Resumo
O fenômeno da evasão apresenta-se como um grande desafio aos gestores de instituições de ensino superior, uma vez que, por ser influenciado por aspectos diversos, torna-se complexo e de difícil entendimento. Com isso, traçou-se o objetivo de analisar as ações e intervenções de combate à evasão nas universidades federais públicas brasileiras. Quanto aos procedimentos metodológicos, a pesquisa classifica-se como descritiva, aplicada, qualitativa e quantitativa, bibliográfica e estudo multicaso. Os dados utilizados foram, principalmente, a partir de pesquisa realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU, 2023). Pode-se perceber que 60% possuem uma política institucional relacionada ao combate à evasão estudantil. Apesar de grande parte ter acesso aos dados de perfil dos estudantes, poucas instituições utilizam essas informações de forma mais proativa e preditiva. Quanto às ações, foi feito o levantamento com base na teoria e na pesquisa com todas as universidades federais, por meio do TCU. Com esses dados, foi possível constatar que há uma grande diversidade de ações realizadas, sendo compiladas 43.
Palavras-chave:
evasão estudantil; ações; universidades públicas
Abstract
The phenomenon of dropout presents a significant challenge to higher education institution managers, as it is influenced by various aspects, making it complex and difficult to understand. Therefore, the objective was to analyze actions and interventions to combat dropout rates in Brazilian public federal universities. Regarding methodological procedures, the research is classified as descriptive, applied, qualitative and quantitative, bibliographic, and a multiple case study. The data used were primarily from a study conducted by the Brazilian Federal Court of Accounts (TCU, 2023). It was found that 60% of the institutions have an institutional policy related to combating student dropout. Although most have access to student profile data, few use this information in a more proactive and predictive manner. Concerning actions, a survey was conducted based on theory and research with all federal universities through the TCU. With this data, it was possible to verify that a wide variety of actions are carried out, with 43 being compiled.
Keywords:
student dropout; actions; public universities
Resumen
El fenómeno de la deserción se presenta como un gran desafío para los gestores de Instituciones de Educación Superior, ya que, al ser influenciado por diversos aspectos, se vuelve complejo y difícil de entender. Con esto, se trazó el objetivo de analizar las acciones e intervenciones para combatir la deserción en las universidades federales públicas brasileñas. En cuanto a los procedimientos metodológicos, la investigación se clasifica como descriptiva, aplicada, cualitativa y cuantitativa, bibliográfica y estudio multicaso. Los datos utilizados fueron principalmente a partir de una investigación realizada por el Tribunal de Cuentas de la Unión (TCU, 2023). Se puede percibir que el 60% posee una política institucional relacionada con el combate a la deserción estudiantil. A pesar de que gran parte tiene acceso a los datos del perfil de los estudiantes, pocas utilizan esta información de forma más proactiva y predictiva. En cuanto a las acciones, se hizo el levantamiento basado en la teoría y en la investigación con todas las universidades federales, a través del TCU. Con estos datos, fue posible constatar que hay una gran diversidad de acciones realizadas, siendo que se compilaron 43.
Palavras clave:
deserción estudiantil; acciones; universidades públicas
1 Introdução
A gestão acadêmica faz parte de todos os cursos de graduação e pós-graduação. Uma gestão acadêmica eficiente pode refletir em índices de avaliação positivos para os cursos. Ações de controle de evasão, permanência dos estudantes e gestão de egressos auxiliam na eficiência da gestão acadêmica.
O fenômeno da evasão apresenta-se como um grande desafio aos gestores de Instituições de Ensino Superior, uma vez que, por ser influenciado por aspectos diversos, torna-se complexo e de difícil entendimento. No contexto brasileiro, a evasão já está no patamar de quase 60%.
Complementa-se com Silva Filho et al. (2007, p. 642):
[...] a evasão estudantil no ensino superior é um problema internacional que afeta o resultado dos sistemas educacionais. As perdas de estudantes que iniciam, mas não terminam seus cursos são desperdícios sociais, acadêmicos e econômicos. No setor público, são recursos públicos investidos sem o devido retorno. No setor privado, é uma importante perda de receitas. Em ambos os casos, a evasão é uma fonte de ociosidade de professores, funcionários, equipamentos e espaço físico.
