Resumo
A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico é uma incentivadora da educação financeira e das estratégias nacionais de educação financeira. A visão estrita da dimensão da educação financeira, como instrumento formador de agentes de mercado limita a capacidade de transformação da educação. A educação econômica e financeira apresenta uma abordagem educacional que envolve tanto a alfabetização financeira quanto a socialização e a psicologia econômica. A visão tradicional preconiza que estudantes educados econômica e financeiramente devem apresentar, dentre outros fatores, um alto nível de alfabetização financeira e capacidade de desenvolver atitudes de intenção a poupar e de evitar o endividamento. Portanto, o objetivo central deste estudo é compreender se o nível de alfabetização financeira gera impacto nas atitudes em relação a poupança e ao endividamento, dos alunos do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. A busca por uma maneira mais adequada para a abordagem educacional em economia e finanças justifica a apresentação dos resultados da pesquisa. Trata-se de uma pesquisa de abordagem quantitativa, com objetivos correlacionais e transversais. Os resultados demonstram que existe uma associação significativa entre o nível de alfabetização financeira e as atitudes em relação à poupança e ao endividamento. Portanto, optar por uma formação educacional que incentive a alfabetização financeira é uma forma de contribuir para a obtenção de resultados na socialização econômica.
Palavras-chave:
educação econômica e financeira; alfabetização financeira; socialização econômica.
Resumen
La Organización para la Cooperación y el Desarrollo Económicos es promotora de la educación financiera y de las estrategias nacionales de educación financiera. La visión estricta de la dimensión de la educación financiera, como herramienta para la formación de agentes de mercado, limita la capacidad transformadora de la educación. La educación económica y financiera presenta un enfoque educativo que involucra tanto la alfabetización financiera como la socialización y la psicología económica. La visión tradicional postula que los estudiantes educados en economía y finanzas deben mostrar, entre otros factores, un alto nivel de alfabetización financiera y la capacidad de desarrollar actitudes para ahorrar y evitar el endeudamiento. Por lo tanto, el objetivo central de este estudio es comprender si el nivel de alfabetización financiera tiene un impacto en las actitudes hacia el ahorro y el endeudamiento de los alumnos del Centro Estatal de Educación Tecnológica Paula Souza. La búsqueda de un enfoque más adecuado para la educación en economía y finanzas justifica la presentación de los resultados de la investigación. Se trata de una investigación con un enfoque cuantitativo, con objetivos correlacionales y transversales. Los resultados demuestran que existe una asociación significativa entre el nivel de alfabetización financiera y las actitudes hacia el ahorro y el endeudamiento. Por lo tanto, optar por una formación educativa que fomente la alfabetización financiera es una forma de contribuir a la obtención de resultados en la socialización económica.
Palabras clave:
educación económica y financiera; alfabetización financiera; socialización económica
Abstract
The Organization for Economic Cooperation and Development promotes financial education and national strategies to enhance financial literacy. The strict view of financial education as a tool for shaping market agents limits the transformative capacity of education. Economic and financial education presents an educational approach that involves both financial literacy and socialization and economic psychology. The traditional view advocates that students educated in economic and financial matters should, among other factors, demonstrate a high level of financial literacy and the ability to develop attitudes toward saving and avoiding debt. Therefore, the central objective of this study is to understand whether the level of financial literacy impacts attitudes towards saving and debt among students at the Paula Souza State Center for Technological Education. The search for a more appropriate approach to economic and financial education justifies the presentation of the research results. This is quantitative research with correlational and cross-sectional objectives. The results show that there is a significant association between the level of financial literacy and attitudes towards saving and debt. Therefore, opting for an educational approach that encourages financial literacy is a way to contribute to achieving results in economic socialization.
Keywords:
economic and financial education; financial literacy; economic socialization.
1 INTRODUÇÃO
A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), em 2005, definiu a educação financeira como um processo pelo qual os consumidores e investidores melhoram sua compreensão sobre o mercado financeiro. A tomada de decisões conscientes sobre produtos, conceitos e riscos, assim como o entendimento de como e onde buscar ajuda sobre dúvidas e direitos, fazem parte do processo educacional (OECD, 2005).
A crise financeira iniciada em 2008, caracterizada por perdas crescentes, dívida das famílias e crise de liquidez, estimulou a recomendação de que países adotassem políticas de ensino direcionadas a educação financeira e proteção do consumidor (OECD, 2009). Pela primeira vez, em 2009, as Estratégias Nacionais de Educação Financeira (ENEF) foram lançadas como ferramenta política para combater os efeitos enraizados pela crise financeira. Em 2012, os líderes do G20 recomendaram a adoção das ENEFs (Goyal; Kumar, 2020). As ENEFs são uma abordagem coordenada que consiste em: reconhecer a importância da educação financeira; envolver a cooperação de diferentes partes interessadas; estabelecer um roteiro para atingir objetivos específicos e fornecer orientação para programas que contribuam para a estratégia nacional (OECD, 2015).
No Brasil, a educação financeira tem sido incentivada como política pública educacional desde a instituição do Comitê Nacional de Educação Financeira (CONEF) (Brasil, 2011). O intuito do CONEF foi promover a ENEF, através de planos, programas, ações e coordenação da execução da ENEF. Em 2018, o CONEF estabeleceu diretrizes cuja finalidade foram promover o Programa de Educação Financeira nas Escolas (Brasil, 2018a). As diretrizes do programa consistiam em universalizar o tema educação financeira, através de ações focadas no professor, na produção de conteúdo educacional e no incentivo à participação de instituições de ensino público. A inserção da educação financeira na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi incentivada pelo CONEF (Brasil, 2018a).
