Open-access GRAU DE NOCIVIDADE DE RAPHANUS SATIVUS L. PARA O TRIGO

INJURY OF RAPHANUS SATIVUS ON WHEAT PLANTS

RESUMO

Foi realizado um experimento para estimar o grau potencial de nocividade da espécieRaphanus sativus L., nabiça, para a cultura do trigo, cv. IAC-24. As observações foram conduzidas em parcelas experimentais constituídas de caixas de amianto nas dimensões de 30 x 47cm e 30cm de profundidade, com 47 kg de solo, sob condições, climáticas naturais e irrigação complementar sempre que foi necessário. Os tratamentos foram densidades populacionais crescentes deR. sativus (zero, uma, duas, quatro, oito e 16 plantas por parcela), em convivência com 30 plantas de trigo (população constante para todas as parcelas), conduzidos sob um delineamento experimental de blocos ao acaso com sete repetições. Os resultados demostraram queR. sativus é uma espécie com elevada nocividade para o trigo, pois, prejudicou o seu crescimento em relação a fitomassa epígea seca, altura das plantas, produção de espigas e peso dos grãos de trigo. Os resultados foram interpretados por regressões polinominais e teste de médias em função do aumento da população da erva daninha.

PALAVRAS-CHAVE:
Planta-daninha; competição; densidade populacional crítica

ABSTRACT

An experiment was carried out in order to study the effects of Raphanus sativus L. (radish wild), atdifferent population densities on wheat. The experiment was conducted in boxes (30 x 47cm and 30cm deep) containing 47 kg of soil. A randomized block design was employed with seven replications of the following treatments: O, 1, 2, 4, 8 and 16 plants ofR.sativus againts 30 wheat plants each treatment. The results showed thatR. sativus reduced the phytomass, plants height, number of spikes and weight of wheat grains. There was a relation significative and negative between weed density population and plants crop growth.

KEY WORDS:
Weeds; weed-crop competition; critical density

INTRODUÇÃO

O conceito de "planta daninha" é antropocêntrico, está relacionado com a atividade humana. Assim, é conveniente determinar-se a agressividade ou grau de nocividade de uma espécie para classificá-la como planta daninha.

O gênero botânicoRaphanus pertencente a família Cruciferae possue duas espécies ruderais, herbáceas, anuais, que ocorrem no Brasil:R. raphanistrum e R. sativus. Ambas são originárias do continente europeu, de onde se difundiram junto com a cultura do trigo para o continente americano, africano, australiano e ilhas da Nova Zelândia e Inglaterra (HOLM et al,1977). Tipos selvagens deR. sativus ocorrem de forma espontânea na Região Sul do Brasil (KISSMANN & GROTH, 1992)..

No Brasil, onde foram introduzidas há pouco mais de 60 anos (KISSMANN & GROTH, 1992), são conhecidas popularmente como nabiça, nabo-bravo, nabo, rabanete, rábano (LORENZI, 1982; KISSMANN & GROTH, 1992), entre outros nomes. Segundo KISSMANN & GROTH (1992), existe uma grande confusão no Brasil entre as duas espécies. Por esta razão, as referências sobre R. raphanistrum muitas vezes são válidas parnR. sativus. Ambas são consideradas como infestantes de culturas de inverno, cereais e hortaliças. LORENZI (1982) escreve R. raphanistrum como espécie já aclimatada no Brasil, sendo frequente, também, em culturas de verão como. milho e soja. É assinalada, também, em pomares, canaviais, cafezais, beiras de estradas e pastagens, sendo de maior freqüência na região Sul, Sudoeste, Goiás e Mato Grosso do Sul. Em São Paulo, essa espécie é de ocorrência generalizada em todos os solos agrícolas úmidos e férteis, principalmente, os ocupados com cereais de inverno (LORENZI, 1982).

