RESUMO
Os autores relatam a ocorrência de Cryptosporidium spp em bovinos e búfalos da região do Vale do Ribeira, Estado de São Paulo. Foram colhidas 121 amostras de fezes de bovinos e 130 amostras de fezes de búfalos. Os a1:ümais provinham de 21 propriedades dos municípios de Registro, Sete Barras, Juquiá, Pariquera-Açú e Eldorado. Os bovinos tinham entre 3 dias e 10 meses de idade e os búfalos entre 4 dias e 4 meses de idade. Os bovinos eram das raças Gir, Jersey ou mestiços, e os búfalos da raça Murrah ou mestiços. As propriedades eram produtoras de leite tipo C, com manejo semi-extensivo ou extensivo e as instalações eram coletivas com piso de concreto e limpeza diária ou não frequente. As amostras foram coletadas de animais com diarréia e sem diarréia. Para pesquisa dos oocistos de Cryptosporidium spp foram realizados esfregaços de fezes, sobre os quais se utilizou a técnica de Ziehl-Neelsen modificada. Das 121 amostras de fezes de bovinos examinadas, 21 (17,35%) estavam positivas para oocistos de Cryptosporidium spp: 8, entre as 37 provenientes de animais com diarréia e 13, entre as 84 de animais sem diarréia. Das 130 amostras de fezes de búfalos examinadas, 11 (8,46%) estavam positivas para oocistos de Cryptosporidium spp: 8, entre as 78 provenientes de animais com diarréia e 3, entre as 52 de animais sem diarréia. Os oocistos foram observados em amostras de fezes de bovinos provenientes de 8 entre as 12 propriedades pesquisadas; e em 7 das 9 propriedades de onde provinham os búfalos.
PALAVRAS-CHAVE:
Cryptosporidium, bovinos; búfalos; fezes.
ABSTRACT
The occurrence of oocysts of Cryptosporidium spp is reported in fecal samples of cattle and buffalo calves, ages of buffaloes varying from 4 days to 4 months old and ages of cattle varying from 3 days to 10 months old, from Vale do Ribeira, São Paulo State. The method utilized to detect oocysts was Ziehl-:t, reelsen modified. Oocysts were found in 21 (17.35%) out of 121 fecal samples of cattle calves examined; 8 out of 37 diarrheic and 13 out of 84 non-diarrheic. Oocysts were found in 11 (8.46%) out of 130 fecal samples of buffaloes calves examined: 8out of 78 diJrrheic and 3 out of 52 non-diarreheic. Cryptosporidium spp were found in 8 out of 12 properties from dairy calves and 7 out of 9 properties from buffalo calves.
KEY WORDS:
Cryptosporidium, cattle; buffaloes; faeces.
INTRODUÇÃO
Cryptosporidium - protozoário do filo Apicomplexa e agente etiológico da criptosporidiose - tem sido encontrado em grande diversidade de hospedeiros, destacando-se sua importância em sanidade animal por ser um dos agentes enteropatogênicos responsáveis por diarréias neonatais (CHERMETTE & BOUFASSA-OUZROUT, 1988).
A diarréia neonatal é um quadro complexo, que pode acarretar altas taxas de morbidade e mortalidade. Além dos gastos com a medicação, os prejuízos podem incluir até a morte do animal ou redução do desenvolvimento, comprometendo os índices de ganho de peso ou produção leiteira (PIANTA, 1993).
Nos quadros clínicos diarréicos o Cryptosporidium pode estar associado a outros agentes infecciosos (bactérias, vírus, parasitas), além disso as variáveis relativas ao hospedeiro (idade, estado nutricional, as condições imunológicas, falha na ingestão de colostro), bem como doambiente (superpopulação, estresse, clima), podem ter influência no transcurso da infecção (PIANTA, 1993).
A importância do Cryptosporidium como agente primário foi comprovada por HEINE et al. (1984) em bezerros gnotobióticos, nos quais demonstraram a sua ação como agente de lesões na mucosa intestinal.
