Open-access A NASALIZAÇÃO DAS VOGAIS E DOS DITONGOS NO ANCESTRAL MEDIEVAL DO PORTUGUÊS BRASILEIRO ATUAL

Resumo

A finalidade deste trabalho é a de analisar a nasalização das vogais e dos ditongos presentes em 250 textos poéticos das vertentes religiosa e profana da lírica trovadoresca. O objetivo da pesquisa consiste em verificar, por meio da análise dos manuscritos remanescentes daquela época, se o til presente na representação gráfica das palavras encontradas no corpus era a abreviatura de uma consoante nasal ou se esse sinal simbolizava a nasalização da vogal e do ditongo. A metodologia se embasa em um estudo voltado à origem de tais palavras e à análise do contexto de ocorrência desses termos. A relevância deste estudo se mostra pela importância de se discutir as mudanças sofridas pelos segmentos, no contexto das palavras analisadas, no que diz respeito à nasalidade na diacronia do português. Essa evolução histórica foi definida por vários processos linguísticos, que nos auxiliam a compreender a trajetória desse fenômeno nesta língua. Os dados coletados demonstraram que a nasalidade presente na língua registrada nas cantigas vinha de períodos anteriores e era representada, na origem, por um elemento nasal n que, ao desaparecer, transferiu seu traço nasal para a vogal das imediações. Logo, mesmo que a nasal não fosse mais realizada foneticamente como uma consoante e sim como a nasalização de uma vogal, sílabas com vogais com marca de til (que já marcava nasalização da vogal na época) ou seguidas por consoante nasal no registro escrito do ancestral medieval do galego e do português se comportam como travadas por elemento consonântico, no nível fonológico.

Palavras-chave:
Nasalização; Vogais; ditongos; Ancestral do português brasileiro atual; Cantigas medievais galego-portuguesas

Abstract

This paper aims to analyse phonological phenomena from the medieval period of Portuguese (or Galician-Portuguese), investigating vowels and diphthongs’ nasalisation in 250 religious and secular troubadours’ poetical texts. Our objective is to verify whether the diacritic tilde in the graphic representation of words that survived in the considered manuscripts corresponds to an abbreviation of a nasal consonant or to a signal of the vowel/diphthong nasalisation. The methodology is based on the consideration of the word origin (=etymology) and the distribution of the graphic marks of nasalisation inside the word. Data show that nasality in the archaic period originates from nasal consonants present in previous periods in which it was graphically represented by n, which disappeared at the phonetic level, transferring its nasal feature to the nearest vowel. In this context, even if the nasal is not phonetically realised as a consonant but as vowel nasalisation, syllables containing nasal vowels phonologically still correspond to a syllable closed by a nasal element.

Keywords:
nasalisation; vowels; diphthongs; Ancient Portuguese; medieval Galician-Portuguese cantigas

Introdução e objetivo

Este artigo pretende realizar uma análise fonológica das vogais e dos ditongos que apresentam alguma marca gráfica de nasalidade (til ou consoante nasal em travamento silábico) na escrita do português arcaico (PA), termo que vamos adotar para nos referir ao ancestral medieval do português falado no Brasil (PB), em homenagem a Mattos e Silva (1989), comumente referido em outros trabalhos como “galego-português”.1 Esta análise busca verificar, por meio da análise da variação gráfica, das rimas dos cantares e da reconstrução da origem das palavras que têm tais elementos, o comportamento fonológico dos segmentos representados por elementos gráficos relativos à nasalidade na época em questão. Para realizar este estudo, foram selecionadas 250 cantigas galego-portuguesas: 100 Cantigas de Santa Maria (CSM), da linha religiosa; e 150 poemas da vertente profana, 50 de cada um dos três gêneros canônicos (amor, amigo e escárnio e maldizer).2

Este estudo busca elaborar uma caracterização das vogais e dos ditongos nasais de um período do passado, mais especificamente da etapa medieval da língua. Para tanto, fez-se imprescindível a realização de uma análise histórica, de natureza diacrônica, das palavras com elementos nasais, a fim de resgatarmos a origem dessa nasalização no latim e nas demais línguas românicas. Logo, embora o nosso foco seja a época arcaica da língua, em alguns momentos foi necessário recorrer ao latim (ou mesmo a outras línguas mais antigas, como grego, dependendo da procedência dos vocábulos estudados) para conseguirmos esclarecer pontos em aberto.

Segundo Mattos e Silva (2006), a língua do período arcaico ainda não tinha uma norma ortográfica padrão instituída por lei, o que fazia com que a documentação daquela etapa exibisse muita variação na representação da escrita. Segundo a autora:

Caracteriza a documentação escrita dessa época a variação. Não apenas variação na grafia – as primeiras propostas de ortografia para o português se iniciam nos meados do século XVI – mas também a variação na morfologia e na sintaxe. Pela variação gráfica se podem depreender indícios de realizações fônicas conviventes e pela variação morfológica e sintática podem ser percebidas possibilidades estruturais, então em uso, que são indicadores para mudanças que depois vieram a ocorrer e que, a partir da normatização gramatical, a documentação escrita exclui, já que serão sempre algumas das variantes as selecionadas para o uso escrito normativizado das línguas. Com isso queremos pôr em destaque o fato de que o texto escrito do período arcaico se aproxima, em geral, mais da fala do que os textos escritos posteriores à normativização gramatical (Mattos e Silva, 2006, p. 17).

