Open-access Intersecções entre mobilidade urbana e campus universitário na busca pela redução das desigualdades sociais

Urban segregation on the university campus: between the reversal and reproduction of inequalities

Resumo

A configuração de algumas universidades brasileiras ilustra o perfil das políticas públicas nas cidades. De maneiras distintas, ambos são desafiados pelas leis que regem os sistemas de transporte e o acesso democrático ao Ensino Superior. Exploramos dados da Universidade Federal de Santa Catarina, relacionando a estratificação horizontal do ensino superior com as condições de renda, moradia e deslocamento dos estudantes de diferentes áreas de conhecimento. Os dados evidenciam que a redução das desigualdades, versada nos objetivos do Plano Nacional de Assistência Estudantil e na Política Nacional de Mobilidade Urbana, ainda está longe de alcançar sucesso. O descompasso entre a fragmentação organizacional do campus, os objetivos das políticas nacionais e os valores da universidade promove velocidades desiguais de alcance às oportunidades entre os grupos sociais. Os resultados apontam que a redução das desigualdades no acesso ao Ensino Superior é mais evidente nas profissões menos valorizadas. Os estudantes destas profissões declaram possuir menor renda, morar em bairros mais distantes, gastam proporcionalmente mais tempo no transporte ao campus e possuem condições menos adequadas para o estudo em casa, demonstrando que a estrutura física do campus e a localização das moradias dos estudantes manifestam uma segregação espacial análoga à verificada na cidade.

Palavras-chave:
Desigualdades no campus; Segregação socioespacial; Mobilidade

Abstract

The configuration of some Brazilian universities illustrates the profile of public policies in cities. These territories are differently challenged by the laws governing transportation systems and democratic access to higher education. We explore data from the Universidade Federal de Santa Catarina, correlating the horizontal stratification of higher education with the income, housing, and commuting conditions of students from different disciplines. The data highlight that the reduction of inequalities, as outlined in the objectives of the National Student Assistance Plan and the National Urban Mobility Policy, is still far from achieving success. The mismatch between the organizational fragmentation of the campus, the objectives of national policies, and the university values promotes unequal speeds of access to opportunities among social groups. The results indicate that the reduction of inequalities in access to higher education is more evident in less valued professions. Students in these professions declare lower income, reside in more distant neighborhoods, spend proportionally more time commuting to the campus, and have less suitable conditions for studying at home, demonstrating that the campus's physical structure and the location of students' residences manifest spatial segregation analogous to that observed in the city.

Keywords:
Campus inequalities; Sociospatial segregation; Student commuting

Introdução

Escritos da década de 1990 esboçavam expectativas vanguardistas para a Universidade do Século XXI e preocupações sobre um possível enfraquecimento na aprendizagem e aumento das desigualdades com a digitalização do ensino e o distanciamento dos estudantes. Os autores defendiam a diversidade e sociabilidade do campus universitário como recursos essenciais para troca de saberes (Brown & Duguid, 1996; Pines, 1998). Mirando uma adaptação ativa, Lessa (1999) convocou as instituições públicas de ensino superior para o exercício da transparência e autocrítica, visto que “a universidade internaliza, amplifica e, por vezes, distorce os problemas gerais da vida brasileira”. Como espelho da sociedade, a comunidade acadêmica reproduz virtudes, mazelas e vícios da nação. Partimos deste quadro ambíguo do território universitário que se ampara na missão de formação e transformação social democrática, mas reverbera estruturas rígidas e fragmentadas que estancam dinâmicas interdisciplinares de construção de uma sociedade mais justa (Liddle & Addidle, 2022).

Investigamos na sede da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) a fragmentação disciplinar relacionada à segregação socioambiental de Florianópolis. Através de dados de renda, transporte e moradia, avaliamos como a cidade e a estrutura organizacional universitária reverberam traços da desigualdade social. Para compreender essas relações complexas, associamos os cadastros residenciais dos estudantes de graduação, atualizados em 2020, com os dados da caracterização discente na pandemia da COVID19. Estratificados por Centros de Ensino, a localização dos estudantes na cidade evidenciou condições desiguais para adaptação ao ensino não-presencial e riscos de evasão. Finalmente, avaliamos os limites entre universidade e entorno, costurados pelos acessos de pedestres e, internamente, pela distribuição da infraestrutura de transportes.

A estrutura pedagógica, setorizada em Centros de Ensino, foi a variável basilar dos estudos. Argumentamos que a organização física do campus possui uma relação bidirecional com as oportunidades desiguais no mercado de trabalho e, logo, com as variações de renda entre egressos. Essas desigualdades em um mesmo nível de escolaridade, chamadas de estratificação horizontal, configuram uma lacuna nos estudos urbanos e políticas ambientais. Buscamos investigar sua ramificação na cidade através da distribuição de renda dos estudantes em formação, analisando a localização e as condições do ambiente domiciliar, bem como dos deslocamentos. A relação entre o desenho do campus e a segregação urbana não é necessariamente de causalidade, mas as correlações que estabelecemos notabilizam contrastes entre o discurso oficial da universidade em direção a uma “uma sociedade justa e democrática” (UFSC, 2020b)” e as decisões materializadas nos territórios, que podem reduzir ou reproduzir desigualdades presentes nas cidades brasileiras.

