Open-access A chave do escritório abre a porta do meu lar! e agora, já posso me (des)conectar? Qualidade de vida no teletrabalho: itinerários, desafios e oportunidades

Resumo

O presente artigo se propõe a analisar a produção científica na temática qualidade de vida no contexto do teletrabalho, de modo a apresentar o panorama atual dos estudos, por meio da identificação dos itinerários da produção científica internacional que inspirou a proposição de uma agenda com novos desafios para pesquisas ulteriores. Realizou-se uma revisão sistemática da literatura, utilizando as bases de dados Scopus e Web of Science, sem recorte temporal para abranger a totalidade das publicações. O ainda incipiente campo de estudos a respeito da QVTe expressa premência na atualização das pesquisas e propostas que tenham implicações práticas para os indivíduos, organizações e sociedade, com especial atenção ao complexo cenário imposto pela Covid-19, já vislumbrando também o contexto pós-pandêmico. A QVTe torna-se pauta na criação de estratégias, políticas e práticas que preconizam ambientes laborais humanizados e produtivos, de forma que os itinerários da produção científica e agenda de pesquisa aqui retratados trazem insumos rumo a uma gestão de pessoas cada vez mais estratégica e sustentável.

Palavras-chave:
Qualidade de Vida no Teletrabalho (QVTe); Revisão Sistemática da Literatura; Produção Internacional

Abstract

This article aims to analyze scientific production on the subject of quality of life in the context of teleworking, in order to present the current panorama of studies, by identifying the itineraries of international scientific production that inspired the proposal of an agenda with new challenges for further research. A systematic literature review was carried out using the Scopus and Web of Science databases, with no time frame, to cover all the publications. The still incipient field of studies on Quality of Life at Work (QWL) expresses the urgency of updating research and proposals that have practical implications for individuals, organizations, and society, with special attention to the complex scenario imposed by Covid-19, already glimpsing the post-pandemic context. QWL is becoming an agenda in the creation of strategies, policies, and practices that advocate humanized and productive work environments, so that the routes of scientific production and research agendas portrayed here bring inputs towards an increasingly strategic and sustainable human resource management.

Keywords:
Quality of Life in Telework (QOLT); Systematic Literature Review; International Production

1. INTRODUÇÃO

Trabalho em/de casa não é um fenômeno novo e tem impactado indivíduos, independentemente de suas localidades ou funções. Ao alterar a natureza do trabalho e relacionar atividades profissionais com pessoas no lar, o desafio tanto no contexto pré-industrial quanto nas sociedades industriais foi manter a qualidade de vida nas esferas pessoal e profissional, mesmo sendo um termo ainda desconhecido. Conceitualmente, a qualidade de vida no trabalho (QVT) apareceu pela primeira vez no final da década de 1960 com o estudo do impacto do trabalho no estado de saúde pessoal e geral (Chanana & Gupta, 2016).

Historicamente, desde o contexto pré-industrial, muitas pessoas trabalhavam em casa ou em localidades próximas, quer sejam estabelecimentos de artesanato ou terras locais. A partir da revolução industrial, os trabalhadores começaram a transitar entre a casa e os locais de trabalho centralizados, por exemplo, fábricas e escritórios (Baruch, 2000). Consequentemente, nas sociedades industriais, para grande parte da população, o lar se tornou um refúgio, um espaço privado, um local de trabalho doméstico ou atividades não remuneradas (Ojala et al., 2014). Todavia, o avanço tecnológico alterou a natureza do trabalho, criando oportunidades para trabalhar em diferentes locais, incluindo o lar (Grant et al., 2013; Vayre et al., 2022).

​​A QVT pode ser observada à medida que os membros de uma organização de trabalho conseguem satisfazer necessidades pessoais importantes através de sua experiência na organização (Chanana & Gupta, 2016). Esse movimento acontece quando é permitido aos envolvidos, de todos os níveis, participar ativamente na formação da organização, do ambiente, dos métodos e resultados.

A participação ativa de todos só foi possível pelo uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) que já provocaram transformações nas organizações que lidam com novas revoluções tecnológicas e econômicas, além da singularidade da força de trabalho e estruturas familiares (Abdullah & Ismail, 2012; Figueira et al., 2023). Ademais, trabalhar em locais alternativos utilizando as TICs, com a manutenção do vínculo de trabalho, também conhecido como teletrabalho, propõe desafios de gestão e das práticas laborais contemporâneas (Diamond, 2008; Figueira et al., 2023; Perissé et al., 2021), tanto na esfera das organizações públicas quanto no âmbito das empresas privadas (Pereira et al., 2021).

Durante a pandemia provocada pela Covid-19 e suas novas variantes, que teimaram em surgir, exigindo uma rápida expansão na adoção do teletrabalho por diversas organizações (Anthonysamy, 2022; Berry et al., 2022; Perissé et al., 2021), com impacto em todos os aspectos da vida (Morilla-Luchena et al., 2021), as TICs se tornaram ainda mais relevantes e indispensáveis para a realização das atividades (Figueira et al., 2023). Em função do isolamento social, muitos trabalhadores assumiram o teletrabalho compulsório (Berry et al., 2022), deparando-se com os desafios na adaptação e descobertas sobre as novas formas de realizar sua prática profissional (Oliveira et al., 2022), desconstruindo mitos de certeza e controle (Berry et al., 2022); problematizando o teletrabalho como arranjo flexível atraente (Figueira et al., 2023).

Apesar do aumento de pesquisas sobre o teletrabalho decorrente do período pandêmico (Covid-19) (Anthonysamy, 2022), as investigações apresentam resultados diversos e, por vezes, contraditórios (Vayre et al., 2022). Essa nova forma de trabalhar também gerou um novo desafio de desenvolver e manter a qualidade de vida no teletrabalho (QVTe) (Oliveira et al., 2022), termo até então pouco pesquisado no campo científico, mas relevante e urgente na relação entre mundo do trabalho e novas tecnologias (Anthonysamy, 2022; Pereira et al., 2021), especialmente no setor público, ainda pouco investigado nessa tônica (Berry et al., 2022; Gastearena-Balda et al., 2021; Pereira et al., 2021).

Nos anos 2000, as pesquisas científicas já sinalizavam que estudos em teletrabalho deveriam pautar as implicações ambientais, políticas, econômicas e sociais oriundas dele, sobretudo, os impactos na qualidade de vida de teletrabalhadores (Mitter, 2000). Apesar das limitações na literatura científica sobre QVTe (Abdullah & Ismail, 2012), especialmente no contexto pós-pandêmico (Anthonysamy, 2022), o campo de estudos deve buscar a promoção do teletrabalho seguro, garantindo qualidade de vida e bem-estar para quem o realiza (Figueira et al., 2023; Pereira et al., 2021; Tresierra & Pozo, 2020).

Em função do espaço domiciliar ter sido moldado pelas TICs (e contexto pandêmico), a casa, o lar ainda são espaços necessários à vida privada, demandando reorganização espacial-temporal e diálogo familiar (Ojala et al., 2014; Prodanova & Kocarev, 2022).