No entanto, por não existir obrigatoriedade desta temática na BNCC (Brasil, 2018b), a abordagem da educação financeira na educação infantil, fundamental e média ocorre através de uma abordagem transversal, ou seja, a temática é inserida dentro de disciplinas. Então, numa disciplina de matemática, cálculos de juros simples e compostos podem ser abordados com a função de mostrar que a matemática se aplica a questões cotidianas. No entanto, pode não existir a contextualização da prática de juros no mercado financeiro, seus impactos na gestão de recursos e na economia como um todo. Assim, a dimensão estrita da matemática é insuficiente e a transversalidade encontra as suas limitações.
Em 2021, o governo federal, através do constituído Fórum Brasileiro de Educação Financeira (FBEF), publicou um comunicado (FBEF Nº 1/2021) divulgando os princípios e as diretrizes para a implementação da Nova Estratégia Nacional de Educação Financeira (NOVA ENEF). A NOVA ENEF busca implementar: governança e coordenação; planejamento e articulação; ciclos de mensuração e mapeamento; liderança e orientação em educação financeira; reconhecimento de ações de terceiros e prestação de contas (Brasil, 2021a).
A visão da OECD sobre educação financeira e sua influência sobre a construção das ENEFs (OECD, 2005; OECD, 2009) limitam o assunto. Para a OECD, o indivíduo é visto como um agente do mercado, ou seja, como consumidor e investidor. A educação financeira deve capacitá-los para uma atuação consciente em suas funções sociais. Reduzir pessoas à atores de mercado restringe a capacidade de transformação social da educação. A educação financeira precisa ir além do conhecimento de ativos financeiros e da alfabetização financeira, com sua prática de cálculos e conhecimento sobre o funcionamento do mercado financeiro e seus riscos. A educação precisa ser ampla e abordar mais do que os aspectos financeiros. Assim, definir a educação nesta área como educação econômica e financeira (EEF) parece ser a melhor abordagem.
A EEF deve ser heterogênea e envolver aspectos da alfabetização financeira, da psicologia econômica e da socialização econômica (Gnan; Silgoner; Weber, 2007; Bessa; Fermiano; Denegri Corria, 2014). A psicologia econômica consiste em analisar o comportamento em variáveis como trabalho, hábitos e práticas de consumo, poupança, investimentos e financiamentos (Correia et al., 2017). A socialização econômica consiste no processo de aprendizagem através das formas de relacionamento com o mundo econômico, mediado pela família, escola e pelos meios de comunicação. A construção de uma visão sistêmica de modelo socioeconômico, no qual o indivíduo está inserido, permite o desenvolvimento de competências e atitudes que possibilitem o uso adequado de seus recursos econômicos (Denegri Coria et al., 2006; Denegri Coria; Tapia; Fuentealba, 2005).
A inserção EEF no ensino superior seria uma contribuição às demandas sociais, à política pública educacional e às diretrizes da Nova ENEF. Normalmente, o ensino superior se concentra na formação profissional, não na formação do indivíduo. Isto acarreta na não abordagem da EEF, ou numa abordagem tímida e limitada (Bufalo; Pinto, 2023; Abreu; Delfino; Araújo, 2024). Implementar a EEF no ensino superior exigiria uma ruptura com modelos tradicionais de ensino, além de uma reestruturação curricular (Garcia, 2021). O uso de metodologias ativas capazes de posicionar o aluno como protagonista de seu aprendizado (Marques et al., 2021) e a utilização de abordagem transversal poderiam ser alternativas para o ensino superior.
Considerando o contexto apresentado, a questão que norteia o desenvolvimento desta pesquisa é: a educação econômica e financeira é a melhor maneira de abordar a formação dos estudantes em finanças?
Pelo senso comum, um estudante educado econômica e financeira deve possuir: alto nível de alfabetização financeira, hábitos de consumo racionais e sustentáveis, racionalidade em relação à intenção de se endividar e atitudes coerentes à intenção de poupar. A alfabetização financeira é um componente da educação econômica e financeira, assim como a socialização econômica. As atitudes de intenção de poupar e de evitar o endividamento consistem em aspectos abordados pela socialização econômica, pois são comportamentos sociais. Ao poupar o indivíduo renúncia ou posterga o ato de consumir. Da mesma forma que o consumo é um articulador das dinâmicas sociais, abdicar dele é uma forma de estabelecer relações diferentes no ambiente econômico. Então, estudar a correlação entre alfabetização financeira e socialização econômica permitirá avaliar se uma abordagem mais ampla e heterogênea sobre o assunto é mais eficaz do que a centralização na alfabetização financeira.
Desta forma, o objetivo principal deste estudo é compreender se o nível de alfabetização financeira dos alunos do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza (CEETEPS) gera impacto nas atitudes de intenção a poupar e de evitar o endividamento. Os objetivos específicos são: avaliar o nível de alfabetização financeira dos alunos; avaliar a validade e a confiabilidade da escala de atitude em relação à poupança e ao endividamento; garantir sua adequação por meio de testes psicométricos; investigar a associação entre o nível de alfabetização financeira e as atitudes em relação à poupança e ao endividamento.