Assim, Mattos e Silva (2006) acredita que o material remanescente do PA é um relevante subsídio para o conhecimento da língua em uso na época, apesar das restrições necessariamente impostas na transferência do oral para o escrito3. Como a variação na grafia dominava as poesias produzidas na Idade Média, os elementos nasais eram representados de formas diferentes. Neste artigo, focalizaremos as vogais e os ditongos que apresentem marcas gráficas relativas à representação da nasalidade, visando esclarecer determinadas questões que ainda não têm uma conclusão na literatura.

Massini-Cagliari (2015) nota que trabalhos anteriores acerca da fase medieval, como os de Granucci (2001) e Biagioni (2002), revelaram que as vogais nasais daquela época não podem ser consideradas como intrinsecamente nasais, mas como sendo o resultado do espraiamento de um traço nasal de uma consoante não especificada, localizada na coda da sílaba. Wetzels (1997), em seus estudos sobre o português brasileiro, defende que sílabas que contêm vogais nasais são pesadas, com dois slots preenchidos na rima.

No PA, palavras escritas com <n> e <m> em coda, muitas vezes, apresentam uma escrita com <~>, por exemplo: bem/ben/bẽ. Essas representações escritas são, naquela etapa da língua4, representações possíveis de uma mesma palavra. No entanto, o til é amplamente usado como um sinal de abreviação nos diferentes manuscritos que representam textos da época do PA, contemporâneos a ele ou não. Assim, seria o til a abreviatura, na grafia, de uma consoante nasal ou esse sinal simbolizava a nasalização da vogal e do ditongo? Camara Jr. (1979 [1975], p. 63) exibe que o til, “sobreposto à letra vogal, [...] era de início uma abreviação do n de que lançavam mão os copistas medievais”.

Como se vê, há muitas questões em aberto com relação à nasalização no período arcaico. Este artigo busca, por meio da análise das cantigas religiosas e profanas selecionadas, contribuir para o esclarecimento das temáticas elencadas anteriormente. Como mencionamos, embora este estudo objetive a realização de um trabalho focado no estágio medieval da língua, os resultados obtidos podem contribuir, futuramente, para a elaboração de estudos etimológicos e diacrônicos acerca do português, tendo em vista a análise aqui empreendida a respeito da origem de diversas palavras.

Os cantares do medievo

Mongelli (2009) expõe que a lírica trovadoresca, durante seus trezentos anos de vigência no Ocidente, diferenciou-se das demais composições devido à sua aliança com a música e à sua inserção em um contexto feudal de restritas opções de temas. Neste trabalho, optou-se por textos das vertentes religiosa e profana da lírica medieval a fim de representar, por meio do corpus, as particularidades de uma época de extrema importância para a constituição do português.

As CSM se caracterizam por retratarem a forte religiosidade daquela fase. Tais textos se singularizam por terem a sua autoria conferida ao rei de Leão e Castela, Dom Afonso X, o sábio, embora pesquisas indiquem que o monarca não produziu todos eles. Leão (2007) menciona que, apesar de o rei ter escrito parte das composições, teve ajuda de seus colaboradores para a criação da maioria dos textos. Segundo Parkinson (1998), não se sabe, ao certo, quais foram os colaboradores do rei, mas acredita-se que eles só podem ter sido os trovadores conhecidos da época.

Massini-Cagliari (2015) comenta que as CSM foram feitas na segunda metade do século XIII. A coleção religiosa, segundo a autora, apresenta 427 poemas em louvor da Virgem Maria. Desse total, sete obras aparecem duas vezes. Existem dois tipos de CSM: de milagre e de louvor. Mongelli (2009) explica que o primeiro tipo compreende narrativas das intervenções milagrosas da Virgem em favor de seus fiéis; já o segundo tipo é conhecido por ser mais pessoal e subjetivo, abarcando poemas em que o rei louva as virtudes e a beleza de Maria.

Segundo Leão (2002), as CSM não demonstram somente um panorama da vida religiosa da Idade Média medieval, mas expõem a vida do povo em toda a sua complexidade ao narrar o cotidiano feudal na Península Ibérica em detalhes. Assim sendo, as cantigas religiosas oferecem ao leitor não só dados referentes aos hábitos da população daquela época, mas mostram também as doenças, os jogos, as profissões, a prostituição, as práticas monásticas etc.

Mongelli (2009) e Massini-Cagliari (2015) mencionam que o conjunto da lírica religiosa está em quatro códices. Parkinson (1998) expõe que os quatro códices representam um processo de ampliação e de evolução, porque, inicialmente, o número de cantigas produzido foi o de 100, pertencentes ao códice Toledo (To), o menor e o mais antigo dos códices. O códice Rico (T) foi o segundo a ser produzido devido ao desejo do rei de ampliar o códice inicial. O T é considerado o manuscrito mais rico em conteúdo artístico, com miniaturas decorando seus fólios. Mais tarde, uma cópia menos decorada do T foi realizada. Surge, assim, o códice Escorial Músicos (E), tido como o mais completo dos quatro códices. Por fim, há o códice Florença (F), também entendido como sendo uma cópia. F, considerado um segundo volume de T, é bastante incompleto e forma com o T o que ficou conhecido como Códices das Histórias.