O impacto positivo do aumento do acesso à internet e dos programas de treinamento de desenvolvimento de habilidades em TICs no teletrabalho é observado no crescimento da produtividade do trabalho e do salário (Avram et al., 2021). No entanto, questões que surgem em relação à moral e motivação dos colaboradores (Manko, 2021), ao impacto do fator humano na segurança dos recursos de informação das empresas (Kobis & Karyy, 2021), e ao próprio equilíbrio entre vida profissional e pessoal (Palumbo et al., 2022) entre outros temas, ainda se encontram a descoberto.

Com base nessas lacunas, o presente artigo se propõe a apresentar o panorama atual dos estudos sobre qualidade de vida no contexto do teletrabalho, por meio de uma revisão sistemática da literatura com vistas à identificação dos itinerários da produção científica internacional que inspirou a proposição de uma agenda com novos desafios para pesquisas ulteriores; esforçando-se por contribuir teoricamente para o avanço nas áreas de gestão de pessoas e comportamento organizacional positivo.

Enquanto implicações práticas e gerenciais, este estudo pode oferecer subsídios para gestores rumo a uma organização mais humanizada e saudável, com a criação de estratégias, políticas e práticas que preconizam ambientes laborais produtivos e sustentáveis. Notadamente, os resultados por ora coligidos podem contribuir com a promoção da qualidade de vida no contexto do teletrabalho, o que gerará insights para tomada de decisões rumo a uma gestão de pessoas cada vez mais estratégica e efetiva.

2. QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO: O CONTEXTO DAS PESQUISAS

A partir do surgimento do tema, na década de 60, diversas pesquisas foram realizadas com intuito de compreender como esse fenômeno acontece dentro do ambiente de trabalho. O foco se concentrou tanto na qualidade da experiência humana no local de trabalho (Walton, 1973) quanto no relacionamento com ferramentas especificas do ambiente (Graen et al.,1977). No entanto, além do ambiente físico, o conceito também foi circunscrito aos aspectos intrínsecos do trabalho e aos domínios de atuação da organização e da carreira (Boisvert, 1977), buscando investigar a estrutura subjacente ao construto QVT (Taylor, 1978).

Ao compreender que a QVT influencia diretamente a execução das estratégias organizacionais, pesquisas foram realizadas dirigidas aos gestores para desenvolver estratégias de implementação com vistas ao desempenho organizacional e estratégia gerencial (Wacker & Nadler, 1980). Nesse contexto, um ajuste conceitual da QVT era necessário (Levine et al., 1984) para que as avaliações dos efeitos dos sistemas de relações laborais e dos esforços para melhorar a QVT na eficácia organizacional fossem efetivos (Katz et al., 1985).

Na década de 90, a rotinização do contexto de trabalho e conteúdo do trabalho em relação à QVT dos funcionários entrou em evidência (Baba & Jamal, 1991), sendo avaliada também por meio das estruturas produtivas (Dhondt & Benders, 1998). As pesquisas possuíam em comum a busca pela compreensão do desempenho e QVT (Pruijt, 2000), seja sob a ótica do impacto da produção enxuta nos indicadores de QVT (Lewchuk et al., 2001) ou pela comparação transnacional da avaliação da institucionalização da qualidade na perspectiva dos trabalhadores (Korunka et al., 2003) visando a sistemas de trabalho de alto desempenho (Danford, et al., 2008).

Nesse contexto, o surgimento de pesquisas sobre a imersão organizacional na relação entre QVT e rotatividade tornou-se relevante (Dechawatanapaisal, 2017). Isso se justifica porque até então há pouco se sabia sobre o nível de engajamento dos funcionários considerando especificamente como a utilização diária de habilidades desencadeia esse processo de geração de qualidade de vida (Cullinane et al., 2017). Observou-se, então, a necessidade de uma abordagem integrada e normativa para a QVT a fim de promover o bem-estar, engajamento, baixa rotatividade e a emancipação dos trabalhadores (Grote & Guest, 2017).

Por conseguinte, construtos como comprometimento organizacional, diversidade de funcionários (El Badawy et al., 2018), responsabilidade social corporativa (Kim et al., 2018), impacto da corrupção e das crises regionais (Adisa et al., 2019), bem como crises econômicas globais (Chatrakul Na Ayudhya et al., 2019) foram relacionados à QVT. Esses fatores influenciam o engajamento profissional (Hamzah et al., 2021) e demonstram a necessidade da devida atenção ao trabalhador com uma abordagem prática que envolva não somente ações voluntárias da empresa da empresa, mas também padrões estatutários (Warhurst & Knox, 2022) que poderão ser gerenciados por líderes qualificados.

2.1. QUALIDADE DE VIDA NO TELETRABALHO (QVTE)

A Qualidade de vida no teletrabalho (QVTe) é a interseção de dois conceitos: Qualidade de vida no trabalho (QVT) e teletrabalho. Desde os tempos das mais antigas civilizações, a temática qualidade de vida no trabalho (QVT) é vista como objeto de investigação (Pereira et al., 2021). Na perspectiva histórica e paleontológica, o ser humano produz ferramentas, artefatos e métodos com o intuito de reduzir os desgastes resultantes do trabalho e transformá-lo em atividade prazerosa (Pereira et al., 2021).

No contexto organizacional, a QVT conquista espaço de debate a partir da valorização de pesquisas acerca de aspectos psicossociais, motivacionais e comportamentais dos trabalhadores (Oliveira et al., 2022; Pereira et al., 2021). De fato, o desenvolvimento e contribuições das teorias de gestão de pessoas (GP), tal como a escola de relações humanas, as teorias sobre liderança e motivação, e a visão sociotécnica das organizações são fundamentais para a evolução dos estudos da QVT (Pereira et al., 2021). Assim, o fortalecimento da QVT como tema de estudos fundamentou-se na tríade indivíduo-trabalho-organização, evidenciando o impacto do trabalho nas diferentes esferas da vida dos trabalhadores e não deve ser confundida com qualidade de vida (QV) (Oliveira et al., 2022; Pereira et al., 2021).

A discussão sobre QVT fundamenta-se, também, a partir dos modelos de análise propostos por diferentes estudiosos, tais como: (a) Richard Walton, em 1973 - oito categorias e fatores de QVT; (b) Hackman e Oldham, em 1975 - obtenção de resultados positivos laborais e pessoais, a partir das dimensões básicas da tarefa; (c) William Westley, em 1979 - as dimensões psicológica, sociológica, econômica e política da QVT; (d) Werther e Davis, em 1983 - os fatores comportamentais, organizacionais e ambientais que influenciam a QVT (Pereira et al., 2021).