As justificativas para o desenvolvimento desta pesquisa consistem na melhoria do direcionamento da abordagem educacional. Compreender a melhor forma de abordagem permitirá a geração de impactos educacionais e sociais substanciais. Existem organizações nacionais que incentivam a educação financeira (Banco Central do Brasil, 2024), CONEF (Brasil, 2021a), Ministério da Educação e Comissão de Valores Mobiliários (Brasil 2021b), assim como organizações internacionais (Banco Mundial, 2011; OECD, 2005).
Análises de intervenções de educação financeira em vários países do mundo (Miller et al., 2014) indicaram que o impacto de programas educacionais é limitado. Os resultados mostraram impacto positivo em comportamentos específicos, como o aumento da poupança. Já outras áreas, como a redução da inadimplência em empréstimos, não foi observado nenhum impacto
Contudo, o que se pretende é contribuir com uma discussão sobre a melhor forma de abordagem educacional.
A instrução conscientiza de que a boa gestão de recursos repercute em hábitos de consumo conscientes, geração de poupança e redução do nível de endividamento. Dados atuais demonstram os problemas relacionados a administração das finanças. Conforme a ANBIMA (2024), cerca de 30% da população brasileira não conseguiu economizar dinheiro, em 2023. O nível de endividamento brasileiro apresentou um pequeno aumento no primeiro trimestre de 2024. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (CNC, 2024), aproximadamente 78,1% das famílias possuem dívidas financeiras. O ativo mais utilizado entre os endividados é o cartão de crédito (CNC, 2024).
Por mais importante que possa ser o papel da educação, é necessário ressaltar que a melhoria no nível de conhecimento em economia e finanças não é o único fator responsável por uma vida financeira saudável. Fatores como nível e distribuição de renda, assim como o nível de desenvolvimento nacional e regional, influenciam substancialmente na socialização econômica.
2 EDUCAÇÃO ECONÔMICA E FINANCEIRA
O termo educação econômica e financeira (EEF) é pouco utilizado em publicações. Comumente, quando o assunto é educação em economia e finanças, os termos mais utilizados são: alfabetização financeira e educação financeira. Porém, existem outros termos correlatos como: capacidade financeira, educação econômica, psicologia econômica, economia comportamental e socialização econômica.
A EEF deve ser compreendida como um processo pedagógico linear que se conecta insumos, procedimentos de ensino e experiências, mudanças cognitivas e práticas financeiras. Os insumos se subdividem em: recursos; processos e experiências; mudanças cognitivas e práticas financeiras. Os recursos consistem em disponibilidade financeira, didática e tecnológica. Os processos de ensino são aulas e atividades escolares que proporcionem o ensino através de conteúdo e experiências. As mudanças cognitivas são os primeiros resultados visíveis através da melhoria no nível de conhecimento e de mudanças de pensamentos e atitudes. A partir disto, é possível notar práticas financeiras concretas como hábitos de poupar ou austeridade ao endividamento (Norambuena-Paredes et al., 2025). A figura 1 demonstra o processo linear da EEF.
No entanto, estes efeitos não se distribuem de maneira homogênea. Fatores como gênero, nível de renda, condições de trabalho ou a escolaridade dos pais condicionam todo o processo. Enquanto o capital cultural e o habitus (Bourdieu, 1986) ajudam a explicar a transmissão intergeracional de disposições em relação ao dinheiro e ao consumo, a abordagem das capacidades (Sen, 1999) permite reconhecer que a alfabetização financeira só se realiza plenamente quando amplia as liberdades reais para exercer decisões valiosas. Assim, a EEF deve ser concebida como uma pedagogia situada e crítica (Borges, 2024), orientada não apenas a formar cidadãos conscientes de suas finanças, mas também a enfrentar as desigualdades estruturais que limitam a efetividade de suas aprendizagens.
No campo da avaliação educacional, instrumentos de avaliação de aprendizagem constituem um eixo fundamental para avaliar o impacto dos programas formativos (Guo; Yan, 2019; Jakubovska; Stranovska, 2017; Lockwood; Farmer; Krach, 2022). No contexto do ensino superior, essa abordagem ganha maior relevância, pois permite compreender como os estudantes desenvolvem competências e habilidades que transcendam a aquisição de conhecimentos técnicos (Joho et al., 2024; Mallidou et al., 2018; Sundby ; Karseth, 2022). Nesse sentido, a educação econômica e financeira deve ser avaliada não apenas a partir de indicadores de conhecimento, mas também por meio de evidências de transformação na tomada de decisões, na gestão de recursos pessoais e na construção de hábitos sustentáveis (Norambuena-Paredes et al., 2025). O uso sistemático dos resultados dessas avaliações possibilita retroalimentar o desenho curricular, orientar estratégias pedagógicas e legitimar a incorporação da EEF como uma dimensão chave da formação universitária, contribuindo para uma formação integral que articula saberes, atitudes e práticas (Gálvez-Nieto et al., 2025; Polanco-Levicán et al., 2023).
Em virtude da abrangência do tema e dos propósitos estabelecidos para este trabalho, a conceitualização dos temas alfabetização financeira e socialização econômica se fazem necessárias.
2.1 Alfabetização financeira
A primeira pessoa a reconhecer a importância da alfabetização financeira foi John Adams, em 1787 (Goyal; Kumar, 2020). Segundo o United Nations SecretaryGeneral’s Special Advocate for Inclusive Finance for Development (2016) John Adams teria enviado uma carta à Thomas Jefferson ressaltando a importância da resiliência financeira e explicando que as perplexidades, confusões e angústias na América surgiram pela completa ignorância da natureza da moeda, crédito e circulação.
