RESUMO
O presente artigo parte de Scenes of Subjection, primeiro livro publicado pela historiadora afro-americana Saidiya Hartman, para refletir sobre as formas de narrar o passado da escravidão. Em um primeiro momento, faço um breve apanhado sobre a historiografia da escravidão nos Estados Unidos e situo o lugar ocupado pela pesquisadora nesse cenário. Na etapa seguinte, apresento algumas das problematizações elaboradas pelo historiador Hayden White sobre as formas de enredamento do passado na escrita da história, algo essencial para entender o trabalho desenvolvido por Hartman e que vai dialogar com o próximo subtópico, em que discuto as possibilidades narrativas da tragédia e do trágico. Por fim, discorro como ao aplicar essas demandas, Scenes of Subjection termina por nos convocar a pensar, teórico e metodologicamente, outras formas de se escrever a história da escravidão.
escrita da história; narrativa; escravidão
ABSTRACT
This article starts with Scenes of Subjection, the first book published by African-American historian Saidiya Hartman, to reflect on the forms of narrating the past of slavery. First, I briefly overview slavery historiography in the United States and describe her place in this scenario. Then, I present some of the problematizations elaborated by historian Hayden White about the forms of past entanglement in the writing of history, something that is essential to understanding the work developed by Hartman and which relates to the next subtopic, in which I discuss the narrative possibilities of tragedy and the tragic. Finally, I discuss how, by applying these demands, Scenes of Subjection provokes us to think, theoretically and methodologically, about other forms of writing slavery history.
history writing; narrative; slavery
A convicção de que eu vivia no mundo criado pela escravidão impulsionou a escrita deste livro. Eu podia sentir a força e a desfiguração da escravidão no presente. A vida do cativo e da mercadoria certamente não foi o meu passado, mas sim o limiar da minha entrada no mundo. Seu alcance e reivindicação não poderiam ser isolados como o que aconteceu até então. Para mim, a relação entre a escravidão e o presente era aberta, inacabada (Hartman, 2022, p. xxix).1
Nos Estados Unidos, do final do séc. XIX até pelo menos a metade do séc. XX, a historiografia da escravidão era dominada pelo ponto de vista dos senhores de escravos. Em uma visão pastoral, aquela instituição era vista como tendo oferecido aos cativos uma alternativa à barbárie da África, além da proteção paternalista dos senhores, a salvação cristã e a edificação de si pelo trabalho duro. Esses modelos de interpretação seriam questionados pelos ativismos que desdobraram no movimento pelos direitos civis dos anos 1950-1960. Já na esteira do Black Power nos anos 1970, houve uma ênfase significativa na resiliência dos negros frente à opressão. Reinterpretando fontes antigas e adicionando perspicazes estudos de novos materiais, como entrevistas com ex-escravizados realizadas na década de 1930 pela Works Progress Administration (WPA), pesquisadores marcavam a corajosa resistência e a astuciosa agência dos cativos. Diversos estudos sobre a família e a religião escrava buscavam, dialogando com demandas por reconhecimento e reparação no presente, exaltar exemplos de dignidade e emancipação no passado negro. Em suma, as narrativas eram outras, como outras também eram suas aspirações.
No final da década de 1980 e início da década de 1990, contudo, o conceito de resistência seria bastante problematizado nas humanidades, pois, para além da notável sofisticação teórica de vários estudos antropológicos e historiográficos sobre modos de resistir cotidianamente, havia uma inquietante disposição, como argumentava a antropóloga palestino-americana Lila Abu-Lughod (1990, p. 42), a projeções românticas da resistência. Ou seja, havia um foco demasiado em entender grande parte desses processos “como signos da ineficácia dos sistemas de poder e da resiliência e criatividade do espírito humano em sua recusa de ser dominado”.2 Faltava, explicava a autora, um foco maior em leituras que entendessem que a resistência “nunca está em posição de exterioridade com respeito ao poder” (Foucault, 2009, p. 105).3 Para o cientista político e antropólogo James C. Scott (1985, p. 29), a situação refletia um crescente foco das humanidades em formas de resistência inauditas, diminutas ou locais, motivado, sobretudo, pela desilusão com as revoluções socialistas no pós-1968. Falava-se, cada vez mais, uma distinta linguagem acadêmica: termos como “subversões”, “dissidências” e “contradiscursos” apontavam a transformação do debate.
Em 1997, como desdobramento de sua tese de doutorado defendida no programa de American Studies, da Universidade de Yale, sob orientação de Alan Trachtenberg, Saidiya Hartman publicaria a primeira edição de Scenes of Subjection: Terror, Slavery, and Self-Making in Nineteenth-Century America [Cenas da sujeição: terror, escravidão e autocriação no século XIX nos Estados Unidos], deveras inspirada nessas advertências estabelecidas por um conjunto de interlocutores do filósofo francês Michel Foucault.4 Scenes of Subjection, portanto, parte de uma preocupação da autora em desenvolver um intricado diagnóstico do poder, capaz de apresentar ao seu presente um robusto panorama da brutalidade da escravidão e suas vidas póstumas. A forma trágica do projeto de Hartman revela a inquietação que sentia com setores do pensamento negro à época, os quais ela considerava extremamente suscetíveis a se separar “(consciente ou inconscientemente) da força e do terror que as evidências trazem”5 (Hartman; Wilderson III, 2003, p. 183). Em conversa sobre o livro, ela chegaria a reclamar:
Esse projeto é algo que considero obsceno: tentar transformar uma história de derrota em uma ocasião para comemorar, o desejo de observar os estragos e a brutalidade dos séculos anteriores, mas sempre encontrar uma maneira de se sentir bem consigo mesmo. Não é meu projeto, apesar de acreditar que, na verdade, é o projeto de um certo número de pessoas. Infelizmente, o tipo de revisionismo na história social realizado por muitos esquerdistas na década de 1970, que tentaram situar o poder de grupos dominados, resultou em histórias de celebração dos oprimidos6 (Hartman; Wilderson III, 2003, p. 185-186).
Em que medida uma romantizada celebração da capacidade de superação “dos de baixo” poderia ser utilizada para associar a resistência negra a um projeto nacionalista maior de exaltação da excepcionalidade americana e de seus valores pretensamente democráticos? Hartman (2003, p. 185) visualizava riscos e recordava que, nos Estados Unidos, “a metanarrativa visa sempre à integração no projeto nacional e, sobretudo quando este projeto está em crise, os negros são chamados para reafirmá-lo”.7 O curioso dessa reprimenda, como veremos, é que ela não se limitava apenas a leituras pastorais/conservadoras da escravidão que, como vimos, haviam prevalecido até meados do século XX. Dialogando com Lila Abu-Lughod, ela também desconfiava de alguns autores ligados à História Social dos anos 1960-1970 que, sedentos em “dar voz aos oprimidos”, acabavam subestimando as capacidades do poder antinegro na Escravidão. A forma de narrar aquele passado tão cheio de contradições – que, ela ressaltava, ainda assombravam o seu presente – era, portanto, decisiva. Prova disso foi que, não poucas vezes, a autora recordou a importância teórica do historiador Hayden White em suas reflexões sobre o enredamento da história da escravidão negra dos Estados Unidos “no modo trágico” (Hartman; Nelson, 2022b).
