Open-access Resiliência de mães de crianças pré-escolares: análise à luz da salutogênese

Resiliencia de madres de niños en edad preescolar: análisis de acuerdo con la salutogénesis

Resumo

Objetivo  Analisar a resiliência de mães de crianças pré-escolares, à luz da salutogênese.

Métodos  Estudo transversal, realizado em centros de educação infantil da cidade de Fortaleza-CE, Brasil, com 152 mulheres, mães de crianças pré-escolares. Para coleta de dados, utilizou-se de instrumento relacionado às características socioeconômicas e da Escala de Connor-Davidson (CD-RISC-10) para avaliação da resiliência. Realizaram-se análises estatística descritiva e inferencial, com utilização do teste qui-quadrado para análise de associação entre as variáveis categóricas. Os conceitos trabalhados na Teoria da Salutogênese foram os potenciais estressores e os recursos gerais de resistência, sendo as variáveis organizadas nessas dimensões.

Resultados  Houve predomínio de mulheres com ensino médio completo/superior incompleto (45,9%) e principal cuidadora dos filhos (96,7%). O nível de resiliência prevaleceu alto (58,6%), entretanto, com média de 24,69 (DP±3,47), com destaque nas afirmações “me considero uma pessoa forte” (75,7%) e “acredito que posso atingir os objetivos” (77,6%). Houve associação entre a resiliência e as mães que receberam como recurso geral de resistência a ajuda financeira do Programa Bolsa Família (p<0,001).

Conclusão  O recurso geral de resistência do recebimento do Bolsa Família apresentou efeitos positivos na resiliência das mães.

Descritores:
Enfermagem pediátrica; Resiliência psicológica; Mães; Pré-Escolar; Promoção da saúde

Abstract

Objective  To analyze the resilience of mothers of preschool children in light of salutogenesis.

Methods  This cross-sectional study was conducted in early childhood education centers in the city of Fortaleza, Ceará, Brazil, with 152 mothers of preschool children. Data collection used an instrument related to socioeconomic characteristics and the Connor-Davidson Resilience Scale (CD-RISC-10) to assess resilience. Descriptive and inferential statistical analyses were performed using the chi-square test to analyze associations among categorical variables. The concepts addressed in the Salutogenesis Theory were potential stressors and general resilience resources, with the variables organized according to these dimensions.

Results  There was a predominance of women with complete high school/incomplete higher education (45.9%) and who were primary caregivers of their children (96.7%). The level of resilience was high (58.6%), however, with a mean of 24.69 (SD±3.47), highlighted by the statements “Coping with stress can strengthen me” (75.7%) and “Can achieve goals despite obstacles” (77.6%). There was an association between resilience and mothers who received financial assistance from the Bolsa Família Program as a general resource for resistance (p<0.001).

Conclusion  The general resilience resource of receiving Bolsa Família had positive effects on mothers’ resilience.

Keywords:
Pediatric nursing; Resilience, psychological; Mothers; Child, preschool: Health promotion

Resumen

Objetivo  Analizar la resiliencia de las madres de niños en edad preescolar, de acuerdo con la salutogénesis.

Métodos  Estudio transversal, realizado en centros de educación infantil de la ciudad de Fortaleza, estado de Ceará, Brasil, con 152 mujeres, madres de niños en edad preescolar. Para la recopilación de datos se utilizó un instrumento relacionado con las características socioeconómicas, y para evaluar la resiliencia, la Escala de Connor-Davidson (CD-RISC-10). Se realizaron análisis estadísticos descriptivos e inferenciales, mediante la prueba de ji cuadrado para analizar la relación entre las variables categóricas. Los conceptos trabajados en la Teoría de la Salutogénesis fueron los estresantes potenciales y los recursos generales de resistencia, y las variables fueron organizadas en estas dimensiones.

Resultados  Predominaron las mujeres con estudios secundarios completos/superiores incompletos (45,9 %) y cuidadoras principales de los hijos (96,7 %). El nivel de resiliencia fue alto (58,6 %), con un promedio de 24,69 (DP ± 3,47), donde se destacaron las afirmaciones “me considero una persona fuerte” (75,7 %) y “creo que puedo alcanzar los objetivos” (77,6 %). Se observó una relación entre la resiliencia y las madres que recibieron ayuda financiera del Programa Bolsa Família como recurso general de resistencia (p<0,001).