Ao considerar as complexas interações entre indivíduos e organizações, a QVT apresenta-se como multidimensional e subjetiva, enfatizando a humanização do trabalho, a satisfação e o bem-estar dos trabalhadores, que contribuem para o aumento da produtividade e consequente realização dos objetivos organizacionais (Anthonysamy, 2022; Figueira et al., 2023; Oliveira et al., 2022; Pereira et al., 2021). Pode ser compreendida como um movimento que questiona o rigor dos métodos tayloristas e recoloca em cena o protagonismo dos trabalhadores, estimulando a participação nos processos decisórios e soluções de problemas no âmbito laboral (Pereira et al., 2021).

A QVT integra de forma interdependente as perspectivas das organizações e dos trabalhadores, pactuando interesse nas condições de vida no trabalho, evidenciando aspectos como bem-estar, capacitação em prol da realização de tarefas, garantia da saúde e segurança mental, social e física (Oliveira et al., 2022; Pereira et al., 2021). Nesse sentido, a conceituação de QVT perpassa as condições humanas e éticas do trabalho, evidenciado riscos ocupacionais, implicações ideológicas, relações de poder formais e informais, proteção salarial, integração social, fatores psicológicos, econômicos, sociológicos e políticos, bem como o significado que é atribuído ao trabalho realizado (Pereira et al., 2021). Assim, a percepção que os trabalhadores constroem, com base no contexto de trabalho aos quais estão inseridos, contribui para a produção de QVT, influenciando atitudes e comportamentos nas organizações (Figueira et al., 2023).

Cabe destacar que a execução do teletrabalho e as formas de praticá-lo devem se preocupar, por exemplo, com a intensificação do trabalho, o isolamento social (Figueira et al., 2023; Vayre et al., 2022), a extensão da jornada de trabalho (Vayre et al., 2022), o controle excessivo por parte dos gestores (Figueira et al., 2023), os novos riscos psicossociais, o aumento dos níveis de estresse dos trabalhadores, os acidentes de trabalho, as causas de doenças ocupacionais e, consequentemente, a qualidade de vida no trabalho (Tresierra & Pozo, 2020). Ademais, as disfunções dos riscos ocupacionais relacionam-se com as características de: (i) tarefa (ritmo, quantidade, automação, monotonia); (ii) organização (estrutura hierárquica, canais de comunicação, relações interpessoais, especificação de competências); (iii) tempo de trabalho (tipo de trabalho, organização das pausas e turnos); e (iv) emprego (salário, condições físicas e layout de trabalho) (Tresierra & Pozo, 2020).

Outrossim, equilibrar a carreira profissional e as demandas da vida pessoal traduz-se em grande desafio para os trabalhadores, especialmente para aqueles que desejam ter qualidade de vida no trabalho (Abdullah & Ismail, 2012; Berry et al., 2022; Figueira et al., 2023; Oliveira et al., 2022). Desse modo, o contexto organizacional caracterizado pelo avanço tecnológico do século XXI é também marcado pelas necessidades e expectativas dos trabalhadores que almejam mais do que recompensas, pois a prioridade deve ser: equilíbrio-trabalho-vida (Work Life Balance - WLB) (Abdullah & Ismail, 2012; Vayre et al., 2022), que possibilite alcançar equilíbrio saudável entre a vida pessoal e profissional (Anthonysamy, 2022), construir bons relacionamentos e cooperação com os colegas de trabalho, além da saúde física, mental (Figueira et al., 2023) e psicológica dos teletrabalhadores (Anthonysamy, 2022).

Assim, a adoção de arranjos de trabalho flexíveis (Flexible Work Arrangements - FWA), por exemplo, o teletrabalho oportuniza atrair, motivar (Abdullah & Ismail, 2012) e reter trabalhadores (Abdullah & Ismail, 2012; Figueira et al., 2023), garantindo seu bem-estar (Figueira et al., 2023), estimulando a redução da rotatividade e o aumento de produtividade (Abdullah & Ismail, 2012). Dessa forma, as organizações devem adotar leis e políticas regulatórias na implementação e execução do teletrabalho, moldando os fluxos de comunicação entre teletrabalhadores e gestores, garantindo que tal arranjo não se torne uma prática marginal, frágil e desregulamentada (Figueira et al., 2023). Ademais, o teletrabalho é influenciado por programas, estratégias, políticas e práticas de gestão de pessoas (GP) que refletem a QVT, impactando comportamentos, experiências, cultura organizacional (Abdullah & Ismail, 2012), e a própria vantagem competitiva (Figueira et al., 2023; Oliveira et al., 2022).

O termo teletrabalho foi proposto pelo americano e físico Jack Nilles, na década de 1970 (Tresierra & Pozo, 2020; Ulate-Araya, 2020), no bojo da crise do petróleo e do avanço global das telecomunicações (Ulate-Araya, 2020). O teletrabalho surge como resposta ao cenário escasso dos produtos derivados do petróleo, uma vez que o deslocamento dos trabalhadores representava um aumento no consumo de combustíveis fósseis; além disso, integrou processos organizacionais a partir do uso da telecomunicação por multinacionais, reduzindo custos e aumentando a flexibilidade (Ulate-Araya, 2020). Etimologicamente, o prefixo “tele” vem do grego e significa “à distância”, informando que o teletrabalho é um tipo de trabalho realizado em outro local diferente do espaço físico habitual organizacional (Mitter, 2000; Ulate-Araya, 2020), a partir de um acordo escrito ou oral entre teletrabalhador e empregador (Ojala et al., 2014) que estabelecerá o vínculo empregatício (Pereira et al., 2021). Teletrabalhar implica a utilização de tecnologias de informação e comunicação (TICs) remotamente, com flexibilização temporal e espacial, reinventando o mundo do trabalho (Figueira et al., 2023; Pereira et al., 2021; Tresierra & Pozo, 2020; Ulate-Araya, 2020; Van Sell & Jacobs, 1994), transformando a sociedade e sincronizando os modos de viver (Morilla-Luchena et al., 2021).

A substituição do material físico pela transferência de bits reflete o ambiente moderno do teletrabalho (Baruch, 2000), também conhecido como home office, telework, teleworking, telecommuting, coworking (Baruch, 2000; Pereira et al., 2021; Perissé et al., 2021; Tresierra & Pozo, 2020), o qual poderá ser realizado em casa, nos centros móveis, locais descentralizados (Baruch, 2000; Mitter, 2000; Pereira et al., 2021), escritórios satélites e telecentros (Mitter, 2000; Pereira et al., 2021), em regime parcial ou integral de trabalho (Messenger et al., 2018; Pereira et al., 2021). O teletrabalho pode ser definido também como um arranjo de trabalho flexível que traz consigo diversas implicações (Gastearena-Balda et al., 2021). Neste sentido, a dinâmica do teletrabalho, que possui vantagens e desvantagens (Tabela 1), não se limita ao uso de TICs com flexibilidade de local e tempo, mas trata-se de pessoas e a maneira como estas se relacionam com a tecnologia (Abdullah & Ismail, 2012; Figueira et al., 2023).