HAYDEN WHITE: O TEXTO HISTÓRICO COMO ARTEFATO LITERÁRIO E A INTERVENÇÃO DO HISTORIADOR NO PRESENTE
Ao centralizar o caráter narrativo do texto histórico, suas implicações ideológicas e a dimensão performativa que a escrita sobre o passado pode ter nos debates públicos do presente, Hayden White provocou uma verdadeira hecatombe na historiografia da segunda metade do séc. XX. Como era de se esperar, em uma disciplina, como ele mesmo definiu, “conservadora por excelência”, muitos foram os detratores a acusá-lo de “relativista”, “antirrealista”, “radical”, “utópico”, etc.8
White visualizava uma profunda crise da história disciplinar, resultante de postura muito comum entre os seus profissionais, agarrados que estavam em “um plano médio epistemologicamente neutro” que supunham existir entre a arte e a ciência. O “fardo da história” era que, ainda que reivindicasse os privilégios de ambas, os historiadores, em um processo de crescente especialização e profissionalização, resistiam a submeter-se aos novos modelos críticos que iam surgindo sobre a arte ou a ciência. Em um clássico texto publicado em 1966, ele reclamava que:
Muitos historiadores continuam a tratar os seus “fatos” como se fossem “dados” e se recusam a reconhecer, diferentemente da maioria dos cientistas, que os fatos, mais do que descobertos, são elaborados pelos tipos de pergunta que o pesquisador faz acerca dos fenômenos que tem diante de si. É a mesma noção de objetividade que vincula os historiadores a um uso não-crítico da estrutura cronológica para as suas narrativas (White, 2001, p. 56).
“Um meio entre muitos” de se retratar determinado evento passado, a escrita da história não deveria mais ficar presa ao fardo do realismo totalizador e ingênuo que jogava a disciplina em uma profunda crise. Não existem “ângulos corretos” e “perspectivas verdadeiras” sobre parcelas particulares do passado, mas sim “muitas visões corretas, cada uma requerendo o seu próprio estilo de representação” (White, 2001, p. 59). Para White, a preocupação deveria ser deslocada para o campo do estilo, para o conteúdo da forma do texto histórico, para as decisões mais ou menos conscientes que tomam os historiadores no seu processo de dar sentido ao passado.
Por esse caminho, em outro texto, o historiador norte-americano refletiria sobre como as narrativas históricas são “ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos” (White, 2001, p. 98), ou seja, seriam uma espécie de artefato literário. Nos seus termos:
O historiador partilha com seu público noções gerais das formas que as situações humanas significativas devem assumir em virtude de sua participação nos processos específicos da criação de sentido que o identificam como membro de uma dotação cultural e não de outra. No processo de estudar um dado complexo de eventos, ele começa por perceber a possível forma de estória que tais eventos podem configurar. Em seu relato narrativo do modo como este conjunto de eventos assumiu a forma que percebe ser inerente a esse relato, ele urde o seu relato na forma de uma estória de um tipo particular. O leitor, no processo de acompanhar o relato desses eventos pelo historiador, chega pouco a pouco a compreender que a estória que está lendo é de um tipo, e não de outro: romance, tragédia, comédia, sátira, epopeia ou o que quer que seja. E, depois de perceber a classe ou tipo a que pertence a estória que está lendo, ele experimenta o efeito de ter os eventos da estória explicados para ele. A essa altura, ele não apenas acompanhou com êxito a estória; ele captou o seu ponto principal, entendeu-a. A estranheza, mistério ou exotismo original dos eventos se dispersa e eles assumem um aspecto familiar, não em seus detalhes, mas em suas funções de elementos de um tipo familiar de configuração (White, 2001, p. 102-103).
A narrativa histórica passa a ser pensada como algo que manipula nosso pensamento sobre os eventos, como um dispositivo que ativa nos leitores diferentes “valências emocionais” sobre o passado. Ao imaginar as histórias que escrevemos como estruturas simbólicas, ou seja, como “metáforas de longo alcance, que ‘comparam’ os acontecimentos nelas expostos a alguma forma com que já estamos familiarizados”, Hayden White (2001, p. 108) instou a disciplina a atentar para suas origens na imaginação literária.
Em Metahistória (1992 [1973]), ele iria detalhar, com exemplos práticos na tradição intelectual do século XIX, que se um historiador, ao narrar sua história, lhe oferecesse a estrutura do enredo de uma tragédia, ele estaria “explicando” esse conjunto de eventos conectados temporalmente de uma maneira que, via de regra, seria significativamente diferente de uma forma romanesca, satírica ou de uma comédia. No que diz respeito às escolhas historiográficas operacionalizadas por Saidiya Hartman, é interessante recordar que Hayden White (1992, p. 24) marca a estrutura romanesca como “um drama de autoidentificação simbolizado pela transcendência do herói do mundo da experiência, sua vitória sobre ele e sua libertação final dele...um drama do triunfo do bem sobre o mal, da virtude sobre o vício, da luz sobre as trevas”. Em suma, histórias enredadas dessa forma tendem a nos fazer interpretar o passado como um drama de redenção. Como exemplifica Scenes of Subjection, isso implica uma questão ideológica significativamente distinta da tragédia. Nas palavras de White, no modo trágico de escrita da história:
não há ocasiões festivas, exceto as falsas ou ilusórias; ao contrário, há insinuações de estados de divisão entre os homens mais terríveis do que aquele que incitou o trágico agon no início do drama. Ainda assim, a queda do protagonista e o abalo do mundo que ele habita que ocorre no final da peça trágica não são considerados totalmente ameaçadores para aqueles que sobrevivem ao teste agônico. Houve um ganho de consciência para os espectadores da competição. E esse ganho é pensado para consistir na epifania da lei que governa a existência humana que os esforços do protagonista contra o mundo fizeram passar (1992, p. 24).
A forma trágica dá conta de um mundo repleto de ambivalências e reversões de direitos supostamente conquistados de forma apoteótica. Scenes of Subjection nasce em um contexto no qual o modo trágico de narrativa da história da escravidão intervém contra o discurso pós-racial de transcendência da raça e “fim da história”, reverberado pelo neoliberalismo americano que, na esteira da inclusão “meritocrática” de uma ascendente burguesia negra, fez com que as reclamações de ativistas radicais e “identitários” fossem “reduzidas a peso morto histórico”9 (Crenshaw, 2017).
Situada essa influência de Hayden White no pensamento de Hartman, precisamos fazer uma breve digressão em torno de alguns elementos da tragédia e do trágico, antes de explorar como se dá a urdidura do enredo no modo trágico em Scenes of Subjection.