Conclusión  El recurso general de resistencia que supone recibir el Programa Bolsa Família tuvo efectos positivos en la resiliencia de las madres.

Descriptores:
Enfermería pediátrica; Resiliencia psicológica; Mothers; Preescolar; Promoción de la salud

Introdução

A resiliência é um processo dinâmico que envolve fatores individuais, emocionais e sociais, em que o indivíduo consegue se adaptar, de forma positiva, após enfrentar momentos de adversidade que podem causar danos ao bem-estar psicológico.(1,2) O apoio social, o autoconhecimento e as habilidades de enfrentamento são fatores que fortalecem o nível de resiliência.(2)

O estudo da resiliência em mães tem se destacado como campo de pesquisa, pois existem variadas situações de estresse desde a gravidez, que, em alguns casos, configura-se como período de risco, adaptação à maternidade(3) e ao cuidado dos filhos.(4) Durante a pandemia da COVID-19, além desses cenários citados, houve desafios impostos às mães como maior estresse e percepções de incompetência parental.(5,6) Contudo, somente se consegue observar e avaliar a resiliência em meio ao enfrentamento dessas situações para planejar e implementar ações de promoção da saúde.

Já em mães de crianças pré-escolares, a análise da resiliência é relevante, uma vez que, nesse período, há maiores dificuldades, como o início da educação dos filhos nas creches e a necessidade de cuidado mais próximo, quando surge adoecimento. No período da doença, por exemplo, as mães experienciam menores níveis de resiliência, mas é essencial que esse contexto seja trabalhado com a mulher, pois pais resilientes facilitam melhor a resiliência nos filhos que, por sua vez, superam as dificuldades mais facilmente e conseguem vislumbrar o futuro positivamente.(7)

Existe variedade nas escalas disponíveis para avaliar a resiliência, e uma delas é a Escala de Connor-Davidson (CD-RISC-10), versão mais curta da escala original, composta por 10 itens, o que a torna mais prática para as pesquisas e avaliações clínicas. A escala já foi utilizada em diferentes idiomas, incluindo o espanhol(8) e chinês.(9) No Brasil, a escala foi traduzida para o português e as características psicométricas dela foram avaliadas.(10)

Similarmente à avaliação da resiliência, a Teoria da Salutogênese, desenvolvida por Aaron Antonovsky, em 1979, busca explicar como as pessoas conseguem administrar suas vidas, apesar das condições adversas. Diante das reflexões geradas pelo criador desta teoria, percebeu-se que as pessoas que superam as dificuldades e mantêm o estado de saúde, possuem como característica em comum o enfrentamento positivo perante as adversidades.(11-13)

Essa teoria possui ênfase no estudo dos recursos e da origem da saúde, contrastando com os modelos anteriores que enfatizavam as doenças e os fatores de risco. Esta elenca alguns conceitos, como Senso de Coerência (SC), experiência de vida, Recursos Gerais de Resistência (RGR), Recursos Específicos de Resistência (RER) e potenciais estressores.(14) Os aspectos estabelecidos nesta teoria possuem conceitos sobrepostos com os componentes avaliados na resiliência.(15)

Os potenciais estressores, como ponto inicial da teoria, têm ligação direta com a doença, uma vez que fatores físicos e bioquímicos interagem com patógenos, gerando tensão que afeta o estado de saúde. Porém, a gestão bem-sucedida do estresse mantém a saúde e fortalece o SC, RGR e RER, consequentemente, os RGR mobilizados interagem com o estado de tensão e gerenciam ação de retenção e superação de estressores. Assim como esses outros recursos, o SC amortece os estressores, o que permite à pessoa manter e avançar em direção à saúde, mesmo em meio a traumas e mudanças. Esse mecanismo é fortalecido pelas experiências de vida e apresenta relação inversamente proporcional com os estressores.(5,11,14)

Neste estudo, analisou-se a resiliência materna e o vínculo quanto aos potenciais estressores conceituado pelo criador da Teoria da Salutogênese, como estímulo que estabelece demanda para a qual não se tem resposta pronta, imediatamente disponível e adequada, e aos RGR que se referem às características pessoais, do grupo ou ambiente que possam facilitar o gerenciamento eficaz da tensão, como recursos financeiros, religião, apoio social e inteligência emocional.(14,16)

Assim, objetivou-se analisar a resiliência de mães de crianças pré-escolares, à luz da salutogênese.