Um bezerro pode eliminar até 10 milhões de oocistos por grama de fezes. A resistência dos oocistos é muito grande, permanecendo viáveis durante meses a 4 ºC. A inibição do poder infectante é obtida pela ação do calor (65ºC/30 minutos) ou do frio (-18ºC/24 horas) (ANGUS, 1987). Segundo pesquisas realizadas por CAMPBELL et al. (1982) e ANGUS et al. (1982), foram eficazes para serem usados como desinfetantes contra oocistos de Cryptosporidium a solução de formaldeído a 10% e de am(mia a5% ou g 10% (ORTOLANI, 1988).
O fato da região do Vale do Ribeira, Estado de São Paulo, destacar-se pela sua importância na criação de búfalos e bovinos leiteiros e motivados pelos poucos estudos realizados nesta região sobre a ação do Cryptosporidium spp como agente etiológico de diarréias em búfalos e bovinos, decidiuse pesquisar, neste trabalho, a ocorrência deste parasita na região em pauta, procurando também correlacionar a presença do parasita com grupos etários e práticas de manejo.
MATERIAL E MÉTODOS
Bovinos:
-os bovinos provinham de 12 propriedades dos municípios de Registro, Sete Barras, Juquiá, Pariquera-Açú e Eldorado, no Vale do Ribeira, Estado de São Paulo.
-os animais, machos e fêmeas, tinham entre 3 dias e 10 meses de idade e eram das raças Gir, Jersey ou mestiços. As propriedades eram produtoras de leite tipo C e com manejo semi-extensivo. As instalações eram coletivas, com piso de concreto e limpeza diária. O número total de bezerros nestas propriedades era de 440 animais.
-foram colhidas 121 amostras de fezes de bovinos, sendo 37 de animais com diarréia e 84 de animais sem diarréia.
Búfalos:
-os búfalos provinham de 9 propriedades dos municípios de Registro, Sete Barras, Juquiá, Pariquera-Açú e Eldorado, no Vale do Ribeira, Estado de São Paulo.
-os animais, machos e fêmeas, tinham entre 4 dias e 4 meses de idade e eram da raça Murrah ou mestiços. As propriedades eram produtoras de leite tipo C, com manejo semi-extensivo (5 propriedades) ou extensivo (4 propriedades). As instalações eram coletivas, com piso de concreto e com limpeza diária (6 propriedades) ou não frequente (3 propriedades). O número total de bezerros nestas propriedades era de 402 animais.
-foram colhidas 130 amostras de fezes de búfalos, sendo 78 de animais com diarréia e 52 de animais sem diarréia.
Para observação dos oocistos de Cryptosporidium foram realizados esfregaços de fezes sobre os quais se utilizou a técnica de Ziehl-Neelsen modificada (HENRIKSEN & POHLENZ, 1981). Os oocistos foram identificados por suas características tintoriais, morfológicas e rnicrométricas.
Por ocasião da colheita de fezes, em cada propriedade, foi preenchido um questionário contendo informações diversas sobre as práticas de manejo: tipos de manejo, instalações, piso, comedouro, bebedouro, ingestão de colostro, alimentação, limpeza, medicamentos, etc.
RESULTADOS
Bovinos
Das 121 amostras de fezes de bovinos examinadas, 21 (17,35%) estavam positivas para oocistos de Cryptosporidium spp: 8 (21,62%), entre as 37 provenientes de animais com diarréia e 13 (15,48%), entre as 84 de animais sem diarréia.
Nos bovinos com diarréia foram encontrados mais positivos entre os animais com até 2 meses de idade. Nos sem diarréia os animais eliminaram oocistos com até 6 meses de idade.
De modo geral, foram encontrados mais animais positivos entre aqueles que tinham até 6 meses de idade, com ou sem diarréia.
Os oocistos foram observados em amostras de fezes de bovinos provenientes de 8 (66,67%) entre as 12 propriedades pesquisadas.
Búfalos
Das 130 amostras de fezes de búfalos examinadas, 11 (8,46%) estavam positivas para oocistos de Cryptosporidium spp: 8 (10,26%), entre as 78 provenientes de animais com diarréia e 3 (5,77%), entre as 52 de animais sem diarréia.
Os oocistos do protozoário foram observados nas diferentes faixas etárias, mas com predominância de positivos entre os animais com até 2 meses de idade e com diarréia.