Em relação ao conjunto profano, Massini-Cagliari (2007) esclarece que essa vertente da lírica trovadoresca é formada por mais de 1.700 cantigas, cuja autoria é atribuída a cerca de 160 trovadores. As composições pertencentes à lírica profana demonstram sua representatividade por englobarem diferentes épocas, locais, categorias sociais e nacionalidades. Esses poemas são considerados verdadeiros patrimônios poéticos e foram escritos em três gêneros:

  • Cantigas de amor: são obras em que o trovador se dirige diretamente à dama, mostrando sua submissão absoluta a ela. Singulariza-se por ser um tipo de texto mais culto, cortesão e erudito (Bueno, 1968).

  • Cantigas de amigo: opõem-se às de amor, visto que a mulher toma a iniciativa, deixando de ser um objeto passivo de veneração longínqua e passando a ser um sujeito ativo frente ao afeto do namorado (Bueno, 1968). Foram escritas por homens, embora apareçam sob a voz de uma mulher. É um gênero mais comprometido com a dança e com a música, e, se comparado às de amor, é mais popular e nacional (Massini-Cagliari, 2007).

  • Cantigas de escárnio e maldizer: de acordo com Massini-Cagliari (2007), consistem em sátiras morais, políticas e literárias, tenções, paródias, prantos e maledicências pessoais. Mongelli (2009) expõe que a razão de ser dessas obras é a ambiguidade e o contraste. É unânime entre os críticos o fato de que tais poesias pretendem mais divertir o seu público do que denunciar as mazelas sociais da época.

Massini-Cagliari (2007) afirma que muito pouco da produção da fase arcaica sobreviveu até hoje, restando apenas três cancioneiros, contendo compilações gerais, e cinco folhas avulsas, com um ou mais textos. Em resumo, o que se conservou da produção profana daquela etapa são oito testemunhos, datados entre o fim do século XII e o século XVI.

Para a realização deste artigo, fizemos uso dos três manuscritos profanos. O Cancioneiro da Ajuda (CA), para Massini-Cagliari (2007), é considerado o manuscrito mais contemporâneo aos trovadores (fim do século XIII e começo do século XIV) e o único com procedência ibérica. O CA apresenta somente cantigas de amor e não tem a notação musical de nenhum dos cantares. O Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (CBN) é o mais completo dos três cancioneiros profanos, sendo o testemunho único de cerca de 250 cantares. Abriga, em média, 1.560 cantigas, também sem notação musical, pertencentes aos três gêneros canônicos, de autoria de mais de 150 trovadores. Já o Cancioneiro da Vaticana (CV) é considerado o irmão do CBN em virtude de ambos apresentarem um número significativo de textos em comum. O CBN e o CV são tidos como cópias realizadas na Itália na segunda metade do século XVI. O CV apresenta o texto sem notação musical de 1.200 poesias e tem uma grande lacuna, que o priva de 390 textos (presentes no CBN).

Metodologia

O método de estudo adotado neste artigo se baseia na análise das representações gráficas das palavras com marcas de representação de nasalidade em vogais e ditongos coletadas no corpus e no estudo da origem dos termos que apresentam tais elementos. Primeiramente, foi feita a coleta de todas as palavras com vogais e ditongos com marcas gráficas de representação de nasalidade nos 250 poemas trovadorescos. Essa primeira coleta foi realizada usando edições atualizadas5 das composições poéticas para facilitar a busca e o entendimento de todas as palavras e a organização dos dados encontrados.

Em um segundo momento, depois de feita a coleta de todos os casos de vogais e ditongos com til nos 250 textos galego-portugueses, fez-se a conferência de todos os vocábulos coletados nas edições fac-similadas. Esse tipo de edição oferece ao pesquisador o dado real, sem alterações provindas de edição. Trata-se de uma fotografia, em tamanho real, do manuscrito em que se localiza o texto. O uso dos fac-símiles se faz de grande relevância para pesquisas que buscam analisar os escritos do passado, visto que apresentam o dado na íntegra, sem qualquer interferência.6

Depois de realizar o mapeamento das 250 cantigas que compõem nosso corpus, os dados coletados foram estudados de modo qualitativo. As ocorrências de variação escrita, as rimas das cantigas e a origem dos vocábulos nos quais as vogais e os ditongos nasais se encontram trazem, de forma indireta, vestígios a respeito da realização fonética e da função fonológica desses elementos da língua registrada nas cantigas. Assim, um estudo pormenorizado de tais aspectos se faz de suma importância para a análise por nós empreendida, uma vez que a observação das possibilidades e das impossibilidades de rimas entre terminações idênticas pode indicar se tais terminações tinham ou não a mesma pronúncia, naquele período.

Breve panorama das vogais e dos ditongos nasais do português

Camara Jr. (1985 [1970]) explica que existem dois tipos de nasalização das vogais do PB: uma fonológica, em que há distinção entre a realização nasal e a não nasal; e uma fonética, na qual não há oposição. Para o autor:

[...] é preciso assinalar, portanto, que uma nasalidade como junta, oposto a juta, ou de cinto, oposto a cito, ou de lenda, oposto a leda, e assim por diante, não se deve confundir com uma pronúncia levemente nasal da primeira vogal de amo, ou de cimo, ou de uma, ou de tema etc., em que o falante tende a antecipar o abaixamento do véu palatino, necessário à emissão da consoante na sílaba seguinte, e emite já nasalada a vogal precedente. Aí, não há oposição entre a vogal nasalada e a vogal, também possível, sem qualquer nasalação. Com a nasalação, ou sem ela, aparecerão sempre as mesmas formas vocabulares, ano, cimo, uma, tema etc. (Camara Jr., 1985 [1970]), p. 47).