Universidades públicas no contexto das desigualdades

As ações e omissões políticas em diferentes áreas são coautores de páginas determinantes da história da desigualdade no Brasil (Arretche, 2015). No século XXI, políticas educacionais avançaram no entendimento da importância da formação profissional no seu desenvolvimento, aprimorando iniciativas voltadas para reversão do quadro demográfico no ensino superior e valorização das universidades públicas. Enquanto a Reforma Universitária de 1968, sob influência norte-americana, consolidou uma estrutura espacial elitizada, segregada dos centros urbanos e fragmentada em áreas do conhecimento, o incentivo massivo à aquisição de automóveis direcionava a política econômica nacional. Décadas depois, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) intencionava reverter este quadro, valorizando a democratização do acesso e permanência e a interdisciplinaridade, associadas a intersecção de saberes e experiências, como integrantes de um projeto de país (Brasil, 2007). Entre os instrumentos legais para consolidar este ideal, as ações da Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAEs) voltam-se para as condições de moradia, transporte e inclusão digital dos estudantes, objetivando minimizar os efeitos das desigualdades sociais, democratizar a permanência e reduzir a evasão (Brasil, 2024).

A eficácia dessas políticas educacionais condiciona-se, no entanto, à integração de fatores territoriais que transcendem a garantia da matrícula, ou seja, as iniciativas governamentais devem considerar a acessibilidade e o deslocamento da população aos benefícios ofertados. Essa lacuna levou movimentos populares com grande presença estudantil a direcionar o foco político para os problemas socioeconômicos de deslocamento nas cidades. As manifestações ocorridas em Salvador, em 2003, e Florianópolis, em 2004, ganharam visibilidade no cenário nacional por reivindicarem melhorias e gratuidade no transporte público coletivo (Gomide & Galindo, 2013). Almejando, assim, “reduzir as desigualdades e promover a inclusão social”, a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) versa na direção da “mitigação dos custos ambientais e socioeconômicos dos deslocamentos de pessoas e cargas nas cidades” (Brasil, 2012). Trata-se, portanto, não apenas da distribuição de infraestrutura adequada, mas da capacidade de conversão dessas políticas em oportunidades de melhorar o desenvolvimento humano. Essas capacidades referem-se às possibilidades concretas para realizar o que é considerado essencial na sociedade, como estudar, trabalhar, cuidar da saúde e participar da vida comunitária. A promoção da igualdade e justiça social exige, assim, uma reflexão crítica e um diálogo profundo entre as ciências sociais e políticas de transporte, educação e moradia para garantir níveis mínimos de capacidades (Pereira et al, 2017).

Essas variáveis estão intrinsecamente relacionadas às cidades latino-americanas, onde há a imperativa priorização do fluxo eficiente de automóveis e constante restrição orçamentária à infraestrutura de transporte ativo e coletivo. Libertunn de Duren (2017) pesquisou dinâmicas de moradias de interesse social localizadas em Goiânia (Brasil), Barranquilla (Colômbia) e Puebla (México), verificando que a localização das residências afeta diretamente a produtividade e o acesso aos serviços. Assim, moradores da periferia gastam o dobro em transporte público e levam o triplo do tempo para chegar ao trabalho quando comparados com residências próximas ao centro. Além disso, a configuração social homogênea e o isolamento físico dessas regiões reduzem as perspectivas de boas propostas de emprego (Libertunn de Duren, 2017).

As universidades possuem relevância na leitura e coprodução dessas realidades. Em uma análise sobre mobilidade sustentável para universitários da região metropolitana de Guadalajara, Alba-Martinez et al. (2021) indicam o pouco fomento de políticas públicas para o deslocamento até o campus, revelando um viés socialmente desfavorável na distribuição de infraestrutura viária que a distancia do ideal de “cidade mais justa e habitável”. No contexto brasileiro Lima (2019) notou que, entre estudantes negras, “não há uma real escolha quanto às universidades, pois antes de chegar a escolha da universidade precisam ver preços mais acessíveis, localidade mais próxima do bairro, etc.”. Algumas entrevistadas relataram o tempo de espera pelo transporte coletivo entre os fatores que influenciam seu acesso e permanência na universidade (Lima, 2019). As universidades públicas têm uma missão fundamental nesta reflexão crítica, seja na formalidade de suas atividades de ensino, nas suas políticas institucionais ou nas performances democráticas das manifestações estudantis (Kos et al., 2020). A interdependência entre a implantação do campus e o crescimento das cidades é, no entanto, tratada de maneiras distintas pelos gestores, reforçando uma separação física e administrativa nas duas instâncias.