Métodos

Estudo transversal que seguiu as recomendações do The Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) para reportar os relatórios de pesquisa realizado em seis Centros de Educação Infantil (CEI) de Fortaleza, no Ceará, escolhidos a partir da seleção dos territórios com contextos de vulnerabilidade regional da cidade, marcada pela disparidade social e econômica, embora o índice de desenvolvimento humano seja de 0,754, segundo dados disponíveis pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.(17)

A população foi constituída por mães de crianças em idade pré-escolar, residentes no município. Já a amostra de 152 genitoras foi selecionada por conveniência, que atenderam aos critérios de inclusão: ter idade superior a 18 anos, estar com o filho regularmente matriculado e frequentando a creche, nas turmas infantil I, II ou III. Excluíram-se as mães que não tiveram disponibilidade para terminar a entrevista com os pesquisadores.

Os dados foram coletados a partir de dois instrumentos: 1) características relativas às mães, às crianças e à assistência à saúde, na qual as variáveis foram organizadas em Potenciais estressores e Recursos Gerais de Resistência, conforme a Teoria da Salutogênese, desenvolvida por Aaron Antonovsky (Figura 1); e 2) a Escala de Resiliência de Connor-Davison CD-RISC-10, adaptada para o Português(10) e com três opções de respostas (raramente verdadeiro, às vezes verdadeiro e frequentemente verdadeiro). O critério para alocar as variáveis em potenciais estressores ou RGR se baseou na representação de gerenciamento eficaz contra doenças.

Figura 1
Potenciais estressores e recursos gerais de resistência

A Escala CD-RISC-10 é composta por dez perguntas, com características da resiliência: 1- eu consigo me adaptar quando mudanças acontecem; 2- eu consigo lidar com qualquer problema que acontece comigo; 3- eu tento ver o lado humorístico [engraçado] das coisas quando estou com problemas; 4- ter que lidar com situações estressantes me faz sentir mais forte; 5- eu costumo me recuperar bem de uma doença, acidentes e outras dificuldades; 6- eu acredito que posso atingir meus objetivos mesmo quando há obstáculos; 7- fico concentrado e penso com clareza quando estou sob pressão; 8- eu não desanimo facilmente com os fracassos; 9- eu me considero uma pessoa forte quando tenho que lidar com desafios e dificuldades da vida; e 10- eu consigo lidar com sentimentos desagradáveis ou dolorosos como tristeza, medo e raiva.(10)

Os resultados foram apurados, somando-se a pontuação apontada pelos participantes em cada item, podendo variar de zero a trinta pontos. Pontuações mais elevadas correspondem à alta resiliência. A resiliência foi categorizada a partir da média da escala obtida de todos os participantes da pesquisa.(18) Neste estudo, a média foi de 24 pontos. Desta forma, classificou-se a resiliência em baixa, quando as mães alcançaram escores menores ou igual a 24 pontos e, em alta, nos escores maiores ou iguais a 25 pontos, na CD-RISC-10.

A coleta de dados ocorreu de dezembro de 2022 a junho de 2023. No primeiro momento, realizou-se o contato com os gestores dos CEI para convidá-los a participarem da pesquisa, em seguida, apresentou-se a proposta aos pais, durante reuniões de acompanhamento, realizada mensalmente nas creches e, em último momento, conversou-se com as mães individualmente para realizar agendamento das entrevistas.

No momento da entrevista, o objetivo, as etapas da pesquisa, os benefícios e os instrumentos de coleta foram explicados e os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foram assinados. A coleta de dados ocorreu pela manhã ou tarde, com duração média de uma hora, nas dependências de cada CEI, enquanto aguardavam os filhos. Nos casos de ausência no dia e horário agendado, entrou-se em contato, via telefone, para remarcação e, caso não fosse possível presencialmente, os dados foram coletados por meio do celular por até três tentativas.

Os dados foram analisados no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 27.0. As variáveis foram categorizadas em duas opções de resposta, no momento da análise, embora o instrumento de coleta de dados apresentasse mais do que duas opções, e foram descritas segundo frequências absolutas e relativas. O nível de resiliência foi associado às demais variáveis preditoras, por meio do teste Qui-quadrado de Independência. O efeito dessa associação foi avaliado, considerando os parâmetros do Phi e categorizado em pequeno, médio ou grande. Para todos os testes, consideraram-se níveis de significância com p<0,05 e intervalo de confiança de 95%. Dados faltantes foram tradados como omissos.

