APRESENTAÇÃO
A entrevista que segue foi realizada com Alexander Freund, professor do Departamento de História da Universidade de Winnipeg, no Canadá, onde é detentor da Cátedra de Estudos Teuto-Canadenses.1 Freund é especialista em estudos sobre migrantes e refugiados, em história da América do Norte e da Alemanha e em história oral. Suas publicações e atuação profissional o tornaram historiador de destaque no campo da história oral no cenário internacional.2 Freund foi presidente da Associação Canadense de História Oral, co-editor da revista Oral History Forum d´Histoire Orale e fundador, juntamente com Nolan Reilly, do Centro de História Oral da Universidade de Winnipeg.
Com duração de uma hora e trinta e seis minutos (01h36min) a entrevista foi conduzida pelas professoras Carla Simone Rodeghero e Méri Frotscher em quatro de novembro de 2021, no contexto da pandemia da Covid-19, por meio da plataforma Meet.3 Méri tinha contatos prévios com o pesquisador - ambos têm interesses de pesquisa comuns em história oral e história das imigrações -, o que facilitou a preparação da entrevista e o diálogo em si. Carla coordena o projeto “Coletivos de história oral e acervos digitais - experiências no Brasil, no Canadá e na Itália”, cujo principal objetivo é examinar a prática coletiva de história oral em instituições dos três países e, no âmbito do qual, a entrevista foi realizada. A pesquisa visa conhecer e comparar experiências pessoais de pesquisadores, de centros e laboratórios, assim como de associações nacionais de história oral. O roteiro geral das entrevistas inclui dados de identificação de pesquisadores/as, panorama do campo da história oral em cada país, experiências em projetos colaborativos, estratégias para organização de arquivos de história oral, formas de tornar as fontes orais disponíveis para o público, implicações do uso das tecnologias digitais, discussões sobre ética e desafios e mudanças resultantes da pandemia de Covid-19.
Visando adequar a entrevista à publicação – temática do dossiê e quantidade máxima de palavras - foram selecionados trechos que apresentam o pesquisador para o público brasileiro, suas pesquisas sobre etnicidades, imigrantes e refugiados, a trajetória da história oral no Canadá, as particularidades dos dois principais centros de história oral no país, a importância da metodologia para o tratamento de temas sensíveis e os desenvolvimentos da história oral indígena no país. Pelas mesmas razões, não puderam ser publicadas as partes que tratam da contribuição de diferentes abordagens de história oral na formação acadêmica de Freund, os comentários sobre pesquisadores/as de universidades canadenses que têm papel de liderança e sobre os mecanismos de avaliação da ética na pesquisa no país
A entrevista traz valiosas contribuições para o debate brasileiro sobre a relação entre história oral e história pública ao discutir o valor e os desafios metodológicos das tecnologias digitais na realização de entrevistas e na sua disponibilização online. Ela também discute o potencial da história oral e da pesquisa colaborativa com grupos subalternizados. Enfatiza a relevância das fontes orais para temas urgentes e sensíveis, que têm mobilizado praticantes da história oral e da história pública como o genocídio cultural de indígenas provocado pelas Escolas Residenciais Indígenas (Indian Residential Schools) no Canadá. Freund também destaca oportunidades de diálogo entre gerações favorecidas por projetos de história oral e de história pública.
Alexander, você poderia começar se apresentando?