ALGUMAS NOTAS SOBRE A TRAGÉDIA E O TRÁGICO
Para a helenista Page duBois (2004), a difusão da tragédia, no contexto do que eram as celebrações dionisíacas na Atenas do séc. V a. C., promoveu um interessante espaço para educação política da polis. Como bem explicou Jean-Pierre Vernant (1999, p. 162), essa grande inovação teatral ofereceu à cultura ateniense uma nova geografia imaginária, ficcional. O que, segundo Marcel Detienne (2013), provocou um significativo deslocamento do sensível, pois na Grécia arcaica a verdade era acessada, geralmente, em um sistema de representações religiosas, sendo prerrogativa do poeta, do adivinho, do rei da justiça.
A tragédia, então, seria a arte representativa da ascensão da democracia em Atenas. Confluindo com a leitura de Hayden White e os caminhos percorridos por Saidiya Hartman em Scenes of Subjection, é preciso ressaltar que seu caráter era menos laudatório e muito mais problematizador para a sociedade na Grécia Antiga. Ela tematizava conflitos, como explica Alberto Toscano (2019), não apenas entre os distintos cidadãos, mas entre eles e seus outros (metecos, bárbaros, mulheres, escravos) e, sobretudo, entre a cidade e o seu passado. Conforme pontua Nicole Loraux (2007), a tragédia ateniense ativava elementos até mesmo antipolíticos, quando promovia inquietações que desafiavam os pressupostos de união e pacifismo da pólis. A dor das mulheres nas tramas trágicas, por exemplo, performava um enlutamento obstinado que contrariava os imperativos amnésicos da cidade. Por isso, Page duBois (2004, p. 77) sugere que nossas leituras da tragédia antiga “devem incluir mais do que Édipo e a sua família se quiserem iluminar o nosso presente e o nosso futuro”10, pois, ao confiná-la no pathos do grande homem, sua falha trágica e sua queda, Aristóteles e muitos intérpretes modernos contribuíram para que a tragédia fosse se tornando um significante vazio na cultura popular e teoria literária contemporânea.
Uma alternativa possível foi elaborada de maneira perspicaz pelo antropólogo jamaicano David Scott em seu Conscripts of Modernity: The Tragedy of Colonial Enlightenment (2004). Para ele, as histórias anticoloniais sobre o passado, o presente e o futuro seguiam uma forma e tinham potencial narrativo que parecia estar cada vez mais deslocado em um contexto pós-colonial: o romance. Tendendo para um caráter de superação ou de vindicação, com ritmo e direção baseados, na maioria das vezes, em uma apoteótica conquista final, as escritas românticas da história pareciam perder relevância crítica diante de um conjunto multifacetado de mudanças históricas e políticas que ocorriam nas décadas de 1980-1990. Cito-o (p. 2): “Acho que vivemos tempos trágicos (...) As velhas linguagens da visão moral-política e da esperança não estão mais em sincronia com o mundo que deveriam descrever e criticar normativamente”.11
O notável diálogo com Hayden White, aqui, revelava-se na tentativa de estabelecer como meta político-epistêmica uma reorientação temporal através da redefinição narrativa das escritas da história que se propusessem emancipacionistas. Com relação a essa iniciativa, precisamente, ele argumentava que a mudança desse horizonte (utópico) já havia sido percebida pelo historiador trinitário-tobagense C. L. R. James, em uma reedição de 1963 para o seu emblemático Os Jacobinos Negros, livro originalmente publicado em 1938.12Scott (2004, p. 7), bastante incomodado, questionava:
Será que o ponto moral do anticolonialismo depende da construção do colonialismo como um tipo particular de obstáculo a ser superado? Será que a aceitação ou notoriedade do anticolonialismo depende de uma certa forma narrativa, um certo ritmo e uma certa concepção de temporalidade? Será que a demanda anticolonial por um certo tipo de futuro pós-colonial obriga suas histórias a produzir certos tipos de passados?13
C. L. R. James escrevera sua história da Revolução Haitiana (1791-1804) no entreguerras londrino, quando vivenciava uma experiência de ativo engajamento trotskista e anticolonial. A obra era uma reinvindicação incisiva contra a historiografia colonial antinegra, que insistia em negar aos povos africanos e seus descendentes na diáspora a capacidade de liderança heroica e autogoverno. Próximo do socialismo revolucionário e das distintas tradições do romantismo negro, James não tomava o evento apenas como um episódio fundamental na luta revolucionária pela autoemancipação dos escravos negros relegado ao passado. Em profunda “autoconsciência historiográfica”, ou seja, em intensa percepção do presente crítico em que escrevia, seu “épico revolucionário” reconstruía e desdobrava o passado histórico “a serviço de imaginar a direção na qual um futuro alternativo poderia ser buscado”14 (Scott, 2004, p. 10). Em Scenes of Subjection, Hartman parte de autoconsciência historiográfica semelhante, ao buscar ativar “valências emocionais” (para retomar o termo de White) que dialoguem, sobretudo, com uma audiência afro-americana do final dos anos 1990.
David Scott, ressalto, não deixava de reconhecer o valor do modelo narrativo romântico, nem jogava suas proposições no mesmo bojo ideológico daqueles que advogavam em defesa do fim da história e do racismo.15 O que lhe gerava dúvida era a utilidade [diríamos também, a aplicabilidade] de um regramento teórico e narrativo que só lia e representava convulsões a partir do conceito moderno de revolução. Em um presente cético sobre as teleologias de libertação nacionalista e socialista, ele via como necessária a busca por outras formas de narrativa e ritmos de escrita historiográfica.
Segundo o autor, é especialmente nos inéditos sete parágrafos da abertura do último capítulo dessa versão revisada que percebemos C. L. R. James rompendo com uma “visão consoladora” sobre colonialismo, civilização, modernidade e iluminismo. Consequentemente, isso nos ofereceria uma performance historiográfica capaz de, a um só tempo, refigurar Os Jacobinos Negros como uma “tragédia do iluminismo colonial” e oferecer “os elementos de uma história crítica de nosso tempo pós-colonial”16 (Scott, 2004, p. 14).
Dialogando intimamente com o artigo Conscripts of Western Civilization, do antropólogo saudita Talal Asad (1992), Scott defende que aqueles que lidam com o passado negro através da história deveriam, a partir de então, se concentrar menos na subjetividade volitiva dos sujeitos [ou seja, na agência dos subalternos, como pensada por uma dada História Social da Escravidão] e, efetivamente, se deter nas condições de possibilidade para que as subjetividades desses sujeitos pudessem existir e agir. Lendo Os Jacobinos Negros por esse caminho, Scott argumentava que, para o presente pós-colonial, vale mais a pena entender Toussaint Louverture - o revolucionário negro eleito por C. L. R. James como principal personagem da grande trama da Revolução Haitiana - não tanto como “um agente revolucionário que fez história”, mas como um sujeito “constrangido [ou conscrito, recrutado como diz o título do livro de Scott e o artigo de Asad] a imaginar e fazer a revolução que imaginou e fez dentro do terreno conceitual e institucional da modernidade”17 (Scott, 2004, p. 129).