A partir do momento em que as relações comerciais se tornaram mais intensas, em virtude da Revolução Industrial iniciada no século XVIII, a necessidade de compreender os fundamentos básicos de finanças impulsionaram estudos nesta área. Eventos econômicos recentes como a pandemia de Covid-19, a recessão econômica e a crise financeira de 2008 demonstraram a importância de fundamentar e disseminar o conhecimento em educação financeira. Estudos bibliométricos (Ingale; Paluri, 2020; Goyal; Kumar, 2020) demonstraram que o número de publicações sobre o assunto cresceu de maneira significativa de 2009 a 2019.
A definição de alfabetização é ampla e permite a utilização de outros termos sinônimo como: capacidade financeira, educação financeira e conhecimento financeiro (Huston, 2010; Hung; Parker; Young, 2009; Goyal; Kumar, 2020). A alfabetização financeira consiste não apenas no conhecimento de finanças pessoais, mas também na capacidade de reflexão e aplicação deste conhecimento (Huston, 2010; Atkinson; Messy, 2012). A alfabetização financeira é uma base essencial na tomada de decisão (Lusardi; Mitchell, 2014). Sundarasen et al. (2016) explicam que o letramento financeira tem sido associado à capacidade de geração de investimentos, tomada de decisões e escolha apropriada de ativos.
Lusardi e Mitchell (2011a, 2011b) projetaram um conjunto padrão de perguntas sobre esses conceitos e os implementaram em pesquisas nos EUA e em outros países. Os testes apresentados por Lusardi e Mitchell (2007) contém apenas três questões para medir a alfabetização financeira. Estas questões são sobre conhecimento do funcionamento dos juros, inflação e comportamento de investimento em mercado acionário. Os investimentos em mercado acionário fazem parte do padrão de investimento americano, o que não é comum em outros países. No Brasil, dos produtos financeiros buscados pelos investidores, a caderneta de poupança é o mais utilizado, com uma parcela de 68% da população investidora (ANBIMA, 2024).
Por fim, os critérios propostos, Huston (2010) alertam que a dificuldade de produzir testes para medir a alfabetização financeira consistem no problema de se estabelecer uma definição clara e precisa sobre alfabetização financeira. A utilização de termos sinônimos prejudicam a construção de um constructo. Em seus estudos sobre os critérios para medir a alfabetização financeira, Huston (2010), apresenta uma compilação de itens divididos em quatro áreas de formação de conhecimento necessárias: noções básicas sobre dinheiro; transferências intertemporais de recursos entre períodos distintos; capacidade de investir e capacidade de proteção de recursos.
2.2 Socialização econômica
A socialização está voltada para a capacidade de inclusão financeira, então, é uma formação complementar à alfabetização financeira. As pessoas podem ser alfabetizadas financeiramente quando possuem conhecimento, compreensão e habilidades para cuidar de suas finanças, mas não podem ser considerados financeiramente capazes, a menos que isso se reflita em seu comportamento social, numa integração do indivíduo com o mundo econômico. Esse processo envolve diferentes agentes de socialização, sendo a família o primeiro e um dos mais importante (Denegri Coria; Tapia; Fuentealba, 2005).
O papel da escola, dentro do contexto social, visa encorajar comportamentos e decisões econômicas, controlar os impulsos de consumo e reduzir comportamentos de risco, como o endividamento excessivo (Bottazzi; Lusardi, 2021; Riener; Wagner, 2017; Xu et al., 2023). O estudo do comportamento humano, no que se refere aos seus atos econômicos é abordado, principalmente, pela ótica da psicologia econômica (Bessa; Fermiano; Denegri Coria, 2014). As bases teóricas da psicologia econômica são psicologia comportamental e a psicologia cognitiva. A psicologia econômica consiste em entender quais aspectos emocionais influenciam aspectos da socialização econômica, tais como: consumo, poupança e endividamento (Ferreira, 2007).
O ato de consumir está intimamente ligado a aspectos como comportamento austero ou hedonista. O comportamento austero consiste em conseguir estabelecer padrões de consumo rígidos e racionais. Já o consumo hedônico está relacionado ao comportamento de gastos discricionários (Denegri Coria et al., 2021). Compras desnecessárias, motivadas motivas pelo prazer pessoal ou para se sentir pertencente a um determinado grupo social, são exemplos de comportamento hedonista.
O consumo desnecessário e a financeirização precoce, estimulados pelo modelo econômico neoliberal, expõem uma realidade que é o endividamento estudantil (Wang; Xiao, 2009). O endividamento impacta na estabilidade financeira e no bemestar econômico das pessoas. Compreender como a dívida é percebida e gerenciada é fundamental para desenvolver estratégias de educação financeira e políticas públicas eficazes. Além disso, ao investigar as atitudes em relação ao endividamento é possível obter informações valiosas sobre os fatores que influenciam as decisões financeiras, os riscos e as vulnerabilidades (Holmgren et al., 2019; Qian; Fan, 2021). As atitudes perante o ato de endividamento estão relacionadas com a impulsividade e os hábitos de consumo hedonistas (Denegri Coria et al., 2021).