Importa saber como a estrutura pedagógica do Ensino Superior, assim como o campus, pode estar relacionada com a fragmentação do exercício de formulação das políticas públicas e organização do mercado de trabalho nas cidades. No Brasil, embora as políticas de ações afirmativas tenham ampliado a diversidade e pluralidade de vozes no campus universitário, a democratização de acesso não alterou ainda o quadro de desigualdade entre as formações, principalmente nas carreiras mais privilegiadas. A desigualdade que existe entre os egressos de diferentes áreas é conhecida na literatura brasileira como estratificação horizontal do ensino superior (Ribeiro e Schlegel, 2015). Essas diferenças são historicamente marcadas por aspectos raciais e de gênero, direcionando pretos, pardos e mulheres às profissões com rendas inferiores, enquanto homens brancos continuam sendo a maioria em carreiras de maior prestígio social, como medicina, engenharia e direito. Comparando os cursos de licenciatura com estas três “profissões imperiais”, Rodrigues (2023) evidencia a seletividade associada às variáveis socioeconômicas e à estratificação horizontal.

As relações existentes entre segregação urbana e tal estratificação, reflexo também da fragmentação no campus universitário, são ainda pouco exploradas. Muitas instituições de ensino assumem, assim, a missão de liderar as transformações que almejam em direção a uma sociedade mais justa e solidária, acolhendo no campus as vozes dos grupos sociais deliberadamente afastados dos centros decisórios. Embora o poder político e os recursos financeiros exerçam forte influência na urbanização das universidades, para ser considerado bem-sucedido, o planejamento espacial precisa passar por um processo interdisciplinar de integração e reavaliação de seus sistemas sociotécnicos que se adaptam e/ou revertem os problemas urbanos. Para materializar a diversidade e interdisciplinaridade pretendida, as universidades precisam reconhecer a importância da distribuição equilibrada de espaços e recursos financeiros que refletem seus valores institucionais, a fim de estimular a permanência dos estudantes e capacitar os que melhor conhecem as realidades mais frágeis da sociedade.

UFSC e Florianópolis

A canalização e drenagem do terreno alagadiço e a execução do sistema viário definiram, nos anos 1960, a implantação do Campus Trindade, sede da UFSC em Florianópolis. Hoje, consolidada em uma zona conurbada, a centralidade da UFSC ainda mantém um certo distanciamento físico de algumas comunidades. Predominantemente insular, Florianópolis tem uma geografia longitudinal, com cerca de 50 km de distância entre suas extremidades sul e norte e conectada ao continente apenas na região de menor distância da ilha ao continente. Essa configuração natural, delimitada por morros, mangues e restingas, resultou em uma expansão polinucleada em zonas periféricas de contextos econômicos e ocupações urbanas diversas. Em um cenário socioambientalmente privilegiado, a cidade passou a ser muito visada para moradia, formação acadêmica e mercado de trabalho, gerando uma situação de combinação de preços crescentes do solo urbano e de acesso desigual à moradia, com valores de aluguel superiores aos índices nacionais (Salata & Ribeiro, 2023; Siqueira, 2021).

Mesmo com relativamente baixa proporção de pessoas com renda inferior a ¼ de salário-mínimo (14,9%), quando comparada com outras metrópoles brasileiras, Florianópolis não está livre de uma crescente segregação (Figura 1). Em oposição àqueles que acessam moradias centrais ou em locais silenciosos, grupos de baixa renda vivem em áreas mais segregadas e desconectadas, nas regiões periféricas da ilha, nos bairros do continente ou nos demais municípios do entorno. Há, ainda, os que buscam alternativas em ocupações informais, principalmente nas encostas de morros, em condições precárias de infraestrutura urbana e acessibilidade. A localização e topografia, a integração da malha viária e o acesso aos serviços básicos de saúde, educação e transporte, desfavorecem a diversidade econômica de encontros ao segregar fisicamente os grupos de renda (Kronenberger & Saboya, 2019). A pandemia da COVID19 evidenciou essa combinação sistêmica de fatores, quando o coeficiente de Gini na Região Metropolitana de Florianópolis aumentou consideravelmente em relação a 2019, chegando a 0,55 em 2022, em contraposição à estabilidade das demais capitais (Salata & Ribeiro, 2023).

Figura 1
Distribuição das faixas de renda e Códigos Postais em Florianópolis.

A topografia desta cidade polinucleada acrescenta desafios, com longas distâncias percorridas entre os diversos núcleos urbanos. Nesse sentido, a precarização do transporte público e o incentivo ao transporte motorizado individual, com demasiado impacto no uso e ocupação do solo, tensionam a distribuição dos benefícios e ônus decorrentes dos deslocamentos, incluindo a capacidade de grupos periféricos de acessar a universidade. Considerando que a população do Campus Trindade, representada por seus estudantes e servidores, equivale a 10% do total de moradores da ilha, ela contribui significativamente para esse cenário em um dos principais polos atratores de viagens da região. As escolhas políticas ou individuais da comunidade acadêmica, materializadas no território da UFSC, exercem assim um papel relevante para a configuração socioambiental de Florianópolis. O traçado da hidrografia canalizada e das vias internas definiu a setorização do campus pelas áreas de conhecimento dos Centros de Ensino. Nesse desenho, a ocupação gratuita das margens dos córregos por automóveis (Figura 2) contribui para uma paisagem hostil à circulação de pessoas e incorpora uma atitude oposta à missão da UFSC de “socializar os saberes (...) na perspectiva da construção de uma sociedade justa e democrática” (UFSC, 2020b).