Estudo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, conforme Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) nº 58075922.8.2004.5054 e nº do parecer 5.755.168, da Universidade Federal do Ceará.

Resultados

Das 152 mães participantes, houve prevalência de mulheres na faixa etária de 30-39 anos (47,4%, n= 72), com nível de escolaridade médio completo/superior incompleto (45,9%, n= 68), em baixos estratos socioeconômicos classificados em C2 (n=56; 36,8%) e DE (n=63; 41,4%). O apoio recebido, durante a gravidez/puerpério, foi principalmente do pai da criança (n=134; 88,7%) e da família (n=129; 85,4%). Quase a totalidade relatou ser a cuidadora principal da criança (n=147; 96,7%) e parte dessas mulheres teve direito à licença maternidade (n=57; 38%), pois trabalhavam fora de casa (n=61; 40,1%).

Nas características de saúde, observaram-se resultados positivos, uma vez que a maioria, durante a gravidez/puerpério, não fez uso de bebida alcoólica (n=140; 92,7%), não fumou (n= 145; 96%), não desenvolveu Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) (n=128; 85,3%), Diabetes Mellitus (DM) (n= 139; 93,3%) ou infecção urinária (n=112; 76,2%). O trimestre prevalente de início do pré-natal foi o primeiro, com 73,8% (n=96), sendo o tipo de parto mais comum a cesárea (n=89; 59,7%).

Nas características das crianças pré-escolares, observou-se que tiveram peso > 3000g (n=98; 68,1%) e a maioria nasceu sem problema aparente (n=113; 77,9%). O contato pele a pele junto às mães foi experienciado pelas crianças (n=95; 62,9%). Houve amamentação na primeira hora de vida das crianças (n=84; 55,6%), assim como amamentação após essa primeira hora (n=133; 88,1%). Dentre os programas sociais voltados para o desenvolvimento infantil e a mitigação da pobreza, destaca-se o Bolsa Família, recebido pelas mães dessas crianças (n=119; 79,3%). No entanto, majoritariamente, os pré-escolares não faziam parte do Programa Criança Feliz (n=145; 96,7%). Em relação à saúde das crianças, parte delas nunca foi submetida à internações hospitalares (n=101; 66,9%).

A assistência à saúde foi avaliada quanto às visitas domiciliares pelos profissionais da Atenção Primária à Saúde, na primeira semana de vida, sendo observado que, majoritariamente, não receberam esse tipo de atendimento (n=121; 80,1%); nas consultas de rotina para acompanhamento, relataram ter acesso ao agendamento prévio (n=98; 64,9%), e afirmaram receber orientações dos profissionais de saúde acerca do crescimento e desenvolvimento infantil (n= 106; 69,7%).

Verificaram-se bons níveis de resiliência das mães, visto que houve prevalência de alta resiliência das mães, apresentando pontuação superior a 24 pontos, com média de 24,69±3,47 (n=89; 58,6%). As respostas das mães se concentraram na categoria frequentemente verdadeiro para todas as afirmações na CD-RISC-10. As prevalências dessas respostas foram: conseguem se adaptar às mudanças (n=101; 66,4%); conseguem lidar com qualquer problemas (n=76; 50,0%); tentam ver o lado humorístico das coisas, quando há problemas (n=77; 50,7%); lidam com situações estressantes e ficam mais fortes (n=68; 44,7%); recuperam-se bem de uma doença/acidente/dificuldade (n=113; 74,3%); acreditam que atingem seus objetivos, mesmo com obstáculos (n= 118; 77,6%); ficam concentradas e pensam com clareza, quando sob pressão (n=61; 40,1%); não desanimam com fracassos (n=87; 57,2%); consideram-se como pessoas fortes, quando tem que lidar com os desafios da vida (n=115; 75,7%); e conseguem lidar com sentimentos desagradáveis/dolorosos, como tristeza/medo/raiva (n=93; 61,2%) .