Os distúrbios relacionados ao consumo e ao endividamento excessivo prejudicam o bem-estar financeiro e restringem a capacidade de poupar. A poupança consiste em postergar o consumo no momento presente para acumular valores financeiros no futuro. O hábito de poupar permite estar precavido para situações inesperadas, preparar-se para o envelhecimento e a aposentaria, além da realização de sonhos e metas estabelecidas.
3 METODOLOGIA
A pesquisa possuiu natureza quantitativa, com objetivos correlacionais e transversais (Sampieri; Collado; Lucio, 2013).
4 PROCEDIMENTOS
Como a pesquisa teve por finalidade compreender se o nível de alfabetização financeira dos alunos do CEETEPS gerou impacto nas atitudes de intenção de poupar e de evitar o endividamento, o Centro de Excelencia en Psicología Económica y del Consumo (CEPEC), da Universidad de la Frontera (UFRO), do Chile forneceu o questionário "Encuesta Comportamiento Económico y Financiero". Portanto, o instrumento utilizado para a coleta de dados foi o questionário, composto por 144 perguntas. Para cumprir a proposta desse estudo, foram utilizadas 5 questões para avaliar o nível de alfabetização financeira, 9 itens de escalas de atitude em relação ao ato de poupar e 8 itens em relação a atitude relacionadas ao endividamento.
Os objetivos específicos estabelecidos foram: avaliar o nível de alfabetização financeira dos alunos; avaliar a validade e a confiabilidade da escala de atitude em relação à poupança e ao endividamento; garantir a sua adequação por meio de testes psicométricos; investigar a associação entre o nível de alfabetização financeira, as atitudes em relação à poupança e ao endividamento.
Assim, os procedimentos adotados para atingir os objetivos delimitados foram: traduzir o questionário, definir população, amostra e analisar estatisticamente. O CEPEC coordena vários projetos de medição do nível de educação econômica e financeira com a população da região de Araucária. Este questionário foi destinado a estudantes de cursos tecnológicos superiores, portanto, para um público semelhante em nível educacional e faixa etária ao qual foi aplicado.
A definição da população de pesquisa para a coleta de dados foi composta por alunos das Faculdade de Tecnologia (Fatec) do CEETEPS, sendo elas: Fatec Araçatuba, Fatec Bauru, Fatec Jahu e Fatec Lins. As Fatecs são instituições públicas de ensino superior tecnológico. A escolha destas unidades ocorreu em virtude do Projeto Piloto de Regionalização do Centro Paula Souza. A partir de 2019, foram implantados os Núcleos Regionais de Administração (NRAs), com o intuito de revelar a realidade de cada região, facilitando os processos de gestão pedagógica (Centro Paula Souza, 2019). Pela distribuição as Fatecs Araçatuba, Bauru, Jahu, Lins pertencem ao NRA 1.
A população de alunos que estavam frequentando as Fatecs durante o período da pesquisa foram de 2775 alunos. Em virtude da Lei 13.709 (Lei Geral de Proteção de Dados) (Brasil, 2018c), não puderam ser fornecidas informações sobre a população. Desta forma, optou-se por construir uma amostra aleatória simples. Participaram da pesquisa 234 alunos, constituindo o tamanho da amostra. Para um nível de confiança de 95%, a amostra possuiu margem de erro de 6,1pp.
A coleta de dados permitiu uma análise regionalizada dos dados, com uma amostra representativa e de alta qualidade para o estudo. Em virtude da localização das faculdades serem em cidades distintas, optou-se pela distribuição do questionário utilizando formulário Google Forms. A duração estimada para o preenchimento do questionário foi de aproximadamente 25 minutos. Para caracterizar a amostra e cumprir os objetivos específicos, o processo de análise utilizou os programa SPSS v.26.0 e jasp. A mesma base de dados foi utilizada em análise anterior sobre educação financeira (Castro, 2022).
A análise sociodemográfica demostrou que a amostra foi composta por estudantes com faixa etária entre os 17 e 70 anos, com uma idade média de 23 anos e um desvio padrão de 33,918. Pelas características foi possível observar que a maioria dos alunos (89,7%) provinham de escola pública, eram solteiros (65,3%), residiam com os pais (49,7%) e trabalhavam (70,9%).
Para atingir o primeiro objetivo específico, avaliar o nível de alfabetização financeira dos alunos, foram utilizadas as perguntas dos itens alfabetização financeira. O quadro 1 apresenta as perguntas juntamente com suas respostas, que estão em negrito. As questões foram baseadas nos trabalhos de Lusardi (2004) e mediram as competências aritméticas básicas, conceito e aplicação de juros, diversificação de riscos e valor do dinheiro ao longo do tempo. O padrão das questões tem sido utilizadas em sistemas de avaliação de vários países (Lusardi; Michaud; Mitchell, 2017) e pelos estudos de alfabetização financeira da OECD (2005).
Os procedimentos executados foram uma análise descritiva dos dados, incluindo a distribuição de frequências dos diferentes níveis de alfabetização financeira. Foi atribuído 1 ponto para a questão correta e às questões incorretas foram atribuídos zero pontos. Subsequentemente, todos os pontos obtidos pelos participantes foram somados para classificar as respostas às seguintes escalas: baixa alfabetização financeira (1 a 2 pontos), alfabetização financeira média (3 a 4 pontos) e alfabetização financeira alta (5 pontos).
