Open-access Informalidades e reação popular em uma periferia fluminense: O estranho caso do “astrólogo racista”

Informalities and popular reaction in a Rio de Janeiro periphery: The strange case of the “racist astrologer”

RESUMO

O artigo diz respeito a uma narrativa intensiva do segundo caso de linchamento ocorrido na Baixada Fluminense (Rio de Janeiro) no período seguinte ao movimento de colonização proletária da região - algo que localizo entre as décadas de 1950 e 1980. Trata-se do linchamento de Felício Batista de Souza, de 41 anos, que foi tocaiado por cinco de seus vizinhos na rua Washington Luís, bairro Nova Canaã, em Nova Iguaçu. O crime foi detalhadamente exposto pelos principais periódicos cariocas nas semanas e meses seguintes ao seu acontecimento (07 de junho de 1970), provavelmente porque era a primeira vez que um crime colocava homens pretos contra um branco considerado racista e que se notabilizava como alguém que continuamente ofendia e agredia, auxiliado por policiais, a população preta do bairro em que vivia. Objetivo na presente pesquisa relacionar o suplício de Felício com as formas populares de colonizar a Baixada, bem como pensar as representações presentes nos periódicos cariocas sobre a região na década de 1970 e as relações entre pretos e brancos numa comunidade invisível até os anos de chumbo da última ditadura militar brasileira.

PALAVRAS-CHAVE:
microanálise histórica; Baixada Fluminense; linchamentos

ABSTRACT

The article deals with an intensive narrative of the second lynching case that took place in Baixada Fluminense (Rio de Janeiro) in the period following the proletarian colonization movement of the region, which I locate between the 1950s and 1980s. It revolves around the lynching of Felício Batista de Souza, 41 years old, who was ambushed by five of his neighbors on Washington Luís Street, in the Nova Canaã neighborhood in Nova Iguaçu. The crime was extensively covered by the main newspapers of Rio de Janeiro in the weeks and months following its occurrence (June 7th, 1970), probably because it was the first time that a crime put black men against a white man considered racist, who was known for continually insulting and assaulting the black population of the neighborhood where he lived, often with the assistance of police officers. The objective of this research is to relate Felício’s ordeal to the popular forms of colonizing the Baixada Fluminense, as well as to analyze the representations present in the Rio de Janeiro’s newspapers about the region in the 1970s and the relationships between black and white individuals in an invisible community until the years of “chumbo” years of the last Brazilian military dictatorship.

KEYWORDS:
historical microanalysis; Baixada Fluminense; lynchings

A mais triste nação

Na época mais podre

Compõe-se de possíveis

Grupos de linchadores

(CAETANO VELOSO)

Junho de 1970, dia sete. Domingo. Faltam alguns minutos para as seis da manhã. Acompanhado de dois de seus três filhos de olhos verdes e do seu cão “de raça”, um homem branco de 41 anos sai da casa 8 da rua Washington Luís, no bairro Nova Canaã, em Nova Iguaçu. Acelerado, ele se encaminha - como todos os dias - para um ponto de ônibus. Seu destino era o prédio da Rádio Solimões, que se localizava no centro do município. O plano imediato era chegar até sua condução “protegido” pelas crianças e o cão.

Como acontecia desde o meio do mês anterior, assim que o homem conseguia embarcar, o casal de filhos e o cão “policial” Plutão (ou Nero) deveriam retornar à casa onde a mãe da família os esperava apreensiva.

Os cerca de 200 metros que separavam a casa 8 da rua Washington Luís da empoeirada parada de ônibus, localizada na rua Ministro Lafaiete de Andrade, passaram a ser extremamente arriscados para o homem branco desde que ele foi atacado por um “velho” “preto” no dia 16 de maio após dizer para este - que trabalhava no pátio do Educandário Nova Canaã - “passa urubu, que eu te mato”. Atingido por uma garrafa de refrigerante, ele foi acudido por sua esposa, mas feriu-se bastante ao tentar pular o muro de sua casa, segundo o agressor.

No entanto, naquela manhã de domingo, a minguada sorte do homem branco parece ter desaparecido, ele foi alvejado por dois tiros na cabeça e recebeu vários golpes de paus e foices dados por vizinhos seus, todos eles negros ou “amigos dos negros”.

O saldo foi a morte do suposto caucasiano nos braços de sua esposa, que havia corrido para a rua assim que seus filhos apareceram desesperados em casa, gritando “mataram o pai”

A imprensa carioca e fluminense prestou bastante atenção nesse caso de violência originado, à primeira vista, de um generalizado desentendimento entre vizinhos. O interesse de periódicos como Correio da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil, O Fluminense, Luta Democrática, Diário da Noite e Tribuna da Imprensa, pareceu derivar da prática de mais um crime1 coletivo no distrito iguaçuano de Morro Agudo, e do fato da vítima ser branca e seus algozes pretos.

Neste artigo pretendo dissecar de forma microanalítica o massacre de Felício Batista de Souza pela ação de cinco de seus vizinhos. Intenciono entender as maneiras “escolhidas” pela população local para relacionar-se com um universo de carências várias, bem como investigar os mecanismos de defesa pensados coletivamente pelos proletários locais - todos negros (ou quase negros) e aparentados - quando confrontados com um outsider absolutamente relacionado com elementos opressivos originários da “sociedade geral”, isto é: com um mundo bastante diverso do meu microcosmo, que é a rua Washington Luís e suas cercanias. A conexão entre o caso e a temporalidade em tela, e alguns outros casos e tempos, dar-se-á a partir da constância do que aqui designarei informalidades.

É fatal que a discussão se encaminhe para a análise das razões da relação de ódio estabelecida entre o homem branco e seus vizinhos pretos. Quando tal análise ocorrer, terminarei por explorar a “economia moral” dos meus personagens pretos em disputa com a “ideologia senhorial” detida pelo estranho astrólogo que, em momento algum, conseguiu abandonar um pensamento patriarcal racializado que o iludiu a ponto da narrativa dele sobre si mesmo ser bastante delirante.

O ASTRÓLOGO

O homem morto rua Washington Luís era Felício Batista de Souza, que gostava de ser chamado “Professor Souza”, seu pseudônimo como astrólogo.

De acordo com declarações suas ao Jornal dos Sports em 1963,2 nascera em 29 de maio de 1929 no bairro carioca da Gávea. Foi boxeador na juventude (seu apelido era Coroa de Padre), mas abandonou o esporte para se dedicar ao estudo das imaginárias relações entre destinos humanos e a posição dos corpos celestes. Em 1963 apresentava um programa sobre astrologia na rádio Mauá, e foi responsável, no mês de dezembro, pela coluna Dia Astral no jornal carioca A Noite.

Outra ambição do “professor” era tornar-se escritor. Afirmou que já escrevera seu primeiro livro, cujo título era “Quero ser letrado: um libelo contra nosso atual sistema penal e jurídico”.

Disse ele ao profissional do Jornal dos Sports que o presidente João Goulart - para quem previra futuras vitórias políticas3 - se interessara em auxiliá-lo financeiramente para a publicação de sua primeira obra.

Antes de mudar-se em 1967 para o bairro iguaçuano de Nova Canaã, Felício morou em Juiz de Fora (MG), onde foi informante comercial e repórter de um jornal local. Transferiu-se para Maringá (PR) e Campinas (SP), e, nesta última cidade, iniciou os estudos de astrologia e a atividade como vidente.

Em Nova Iguaçu apresentava um programa diário (“Astrologia e conselhos”) na rádio Solimões, e atendia quem desejava saber sua sorte em um escritório localizado no centro do município. Também ministrava aulas particulares de astrologia no mesmo local.

Após sua morte, seus raros defensores repetiram - como parte da justificativa para o crime - que ele se distinguia dos vizinhos por ser sua casa a única do lugar “miserável” que possuía laje, energia elétrica, gravador, liquidificador, televisão e geladeira. Distinção que a professora de sociologia da PUC-RJ, Claire Savit Bacha, não conseguiu perceber quando visitou Nova Canaã a convite de O Correio da Manhã, em novembro de 1970: “O astrólogo tinha a mesma casa, deveria ter sido igual a todo mundo”4.

Igual ou diferente, o fato é que assim que morreu, sua “casa miserável, sala e dois quartos muito pequenos” foi colocada à venda, consistindo o restante da herança material “um terreno em Mesquita5 e algum dinheiro no banco”.

Não trabalhando formalmente e nem contribuindo para o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social6), nenhuma fonte de renda foi deixada pelo professor Souza para esposa e três filhos - todos eles menores de idade.7 O destino da família foi o retorno para a cidade de Campinas, onde residiam os parentes “italianos” da esposa do “professor”, Suzana Reolon Batista de Souza.

A partir dos perfis traçados pelos periódicos cariocas, cujas redações eram visitadas pelo professor Souza ao longo da década de 1960 para fazer suas previsões astrológicas, tentar apoio para a publicação de seu livro e denunciar vizinhos “pretos”, é possível perceber o astrólogo como um homem dúbio.

Se por um lado apresentava-se sempre vestido com terno, chapéu ou um inusitado boné, alegava possuir poucos recursos e por isso precisava de financiamento para publicar sua “obra literária”. Originário da zona sul do Rio de Janeiro, sua ligação com aquela região parecia relacionar-se somente com seu nascimento.

Suas migrações Brasil afora (Campinas, Maringá, Juiz de Fora, Nova Iguaçu) surgem como tentativas frustradas de progresso econômico, não importava em que atividade profissional fosse (boxeador, investigador comercial, jornalista, professor de astrologia, vidente, etc.).

Não é possível saber se por ordem do professor Souza ou se por vontade própria, sua esposa e filho pequeno mantinham-se trancados dentro da casa “miserável”, enquanto os dois filhos mais velhos - testemunhas de sua morte - circulavam livremente pelo bairro distribuindo os mesmíssimos insultos que o pai dedicava aos vizinhos pretos.

Alguns periódicos informaram, após a morte do astrólogo, que Herle e Edi - o casal de filhos - falavam inglês e francês e estudavam em uma escola particular localizada fora do bairro de Nova Canaã.

No Correio da Manhã do dia 11 de junho de 1970, há a informação de que os filhos do astrólogo estudavam numa escola chamada Ginásio Morro Agudo, localizada na Estrada do Riachão, 21, endereço razoavelmente próximo de onde o professor morava e que era somente mais uma dentre as centenas de pequenas escolas particulares existentes no município de Nova Iguaçu nos anos ditatoriais.