Figura 2
Vista aérea do campus e aproximações dos estacionamentos nas margens dos córregos.

Assim, a infraestrutura de acesso ao campus - destacada por entradas de pedestres, ciclovias, paradas de ônibus e estacionamentos - pode influenciar na conexão ou segregação das comunidades do entorno e dos mais de 36 mil estudantes vindos da região metropolitana de Florianópolis e outras localidades do Brasil (UFSC, 2022). Esse território possui limites muito diversos que, ora se abrem e se integram à malha urbana dos bairros Trindade e Córrego Grande, ora mantêm características originais de distanciamento da cidade, como nos limites com o Pantanal e a Carvoeira, bairros que por suas características topográficas são naturalmente menos acessíveis (Figura 3). A não-permeabilidade com os morros é reforçada pela manutenção de cercas e controle de acessos, visando zelar bens privados e o patrimônio institucional.

Figura 3
Configuração viária do campus.

Metodologia

Buscamos mapear as dinâmicas dos estudantes de graduação em Florianópolis através da exploração da base de dados da UFSC integrada ao sistema IdUFSC, onde cada membro é cadastrado ao ingressar na instituição. Como esses dados raramente eram atualizados após o ingresso, em junho de 2019, a UFSC convidou a comunidade acadêmica para atualizar e compartilhar suas informações para fins de pesquisa (UFSC, 2019). Até o primeiro trimestre de 2020, cerca de 82% dos membros, responderam à solicitação e uma amostra de 39.108 cadastros foi disponibilizada para uma parceria entre o Laboratório de Ecologia Urbana (LEUr), o Laboratório de Segurança Computacional (LABSEC) e a Superintendência de Governança Eletrônica e Tecnologia da Informação e Comunicação (SETIC/UFSC) que, visando atender à legislação, desenvolveram formas seguras de manipulação e anonimização dos dados de acesso restrito (Mangrich et al., 2019; Pavan et al., 2022).

Em junho de 2020, durante a pandemia da COVID-19, a UFSC realizou outra pesquisa, buscando compreender suas necessidades e dificuldades com a interrupção das atividades presenciais no campus (UFSC, 2020c). O questionário online com 47 perguntas de múltipla escolha contou com respostas únicas direcionadas conforme o vínculo cadastrado no sistema IdUFSC. No diagnóstico institucional, os percentuais resultantes foram calculados pela amostra dos respondentes separados em três categorias - 2.512 dados representando 92% dos docentes; 1.980, 63% dos técnicos-administrativos; e 23.363, 63,5% dos discentes (incluindo ensino fundamental, médio, graduação e pós-graduação), desconsiderando o percentual dos membros que não participaram da pesquisa.

Estudo 1

As análises deste trabalho partiram dos dados abertos da pesquisa de 2020 disponibilizados no site oficial da UFSC, relativos aos estudantes de graduação vinculados aos Centros de Ensino localizados no Campus Trindade, totalizando 14.116 participantes. Diferente do relatório oficial, incluímos nas análises o grupo de membros que não participaram da pesquisa, justamente porque a ausência de suas respostas pode representar desiguais condições de acesso digital em relação aos demais. Considerando o número de 21.641 matrículas em graduação ativas no Campus Trindade no 1º semestre de 2020 (UFSC, 2020a) e subtraídos os estudantes que participaram da pesquisa, o excedente de 7.525 (34,8%) estudantes foram adicionados às análises e recalculados os percentuais das respostas (Figura 4).

Figura 4
Quantidade de cadastros por Centro de Ensino, baseada em dados de 2020.

Representamos esses dados estratificados por Centros de Ensino, incluindo os estudantes ausentes, e conferindo um mapeamento diferente em relação a uma invisibilidade questionável quando apresentado pela universidade em 2020. Dada a diferença quantitativa no número de matrículas entre as áreas de ensino, para o primeiro estudo, analisamos os percentuais em oposição aos números totais obtidos. No segundo estudo, verificamos fatores que poderiam influenciar na segregação e desigualdade entre os estudantes, tanto no campus como na cidade. Para isso, selecionamos perguntas que auxiliassem na identificação da renda familiar per capita das condições de moradia e estudo e dos meios de transporte mais utilizados. Assim, entre as 47 questões aplicadas, antepomos as seguintes:

Renda familiar per capita

44: Quanto é a renda per capita (divida a renda total da família pelo número de pessoas que moram na mesma casa) da sua família?

Condições de moradia e estudo

5: Como você avalia a sua privacidade e o silêncio no seu ambiente de estudo em casa?

20: Você possui dificuldades pessoais (falta de ambiente em casa propício para assistir às aulas, sobrecarga de atividades, dificuldades familiares, trabalho doméstico, impossibilidade de limitar os horários e a carga horária de estudo) para participar de atividades pedagógicas não presenciais?

23: Considerando a necessidade de internet e os equipamentos, você se sente em condições de participar de atividades pedagógicas não presenciais em tempo real?

45: Diante dos efeitos da pandemia sobre você e/ou sua família, qual a sua disposição em relação à continuidade de seus estudos na UFSC?

Meios de transporte

41: Durante o ensino regular presencial, qual meio de transporte você utiliza com mais frequência?