Visando realizar o segundo objetivo específico de avaliar a validade e a confiabilidade da escala de atitude em relação à poupança e ao endividamento, por meio de testes psicométricos, foram realizadas análises de confiabilidade (alfa de cronbach) das respostas obtidas. Os itens utilizados em cada análise serão apresentados em cada tabela correspondente. Foram medidas as tendências atitudinais e três aspectos referentes ao ato de poupar (poupar conforme necessário, poupar como atitude positiva e poupar como algo difícil de alcançar). Para a análise, foram utilizados 9 itens no formato Likert, variando de 1 (discordância forte) a 4 (acordo forte). Os índices de confiabilidade α para esta escala em estudos anteriores o índice de confiabilidade α foi de 0,75 (Godoy et al., 2018).
A escala de atitude em relação ao endividamento, desenvolvida por Denegri Coria et al. (2012), possui 8 itens e tem como objetivo avaliar a atitude das pessoas em relação às dívidas que possuem como indivíduos, medindo dois fatores: atitude hedonista e atitude austera. Este instrumento possui um formato de resposta no estilo Likert de 4 pontos, que variam de desacordo muito à acordo muito. Em relação às estimativas de confiabilidade do instrumento, foram relatados índices aceitáveis de confiabilidade para as subescalas de austeridade e hedonismo (α = 0,89 e α = 0,87, respectivamente) (CEPEC. CDS, 2012).
Por fim, foi abordado o objetivo específico que visava investigar a associação entre o nível de alfabetização financeira, as atitudes em relação à poupança e o ao endividamento. Para isso, foi realizada uma análise de correlação de Pearson entre as variáveis alfabetização financeira e atitudes em relação à poupança, avaliando a força e a direção dessa relação. Também foram utilizados testes de Anova para mediar a relação entre as 3 variáveis (alfabetização financeira e atitudes em relação à poupança e ao endividamento)
5 RESULTADOS
As classificações adotadas na avaliação dos níveis de alfabetização financeira foram: nível baixo de alfabetização financeira (1 a 2 pontos de acerto); nível médio de alfabetização financeira (3 a 4 pontos de acerto) e alto nível de alfabetização financeira (5 pontos de acerto). A análise estatística descritiva demonstrou que a maioria dos estudantes (45,7%) apresentaram nível médio de alfabetização financeira, seguido do nível baixo de alfabetização financeira (39,8%). A discrepância ocorreu com o nível alto de alfabetização, atingido por 14,5% dos estudantes. Portanto, o nível de alfabetização dos alunos tendeu para o médio-baixo, indicando a necessidade de ações para melhorar o padrão de conhecimento dos alunos.
Os resultados obtidos sobre a validade e a confiabilidade da escala de atitude em relação às atitudes de intenção a poupar indicaram confiabilidade adequada e estrutura interna consistente, validando seu uso como uma ferramenta adequada, conforme padrões sugerido por Hair et al. (2009). Foi calculada a distribuição da média observada para cada uma das categorias de itens. As pontuações médias dos itens variaram entre 3,40 (DP = 0,615) e 2,36 (DP = 0,781). Estes resultados evidenciaram um comportamento adequado dos itens, sugerindo um ajuste apropriado ao modelo teórico proposto. Além disso, o valor do teste KMO foi de 0,79 e a estatística de Bartlett foi significativa (WLSMV-2 [55] =537,615, p < 0,01), o que indicou que a matriz de dados foi adequada para realizar uma análise fatorial exploratória (EFA). O coeficiente de confiabilidade da escala foi de α= 0,73. A tabela 1 apresenta o alfa Cronbach de cada item. Os resultados respaldaram a relevância e utilidade da escala em pesquisas relacionadas ao comportamento financeiro e fornecem uma base sólida para estudos futuros neste campo.
Em relação à escala de atitudes relacionadas ao endividamento, foi realizado um cálculo da distribuição da média observada para cada uma das categorias de itens. As pontuações médias dos itens relacionados ao fator de hedonismo variaram entre 2,18 (DP = 0,802) e 1,53 (DP = 0,629). O coeficiente alfa de cronbach de 0,502 indica uma confiabilidade relativamente baixa na consistência interna dos itens da escala. Isto sugere a necessidade de reformulação dos itens ou considerar a inclusão de itens que abordem outras facetas do hedonismo. As diferenças culturais na interpretação dos itens pode ter sido um fator que interferiu na confiabilidade.
Com relação ao fator de austeridade, é observada uma variabilidade nas pontuações que oscilam entre 3,49 (desvio padrão = 0,630) e 3,09 (desvio padrão = 0,819), indicando uma distribuição significativa nas respostas dos estudantes em relação a esse construto. Além disso, o coeficiente alfa de Cronbach para esse fator é 0,709, o que sugere uma consistência interna aceitável nas medições.
A tabela 2 mostra os valores do alfa de Cronbach para diferentes afirmações sobre atitudes e comportamentos financeiros referentes a intenção de evitar o endividamento. Na análise de consistência interna das afirmações avaliadas, os valores do alfa de Cronbach apresentaram variações significativas. Os valores mais altos, 0,735 e 0,722, indicaram uma boa consistência interna, sugerindo que os itens foram confiáveis e homogêneos na medição do construto avaliado. Em contraste, o valor mais baixo, 0,161, revelou uma consistência interna muito baixa, gerando baixa confiabilidade e a possível necessidade de revisão ou eliminação desse item para melhorar a robustez do instrumento de medição.