A tragédia, nesse caso, teria como função fundamental questionar “a visão da história humana como se movendo teleológica e transparentemente em direção a um fim determinado, ou como sendo governada por um agente soberano e omniscientemente racional”18 (SCOTT, 2004, p. 12). O trágico Toussaint de James atuava em uma cena histórica repleta de instabilidade sobre o futuro da revolução que participava, transitava em um instante de profunda ambiguidade sobre a efetividade das conquistas que os rebeldes haitianos estavam alcançando. Cada sucesso revolucionário, a partir de então, passava a ser lido com a desconfiança de que o fracasso é intransigente nesses processos. Nos sete novos parágrafos que abrem o capítulo final da edição revisada, a liberdade haitiana estava longe de ser figurada como um Jubileu apoteótico. O seu teor, afinal, indicava muito mais um alerta para o presente pós-colonial. O trágico, concluía David Scott (2004, p. 209) à certa altura: “É um sentimento de incapacidade do homem em sociedade para vencer o mal que parece inseparável da organização social e política”.19 Quem performar sua narrativa historiográfica nessa forma deve se questionar como os sujeitos podem lutar contra uma sujeição sempre à espreita. Com esses movimentos, Talal Asad, James Scott e C. L. R. James não apelavam para um mero fatalismo sobre o presente, nem muito menos sobre a emancipação negra no mundo moderno. O presente não está condenado, não somos, no final de tudo, meros marionetes ante a tirania colonial/imperial. A mudança, ainda que restrita, é possível.
E, de fato, veremos que Saidiya Hartman caminhou por estrada semelhante e diagnosticou o seu presente como estando adormecido em um falso sonho de emancipação negra, que tanto remetia às promessas rompidas do Jubileu no século XIX. O modo trágico em Scenes of Subjection buscava colocar os estudos da escravidão nos Estados Unidos e os chamados black studies em um estado de alerta. Com ela aprendemos, afinal, uma escrita para despertar.20
ENREDANDO A ESCRAVIDÃO NO MODO TRÁGICO
Scenes of Subjection é dividido em duas sessões: “Formations of Terror and Enjoyment” situa-se no contexto da escravidão, enquanto “The Subject of Freedom” reflete sobre as promessas rompidas e incursões da sujeição antinegra após a emancipação formal que, nos EUA, escopo do trabalho, se deu em 1865. O livro inicia-se analisando como o abolicionista branco John Rankin, escrevendo cartas a seu irmão escravista no Velho Sul, só conseguia dimensionar o açoitamento dos escravizados ao imaginar que aquele corpo em sofrimento poderia ser o dele ou de sua família. Grotesca, tal reencenação apelava aos bons sentimentos do remetente/espectador através do choque e da perturbação que somente um minucioso relato dos suplícios pensava oferecer. O trágico dessa “nobre intenção” de Rankin, observa Hartman, é que, ao “tornar seu” o sofrimento do escravizado, ele “começa a sentir por si próprio, e não por aqueles a quem esse exercício de imaginação presumivelmente pretende alcançar”21 (Hartman, 2022, p. 24).
Hartman parecia escrever esses primeiros momentos como uma dramaturga assombrada pela extensa reprodução televisiva do vídeo do caso Rodney King, homem negro de 25 anos espancado por quatro policiais de Los Angeles em março de 1991. Como ela deveria escrever um livro sobre a escravidão sem replicar o status do corpo negro violado disponível para consumo público? Por qual motivo a violência da escravidão, a exemplo das exibições do vídeo de Rodney King, costuma ser reconhecida/debatida quase que exclusivamente a partir da exploração espetacular de imagens de escravos/negros sendo castigados? Por que é que tais cenas são constantemente tomadas como necessárias para confirmar a condição de vítima exemplar de tais sujeitos? Questionamentos do tipo aparentam ser os pontos de partida de Scenes of Subjection.
Operando um verdadeiro ajuste no sensível historiográfico, o seu enredamento dessacraliza a noção de trágico, na maior parte dos casos associada ao palco/representação/encenação de uma tragédia, e opta por colocar em primeiro plano outras modalidades de sujeição antinegra, como as teatralidades aparentemente dispares envolvendo escravizados nas lúdicas encenações de menestréis22 e no cruel coffle.23 No primeiro caso, lidos como “divertimentos inocentes”, os atos de transgressão permitidos pelas máscaras blackface terminavam policiando a negritude “por meio do escárnio, do ridículo e da violência”24 (Hartman, 2022, p. 42). Indo por uma direção contrária, a “exibição descarada” do comércio de escravos no coffle chegava, curiosamente, a resultados semelhantes, indica Hartman. No esforço de “se fazer vendável”, os cativos acorrentados pelo pescoço eram obrigados a cantar “Old Virginia Never Tire” [uma canção que tinha origem, curiosamente, no palco dos menestréis] em uma “indecente” e “nojenta” cena cuja função essencial, demonstra a autora, era fazer o subjugado aparentar contentamento e comodidade (2022, p. 49).
Nesse sentido, onde muitos viam uma pastoral romântica entre mestres e escravizados, Hartman notava a reinserção trágica do poder antinegro. Para ela, esse conjunto de dissimulações, quando demandadas em exibições coagidas na Casa Grande, nos obriga a repensar alguns parâmetros. Como uma talentosa dramaturga, ela sugere que:
Em vez de olharmos para os espetáculos mais impressionantes com repulsa ou com os olhos cheios de lágrimas, fazemos melhor em lançar o nosso olhar para as demonstrações mais mundanas de poder e para a fronteira onde é difícil discernir a dominação da recreação. A crueldade é facilmente reconhecida e esquecida, e os gritos são reduzidos a um zumbido suportável. Ao desmontar a cena “benigna”, confrontamos a prática quotidiana da dominação, a rotina diária do terror, o não acontecimento, por assim dizer. Será que a cena dos escravos a dançar e a tocar para os seus senhores é menos desumana do que a dos escravos a chorar e a dançar na praça de leilões? Em caso afirmativo, por quê? O efeito do poder é menos proibitivo? Ou coercivo? Ou será que o prazer atenua a coerção? A fronteira entre o terror e o prazer é mais nítida no mercado do que nas senzalas ou na “casa grande”? As formas mais duradouras de crueldade são aquelas aparentemente benignas? Será que a imagem perfeita do crime é aquela em que o crime passa despercebido? [grifos meus]25 (Hartman, 2022, p. 66)
As brincadeiras do sábado na Casa Grande atuavam como uma força produtiva que regulava as formas de expressão permitidas aos dominados. Os harmoniosos e idílicos “tempos de folga” deveriam teatralizar o poder, reinscrever o status de cada personagem. Referenciando Metahistória e Trópicos do Discurso, de Hayden White, a autora recorda o quanto os enredamentos cômicos das interpretações “racialistas românticas” tendiam a conclusões organicistas com implicações ideológicas conservadoras. No discurso pastoral, a “boa sociedade” seria benevolente, paternalista e humanizada com as pobres criaturas desamparadas que, tratadas como “crianças” tolas, respondiam aos agrados dos senhores com esfuziante alegria, talento musical natural e uma vontade inabalável para servir (Hartman, 2022, p. 397). O trágico em Hartman entende que esses discursos, acima de tudo, atuavam para silenciar um passado indigesto que desagradava os gloriosos projetos nacionais de uma democracia excepcional providenciados pelos EUA. Essa era, portanto, uma conversa integrativa que, a autora fazia questão de ressaltar, parecia estar sendo intensamente revivida nas décadas que antecederam a produção de Scenes of Subjection.