Muito obrigado pelo convite para conversar com vocês sobre história oral. Então, eu sou Alexander Freund, nasci em Hamburgo, na Alemanha, onde eu fiz a maior parte dos meus estudos, incluindo minha graduação e onde, também, trabalhei um pouco como jornalista enquanto era estudante. Em 1992, fui para Vancouver fazer o meu mestrado em História na Universidade Simon Fraser e decidi fazer a minha dissertação sobre as experiências de mulheres imigrantes alemãs em Vancouver, que chegaram lá nos anos 1950. E isso me colocou no campo acadêmico que eu ainda estou, Estudos Migratórios e História Oral, porque eu percebi que para descobrir algo sobre as experiências dessas mulheres, além da documentação governamental básica, eu precisava entrevistá-las. E isso me trouxe à história oral e depois eu continuei com isso para o meu PhD, o qual eu fiz na Universidade de Bremen, na Alemanha, ampliando meus assuntos para imigrantes, imigrantes alemães na América do Norte, novamente usando história oral. E, a partir daí, continuei fazendo mais projetos relacionados a imigrantes alemães, a outros imigrantes, outros grupos étnicos no Canadá e na América do Norte, também, usando história oral. Então isto é uma espécie de resumo. Em 2002, eu vim para a Universidade de Winnipeg, então no ano que vem vai fazer 20 anos que eu estou aqui na Universidade de Winnipeg. E eu vim para assumir a cadeira de Estudos Teuto-Canadenses, eu posso falar mais sobre isto depois, mas, basicamente, é uma disciplina de pesquisa focada na história dos imigrantes alemães e seus descendentes no Canadá. E, vocês sabem, logo depois que eu vim para a Universidade, comecei uma parceria com um colega meu, Nolan Reilly, e fundamos, co-fundamos, o Centro de História Oral aqui na universidade.
Alexander, na sua retrospectiva, hoje, o que você acha que foi sua contribuição principal no campo de estudos sobre a migração e refugiados? E quais novas perguntas e desafios você tem enfrentado recentemente?
Essa é uma grande pergunta. Meu foco principal está nos imigrantes alemães no Canadá, também nos Estados Unidos, mas principalmente no Canadá. A maneira como a história sobre etnicidades e a história da imigração no Canadá tem sido feitas é, em grande parte, como uma história de sua contribuição, na qual o argumento básico é o de que diferentes grupos étnicos, diferentes grupos de imigrantes contribuíram para o país e, portanto, devem receber uma parcela justa de reconhecimento. Sendo alemão e tendo crescido nos anos 1970 e 1980 e parte dos anos 1990 na Alemanha Ocidental, vocês sabem, havia constantes debates sobre o passado nazista e o Holocausto e um tipo de responsabilidade histórica que nós, alemães, temos com a história e de não esquecer essa história. Para mim, isso soava como um estranho tipo de nacionalismo, focar simplesmente nas contribuições das pessoas para um país. Eu fiquei muito hesitante. De repente, me mudar para o Canadá e abraçar o nacionalismo canadense, para mim isto… Realmente, quando você tenta mostrar as contribuições do seu próprio grupo étnico para o país, isso [é uma forma de] tentar invocar o nacionalismo canadense. Isto também levanta questionamentos sobre um tipo de hierarquia de quem é importante e quem não é, porque isso implica que os grupos menores não podem ter o mesmo reconhecimento que os grupos maiores. O que eu venho tentando fazer ao estudar os imigrantes alemães na América do Norte é mudar o debate e falar sobre o fato de que os alemães são interessantes para serem estudados não pelo fato de terem feito tantas incríveis contribuições para o Canadá. Se você quer conversar sobre contribuições, você tem que falar dos alemães como colonos, como colonizadores também. Mas, antes disso, há uma longa história. [Os alemães] formam um grupo muito diverso, de muitos lugares diferentes, de muitas religiões diferentes, diferentes dialetos e até mesmo diferentes línguas. E isso fornece um campo maravilhoso para perguntar quaisquer questões acadêmicas sobre migração e etnias. Além disso, o último livro que eu editei foi sobre todas essas questões de gerações, memória e migração, essas questões sobre como diferentes gerações interagem umas com as outras, como os filhos e netos de imigrantes interagem com seus pais e avós e como as diferentes histórias nacionais, nesse caso história alemã e história canadense, colidem entre si e se interligam, assim por diante. Então, esses são os tipos de questões que nós temos feito. Eu quero falar rapidamente sobre os refugiados. Então, iniciamos um projeto sobre refugiados, o qual surgiu da preocupação de que refugiados não são realmente um tópico na história e na historiografia. Na historiografia canadense eles estão normalmente subsumidos à história da imigração, e eu acho que os refugiados, os quais experienciaram violência do Estado, têm experiências diferentes e histórias diferentes para contar. Subsumir isso sob termos mais amplos, como “imigrantes”, é difícil. Então, fiz um projeto com refugiados de diferentes períodos; de diferentes origens no mundo; da Europa do pós-guerra; de El Salvador e de outros países latino-americanos nas décadas de 1970, 1980, 1990; do Afeganistão; da Birmânia ou de Mianmar. E isso me permitiu criar um arquivo de histórias orais com refugiados, explorar várias questões metodológicas e éticas e me ajudar a escrever uma espécie de história dos refugiados na província de Winnipeg na segunda metade do século XX. Isto ainda não foi finalizado, ainda estou trabalhando nisso.