Estudo 2

Os dados do questionário permitiram reconhecer um padrão desigual de dinâmicas sociais entre os estudantes de cada Centro de Ensino, direcionando a segunda etapa para a associação com os cadastros de endereço residencial da comunidade universitária que pudessem verificar os resultados preliminares. Para garantir a anonimização dos dados, agrupamos os endereços pelos cinco primeiros dígitos dos Códigos de Endereçamento Postal (CEPs), associados a bairros ou regiões da cidade, não identificando as vias (00000-XXX) e considerando apenas os bairros com mais de 50 cadastros. Avaliamos as respostas das perguntas 44, vinculada à renda, e 41, vinculada aos meios de transporte junto à localização das residências. Os resultados desta tabulação de dados evidenciam a relação intrincada entre as dinâmicas do campus e da cidade de Florianópolis, onde as políticas habitacionais e de mobilidade reverberam no território universitário aspectos da estratificação horizontal e acesso a oportunidades na escala urbana.

Após receber os dados anonimizados, selecionamos recortes geográficos para análises comparativas baseados na estratificação por faixas no mapeamento da segregação em Florianópolis de Kronenberger e Saboya (2019), e considerando os perfis de renda, a distância em relação ao campus e o quantitativo das amostras em cada bairro. A primeira análise buscou os potenciais usuários de transportes motorizados, localizados a mais de 30 minutos de caminhada, e a segunda os bairros do entorno do campus, os potenciais estudantes que costumam ir a pé.

Reconhecida a desigualdade entre as diferentes disciplinas, cruzamos os dados explorados na primeira etapa, aos registros de endereço atualizados, cujos acessos necessitam dos protocolos realizados pela SETIC, para a compreensão das dinâmicas sociais no campus e na cidade. Elaboramos assim cruzamentos. Mantido o agrupamento por Centro de Ensino, avaliamos o impacto do endereço residencial na distribuição dos grupos de renda (Pergunta 44) e meios de transporte mais utilizados pelos estudantes (Pergunta 41). Este último estudo foi dividido através da distância entre a moradia e o campus, entre os que potencialmente utilizam o transporte motorizado e os que podem se deslocar a pé até a universidade. Para efeito de comparação, em ambas as análises incluímos os dados daqueles que declararam utilizar carro próprio para se deslocar até o campus.

Transportes motorizados

88015-XXX: Centro / Avenida Beira-mar (292 cadastros) - Faixas A e B 88058-XXX: Ingleses do Rio Vermelho (281 cadastros) - Faixa D

88030-XXX: João Paulo (88 cadastros) - Faixas B e C 88049-XXX: Tapera (83 cadastros) - Faixas D e E

Transportes não-motorizados

88040-XXX: Pantanal e Carvoeira (1.661 cadastros) - Faixas C e D 88037-XXX e 88035-XXX: Córrego Grande (488) e Santa Mõnica (50) - Faixas A e B

Estudo 3

No terceiro estudo identificamos a segregação espacial no campus através das correlações entre as características físicas, a distribuição de renda e os meios de transporte. Utilizamos o índice de Entropia de Shannon (White, 1986) para esta análise em cada centro de ensino. Esse índice quantifica a incerteza, diversidade e complexidade dos padrões socioeconômicos, apresentando maior valor do índice de entropia sendo para conjunto de dados mais diversificados e balanceados. Quando um Centro de Ensino apresentar a mesma quantidade de estudantes em todas as categorias de renda terá diversidade máxima e índice 1. Quando a distribuição de dados é desigual ou concentrada em poucas categorias, o índice é baixo, com índices de entropia próximos de 0.

Posteriormente, utilizamos Sistemas de Informação Geográficas (SIG) para integrar dados do estudo ao ambiente construído do campus, levando em consideração 3 características da infraestrutura de mobilidade do campus em um raio de 200m a partir do centro geográfico dos Centros de Ensino: área de estacionamento (m²); portões de acesso ao campus; paradas de ônibus e quantidade de linhas que atendem cada um. Por fim, realizamos análises da correlação entre características físicas, renda e mobilidade através da correlação linear bivariada, utilizando o método de Pearson (Edwards, 1976). O coeficiente de correlação varia de -1 a 1, indicando uma correlação forte positiva ou negativa, ou ausência de correlação. Valores próximos a 1 ou -1 indicam uma relação forte, enquanto valores próximos a 0 indicam ausência de relação.

Resultados e discussão

Desigualdades entre Centros de Ensino

Avaliamos a vulnerabilidade e as desigualdades nas capacidades de desenvolvimento individual e coletivo dos graduandos à luz de dois valores institucionais da UFSC (2020): ser uma universidade interdisciplinar, “preparada para propiciar a interação mútua entre as mais diversas áreas de ensino” e inclusiva, “capaz de olhar para os mais diversos grupos sociais e compor um ambiente em que impera o respeito e a interação (...) de forma a superar qualquer desigualdade”. Tomamos por base as informações de renda familiar per capita (pergunta 44), classificadas na pesquisa por três faixas de acordo com o salário-mínimo (até 1/2 salário-mínimo; entre 1/2 e 1 salário-mínimo; e os que possuem renda acima de 1 salário-mínimo), onde foi possível destacar a desigualdade econômica existente entre estes grupos e sua distribuição nos Centros de Ensino.