Os oocistos foram observados em amostras de fezes de búfalos provenientes de 7 (77,78%) entre as 9 propriedades pesquisadas.
DISCUSSÃO
Com relação aos bovinos, alguns trabalhos foram realizados no Brasil pesquisando a presença de Cryptosporidium spp em fezes desses animais.
ORTOLANI (1988) examinou 400 amostras de fezes de bezerros com idades entre zero e 60 dias e provenientes de 43 rebanhos leiteiros do Estado de São Paulo. Entre as 200 amostras diarréicas, 38% estavam positivas para oocistos de Cryptosporidium spp, sendo mais frequente em animais com até 3 semanas de vida. Entre as 200 amostras de fezes não diarréicas, 11,5% continham oocistos do parasita, sendo mais frequente a partir da 2ª semana até o 60º dia de vida. Dos 43 rebanhos pesquisados, 25 (58,14%) continham animais positivos.
MODOLOet al. (1988) examinaram 23 bezerros, com idades entre 11 dias e 6 meses, da região de Botucatu, São Paulo. Entre os animais com diarréia, 6 (26%) apresentaram oocistos de Cryptosporidium spp e entre os sem diarréia 5 (25%) estavam positivos.
GRACIA et al. (1989) pesquisaram amostras de fezes diarréicas, provenientes de 32 bezerros de Alfenas, Minas Gerais e com uma a três semanas de idade. Estavam positivas 19 (59,40%) das amostras. Os animais foram tratados com antibióticos e fluidoterapia, mas 19 morreram apresentando diarréia profusa e desidratação intensa. Após o surto os outros animais continuaram eliminando oocistos de Cryptosporidium spp por até 8 meses e sem apresentar diarréia característica da doença.
SOUZA (1991) pesquisou amostras de fezes de 122 bezerros, com zero a 90 dias de idade, provenientes de 9 fazendas da bacia leiteira Sul fluminense no Estado do Rio de Janeiro. Dos 59 animais com menos de 30 dias de idade, 36 (61,02%) estavam positivos para oocistos de Cryptosporidium spp, sendo 24 sem diarréia e 12 com diarréia. Dos 63 bezeros com mais de 30 dias de idade, 52 (82,54%) estavam positivos, sendo 31 com diarréia e 21 sem diarréia.
GARCIA & LIMA (1993) examinaram 305 amostras de fezes de bezerros lactentes com até 60 dias de idade, de 23 propriedade leiteiras localizadas em 18 municípios de Minas Gerais. Das 194 amostras de fezes diarréicas, 61 (31,40%) continham oocistos de Cryptosporidium spp e das 111 amostras não diarréicas, 24 (21,62%) estavam positivas. Entre as 23 propriedades pesquisadas, 17 (74,0%) continham animais positivos.
GARCIA & LIMA (1994) pesquisaram amostras de fezes de 262 bezerros, com idades entre 2 e 60 dias, provenientes de 33 propriedades da bacia leiteira de Pará de Minas, Minas Gerais. Oocistos foram observados em 23 (69,7%) das 33 propriedades examinadas e em 51 (19,5%) dos 262 bezerros. A presença da infecção foi relacionada com a presença de diarréia.
Os resultados encontrados no presente trabalho são equivalentes aos observados por GARCIA & LIMA (1994), apesar de terem sido trabalhadas fezes de animais com até 10 meses de idade enquanto esses autores estudaram animais entre 2 e 60 dias de idade.