A diferença entre o número de ingressantes e o número de titulados, no ensino superior, é um indicador que pode ser chamado de evasão. Pode-se ter a evasão de turma, curso, instituição ou sistema educacional. Cada uma desses tipos de evasão demanda ações de diferentes atores da gestão universitária.
Complementando esse ponto, para Gilioli (2016, p. 10):
Cada instituição precisa realizar acompanhamento efetivo de seus discentes, para detectar dificuldades de diversas ordens, desde as acadêmicas até as operacionais e as relacionadas às condições socioeconômicas dos estudantes. Nesse sentido, pode-se observar que parte das medidas antievasão dependem de ações e programas de assistência e de orientação a serem implementados, desenvolvidos ou aperfeiçoados pelas próprias instituições de ensino superior.
O contexto das universidades é complexo, e as soluções para este problema também. Cada Instituição de Ensino Superior (IES) adotará suas políticas e estratégias para mitigar esse problema. Com isso, tem-se o seguinte questionamento: quais são as ações e intervenções realizadas pelas universidades públicas federais brasileiras?
Traçou-se o objetivo de analisar as ações e intervenções de combate a evasão nas universidades federais públicas brasileiras, buscando-se: a) caracterizar a evasão nas universidades brasileiras; b) verificar formas de ações adotadas nacionalmente e internacionalmente; c) identificar estruturas já existentes de gestão de evasão nas universidades brasileiras; d) compilar ações e intervenções possíveis para a gestão da evasão.
2 Fundamentação teórica
A evasão é um problema complexo e multifatorial. Tinto (1975) define a evasão como o ato de abandonar de forma voluntária, apesar de esse não ser o caminho desejado normalmente pelo estudante.
Essa decisão é pautada em diversos fatores, com consequências para os estudantes e as IES. Santos et al. (2017) complementam essa afirmação, destacando que as consequências são individuais, sociais, acadêmicas e econômicas.
Apesar de estar crescendo o número de estudos, a preocupação com a evasão estudantil faz parte do sistema educacional há muito tempo, como demonstrado pelo estudo do Ministério da Educação (Brasil, 1996). Exatamente por isto, sua complexidade e abrangência vêm sendo, nos últimos anos, objeto de estudos e análises, especialmente nos países do Primeiro Mundo. Tais estudos têm demonstrado não só a universalidade do fenômeno como a relativa homogeneidade de seu comportamento em determinadas áreas do saber, apesar das diferenças entre as instituições de ensino e das peculiaridades socioeconômico-culturais de cada país (Brasil, 1996, p. 13). Esses estudos e análises são importantes para auxiliarem na formação de políticas públicas e institucionais no combate à evasão estudantil. Corroborando com essa afirmação, observa-se que essas políticas requerem previsão de recursos significativos para proporcionar os múltiplos suportes necessários (Vargas; Heringer, 2017).
Nesse sentido, Silva et al. (2018, p. 102) destacam a necessidade de mais estudos e análises para a formulação dessas políticas.
Os altos índices de evasão, que vêm sendo observados mesmo quando transpostas as dificuldades para a entrada na graduação, revelam a necessidade de pensar também em políticas públicas que visem minimizar as diversas perdas envolvidas, tais como perdas no nível pessoal, social e financeiro. Ao se explorar as características de evadidos da educação superior, percebe-se que algumas classes populacionais são recorrentes nesse universo e crescem as suspeitas de que alguns grupos têm a motivação mais facilmente afetada pelas dinâmicas universitárias, logo, uma maior tendência à evasão.
E esse cenário é inerente às IES públicas e privadas. Mesmo com o ensino gratuito, os estudantes das IES públicas também são afetados por diversos fatores que levam a evasão (Paula, 2017).