Hartman, de maneira corajosa, procura imaginar se há jeito diferente de interpretar a atuação dos escravizados nesses espaços de diversão coagida, falso consentimento e fingimento do gozo. É possível pensar movimentos de resistência ou espaços de fuga em local de violência tão sofisticada? Conjunto significativo de autores ligados à História Social da Escravidão havia tentado algo do tipo. Mas quais foram os limites teóricos e metodológicos que enfrentaram? Em suma, a questão era:
Como poderemos reconsiderar o performativo para iluminar as relações sociais da escravidão e as práticas quotidianas de resistência que atravessam essas relações; ou representar o trabalho crítico dessas práticas sem reproduzir o sujeito satisfeito da pastoral ou o ator heroico do romance de resistência?26 (Hartman, 2022, p. 90)
Mesmo com boas intenções, muitos historiadores – sobretudo homens brancos com uma forte base no marxismo – passaram a superinterpretar atos cotidianos, envolvendo música e dança, por exemplo, como episódios que confirmariam a capacidade autodirigida dos escravizados de reagir à condição de sujeição. O risco, contudo, é que muitas dessas leituras terminavam “neutralizando o dilema do status de objeto e da constituição de sujeito dolorido dos escravizados, obscurecendo a violência da escravidão”27 (Hartman, 2022, p. 88). Como Hartman incisivamente elabora, não faria sentido olhar aquele contexto de subjugação extrema e ver a figura do escravizado como um sujeito autônomo dotado de livre arbítrio, haja vista que a sua relação com a categoria normativa “pessoa” era muito mais indefinida e paradoxal. Nos seus termos:
Acredito que, para mim, o livro trata do problema de criar uma narrativa do escravo como sujeito e, em termos de posicionalidade, faz a pergunta “Quem essa narrativa favorece?” É nesse sentido que a questão da identificação empática é fundamental para mim. Porque parece que todas as tentativas de enredar [emplot] o escravo numa narrativa ultimamente resultou na sua obliteração, independentemente de se tratar de uma narrativa esquerdista de agência política – o escravo que se coloca no lugar de outra pessoa e depois se torna um agente político – ou se se tratava de poder desvendar a humanidade do escravo, encontrando-se de fato nessa posição. Em muitos aspectos, o que eu estava tentando fazer como historiadora cultural era narrar uma certa impossibilidade, iluminar as práticas que falam dos limites da maioria das narrativas disponíveis para explicar a posição dos escravizados. Por um lado, o escravo é o fundamento da ordem nacional e, por outro, o escravo ocupa a posição do impensado28 (Hartman; Wilderson III, 2003, p.184-185).
Menos que um “romance de resistência”, seu impulso teórico atenta-nos para as inúmeras e intricadas maneiras como os escravos poderiam performar espaços fugazes de liberdade em contextos praticamente impossíveis, marcados pela vigilância e ameaça constante. Precisamente, o seu modo trágico de enredamento vai ver, naqueles “desafios pedestres” à escravidão, uma confirmação do quanto os cativos negros desafiavam a episteme dominante, mesmo que esta os infantilizasse e os considerasse como desprovidos de obstinação ou inteligência. Em suma, diagnosticar (nessa linha teatral, poderíamos falar também em “mostrar seus bastidores, seu making off”) o poder significaria também notar o quanto aquele poder estava em crise e, por isso mesmo, teatralizava sua vitalidade.
Scenes of Subjection está longe, portanto, de ser um livro imobilizante ou mesmo pessimista, como definira-o Anitta Patterson (1999, p. 683) em uma das primeiras resenhas da obra.29 Sua forma trágica de enredamento, ao contrário, complexifica o cenário onde a resistência/agência seria possível. Não se arroga ao escravizado os privilégios ilusórios do sujeito burguês ou do indivíduo dono de si.30 “Dotar” o escravizado de volição poderia ser parte de uma boa intenção de muitos historiadores compreensivelmente preocupados em fazer justiça social pela via acadêmica. Porém, as possibilidades para os sujeitos do passado eram sempre mais conscritas:
Os constrangimentos da agência são grandes nesta situação, e é difícil imaginar uma maneira pela qual a interpelação do escravo como sujeito possibilite formas de agenciamento que não reinscrevam os termos de sujeição. Embora se tenha tornado um lugar-comum nas abordagens foucaultianas às relações de poder conceitualizar o arbítrio como um constrangimento ou uma violação facilitadora, o problema desta abordagem é que assume que todas as formas de poder são normativamente equivalentes, sem distinguir entre violência, dominação, força, legitimação, hegemonia, etc.31 (Hartman, 2022, p. 91).
O grande mérito teórico dessa leitura trágica da história, reitero, é que não reduz inúmeras formas de práticas cotidianas às condições de dominação extrema, nem muito menos romantiza as fricções que aconteciam nestes espaços como se equivalessem a raras formas de resistência aberta ou conquistas que poderiam vir a abalar uma estrutura maior de poder. Isso não significa uma diminuição do valor daqueles atos, muito pelo contrário. Na verdade, essa percepção implica considerar que, afinal, não havia heróis e vilões competindo com forças equivalentes no contexto da escravidão. Longe de um mero fatalismo, estava em jogo uma maneira interventiva de imaginar que caminhos a política (radical) negra poderia tomar naquele presente de tantas inclinações pós-raciais, como eram os anos 1990.
Scenes of Subjection performava uma linguagem marcada, ao mesmo tempo, por uma desconfiança generativa e um clamor renovado por um despertar. Como Hartman protestava, o debate sobre raça, com alguma frequência, descambava para uma irrefletida “celebração dos oprimidos”, quando diversos dos historiadores da escravidão descreviam suas pesquisas como se pudessem acessar/descobrir testemunhos em primeira mão, ou seja, como se trabalhos acadêmicos, desde que rigorosos, fossem capazes de “resgatar a voz” dos pobres subalternos silenciados. Para pensar essas questões, Scenes of Subjection articulava autores afro-americanos, como James D. Anderson (1976) e Clarence E. Walker (1991), às leituras em voga de Renato Rosaldo (2016 [1986]) e Gayatri Spivak (2010 [1988]). Em movimento que antecede o seu bastante citado artigo “Vênus em dois atos”, de 2008, Hartman explica como o imperativo de construir um passado nacional utilizável e palatável determinou a imagem da escravidão nos arquivos de depoimentos coletados pela Works Progress Administration. Mais que isso, os registros eram uma clara demonstração de como se desenvolviam as relações hierárquicas entre entrevistadores, em sua maioria brancos, e os entrevistados negros. Hartman (2022, p. 14-15) ressaltava os riscos passíveis a qualquer historiador que lide com tal modalidade de fonte histórica: mesmo que utilizasse dessa documentação “para fins contrários”, o seu projeto não se colocava como um resgate pleno da experiência dos cativos e dos emancipados que porventura estaria “escondida” nos depoimentos. Seu método, descrito aqui como um “trabalho de reconstrução” e [pela primeira vez em sua carreira] “fabulação”, se colocava como “uma busca de fragmentos sobre os quais outras narrativas possam ser tecidas e a transposição e deformação do testemunho por meio de citação e amplificação seletivas”32.