Vamos falar sobre história oral no Canadá e sobre a Associação Canadense de História Oral e se você puder explicar um pouco mais sobre as particularidades da prática no seu país?
Então... A História Oral no Canadá tem uma história bastante longa, que remonta ao final do século XIX e aos registros de etnógrafos e folcloristas sobre o povo Inuit no Norte e sobre os povos rurais na região do Atlântico. E daí, no início dos anos 1970, na Universidade Simon Fraser, aconteceu uma Conferência de História Oral que juntou uma grande quantidade de pessoas, acadêmicos, historiadores, jornalistas, um monte de arquivistas e professores. Eles decidiram fundar a Associação Canadense de História Oral e logo depois criaram a revista Oral History Forum d’histoire orale, que é um jornal bilíngue, em inglês e francês e… Eu não sei se chegou a prosperar, mas certamente se desenvolveu durante os anos 1970 e 1980. [A associação] era praticamente carregada pelos arquivistas, pessoas que fizeram todo o trabalho administrativo, organizaram conferências e tudo mais. E então começou a decair no início da década de 1990, não havia mais financiamento suficiente para que os arquivistas realmente participassem da associação e eles a mantiveram por mais uma década, estavam perto de fechá-la, de fechá-la na década de 1990, mas não o fizeram. E daí, em 2004, eu e meu colega Nolan Reilly organizamos uma Conferência de História Oral na Universidade de Winnipeg e a partir dali nós fomos convidados a assumir a Associação de História Oral e a revista, e foi isso que nós fizemos. Uma das coisas que nós fizemos para a revista foi transformá-la em uma publicação online, que no tempo ainda era muito difícil e não existia muito suporte para que isso fosse feito. Havia bem pouco que nós pudéssemos fazer com a Associação e eventualmente nós a passamos para outros. No momento, eu acho que nem a Associação nem a revista estão funcionando. A revista está inativa e eu não acho que haja alguém comandando a Associação e isso tem acontecido por vários anos.
Nossa, que triste!
Sim, é triste. Por outro lado, tem bastante história oral acontecendo. O emprego da história oral e de outras entrevistas se transformou em prática muito comum entre os historiadores e outros estudiosos. Historiadores canadenses que usam história oral não se identificam como historiadores orais e eu não sei muito bem o porquê, talvez tenha algo a ver com o fato de que o Canadá é um país pequeno em termos de população, e tão grande e desconectado em termos geográficos que é difícil sustentar qualquer coisa que é muito pequena. Por outro lado, há o exemplo que sempre observo da Austrália e da Nova Zelândia: eles têm associações muito fortes; uma infraestrutura muito forte para a história oral; uma identificação muito forte. Para a Austrália existe muito suporte vindo do governo, das bibliotecas estaduais e da Biblioteca Nacional. É isso que nós não temos no Canadá. Então, existem dois centros de história oral no país, dois principais centros e isso não é suficiente para realmente criar uma infraestrutura [nacional]. A Universidade de Concordia é uma universidade de língua inglesa em Montreal e eles tem um grande centro [Centre for Oral History and Digital Storytelling]. Foi fundado por Steven High. É um grande centro de história oral, que organiza grande número de conferências, trabalha com museus, que ampliou muito o campo, o tornou muito mais uma história pública e Steven [High] publicou diversos livros que vieram de um enorme projeto com refugiados. Mas é muito focado na região, eu não acho que tenha a ambição de servir como uma instituição nacional, é uma instituição local, uma instituição regional. E aqui na Universidade de Winnipeg eu acho que [o Centro de História Oral] é muito menor nesse sentido, mas eu acho que o que nós estamos tentando fazer é criar algo mais… sustentável. Então nós temos dois funcionários de tempo integral e eles tentam fazer workshops e criar arquivos para pesquisas acadêmicas, mas também para a comunidade. E existem um número de centros menores que eu não sei se os chamaria de centros. Eles podem ser centros em nome, mas não na prática. Eles estão espalhados pelo país, mas até aqui na Universidade de Winnipeg nós não ensinamos realmente [história oral]. Nós não temos dado aula sobre história oral em nenhum curso, num longo tempo, em nosso departamento de História. Então, você sabe, é difícil.