Conforme a tabela 1, não houve relação estatística significante da resiliência (p>0,05) com os potenciais estressores, considerando escolaridade, principal cuidador, atividade laboral materna fora de casa, crianças não saudáveis ao nascer e internações hospitalares. Outros dados, além dos demonstrados na tabela 1, apontaram maiores médias e percentuais de resiliência alta em quem fez uso de bebida alcoólica (n= 9; 81,8%; M:26,36 ±4,06) e fumaram (n=4; 66,7%; M:25,83 ±2,56) na gestação ou puerpério e que não possuíam DM (n=83; 59,7%; M:24,80±3,34) e infecção (n=70; 62,5%; M:24,93 ±3,26), na gestação.

Tabela 1
Análise da resiliência em relação aos potenciais estressores

Na avaliação da relação entre a resiliência com os RGR, na tabela 2, verificou-se associação (X2(1)=13,640, p<0,001) para as mães que receberam como recurso de resistência a ajuda financeira do Programa Bolsa Família. Os demais RGR elencados não influenciaram estatisticamente na resiliência. Entretanto, notou-se que as mães com início do pré-natal, após o primeiro trimestre, apresentaram percentual maior de resiliência alta (n=24, 70,6%), assim como entre aquelas que receberam visitas domiciliares (n=18, 60,0%), acompanhamento (n=60, 61,2%) e informações sobre desenvolvimento infantil (n=64, 60,4%). Contudo, a não participação no Programa Criança Feliz obteve percentual maior de resiliência alta (n=85, 58,6%).

Tabela 2
Análise da resiliência em relação aos Recursos Gerais de Resistência (RGR)

Discussão

A resiliência tem se configurado como desfecho em saúde de mães de pré-escolares, uma vez que situações adversas podem interferir no cuidado e na assistência com o binômio mãe-filho e, alinhado a isso, a Teoria da Salutogênese busca elucidar como as pessoas conseguem administrar a vida, apesar das situações de conflito e do estresse comumente presentes no cotidiano dos sujeitos. Nota-se que a resiliência tem se sobreposto aos conceitos da Teoria da Salutogênese, uma vez que ambos tratam de constructos positivos para a saúde.

Ao analisar as variáveis consideradas como potenciais estressores, observou-se que a escolaridade das mães influencia nos resultados de saúde delas e dos filhos. Estudo com mães de crianças de até cinco anos mostrou que mães com mais de oito anos de estudo representam fundamental eixo para garantir a saúde dos filhos, entretanto, a resiliência não esteve associada com desfechos de saúde.(19) Em contrapartida, no presente estudo, a maior proporção de resiliência ocorreu em grupos de mães com menos de oito anos de estudo. Esse resultado motiva reflexão para investigar como a resiliência tem impactos no autocuidado da mulher e na participação dela na promoção da saúde dos filhos.

A ausência de doenças, durante a gestação, como diabetes mellitus e infecção potencializou o nível de resiliência materna, demonstrando que estas podem lidar melhor com as adversidades presentes no cotidiano. A presença de alguma doença crônica, além dos efeitos negativos relacionados à própria doença, pode acarretar alterações no estilo de vida, incluindo modificações no estado físico e emocional.(20) Identificar o nível de resiliência em gestantes pode contribuir para o enfrentamento das dificuldades que são inerentes ao período, como as mudanças e adaptações corporais.(21)

Os resultados não revelaram diferença estatisticamente significante entre as mães que desempenharam o papel principal de cuidadoras das crianças, em comparação com aquelas que não tinham essa responsabilidade predominante. Estudo cujo propósito foi avaliar se a resiliência era capaz de atenuar as consequências da sobrecarga do cuidador na qualidade de vida entre pais de crianças com diabetes mellitus tipo 1, constatou que a resiliência desempenha papel protetor na redução da carga de trabalho e na qualidade de vida, pois percebeu-se que aqueles pais que apresentavam alta resiliência, aparentavam ter melhor saúde mental.(22)

Outro estudo desenvolvido para avaliar a qualidade do sono, sobrecarga do cuidador e a resiliência individual entre pais de crianças com epilepsia, constatou que quanto maior a resiliência individual da criança, menor é a sobrecarga do cuidador.(23) Para melhor apoiar as mães em situações de potenciais estressores, é necessário compreender os fatores que contribuem para resiliência materna.(5) Esses achados remetem à reflexão que a baixa resiliência pode impactar diretamente na sobrecarga do cuidador. Essa conexão destaca a relevância do desenvolvimento de estratégias de apoio e intervenções que visem fortalecer a resiliência das mães que assumem o papel principal de cuidadoras de crianças pré-escolares.