Muitas pesquisas já foram realizadas com o intuito de identificar os principais fatores que interferem na evasão estudantil. Destaca-se a recente pesquisa de Silva (2021), na qual foram identificadas 90 categorias relacionadas às motivações que levam um estudante de graduação a evadir do seu curso. A essas categorias, chegaram-se a 112 variáveis. Esses fatores foram categorizados nas seguintes perspectivas: individual; sociocultural; econômica; acadêmica; e institucional.
O modelo proposto por Silva (2021) traz ainda novas etapas além dos modelos publicados anteriormente: contexto do aluno, pregresso, ingresso e decurso, caracterizando assim o Fluxo da Evasão Estudantil, o que permitiu identificar em qual momento cada motivador da evasão se dá e quais as variáveis mais importantes de serem acompanhadas. A autora complementa que as variáveis mais relevantes (por estarem associadas a todas as perspectivas e etapas do fluxo) foram: carga horária vigente, desempenho acadêmico, frequência, reprovações, reprovações por frequência e reprovações por nota.
Mas se já conhecemos as causas e algumas políticas, por que o problema ainda persiste? O problema é antigo, mas as soluções não podem ser também apenas antigas. É necessário pensar permanentemente em ações para a gestão da evasão nas IES.
Nesse sentido, Simon (2022) aponta que ainda são poucos os trabalhos que buscam verificar a efetividade das práticas de acompanhamento e controle do fenômeno na administração universitária.
Além disso, aumentar o número de vagas não é necessariamente a solução para aumentar o número de formandos. Freitas (2009, p. 261) alerta que “de nada adianta encher as instituições de alunos se não forem tomadas as devidas providências para que a persistência com sucesso seja mantida e incentivada”.
Muitas instituições trabalham as ações de combate à evasão estudantil por meio da política de permanência, principalmente com o Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES). Mas será que somente isso é suficiente? Simon (2022) levanta essa discussão.
A operacionalização do PNAES exige das instituições uma série de investimentos na manutenção de estruturas e profissionais capacitados. Portanto, a transferência de recursos do MEC para as IFES custearem suas ações em benefícios dos estudantes, é uma etapa muito importante da política de assistência estudantil, que não se restringe apenas ao desenvolvimento de ações de suporte financeiro aos estudantes. Nesse sentido, criar estruturas de atendimento, apoio e acompanhamento durante a realização do curso, tanto no âmbito acadêmico, como administrativo, bem como rever continuamente os seus processos, é fundamental para que a gestão universitária possa intervir e controlar os índices de abandono dos cursos (p. 87).
Para Bardagi e Huntz (2009), a universidade precisa ser protagonista e responsável, buscando ações voltadas à permanência e à satisfação dos estudantes, identificando problemas acadêmicos com maior precocidade e oferecendo intervenção preventiva ou, se isso não for possível, medidas remediativas para lidar com questões de carreira e bem-estar psicológico dos alunos.
2.1 Ações de combate à evasão estudantil
São várias as estratégias que podem ser utilizadas pelas Instituições de Ensino Superior para o combate à evasão. Neste capítulo, são abordadas algumas dessas ações em instituições nacionais e internacionais.
Nesse contexto, Bar-Am (2017) ressalta que as estratégias organizacionais são importantes na prevenção da evasão de estudantes universitários. Além disso, os fatores psicológicos, sociais, econômicos e de interação também têm uma relação direta com este problema educacional. Algumas das estratégias mais eficazes para prevenir a evasão estudantil foram: monitoramento e mentoria, contato com a família, resolução de problemas, programas baseados na comunidade, formas alternativas de prestação de serviços, melhoria da preparação para o emprego pós-escolar, aprimoramento das relações interpessoais, suporte individualizado, modelos de intervenção em camadas, apoio financeiro, criação de vínculos significativos entre alunos e professores, assistência acadêmica, turmas menores, desenvolvimento de atitudes, preparação para a carreira, gestão de casos/mentoria, incentivos positivos e acesso a serviços de saúde mental (Naseer; Shahida; Fouzia, 2023).