Apesar de ser assinalada por diversos autores, não se conhecem trabalhos que quantifiquem o grau de prejuízos de Raphanus spp sobre plantas cultivadas, mesmo em condições estrangeiras. MATTHEWS (1975) assinala que é encontrado ocasionalmente em terrenos arados na Nova Zelândia; para MAZORCCA (1976) é bastante raro em cultivas de cereais na Argentina. Para o Estado de São Paulo, R. raphanistrum é considerada semente nociva proibida para os padrões de pureza de acordo com as regras para análise de sementes de olerícolas (Resolução SAA 108 de 27/7/1984). Acreditamos, porém, devido a grande semelhança entre as espécies, R. sativus esteja sendo subestimado na sua importância como infestante. Por estas razões, com o objetivo de trazer subsídios na definição da importância deR. sativus como planta daninha foi desenvolvido um experimento em condições parcialmente controladas, onde populações crescentes da espécie foram deixadas conviver com plantas de trigo.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi instalado em 26 de maio de 1992, na Estação Experimental do Instituto Biológico, Campinas, SP, utilizando-se o método aditivo, modificado (OLIVER & BUCHANAN, 1986), para determinar o potencial de nocividade da espécieR. sativus.

As sementes utilizadas foram provenientes de plantas que infestam solos de agricultura da Estação Experimental com as características botânicas descritas por KISSMANN & GROTH (1992), apresentando frutos atenuados para a parte apical, com estrangulamentos pouco notáveis entre os alojamentos das sementes; flores lilases, violáceas ou brancas, características deR. sativus (Fig. 1), e que a distingue de R. raphanistrum que apresenta frutos com estrangulamentos bem pronunciados eflores geralmente amarelas.

O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso, com sete repetições. Como parcelas experimentais foram empregadas caixas com dimensões de 30 x 47 cm de superfície e 30 cm de profundidade com 47 kg de solo, adubado com a fórmula básica 60-120-40 kg.ha 1 , que é o dobro da recomendada no campo, para evitar o "stress" das plantas por falta de nutrição, ocorrência comum em plantas confinadas.

Os tratamentos foram representados por densidades populacionais crescentes deR. sativus (O, 1, 2, 4, 8 e 16 plantas por parcela experimental), em convivência com 30 plantas de trigo/parcela, cultivar IAC-24. O trigo foi semeado em duas linhas com espaço de 20cm entre elas. As populações se estabeleceram mediante semeadura com uma quantidade elevada de sementes e desbaste posterior das plântulas até a densidade _definida pelos tratamentos.

Para se avaliar o efeito da convivência entre as espécies foram determinados ao fim do ciclo do trigo em 19 de setembro de 1992, as seguintes medidas de crescimento das plantas: altura, biomassa das plantas secas, número de espigas e peso dos grãos secos de trigo, além da biomassa seca da espécie infestante.

Oexperimento foi conduzido sob condições climáticas naturais, com irrigação complementar sempre que se fez necessário.

As análises da variância, de regressão e teste de médias foram realizadas com os dados originais utilizando-se o nível de 1 a 5% de probabilidade para o erro.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela 1 apresenta os resultados da influência da infestação de R. sativus sobre a altura, o peso da biomassa epígea seca, o número de espigas e o peso seco de grãos de trigo. O peso epígeo seco de uma planta de R. sativus/tratamento para verificar a existência de competição intra-específica, também é apresentado nessa tabela.

Para qualquer medida de crescimento das plantas de trigo considerada, o valor Fpara a variável "tratamentos" foi significativo, o que demonstra que a presença de R. sativus foi importante para o desenvolvimento do trigo.

A análise de regressão polinomial dos dados da Tabela 1 demonstra que a função quadrática explica os efeitos dos tratamentos no crescimento do trigo. Em algumas medidas de crescimento a regressão cúbica poderia ser utilizada, porém, polinômios de graus mais elevados que o do segundo grau têm comportamento pouco apropriado na interpretação de fenômenos biológicos. Acresce o fato que a· regressão linear contribuiu com um baixo coeficiente de determinação confirmando a escolha da equação de segundo grau como a mais apropriada para explicar o resultado da convivência.

As figuras 2, 3, 4, 5 e 6 apresentam as curvas de regresão do segundo grau para as medidas de crescimento do trigo em função do aumento da população de R. sativus. Verifica-se que a medida que a infestação da erva daninha aumenta o crescimento e a produção da planta cultivada diminue até um certo grau de infestação (cerca de 8 plantas/caixa), tornando-se a partir daíassintótica devido a competição intra específica da erva daninha. Isto é comprovado pela Figura 6 que mostra que a competição intra-específica de R. sativus foi linear.