Em relação às mães que possuíam ou não trabalho, verificaram-se médias e percentuais similares de resiliência. Esse achado pode estar associado ao nascimento de crianças saudáveis que recebem aleitamento materno exclusivo.(24) O conceito de cuidadores familiares sustentáveis demonstra que as famílias continuam desempenhando as funções delas, apesar das adversidades, uma vez que possuem forças e recursos que reforçam o funcionamento, o desempenho dos papéis, o enfrentamento dos problemas e permitem a sustentabilidade familiar, pelo que se considera que podem estar a aludir ao conceito de resiliência familiar.(25)

Outro estudo revelou que mães que vivenciam problemas de saúde dos filhos e hospitalizações ao nascimento, enfrentam uma gama de emoções, como tristeza, dor, angústia e desespero. Inicialmente, essas mães experimentam sentimento de impotência e sofrimento. No entanto, ao reconhecerem a necessidade dos cuidados hospitalares para os filhos, conseguem confrontar a situação, resultando na transição de sentimentos negativos para expectativas positivas.(26) Este fenômeno pode explicar os resultados deste estudo, nos quais as mães que passaram por tais estressores não demonstraram diferença significante nos níveis de resiliência, quando comparadas às mães de crianças que não enfrentaram condições de saúde desfavoráveis ou hospitalizações.

Em relação aos recursos gerais de resistência, a presença deles pode potencializar o nível de resiliência, e, assim, deslocar os indivíduos em direção ao polo da saúde. As genitoras que possuem quantidades maiores de recursos, podem ser mais resilientes diante dos problemas e potenciais estressores, no qual se deparam durante a vida, e assim serem mais propícias a adotarem melhores práticas de bem-estar e promoção da saúde.

A variável apoio do pai não apresentou significância estatística. Entretanto, as mães que afirmaram receber esse apoio do companheiro, apresentaram média maior de resiliência. Estudo realizado com mães de crianças com doença cardíaca congênita demonstrou que mães que receberam apoio social da família e dos amigos, apresentaram maiores níveis de resiliência.(27)

O início tardio do pré-natal é uma preocupação para os profissionais de saúde. Os achados das mulheres que iniciaram o pré-natal após o primeiro trimestre, apesar de não apresentarem significância, exibiu discretamente melhores percentuais de resiliência, atribuído ao fato destas terem enfrentado circunstâncias desafiadoras. Essas experiências as motivaram a desenvolver estratégias de enfrentamento eficazes, contribuindo, assim, para esses níveis mais elevados de resiliência.

Identificou-se conexão entre diversos fatores socioeconômicos e o início tardio do pré-natal. Dentre esses fatores, citam-se baixa escolaridade, idade materna, condição econômica desfavorável, desemprego e abuso de substâncias, como álcool e drogas que emergiram como elementos que influenciam negativamente o acesso precoce aos cuidados pré-natais.(28) É importante enfatizar que esse início tardio pode gerar implicações negativas de saúde tanto para a mãe quanto para a criança. Cuidados pré-natais precoces e que sejam de fácil acesso são necessários para estas populações mais vulneráveis, pois pode reduzir potenciais eventos estressores, além de maximizar a saúde do binômio mãe-filho.(29)

A despeito da associação apenas para as mães que recebem Bolsa Família, observou-se que essa característica se apresentou em níveis altos, independente dos grupos que foram analisados. Relevante destacar que os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, atuam para mitigar a pobreza no país, à medida que possui critérios de permanência para manter bons indicadores na saúde, como frequentar o pré-natal, possuir vacinação em dias, acompanhar o estado nutricional das crianças.(30) Logo, a ampliação se faz necessária, por ter efeitos positivos na resiliência para as mães que o recebem, com objetivo de melhorar a rede de proteção social.