Os autores destacam ainda a conscientização, o apoio da comunidade, a abordagem de fatores socioeconômicos, o aprimoramento das relações professor-aluno, a implementação de atividades extracurriculares e o desenvolvimento de planos abrangentes de prevenção (Naseer; Shahida; Fouzia, 2023).
Rincón et al. (2023) realizaram sua pesquisa na Colômbia, onde o fator financeiro teve maior relação com a evasão. Por isso, as ações sugeridas foram a expansão de créditos educacionais, apoio financeiro e aumentar de subsídios de renda familiar para prevenir desistências.
Ramsdal e Wynn (2022) apresentam a experiência do Guttas Campus, que são acampamentos de imersão, voltados à aprendizagem e ao desenvolvimento de competências. Para os autores, a participação nesse tipo de atividade auxilia na prevenção do abandono escolar. Outro ponto abordado nas pesquisas diz respeito ao apoio à saúde mental e às emoções. Estratégias voltadas e esse aspecto foram eficazes na redução da evasão estudantil (Enguídanos et al., 2023).
Analisou-se ainda um estudo que aborda a teoria do seis sigma para a redução da evasão. Como resultado, as estratégias mais eficazes para prevenir o abandono no ensino superior incluem definir o problema, conduzir análises de viabilidade e realocar recursos com base em fatores que afetam as decisões de abandono escolar (Gupta, 2020).
Na pesquisa de Smimk e Reimer (2005), as estratégias mais eficazes foram orientação, tutoria, aprendizado por meio de serviços, educação alternativa e oportunidades pós-formação.
Muitos autores trazem à tona a necessidade de um sistema para auxiliar na identificação dos estudantes com maior mais propensão à evasão. Fossatti e Jung (2019) relatam a modelagem Uplift, que foca na retenção estudantil e oferece tutoriais para que os alunos-alvo melhorem o desempenho acadêmico e aumentem sua retenção.
Katsuragi e Tanaka (2022) discutem a predição utilizando a teoria de learning machine. Em sua pesquisa, as estratégias eficazes para prevenir o abandono do ensino superior incluem comunicação, coordenação, cooperação e parceria entre escolas e comunidades, alinhando metas, otimizando recursos e implementando mudanças benéficas para o sucesso dos alunos.
O resultado de pesquisas com modelos preditivos de evasão destaca coletivamente a eficiência e a eficácia desses modelos, auxiliando na intervenção precoce e apoiando estratégias para mitigar as taxas de abandono escolar. Em pesquisa realizada na Nigéria, foram utilizados seis classificadores, alcançando médias de desempenho que variaram de 90,4% a 98,9%, com a regressão logística selecionada como o melhor modelo para implantação (Osemwegie; Amadin; Uduehi, 2023). Da mesma forma, um estudo realizado no Líbano desenvolveu um sistema de previsão utilizando algoritmos de classificação, com redes neurais artificiais alcançando uma precisão de 98,1% na previsão da evasão de estudantes (Mouchantaf; Chamoun, 2023). Além disso, um modelo híbrido aplicado na Coreia do Sul apresentou um valor de precisão de 0,963, superando outros modelos existentes na precisão da previsão de abandono, enquanto analisava os motivos desse abandono (Kim et al., 2023).
Essa comparação com outros modelos existentes também é relatada em outras pesquisas, que apontam que modelos preditivos usando modelos de linguagem prétreinados para previsão de abandono de estudantes universitários mostram melhorias significativas de eficiência em comparação com as técnicas existentes (Kim et al., 2023).
Outra pesquisa com altos índices de precisão foi elaborada por Melo e Souza (2023), na qual o modelo preditivo desenvolvido com aprendizado semissupervisionado alcançou 90% de precisão e 86% de Macro-F1, demonstrando alta eficiência na previsão da evasão de estudantes em cursos de graduação. Resultado semelhante foi obtido por Barthès (2023), que ainda trouxe possíveis justificativas para o abandono. Estudos de Tan e Shao (2015); Kemper, Vorhoff e Wigger (2020), Prenkaj et al. (2020), Chung e Lee (2019), utilizam modelos de aprendizado de máquina, incluindo Árvores de Decisão, regressão logística, aprendizado profundo e aumento de gradiente.