Despertando-nos sobre essa ideia de “dar voz aos oprimidos”, Hartman decide alertar-nos sobre outro pressuposto bastante idealizado por muitas interpretações libertárias do passado escravocrata americano: o conceito político e historiográfico de “comunidade negra”. No processo, ela retoma parte da discussão estabelecida por Walker (1991), porém a discute em proximidade com a filósofa Drucilla Cornell (1992, p. 39-61), observando que as interações estabelecidas pelos escravizados não geravam apenas momentos de cooperação mútua e solidariedade, mas também conflitos diversos, traições, desconfianças, crenças conflitantes e distintos valores. O que Cornell preferia chamar de “comunalidade”, era uma modalidade de formação “instituída na prática” e que dependia menos de uma pretensa uniformidade entre os pares, do que do anseio, esse sim coletivo, por uma mudança daquele mundo, ou seja, por uma abolição da servidão33 (Hartman, 2022, p. 99).
O enredamento trágico do passado escravocrata vê aquele processo de união como algo muito menos estável. Essa forma de perceber a dissensão e as diferenças intramurais como elementos constituintes da comunalidade negra também permite entender a visão elaborada por Saidiya Hartman no que diz respeito à maneira como a memória de um “passado desmembrado” definia as possibilidades reparativas empregadas pelos escravizados34 (Hartman, 2022, p. 122). Um passado era elaborado por meio das danças devocionais, da presença fantasmática de espíritos ancestrais, e até mesmo da nostalgia por uma África rica em possibilidades de liberdade que, curiosamente, muitos sequer haviam presenciado ou vivenciado. Essa reparação, portanto, testemunhava uma perda muito mais do que uma sobrevivência exata do passado. Dialogando com outro texto do já mencionado David Scott (2018), Hartman (2022, p. 127) buscava criticar as visões essencialistas da transmissão da cultura e do passado africano para a experiência dos escravizados no Novo Mundo. Desmistificando e deslocando esses conceitos sobre a África, ela indicava a centralidade da violenta descontinuidade produzida pela Passagem do Meio. A dança juba, por exemplo, é por ela tomada como um “canal de histórias subterrâneas e reprimidas”, ao invés de “uma lembrança de origens distantes, mas recuperáveis”. Não haveria como os escravizados repararem ou compensarem, através daquelas expressões culturais, aquele evento trágico que os jogou naquela condição. Mas “o esforço para consertar as coisas”, Hartman (2022, p. 129) arrisca dizer, foi aquilo que promoveu, aos poucos, “uma revolução da ordem social, um conjunto inteiramente novo de arranjos”.35
Isso é muito interessante e o livro está repleto de exemplos dessas assembleias clandestinas, escondidas, “roubadas”, exorbitantes, corajosamente tornadas possíveis e que acabavam por romper as fronteiras entre religião, política, cultura e prazer corporal. A fugacidade com a qual os encontros eram engendrados atesta que os modos de viver dos escravizados não poderiam ser “reduzidos à dominação nem explicados fora dela”36 (Hartman, 2022, p. 102). E isso é uma síntese do que significa pensar o passado da escravidão negra no modo trágico: uma dança escondida em um espaço cercado, uma liberdade fugidia sendo experienciada da forma mais intensa possível no lugar menos provável disponível. Por isso essas histórias nos importam tanto hoje em dia. Aquelas pessoas estavam, de certa forma, transmitindo algo ao futuro, ou seja, ao presente que vivemos: uma forma indomável de liberdade negra, um outro jeito de gritar por abolição (Hartman, 2020).
O TRÁGICO E A VIDA PÓSTUMA DA ESCRAVIDÃO
Entretanto, permanece a dúvida sobre que linguagem usar para definir tais movimentos. Como dar conta dessas práticas, haja vista que nossa disciplina, como bem ressaltou o citado Hayden White, possui fronteiras tão bem policiadas? É possível traçar algum paralelo entre o enredamento trágico e um modo indisciplinado de escrita da história? Scenes of Subjection, de fato, me faz recordar muito daquilo que David Scott propunha ao falar sobre o potencial narrativo do trágico. Afinal, há na obra uma outra modalidade de narrativa sobre o passado sendo proposta para atender, ou melhor, sendo colocada para intervir em novas demandas do presente.
Tomemos o terceiro capítulo como um exemplo de onde quero chegar. Intitulado Seduction and the Ruses of Power, um dos seus mais valiosos insights está em ressaltar o quanto os valores reverenciados e pensados como universais nas nossas democracias modernas – liberdade, igualdade, autodomínio e os invioláveis direitos de personalidade – foram adquiridos em uma relação direta com a escravização negra. Haja vista que a volição escrava só conseguia ser inteligível como crime, como os recém-libertos poderiam se apossar de tais atributos? De que maneira eles poderiam afirmar sua humanidade e ter suas demandas como sujeitos do Estado moderno reconhecidas, quando essa personalidade demonstrava estar carregada de uma série de perpétuas responsabilidades que, geralmente, serviam para reafirmar e intensificar os mecanismos coercitivos de poder antinegro? O trágico das problematizações levantadas por Hartman nos convoca a refletir sobre a continuidade nefasta dessas reversões da sujeição num presente em que vidas negras permanecem sendo violadas.37
Entretanto, o que estava em questão para a autora não era uma negação peremptória dos êxitos possibilitados pela formalização da igualdade, tanto quanto um tensionamento da compreensão dos limites da Emancipação de 1865. Scenes of Subjection buscava fazer isso sem trilhar o caminho usual da mera denúncia sobre a não-aplicação de direitos básicos, privilégios e benefícios para os ex-escravizados. O movimento era significativamente diferente, pois a obra buscava questionar de que maneira a inclusão dos ex-escravizados nesse conjunto de direitos imaginados serviu, em muitos casos, para uma verdadeira mutação e transformação do poder antinegro (Hartman, 2022, p. 210).
