findam isolados pela complexa e eficaz forma de atuação dos ‘fora da lei’.
O desfecho leva para uma interpretação de justiça feita pelas próprias mãos, o que deveria provocar as autoridades para que revejam as formas de ação estatal e, fundamentalmente, para que a sociedade civil organizada possa ter controle sobre os seus membros e grupos sociais que se desenvolvem e atuam ao arrepio dos acordos, das regras, das normas e das leis estabelecidas.
Mais do que uma minissérie para entretenimento, “Pssica” tem um conteúdo de denúncia concreta sobre os usos e abusos da infância e da adolescência na capital do segundo maior estado do país e no estuário do mais volumoso rio do mundo, em que permanecem se perpetuando relações sociais e econômicas extremamente anacrônicas, desumanas e com um grau de perversidade inadmissível.
“Pssica” não revela apenas o azar, como a palavra costuma ser traduzida na região e foi dada como título para a trajetória de uma adolescente ribeirinha. A minissérie demonstra a que grau de degeneração pode chegar o ser humano na exploração do outro e como ainda há muito que se lutar para construir um país justo e saudável.
Está aí uma obra cinematográfica essencial para provocar reflexões e debate sobre os problemas mais pungentes e as soluções que a sociedade tem a obrigação de buscar no complexo universo amazônico.
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Guerra, G. (2026). Pssica, a minissérie. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 21(2), e20250081. http://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2025-0081
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Responsabilidade editorial:
Jimena Felipe Beltrão