Para medir as atitudes em relação a poupança, foram analisadas as respostas obtidas através da escala de atitude. Esses perfis foram definidos com base nas pontuações totais obtidas pelos estudantes na seguinte escala:
-
a) Atitude de alta intenção a poupar: estudantes cuja pontuação total está no percentil 75 ou superior, o que equivale a obter 29 pontos ou mais em uma escala de 36 pontos;
-
b) Atitude de média intenção a poupar: estudantes cuja pontuação total está entre o percentil 25 e o percentil 75, abrangendo uma faixa de 19 a 28 pontos em uma escala de 36 pontos;
-
c) Atitude de baixa intenção a poupar: estudantes cuja pontuação total está abaixo do percentil 25, ou seja, aqueles que obtêm 18 pontos ou menos em uma escala de 36 pontos.
A classificação dos estudantes nessas categorias de atitude demonstrou uma distribuição variada, com 2% dos estudantes exibindo uma atitude negativa em relação à intenção de poupar, enquanto, 60% dos estudantes demostraram uma atitude moderada e 38% uma atitude positiva. O perfil de intenção a poupar do estudantes é médio-alto, refletindo uma abordagem mais proativa para a gestão financeira.
Foi realizada uma análise do coeficiente de correlação de Pearson para examinar a relação entre o nível de alfabetização financeira e a atitude em relação à poupança. Os resultados apresentados na tabela 3 revelaram uma correlação positiva moderada entre ambas as variáveis, com um coeficiente de Pearson de 0,191. Os resultados sugeriu que conforme o nível de alfabetização financeira dos estudantes aumenta, também aumenta sua disposição ao ato de poupar.
A correlação alcança significância estatística, com um valor de p de 0,003 (bilateral). Um valor de p menor que 0,01 indica que a probabilidade de obter uma correlação tão robusta entre essas variáveis por mera casualidade é extremamente baixa, fortalecendo assim a validade da relação identificada no estudo. Além disso, o tamanho da amostra (N) utilizado na análise foi de 234 estudantes para ambas as variáveis, proporcionando uma base sólida para extrapolar os resultados para a população estudantil do CEETEPS.
Na tabela 4, com a correlação de Pearson entre o nível de alfabetização financeira e as atitudes de intenção de evitar o endividamento mostrou que os resultados revelaram uma correlação significativa e negativa entre o hedonismo e a austeridade (r = -0,150, p = 0,022), indicando uma tendência de inversão entre essas dimensões de personalidade. Não se encontrou uma associação significativa entre o hedonismo e a alfabetização financeira (r = 0,046, p = 0,483). O resultado sugeriu que os traços hedonistas não estão relacionados de maneira significativa com os níveis de alfabetização financeira. Em contraste, observou-se uma correlação positiva moderada e altamente significativa entre a austeridade e a alfabetização financeira (r = 0,233, p < 0,001), o que sugere que indivíduos com comportamentos financeiros mais conservadores tendem a exibir maiores níveis de alfabetização financeira.
A ANOVA entre as variáveis alfabetização financeira e atitude de intenção de poupar (tabela 5) revelaram uma relação significativa entre ambas as variáveis, o que corrobora com o valor de p significativo (0,003) e F significativo (8,781). Os resultados confirmam que a alfabetização financeira exerce um impacto expressivo na atitude em relação à poupança. Um maior nível de alfabetização financeira está correlacionado a uma maior intenção a poupar.
A análise do modelo fatorial confirmatório da escala para medir atitudes de intenção a poupar valida a estrutura teórica (figura 2). A análise revelou que todos os itens da escala estavam relacionados a um único fator, a uma única dimensão de atitude. Esta estrutura unidimensional proporciona uma compreensão clara e simplificada da atitude dos indivíduos em relação a intenção de poupar, facilitando sua medição e análise. No entanto, ao revisar as cargas fatoriais dos itens, observou-se uma variabilidade nos valores, que variaram de 0,004 a 0,75. Isto sugeriu que alguns itens tiveram uma relação mais forte com o fator subjacente do que outros, indicando que aspectos específicos da atitude em relação à poupança estão sendo capturados por cada item.
Foram examinadas as associações entre o nível de alfabetização financeira e as atitudes em relação à poupança e ao endividamento. Os resultados da tabela 6 demonstram as associações. Foram utilizadas técnicas de análise de variância (ANOVA de um fator) para explorar essas relações. Os resultados revelam que enquanto a atitude em relação à poupança e a atitude em relação à austeridade mostraram que existem diferenças substanciais entre os grupos com diferentes níveis de alfabetização financeira. O hedonismo não apresenta variações significativas, sugerindo que um maior nível de alfabetização financeira tende a ter atitudes mais favoráveis em relação à poupança e à austeridade.
É possível observar que as diferenças significativas entre os grupos com diferentes níveis de alfabetização financeira são refletidas nas somas de quadrados e nas médias de quadrados obtidas na ANOVA. Especificamente, para as variáveis de atitude em relação à poupança e à austeridade, as somas de quadrados entre grupos foram significativamente maiores do que as somas de quadrados dentro dos grupos. Isto indica uma maior variabilidade entre os grupos.
A figura 3 apresenta uma análise de como os construtos latentes de "Hedonismo" e "Austeridade" se relacionam com múltiplos itens observados, delineando a intensidade dessas relações por meio das cargas fatoriais e dos erros associados a cada item. Esse enfoque permite visualizar de maneira clara e concisa a influência dos fatores latentes nas variáveis observadas, proporcionando uma compreensão profunda da estrutura subjacente do fenômeno estudado. No entanto, ao revisar as cargas fatoriais dos itens, observou-se uma variabilidade nos valores, que variaram entre 0,38 e 0,65. Isso sugere que alguns itens têm uma relação mais forte com o fator subjacente do que outros. É importante prestar atenção a esses resultados para entender melhor quais aspectos específicos da atitude em relação à poupança cada item está capturando.