Resta ainda melhor investigar a educação estatal e privada na região da Baixada Fluminense nos anos ditatoriais, mas as informações seguintes, vindas de moradoras do Jardim Canaã em 1970, dá pistas de como a coisa funcionava:

Escola aqui? Bem, tinha essa do seu Paulo aqui na rua, mas essa era uma escolinha pra criança menor. Ele não dava nem diploma não. Tinha lá na frente o Ginásio Morro Agudo que era maior e tinha umas escola lá perto da estação de Morro Agudo. Agora escola da prefeitura até tinha umas escola aqui perto, mas não tinha vaga. Os pai ficava na época de matrícula de noite na fila esperando dias e acabava não tendo vaga pra criança e então os pais matriculavam nas escola pequena mesmo e às vez tinha bolsa que o governo dava pro dono da escola e o dono da escola dava pros aluno e ainda cobrava dos aluno uma mensalidade pequena tipo 10, 50 reais8.

Tinha os Médici do prefeito Ruy. Tinha em Cabuçu [bairro de Nova Iguaçu] e outra aqui no Austin [bairro próximo de Morro Agudo]. A de Cabuçu era grande e a de Austin era pequena e era boa porque o prefeito dava bolsa pra todo mundo e a gente só pagava uma mensalidade bem pequena, mas escola pública não tinha quase nenhuma não.9

Escola assim de verdade que os filho dos rico estudava era pouca e tudo no centro [de Nova Iguaçu]. A mais famosa era o Iguaçuano.

Agora nesse bairro assim tinha as escola pequena e tinha umas moradoras que dava aula pra gente na sala da casa ou no quintal da casa só pra gente não ficar sem estudo nenhum. A gente aprendia ler e escrever assim naquela época. Depois uns foram pra outras escolas e muitos ficaram sem estudar nada mesmo.10

O fato de estudar em uma dessas escolas particulares não destinadas à elite local talvez explique a informação jornalística de que no domingo do massacre havia os filhos e o astrólogo acordado às quatro horas da manhã para estudar inglês e francês. O provável é que o orgulho do vidente fizesse dele alguém incomodado por não conseguir manter seus filhos nas escolas em que os brancos ricos dali estudavam, e pensava ele que dar lições de idiomas estrangeiros aos seus filhos os faria parecer menos com os filhos de seus vizinhos pretos.

Embora sua chegada a Nova Iguaçu não tenha sido explicada por nenhum dos periódicos, é possível concluir - a partir da semelhança material entre o “professor” e seus odiados vizinhos - que era ele um tipo estranho de migrante, que enxergou Nova Iguaçu como um município promissor e, ao mesmo tempo, barato para sua fixação e transformação em proprietário de algum imóvel.

Sua casa era própria, porém localizada em uma parte do município (o distrito de Comendador Soares, ou Morro Agudo) que naquele momento vivia um explosivo processo de ocupação não planejada. Os lotes ali eram bastante baratos, porque abundantes, e quase sempre eram comprados por migrantes pobres que, originários das favelas cariocas, do decadente interior fluminense, dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo ou de algum lugar do Nordeste, descobriam nesses lotes localizados em uma zona absolutamente despossuída de qualquer infraestrutura, a chance de sobrevivência a partir das sobras da economia carioca.

A única explicação para a fixação do vidente no bairro iguaçuano, em 1967, aos 39 anos de idade, casado e com três filhos - tendo o mais velho deles onze anos e o menor quatro - é a absoluta necessidade.

O centro do município, onde ele atuou desde que chegou, embora uma área satélite da capital fluminense, era bastante caro tanto para um trabalhador migrante, quanto para alguém economicamente debilitado, apesar de se autoenganar ao considerar-se membro de algum estrato das classes médias.

Nova Canaã distava geograficamente muito pouco do centro de Nova Iguaçu (cerca de 4 km), e não era difícil chegar até ao centro usando o precário e parco transporte coletivo existente no município.

Mas se o astrólogo não diferia dos demais moradores de sua rua quando o assunto era o valor de seus bens, seu orgulho era inversamente proporcional à quantidade e qualidade de suas propriedades.

Seus vizinhos declararam, de uma forma recorrente, que desde a chegada ao bairro, jamais tentara estabelecer contato positivo com alguém. Cultivou o ódio em lugar da mínima cortesia.

A primeira manifestação desse ódio era o esforço em manter diálogos humilhantes com seus vizinhos imediatos e com todos que moravam na mesma rua que a sua. Adjetivos como urubus, tanajuras, macacos, pretos imundos, macaco tuberculoso, frango de macumba, dentre vários outros, eram vomitados pelo astrólogo enquanto ele bordejava pelo bairro.

O isolamento da família foi motivo de estranhamento, talvez porque todos ali tinham a certeza de que, em um lugar onde as ruas eram “de lama”, poucas casas dividiam espaço com uma profusão de lotes baldios repletos de capim, ratos, pernilongos e lixo, onde a água “potável” vinha de poços rasos vizinhos de valas negras que exalavam uma catinga constante. “Criações” se misturavam com crianças nuas brincando pelas ruas, a certeza era de que nesse lugar a vida humana só fosse razoavelmente digna sob o signo da cooperação, da camaradagem entre os “naturalmente” infortunados.11

Seguir o nome do astrólogo na documentação periódica não nos faz saber como se deu a construção da sua casa, porém os descendentes de seus vizinhos, ainda moradores de Nova Canaã, informaram que ele comprara a residência já pronta, fugindo do habitual ali no bairro e em quase toda região proletária da Baixada Fluminense, onde o terreno era adquirido em longas e suaves prestações, transformando seu proprietário em um eterno construtor da própria casa.12

Certamente construtor o astrólogo não foi.

Em um bairro como aquele, contava-se com a diminuição das agruras da construção através da ajuda dos vizinhos. A prática do auxílio mútuo solidificava amizades, amores, antipatias e estabelecia a regra número um do morador daquela periferia: solidariedade e cumplicidade entre vizinhos, que certamente precisariam uns dos outros muitas vezes mais naquela vida forçosamente compartilhada.

Uma das primeiras medidas do astrólogo ao chegar em seu novo bairro foi oferecer o exótico serviço de previsão do futuro para seus vizinhos. Oferecer, é obvio, não gratuitamente. Parece que seu cartão de visitas foi, no momento da chegada, a quebra de uma regra básica da vida social local, baseada em dadivar alguém e estabelecer-se como seu parceiro e, por vezes, até detentor de alguma superioridade sobre este.

Seu “presente” foi recusado: a maior parte de seus vizinhos eram “bíblias” ou macumbeiros. A voz dos astros soava estranha para quem ouvia a voz da trindade cristã, dos anjos (celestiais ou infernais), dos orixás e espíritos desencarnados em seus cultos.

No jogo da dádiva13 o professor Souza sucumbiu, e isso equivaleu a uma declaração de guerra.

OS “CRIOULOS”

Construir um retrato dos vizinhos do astrólogo é algo mais complicado que a tentativa de caracterizar Felício a partir dos periódicos. Não existiu interesse por parte dos jornalistas cariocas e fluminenses, que trataram do caso de fugir dos estereótipos relacionados aos membros das classes subalternas na década de 1970.

Para a jornalista Antonieta Santos, da sucursal Rio do jornal Diário da Noite, “o povoado de Nova Canaã” era “habitado por gente muito miserável, acostumada à pobreza e ao sofrimento e, por isso mesmo, rancorosa e vingativa.” E, como para resumir o raciocínio em uma única frase, “Os moradores de Nova Canaã são todos homens e mulheres de cor.”14

Em oposição ao astrólogo, seus vizinhos são percebidos como ignorantes, irremediavelmente pobres, bárbaros. Alguns jornais até apresentavam a culpa do astrólogo por ser justiçado, mas mesmo esses não se preocuparam em detalhar aspectos da vida daqueles que viviam na rua Washington Luís e que conviveram com a família de Felício entre 1967 e 1970.

Resta-nos aqui combinar as informações originárias dos perió­dicos, o conhecimento prévio a respeito dos colonizadores populares da Baixada Fluminense e confrontar isso com a fala dos poucos descendentes dos vizinhos do professor Souza, localizados por mim a fim de montar um incompleto cenário onde deu-se o assassinato do astrólogo.

A casa de número oito da rua Washington Luís, onde morava Felício, era vizinha de uma escola chamada Educandário Nova Canaã. O proprietário dessa escola era um antigo sargento da marinha, chamado Paulo José de Oliveira. O filho mais velho do astrólogo - Herle Batista Reolon - acusou o professor Paulo, no dia seguinte ao crime, de ser quem mandou seus parentes assassinarem o vidente. Alguns periódicos bancaram a história do adolescente de 14 anos e tentaram transformar o professor Paulo no cérebro por detrás do massacre.

Percebendo que aquilo que o menino dizia (e escrevia)15 poderia se voltar contra si, no dia seguinte ao assassinato, o proprietário do Educandário Nova Canaã se apresentou na delegacia de Nova Iguaçu, explicou que não estava em casa ou em sua escola no horário do crime e parece ter aproveitado para se distinguir de seus vizinhos e parentes muito próximos que habitavam o terreno de sua escola ou as proximidades dela.

Ao contrário desses parentes, o sargento reformado Paulo José de Oliveira, apesar de “preto e baixo”, era dono da única escola do bairro, de dois terrenos e de três casas alugadas. Para completar sua distinção, dirigia um Chevrolet 1950.

Não é difícil concluir, a partir dos periódicos que trataram do caso, que, em um bairro repleto de gente pobre, o professor Paulo, mesmo preto, possuía a estabilidade econômica que faltava aos seus vizinhos.

Militar reformado, transitava facilmente em um mundo distante daquele em que seus parentes e próximos estavam presos. Evidencia isso sua presença voluntária por dois dias seguidos na delegacia e seu contato direto com o delegado. Nesse sentido, sua atitude assemelhou-se, em parte, à do assassinado, que, segundo Herle e as vítimas do astrólogo, tinha amizade com o delegado e sempre que se sentia incomodado por algum morador do bairro, solicitava uma viatura que prendia quem ele indicasse.

Tais prisões eram, é óbvio, no auge da vigência do AI-5, arbitrárias, e os infelizes detidos (aparentemente todos eles “trabalhadores”16) experimentavam sessões de tortura na delegacia de Nova Iguaçu, e eram, daí a alguns dias ou horas, liberados, apesar das acusações do astrólogo serem sempre graves, como assaltos, furtos, estupros e tráfico ou consumo de drogas.

Perguntados sobre o porquê do antigo sargento da marinha e dono da escola do lugar - que se declarou inimigo do professor Souza em seu depoimento na delegacia - não defendeu seus parentes e vizinhos antes do justiçamento,17 usando, para isso, sua condição de militar das forças armadas e, portanto, respeitado por policiais, membros de órgãos auxiliares da ditadura. Filhos e sobrinhos dos envolvidos no linchamento explicaram que o dono da escola era, ao contrário do astrólogo, bastante pacífico e cordial. Homem religioso (membro da Assembleia de Deus), procurava tentar relevar os ataques de seu opositor, mantendo-se em silêncio.