Indo por esse caminho, a segunda parte da obra costura um arrojado diagnóstico do emaranhamento38 entre os princípios constituintes da Escravidão e as responsabilidades imbuídas no discurso da consciência culpada da Liberdade formal. A questão para o projeto nacional dos EUA naquele momento era se poderia aquele contingente “desacostumado com a liberdade dos brancos” vir a constituir uma classe trabalhadora ordeira, produtiva, responsável e higiênica. Tentando agir diante de um extenso conjunto de prognósticos negativos, manuais como Advice to Freeman, Friendly Counsels for Freedmen, John Freeman and His Family e Plain Counsels for Freedman foram pensados, como forma de, ligando educação e instrução religiosa, tutelar os recém-emancipados nessa transição. Publicados pela American Tract Society, organização evangélica estabelecida em 1825, as cartilhas buscavam orientar adultos e crianças a serem “respeitosos com os antigos senhores, bons cristãos e cidadãos zelosos”39 (Hartman, 2022, p. 228). Só assim seria possível “superar a degradação da escravidão e enfrentar os desafios da liberdade”40 (Hartman, 2022, p. 227). O trágico, explica Hartman, é ler esses manuais e saber que o destino no pós-abolição não foi nada fácil para os negros, mesmo aqueles que tentaram (ou foram coagidos a) seguir cartilhas como essas: “servidão por dívida, um reinado de terror, quase cem anos permanecendo separados e resolutamente desiguais, cidadania de segunda classe e uma liberdade ainda não realizada”41 (Hartman, 2022, p. 229). Como a autora iria suplementar no penúltimo capítulo da nova edição de Scenes of Subjection: o cinismo foi marcante na consolidação dos Estados Unidos enquanto superpotência na segunda metade do séc. XIX, afinal, a reunião e reconciliação dos capitalistas do Norte com os plantocratas do Sul aconteceu, basicamente, através da detração e do rebaixamento dos negros (Hartman, 2022, p. 253).
Essa segunda parte possui um acento irônico marcadamente inspirado na interpretação desenvolvida por W. E. B. Du Bois em Black Reconstruction in America 1860–1880 (1935), onde o sociólogo afro-americano reclamava sobre a prevalência de uma visão trágica sobre a Reconstrução produzida por historiadores brancos do Sul. Como parte de uma verdadeira contrarrevolução supremacista branca e contando com o auxílio representativo de literatos, cineastas e pintores, figuras como Claude G. Bowers, John W. Burgess e William A. Dunning replicavam uma versão envergonhada e racista sobre os eventos da Guerra Civil (1861-1865) e do pós-Emancipação nos EUA. Em suma, consideravam que o republicanismo de negros e aliados brancos teria causado danos nefastos à democracia. Ousando desafiar essa historiografia, Du Bois defendia que a verdadeira “tragédia interminável da Reconstrução” estava na “total incapacidade da mente americana para compreender o seu verdadeiro significado”. Daí porque interessava-lhe recuperar a história da parte do homem negro na Reconstrução, uma narrativa trágica também, mas de maneira distinta, pois o “fracasso esplêndido” da luta revolucionária do trabalhador negro na Reconstrução teria oferecido ao futuro uma série de ensinamentos sobre a obstinada capacidade organizativa dos negros42 (Du Bois, 1935, p. 708). Scenes of Subjection, à maneira do que apontam Hayden White e James Scott sobre o enredamento trágico, ressalta esse ganho de consciência em sua conclusão. Se a inversão irônica das promessas democráticas e dos auspícios do liberalismo que projetava os EUA como a terra da prosperidade no século XIX fizeram a vida dos negros no pós-Emancipação ser uma verdadeira tragédia, o trágico só pode ser convocado no presente se ele servir como uma experiência coletiva de enredamento do passado, que ecoa o dissonante coro de silenciados pela história monumental. Scenes of Subjection é, afinal, uma construção de significado histórico aberta, que convoca o público leitor a pensar em conjunto sobre um passado que ainda nos assombra.
Hartman, portanto, nos ensina que a tragédia pode oferecer uma gramática de intervenção interessante, embora bem saibamos, com incômoda frequência, seja esse um tipo de enredamento do passado taxado de impróprio para as histórias de redenção subalterna que enchem os olhos de um mercado editorial ainda muito branco. Mercado este que se vê, paradoxalmente, sedento por autores negros, desde que esses sejam palatáveis e capazes de “empoderar” seus leitores, num exato movimento que também consiga tranquilizar a branquitude com manuais de conduta antirracistas pouco radicais. Há um imperativo de felicidade e superação que encontra forte tração mesmo entre pensadores negros e negras. Esse impulso nos convida sempre a “seguir adiante”, dar um tempo com o pessimismo, “não tirar os olhos do prêmio”, olhar para o passado interessado em ver um lado bom, apesar de tudo. Scenes of Subjection, ao contrário, pensa a escravidão como um fantasma retornante. Resta saber se estamos abertos às possibilidades dessa forma de se relacionar com o passado da escravidão.
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1
Trad. livre do autor: “The conviction that I was living in the world created by slavery propelled the writing of this book. I could feel the force and disfigurement of slavery in the present. The life of the captive and the commodity certainly wasn’t my past, but rather the threshold of my entry into the world. Its grasp and claim couldn’t be cordoned off as what happened then. For me, the relation between slavery and the present was open, unfinished.”
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2
Trad. livre do autor: “signs of the ineffectiveness of systems of power and of the resilience and creativity of the human spirit in its refusal to be dominated”.
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3
Desde o cenário norte-americano, o trabalho de Johnson (2003) é uma reflexão clássica sobre o tema. Discutir a fundo a proeminência desse debate na historiografia brasileira fugiria do escopo de nossa intervenção. Em todo caso, cf. Machado (1988), Mello e Souza (1989) e Gomes (2004).
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4
A primeira edição do livro foi publicada em 1997, pela Oxford University Press. Utilizo aqui a versão revisada publicada em 2022 pela W. W. Norton & Company.
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5
Trad. livre do autor: “consciously or unconsciously peel away from the strength and the terror of their evidence” Sirma Bilge (2020, p, p. 2300) mostra como – a despeito de uma aparentemente maior receptividade institucional – aquele era um contexto onde pesquisadoras negras temiam que a inclusão de seu conhecimento e de sua força de trabalho racializada nos espaços das universidades no Norte global fosse utilizada para provar a superação do “problema racial”.
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6
Trad. livre do autor: “that project is something I consider obscene: the attempt to make the narrative of defeat into an opportunity for celebration, the desire to look at the ravages and the brutality of the last few centuries, but to still find a way to feel good about our selves. That’s not my project at all, though I think it’s actually the project of a number of people. Unfortunately, the kind of social revisionist history undertaken by many leftists in the 1970s, who were trying to locate the agency of dominated groups, resulted in celebratory narratives of the oppressed.”
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7
Trad. livre do autor: “the metanarrative thrust is always towards an integration into the national project, and particularly when that project is in crisis, black people are called upon to affirm it.”
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8
Dois textos repletos de espantalhos retóricos sobre Hayden White, pós-modernismo e realismo histórico foram escritos por Cardoso (1998) e Ginzburg (2006).
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9
Trad. livre do autor: “reduced to historical dead weight”.
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10
Trad. livre do autor: “Our readings of ancient tragedy must include more than Oedipus and his family if they are to illuminate our present and our future”.
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11
Trad. livre do autor: “I think we live in tragic times (…) The old languages of moral-political vision and hope are no longer in sync with the world they were meant to describe and normatively criticize.”
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12
A edição brasileira, lançada em 2000, já conta com esses parágrafos incluídos em 1963.
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13
Trad. livre do autor: “Does the moral point of anticolonialism depend on constructing colonialism as a particular kind of obstacle to be overcome? Does the purchase or salience of anticolonialism depend on a certain narrative form, a certain rhythm, and a certain conception of temporality? Does the anticolonial demand for a certain kind of postcolonial future oblige its histories to produce certain kinds of pasts?”