Alexander, quais são os principais desenvolvimentos da História Oral Indígena no Canadá nos dias de hoje e o quão forte ela é nas universidades, por exemplo, na sua universidade? Ela dialoga com a sua própria prática?
Eu penso que [a resposta] começa com a pergunta “O que é história oral?” e tem uma discussão sobre [a questão] se é legítimo diferenciar História Oral de Tradição Oral; o que constitui história oral na perspectiva dos indígenas. Então, nós estamos apenas no começo [do processo] de indigenizar o currículo e isso inclui indigenizar a história oral como um campo, como uma metodologia, como um jeito de conhecer as coisas. Especialmente, eu acho que minha universidade é um pouco forte neste programa de descolonização e indigenização do currículo. E isso tem a ver em certa medida com o fato de que na nossa parte do Canadá, nas pradarias, há muitos… Nós temos uma grande população indígena, eu acredito que seja cerca de 10% da população. Há indígenas, e, também, há, eu acho que… A população de estudantes é também 10% ou 12% indígena na universidade. Nós também temos diversos historiadores indígenas na universidade, mas eu acredito que isso é excepcional no Canadá. Você sabe, a História Indígena é ensinada, mas, em muitos casos, é ensinada por estudiosos não-indígenas. Então, isso está mudando aos poucos, a Comissão da Verdade e Reconciliação sobre as Escolas Residenciais Indígenas fez muitas recomendações para a educação e então nossa universidade tem tentado alcançar algumas dessas recomendações em termos de indigenização. No Centro de História Oral nós fizemos alguns projetos indígenas e isso foi bem interessante para mim e para Nolan [Reilly]. Nós não fizemos o projeto sozinhos; nós facilitamos o projeto. Buscamos recursos para o financiamento, fornecemos o espaço e a experiência técnica aos nossos funcionários, para um número de estudiosos indígenas fazerem projetos de história oral e isso desafiou o jeito como pensamos sobre entrevistas de história oral. Por exemplo, nós pensamos uma entrevista de história oral como uma entrevista um-a-um, focamos na história de vida de um indivíduo e alguns dos estudiosos indígenas questionaram isso. Você sabe, eles queriam fazer rodas de compartilhamento e projetos de entrevista em grupos, de forma mais colaborativa. Então, estamos só começando a entender o que tudo isso significa e como colaborar e comunicar e achar as melhores práticas para isso também.
Você poderia explicar a criação do Centro e qual foi o seu papel nela? E se a História Oral na Universidade de Winnipeg mudou depois da criação do Centro de História Oral?