Pelo que parece, Paulo José de Oliveira estava muito mais preocupado com a administração de seu pequeno negócio informal de educação e com suas casas alugadas que com um enfrentamento aberto com o professor Souza.

Instalado há muito mais tempo no bairro, tendo sua irmã e cunhado diretamente implicados nos conflitos com o astrólogo, deveria parecer importante para o professor Paulo a saída de cena do “racista”. Talvez por isso tenha sido ele o encarregado de entregar na delegacia de Nova Iguaçu, alguns meses antes, um abaixo-assinado comunicando ao delegado as atitudes ofensivas e violentas da única família branca do lugar.

Ação inútil. No dia seguinte, os filhos mais velhos do astrólogo zombavam de todos, exibindo o abaixo-assinado que o delegado Geraldo Amin Chaim entregara para seu pai.18

Outras ações como essa foram tentadas pelos moradores dali, aparentemente liderados pelo professor Paulo. Antes de maio de 1970 - mês da primeira reação violenta aos atos do astrólogo -, vários foram os documentos encaminhados à delegacia municipal, todos eles solicitando a saída do vidente dali devido aos ataques dirigidos a todos os pretos.

O resultado máximo das tentativas do dono da escola local de livrar-se do astrólogo foi a sua transformação por algum jornalista do Tribuna da Imprensa em alguém que “queria implantar na localidade de Canaã uma comunidade negra, a exemplo do que ocorre em algumas cidades americanas (...)19”.

Delírios jornalísticos à parte, o que parece ter se estabelecido desde 1967, ano da chegada de Felício naquela parte da rua habitada pelas “famílias malditas,”20 foi uma oposição crescente entre o astrólogo e os moradores antigos, alguns deles parentes entre si, que gravitavam em torno do Educandário Nova Canaã e de seu proprietário.

Desde o episódio em que o vidente invadiu armado com uma metralhadora - e acompanhado de policiais - a casa de um vizinho seu, que ele acusara de ter baixado as calças em frente a sua filha e ter levado preso o homem,21 até seu justiçamento, o conjunto de armas utilizadas por Felício foi variado, todo ele destinado a humilhar e subjugar os pretos do lugar.

Usava os astros em seus programas diários na rádio Solimões para prever a morte, doença ou desgraças várias para seus vizinhos22. Quando não se servia do cosmos para atacar, acusava seus desafetos, pelas ondas do rádio ou na própria delegacia, de crimes que não precisavam ser comprovados, uma vez que isso resultava quase sempre na perseguição aos citados.

Ajudado pelo delegado Geraldo Amin Chaim, acompanhava armado e dentro de viaturas da polícia as “batidas” pelo bairro, episódios em que os policiais detinham qualquer um que fosse apontado pelo astrólogo que alegava, assim, levar ordem para o lugar.

No ano de 1970 o jogo virou desfavoravelmente para o astrólogo, e essa reviravolta coincidiu com a troca do delegado municipal de Nova Iguaçu.

Em lugar do “amigo” Amin Chaim, Oscar Tiradentes Costa e José Venâncio Bittencourt surgem nos periódicos como delegados de polícia. Agora, tanto em seu programa radiofônico diário, como nos periódicos, o que se assiste é a constante reclamação do astrólogo que acusa a polícia de abandoná-lo ao não atender seus rogos de ataques aos vizinhos para “manter a paz”.

Inconformado, ele ameaça apelar para a corregedoria da polícia, para o secretário de segurança e até para o governador do estado do Rio de Janeiro. O único resultado conseguido foi o conselho, dado por Oscar Tiradentes, de que mudasse de casa.

Vencido, lutando sozinho contra seus vizinhos “ignorantes”, a realidade acabou por impor-se e o “professor” sucumbiu de joelhos, implorando compaixão na manhã do domingo em que todos ansiavam por assistir ao jogo do Brasil contra a Inglaterra na copa do mundo de 1970. Genésio Ambrósio, Genésio Alves de Brito, Raimundo de Souza, Francisco dos Santos e Vanor dos Santos tocaiaram, na manhã do dia 7 de junho de 1970, o astrólogo.

Segundo o testemunho de Genésio Ambrósio - um aposentado da “Light” de 67 anos de idade que liderou o ataque -, a ideia era somente conversar com o “professor” e fazê-lo desistir do plano de obrigar Genésio Ambrósio a mudar-se do lugar. Se Felício desistisse desse plano, os dois não mais se encontrariam e tudo voltaria ao normal. “Ambos prometeriam não se falar nem deixar as crianças implicarem com ninguém.”

Como a reação do astrólogo foi mandar o “velho” embora, dizer que “não aceitava coisa alguma”, fazer de conta que tiraria uma arma da cintura e tentar sufocar Genésio Ambrósio, este último empurrou o “professor”, correu e tentou acertar um tiro no desafeto. Errou, mas logo depois assistiu seus acompanhantes entrarem em cena com paus e ferramentas e, no meio da confusão, Raimundo de Souza mata, com dois tiros na testa, o “diabo”.

Em novembro e dezembro de 1970, os cinco acusados foram julgados e, após essa época, os autores desse massacre praticamente desaparecem dos relatos jornalísticos, confirmando a hipótese de que a atenção da mídia da época foi despertada somente pelo inusitado da situação de, em um mesmo distrito iguaçuano e no mesmo ano, dois homens serem mortos coletivamente, e o segundo deles ser um branco morto por negros.

“OS MORADORES DE MORRO AGUDO MATARÃO QUANTOS ASTRÓLOGOS OU LOUCOS APARECEREM POR LÁ”

Nos dias seguintes ao justiçamento, surgiu nos periódicos a informação de que na tarde do sábado, véspera do crime, na casa da irmã do proprietário da escola de Nova Canaã, Evangelina Maria de Brito23, mais de 30 moradores do lugar se reuniram para planejar a morte do astrólogo, e que cinco homens “foram destacados” para o massacre do “racista”24.

A ação planejada e coletiva era evidente, e acabou por possibilitar o julgamento e a condenação dos moradores diretamente envolvidos nesse segundo justiçamento de Morro Agudo. Algo raro no Brasil quando o assunto são assassinatos praticados coletivamente.

É provável que esse caráter comunitário da resposta ao ódio explícito por negros destilado pelo astrólogo fosse o que mais chamasse a atenção da mídia. O medo dessa revolta negra não esperada pode ter acelerado a decisão de julgar os cinco eleitos para eliminar Felício.

Os dias que antecederam ao julgamento dos assassinos do “astrólogo racista” foram aqueles que mais colocaram em evidência midiática a gente de Nova Canaã. Consequentemente, foram os que mais permitiram perceber a interação entre comunidade e homens destacados por ela para a vingança.

Impossível, nessa altura da descrição dos fatos, não lembrar o conceito thompsoniano de “economia moral dos pobres” (Thompson, 1998, p.152) ou “economia sociológica” (Thompson, 1998, p.212). Recorro a ele não somente porque é preferível ir contra jornalistas que trataram da notícia na época e pensar nessa ação popular comunitária como racional e planejada, mas também porque a própria arquitetura do ataque permite que se veja “o apoio do consenso mais amplo da comunidade”, que tem a certeza de estar “defendendo direitos ou costumes tradicionais”.

Não foi possível descobrir nessa comunidade de “pretos pobres” a mínima intenção de insurgir-se contra qualquer ação estatal. As reclamações populares nunca miravam a polícia, por mais que alguns relatos surgiam, de forma bastante sutil em uma época de imprensa sufocada, sobre a existência de torturas e sevícias variadas.

Minha hipótese é a de que, nesse pedaço da periferia fluminense, e em 1970, os subalternos, que se chamam de “trabalhadores”, nada reivindicam para si tendo como alvo o Estado. A memória das formas de se construir a vida em Nova Canaã parece ter gerado a certeza de que “o governo não era para os pobres”. Acostumados a não existirem para o Estado, esses “pretos” aparecem aqui somente exigindo o respeito ao costume de serem ignorados pela polícia, indiferença oficial que possibilitava a não interferência na maneira como esses mesmos subalternos construíam suas existências.

Não há a mínima sugestão nas fontes de que a comunidade reivindicava o direito de ser protegida ou amparada de alguma forma pelo Estado. A existência de abaixo-assinados, listas de supostos criminosos, visitas aos delegados, etc., sugerem uma relação muito pessoal entre agentes policiais e moradores e a certeza por parte desses dois grupos (subalternos e agentes estatais) de que cada um sabe do seu exato lugar e das regras nunca ditas que devem reger essa vida. A certeza de todos parece ser a de que, se essas regras não forem quebradas, a “paz” reinará.

A ação coletiva e delegada levada adiante por nossos cinco justiçadores - certamente uma curva na linha reta que era a vida desses subalternos - deveu-se muito mais ao desejo de conservar valores construídos e compartilhados por todos os envolvidos nessa trama.

De certa forma, concordo com os cientistas sociais que, como José de Souza Martins, enxergam o fenômeno do linchamento no Brasil como expressão de uma justiça popular derivada da ineficiência estatal em mostrar-se presente e punir exemplarmente criminosos (Martins, 2015).

A percepção de que há um componente conservador no ato de massacrar parentes, vizinhos ou desconhecidos, e o desejo - jamais percebido pela turba que lincha em qualquer tempo - de fazer as coisas permanecerem como elas são ou retroagirem para um ponto idílico de um passado construído pelas agruras do presente - tese em alguma medida compartilhada por Martins, Adorno e Sinhoreto25 - talvez seja confirmada (com ressalvas) pelo nosso caso.

Porém, diferentemente dos autores acima citados, nunca pretendi me aprofundar nos porquês de as multidões lincharem diferentes ou iguais, e jamais imaginei poder contar a história das periferias a partir da história da violência no Brasil.

De uma forma bem mais modesta, o que me preocupa aqui é entender como uma ferrenha defesa de muitos valores locais passou a ser tão cara aos vizinhos do astrólogo e de como a perturbação repetida da forma específica de vida construída pelos subalternos nessa periferia - perturbação representada evidentemente pelo astrólogo - resultou na violência programada e defendida mesmo por aqueles que, naquela manhã de domingo, optaram por permanecerem em casa se preparando para a missa, para a escola dominical, ou simplesmente na inocente expectativa de ouvir pelo rádio o jogo da seleção.

Penso que, em parte, o justiçamento do vidente pode ter, como motivadoras, as hipóteses sociológicas primeiro pensadas por Martins, muito embora não me pareça o caso do astrólogo vinculado a uma falência institucional e sim a um abalo da informalidade proporcionada pelo que José Murilo de Carvalho, ao pensar a distante Revolta da Vacina, identifica como “[...] espaço até então poupado pela ação pública” (Carvalho, 1987. p.136).