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14
Trad. livre do autor: “in the service of imagining the direction in which an alternative future might be sought.”
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15
Sobre as concepções em torno de um “fim do racismo” na cultura norte-americana, cf. Rasberry (2012) e Bonilla-Silva (2020).
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16
Trad. livre do autor: “the elements of a critical story of our postcolonial time”.
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17
Trad. livre do autor: “a revolutionary agent who made history but that he was constrained to imagine and make the revolution he imagined and made within the conceptual and institutional terrain of modernity”.
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18
Trad. livre do autor: the view of human history as moving teleologically and transparently toward a determinate end, or as governed by a sovereign and omnisciently rational agent”.
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19
Trad. livre do autor: “a sense of the inability of man in society to overcome the evil which seems inseparable from social and political organization”.
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20
Para Christina Sharpe (2023), o “trabalho do despertar” atua como uma forma de consciência, onde pesquisadores negros entendem que “estar desperto” é ocupar e ser ocupado pelo presente contínuo e mutável do desdobramento ainda não resolvido da escravidão.
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21
Trad. livre do autor: “begins to feel for himself rather than for those whom this exercise in imagination presumably is designed to reach”.
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22
Minstrel show foi um tipo de espetáculo teatral bastante popular nos EUA pós-Guerra Civil (1861-1865). Repletos de música e dança, suas cenas cômicas eram interpretadas por atores brancos que pintavam seus rostos de preto na caracterização de personagens negros estereotipados.
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23
Espécie de pelotão organizado por proprietários para transportar um grupo de escravizados acorrentados pelo pescoço, até um espaço onde seriam vendidos/trocados.
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24
Trad. livre do autor: “blackness was also policed through derision, ridicule, and violence.”
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25
Trad. livre do autor: “Rather than glance at the most striking spectacle with revulsion or through tear-filled eyes, we do better to cast our glance at the more mundane displays of power and the border where it is difficult to discern domination from recreation. Bold instances of cruelty are too easily acknowledged and forgotten, and cries quieted to na endurable hum. By disassembling the “benign” scene, we confront the everyday practice of domination, the daily routine of terror, the nonevent, as it were. Is the scene of slaves dancing and fiddling for their masters any less inhumane than that of slaves sobbing and dancing on the auction block? If so, why? Is the effect of power any less prohibitive? Or coercive? Or does pleasure mitigate coercion? Is the boundary between terror and pleasure clearer in the market than in the quarters or at the “big house”? Are the most enduring forms of cruelty those seemingly benign? Is the perfect picture of the crime the one in which the crime goes undetected?”
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26
Trad. livre do autor: “How might we reconsider the performative to illuminate the social relations of slavery and the daily practices of resistance that traverse these relations; or represent the critical labor of these practices without reproducing the contented subject of the pastoral or the heroic actor of the romance of resistance?”
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27
Trad. livre do autor: “neutralizes the dilemma of the object status and pained subject constitution of the enslaved and obscures the violence of slavery”.
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28
Trad. livre do autor: “I think for me the book is about the problem of crafting a narrative for the slave as subject, and in terms of positionality, asking, ‘Who does that narrative enable?’ That’s where the whole issue of empathic identification is central for me. Because it just seems that every attempt to emplot the slave in a narrative ultimately resulted in his or her obliteration, regardless of whether it was a leftist narrative of political agency - the slave stepping into someone else’s shoes and then becoming a political agent - or whether it was about being able to unveil the slave’s humanity by actually finding oneself in that position. In many ways, what I was trying to do as a cultural historian was to narrate a certain impossibility, to illuminate those practices that speak to the limits of most available narratives to explain the position of the enslaved. On one hand, the slave is the foundation of the national order, and, on the other, the slave occupies the position of the unthought.
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29
Em entrevista a Max Nelson (2022), Hartman chega a reclamar da maneira como muitos recepcionaram sua obra como uma simples denúncia da crueldade contra corpos negros. Para a autora, vários leitores esqueceram ou diminuíram o peso que a invenção do cotidiano tem em Scenes of Subjection.
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30
Curiosamente, o trabalho que ganhou maiores louros sobre essa discussão, o já citado “On Agency”, do historiador Walter Johnson (2003), não cita o livro de Hartman publicado pouco tempo antes.
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31
Trad. livre do autor: “The constraints of agency are great in this situation, and it is difficult to imagine a way in which the interpellation of the slave as subject enables forms of agency that do not reinscribe the terms of subjection. Although it has become commonplace in Foucauldian approaches to power relations to conceptualize agency as an enabling constraint or an enabling violation, the problem with this approach is that it assumes that all forms of power are normatively equivalent, without distinguishing between violence, domination, force, legitimation, hegemony, et cetera.”
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32
Trad. livre do autor: “The work of reconstruction and fabulation (...) raiding for fragments upon which other narratives can be spun and transposing and deforming the testimony through selective quotation and amplification.” A autora teorizaria a questão da “fabulação crítica” de maneira mais expansiva em seu “Vênus em Dois Atos” (2021 [2008]), p. 105-129.
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Trad. livre do autor: “commonality constituted in practice”.
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Trad. livre do autor: “dismembered past”.
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Trad. livre do autor: “a revolution of the social order, an entirely new set of arrangements”.
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Trad. livre do autor: “be reduced to domination nor explained outside it”.
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Na nota 44 do capítulo 2 “Redressing the Pained Body”, Hartman afirma: “Nem as noções liberais nem as marxistas do sujeito político são adequadas à situação particular dos escravizados. O modelo marxista se preocupa com um modelo diferente de opressão-exploração e com o trabalhador livre e não oferece uma análise da opressão racial. Ironicamente, as interpretações ‘marxistas’ da escravidão foram bastante conservadoras em sua análise da escravidão e focaram no paternalismo e não na dominação ou no terror, e nas relações totais e não na subordinação racial.” p. 403. Tradução livre do autor: “Neither liberal nor Marxist notions of the political subject are suited to the particular situation of the enslaved. The Marxist model is concerned with a different model of oppression-exploitation, and the free worker and does not offer an analysis of racial oppression. Ironically, “Marxist” interpretations of slavery have been quite conservative in their analysis of slavery and have focused on paternalism rather than domination or terror, and on total relations rather than racial subordination.”
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Embora pouco notado, “emaranhamento” [entanglement] é um termo tão presente quanto “vidas póstumas da escravidão” [afterlife of slavery] nas obras de Saidiya Hartman.
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Trad. livre do autor: “respectful to former masters, good Christians, and dutiful citizens.”
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Trad. livre do autor: “overcome the degradation of slavery and meet the challenges of freedom”.
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Trad. livre do autor: “debt peonage, a reign of terror, nearly one hundred years of remaining separate and resolutely unequal, second-class citizenship, and an as-yet unrealized freedom”.
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Trad. livre do autor: “The unending tragedy of Reconstruction is the utter inability of the American mind to grasp its real significance”; “a splendid failure”.
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Editora Responsável:
Nathália Sanglard de Almeida Nogueira