Tabela 1
Vantagens e desvantagens do teletrabalho

Em síntese, teletrabalhadores e organizações estão suscetíveis às conjunturas imprevisíveis, sejam por desastres naturais, pandemias, crises econômicas e políticas, ou eventos inesperados, de tal modo que garantir a execução das atividades laborais é visto como um benefício do teletrabalho, mesmo que de forma compulsória (Green et al., 2017; Pantoja et al., 2020). No entanto, não se pode esquecer que QVT é poder exercer suas funções valorizando o bem-estar, a saúde mental e física (Klein & Pereira, 2019) dos trabalhadores. Nesse cenário, faz-se necessário implementar melhorias nos ambientes organizacionais, valorizando o bem-estar e a saúde dos teletrabalhadores como pré-requisito para o aumento da produtividade (Vilarinho et al., 2021), a partir da promoção da qualidade de vida, quer seja no trabalho (QVT), ou no teletrabalho (QVTeletrabalho ou QVTe).

3. PERCURSO METODOLÓGICO

Para realizar o mapeamento da produção científica, o presente estudo descritivo e de natureza qualitativa adotou a estratégia de pesquisa documental denominada revisão sistemática da literatura (RSL). De acordo com Tranfield et al. (2003), uma revisão sistemática é um estudo baseado em dados secundários, utilizando as evidências de uma amostra de artigos publicados com a finalidade de sintetizar as evidências científicas de um determinado tema. No campo da gestão, as revisões sistemáticas, que são essencialmente qualitativas, são feitas para gerar conhecimento sobre um tema, a fim de identificar campos de pesquisa e orientar os pesquisadores em desenvolvimentos posteriores (Tranfield et al., 2003).

Por sua vez, a análise bibliométrica promove um exame quantitativo da produção científica de um tema, introduzindo uma medida de objetividade na avaliação da literatura ao aumentar o rigor e atenuar o viés do pesquisador (Zupic & Čater, 2015). Desse modo, segundo Zupic e Čater (2015), a combinação de revisão sistemática e análise bibliométrica promove uma revisão de literatura mais confiável. O protocolo eleito foi o de Templier e Paré (2015), composto por seis etapas, descritas na Figura 1.

Figura 1.
Protocolo

Uma vez formulado o problema de pesquisa (i), que trata da descrição do cenário da produção científica a respeito da qualidade de vida no teletrabalho, as bases de dados Scopus e Web of Science (WoS) foram utilizadas com o fim de efetuar a pesquisa da literatura (ii). Elas foram selecionadas e utilizadas pela quantidade de periódicos indexados (Scopus) e pela qualidade e abrangência temporal dos periódicos (Web of Science) (Aria & Cuccurullo, 2017; Chadegani et al., 2013).

Ao realizar a busca pelos artigos, utilizaram-se os operadores booleanos and e or por tópico (TS) na WoS, e, por Title-abs-key na Scopus, para a sequência de caracteres: (("telework" OR "home office" OR "remote work" OR "teleworking" OR "telecommuting") AND (“quality of work life” OR “quality of working life” OR “quality of life at work” OR “quality of work-life” OR “quality of professional life” OR “quality of life in the workplace” OR “work-life quality”)).

Concluída a busca pelos periódicos, realizada em abril de 2023, 39 documentos da base Scopus e 17 documentos da base WoS foram retornados. A partir da triagem para inclusão e exclusão dos artigos (iii), aplicou-se o filtro por tipo de documento (article), excluindo 17 documentos da base Scopus e 01 documento da base WoS, que não eram artigos, resultando em um total de 38 artigos científicos das duas bases utilizadas. Após a conferência de duplicidade nas duas bases, 09 artigos foram identificados e, a partir disso, 29 artigos permaneceram. Não foram aplicados filtros de idioma e de recorte temporal, com o fim de atingir maior abrangência nos resultados.

Por conseguinte, a etapa de avaliação da qualidade da literatura (iv) é usualmente caracterizada pela utilização do Journal Impact Factor (JIF) para filtragem dos artigos de revistas, com base em dois indicadores considerados mais relevantes atualmente: o fator de impacto da WoS e o CiteScore na base Scopus (Aguinis et al., 2020). Porém, como o corpus da presente revisão já estava restrito a 29 artigos e para manter a maior abrangência possível desta revisão, optou-se por não fazer o filtro por JIF e CiteScore. Quanto à etapa de deliberação sobre a pertinência dos artigos (v), 05 artigos foram excluídos após ser verificado se realmente tratavam da qualidade de vida no teletrabalho ou se abordavam o tema apenas de maneira tangencial. Assim, o corpus final para realização da revisão sistemática foi de 24 artigos.

Por último, a etapa de análise e síntese dos dados (vi) caracteriza-se pela utilização do software livre RStudio para a execução de análises bibliométricas dos 24 artigos obtidos. Executando-se o pacote ‘bibliometrix’ no software RStudio, foi possível importar os dados bibliográficos gerados pela WoS e Scopus, produzindo informações para as análises bibliométricas (Aria & Cuccurullo, 2017; Rodríguez-Soler et al., 2020), de modo a viabilizar o alcance dos objetivos deste estudo, quais sejam, delinear os itinerários da pesquisa no tema e construir uma agenda de pesquisas futuras, identificando novas possibilidades e desafios.

4. CENÁRIO DOS ITINERÁRIOS DE PESQUISA

Considerando a análise dos 24 artigos que integram a presente revisão, foi possível classificar o corpus em: (i) abordagem ou natureza de pesquisa - qualitativa (42%), quantitativa (50%) e mista (8%), sinalizando oportunidade para realização de estudos multimétodo (qualitativo-quantitativo); (ii) enquadramento ou framework - teóricos (12,5%) e teórico-empíricos (87,5%); (iii) setores pesquisados - 28,5% dos estudos teórico-empíricos foram realizados nos setores público e privado, 19% no setor privado, 14% no setor público, 9,5% nos setores público, privado e terceiro setor, 5% nos setores público e terceiro setor, sendo que 24% não declararam os setores pesquisados. Cabe sublinhar que 29% dos estudos trataram a temática de QVTe no contexto da Covid-19 (Anthonysamy, 2022; Berry et al., 2022; Horton & Jacobs, 2022; Huls et al., 2022; Morilla-Luchena et al., 2021; Oliveira et al., 2022; Tresierra & Pozo, 2020).

Outrossim, 22 periódicos publicaram os 24 artigos, destacando que somente as revistas New Technology Work and Employment e Work-A Journal of Prevention Assessment & Rehabilitation, publicaram 2 artigos cada. Quanto à produção científica anual, apresentada na Figura 2, observou-se que as publicações desenham um cenário escasso, com hiatos temporais significativos (2003 a 2007; 2015 a 2019).