Expostos pelo ódio racial do astrólogo à ação agressiva do Estado, restou como alternativa última para nossos personagens a eliminação daquele que funcionava como o indesejado elo entre a anterior invisível comunidade negra e “a ação pública”. O retorno à informalidade coletiva era uma necessidade urgente, e o prosseguimento da história demonstrará essa minha hipótese.

O julgamento foi marcado por intensa movimentação no fórum Itabaiana. Vizinhos e parentes dos cinco réus lotaram ruas próximas do lugar no início da tarde da quarta-feira, 4 de novembro de 1970.

Nessa mesma hora, os personagens principais - que, se esperava, estivessem dentro de suas celas na delegacia localizada a 250 metros do fórum - serviam como pedreiros de um serviço de expansão da própria delegacia, sendo ouvidos por repórteres enquanto descansavam em um bar próximo ao canteiro de obras. Sem vigilância alguma26, os cinco réus reclamavam do calor das celas e do fato de perderem dias de trabalho porque estavam presos. Tinham certeza de que seriam inocentados pela justiça e não pareciam se preocupar com o julgamento. Um pouco antes do meio-dia, os réus/construtores foram retirados dos seus afazeres para se vestirem e serem conduzidos ao fórum.

No início da tarde, o julgamento iniciou-se com o pedido da defesa de Genésio Ambrósio de que o processo fosse desmembrado e somente seu cliente julgado naquele dia. O pedido foi aceito pela acusação, os outros quatro justiceiros permaneceram na sala dos réus, enquanto Genésio passou a ocupar o banco sem encosto, destinado a quem era julgado.

Após mais de 12 horas sentado no tal banco desconfortável destinado aos réus em Nova Iguaçu, Genésio foi absolvido da acusação de homicídio culposo e condenado por participar do assassinato do astrólogo e por agredir a esposa de Felício. A tese de seu defensor, legítima defesa, teve sucesso, e a pena estabelecida foi perda de liberdade por 4 anos.

Melhor sorte não tiveram os demais envolvidos, que foram julgados no dia 2 de dezembro de 1970. Nesse dia, em lugar dos 150 moradores de Morro Agudo que estiveram no julgamento de Genésio Ambrósio, somente 30 vizinhos dos réus compareceram ao fórum, acompanhando a condenação a 16 anos de reclusão de 2 dos réus, a 16 anos e meio do acusado de desferir os dois tiros na cabeça do astrólogo, e a 12 anos de reclusão do mais novo dos cinco, por ser menor de 21 anos.27

A quantidade de anos de condenação dos réus desse caso parece ter pouco significado, uma vez que a situação dos cinco homens no dia em que o primeiro deles foi julgado, ou seja, fora das celas e trabalhando como pedreiros, perpetuou-se.

Não havendo espaço para mais presos na delegacia de Nova Iguaçu e muito menos nos presídios do antigo estado do Rio de Janeiro, era habitual, então, que os delegados de polícia da Baixada Fluminense - obrigados a manter em suas poucas celas presos já julgados - fizessem uma triagem, colocando em liberdade condenados por assassinato a fim de abrir espaço para a profusão de novos presos acusados de furtos e assaltos, considerados crimes mais graves que um assassinato, de acordo com a irônica interpretação policial local.

Em outubro de 1973, o Jornal Luta Democrática noticiou que três dos cinco condenados pelo justiçamento do astrólogo três anos antes - que deveriam estar em um presídio, mas que nunca saíram da delegacia iguaçuana - circulavam livremente pelo município 28.

A denúncia da mídia em nada modificou essa situação, os cinco oficialmente condenados voltaram a viver em Nova Canaã, mantendo suas vidas sob o símbolo da informalidade ou da “semimarginalidade”, uma vez que a mesma polícia que servira tantas vezes ao astrólogo racista, prendendo e torturando os apontados por ele como criminosos, agora entendia que os linchadores do “professor” eram “trabalhadores” e - apesar da condenação - não mereciam o castigo, tendo o “direito” de cumprir suas penas longe de uma cela:

Na verdade nem meu pai nem os outros ficaram muito tempo longe daqui. Quando foram presos eles não voltaram até o julgamento. Mas depois que foram julgados acho que os polícias ficaram com pena porque eles trabalhavam na delegacia e muita gente ia procurar eles pra trabalhar, então eles deixaram eles soltos só precisando se apresentar às vez lá na delegacia.29

Então eles voltaram depois de um tempo. Depois de terminar as obra da delegacia eles voltaram. De vez em quando eles precisava ficar lá uns dia, acho que porque tinha denúncia e tal e depois eles vinha pra cá pra cuidar da gente, pra trabalhar e tal. Eu não lembro direito porque eu era bem criança, mas não teve isso deles sair daqui de perto, de ir pra presídio. Eles pagaram aqui mesmo na delegacia e não ficaram assim muitos tempo preso. Ninguém achava que tinha sido nada demais o negócio com o homem lá que foi morto. Ele que tinha provocado todo mundo aqui.30

Os dois primeiros casos de justiçamento na região da Baixada Fluminense espantaram a imprensa carioca e fluminense. O primeiro caso ocorreu seis meses antes do aqui relatado, também no distrito iguaçuano de Morro Agudo, quando um idoso, visivelmente com transtorno mental, foi amarrado a um poste e espancado por toda a noite porque fora confundido pela população local com um ladrão. (Monteiro, 2018).

O que mais se destacou na cobertura midiática do linchamento que vitimou o idoso foi a aparente gratuidade e crueldade do massacre. Nesse novo caso, a preocupação maior dos jornalistas era a ação coletiva de negros contra um branco.

Aqui não havia equívocos. Felício foi morto por indivíduos destacados, escolhidos pela comunidade para dar cabo dos problemas diversos trazidos pelo astrólogo, seus dois filhos mais velhos e seu cão que “mordia todo mundo”. Todos (menos o cão, talvez) racistas.

Das falas dos parentes dos moradores de Nova Canaã em 1970, sobressai, passados mais de meio século, a certeza de que não havia nada a se fazer além de justiçar o astrólogo que chegou ao bairro unicamente para transtornar a forma de viver de todos:

Antigamente tudo era muito diferente. A gente vivia aqui sem muita preocupação com violência, com assalto. Quase não tinha isso aqui. De repente chega esse diabo que chama todos de urubu, os filho dele não brincava com a gente, só xingava todo mundo, jogava pedra. Era um tal de polícia chegar aqui e invadir as casa, levar os outro preso sem razão... ele mandava prender mulher, criança. Bastava ele não gostar e ele vinha com a polícia. Era um tal dos meus tios, meu pai, minha mãe ficar comentando as coisa que ele falava no programa da rádio... virou um inferno.31

O caminho tradicional de se pensar a gente moradora de bairros como Nova Canaã era classificar mulheres, homens e crianças desse bairro pela falta. Faltava cidadania, castidade, beleza, educação, saúde, cortesia, higiene, etc. A consequência única de todas as faltas era a sobra de luxúria, brutalidade, violência, covardia, crueldade, ignorância, feiura, etc.

No momento exato do julgamento dos executores do “professor”, duas jovens sociólogas (uma americana e outra brasileira) foram convidadas pelo Correio da Manhã32 para visitar a rua Washington Luís.

Passaram algumas horas naquele pedaço do bairro, ouviram vizinhos do astrólogo justiçado e parentes dos matadores. Depois disso, discutiram entre si as razões para o crime. A discussão ocupou uma página inteira do anexo que o periódico fez circular nesse dia, exclusivamente tratando do caso.

É possível destacar, das falas das sociólogas, a percepção de que a condição escandalosa de miserabilidade e a ausência evidente do Estado como agente facilitador da vida dos cidadãos brutalizou os habitantes daquela rua e de todo o distrito de Morro Agudo. Por isso, foram incapazes de tolerar provocações do outsider que ali foi viver três anos antes e que fez questão de manter-se afastado de todos, ao mesmo tempo em que se aclamava defensor dos valores percebidos pela “sociedade geral” como os corretos. A conclusão das professoras da PUC-RJ era de que “os moradores de Morro Agudo matarão quantos astrólogos ou loucos aparecerem por lá e ninguém pode fazer nada.”

Para as sociólogas, a exclusão dessa gente era completa, não participando eles da vida política, econômica e cultural nem mesmo do município onde viviam, somente se deslocando dali para o centro de Nova Iguaçu ou da Guanabara com a intenção de trabalhar, retornando para seus “casebres” para dormir. Sem televisão, jornais ou qualquer outra forma de contato com o mundo exterior, desenvolveu-se uma comunidade “anômica”, possuidora de valores próprios que assustavam, porque deles somente se sabia que eram vingativamente mortais.

Aquelas conclusões baseadas na convivência de poucas horas com a gente do lugar, apesar da roupagem acadêmica dada por estudantes de pós-graduação, diferiam quase nada da opinião midiática sobre gente até aparentemente “passiva”,33 mas que em poucos meses trucidou dois de seus vizinhos sem nenhum sinal de misericórdia.34 Era perturbador tanto para as professoras como para jornalistas que visitaram o segundo distrito iguaçuano visando cobrir os crimes, a existência de um lugar tão “incivilizado” a uma distância tão pequena do antigo Distrito Federal. Talvez uma observação mais refletida e mais demorada sobre os personagens dessa história resultasse em opiniões bastante diversas.

No primeiro trimestre de 2019 visitei pela primeira vez o bairro de Nova Canaã. Não encontrei uma casa de número 8 na rua Washington Luís, antigo endereço do astrólogo35. Perto da casa eu esperava encontrar a escola do professor Paulo. No suposto lugar onde se localizava o Educandário Nova Canaã há várias residências, algumas no térreo e outras sobre as lajes das primeiras. Parece que, para o sargento reformado ou seus herdeiros, em algum momento a educação deixou de ser um negócio melhor que a venda ou o aluguel de casas.

Já não há ruas com lama. Todas foram pavimentadas entre 2005 e 2010 “no governo do Lindinho [Lindbergh Farias]”, e não há valas negras. Todo o esgoto das casas é subterrâneo, embora todo ele seja despejado in natura no que um dia - já muito distante - foi um límpido córrego afluente do que é agora o poluidíssimo rio Botas.

Somente na memória de uns poucos moradores mais velhos e de poucos de seus filhos e sobrinhos a história do “astrólogo racista” sobrevive. Conversar sobre isso com um desconhecido não pareceu uma boa opção para a maior parte das pessoas. Porém, se o assunto é como o bairro era no passado e como foi construir uma vida ali, a conversa flui.

Os relatos coletados são semelhantes ao de qualquer colonizador subalterno da Baixada Fluminense.36 O lote foi comprado em algum momento das décadas de 1960 ou 1970 e a casa foi muito lentamente construída por um trabalhador instável quase sempre não formalmente inserido na economia e que, por isso, experimentava muitos momentos de invisibilidade e desemprego, sendo alguns desses momentos até provocados pelo próprio trabalhador que via nas indenizações pagas em atos demissionais a chance de acelerar a construção da casa.