Segundo Camara Jr. (2019), a vogal nasal compreende um grupo de dois fonemas, que se combinam na sílaba (vogal + elemento nasal). Logo, o que se tem dentro da sílaba é uma vogal travada por um elemento nasal, conhecido como arquifonema /N/. O estudioso expõe que esse arquifonema se realiza como m diante de consoante labial na sílaba seguinte, como n diante de consoante anterior nas mesmas condições e como alofone ñ posterior antes de vogal posterior (como campo, lenda e sangue). Tais colocações, segundo Camara Jr. (1986 [1970], p. 58), foram observadas desde o século XIX, nos trabalhos de Gonçalves Viana.

Wetzels (1997) se filia aos trabalhos de Camara Jr. ao defender que as sílabas com vogais nasais se comportam como sílabas fechadas por elemento consonantal. Camara Jr. (1985[1970], p. 59-60) lista alguns argumentos a favor de sua interpretação7:

  1. A crase entre vogais (grand’amor), frequente em PE, não ocorre quando a primeira delas é uma nasal: lã azul e bom homem.

  2. Depois de vogal nasal só se realiza r-forte e nunca r-brando: genro e honra.

  3. Dentro da palavra, não há, em português, vogal nasal em hiato. Portanto, ou a nasalidade que envolve a vogal desaparece, como em boa x bom, ou o segmento consonântico nasal se desloca para a sílaba seguinte, como em valentona x valentão. Assim, a não existência de vogal nasal em hiato mostra que o arquifonema /N/ se porta como qualquer consoante nasal intervocálica.

Os argumentos postulados por Camara Jr. (1985 [1970]) são cruciais para a consideração da existência de uma consoante nasal após a vogal vista como nasal, pois: 1) O bloqueio à crase, em sequências de termos em que o primeiro deles termina em vogal nasal, indica a presença de uma nasal interveniente; 2) O fato de somente existir r-forte depois de sílabas com vogais nasais sinaliza a presença de uma consoante entre a vogal e a rótica; 3) A impossibilidade de se ter um hiato com uma vogal nasal seguida de outra vogal evidencia que há um obstáculo entre as vogais em questão (Bisol, 2013, p. 113-114).

Aos argumentos de Camara Jr. (1985 [1970]) Bisol (2013) acrescenta mais um: o prefixo in-, presente em infeliz e incapaz, por exemplo, ao perder o elemento nasal diante de laterais ou vibrantes por um processo de assimilação, emerge com vogal oral. Dessa maneira, tem-se: in + legal > illegal > ilegal; in + regular > irregular. Esses casos, segundo a autora, são indícios de que, na sequência in, /i/ é uma vogal oral. Ademais, também representa uma vogal oral ao passar a nasal para o ataque, como em inadmissível e inoperante.

Bisol (2013, p. 132) pondera que não há no processo de nasalização da língua portuguesa o espraiamento a longa distância (observado em outros idiomas). Desse modo, em português, a nasalidade se estende somente à vogal vizinha. Segundo Moraes (2013, p. 96), a consoante da qual se propaga o traço [+ nasal], nas diversas línguas que apresentam o fenômeno, pode ocupar, na sílaba, três posições:

  1. coda silábica, caracterizando um processo de assimilação regressiva;

  2. ataque silábico, em posição intervocálica, o que permite que a nasalidade se propague, regressivamente, para a esquerda;

  3. ataque silábico, caracterizando um processo de assimilação progressiva.

Wetzels (1997) afirma que as vogais nasais (fonológicas) e as nasalizadas (fonéticas) do português são resultado de assimilação regressiva, ou seja, uma vogal oral assimila o traço nasal da consoante que a segue. Ao analisar os dialetos carioca e paulista, o estudioso explicita que a nasalização alofônica (fonética) se aplica (quase) obrigatoriamente às vogais acentuadas (como, por exemplo, em [ˈdõnʊ], dono) e excepcionalmente às vogais não acentuadas (como observado em [aˈmoh]/[ãˈmoh], amor). Já a nasalização fonológica, ou contrastiva, tem caráter obrigatório e não é sensível ao acento, nasalizando tanto vogais acentuadas como não acentuadas.

Mattos e Silva (2006, p. 67) expõe que as vogais e ditongos nasais do português resultam de vogais seguidas de consoantes nasais no latim. Tais consoantes podiam estar em coda silábica (lat.: dente/port.: dente); no contexto intervocálico, em que a consoante do latim vai desaparecer (lat.: lana, manu/port.: , mão); na posição final do termo (lat.: cum/port.: com); e, também, na contiguidade da consoante nasal que inicia a sílaba subsequente (lat.: amare, annu-/port.: amar, ano). Acerca desse último caso, a autora menciona que a queda da consoante nasal intervocálica deixou o traço nasal da vogal que a precedia e essa nasalidade se expandiu à vogal seguinte. Na documentação arcaica verificada pela estudiosa, a consequência fônica disso foi o aparecimento de hiatos constituídos de vogais nasais, que sofrerão mudanças futuramente.

Mattos e Silva (2006, p. 69) pontua que as vogais de mesma altura que ficaram contíguas pela queda da nasal n intervocálica sofreram, com o tempo, crase, ou seja, fundiram-se. A escrita da vogal duplicada com a nasalidade marcada por til era frequente nas poesias do PA. Mattos e Silva (2006) cita que essas grafias, como lãa, bõo, tẽer (latim: lana, bonu, tenere), prolongaram-se até o século XV. No entanto, a fusão de tais vogais começou a se realizar desde o século XIII, constituindo, assim, vogais nasais.