Nunes (2013) relata as políticas necessárias e as ações de combate à evasão nas instituições federais de ensino brasileiras: programas junto às escolas de ensino médio; realização de feiras de profissões; atenção ao calouro; nivelamento e recuperação de conteúdos; programas de apoio a cursos de graduação; formação continuada de professores; ajustes pedagógicos; novos processos de avaliação interna; ampliação de programas de apoio aos estudantes; ampliação de programas de assistência aos estudantes; políticas de inclusão; indicadores acadêmicos voltados às coordenações de curso e incentivo à permanência nas dependências da IFES.
A pesquisa de Lobo (2012) apresenta sete pontos para a redução da evasão:
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a) estabelecer um grupo de trabalho encarregado de reduzir a evasão: levantar níveis de satisfação dos alunos e estabelecer programas acadêmicos de integração e recuperação dos alunos novos;
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b) avaliar as estatísticas da evasão: identificar épocas críticas para a Evasão e criar ações a partir dos achados;
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c) determinar as causas da evasão: comparar prioridades dos alunos com a avaliação dos serviços educacionais, administrativos e comunitários;
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d) estimular a visão da IES centrada no aluno: envolver coordenadores, profes-sores e funcionários de maneira comprometida com o sucesso e bem estar do aluno;
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e) criar condições que atendam aos objetivos que atraíram os alunos: não de-cepcionar os calouros é essencial. Todas as que têm êxito fazem isso;
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f) tornar o ambiente e o trânsito na IES agradáveis aos alunos: campus limpo e arrumado, com boas condições de trabalho e climáticas, também fazem parte da cultura;
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g) criar programa de aconselhamento e orientação dos alunos: deve ser proativo e permanente.
Por fim, o modelo de Simon (2022) apresenta as dimensões da gestão da evasão no ensino superior.
A autora destaca em seu modelo que cada etapa-chave do plano de ação está conectada de diversas formas com as outras etapas, sendo que as primeiras cinco etapas têm uma sequência lógica, mas há intersecções importantes entre todas, de acordo com as doze dimensões observadas ao longo do percurso de execução do plano de ação. Essas dimensões surgiram no decurso de uma ou mais etapas. Entretanto, observou-se que elas fazem parte de, pelo menos, duas etapas cada uma, pois permeiam o desenvolvimento do plano e não se extinguem com a conclusão da etapa que as inseriu no modelo (Simon, 2022).
3 Procedimentos metodológicos
Tem-se ainda a caracterização metodológica, que é apresentada no quadro a seguir:
A partir dessa caracterização, traçou-se o caminho metodológico para o alcance de cada objetivo da pesquisa.
Para a coleta de dados, foram utilizados dados primários e secundários. Os principais dados secundários referem-se ao censo da Educação Superior, aos dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep, 2024), relatórios do Tribunal de Contas da União, e aos sites e relatórios das IES públicas e privadas.
Esses dados foram complementados com a análise bibliográfica do tema, gerando assim os dados finais para a triangulação de dados, que foi utilizada para a análise de dados final.
Como dados secundários, foi utilizada uma pesquisa do Tribunal de Contas da União (2023), com as universidades federais brasileiras, com o intuito de verificar questões de evasão e egressos no ano de 2023 (Auditoria Operacional do TCU sobre ensino, pesquisa, egressos e custos). Responderam à pesquisa todas as 63 universidades federais brasileiras, configurando assim um censo. A obtenção de dados ocorreu por meio do processo TC 033.956/2023-5. Os dados utilizados serão apenas para fins de pesquisa, não havendo a identificação dos respondentes.
4 Resultados
Os dados da evasão na educação superior brasileira têm apresentado cada vez mais indicadores preocupantes. Após a pandemia da COVID19, os índices de evasão têm se tornado impactantes nas IES brasileiras, tanto públicas como privadas.
Dados divulgados no último Censo da Educação Superior mostram esses resultados, conforme as informações a seguir.