No entanto, nos anos de 2020 a 2022, é possível constatar um crescimento pujante, representando 50% das publicações. Cabe sublinhar que são estudos que discutem a QVTe a partir da fadiga, carga mental do teletrabalho (Tresierra & Pozo, 2020), produtividade (Ulate-Araya, 2020), satisfação no trabalho (Anthonysamy, 2022; Figueira et al., 2023; Gastearena-Balda et al., 2021; Ulate-Araya, 2020), condições de trabalho (Gastearena-Balda et al., 2021; Morilla-Luchena et al., 2021), equilíbrio vida profissional e pessoal (Anthonysamy, 2022; Berry et al., 2022; Figueira et al., 2023; Gastearena-Balda et al., 2021; Vayre et al., 2022), contribuição do teletrabalho para a QVT (Pereira et al., 2021; Perissé et al., 2021), e aprovação social percebida a partir do uso de TICs, (Perissé et al., 2021); sinalizando as principais temáticas que marcam o atual contexto da QVTe.

Além da pandemia, elementos contextuais justificam esse aumento nas publicações sobre o tema. Como exemplo, é possível citar o acesso a uma oferta de mão de obra ampliada, contratos de trabalho por projetos, flexibilidade na carga horária, economia de custos e tempo, além da necessidade da devida atenção ao trabalhador com uma abordagem prática que envolve não somente ações voluntárias da empresa, mas também padrões estatutários (Warhurst & Knox, 2022). Considerando que todas as práticas implementadas pelas organizações visavam atender urgentemente às demandas suscitadas na pandemia, as pesquisas no período considerado pós-pandêmico (fim de 2022 e início de 2023) já apresentavam respostas práticas e executadas.

Figura 2.
Produção científica anual

Os 24 artigos foram escritos por um total de 59 autores, sendo 37,5% de autoria única e 62,5% de autoria múltipla, desvelando o número crescente de parcerias para realização de pesquisas. Apenas os autores Satu Ojala (Ojala, 2011; Ojala et al., 2014) filiado à School of Social Sciences and Humanities, University of Tampere - Finland e Émilie Vayre filiada à Pole of Social Psychology, University Lumière Lyon - France (Perissé et al., 2021; Vayre et al., 2022) apresentaram mais de uma publicação. A representatividade do país por autor(a) indica que os Estados Unidos detêm o maior número de publicações (17%), seguido pelo Brasil e Reino Unido (12,5% cada), Espanha, Finlândia, França, Malásia (8,3% cada), Austrália, Canadá, Costa Rica, Holanda, Índia e Peru (com 4,1% cada). Com exceção dos estudos teóricos realizados por Ulate-Araya (2020) (Costa Rica), Tresierra e Pozo (2020) (Peru), e das revisões de literatura de Barton (2002) (Canadá) e Van Sell e Jacobs (1994) (Estados Unidos), a localização geográfica do(a) autor(a) principal representa também o local onde as pesquisas foram realizadas, não havendo parcerias observadas entre países.

No que concerne à citação dos artigos analisados, a Tabela 2 ilustra um ranking, ordenado pelo número de citações (NC), com os títulos, autores, ano de publicação, periódicos e número de citações nas bases WoS e Scopus dos 7 artigos mais citados. Destaca-se que o artigo mais citado, o de Baruch (2000), explora a temática da QVTe, a partir da percepção dos trabalhadores, enquanto o segundo artigo mais citado, de Grant et al. (2013), analisou a eficácia no trabalho, equilíbrio entre vida e trabalho, e bem-estar.

Tabela 2
Ranking artigos mais citados

Foi possível identificar que 100% dos artigos mais citados são teórico-empíricos, sendo que apenas os estudos de Baruch (2000), Ojala (2011) e Morilla-Luchena et al. (2021) receberam financiamento; além disso, os três artigos mais citados são estudos realizados no Reino Unido: Baruch (2000), Grant et al. (2013) e Baines (2002). Aliás, o estudo de Baines (2002) enfatizou que grande parte das casas no Reino Unido não foram projetadas para a realização de teletrabalho, evidenciando a importância do desenvolvimento de pesquisas sobre tal prática no ambiente domiciliar.

Além disso, a pesquisa de Morilla-Luchena et al. (2021) é a única que aborda o contexto pandêmico (Covid-19), destacando-se no ranking dos artigos mais citados. Trata-se de uma investigação realizada no âmbito dos setores público e privado da Espanha, que discute as percepções dos teletrabalhadores sobre as condições de trabalho durante o isolamento social, alertando para os riscos psicossociais que podem ocorrer em função do teletrabalho, especialmente, o compulsório. Já os estudos de Ojala (2011) e Ojala et al. (2014) utilizaram dados da Pesquisa Finlandesa de QVT (2003-2008) realizada com teletrabalhadores das esferas pública e privada.

Ademais, a revisão de literatura de Van Sell e Jacobs (1994) evidencia que, por um lado, o teletrabalho oferecia oportunidades para uma maior produtividade com menor custo para as organizações, todavia os gestores tinham dificuldade em confiar que os teletrabalhadores usariam o tempo de forma produtiva. Por outro lado, observou-se que a flexibilidade de tempo e espaço proporcionada aos teletrabalhadores possibilitou a redução do estresse, maior senso de lealdade à organização, maior controle sobre o trabalho, redução dos conflitos de gestão do tempo / flexibilidade na relação vida pessoal-profissional- familiar. Trata-se da única revisão de literatura encontrada sobre QVTe a partir do corpus analisado, já com um gargalo temporal significativo, indicando a escassez de RSL, tornando-se mola propulsora para o presente estudo.

Apoiado na proposta de Cobo et al. (2011) para mapeamento científico de campos de pesquisa, foi possível identificar clusters que compõem o diagrama estratégico ou mapa temático dos estudos (Cobo et al., 2011; Rodríguez-Soler et al., 2020; Santana & Cobo, 2020). Utilizando os resumos dos artigos como unidade de análise, a Figura 3 apresenta um conjunto de temas de pesquisa, a partir do mapeamento estratégico bidimensional proposto por Cobo et al. (2011). O diagrama é estruturado por dois parâmetros denominados centralidade (eixo grau de relevância) e densidade (eixo grau de desenvolvimento) (Cobo et al., 2011), responsáveis por classificar os temas (abstract) em quatro grupos (motor themes, basic themes, emerging or declining themes e niche themes) (Cobo et al., 2011). Além disso, o eixo centralidade indica o grau de interação entre clusters, enquanto o eixo densidade evidencia a coesão interna deles (Cobo et al., 2011; Rodríguez-Soler et al., 2020; Santana & Cobo, 2020).

Figura 3.
Mapa temático estratégico

O mapa temático estratégico, apresentado na Figura 3, organiza-se por: (a) cluster 1 - life, employees, data, time e analysis; cluster 2 - quality, research, study, findings e job - como temas motores (motor themes) localizados no quadrante superior direito, afirmando-se como bem desenvolvidos e significativos no delineamento do campo de pesquisas, caracterizados por forte centralidade e alta densidade (Cobo et al., 2011). São potenciais temas para estudos futuros com foco em analisar dados sobre a gestão do tempo e maneira de viver dos teletrabalhadores, bem como a respeito das experiências que produzem a QVTe.