Sobre o Nova Canaã do momento em que as primeiras casas foram construídas, o resumo dos depoimentos apontou para a realidade de qualquer bairro originário de loteamento na região da Baixada.

Sem a presença de qualquer instância estatal, a Imobiliária Sender limitou-se a arrancar as laranjeiras ainda existentes, abrir e nomear as ruas, delimitando as quadras do bairro e determinando as divisas entre os muitos lotes, vendidos sempre em até 200 prestações. Todos os meses o “corretor vinha e a gente pagava uma prestação do carnê. Não tinha documento nenhum. Só um papel de compra e venda e o carnê pra provar”37.

A compra facilitada e clandestina daquela antiga terra agrícola inaugurava um tempo caracterizado por um grande esforço do recém-chegado à região para construir sua casa. Invariavelmente o agora proprietário transformava-se em um morador autoconstrutor de sua residência.

Exatamente nesse momento as redes de solidariedade surgiam, sendo o eventual tempo vago dos colonizadores proletários usado na construção das diversas casas, na extensão da rede elétrica de uma casa para outra, bem como na furação dos poços fornecedores da água supostamente potável usada por todos os moradores e na criação das valas negras destinadas ao recebimento do esgoto doméstico e à condução dos dejetos para o córrego vizinho, agora chamado de “valão” pelos novos moradores.

A informalidade da construção tanto das casas quanto dos precários aparelhos urbanos experimentará um crescente refinamento, transformando-se em regra ao longo dos “anos de chumbo”, exatamente na medida em que, no município de Nova Iguaçu, os militares impunham governantes fantoches que fecharam a câmara de vereadores e esmeraram-se em favorecer membros da elite local, promotores de negócios particulares alguns dos quais dependentes diretos da inexistência de presença pública no conjunto do grande município fluminense que alça nos anos 1970 o título de 8º maior em número de habitantes.38

Por toda a Baixada Fluminense, o enredo da política nos anos mais cruéis da ditadura militar brasileira será o acordo entre elites locais e militares, a privatização de áreas monopolizadas tradicionalmente por órgãos do Estado como educação39, saúde e loterias40, e a expansão, absolutamente distante de qualquer supervisão estatal, dos loteamentos bancados por empresas invasoras de terras públicas ou particulares41. Terras que, nas décadas anteriores a 1960-1970, eram partes dos muitos pomares citrícolas que faziam de Nova Iguaçu o maior produtor mundial de laranjas, ou eram ocupadas por pequenos agricultores.

Impossível dizer que havia ausência do poder estatal no momento mais agudo da ocupação popular, mas também é impossível pensar que havia inclusão, a não ser que essa seja vista como perversa.42

De um lado estava a cúpula estatal militarizada aliada com civis absolutamente ávidos para lucrar com o afluxo explosivo de migrantes que inundavam Nova Iguaçu e quase toda a região da Baixada Fluminense. Enquanto isso, do outro - e como produto dos conchavos civil-militares - estava a grande massa de ocupantes das periferias de Nova Iguaçu e de seus insalubres distritos absolutamente distante de qualquer direito à cidade.

Eram milhares de mulheres, crianças e homens que, no exato momento em que se orgulhavam de agora serem proprietários de uma casa, transformavam-se iludidos, embora felizes, na primeira geração de cidadãos-sós da Baixada Fluminense - sem terem nenhuma consciência disso. Foram responsáveis totais pela construção de seus lares e, na sequência, da débil infraestrutura urbana que suportava precariamente a sobrevivência nessa terra explosivamente transformada de agrícola em semiurbana.

RACISMO EM ESTADO PURO E ODIOSO

O caso do astrólogo racista de Nova Canaã me pareceu excelente para explorar - certamente muito fora de seu contexto original - aquilo que W. E. B. Du Bois chamou de “salário psicológico” (the public and psychological wage) dos brancos (Du Bois, 1935. p. 700).

De acordo com Du Bois, o desenvolvimento econômico norte americano no período pós-guerra de secessão teria excluído uma multidão de brancos, além de segregar milhares de negros. Acontece que o sistema terminou por criar sua própria válvula de escape. Algo que possibilitava aos trabalhadores brancos do sul dos Estados Unidos enxergarem-se incluídos - quando comparados com os trabalhadores do norte estadunidense -, porque estariam sempre em melhor situação que um negro.

Economicamente, um negro e um branco pobre no sul dos Estados Unidos poderiam não ser tão diferentes, porém socialmente eles eram muito distantes. No texto de Du Bois o racismo possibilitou a união dos brancos explorados aos brancos exploradores, implodindo a possível união das classes subalternas (composta por brancos e negros) e resultando no ódio racial extremo personificado em associações tipo Ku Klux Klan, que reuniu, desde seu início, brancos de classes sociais diversas amargamente estercadas pela certeza da supremacia cultural e biológica dos brancos.

No caso estadunidense, o Estado segregava negros de maneira oficial, o que resultou num locus/status específico para “pessoas de cor” nessa sociedade: a marginalidade e a humilhação constantes. O resultado dessa arrumação racial foi o ódio crescente de brancos contra negros e o massacre dos últimos como maneira catártica de brancos perceberem-se como supremos e provarem isso para si mesmos.

Negros procuravam não ser descobertos como possuidores de bens materiais comuns, simplesmente porque era ofensivo para um branco pobre sulista o fato de um negro ter uma bicicleta, enquanto o branco andava a pé até um posto de trabalho em tudo semelhante ao de um negro (Du Bois, 1935. p. 701).

O que se chama hoje branquitude, evidenciado na revolta de parte dos brancos quando têm a certeza de estarem ameaçados por não-brancos em postos de trabalho, cadeiras universitárias, legislativas, lugares nobres nas cidades, etc., evidenciaria a realidade do salário psico­lógico dos brancos mesmo em um tempo e um lugar muito distante dos Estados Unidos dos anos posteriores à Guerra de Secessão estadunidense? Pensamos que o caso do astrólogo racista do Jardim Canaã pode ajudar na resposta a essa questão.

As narrativas jornalísticas do caso do professor Souza deixaram evidentes as condições socialmente subalternas do astrólogo branco que, de uma forma desafiadora, viveu por três angustiantes anos na pequena casa de esquina na rua Washington Luís, centro de um enclave negro do bairro periférico de Nova Canaã.

Os jornalistas que trataram longamente do caso, salientaram o racismo evidente do professor Souza e seu casal de filhos e o barbarismo de seus algozes. Era como se o fato de ser racista e brasileiro ao mesmo tempo fosse algo exótico para um branco, e como se a vida bandida de um negro, ao contrário, fosse o sempre esperado.

Nesse ponto é interessante observar que o discurso jornalístico em nada diferia da maneira como os golpistas de 1964 enxergavam a questão racial no Brasil. Predominava a percepção de que vivíamos uma democracia racial, onde negros e brancos conviviam em perfeita harmonia, o que era evidenciado, por exemplo, pela presença de elementos da elite política em cultos afro-brasileiros e matérias em periódicos de abrangência nacional enaltecendo a importância de pais e mães de santo que aconselhavam políticos e homens de negócio.

Em 1970, a ideia de um país de irmãos multicoloridos, onde não fazia sentido usar a palavra racismo para designar as relações entre brancos, pretos e mesclados era cara aos jornalistas assim como estratégica para os ditadores.

Mesmo só existindo personagens brancos nas sessões de política e economia dos periódicos e quase só havendo “crioulos”, “neguinhos”, “negões” e “pretos” nas páginas policiais dos jornais da época - que somente apresentavam como racistas as relações entre pretos e brancos fora do Brasil - seguia forte a percepção midiática de que éramos uma democracia racial que “vai pra frente”, em que os brancos mandavam por puro acidente.

A década de 1970 no Rio de Janeiro notabilizou-se por ser aquela em que, de acordo com Antônio Sergio Guimarães e Paulina L. Alberto (Guimarães, 2002; Alberto, 2017), o movimento negro se reergueu do baque provocado pelo golpe civil-militar de 1964, ocorrendo, nessa década, o soerguimento tanto das entidades representativas da “raça negra” como da rediscussão acadêmica do consenso representado pelas ideias de Freyre. Ideias que, se nos anos ditatoriais de Vargas serviram ao sistema para nos localizar como destacados no Ocidente (éramos exemplo de como ter paz social apesar da variedade racial de nossa população) nos anos posteriores à Segunda Guerra, o projeto oficial foi o de fazer desaparecer a raça como relacionada a alguma diferença social e o de se esforçar na direção de identificar a sociedade brasileira como desigual socialmente, porém racialmente democrática43.

São novidades do regime militar o enquadramento da “inexistente” questão racial como objeto da doutrina de segurança nacional ditatorial e a construção de uma imagem internacional de proximidade entre África e Brasil. Imagem construída, inclusive, com apoio governamental aos movimentos de emancipação política das colônias lusas em África, e uma forte folclorização interna de tudo que dissesse respeito ao que de origem negra fosse.

A folclorização deveria funcionar como sustentáculo da existência de fato da civilização luso-tropical não racista freyriana no Brasil. Civilização essa que era defendida pelos ditadores ao proibirem à intelectualidade, principalmente após o AI-5, de falarem ou escreverem acerca de questões relacionadas à raça, mas também mantendo sob controle qualquer comunidade de pretos, como aponta Thula Rafaela de Oliveira Pires investigando as interações entre polícia militar fluminense e comunidades ou indivíduos pretos. Thula apresenta, ao mesmo tempo, documentos produzidos pelos órgãos de informação das forças armadas e relatos orais de lideranças negras que, nas décadas de 1960/70, experimentaram como moradores de comunidades negras a ação repressora do Estado. (Pires, 2015)

Sobre as ações policiais contra comunidades/indivíduos pretos, há semelhanças evidentes entre o que surge no relatório elaborado por Thula e o tratamento dispensado aos moradores de Nova Canaã pelos policiais civis amigos do astrólogo. No entanto, não era de se esperar algo muito diferente, considerando, por exemplo, a precisa análise de José Murilo de Carvalho (2017. p. 54), que definiu, a partir de um episódio por ele vivenciado, policiais como “sociólogos” que rudemente dividem a sociedade brasileira em “doutores”, “crentes” e “macumbeiros”.

Os doutores localizam-se acima das leis e se caracterizam, principalmente, por serem brancos. Os crentes são “pobres honestos” e merecem respeito enquanto bem sirvam aos “doutores”, já para os macumbeiros (desclassificados, marginais), o que resta é ser “culpado até prova em contrário”.

É de longa duração essa certeza acerca de gente no Brasil. Os policiais - tanto faz os “sociólogos” da experiência de Carvalho, os servidores da ditadura de Thula ou os que foram despertados pelo nosso astrólogo racista - somente seguem pragmaticamente o script tradicionalíssimo do lugar que experimentou a escravização de negros por mais tempo que qualquer outro país ocidental.