Analisando os dados comparativos entre IES Públicas e Privadas, observa-se que, apesar de as instituições privadas apresentarem um índice de taxa de desistência acumulada maior, as públicas não ficam tão distantes. “Ao final dos dez anos de acompanhamento dos ingressantes em 2013, a TCA é igual a 45% na categoria pública e 40% na privada; a TDA é de 59% na categoria privada e 52% na categoria pública, e a TAP é de 3% na categoria pública e de 1% na categoria privada” (Inep, 2024). Conforme observado no gráfico 2.
Apesar de esses dados mostrarem os ingressantes de 2013, a análise dos últimos anos não é muito diferente, sendo que a evasão na educação superior brasileira já está próxima de 60%. Com isso, as IES tiveram que se tornar mais ativas em suas ações de combate à evasão. Assim, inicia-se a análise dos resultados da pesquisa do TCU com todas as universidades federais brasileiras, entre os anos de 2022 e 2023.
Um dos questionamentos para as universidades foi se possuíam uma política institucionalizada de prevenção e combate à evasão estudantil, sendo que 59,97% possuem e 46,03% não possuem. Esse dado mostra que quase metade das universidades ainda não possuem políticas nesse sentido, mesmo sendo um problema que atinge a todas. Algumas dessas políticas estão vinculadas ao PDI das universidades, enquanto outras são documentos específicos.
Cabe destacar também que 74% das universidades têm uma instância formal e permanente para executar ações de prevenção e combate à evasão, sendo a maioria relacionada apenas à graduação, normalmente vinculada às pró-reitorias de graduação. Em relação às estruturas, alguns tipos observados foram: departamento, comissão, comitê, observatório e grupo de estudo, corroborando a sugestão levantada por Lobo (2012).
Sobre as metas de combate à evasão, 42,86% têm metas e relatam que estão cumprindo, 28,57% têm metas, mas não estão cumprindo, e 26,98% não têm metas definidas nesse quesito.
Em relação a tecnologias, 85,71% possuem base de dados de informações sobre o perfil de estudantes, sendo que algumas possuem dashboards com essas informações. Outras utilizam também o sistema Ecograd da Andifes. Apesar dessa informação de perfil, a questão de evasão com modelos de predição foi encontrada em duas universidades (UFG e UFSM).
O diagnóstico do perfil de alunos evadidos é feito por 49,21%, ou seja, metade das universidades não fazem análise desse perfil e das causas, o que pode ser importante para gerar as ações de permanência da universidade.
Vale destacar que 96,83% das universidades federais relatam que têm dificuldades em atuar para reduzir a evasão, mostrando assim a relevância de pesquisas e projetos nessa área. Dentre os fatores que dificultam essas ações, destacam-se: a inexistência de política institucionalizada em nível nacional e a insuficiência de recursos orçamentários e financeiros.
Quanto às ações de combate à evasão e incentivo à permanência estudantil, têm-se as seguintes ações:
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a) Monitoria e atendimento extraclasse (mais utilizada por 85,71%);
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b) Moradia Estudantil por meio do Programa Nacional de Assistência Estudantil (mais utilizada por 77,78%);
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c) Alimentação por meio do Programa Nacional de Assistência Estudantil (mais utilizada por 92,06%);
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d) Transporte por meio do Programa Nacional de Assistência Estudantil (mais utilizada por 67,98%);
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e) Atenção à saúde por meio do Programa Nacional de Assistência Estudantil (mais utilizada por 58,73%);
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f) Inclusão digital por meio do Programa Nacional de Assistência Estudantil (mais utilizada por 55,56%);
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g) Apoio pedagógico por meio do Programa Nacional de Assistência Estudantil (mais utilizada por 66,67%);
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h) Acesso, participação e aprendizagem de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades e superdotação (mais utilizada por 61,90%);
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i) Revisão dos projetos político-pedagógicos (PPPs) (mais utilizada por 73,03%);
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j) Acompanhamento psicopedagógico (mais utilizada por 61,90%);
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k) Programa de Bolsa Permanência (PBP/MEC) (mais utilizada por 69,84%).