(b) cluster 3 - covid, home, pandemic, objective e perceived; cluster 4 - results, teleworking, telework, balance e teleworkers - são temas básicos (basic themes) posicionados no quadrante inferior direito e, apesar de não serem desenvolvidos, são importantes para o campo de pesquisas, pois trata-se de temas gerais, que são básicos e transversais (Cobo et al., 2011). Nesse sentido, cabe ressaltar que os clusters 3 e 4 coadunam com a realização do presente estudo, porquanto indicam que a temática de QVTe precisa ser pautada como agenda de pesquisa, especialmente no contexto provocado pela pandemia da Covid-19, suas variantes e efeitos pós-pandêmicos. Atenção especial para as temáticas de equilíbrio trabalho-vida pessoal e estudos que valorizem as percepções dos teletrabalhadores, incluindo os que não puderam permanecer em teletrabalho no pós-pandemia.

(c) cluster 5 - work-life, sector public, positive e workplace são temas emergentes ou em declínio (emerging or declining themes), considerados marginais, apresentam baixas centralidade e densidade. Nesse prisma, pesquisas que investiguem a QVTe e os impactos positivos para os ambientes laborais, particularmente no setor público são bem-vindas, pois figuram como temas emergentes.

(d) cluster 6 - impact, paper, employment, aspects e negative; cluster 7 - based, information, remote, social e health - são temas de nicho (niche themes), dispostos no quadrante superior esquerdo, constituindo temas periféricos ou muito especializados, apresentando conexões internas bem desenvolvidas. A importância do teletrabalho para a sociedade, organizações e teletrabalhadores atravessa temas que já estão bem desenvolvidos, ao indicar, por exemplo, os aspectos negativos do isolamento social e sobrecarga de trabalho para a saúde. Cabe sublinhar que o cluster 1 também figura no quadrante basic themes, bem como o cluster 3 no emerging or declining themes, concluindo o mapeamento científico de campos de pesquisa.

Quanto mais uma pessoa gosta de seu trabalho e do ambiente onde ela está realizando as suas atividades, mais QVTe ela terá. As possibilidades resultam das oportunidades e limitações que cada pessoa tem em sua vida e refletem a interação de fatores pessoais e ambientais. Na Figura 4, é proposto um modelo conceitual de análise da QVTe, considerando o conteúdo, o processo e o contexto.

O modelo parte da premissa de que a QVTe pode ser analisada com foco no contexto familiar, nas histórias de vida, nos fatores tecnológicos e aspectos culturais que influenciam a vida pessoal, o desenvolvimento profissional, as vivências em um ambiente de companheirismo com equipe, gestores e família, e a possibilidade de contribuir para a criação de valor real para os clientes e o mundo circundante através do seu trabalho. Nesse processo, a QVTe é influenciada e influência diferentes variáveis, conforme ilustrado na Figura 4.

Figura 4
Modelo conceitual de análise da QVTe considerando o conteúdo, o processo e o contexto

5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS E NOVOS DESAFIOS DE PESQUISA

A centralidade da gestão pode ser considerada fundamental para o sucesso do teletrabalho em determinado período, por outro lado, a incapacidade dos gestores em apoiar o arranjo flexível de trabalho pode levar ao encerramento das atividades (Diamond, 2008).

Nessa lógica, o controle excessivo e a falta de confiança formam gestores resistentes aos novos arranjos de trabalho flexíveis (Van Sell & Jacobs, 1994). No entanto, o teletrabalho pode oferecer melhorias na qualidade de vida, mas demanda visão estratégica, especialmente por parte dos gestores (Oliveira et al., 2022; Pereira et al., 2021), que devem estimular o desenvolvimento profissional dos teletrabalhadores apoiados na confiança mútua, comunicação contínua, reconhecimento e recompensa, promovendo o sentimento de pertencimento (Figueira et al., 2023).

A eficácia da implementação do teletrabalho pode proporcionar melhoria na QVT dos teletrabalhadores, desde que exista um maior senso de controle sobre os papéis exercidos, além da colaboração entre pares, avanço na carreira e bom equilíbrio trabalho-família (Abdullah & Ismail, 2012). Outro fator que deve ser considerado está relacionado às histórias de vidas de teletrabalhadores, as quais influenciam o alcance do equilíbrio entre trabalho e vida familiar, em função da inadequação do espaço físico do lar para o desenvolvimento do trabalho, falta de treinamento e capacitação profissional, isolamento profissional, tensão e conflitos familiares (Baines, 2002; Figueira et al., 2023; Van Sell & Jacobs, 1994).

Além de considerar o contexto familiar, história de vida dos teletrabalhadores e fatores tecnológicos, é coerente observar os aspectos culturais, uma vez que, para contribuir com o desenvolvimento sustentável, as organizações (sejam privadas, públicas ou atuantes no terceiro setor) devem considerar os contextos sociais, econômicos e culturais que moldam as vidas das pessoas envolvidas, especialmente os grupos tradicionalmente desfavorecidos (Mitter, 2000).

Não há teletrabalho sem as TICs, logo, compreender a relação entre aceitação social, uso das TICs e o impacto delas no equilíbrio trabalho-vida pessoal de teletrabalhadores pode proporcionar momentos de desconexão, bem como o desenvolvimento de esquemas de apoio e supervisão. O uso das TICs por teletrabalhadores resultou no aumento da autonomia de trabalho e comprometimento organizacional, com efeitos positivos no equilíbrio trabalho-vida pessoas. No entanto, a frequência de uso de tablet e laptop demonstrou associação ao vício em trabalho, sendo que o uso em excesso do tablet aumenta o vício em internet, instigando a reflexão sobre os riscos do uso intensivo de TICs e sua relação com a melhoria do desempenho das organizações (Perissé et al., 2021).

Assim, para evitar o vício em trabalho e alcançar melhores níveis de satisfação, a gestão deveria dar mais atenção ao teletrabalho como programa institucional, flexibilizando a jornada de trabalho e direcionando recursos para treinamento e instalações (Gastearena-Balda et al., 2021).

Ojala et al. (2014) investigaram a flexibilidade do teletrabalho e o trabalho extra informal que é realizado em casa. Desse modo, o estudo constatou que as horas extras informais que são realizadas no espaço de casa, além de colocar em risco a saúde e bem-estar dos trabalhadores, impactam de forma negativa a interface trabalho-família (Ojala et al., 2014). Dessa forma, Ojala (2011) problematiza a flexibilidade informal, a partir da realização do teletrabalho no domicílio, durante o tempo que deveria ser livre. O estudo evidencia que teletrabalhadores, em princípio, sentem a necessidade de separar o local de trabalho da vida pessoal, mesmo que isso ocorra dentro de casa; porém são poucos os que mantêm claramente os limites (Ojala, 2011).