Nossa tradição de exclusão de “crentes” e “macumbeiros” explica, por exemplo, o fato de a semelhança material entre vítima e algozes em Jardim Canaã ser completamente ignorada por boa parte dos jornalistas. Alguns destes atribuíram a “inveja” como o que motivou o massacre, que se deve ao fato de o astrólogo viver em uma residência com laje e possuir aparelho de televisão e refrigerador. Além disso, também enxergavam, na diferença de nível educacional entre o branco e seus vizinhos negros, as razões para as atrocidades negras e a morte branca.

Quando mergulhamos nesse caso, entretanto, o que aparece é um branco fora do lugar onde ele se exigia estar, e que insistia na torção do mundo ao seu redor para um modelo que não o desconfortasse. Viver ao lado de um colégio cujo proprietário era um militar de baixa patente, no epicentro de uma comunidade repleta de parentes desse preto possuidor de mais de uma casa, terrenos, um chevrolet 1950 e, é óbvio, a escola, solidificou na alma do astrólogo o sentimento injustificável de perda que caracteriza tão bem a ideologia senhorial. Talvez o astrólogo se sentisse roubado pelos negros. A culpa de seus fracassos não podia ser sua, era da gente preta que ele via todas as manhãs ao sair portão afora.

Muito embora ele fosse facilmente ouvido por gente da imprensa, pudesse falar para milhares através do seu programa de rádio, vociferasse contra autoridades policiais do município, andasse armado ao lado de policiais civis invadindo casas de negros ligados ao professor Paulo, escolhendo quem eram os “bandidos” e fazendo esses serem torturados na delegacia de Nova Iguaçu, pessoalmente o astrólogo enxergava o espaço, que tinha certeza que era seu por direito, preenchido por gente preta, o que devia ser muito dolorido.

A estabilidade econômica do proprietário do Educandário Nova Canaã e seu papel aglutinador da comunidade formada por pobres, como o astrólogo, porém completamente inseridos na microssociedade local, dentro da qual a informalidade e invisibilidade era regra garantidora do não contato com agentes externos percebidos como opressivos, exasperava o “Professor Souza”. Este parecia não conceber que no Brasil - pior ainda: na sua frente - um negro ousasse ocupar lugares sociais pertencentes “por direito” à “boa gente” da sua cor de pele, em um momento em que periféricos eram presos por vadiagem somente porque eram abordados não portando “carteira de trabalho assinada”.44

Partindo da certeza de que algo ali estava distante do que era tradicional no universo racial hierárquico brasileiro, onde existia a ordem desde que “cada macaco” não saísse do “seu galho” e o sistema se mantivesse excludente sem que houvesse racistas, o astrólogo gritou o tempo todo e o mais alto possível, exigindo que a tradição fosse mantida. Afinal, a ideologia senhorial, espécie de líquido amniótico no qual ele se banhava, pressupunha que os “naturalmente” subalternos se curvassem integralmente, sob quaisquer circunstâncias, diante daquilo que um branco ditasse. Afinal de contas:

[…] No mundo construído por tal ideologia, mundo sonhado (pelos senhores), a medida do sujeito são as relações pessoais nas quais está inserido. Não existe lugar social fora das formas instituídas - formalmente, mas também pelo costume - de hierarquia, autoridade e dependência (Chaloub, 2003, p. 60. Grifo do autor).

A “lei da vadiagem”, usada por ele em tantos momentos no relato de seus atos violentos.

contra os negros, existia desde o Império para provar suas certezas45. Na mentalidade supremacista de nosso astrólogo, um negro era necessariamente vadio, ladrão, estuprador, assassino, traficante, etc., e era exatamente assim que ele visualizava seus vizinhos. Despersonalizando-os quando histericamente gritava em seu programa diário de rádio para massacrar gente preta, relacionava essa gente com crimes que nunca provou terem sido cometidos e que ninguém nunca pensou em investigar. Prova, naqueles casos e naquela época ditatorial, parecia um luxo.

Por outro lado, os negros, conhecedores de seu lugar na rotina racial brasileira, ocupavam as frestas, lugar onde até o tímido e silencioso professor Paulo gostava de estar. A fresta era o lugar estratégico onde se escondiam todos os subalternos daquele lugar, pretos ou “quase pretos de tão pobres”.

Em torno da escola do sargento reformado e professor Paulo José de Oliveira, vivia sua irmã Evangelina. Evangelina era dona do bar do lugar, esposa de Genésio Alves de Brito, pedreiro (um dos justiçadores do astrólogo), e mãe de Vera de Brito, jovem professora e coordenadora de Educação Moral e Cívica da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de Nova Iguaçu46.

No terreno da própria escola vivia Genésio Ambrósio, o aposentado da LIGHT, que continuava trabalhando, apesar dos seus sessenta e sete anos, e que fora o construtor da escola. Em seu julgamento, o defensor de sua causa lembrou que, apesar de humilde, formara uma filha na faculdade de filosofia. Genésio Ambrósio chorou nessa hora.47

Muito diferente daquilo que era gritado aos quatro ventos pelo astrólogo, até os cinco destacados para o seu justiçamento eram trabalhadores braçais, que continuaram a exercer suas atividades mesmo “presos”. Apesar de condenados pela justiça, para os policiais, que tinham certeza de que o “galho” dos pretos era o do trabalho bruto, eles precisavam da liberdade, uma vez que os que de fato deveriam estar presos eram os ladrões que pululavam na Baixada nesse momento, onde essa espécie de periferia fluminense mais se enchia de gente pobre.

Na manhã do domingo em que que Pelé serviu Jairzinho com a bola que garantiu, na primeira Copa do Mundo transmitida ao vivo via satélite pela televisão brasileira, a vitória por 1x0 da seleção brasileira sobre a seleção inglesa, numa rua empoeirada de uma subperiferia desconhecida do “nojento” município de Nova Iguaçu, pretos e quase pretos se armaram com pedaços de paus, ferramentas de trabalho e armas de fogo. Justiçaram um astrólogo franzino que fazia três anos que ali morava, que se notabilizava por enfatizar ser caucasiano numa parte negra dessa periferia, além de perseguir seus vizinhos, de quem exigia submissão absoluta.

CONCLUSÃO

Essa história, aparentemente digna somente das páginas policiais dos jornais popularescos do Rio de Janeiro, revela muito mais que somente a rotina das violências próprias de um lugar que, na década de 1970, a imprensa nacional passou a chamar de “a área urbana mais violenta do Brasil”. Essas personagens todas escancaram, da forma mais visceral possível, as maneiras como interagiam brancos, pretos e Estado sobre um solo onde, por centenas de anos, imperou a crueldade da escravidão.

Oitenta e dois anos após a abolição, no início da década em que, no “(...) país que vai pra frente”, “(...) parece que todo o Brasil deu a mão”48, quase nada restava da memória da gente preta que a tradiciona­líssima hierarquização social brasileira escondeu nas quase invisíveis bordas de uma cidade periférica fluminense. Os pretos dali, em sua maioria, não descendiam dos antigos escravos do lugar.49 Eram - como no conjunto da antiga Baixada Fluminense citrícola - a resultante do amálgama de migrantes nordestinos com filhos e netos de trabalhadores dos antigos pomares e “packing houses”50 locais.

Mas a origem desses pretos importa muito pouco aqui. Nesse verdadeiro liquidificador de identidades que era a Baixada Fluminense dos anos 1970, a origem diz quase nada ante a força do que vai se consolidando como a percepção externa de qual o caráter daqueles que ocuparam essa subperiferia fluminense.

Pretos, quase pretos ou “amigos dos pretos” são todos eles pobres que aqui nesse lugar absolutamente insalubre, cultivam a sua “selvageria”. Era assim que as elites tratavam os que chegavam nas periferias várias da antiga Cidade Estado da Guanabara. Uma microanálise das comunidades que vivenciaram aquilo que chamo de colonização proletária da Baixada Fluminense demonstra uma dinâmica própria desse processo de ocupação.

A reação coletiva aqui descrita, julgada bárbara por jornalistas e sociólogas que visitaram Nova Canaã ao longo do ano de 1970, é somente parte daquilo que identifico como a construção da mentalidade caracterizadora, dessa época em diante, da grande massa de subalternos. Massa que, sob o autoritarismo dos anos de chumbo e a inclusão perversa oferecida pelo Estado, precisou sobreviver construindo maneiras pragmáticas de conviver com a violência contínua, ora presenteada pelo Estado, ora nascida das próprias condições precárias de fixação desses pobres nos novos loteamentos da Baixada Fluminense.

A informalidade das soluções populares é evidente nesse caso, em que a ideologia senhorial detida pelo astrólogo interferia na rotina local, que consistia em conseguir manter-se em “paz” apesar de todas as adversidades. Paz era sinônimo de uma vida nas sombras. Nova Canaã era um bairro onde a presença estatal equivalia a uma intromissão indesejada. Ali era o lugar onde:

[...] os camburão passava só pra recolher presuntos na rua ou pra prender menino jogando bola ou soltando pipa. Prendia os menino agora, o pai, a mãe ia correndo atrás do carro da polícia, ia na delegacia e amanhã eles tava aí de novo fazendo as mesma coisa. Não tinha nada da prefeitura ou do estado aqui e a gente vivia bem assim mesmo, em paz. Não era uma vida diferente da vida de pobre em qualquer lugar. Era assim que pobre vivia. Depois de muito tempo é que apareceu essas melhoria de hoje em dia. Naquele tempo os bairro era tudo igual esse aí das foto dos jornal que você tá mostrando. Aqui não era diferente.51

Os vizinhos pretos do astrólogo interferiam no meio em que viviam e que se orgulhavam de ser seu, tendo a absoluta certeza da sua invisibilidade e de não haver agentes públicos neles interessados. Parece que, porque nunca experimentaram ações positivas do Estado, acreditaram que as ações más também não chegariam, enquanto iam eternamente construindo suas casas e um mundo coletivo cujo esqueleto era a informalidade.

De certa forma tinham razão. Nos anos seguintes ao caso do astrólogo racista, a vida em Nova Canaã seguiu no ritmo explosivo do crescimento demográfico ocorrido na Baixada Fluminense dos anos do “milagre econômico”, com mais gente chegando, mais habitações precárias e aparelhos urbanos improvisados brotando da terra através das mãos dos próprios trabalhadores colonizadores subalternos. Trabalhadores estes que foram hábeis cultivadores do chão doado pelo herdeiro do Comendador Soares à Santa Casa de Misericórdia na década de 1910, e que, desde aquela época até os anos 1960, assistiu ao sofrimento de pretos que primeiro eram explorados nas atividades agrícolas, para mais tarde serem as vítimas invisíveis dos donos das empresas loteadoras.