Como eu havia dito, em 2004 meu colega Nolan Reilly e eu [criamos o Centro]. Ele era um historiador do trabalho e está aposentado agora. Ele tinha feito entrevistas de história oral com trabalhadores e tudo mais. Nós meio que montamos tudo juntos, nós tínhamos feito essa conferência e as pessoas nos pediram para assumir a revista e a associação. Vimos projetos em diferentes partes do país e em outros lugares. E nós dissemos que não queríamos fazer um projeto, por causa de como é o financiamento no Canadá, por tempo limitado, então você ganha uma grande bolsa por cinco anos e é isso, é o fim. Então, você pode conseguir novo financiamento ou você pode não conseguir. Nós dissemos que queríamos criar algo sustentável, algo que durasse por um longo tempo, como um arquivo e ações de extensão, para treinarmos pessoas em história oral. Esses eram os dois principais objetivos: criar um centro de ensino, um centro público de ensino e o arquivo para permitir que as comunidades façam projetos de história oral, que os façam bem e os arquivem. E nós decidimos que em vez de concorrer a financiamentos de projetos, que eram por tempo limitado, nós iríamos fazer uma campanha de arrecadação para criar um tipo de fundo, e ao longo de vários anos arrecadamos cerca de meio milhão de dólares. Isto não foi suficiente para criar uma dotação, mas foi o suficiente para convencer a universidade a nos dar algumas salas de aula que nós transformamos em uma grande sala, uma pequena oficina, um estúdio de gravação, uma pequena biblioteca e alguns escritórios e isso é bastante para uma universidade pequena como a nossa, onde espaço é sempre um prêmio. Então, nós conseguimos bastante espaço, nós tínhamos dinheiro para reforma, construções, para comprar um bom equipamento e para contratar dois funcionários temporariamente. Nós tivemos que negociar muito para que a universidade assumisse dois cargos com funcionários de tempo integral. Então, agora isso está na folha de pagamento da universidade, o que os tornou funcionários permanentes e eu decidi que eu daria um passo para trás, vocês sabem que Nolan [Reilly] se aposentou, tínhamos uma nova colega, Janis Thiessen, que foi co-diretora por um tempo e daí eu decidi deixar meu cargo de diretor do Centro de História Oral. E nós, no período em que Kim e Kent foram contratados pela universidade como funcionários de tempo integral, decidimos afiliar o Centro de História Oral ao arquivo e à biblioteca da universidade. Então, agora, o arquivista chefe é também o diretor do Centro de História Oral. Isso realmente ajuda a integrar e criar um arquivo, um arquivo de história oral.
Agora falando sobre o arquivamento e a disseminação, dessas práticas ou políticas no Canadá, onde você e outros historiadores orais e pesquisadores do Canadá que trabalham com história oral, onde eles normalmente arquivam as entrevistas? E há consulentes para os materiais? É normal um segundo uso das entrevistas?
Eu acho que até o início dos anos 1990 era possível arquivar entrevistas de história oral em arquivos públicos, até na Library & Arquives Canada, estes são nossos arquivos nacionais em Ottawa, ou nos arquivos das províncias. E em Winnipeg, isso seria no arquivo provincial de Manitoba, cada província tem seu próprio arquivo. Mas, por causa da redução de financiamento para arquivos, muitos deles perderam suas vagas para arquivistas que pudessem focar em história oral. Eu sei que, em certo momento, arquivistas no Canadá podiam, na verdade, fazer suas próprias histórias orais, mas isso era… Então, nós tivemos um arquivista aqui no arquivo da província de Manitoba e ele foi fazer suas próprias entrevistas nos anos 1970 e 1980 e ajudou pessoas a prepararem coleções de história oral para serem arquivadas no arquivo de Manitoba e quando ele se aposentou no início dos anos 2000, ele não foi substituído. Pelo que eu conheço, ninguém está fazendo história oral no arquivo da província. Eu acho que essa tem sido a história nacional. Você sabe, a história oral não é vista como importante para os arquivos públicos. Eles têm se focado mais em coletar documentos governamentais. Alguns anos atrás, perguntei se eu poderia arquivar e depositar minha coleção no arquivo da província e eles disseram “não, nós não temos fundos para isso”. E essa foi uma das razões por que nós decidimos criar o arquivo do Centro de História Oral. Eu não sei se [a Universidade de] Concórdia tem um arquivo para a suas coleções, mas eu acho que seja em maioria um arquivo digital. Eu não tenho certeza, posso apenas especular, que muitas das entrevistas no Canadá não estejam arquivadas. Aqui no Centro de História Oral, você sabe, nós tentamos nosso melhor para arquivar o máximo possível e criar padrões para isso. Nós temos uma ideia de como um arquivo de entrevistas se parece e eu posso falar mais disso, mas em termos de arquivamento de histórias orais tem sido triste no Canadá. Realmente bem triste. Muito decepcionante.