Os resultados obtidos no presente trabalho diferiram dos encontrados por ORTOLANI (1988), MODOLO et al. (1988), GRACIA et al. (1989), SOUZA (1991) e GARCIA & LIMA (1993) por fatores diversos. ORTOLANI (1988) e GARCIA & LIMA (1993) pesquisaram só animais com até 60 dias de idade - faixa etária reconhecidamente favorável ao desenvolvimento do parasita - o que pode justificar o fato de terem encontrado uma prevalência maior de animais positivos. MODOLO et al. (1988) pesquisaram um pequeno número de animais e isto pode ter influenciado o encontro de animais positivos com prevalências de 26% e 25% para animais com diarréia e sem diarréia, respectivamente. GRACIA et al. (1989) encontraram também uma prevalência bem maior (59,40%) do que a aqui referida (15,35%) pelo motivo de terem pesquisado um lote de animais com um surto de diarréia e com idades de até 21 dias. No entanto ao acompanharem a eliminação de oocistos até o 8º mês após o surto, assemelham esses resultados com os nossos, pois foram observados animais positivos com até 6 meses de idade. SOUZA (1991), que trabalhou com bezerros com até 90 dias de idade, encontrou índices bem maiores do que no presente relato e também divergentes dos encontrados pelos autores supracitados, provavelmente por ter utilizado animais de uma região diferente.
Quando se compara os dados referentes ao número de propriedades com animais positivos, os resultados (66,67%) são semelhantes aos encontrado por ORTOLANI (1988) que observou 58,14% e os de GARCIA & LIMA (1994) que encontraram 69,70% das propriedades positivas.
Alguns autores (ORTOLANI,1988; SOUZA, 1991) observaram relação entre manejo e apresença ou não de Cryptosporidium spp nos bezerros. Não foi encontrada no presente trabalho esta relação, talvez por terem sido trabalhadas propriedades de características de manejo bem semelhantes entre si.
Com relação aos búfalos, TROTTI & QUESADA (1983) relataram pela primeira vez na Itália o encontro de Cryptosporidium spp a partir de 229 búfalos, com idades entre zero e 120 dias, de duas províncias diferentes. Encontraram 17 (7,42%) animais positivos para oocistos de Cryptosporidium spp. Observaram mais animais positivos na faixa etária de até 15 dias e associados. à diarréia.
ISKANDER et al. (1987) descreveram no Egito, pela primeira vez, a presença de Cryptosporidium spp em fezes de búfalos a partir de uma pesquisa em 87 bezerros bubalinos, com diarréia e com idades entre 1 e 60 dias, provenientes de 4 localidades. Das amostras examinadas, 18 (20,7%) se encontravam positivas e eram de animais com idades entre 2 e 12 dias.
DIEGO et al. (1991) pesquisaram 200 amostras de fezes de búfalos com idades entre 10 dias e 4 meses. Encontraram 20% de animais positivos para oocistos de Cryptosporidium spp. Entre os 416 búfalos com mais de 1 ano de idade não observaram animais positivos. Este foi o primeiro relato deste parasita em Cuba.
ARAÚJO et al. (1996) examinaram 120 amostras de fezes de búfalos de uma fazenda do Estado do Amapá. Destas amostras, 12 (10%) continham oocistos de Cryptosporidium spp.
Os resultados apresentados no trabalho em questão (8,46%) se assemelham aos observados por TROTTI & QUESADA (1983) e aos de ARAÚJO et al. (1996), que foram de 7,42% e 10%, respectivamente.
São menores que os resultados de DIEGO et al.(1991) e ISKANDER et al. (1987), estes últimos, provavelmente por terem examinado apenas búfalos com diarréia e com até 60 dias de idade. Este fato pode ter influenciado no resultado final encontrado por eles, pois observou-se neste trabalho resultados com predominância de animais positivos entre os com diarréia e com até 2 meses de idade.
Apesar das propriedades pesquisadas no presente estudo terem apresentado diferenças nas práticas de manejo, não foi possível correlacioná-las com a presença ou não de Cryptosporidium spp nas fezes dos búfalos.
CONCLUSÕES
Oocistos de Cryptosporidium spp encontram-se amplamente distribuídos em bovinos e búfalos do Vale do Ribeira, Estado de São Paulo.
Foram encontrados animais positivos entre os com diarréia e sem diarréia.
Tanto nos bovinos quanto nos búfalos, encontrouse mais bezerros positivos entre os que tinham até 2 meses de idade e apresentavam diarréia.
Com base nos resultados aqui demonstrados, salienta-se a importância dos portadores assintomáticos como fonte de infecção para animais suscetíveis e a possibilidade da participação de Cryptosporidium spp como agente primário ou secundário em casos de diarréia em bovinos e búfalos do Vale do Ribeira, Estado de São Paulo.
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