Consoante com os estudos de Morilla-Luchena et al. (2021), o perfil dos teletrabalhadores traçado por (Ojala, 2011) apontam que mulheres casadas e pessoas com filhos(as) têm mais chances de experimentar qualidade de vida no teletrabalho, confirmando as contribuições de Van Sell e Jacobs (1994). Assim, mulheres que são mães de crianças pequenas tendem a valorizar o trabalho remoto, pois veem nele uma oportunidade de acompanhar a criação e o desenvolvimento dos filhos de perto (Figueira et al., 2023). Por outro lado, as mulheres, com o acúmulo de demandas que possuem, têm relatado mais estresse (Horton & Jacobs, 2022), sofrimento psicológico e insatisfação com a redução da jornada remunerada no teletrabalho (Huls et al., 2022). Inclusive, mulheres que não têm filhos e teletrabalham também sentem sobrecarga na realização de tarefas domésticas (Huls et al., 2022).

Cabe sublinhar que, após três décadas dos estudos pioneiros realizados por Van Sell e Jacobs (1994), a desigualdade de gênero nas relações de trabalho ainda é fator decisivo para a adoção do teletrabalho por parte das mulheres, colocando em xeque o papel do gênero masculino no cuidado diário dos(as) filhos(as) e outros dependentes, além da divisão de tarefas domésticas (Anthonysamy, 2022; Huls et al., 2022; Oliveira et al., 2022; Vayre et al., 2022). Além de a desigualdade de gênero no teletrabalho ter sido intensificada durante a crise pandêmica da Covid-19 e suas variantes (Oliveira et al., 2022; Vayre et al., 2022), outras desigualdades foram exacerbadas e afetaram desproporcionalmente muitas pessoas negras, indígenas e pobres, especialmente as mulheres (Berry et al., 2022).

Outrossim, melhores índices de desempenho organizacional e QVTe, relacionam-se com a valorização da cultura organizacional, relação de confiança entre líderes, liderados e pares, além da definição de papéis, autodisciplina, motivação, disponibilidade de espaço em casa e o gerenciamento das atividades (Baruch, 2000; Figueira et al., 2023).

Teletrabalhadores demonstram comportamentos adaptativos e habilidades no (auto)gerenciamento do teletrabalho com eficácia, enfatizando a comunicação e o relacionamento de confiança que mantinham com os(as) líderes e pares; impactando o bem-estar dos teletrabalhadores (Grant et al., 2013). Apesar da melhoria no equilíbrio entre vida profissional e familiar dos teletrabalhadores, o acesso constante à tecnologia produz dificuldades de se desligarem completamente do trabalho e impor limites (Grant et al., 2013), contribuindo com as discussões de Morilla-Luchena et al. (2021) e Ojala (2011) nessa verve. O excesso de trabalho afeta o bem-estar, a saúde de teletrabalhadores e pode provocar o esgotamento (burnout), atribuindo aos gestores a responsabilidade de garantir a comunicação e verificar a carga horária de trabalho, bem como o desempenho e o bem-estar (Grant et al., 2013), finalmente promovendo a qualidade de vida no teletrabalho.

O teletrabalho apresenta eficácia quando relacionado à satisfação no trabalho e afeta positivamente a produtividade dos teletrabalhadores, desde que a organização apoie a implementação e sua execução, valorizando inclusive a segurança cibernética (Anthonysamy, 2022; Ulate-Araya, 2020). Assim, o programa de teletrabalho deve ser formulado a partir de padrões éticos, além de pautar a QVT para os teletrabalhadores (Ulate-Araya, 2020).

A partir de entrevistas telefônicas realizadas com teletrabalhadores franceses do setor privado, Vayre et al. (2022) apontaram efeitos positivos (flexibilidade, autonomia profissional, maior concentração no trabalho, equilíbrio vida profissional e pessoal) e negativos (dificuldades na gestão do tempo e integração socioprofissional) do teletrabalho. Consequentemente, os autores sugerem que as organizações valorizem e inspirem-se nos resultados de pesquisas científicas para elaborar e implementar estratégias, políticas e práticas de GP, apoiando a execução do teletrabalho sustentável na era pós-pandemia (Vayre et al., 2022). Neste sentido, Figueira et al. (2023) discutem as práticas de gestão do teletrabalho, informando que é imprescindível que as organizações estabeleçam políticas organizacionais de teletrabalho, obedecendo às políticas governamentais, disponibilizando planos de comunicação e competências para os teletrabalhadores.

Figueira et al. (2023) também consideram a urgência do desenvolvimento das práticas (flexíveis) de GP para o teletrabalho, o que coaduna com os estudos de Vayre et al. (2022). Além disso, o suporte tecnológico, a relação de confiança mútua com a liderança, o equilíbrio trabalho-vida pessoal, a negociação de metas e plano de trabalho, o bem-estar e a integração profissional são fundamentais para a satisfação e sentimento de pertença de teletrabalhadores brasileiros. Cabe ressaltar que os estudos de Figueira et al. (2023) e Vayre et al. (2022) foram escritos durante a pandemia da Covid-19, mas os dados foram coletados em períodos anteriores.

O estudo de Tresierra e Pozo (2020) contribui ricamente para a temática de QVTe ao problematizar a carga mental e fadiga no teletrabalho, notadamente por considerar o contexto de pandemia provocado pela Covid-19. De tal modo, Tresierra e Pozo (2020) observam que os riscos psicossociais − mencionados por Morilla-Luchena et al. (2021) e Barton (2002) − são inerentes às transformações no mundo do trabalho e comprometem a QVTe, reclamando atenção especial para os cuidados com a saúde mental das pessoas que foram inseridas no teletrabalho compulsório em função da pandemia global (Tresierra & Pozo, 2020). Nessa linha, muitos trabalhadores holandeses perceberam que trabalharam menos durante o isolamento social e consideraram que foram menos produtivos (Huls et al., 2022).

Com relação às condições de trabalho, Morilla-Luchena et al. (2021) observaram que o teletrabalho compulsório em função da Covid-19 impactou fortemente o trabalho que era presencial. A adoção das TICs viabilizou a adaptação do trabalho no momento de crise, criando maior flexibilidade e equilíbrio trabalho-vida pessoal, reorganizando atividades administrativas que se mostraram mais efetivas no formato não presencial (Morilla-Luchena et al., 2021).

No entanto, os teletrabalhadores perceberam um aumento da jornada de trabalho e a sensação de não se desligar do trabalho, sinalizando atenção para possíveis riscos psicossociais oriundos dessa situação de teletrabalho (Morilla-Luchena et al., 2021), ou até mesmo problemas de abuso de substâncias, tais como por álcool e drogas ilícitas que também impactam a QVTe (Barton, 2002). Ademais, a pesquisa revela que o perfil predominante para um possível programa de teletrabalho no serviço social espanhol seria formado por pessoas casadas ou divorciadas, com filho(a), idosos e servidores públicos (Morilla-Luchena et al., 2021), problematizando o interesse do setor privado e de pessoas solteiras na adoção do teletrabalho.