Eu gostaria [de falar sobre] o último livro que você publicou e editou. Perguntar sobre as contribuições da história oral para lidar com memórias difíceis na esfera pública canadense. Pode ser essa questão sobre a memória do Holocausto e a mais recente questão da [comissão da verdade e da] reconciliação dos indígenas. Você acha que a História Oral tem um papel importante na discussão dessas memórias difíceis no Canadá?
Sim, eu penso [que sim] em muitas maneiras. Eu quero dizer, história oral é uma forma de documentação, para entender como as pessoas pensam sobre o passado do país. Você sabe, história oral é uma ótima fonte, não é a única, mas é uma boa fonte para entender como os indivíduos pensam sobre isso. É uma importante fonte para descobrir como as famílias conversam sobre o Holocausto ou sobre as Escolas Residenciais [Indígenas], o que isso significa para eles; como os faz sentir; o que significa nos termos da sua identificação nacional. História oral é também uma maneira de estimular diálogos entre gerações, eu acho. Têm implicações mais práticas e éticas que estão fora do meio acadêmico. Comunidades envolvidas em projetos de história oral iniciam um diálogo em um ambiente formal que, de outra forma, não poderiam iniciar. A história oral permite que as crianças façam perguntas aos pais e avós que de outra forma não fariam ou, pelo menos, que registrem respostas que talvez ainda não estejam prontas para ouvir, mas que mais tarde serão úteis. Ao arquivar histórias orais, você dá às pessoas a oportunidade de escutar histórias de seus pais e avós uma vez que as crianças estejam prontas, ou seus netos estejam prontos [para ouvi-las]. Para dar um exemplo, nós entrevistamos refugiados salvadorenhos em Winnipeg e existe muito conflito entre essas famílias, que tem a ver com diferentes pontos de vista políticos e ideológicos, isso quebra as famílias. Havia muitos sentimentos de culpa e vergonha… conflitos no seio das famílias. E isso levou a muito silêncio entre as gerações, onde os pais queriam proteger seus filhos das histórias sobre o que eles fizerem em El Salvador e o porquê de eles terem sido forçados a sair de lá, e as crianças tinham medo de perguntar aos seus pais, ou eles queriam proteger seus pais dessas memórias difíceis e então eles não perguntavam. História oral foi um jeito deles entrevistarem a geração de seus pais sem necessariamente entrevistar seus pais, de aprender mais sobre essas experiências e isso deu à primeira geração uma oportunidade de contar suas histórias em um tipo de espaço seguro e decidir, “ok, você sabe, eu não quero que as pessoas escutem minha história até eu morrer ou em vinte anos”. Isso criou uma abertura para o diálogo integrado entre gerações e, claro, nós sabemos esse tipo de dinâmica pelos sobreviventes da Shoah e seus filhos e netos. Nós ainda temos muito desse silêncio, o que Marianne Hirsch chamava de “pós-memória”, essa ideia de saber algo ou lembrar de experiências de seus pais sem nunca ter falado sobre elas. Então, isso não é específico dos sobreviventes do Holocausto, mas para pessoas que passaram por eventos traumáticos ou até mesmo eventos potencialmente traumatizantes. Então… o mesmo é verdade para as experiências das Escolas Residenciais Indígenas, que são, você sabe, nós temos que lembrar das Escolas Residenciais Indígenas… A última foi fechada nos anos 1990 e a maioria da população indígena que mora no Canadá foi afetada pelo legado das Escolas Residenciais Indígenas e outras políticas racistas. Então, a história oral, eu acho, pode ter um importante papel na abertura de diálogo e aprender sobre isso de um jeito que seja… Que crie diálogo entre gerações, mas também entre indígenas e imigrantes estabelecidos e canadenses estabelecidos.