O Brasil tem o Programa Criança Feliz, que busca melhorar o desenvolvimento integral da criança, por meio de visitas domiciliares semanais, nas quais são fornecidas orientações sobre saúde, cultura, serviços sociais, educação, direitos humanos, entre outros; os beneficiários são mães grávidas e crianças com menos de três anos de idade pertencentes ao Programa Bolsa Família. Embora o estudo não tenha incluído número significativo de crianças pertencentes a esse programa, para determinar relação com a resiliência, alguns estudos demonstraram que as visitas domiciliares melhoram o desenvolvimento infantil e a cobertura vacinal dessas crianças, o que está associado a crianças saudáveis.(31)

Relativamente à visita domiciliária na primeira semana de vida, a maioria dos estudos se concentra nos bebês prematuros, devido ao elevado nível de estresse materno, sendo a visita domiciliária recurso positivo para aumentar a resiliência das mães e melhor desenvolvimento do bebê, e da mesma forma que o apoio das enfermeiras, durante a visita, favorece muito mais a confiança da mãe para cuidar do bebê do que outros profissionais.(32) Embora no presente estudo não haja amostra significante de pessoas que receberam a visita domiciliar, percebeu-se que o número de mães com alta resiliência foi maior entre aquelas que receberam as visitas, apontando para favorabilidade destas como recurso geral de resiliência.

Com relação à consulta de acompanhamento de crianças, espera-se que a criança tenha a primeira consulta aos 15 dias de vida, e as seguintes consultas aos 30 dias de vida; 2 meses; 4 meses; 6 meses; 9 meses; 12 meses; 15 meses; 2 anos; 4-6 anos; 7-9 anos; e 12 anos. Durante essas consultas, o acompanhamento interdisciplinar é essencial para fornecer informações sobre o desenvolvimento da criança nessa fase, para apoiar o desenvolvimento neuropsicomotor e detectar, a tempo, possíveis atrasos no crescimento ou desenvolvimento que possam afetar a saúde, portanto, faz parte do programa de Atenção Primária à Saúde e da vigilância da saúde infantil. Estudos mostram que pais de crianças saudáveis têm mais recursos salutogênicos do que aqueles que não têm, isso se deve aos altos níveis de estresse nos pais, quando as crianças têm deficiências no desenvolvimento motor ou mental,(33) condições que podem ser prevenidas com apoio contínuo, progressivo e interdisciplinar, e, como observado, há maior resiliência nos pais que levam os filhos a consultas de apoio e que recebem informações sobre o desenvolvimento da criança.

É necessário reconhecer que algumas mulheres podem ter características pessoais que as tornam naturalmente mais resilientes, mesmo diante de desafios. A resiliência pode atuar como elemento de proteção, auxiliando a superar barreiras e potenciais estressores. Desenvolver estratégias direcionadas às mulheres em situações de vulnerabilidades pode auxiliar no aumento da resiliência e na sua qualidade de vida,(34) pois a conexão com a maternidade denota algumas qualidades ou facetas de resiliência que são distintas neste período de vida, conceituada de três maneiras: um traço, considerado como fator de proteção; um processo, que possui efeitos no bem-estar e na saúde mental; e uma trajetória, exemplificada por padrões temporais que, nesse contexto, permite mudar o estudo de modelos patogênicos para mecanismos de proteção e outros fatores, como socioeconômicos e psicossociais e adaptação positiva em relação aos períodos de estresse,(35) cuja teoria da salutogênese permite realizar essa interpretação, na perspectiva positiva de saúde.

Ademais, as mulheres, sobretudo, mães de crianças pré-escolares, não estão acostumadas a serem indagadas sobre os mecanismos de resiliência e, por isso, as respostas podem não terem tido a precisão que se almejou, o que caracterizou viés de aceitação social, assim como a ocorrência das entrevistas majoritariamente dentro dos CEI, constituindo, portanto, limitações do estudo. No entanto, a resiliência é nuclear para o cuidado materno e se acredita que os resultados mostraram dados relevantes para trabalhar fatores protetores que aumentem a resiliência.

Conclusão

O grupo de mães que recebeu ajuda do governo federal, mediante o Programa Bolsa Família, em comparação com aquelas que não tinham acesso, apresentaram melhores níveis de resiliência e, portanto, é considerado recurso geral de resistência que possui efeitos na saúde das mães. Logo, hipóteses devem ser testadas, para que possam verificar se os incentivos do governo afetam ou contribuem para resiliência das pessoas, sobretudo as genitoras, e quais os respectivos efeitos.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Mar 2024
  • Aceito
    18 Ago 2025
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