Ao examinarem as implicações da pandemia (Covid-19) na qualidade de vida de servidores públicos americanos, Berry et al. (2022) observaram que o aumento da demanda de trabalho, a tensão emocional, os ambientes mais burocráticos e as restrições de recursos são lições aprendidas por meio de desafios e dificuldades, que devem guiar os líderes quanto ao redesenho de práticas de gestão de pessoas mais reflexivas e centradas nos teletrabalhadores, ou seja, nas pessoas. Desse modo, resultados quanto à intensificação do trabalho (impactam a QVTe), como os que foram apresentados por Oliveira et al. (2022), precisam ser aprofundados. Trata-se de um grupo de gestores públicos educacionais brasileiros que se percebem satisfeitos e realizados com suas atividades home office, mesmo tendo observado um aumento na carga horária trabalhada (Oliveira et al., 2022).

Ainda no contexto educacional, a pesquisa de Horton e Jacobs (2022) observa que um programa de teletrabalho no formato híbrido é o mais indicado para americanos que são docentes do ensino superior. A sensação de aumento no controle do tempo para a execução das atividades e na qualidade de vida no trabalho, bem como a redução do estresse, foram resultados que respaldam os achados de Horton e Jacobs (2022) e fortalecem o modelo de teletrabalho híbrido.

Em suma, as investigações sobre a QVTe no contexto pós-pandêmico encontram-se no estudo de Anthonysamy (2022), realizado com teletrabalhadores da área de tecnologia de informação da Malásia. Os teletrabalhadores expressaram satisfação com a experiência de teletrabalho a partir da autonomia e equilíbrio entre vida profissional e pessoal, mas demonstraram ansiedade em relação à permanência do teletrabalho após o fim do isolamento social ou pós-pandemia. Ademais, o planejamento para a transição dos ambientais laborais para o formato híbrido é recomendável, considerando as especificidades de cada organização (Anthonysamy, 2022), corroborando os estudos de Horton e Jacobs (2022).

É indispensável reconhecer as limitações metodológicas do presente estudo ao focar exclusivamente as bases de dados internacionais Scopus e Web of Science, além de considerar somente artigos científicos publicados em periódicos. A falta de representatividade dos artigos nas bases de dados mencionadas pode ser atribuída à ausência de um recorte temporal, portanto, não é possível atestar que o estado da arte foi sintetizado, de modo que se sugere a ampliação da discussão do tema a partir de outras bases, mas mantendo o foco em artigos científicos. Teses, dissertações e artigos publicados em congressos são trabalhos em construção, e, portanto, não recomendados em revisões de literatura.

Com base no corpus analisado, foi possível identificar que o campo de estudos sobre qualidade de vida no teletrabalho expressa urgência na atualização das pesquisas e propostas que tenham implicações práticas para os indivíduos, organizações e sociedade, com especial atenção ao complexo cenário imposto pela Covid-19, já vislumbrando também o contexto pós-pandêmico. Nessa perspectiva, evidencia-se a escassez de pesquisas longitudinais, quantitativas e multimétodo sobre a QVTe, indicando lacunas de publicações para estudos ulteriores.

Considerando as sugestões de pesquisas futuras apresentadas pelos artigos analisados, cabe destacar temas como: (i) bem-estar, desempenho, personalidade, apoio familiar, efeitos positivos e negativos da comunicação e relações interpessoais de teletrabalhadores, a gestão do teletrabalho no contexto pandêmico (Morilla-Luchena et al., 2021);(ii) saúde ocupacional, comunicação organizacional, relação entre QVT e produtividade no teletrabalho (Huls et al., 2022; Pereira et al., 2021); (iii) relação entre teletrabalho e sedentarismo, impacto do teletrabalho nas taxas de divórcio, condições crônicas de saúde causadas pela postura corporal inadequada durante o teletrabalho − dor lombar, síndrome do túnel do carpo (Ulate-Araya, 2020), riscos aumentados de distúrbios musculoesqueléticos (Horton & Jacobs, 2022; Vayre et al., 2022) entre outras doenças; (iv) satisfação, impacto do teletrabalho na saúde mental e física dos teletrabalhadores (Huls et al., 2022); (v) efeitos das TICs no contexto de práticas de trabalho remoto e informal (Perissé et al., 2021).

Por fim, encerra-se esta discussão, propondo-se temáticas e questionamentos que se traduzem em desafios para inspirar novas oportunidades de pesquisa, a saber: (i) percepção dos trabalhadores em relação à QVTe (pesquisa comparativa entre os setores público, privado e terceiro setor); (ii) a relação entre QVTe e liderança mediada pelas práticas de GP; (iii) de que forma a percepção familiar sobre teletrabalho impacta a QVT de teletrabalhadores? (iv) quais são as implicações ergonômicas que afetam a QVTe? (v) quais são os riscos psicossociais que mais afetaram os trabalhadores que vivenciaram o teletrabalho compulsório em virtude da Covid-19? (vi) quais foram os maiores desafios que impactaram a QVTe durante o isolamento social no contexto pandêmico? (vii) quais foram as melhores descobertas e vantagens na adoção do teletrabalho compulsório? (viii) como promover a QVTe pós=pandemia? (ix) teremos o direito à desconexão? (x) quais são os impactos e estratégias para a promoção da QVTe com foco em teletrabalhadores que cuidam de crianças, idosos ou outros dependentes? (xi) de que forma a diversidade e desigualdades (gênero, raça, idade, etnia, nacionalidade, pessoa com deficiência etc.) são moldadas e impactadas pelo teletrabalho? E quais são as implicações para a QVTe dessas pessoas e políticas organizacionais?

6. CONCLUSÕES

Ao analisar a produção internacional sobre qualidade de vida no contexto do teletrabalho, retratando os itinerários de pesquisa, bem como elaborando uma agenda para estudos futuros, a partir dos novos desafios e oportunidades elencados, o objetivo desta revisão sistemática foi alcançado. Considerando a lacuna de pesquisas que revisaram a literatura sobre QVTe, o presente artigo traduz um esforço seminal em reunir essas produções científicas, desnudando novas possibilidades de investigar e compreender o fenômeno.

Se a QVT já era considerada importante objeto de estudos nos tempos das antigas civilizações, nos contextos pandêmico e pós-pandêmico, a QVTe torna-se temática fundamental na criação de programas, políticas e práticas de GP, (des)organizando as rígidas e controladoras estruturas que insistem em permanecer no passado. Este estudo evidencia que a QVTe é tema crucial para diferentes áreas de pesquisas, tais como administração, economia, filosofia, psicologia, sociologia, saúde ocupacional, saúde pública e pesquisa clínica.

Por fim, a QVTe é tema essencialmente multidisciplinar, ensejando a participação de trabalhadores, gestores, estudantes, pesquisadores, acadêmicos e outras pessoas da sociedade interessadas na promoção de qualidade de vida no (tele)trabalho a partir da tríade indivíduo-trabalho-organização, privilegiando a saúde e o bem-estar rumo a uma gestão de pessoas cada vez mais estratégica, humanizada e sustentável.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    26 Dez 2022
  • Revisado
    04 Maio 2023
  • Aceito
    13 Set 2023
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