Renda familiar per capita

A base do gráfico (Figura 5) foi ordenada pelo cálculo simplificado de desigualdade de renda, ou seja, a diferença entre os grupos de maior e menor renda, do Centro de Ensino com maior desigualdade de renda entre seus estudantes -Ciências Jurídicas (CCJ), à esquerda, ao centro menos desigual -Ciências da Educação (CED), à direita. Os percentuais dos que não participaram da pesquisa aparecem ao fundo.

Figura 5
Distribuição de renda por Centro de Ensino.

Nota-se que os quatro primeiros Centros de Ensino - Ciências Jurídicas (CCJ), Tecnológico (CTC), Ciências da Saúde (CCS) e Sócio Econômico (CSE) - constituem proporcionalmente os estudantes com maior renda per capita, enquanto no Centros de Desportos (CDS) e de Ciências da Educação (CED) há maior equilíbrio na distribuição de renda. Fica evidente que no perfil discente, apresentado em 2020, as respostas do primeiro grupo de centros (CCJ, CTC, CCS e CSE) possuem um peso significativo. Na outra ponta, os Centros de Ciências Físicas e Matemáticas (CFM) e de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) somam-se ao CDS e ao CED no grupo de centros menos representados, contemplando grupos minoritários, cujas condições de enfrentamento às dificuldades impostas pela pandemia, ou em outras situações críticas, foram subvalorizadas.

O gráfico apresenta uma relação entre faixa de renda e percentual de ausentes, sugerindo um primeiro aspecto de desigualdade pelo acesso à pesquisa online, que demandava equipamento e conexão à internet em casa no período de isolamento da pandemia. Os centros com maior equilíbrio na distribuição de renda obtiveram os menores índices de respondentes. A ausência de respostas parece indicar que os não-respondentes estejam nos grupos de menor renda, ampliando a distorção no perfil divulgado pela universidade. A sobrecarga de atividades domésticas, a busca por novas fontes de renda, ou a falta de acesso aos recursos necessários para participação da pesquisa podem configurar conjecturas para esta ausência.

Essas tendências se refletem na forte representação dos Centros de Ensino dominantes na história da UFSC. Em seus 62 anos, 40 foram administrados por reitores com formação em Direito (CCJ), 8 anos por engenheiros (CTC), 8 anos por médicos (CCS), as conhecidas “profissões imperiais”. Esses Centros de Ensino são os únicos sem cursos de licenciatura, ou seja, não formam professores para atuar no ensino fundamental e médio, profissão historicamente pouco valorizada no Brasil. Somente em 2012, uma historiadora (CFH) foi eleita para a primeira gestão vinculada a um curso de licenciatura e a primeira representante feminina na galeria de reitores. Não pretendemos analisar a influência exercida na gestão pública, mas é importante considerar a formação profissional dos que são corresponsáveis pelo direcionamento das decisões e investimentos que consolidam a configuração territorial do campus e das cidades.

Condições de moradia e estudo

Observa-se que renda e condições habitacionais estão associados em alguns Centros de Ensino à demanda por ambientes de estudo no campus. Buscando compreender as desigualdades que existem nas configurações de moradia e dificuldades estudantis (Figura 6), analisamos as perguntas relativas à privacidade e silêncio no ambiente de estudo em casa (Pergunta 5), às dificuldades pessoais e falta de ambiente propício para assistir às aulas online (Pergunta 20), à necessidade de internet e equipamentos (Pergunta 23) e aos riscos de evasão ou descontinuidade dos estudos (Pergunta 45).

Figura 6
Condições de moradia por Centro de Ensino.

De acordo com a pergunta 5, apenas nos Centros de Ensino CCJ, CSE, CTC e CCS a maioria dos estudantes de graduação matriculados considerava possuir privacidade e silêncio suficientes para estudar em casa em 2020. Próximo à maioria, 3.531 (48,9%) estudantes declararam que seu ambiente doméstico não é suficientemente silencioso para desenvolver atividades que exigem concentração. Tal demanda aumenta nos Centros de Ensino de menor renda, sendo que ¼ dos estudantes do CDS declararam não possuir privacidade e silêncio em sua residência. Esta realidade aponta para o papel relevante das infraestruturas sociais do campus, como bibliotecas e laboratórios de informática, espaços de apoio e contrapeso da ausência de ambientes na cidade e nas residências para assistir a uma aula online ou estudar individualmente.

Outras perguntas analisadas reforçam um padrão na distribuição das respostas entre os Centros de Ensino, demonstrando menores dificuldades pessoais e de acesso digital entre estudantes de direito, engenharia e ciências da saúde. Inversamente, 4.470 estudantes apontam dificuldades pessoais para desenvolver seus estudos fora do campus, como “falta de ambiente em casa propício para assistir às aulas, sobrecarga de atividades, dificuldades familiares, trabalho doméstico, impossibilidade de limitar os horários e a carga horária de estudo”. A desigualdade entre áreas representou também um impacto na projeção de evasão no contexto pandêmico, quando 39% dos estudantes declararam “dar continuidade aos estudos mesmo em regime não-presencial”. Embora o gráfico explore dados de cenário em crise global, esse risco de evasão evidencia regiões do campus que possuem maior demanda de ações direcionadas à permanência estudantil.