Já quando a perda da nasal intervocálica colocou em contato vogais de alturas diferentes, ocorreram, segundo Mattos e Silva (2006), hiatos vocálicos, em que a vogal antecedente ao -n- etimológico se tornou nasal. Tais hiatos serão desfeitos por várias regras fonéticas no transcorrer do período medieval. Os exemplos apresentados pela autora, bem como os exemplos anteriores, fazem parte do nosso corpus:

(1)

Como se vê, o traço nasal desaparece em perdoar, coroa e boa. Na palavra menos, ocorre a reinserção da nasal etimológica em português moderno. Em cheia, alheio e seio, as sequências <eo/ea>, observadas no século XVI, foram desfeitas pela inserção de uma semivogal anterior e palatal, constituindo-se um ditongo. Em vĩo (do latim), o hiato foi desfeito pela inserção de uma consoante nasal palatal <nh> (Mattos e Silva, 2006, p, p. 70-71).

Segundo Teyssier (1994), existiam cinco vogais nasais no português arcaico, a saber: ᾶ, e͂, ĩ, õ, ũ. Mattos e Silva (2006, p. 68) esclarece que, “na documentação manuscrita medieval, a representação da nasalidade” poderia aparecer registrada “com til sobre a vogal ou com n ou m seguindo a vogal, de acordo com a grafia do latim”. Tal afirmação foi comprovada nesta análise, visto que uma mesma palavra, dentro de uma mesma cantiga, apresentava diferentes grafias dos elementos nasais, como pode ser visto na figura 1, em que voontade(s) aparece de duas maneiras distintas: com til e sem n, e sem til e com n.

Figura 1
Voõtades/Voontade (CSM 36 no To)8

Segundo Maia (1986), o ditongo nasal ão do português, presente em palavras como mão, cão e coração, é proveniente de três distintas terminações do latim: -anu, -ane e -one. Mattos e Silva (2006) pontua que a queda da nasal -n- intervocálica está na origem do ditongo ão, porque, no latim, no PA e no português do século XVI, tinha-se:

(2)

Como mostrado em (2), as terminações latinas -ane e -one resultaram, em PA, em -an e -on, respectivamente, em virtude da queda da vogal final e. Mattos e Silva (2006) expõe que os estudiosos pressupõem, do ponto de vista fonético, que o travamento nasal presente em an e on favoreceu o desenvolvimento de uma semivogal, que, posteriormente, veio a se ditongar com a vogal nasal antecedente. Nessa proposta, o segmento nasal, depois de transferir o seu traço nasal para a vogal anterior, permaneceu, mas sob a forma de uma semivogal (com traços semelhantes aos da vogal precedente).

Massini-Cagliari (2011) realizou um trabalho em que investigou as terminações nasais do português antigo por um viés diacrônico. Em sua pesquisa, a estudiosa revela que o plural das formas cujo ditongo ão é proveniente de -ane e -one, na perspectiva fonética, é explicado devido à queda de -n- que, ao ser apagado, transferiu seu traço nasal para a vogal anterior: canes > cães; corationes > corações. Acerca das terminações nasais compostas por vogais iguais ou semelhantes no latim (como -ana e -onu), a autora pontua que a ressonância nasal foi preservada após a queda de -n- intervocálico, tendo ocorrido, em um momento posterior, a crase das vogais contíguas finais. A seguir, apresentamos exemplos que também constam em nosso corpus:

(3)

Para Parkinson (1993, 1997), Massini-Cagliari (1995, 1999) e Fonte (2011), as terminações latinas -anu, -ane e -one originaram hiatos no PA e não ditongos, isto é, embora as terminações ão, ães e ões, nos dias de hoje, sejam consideradas ditongos, isso não era constatado ainda no português arcaico. Assim, naquele período, ão, ães e ões eram hiatos que, posteriormente, ditongaram-se9. Esse fato foi verificado pelos estudiosos, nas obras da época medieval, por meio da análise da métrica das poesias, em que constataram que, na escansão dos versos, as vogais das terminações em questão pertenciam a sílabas distintas.

A seguir, exibimos um exemplo retirado da CSM 4. Esse texto apresenta somente versos com sete sílabas poéticas e, ao fazermos a escansão da poesia, comprovamos o que as estudiosas constataram em seus estudos. Cabe pontuar que contamos as sílabas poéticas até a última tônica, por isso, destacamos as últimas tônicas dos versos. No exemplo em (4), é possível verificar que, para que todos os versos tenham sete sílabas poéticas, crischãos foi segmentado como cris-chã-os, uma vez que ãos era um hiato no PA.

(4)

Além disso, Massini-Cagliari (1995, 1999) e Fonte (2011) revelam que as vogais dos termos terminados em -ãa, como lãa, vãa, sãa, antivãa, grãa, entre outros, também não ocupam a mesma sílaba nas cantigas, o que significa que, no ancestral medieval do português que dava suporte às cantigas analisadas, as vogais finais dessas palavras ainda não tinham sofrido crase. Cabe acrescentar, segundo Fonte (2011), que as terminações -an/-am, do latim -ane, não se confundiam, nas CSM, com a terminação -ãa, resultante da terminação -ana.