A curva de resposta dos cultivas diante da competição de plantas daninhas encontrada, quando se incrementa a densidade da infestante o rendimento do cultivo diminue progressivamente, é o esperado. Essa redução é mais rápida diante de densidades relativamente mais baixas que frente a densidades maiores. Isto quer dizer que devido a plasticidade das plantas daninhas e a grande competição intra-específica existente em altas densidades, o efeito relativo causado por cada planta individual é maior quando mais distanciadas estejam entre si (GARCÍA TORRES . & FERNANDESQUINTANILLA, 1991). Por esta razão, esses autores afirmam que o número de plantas presentes por unidade de área (densidade) não reflete corretamente a importância da população sobre a cultura. Outros parâmetros (a biomassa, a cobertura), podem ser mais precisos na definição do nível crítico de infestação. De toda a forma, devido as condições parcialmente controladas utilizadas na metodologia procurou-se somente conceituar a importância deR. sativus como infestante de trigo, e isto é confirmado pela comparação de médias do teste de Tukey (Tabela 1), onde a presença de apenas um indivíduo deRaphanus diminuiu significativamentea biomassa ea produção degrãos de 30 plantas de trigo.

TABELA 1
Influência da infestação de Raphanus sativus L. sobre medidas de crescimento de plantas de trigo. Dados médios de 7 repetições determinados no fim do ciclo do trigo.

KISSMANN & GROTH (1992) relatam que R. sativus é grande extratora de nutrientes do solo e por isso oferece grande competição com as plantas cultivadas, oque explicariam os resultados aqui encontrados.

CONCLUSÕES

1. A convivência da erva daninhaRaphanus sativus L. com plantas de trigo é altamente prejudicial ao desenvolvimentoe produção da planta cultivada, demonstrando ser a espécie altamente competitiva para o trigo.

2. A nocividade deRaphanus sativus L. para o trigo é traduzida por regressões quadráticas em função do aumento da sua densidade populacional na área de convivência; há uma correlação negativa esignificativa entre densidade populacional da infestante e medidas de crescimento e produção do trigo.

Fig. 1
Plantas de Raphanus sativus; detalhe das flores e frutos.

Fig. 2
Altura média de trigo em função da densidade populacional deR. sativus.

Fig. 3
Biomassa seca epígea de trigo em função da densidade populacional deR. sativus.

Fig. 4
Quantidade de espigas de trigo em função da densidade populacional deR. sativus.

Fig. 5
Biomassa seca de sementes de trigo em função da densidade populacional deR. sativus.

Fig. 6
Competição intraespecífica entre plantas de R. sativus em função do aumento da densidade populacional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • GARCÍA-TORRES, L. & FERNANDEZ-QUINTANILLA, C. Fundamentos sobre malas hierbas y herbicidas. Madri: Mundi-Prensa, 1991. p.73-88
  • HOLM, L.G.;PLUCKNETT, D.L.;PANCHO, J.V.; HERBERGER, J.P. The world's worst weed. Distribution and biology. Honolulu: Univ. Press of Hawaii, 1997. p.542.
  • KISSMANN, K. G. & GROTH;D. Plantas infestantes e nocivas. BASF Brasileira (Ed.), São Paulo, SP, 1992. t.2. p.432-441.
  • LORENZI, H. Plantas daninhas do Brasil: terrestres, aquáticas, parasitas, tóxicas e medicinais. Harri Lorenzi (Ed.) Nova Odessa, SP, 1982. p.137.
  • MARZOCCA, A. Manual de malezas. 3. ed. Buenos Aires: Hemisferio Sur Ed., 1976. p.298.
  • MATTHEWS, L.J. Weedcontrolbychemicalmethods. Ruakura Agricultura} Research Center, New Zealand, 1975. p.262.
  • OLIVER, L.R. & BUCHANAN, G.A. Weed competition and economic thresholds. ln. RESEARCHMETHODS INWEED SCIENCE, Cap IV, N. D.CAMPER (Ed.), Shouthem Weed Science Society, II.,1986. p. 71-97.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1997

Histórico

  • Recebido
    18 Mar 1997
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