A reação cruel à ofensa racista do astrólogo assemelha-se a um grito de basta da gente pobre que, na visibilidade forçada a que o astrólogo expunha “os pretos do lugar”, enxergou um ataque à sua estratégia muito bem-sucedida de sobreviver nas sombras, nas frestas, criando um mundo à parte, sui generis, e cujas regras eram estranhas para a sociedade geral. Ao destruir o astrólogo, seus vizinhos pretos tentavam conservar as formas de sobreviver produzidas coletivamente a partir do momento em que ali chegaram.

Mesmo não expressando qualquer desejo reivindicativo, parecendo até não se reconhecerem como detentores de direitos, ao contrário, conformando-se com a sua condição de subalternos marginalizados, os moradores de Nova Canaã aparecem para mim como hábeis leitores daquilo que Chalhoub chama de ideologia senhorial. O acompanhamento do cotidiano desse lugar, retirado do escuro pelas ações hostis do astrólogo, revela uma comunidade que tecia suas identidades apesar da opressão representada pelo poder ditatorial que mal os atingia em condições normais.

As estratégias populares não se corporificavam somente na construção das casas proletárias e dos mínimos aparelhos urbanos necessários para a existência em uma região tão insalubre. Perceber-se parte de um todo capaz de garantir alguma estabilidade em um mar de inseguranças variadas era um outro lado dessas estratégias. O racismo do astrólogo o colocou em rota de colisão constante com os valores identitários daquele grupo, e o resultado foi o seu extermínio e o reforçamento dos laços identitários locais.