Alexander, você nos falou sobre esse novo projeto, você não conduziu as entrevistas sozinho. Poderia falar sobre esse método de pesquisa participativa? Eu entendi que as pessoas dessa comunidade eram os entrevistadores das pessoas da própria comunidade. Você acha que essa seria uma maneira melhor de lidar com memórias difíceis?
Para ser honesto, eu não tenho certeza. Então, eu acho que é importante envolver… Quando você faz um projeto em uma comunidade, é importante que… Em um projeto participativo, eu creio que é importante permitir a maior participação possível, o que inclui o design do projeto, o financiamento do projeto… Então, eu tentei dar aos salvadorenhos em particular bastante controle no modo como o dinheiro era gasto. Nós oferecemos vários treinamentos para os membros da comunidade para fazer história oral e eventualmente acabamos contratando uma pessoa de El Salvador, que não era uma refugiada, era uma imigrante mais recente com experiência de jornalista, então ela fez a maior parte dessas entrevistas em espanhol e também transcreveu a maioria delas, e essas foram entrevistas muito boas. Mas essas eram entrevistas boas porque ela fez nossas oficinas de história oral e porque ela tinha essa experiência como jornalista, então por isso ela sabia sobre entrevistar e ela é uma ótima entrevistadora. Você sabe, houve outras entrevistas feitas por membros da comunidade que eram muito curtas e com utilização limitada. Isso dá muito trabalho, mas muito trabalho para a comunidade também. Várias comunidades com as quais nós queremos trabalhar não têm os recursos necessários em termos de tempo para serem treinadas, fazerem entrevistas e transcreverem todas elas. Então, é uma grande ideia ter muitas pessoas e comunidades participando, mas a menos que você possa pagar a eles salários de tempo integral, é muito difícil para eles terem que tirar um tempo do trabalho e das famílias para participar desse projeto, é um verdadeiro luxo. Então, saí deste projeto participativo sabendo que isso só poderia ser feito se houvesse financiamento para transformar essas posições em cargos de tempo integral ou em cargos totalmente remunerados. Não necessariamente de tempo integral, poderia ser meio turno. Nós fizemos outro projeto muito interessante em uma comunidade étnica do Karen, de Burma ou Myanmar; nós treinamos e contratamos uma pessoa para fazer as entrevistas e as transcrições na língua original Karen, que é um alfabeto diferente. Foi muito complicado; a pessoa tinha que transcrever e depois traduzir tudo. Então, isso foi muito trabalhoso e levou muito tempo. Uma hora de entrevista, eu acho, levava 20 horas para ser totalmente processada. Sumarizar, transcrever, traduzir e tudo mais. Se você faz isso, você deve estar preparado para trabalhar muito e ter muito dinheiro para isso. Mas, em geral, há uma vasta literatura disponível sobre pesquisa participativa. Então, esse tipo de participação é feito em todos os tipos de ciências sociais. E há uma literatura muito útil. Eu sempre fico surpreso dos historiadores orais não se aprofundarem nesse assunto.
Como as tecnologias digitais têm mudado sua prática de história oral? E que desafios do contexto da pandemia estão acrescentando às suas práticas de história oral? Tecnologias digitais e os desafios relacionados aos tempos de pandemia.