Levantamento e análise dos dados

Coletou-se, nos 250 poemas que compõem o corpus, uma amostragem de 1.368 palavras escritas com vogais e ditongos com marcas gráficas relacionadas à representação da nasalidade. Desse total, 1.185 palavras pertencem às canções religiosas e 183 às cantigas profanas. Nos quadros 1 e 2, apresentamos a listagem de palavras encontradas. Para facilitar a visualização, os vocábulos repetidos foram retirados.

Quadro 1
– Palavras com vogais e ditongos com til nas CSM

Quadro 2
– Palavras com vogais e ditongos com til nas cantigas profanas

Para analisarmos a nasalidade das palavras presentes nos quadros 1 e 2, este trabalho irá recorrer à etimologia, a fim de tentar desvendar a origem do traço nasal das vogais e dos ditongos da língua registrada nas cantigas. Como exposto anteriormente, o processo de assimilação da nasalidade ocorre quando há um compartilhamento do traço nasal entre sílabas vizinhas. Logo, neste artigo, consideramos que a nasalidade de tais elementos do português trovadoresco provém, muito possivelmente, de elementos nasais que estavam nas imediações e que, por vários motivos, podem ter desaparecido enquanto consoantes. Acerca da nasalidade referente à vogal <ã>, construímos o quadro que se segue:

Em relação às palavras grafadas com vogal nasal <ã>, tem-se que todas as ocorrências de nasalização vêm de uma consoante nasal que estava nas imediações na origem do vocábulo ou em algum ponto de sua constituição. Como demonstrado no quadro 3, os termos listados apresentavam, anteriormente, uma consoante nasal n na sílaba seguinte em que, na escrita das cantigas, localiza-se o sinal do til. Então, por exemplo, vãydade vem do latim vanitate, sãar vem do latim sanare, e assim por diante. A época arcaica do português, dessa forma, ainda conservava o traço nasal presente na origem dessas palavras, que, com o tempo, sofreram pela atuação de diferentes processos de mudança. Em alguns dados, como gãar e estrãya/o, deu-se a palatalização do traço nasal latino, originando ganhar e estranha/o. Outros resgataram a consoante n presente no latim e a preservaram até os dias atuais, como mãefestou/manifestou e esvãeçeu/desvanecer. Também houve casos em que a nasalidade ainda existente em PA se perdeu na passagem para o PB, como se observa em vaidade. O termo afã manteve sua configuração arcaica até hoje; já eãyo e alermã não sobreviveram no português brasileiro contemporâneo.

Quadro 3
– Etimologia das palavras com vogal nasal <ã>

Em seguida, retratamos a etimologia das palavras escritas com <ẽ>:

Assim como ocorreu nos vocábulos com vogais nasais <ã>, várias das palavras com <ẽ> são o resultado da queda da consoante intervocálica nasal <n> do latim. Com o desaparecimento desse segmento, o traço de nasalidade foi transferido para a vogal precedente, como apresentado por meio do quadro 4. Tal fato foi constatado na grande maioria das palavras listadas no referido quadro, com exceção de amercẽar, que se singulariza por expressar uma outra origem. A palavra em questão não foi localizada em nenhum dos dicionários etimológicos consultados. Houaiss (2009), por sua vez, apresenta a etimologia do termo como sendo a + mercê + ar. Tal descrição, contudo, não apresenta o traço nasal presente em amercar. Ao analisarmos o contexto em que tal palavra aparece na CSM 93, temos:

Quadro 4
– Etimologia das palavras com vogal nasal <ẽ>

(5)

Amercẽar está rimando com sãar na estrofe transcrita anteriormente, em (5). Sãar, como veremos mais adiante, vem do latim sanare (sanar). Logo, a nasalidade presente na forma latina (representada pela consoante intervocálica n) passou a figurar acima da vogal da primeira sílaba da palavra (sãar), conservando o traço nasal após a queda da consoante n. Embora a origem do termo amercẽar seja de difícil reconstrução, pode-se considerar que, em algum momento de sua constituição, teria existido uma consoante nasal que, ao desaparecer, transferiu sua nasalidade para a vogal e.

Sobre as palavras grafadas com as vogais <ĩ> ou <ỹ>, elaboramos o quadro 5:

Quadro 5
– Etimologia das palavras com vogal nasal <ĩ/ỹ>

Em relação aos casos exibidos no quadro 5, tem-se que a transferência da nasalidade em razão do desaparecimento, em um momento anterior, do elemento intervocálico -n- segue sendo o fenômeno predominante. É importante pontuar que algumas das palavras com <ĩ> ou <ỹ> estão no diminutivo. Segundo Abreu (2012, p. 59), para o sufixo diminutivo no ancestral medieval do português, o som /i/ era representado por <y> em -ynno e -ỹo e por <i> em -inno e -ĩo. Dessa forma, em PA havia, segundo a pesquisadora, letras diferentes sendo usadas para representar graficamente o mesmo som e, portanto, quatro grafias distintas para o sufixo -inho.10 O som /ɲ/ do referido sufixo, assim sendo, era representado, naquela época, por <nn/nh> ou por um til colocado sobre as vogais <i> ou <y> anteriores.

A terminação -ĩo/-ỹo não aparecia apenas em diminutivos da língua da Idade Média. Por exemplo, segundo Mettmann (1972, p. 191), menĩo/menỹo são só algumas das escritas possíveis da palavra menino em português medieval. Esse termo, proveniente do latim minimu ou meninu, como mostrado no quadro 5, apresentava muitas representações gráficas naquela época, a saber: meninno, mininno, menino, menyno, menĩo, minĩo, menỹo, minỹo, menĩno. Essas representações variavam, inclusive, dentro da mesma cantiga no interior do mesmo códice. A seguir, retratamos as representações escritas da palavra menino localizadas no cancioneiro T. Todos os casos foram retirados de uma mesma composição poética (CSM 53).