Apenas no CCJ, CSE, CTC e CCS a maioria dos graduandos declaram não precisar da Biblioteca Universitária, determinando o diagnóstico institucional, enquanto nos demais Centros de Ensino esses valores ficaram abaixo de 50%. Com isso, um total de 3.788 estudantes de graduação declararam que precisam utilizar a biblioteca de forma física e 1.235 que precisam dos laboratórios de informática. Os gráficos ilustram a diferença entre as condições de moradia dos estudantes e um desequilíbrio para a necessidade dos espaços do campus para desenvolver suas atividades. Ou seja, investimentos para materializar os objetivos das políticas nacionais de ações afirmativas, devem considerar as condições de moradia dos estudantes para definir o uso e ocupação do solo no campus.

Meios de transporte

As alternativas de acesso ao campus também podem apontar diferenças relevantes entre os grupos de maior e menor renda. No entanto, a desigualdade aparece mais sutil ao analisar os dados de mobilidade dos estudantes, extraídos da pergunta “Durante o ensino regular presencial, qual meio de transporte você utiliza com mais frequência?”. Para expor estas informações na Figura 7, foram mantidas as amostras dos estudantes que utilizam carro próprio e os que costumam andar a pé. Agrupamos em transporte público coletivo os dados dos que utilizam ônibus municipal e intermunicipal. Por fim, ao grupo nomeado como “outros”, incluímos dados dos usuários de bicicleta, motocicleta, carona, transporte por aplicativo ou táxi. Como os usuários de bicicleta e motocicleta foram reunidos em uma das alternativas, não pudemos dar o destaque que gostaríamos aos ciclistas como alternativa a ser incentivada.

Figura 7
Meios de transporte por Centro de Ensino.

Diferente dos gráficos anteriores, nota-se uma distribuição homogênea entre os Centros de Ensino, principalmente quanto ao uso do transporte coletivo, meio de transporte mais utilizado pelos estudantes. No entanto, enquanto apenas ¼ dos estudantes do CTC (25%) se deslocam de ônibus até o campus, (39%) dos graduandos do CDS demandam por transporte coletivo. Além disso, o CDS e o CED, centros com menor renda, possuem menor índice dos que costumam ir a pé até o campus, com apenas 10% em cada. Os Centros de Ensino com mais estudantes indo a pé (CTC e CCS), por outro lado, possuem cursos majoritariamente de período integral. Eles compõem os quatro Centros de Ensino de maior renda per capita (CCJ, CTC, CCS e CSE) e, ainda, são os que possuem proporcionalmente mais usuários de carro próprio, representando 68% das 1.746 vagas de estacionamento ocupadas por estudantes. Embora os usuários deste modo de transporte sejam minoria, a área que lhes é reservada representa uma parcela significativa do solo do campus, especialmente se comparada aos espaços para pedestres e para o transporte coletivo, reforçando a desigualdade na distribuição do espaço.

A condição financeira dos estudantes, frequentemente determinada pela renda de sua família, influi diretamente nas escolhas e em seu potencial de desempenho acadêmico. A começar pela definição do local de moradia no curso de graduação que, somada aos custos de aluguel e transporte, pode interferir no tempo despendido para se deslocar na cidade e na quantidade de horas diárias disponíveis para os estudos. Fatores externos podem contribuir para amenizar essas desigualdades, seja no contexto do campus ou no município, a partir de políticas públicas e infraestruturas que incentivam ou priorizam determinados meios em detrimento a outros.

O diálogo entre universidade e cidade

Transportes motorizados

Partimos da análise de dois bairros com amostras quantitativas semelhantes - Centro, nas proximidades da Av. Beira-mar Norte (88015, 292 cadastros), com predomínio das Faixas A e B, e Ingleses do Rio Vermelho (88058, 281 cadastros), com predomínio da Faixa D. A partir dos cruzamentos dos dados dos estudantes identificamos nos dois recortes a mesma desigualdade. Um dos critérios que levou à escolha desses bairros foi o custo de moradia, variando até 24,5%. No levantamento FIPE em setembro de 2022, o aluguel no bairro Ingleses do Rio Vermelho custava em média R$ 37,40/m², enquanto no Centro este valor estava em R$ 49,40/m². FIPE. (2023) A região do Centro (88015) se destaca como a localidade com menor percentual de famílias de baixa renda e maior desigualdade entre os estudantes. Na Figura ilustramos o comparativo entre estas duas regiões, realizados a partir da renda (a) e mobilidade (b).

Figura 8
Comparação dos CEPs 88058 e 88015 por Centro de Ensino.