Isso tudo está relacionado de certa forma, porque nós temos usado as tecnologias digitais para contornar as restrições da pandemia. Eu, felizmente, não fui afetado pela pandemia em termos de pesquisas de história oral, porque eu já tinha finalizado o projeto que estou escrevendo agora e as próximas entrevistas vão acontecer ano que vem, num momento que poderemos novamente fazer entrevistas presenciais. Eu penso que a pandemia nos mostrou que existe valor em usar as tecnologias digitais para entrevistas. Permite-nos chegar a pessoas que de outra forma não chegaríamos, porque não teríamos meios para viajar ou por quaisquer razões. Então, eu acho que veremos mais uso destas entrevistas em vídeo [à distância] no futuro. Eu acho que será… Que isso irá criar seus próprios desafios interpretativos e desafios metodológicos. Eu tenho que admitir que tenho inveja, você sabe, do jeito em que os australianos, por exemplo, fazem suas entrevistas acessíveis nas bibliotecas públicas. Eu acho fantástico, eu mesmo já usei essas entrevistas. Mas, eu acho que os historiadores orais, em geral, têm que deixar de ser tão entusiásticos e se tornar mais críticos com as tecnologias digitais. Parece que essa ainda é a mentalidade de muitos historiadores orais, que nós ainda estamos nos anos 1990, quando a internet prometia ser essa plataforma democratizada. Já deveria estar claro a todos que essa é uma comunidade fechada de alguns grandes jogadores muito influentes, você sabe, essas grandes corporações que têm interesses muito diferentes em mente e que criam tecnologias muito poderosas para analisar informações digitais, não só textos, mas também arquivos de áudio e vídeo. E então, acho que temos que ser muito cautelosos sobre como qualquer coisa publicada na internet pode ser usada por essas grandes corporações para seus próprios propósitos. Então, eu estou… Eu acho que nós temos que ser… céticos quando se trata de como usamos a internet. Simplesmente colocar várias entrevistas na internet não é sempre o melhor. Precisa haver muita curadoria, seleção e decidir o que é útil para audiências específicas.
REFERÊNCIAS
- FREUND, Alexander. Memória, migração e identidade: Relatos de história oral no contexto de histórias familiares e nacionais. In: LAVERDI, Robson et al. (org.). História oral: Desigualdades e diferenças. Recife/Florianópolis: Ed. UFPE/Ed. UFSC, 2009. p. 247-258.
- FREUND, Alexander; THOMSON, Alistair (org.). Oral History and Photography. New York: Palgrave, 2011.
- FREUND, Alexander. Contesting the Meanings of Migration: German Women's Immigration to Canada in the 1950s. Canadian Ethnic Studies, v. 41-42, n. 3-1, p. 1-26, 2012.
- FREUND, Alexander. Entrevistas de história oral como dados gerados em processo. Tempos Históricos, v. 17, n. 2, p. 28-62, 2013.
- FREUND, Alexander. Os animais que confessam: Contribuição para uma história de longa duração da entrevista de História Oral. Tempo e Argumento, v. 6, n. 13, p. 203 - 239, set./dez. 2014.
- FREUND, Alexander. Sob o encanto da contação de estórias? História oral numa era neoliberal. In: GONÇALVES, Janice (org.). História do Tempo Presente: Oralidade, memória, mídia. Itajaí (SC): Editora Casa Aberta, 2016. p. 159-224.
- FREUND, Alexander. From .wav to .txt: Why we still need transcripts in the digital age. Oral History, v. 45, n. 1, p. 33-42, 2017.
- FREUND, Alexander. Questioning Historians: Oral History as a Historiographic and Political Act. The Oral History Review, v. 46, n. 1, p. 155-160, 2019.
- FREUND, Alexander. Being German-Canadian: History, Memory, and Generations. Winnipeg: University of Manitoba Press, 2021.
Notas
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2
Para algumas publicações do entrevistado em português, ver Freund, 2009, 2013, 2014 e 2016. Entre os demais trabalhos, destacamos artigos e livros que tratam dos temas discutidos na entrevista: Freund, 2011, 2017, 2019 e 2021. Para uma lista completa de publicações de Alexander Freund ver: https://www.uwinnipeg.ca/history/faculty-staff/alexander-freund.html.
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3
A transcrição foi feita pelo estudante de graduação João Otávio Rodrigues (UFRGS), como atividade de iniciação científica e foi revisada pelas entrevistadoras e pelo entrevistado.
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Editor responsável:
Ely Bergo de Carvalho