REFERÊNCIAS

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  • VALLADARES, Lícia do Prado. Habitação em questão . Rio de Janeiro: Zahar , 1979.
  • 1
    Apesar da situação aqui tratada explicitar um caso de violência na Baixada Fluminense, não compartilho da visão algo estereotipada da região como caracterizada por ser um local mais violento que outras regiões urbanas brasileiras, periféricas ou centrais. Embora admire o esforço de pesquisa de autores como Israel Beloch e José Claudio Souza Alves, não me interessa o ponto de vista de ambos, que percebem a violência como algo etéreo presente na Baixada Fluminense, se constituindo na alma desse lugar. Outro ponto de vista discordante entre o que penso e o que esses autores constroem, é a atitude ante a massa popular que habita essa periferia. Seguindo E.P. Thompson, prefiro colocar os subalternos no núcleo das narrativas e investigar as suas economias morais. Ver BELOCH, Israel. Capa preta e Lurdinha: Tenório Cavalcanti e o povo da Baixada. Rio de Janeiro: Record, 1986; ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Consequência: 2022; THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
  • 2
    ASTRÓLOGO justifica falha com informação inverídica sobre Flamengo, Jornal dos Sports, 22 dez. 1963, p. 2.
  • 3
    Em lugar do sucesso previsto, no ano seguinte Jango sofreria um golpe civil-militar.
  • 4
    Correio da Manhã, 4 nov. 1970, Anexo.
  • 5
    Distrito iguaçuano naquela época. Hoje é um dos municípios da Baixada Fluminense, originado do retalhamento de Nova Iguaçu após a Constituição de 1988.
  • 6
    O Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) foi um órgão previdenciário federal brasileiro criado em 1966 a partir da fusão dos Institutos de Aposentadoria e Pensões existentes na época.
  • 7
    Para as informações acerca do patrimônio da família, ver: EM NOVA Canaã a herança é o ódio. Diário da Noite, 10 jun. 1970, p. 04.
  • 8
    FERREIRA, Léa. Léa Ferreira (depoimento, 2019). Entrevista cedida a Linderval Augusto Monteiro. Nova Iguaçu, RJ, 16 jul. 2019. Utilizou-se nesta pesquisa as falas de moradores e ex-moradores da rua Washington Luís ou de ruas próximas. Todos os ouvidos são descendentes dos homens e mulheres envolvidos no justiçamento do astrólogo. Por razões óbvias, os nomes dos entrevistados foram alterados.
  • 9
    SANTOS, Maria. Maria Santos (depoimento, 2019). Entrevista cedida a Linderval Augusto Monteiro. Nova Iguaçu, RJ, 18 jul. 2019.
  • 10
    SILVA, Marta Ferreira. Marta Ferreira Silva (depoimento, 2019). Entrevista cedida a Linderval Augusto Monteiro. Nova Iguaçu, RJ, 20 jul. 2019.
  • 11
    Sobre as maneiras informais da população da Baixada Fluminense interagir com o espaço dos loteamentos, ver MONTEIRO, Linderval Augusto. Andando no vale da sombra da morte: colonização proletária da Baixada Fluminense. Belford Roxo e o governo Joca. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2021.
  • 12
    Acerca do processo de autoconstrução da casa típica dos bairros populares na região da Baixada Fluminense, ver: LIMA, Maria Helena Beozzo de. Em busca da casa própria: autoconstrução na periferia do Rio de Janeiro. In: VALLADARES, Lícia do Prado. Habitação em questão. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
  • 13
    Ver MAUSS, M. Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In: MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. v. II. São Paulo: Edusp, 1974. p. 183-314. Sobre possíveis maneiras de se pensar na dádiva em sociedade contemporâneas, ver: GOMES, Angela de Castro Gomes. A invenção do trabalhismo. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV. 2005.
  • 14
    Diário da Noite, 10 jun. 1970, p. 04.
  • 15
    O menino escreveu e o Correio da Manhã publicou, no dia 9 de junho de 1970, uma espécie de carta em que enumerava os assassinos de seu pai e como cada um agira no justiçamento. (Correio da Manhã, 9 jun. 1970, 1º caderno, p. 04).
  • 16
    Em entrevistas com moradores da Baixada Fluminense, o termo “trabalhador” indica não exatamente que o assim nomeado está trabalhando naquele momento, mas sim que difere do que essas pessoas chamam de “vagabundo”, este último necessariamente um personagem do mundo do crime. Um “trabalhador” podia até praticar um crime, suas falhas, porém, eram escusáveis porque movidas pelo destempero momentâneo ou pela necessidade.
  • 17
    Após a captura dos responsáveis pelo massacre, coube ao professor Paulo pagar os honorários dos advogados que defenderam os cinco réus. Correio da Manhã, 4 nov. 1970. Anexo, p. 01.
  • 18
    Correio da Manhã, 4 nov. 1970. Anexo, p. 02.
  • 19
    Tribuna da Imprensa, 9 jun. 1970, p. 02.
  • 20
    Diário da Noite, 11 jun. 1970, p. 15.
  • 21
    Correio da Manhã, 4 nov. 1970, Anexo.
  • 22
    No Anexo do Correio da Manhã de 4 de novembro há uma fala de um dos acusados de ataque ao astrólogo em que este revela medo das previsões de morte feitas pelo vidente.
  • 23
    Diário da Noite, 10 jun. 1970, p, 04. Evangelina, segundo o Diário, era irmã de Paulo José de Oliveira, dono do educandário Nova Canaã, esposa de Genésio Alves de Brito, cunhada de Raimundo de Souza e nora de Genésio Ambrósio. Nos relatos desse e de outros periódicos, a proprietária da “birosca” do “povoado” surge sempre como pivô do massacre.
  • 24
    Diário da Noite, 12 jun. 1970, p. 14. Essa informação foi contestada pelos envolvidos na morte e por seus vizinhos e parentes. Foi, porém, confirmada pelo padre (ou diácono) da Igreja Católica Brasileira Luís Gonzaga da Costa - morador de um anexo da casa de Evangelina - de cujo templo partes de um andor foram retirados para servir de armas para os matadores do astrólogo.
  • 25
    Além do já citado livro de Martins, as obras seguintes representam muito bem a discussão sociológica a respeito de linchamentos no Brasil: ADORNO, Sérgio. Linchamentos em São Paulo. In: PINHEIRO, Paulo Sérgio (coord.). Continuidade autoritária e construção da democracia: relatório final. São Paulo: Núcleo de Estudos da Violência/USP, 1999. p.404-480; MENANDRO, Paulo Rogério Meira; SOUZA, Lídio de. Linchamentos no Brasil. A Justiça que não tarda, mas falha: uma análise a partir de dados obtidos através da imprensa escrita. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1991; SINHORETTO, Jacqueline. Os justiçadores e sua justiça: linchamentos, costume e conflito. São Paulo: IBCCRIM, 2002 e BENEVIDES, Maria Victória; FERREIRA, Rosa Maria. Respostas populares e violência urbana: o caso dos linchamentos no Brasil (1979-1982). In: PINHEIRO, Paulo Sérgio (org.). Crime, violência e poder. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 225-247. Este último é o único livro que trata de casos ocorridos fora de São Paulo e cita os dois casos de justiçamento ocorridos em Nova Iguaçu no ano de 1970. Infelizmente as autoras do texto, em três linhas, acreditaram nas informações jornalísticas imprecisas de Percival de Souza, que, no livro “A maior violência do mundo: Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, Brasil”, de 1980, afirmou que o primeiro linchado era um morador do bairro de Morro Agudo que, louco, perambulava pelo bairro, e que o astrólogo aqui investigado era um galanteador das mulheres do bairro.
  • 26
    Um carcereiro da delegacia disse o seguinte ao repórter do Correio da Manhã sobre a “liberdade” dos matadores do astrólogo: “Todos eles trabalham na obra da delegacia e são sempre escoltados, embora tenham sido escolhidos pelo seu bom comportamento. Ninguém tem queixas deles desde que vieram para cá no dia 10 de junho deste ano.” Correio da Manhã, 4 nov. 1970, Anexo.
  • 27
    O Fluminense, 3 dez. 1970, p. 05.
  • 28
    PRESOS passeiam livremente nas ruas da Baixada. Luta Democrática, 17 out. 1973, p. 02. A matéria aponta que o promotor público José Pires Rodrigues realizou uma visita “surpresa” na delegacia de Nova Iguaçu e, ao fazer a chamada dos presos, notou a ausência de 33 detentos. Dentre os ausentes, três eram justiçadores do astrólogo. Eram eles Genésio Alves de Brito, Raimundo de Souza e Vanor dos Santos.
  • 29
    FERREIRA, Marlúcia. Marlúcia Ferreira (depoimento, 2019). Entrevista cedida a Linderval Augusto Monteiro. Nova Iguaçu, RJ, 15 jul. 2019.
  • 30
    FERREIRA, Léa. Léa Ferreira (depoimento, 2019). Entrevista cedida a Linderval Augusto Monteiro. Nova Iguaçu, RJ, 16 jul. 2019.
  • 31
    SILVA, Marta Ferreira. Marta Ferreira Silva (depoimento, 2019). Entrevista cedida a Linderval Augusto Monteiro. Nova Iguaçu, RJ, 20 jul. 2019.
  • 32
    Correio da Manhã, 4 nov. 1970, Anexo. As sociólogas que visitaram o bairro foram Maria Valéria Junho Pena e Claire Savit Bacha.
  • 33
    A história de passividade da população pobre da periferia do Rio de Janeiro é algo muito pouco sustentável. Oito anos antes dos justiçamentos de Morro Agudo, a população dos principais municípios da Baixada Fluminense promoveu um saque violento ao comércio local durante um dia inteiro. O saldo foram vários mortos por pisoteio, tiro, pauladas ou pedradas e lojas completamente destruídas. Jornal do Brasil, 6 jul. 1962, p. 5.
    Acerca desses saques ocorridos no ano de 1962, não há trabalhos propriamente acadêmicos escritos. Há em diversos artigos, dissertações e teses a repetição de uma hipótese bastante midiática, porém não sustentada por provas, lançada por José Cláudio Souza Alves em Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Consequência: 2022. Segundo tal tese, o “quebra-quebra” de 1962 teria dado origem aos grupos de extermínio e até aos atuais grupos de milicianos que agem na região metropolitana do Rio de Janeiro.
    Acerca do saque de 1962, o único livro escrito possui caráter mais memorialístico que acadêmico e tem como autores Rogério Torres e Newton Menezes (TORRES, Rogério; MENEZES, Newton. Sonegação, fome, saque. Duque de Caxias: Consórcio de administração de edições, 1987).
  • 34
    A construção midiática de que os dois casos de justiçamento ocorridos em Morro Agudo no ano de 1970 era decorrência de ataques de vizinhos aos seus desafetos é incorreta. No caso do senhor Augusto Lopes da Silva, ele era morador de outro bairro e não do Jardim Iguaçu, onde ocorreu o linchamento. Ele ali chegara devido ao seu estado alterado de percepção da realidade.
  • 35
    É provável que nunca tenha havido um número 8 na Washington Luís. A antiga casa do astrólogo ficava na esquina dessa rua com a Orinda Monteiro. O número 8 estava nessa segunda rua.
  • 36
    Não há aqui espaço para um resumo da história da Baixada Fluminense, porém, sobre as maneiras como diversos estudiosos enxergaram essa periferia, ver: ENNE, Ana Lucia. “Lugar, meu amigo, é minha Baixada”: memória, representações sociais e identidade na Baixada Fluminense. Tese (Doutorado em Antropologia) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002. Mais especificamente para compreender os séculos XX e XXI duas coletâneas interessantes são FORTES, Alexandre; SALES, Jean; (org.). A Baixada Fluminense e a Ditadura Militar. Salvador: Sagga, 2022; NASCIMENTO, Álvaro Pereira do, BEZERRA, Nielson Rosa (org.) De Iguassú à Baixada Fluminense: Histórias de um Território. Curitiba: Appris, 2019.
  • 37
    GOMES, Joel Ferreira. Joel Ferreira Gomes (depoimento, 2019). Entrevista cedida a Linderval Augusto Monteiro. Nova Iguaçu, RJ, 20 jul. 2019.
  • 38
    A tabela seguinte permite acompanhar a evolução do povoamento de Nova Iguaçu entre os anos 1920 e 1990 bem como a transformação do município de rural em urbano. Atente para os saltos populacionais ocorridos entre 1950/1960 e 1960/1970.
    POPULAÇÃO DE NOVA IGUAÇU Ano População População em áreas rurais (%) 1920 33.396 - 1940 105.809 - 1950 145.649 46,60 1960 359.364 28,34 1970 727.140 0,39 1980 1.094.805 0,24 1991 1. 286. 337 - Fonte: IBGE, Censo de vários anos
  • 39
    Em 1970, em Nova Iguaçu, imperava o mais famoso interventor imposto pelos ditadores. Chamava-se ele João Ruy de Queiroz Pinheiro. Nascido em 1934, no então distrito iguaçuano de Nilópolis, filho de Stella de Queiroz Pinheiro, proprietária de escola que se destacava na imprensa por bajular constantemente, durante o Estado Novo, Vargas, seus interventores estaduais e os prefeitos iguaçuanos que possuíam íntima conexão com o regime. (O Fluminense, 21 ago. 1938, p. 01 Gazeta de Notícias, 4. fev. 1939, p. 15; 24 maio 1942, p. 09; 27 maio 1942, p. 04).
    O professor Ruy Queiroz, com evidente sucesso, imitou sua mãe ao longo da ditadura iniciada em 1964 e tornou-se famoso por ser dono de uma rede composta por seis escolas cujo nome era Liceu Presidente Médici.
    Ruy Queiroz assumiu como interventor a prefeitura municipal de Nova Iguaçu em 1969, passando a ser deputado estadual em 1974, retornando à prefeitura em 1977 e saindo dela em 1983. No Jornal do Brasil de 13 de janeiro de 1977, há a informação de que, na inauguração de sua quarta unidade escolar, Ruy Queiroz recebeu o próprio ex-presidente Médici. (MÉDICI é homenageado em Nova Iguaçu onde inaugura um colégio com o seu nome. Jornal do Brasil,13 jan. 1977, p. 18).
    Duas lendas cercam o nome de Ruy Queiroz: a de que era informante dos militares, apontando inimigos do regime ditatorial a partir de 1964, e a de que era também proprietário de uma rede de motéis na região de Nova Iguaçu.
  • 40
    Sobre a ligação entre jogo do bicho na região da Baixada Fluminense e os militares nos anos ditatoriais, ver JUPIARA, Aloy; OTAVIO, Chico. Os porões da contravenção: Jogo do bicho e Ditadura Militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado. Rio de Janeiro: Record, 2015; BEZERRA, Luiz Anselmo. A família Beija-Flor. 2010. 243 f. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010.
  • 41
    Há uma vasta literatura acerca das maneiras de obtenção de terras na região da Baixada Fluminense entre os anos 1930 e 1960. A grilagem, em conjunto com a expulsão violenta do camponês da terra, era sempre um método de obtenção de terrenos (ver GRYNSZPAN, Mario. Mobilização camponesa e competição política no estado do Rio de Janeiro [1950-1964]. (Dissertação de mestrado). Rio de Janeiro, 1987, PPGAS/MN/UFRJ). Particularmente no caso de Morro Agudo, havia uma dubiedade quanto à posse da terra que, legalmente, pertencia à Santa Casa de Misericórdia, mas que, desde o ano de 1916, quando passou a ter a posse relativa das terras (a posse definitiva somente se daria quando a totalidade dos herdeiros do Comendador Soares falecessem), não as ocupou efetivamente. Uma grande quantidade de pequenos chacareiros ocupava essa vasta planície. Quando as ofereciam nos classificados dos jornais, vendiam as benfeitorias e os laranjais, indicando isso que não detinham a posse efetiva dos terrenos. Provavelmente por pressões econômicas e porque sabiam que suas terras eram cobiçadas enormemente pela indústria loteadora, em 1938 tem-se notícia de um esforço da Santa Casa no sentido de ao menos “levantar a planta das fazendas ‘Madureira’, ‘Morro Agudo’, ‘São José’ e ‘Tinguá’ em Nova Iguassú” (Jornal do Brasil, 16 jul. 1938, p. 16). Nos anos seguintes, as terras foram retalhadas e loteadas por quem não tinha a posse. No entanto, sempre que um litígio ocorria e a Santa Casa recorria ao judiciário, terminava por perder a demanda, provavel­mente porque a remoção de bairros inteiros já habitados por muitos migrantes era algo que os juízes preferiam evitar e entender que os ocupantes tinham o direito por usucapião (ver: AMEAÇADAS de esbulho pela Santa Casa 3000 famílias. O Globo, 16 dez. 1960, p.12)
  • 42
    A ideia de inclusão perversa pode ser encontrada em MARTINS, José de Souza. Reflexão crítica sobre o tema da “exclusão social”. In: A sociedade vista do abismo: novos estudos sobre exclusão, pobreza, classes sociais. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2008. p. 25-47.
  • 43
    Ao longo da ditadura militar o programa televisivo de humor que mais sucesso fez no Brasil foi “Os Trapalhões”. Mussum era o único personagem negro do quarteto e sobre si levava todos os estereótipos de um preto brasileiro. É interessante como, através de piadas cruéis dirigidas ao personagem, se reforçava a ideia mestra de não diferença entre brancos e pretos. O fato de os negros também rirem dos quadros em que Mussum era até chamado de “frango de macumba” atestava para todos que o racismo não existia nessa parte do planeta. Ver: MOREIRA, Adilson. Racismo recreativo. São Paulo: Pólen livros, 2019.
  • 44
    Era habitual na região da Baixada Fluminense, nos anos da ditadura militar iniciada em 1964, a prisão para averiguação sempre que alguém era encontrado na rua não trabalhando. O que levava os homens a sempre carregarem consigo a carteira de trabalho assinada, que provava não ser o possuidor do valioso documento um infrator do artigo 59 da Lei das Contravenções Penais (Decreto-lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941).
  • 45
    O artigo 295 do Código Criminal do Império descrevia o crime de vadiagem como aquele cometido quando “não tomar qualquer pessoa uma ocupação honesta e útil de que possa subsistir, depois de advertida pelo juiz de paz, não tendo renda suficiente”. É bastante óbvio que os atingidos por tal lei e que poderiam ser encarcerados por até vinte e quatro dias eram pretos e mestiços.
  • 46
    Diário da Noite, 10 jun. 1970, p. 04.
  • 47
    Correio da Manhã, 4 nov. 1970, Anexo.
  • 48
    Trechos das canções “Este é Um país que vai pra frente” e “Pra frente Brasil”. As duas canções se caracterizaram por serem utilizadas de forma recorrente pelo governo ditatorial militar brasileiro, durante os anos 1970, como elemento de propaganda laudatória do regime de exceção.
  • 49
    Para um detalhamento do movimento de migrantes negros na região da Baixada Fluminense, ver: COSTA, Carlos Eduardo C. De Pé Calçado: Família, Trabalho e Migração na Baixada Fluminense, RJ. (1888-1940). 2013. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.
  • 50
    Para detalhes da produção de laranjas em Nova Iguaçu na primeira metade do século XX ver: CARVALHO, Iracema Baroni de. Laranjas brasileiras. Nova Iguaçu: Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu, 1999 e PEREIRA, W. Cana, café e laranja: História econômica de Nova Iguaçu. Rio de Janeiro: FGV, 1977.
  • 51
    SILVA, Maria Oliveira da. Maria Oliveira da Silva (depoimento, 2019). Entrevista cedida a Linderval Augusto Monteiro. Nova Iguaçu, RJ, 21 jul. 2019.
  • Editora Responsável:
    Mariana de Moraes Silveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    26 Jul 2023
  • Revisado
    23 Jan 2024
  • Aceito
    21 Mar 2024
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Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
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