Figura 2
– Representações gráficas de menino na CSM 53

Acerca da vogal nasal <õ>, foram apuradas as seguintes ocorrências:

Assim como nos demais quadros, o quadro 6 expõe que a nasalidade das vogais do PA (expressa graficamente por meio do til) vem da origem desses termos, que, no passado, perderam a consoante intervocálica nasal -n-. Um fato interessante acerca dos dados listados no quadro 6 é que muitas dessas palavras são substantivos femininos que, na etapa medieval, ainda não tinham perdido o traço nasal. Ladrõa, leõa e varõa, no PA, mantinham a nasalidade presente nos termos correspondentes masculinos: ladrão, leão e varão. Com o tempo, tais palavras perderam o traço nasal da forma masculina, uma vez que, em português, hoje em dia, temos as grafias ladroa (ou ladra), leoa e varoa para as respectivas palavras. O substantivo infançõa, feminino de infanção, por sua vez, conservou a nasalidade por meio de uma nasal -n- intervocálica, no entanto, a grafia infançona aparece em pouquíssimos dicionários e é pouco empregada em PB. Para tal vocábulo, usa-se a palavra fidalga, sem traços de nasalidade.

Quadro 6
– Etimologia das palavras com vogal nasal <õ>

A respeito da vogal <ũ>, investigamos os dados listados no quadro 7:

Quadro 7
– Etimologia das palavras com vogal nasal <ũ>

O quadro 7 expõe, outra vez, o que Camara Jr. (1979 [1975], p. 63) postulou: a nasalidade observada nas palavras coletadas nas 250 cantigas medievais galego-portuguesas que compõem nosso corpus (representada por meio de um til sobre uma vogal) correspondia a uma abreviatura “do n de que lançavam mão os copistas medievais”. Essa consoante n, conforme demonstramos, estava, na verdade, na origem dos vocábulos, geralmente latina.

Em relação aos casos com duas vogais iguais seguidas, em que uma delas apresenta uma marca de til, construímos o quadro 8:

Quadro 8
– Etimologia das palavras com sequência de vogais iguais

Assim como o quadro 6, o quadro 8 retrata vários substantivos femininos que, em razão do correspondente masculino, geralmente terminado em -ão, ainda carregavam a nasalidade em PA. Como se pode verificar no quadro 8, muitos substantivos masculinos terminados em -ão da língua dos trovadores tinham a forma feminina terminada em -ãa, como são/sãa. No entanto, a terminação -ãa não era exclusiva das palavras femininas que apresentavam uma correspondente masculina terminada em -ão. Vocábulos como lãa, rãa, quintãa e maçãa, por exemplo, não têm um correspondente masculino, apenas a forma feminina, e trazem a nasalidade devido à origem, muitas vezes latina. Como nos outros quadros, havia uma nasal n intervocálica na origem desses termos, que, com o tempo, desapareceu. A grande maioria das palavras listadas no quadro 8 têm seu traço nasal proveniente justamente da queda da nasal latina -n-.

Dois termos do quadro 8 se diferenciam dos outros por não apresentarem, na sua origem, uma nasal intervocálica -n- após a vogal que, em PA, carregava um til: remĩir e mẽesmo. Remĩir, atual redimir, vem do latim redimere; já mẽesmo (mesmo, em PB) vem do latim metipsimu. Para o segundo vocábulo, Mettmann (1972, p. 190) esclarece que, nos cancioneiros arcaicos, a forma menesmo variava com mẽesmo, o que explica a presença do til em mẽesmo. Contudo, em relação à palavra remĩir, a única variação escrita localizada nos códices foi a queda do til: remĩir aparece como remiir no T. Nascentes (1955, 1966) exibe que tal termo era representado como remiir ou reimir no PA. Assim, embora reconstruir o trajeto histórico desse termo seja uma tarefa de difícil execução, haja vista a pouca documentação encontrada sobre o referido termo, pode-se entender que a nasalidade de remĩir tenha surgido na passagem do latim para a língua falada na época dos trovadores, época em que as grafias com e sem til coexistiram.

Por fim, exibimos os quadros 9 e 10, nos quais foram listados todos os casos de <ão/ãos> e <ões>. Convém relembrar que, no período focalizado por este estudo, essas terminações ainda não eram ditongos, mas sim hiatos.

Quadro 9
– Etimologia das palavras com <ão/ãos>

Quadro 10
– Etimologia das palavras com <ões>

Sobre as palavras terminadas em <ão/ãos> e <ões>, percebe-se que, para além dos dados em que houve a queda do -n- intervocálico do latim na passagem para o PA, várias palavras têm origem em vocábulos que apresentavam final -on. Em alguns dos casos exibidos nos quadros 9 e 10, não foi possível localizar a origem primeira do termo, no entanto, conseguimos apurar, ao menos, parte do caminho de sua constituição. Nos fragmentos mapeados, pôde-se recuperar que a nasalidade presente no PA vinha de estágios anteriores, sempre representada na escrita latina por um elemento nasal n, que, ao desaparecer, transferiu seu traço nasal para a vogal anterior.