A tabela 7 de comparações múltiplas utilizando o método HSD de Tukey fornece uma visão detalhada das diferenças nas atitudes em relação à poupança, hedonismo e austeridade entre grupos com diferentes níveis de alfabetização financeira. Observase que as diferenças nas médias são significativas em vários casos, indicando que os grupos com baixa, média e alta alfabetização financeira têm atitudes financeiras distintas.
Os resultados obtidos na tabela 7 apoiam a hipótese do objetivo de pesquisa, a qual sugere que uma associação entre o nível de alfabetização financeira e as atitudes em relação à poupança e ao endividamento. Especificamente, as diferenças significativas nas atitudes em relação à poupança e à austeridade entre os grupos com diferentes níveis de alfabetização financeira confirma que um maior nível de alfabetização financeira está relacionado a atitudes mais favoráveis em relação à poupança e à gestão financeira responsável.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A OECD enfatiza a importância da formação em finanças, pela perspectiva do indivíduo como um agente de mercado. Esta visão influenciou no processo de construção das ENEFs. A revisão bibliográfica ressaltou a existência de diversos termos correlatos e a falta de uma definição única sobre educação financeira. Mensurar resultados sem delimitar o escopo a ser estudado dificulta o processo de medição e comparação de resultados. Por isto, este estudo partiu da definição de educação econômica e financeira, como sendo uma formação composta pela alfabetização financeira, a psicologia econômica e socialização econômica. O intuito central foi entender se esta abordagem mais ampla e heterogênea seria a melhor forma de abordar a formação dos estudantes em finanças.
Assim, o objetivo central deste artigo foi compreender se o nível de alfabetização financeira dos alunos do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza (CEETEPS) geraria impacto nas atitudes de intenção a poupar e de evitar o endividamento. Os primeiros resultados demonstraram que o nível de alfabetização financeira dos estudantes do CEETEPS foi avaliado como médio-baixo e o perfil de intenção a poupar do estudantes é médio-alto.
Análises mais aprofundadas demonstraram a existência de uma associação significativa entre o nível de alfabetização financeira e as atitudes em relação à intenção de poupar e evitar o endividamento, confirmando a premissa apresentada. De maneira mais detalhada, os estudantes com níveis mais elevados de alfabetização financeira demostraram atitudes mais favoráveis em relação à intenção de poupar e atitude austera em relação aos gastos, reduzindo a propensão ao endividamento. Este resultado é suportado por análises de variância e testes de comparações múltiplas, que revelaram diferenças estatisticamente significativas nas atitudes em relação à poupança e à austeridade entre grupos com diferentes níveis de conhecimento financeiro. Essas diferenças foram observadas nas somas de quadrados entre grupos, que foram consideravelmente maiores do que as somas de quadrados dentro dos grupos, destacando a influência do nível de alfabetização financeira na variabilidade das atitudes.
A validação da escala de atitude em relação à poupança forneceu uma base sólida para futuras pesquisas no campo do comportamento financeiro. Os resultados indicam que a escala possui uma confiabilidade adequada e uma estrutura interna consistente, tornando-a uma ferramenta confiável para avaliar a atitude em relação à intenção de poupar em estudos semelhantes. Já a escala em relação ao hedonismo apresentou baixo índice de confiabilidade.
Os resultados suportam que a construção de programas educacionais devem enfatizar a alfabetização financeira, pela possibilidade de geração de externalidades positivas. Quando a alfabetização financeira é priorizada impactos positivos sobre a socialização econômica podem ser obtidos, principalmente, em relação aos hábitos de poupança. Além disso, a análise efetuada acrescenta resultados substanciais e confirmatórios, que refutam um estudo anterior executado com a mesma base de dados (Castro, 2022).
No caso específico do CEETEPS, priorizar a alfabetização financeira é mais do que recomendando, uma vez que os alunos da instituição também apresentaram níveis de letramento médio-baixo. Contudo, o letramento financeiro deve ser suportado por outras áreas de conhecimento. A psicologia econômica e sua abordagem comportamental, assim como o desenvolvimento de senso crítico, valores e senso de coletividade, são capacitações necessárias.
É importante reconhecer as limitações do estudo. Apesar dos resultados terem sido significativos, o design transversal da pesquisa impediu o estabelecimento de relações causais definitivas entre alfabetização financeira e atitudes relacionadas à intenção de poupar e evitar o endividamento. Pesquisas futuras poderiam se beneficiar de designs longitudinais que permitissem acompanhar o desenvolvimento das atitudes financeiras ao longo do tempo em resposta a intervenções específicas de educação financeira.
Portanto, o estudo contribuiu para o crescente corpo de literatura que evidencia a importância da alfabetização financeira na formação de atitudes financeiras saudáveis. As evidências substanciais fornecidas apoiarão a implementação de programas educacionais eficazes e políticas públicas direcionadas, visando melhorar a compreensão financeira da população.
Disponibilidade de Dados
Os dados estarão disponíveis sob demanda dos pareceristas.
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Editor de Seção:
Milena Pavan Serafim | Editor de Layout: Silmara Pereira da Silva Martins




Fonte: Elaboração própria
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