Outras ações são relacionadas à cultura, esporte, creche, promoção de espaços de discussão sobre carreira, mercado de trabalho e opções de profissionalização, formação continuada dos servidores docentes e servidores técnicos, com base nas principais causas da evasão dos estudantes da universidade, ações específicas para público indígena e quilombola, cursos de férias, eventos de integração, programa de recuperação de desempenho acadêmico, diálogo/orientação aos estudantes no momento do pedido de trancamento ou desistência de matrícula, o uso da internacionalização como forma de quebrar fronteiras e ocupar espaços na realidade global, mitigando a evasão e retenção nos cursos, além de políticas e ações de prevenção e combate à violência.
Os principais resultados da pesquisa do TCU em relação à evasão, podem ser compilados neste infográfico:
Pode-se perceber, nessa pesquisa do TCU, que as universidades federais brasileiras realizam várias ações de combate à evasão, e que as principais delas estão vinculadas ao PNAES, que recentemente foi aprovado como política nacional de assistência estudantil da educação superior.
Outro ponto a ser destacado é que, apesar das universidades terem os dados dos alunos, não foi percebido o uso mais intenso dessas informações nas ações, por exemplo, nos comentários das ações. Esses dados podem subsidiar a formulação de metas e indicadores, bem como auxiliar na prevenção da evasão por meio de modelos preditivos, como o Sistema Integrado de Suporte ao Sucesso Acadêmico (SISSA) da UFG, que atua com algoritmos de modelos preditivos, análise de dados estratégica e atuação de tutores (SISSA, 2024), corroborando vários autores que mostraram a eficácia desse tipo de iniciativa.
Com base na teoria estudada e nas experiências pesquisadas, apresenta-se uma compilação de ações de combate à evasão estudantil na educação superior.
Com este quadro, pode-se observar a diversidade de ações (43) que podem ser adotadas pelas IES. É importante ressaltar que a escolha das ações deve estar pautada em uma política institucional estruturada, com diagnóstico e acompanhamento contínuo da situação, para que as ações escolhidas possam ter mais efetividade, considerando que os recursos para ações de permanência são limitados.
Destaca-se, por fim, que muitas das ações encontradas vão ao encontro das recomendações de Lobo (2012): estabelecer um grupo de trabalho encarregado de reduzir à evasão; avaliar as estatísticas da evasão; determinar as causas da evasão; estimular a visão da IES centrada no aluno; criar condições que atendam aos objetivos que atraíram os alunos; tornar o ambiente e o trânsito na IES agradáveis aos alunos e criar programa de aconselhamento e orientação dos alunos: que deve ser proativo e permanente.
5 Considerações finais
Como considerações finais, pode-se observar que o cenário da evasão na educação superior brasileira apresenta índices preocupantes.
No contexto das universidades federais brasileiras, pode-se perceber que 60% possuem uma política institucional relacionada ao combate à evasão estudantil. Sobre as estruturas existentes, a maioria está vinculada à graduação, sendo em formatos de departamento, comissão e setor.
Apesar de grande parte ter acesso aos dados de perfil dos estudantes, poucas utilizam essas informações de forma mais proativa e preditiva, a fim de auxiliar na tomada de decisão das estratégias e ações de evasão.
Quanto às ações, foi realizado um levantamento com base na teoria e na pesquisa com todas as universidades federais, por meio do TCU. Com esses dados, foi possível constatar que muitas das ações estão vinculadas às atividades previstas e financiadas pelo PNAES, corroborando a pesquisa de Simon (2022). Além disso, fez-se a triangulação com as ações apresentadas na teoria, chegando-se a um compilado de 43 ações de combate à evasão estudantil.
Por fim, como sugestão de pesquisas futuras, além da questão da evasão, é essencial discutir a ocupação de vagas no ensino superior. Dados do INEP (Brasil, 2024) mostram que a ocupação está em torno de 20% do total de vagas oferecidas. Além de preocupante, esses dados têm relação direta com questões de evasão e permanência estudantil.
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