Considerações finais

Este trabalho, embora tenha focalizado o ancestral medieval do português, consistiu em um estudo de natureza histórica dos termos com vogais e ditongos que apresentavam marcas gráficas usuais para a representação da nasalidade (til ou consoantes nasais). Ao olharmos para a origem das palavras presentes no período trovadoresco, pudemos compreender que a presença do til, anteriormente empregado graficamente para representar a abreviatura de uma consoante nasal suprimida, não se resume simplesmente à representação da nasalização da vogal e do ditongo do PA, mas simboliza, por este motivo, a queda de um elemento nasal n que antes figurava após essa vogal.

Por meio da análise da variação gráfica, das rimas e da origem das palavras nas quais as vogais e os ditongos com marcas gráficas representativas de nasalidade se situam, foi possível determinar que a nasalização do PA, representada, na escrita, pelo til, é o resultado da existência de uma consoante nasal n na origem das palavras. Essa consoante, geralmente vinda do ancestral latino e ocupando na palavra o contexto intervocálico, teria desaparecido e transferido seu traço nasal para a vogal que se encontrava na sílaba anterior. Convém pontuar que o til, mesmo podendo ainda representar, na época ora analisada, a abreviatura de um elemento consonantal nasal no travamento silábico, por certo já tinha passado a simbolizar, no período medieval da língua portuguesa, pelo menos algum nível de nasalização da vogal (ou das vogais, em ditongos).11

Assim, esta pesquisa se filia às concepções de Camara Jr. (1985 [1970]) e Wetzels (1997) acerca da configuração da vogal nasal do português, entendendo que tal vogal compreende uma combinação entre vogal + segmento nasal. Logo, sílabas com vogais nasais se comportam como travadas por elemento consonântico. Tal definição se revela assertiva quando nos voltamos para a origem das palavras do PA, como demonstramos ao longo deste estudo.

Agradecimentos

Agradecemos à FAPESP (Processo: 2022/09590-4) e ao CNPq (Processo: 304657/2023-9) por viabilizarem a realização desta pesquisa.

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  • 1
    Embora Venâncio (2019) tenha questionado o uso do termo “português (arcaico)” para denominar o ancestral do português, afirmando que o mais correto seria adotar “galego”, uma vez que a língua nasce na Galiza, a discussão da adequação do rótulo dado à língua/às línguas ibéricas da época foge ao escopo deste trabalho.
  • 2
    Os critérios utilizados para selecionar as obras profanas se baseiam no trabalho de Massini-Cagliari (2015) e são: representatividade (escolhendo textos de autores de épocas diferentes), lugar e classe social.
  • 3
    Massini-Cagliari (1998) explica que a escrita do português arcaico se embasava na latina, que compreendia uma grafia ortográfica e não fonética. Portanto, diversas forças regiam o sistema do PA, que não poderia ser considerado puramente como fonético. Dentre tais características, Massini-Cagliari (1998, p. 162) pontua que certos sons, como [ɲ] e [i], apresentavam várias representações no nível gráfico, pois que diferentes grafemas podiam simbolizar um mesmo som. Ademais, a mesma letra podia retratar sons distintos, como o grafema <i>, que manifestava, conforme hipótese da autora, o som [i] e o som fricativo palatal sonoro [ʒ].
  • 4
    É importante ressaltar que os dados daquele período da história provêm de manuscritos de diferentes épocas. Os códices que sobreviveram até os dias de hoje são todos cópias ou cópias de cópias. Logo, nenhum deles é o original das cantigas (Massini-Cagliari, 2007).
  • 5
    Para as CSM, usou-se Mettmann (1986) e, para as obras profanas, adotou-se Lopes e Ferreira et al. (2011-).
  • 6
    Massini-Cagliari (2015) explica que traços decisivos da versão original, como dados de variações gráficas, podem ter sido apagados de uma versão atualizada depois da aplicação de padrões ortográficos mais modernos. Por isso, o uso da fonte primária se faz imprescindível para esta pesquisa.
  • 7
    Camara Jr. (1985 [1970], p. 60) defende que essa interpretação também se aplica aos ditongos nasais do português, ou seja, os ditongos são compostos por uma sequência de duas vogais + arquifonema nasal. Por exemplo, em muito se tem a seguinte representação para o ditongo: /uiN/.
  • 8
    Transcrição dos versos, segundo Mettmann (1986, p, p. 150): muit’ amar devemos en nossas voontades / a Sennor, que coitas nos toll’ e tempestades. / Quand’ aquest’ oyron dizer a aquel sant’ abade, / enton todos dun coraçon e dũa voontade.
  • 9
    Segundo Bisol (1989, p, p. 205), ão é um ditongo verdadeiro do português, preenchendo (pelo menos) dois ambientes na rima da sílaba, ou seja, tem rima ramificada na estrutura subjacente.
  • 10
    Cabe pontuar que a consoante nasal palatal /ɲ/, representada na escrita do PB atual como <nh>, podia ser grafada de dois modos: <nn> ou <nh>. A forma <nn> aparece predominantemente nas CSM. Já nas obras profanas, <nn> aparece mais no CA (mais antigo, assim como as CSM); o CBN e o CV apresentam ambas as grafias.
  • 11
    Sobre a função do til como representação gráfica da nasalização de vogais no ancestral medieval do português, veja-se Barreto e Massini-Cagliari (no prelo).
  • Declaração de disponibilidade de dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • Editora responsável:
    Gisele Cássia de Sousa

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    2 Jul 2024
  • Aceito
    21 Out 2024
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