No bairro Ingleses, a cerca de 30 km ao norte (88058) do campus, predominam os grupos de baixa renda, com 58% dos estudantes na faixa de menos de um salário-mínimo per capita. No Centro, aproximadamente a 10 km da UFSC (88015), esse grupo de renda representa apenas 9%. Além de confirmar os estudos prévios, a distribuição dos quantitativos por Centros de Ensino corrobora com as teorias da estratificação horizontal que ocorre no mercado de trabalho. No bairro de menor renda (88058), à direita do gráfico (Figura 8a), há um equilíbrio na distribuição entre os Centros de Ensino, mostrando uma maior diversidade de áreas entre moradores. No lado oposto, com menos representantes de baixa renda (88015), destaca-se o número elevado de estudantes dos quatro Centros de Ensino dominantes (CCJ, CTC, CCS e CSE).

Partindo da hipótese de que a desigualdade de renda impacta diretamente na capacidade de mobilidade e, logo, na demanda por infraestrutura viária e permanência no campus, foram cruzados os dados destes CEPs com as informações dos meios de transporte motorizados - transporte público coletivo e carro próprio (Figura 8b).

Nesta nova base de dados, percebemos que, um total de 103 (35%) estudantes de graduação, que residem nas proximidades da Av. Beira-mar Norte (88015) e do maior terminal de ônibus da região metropolitana, utilizam carro próprio para ir à universidade. Cerca de 1.200m² do campus são necessários para o estacionamento desse grupo que possui maior oferta de um transporte público e que demanda cerca de um terço do tempo de deslocamento em relação ao bairro Ingleses (88058), simulados em aplicativo de mobilidade (GoogleMaps). Aos 237 estudantes que residem ao norte e utilizam o transporte público, por sua vez, são mais restritas as linhas e horários de ônibus que os conectam à universidade, necessitando conexão com outras linhas nos terminais de integração da cidade.

O mesmo processo foi repetido em outros dois bairros de Florianópolis com representatividade de renda opostas. Enquanto 74% dos 88 estudantes que residem no bairro João Paulo (88030) possuem renda familiar superior a um salário-mínimo, a renda da família de 64% dos 83 cadastrados no Bairro Tapera (88049) não atinge esse valor mínimo (Figura 9a). Os dados de transporte do primeiro grupo (88030) destacam um percentual elevado de moradores que utilizam o carro próprio para ir ao campus (36%), quase todos pertencentes ao CCJ, CTC, CCS e CSE, enquanto 88% dos estudantes da Tapera (88049) utilizam o transporte público, com representantes de todos os Centros de Ensino (Figura 9b). Os que partem de automóvel do bairro João Paulo (88030) costumam levar menos de 30 minutos diariamente para ir e voltar da universidade localizada a aproximadamente 6 km. O segundo grupo (88049), possui poucas opções de horário de ônibus, despendendo um tempo mais de quatro vezes maior no deslocamento, com menos tempo de dedicação aos estudos em casa ou no campus. Além de consumir mais tempo no trajeto entre o campus e a residência (até 3 horas diárias), os estudantes do bairro mais distante, boa parte de baixa renda, necessitam de maior infraestrutura de apoio e espaços de estudo que subsidiem sua permanência na universidade.

Figura 9
Comparação dos CEPs 88049 e 88030 por Centro de Ensino.

Transportes não motorizados

Reconhecida a desigualdade entre os que dependem de transporte urbano motorizado, realizamos uma análise sobre dois recortes cujas escolhas potencialmente são mais amplas, como ir caminhando ou pedalando até o campus. Com base nos estudos de Kronenberger e Saboya (2019) selecionamos bairros adjacentes para estudar o entorno do campus. Os bairros Pantanal e Carvoeira, representados pelo CEP 88040, a sudoeste do campus, possuem maior diversidade de renda. Em oposição, os bairros Córrego Grande (88037) e Santa Mônica (88035), a nordeste, concentram moradores com renda mais elevada. Embora suas amostras difiram em números absolutos, respectivamente 1.661 a sudoeste (88040) e 538 a nordeste do campus (88037/35), objetivamos trazer subsídios para a análise dos acessos de pedestres e a integração do desenho do campus com a malha urbana (Figura ).

Figura 10
Comparação dos CEPs 88040 e 88035/37 por Centro de Ensino.

Os dados apontam que os estudantes de baixa renda são minoria entre os que residem nas proximidades da universidade, mesmo havendo diferença entre os dados extraídos dos dois grupos. Os altos custos de moradia podem influenciar nesses resultados, devido à especulação imobiliária que ocorre no entorno da universidade. Ainda assim, na soma dos bairros Pantanal e Carvoeira (88040) há uma representatividade de 704 (42%) estudantes com renda familiar abaixo de um salário-mínimo per capita, enquanto na soma dos bairros Córrego Grande e Santa Mônica (88037/35), os estudantes de baixa renda são ainda mais minoria (27%). Ao comparar o contorno dos dois lados do gráfico da Figura 10a, não verificamos diferença significativa na distribuição entre os Centros de Ensino, embora haja uma predominância de estudantes do CTC residindo no entorno da UFSC. Quanto aos meios de transporte, na Figura 10b, realizamos novamente o cruzamento dos dados para investigar o comportamento dos estudantes que se costumam ir a pé e os que utilizam o carro próprio.

Apesar da relativa similaridade na proporcionalidade dos gráficos, a demanda para infraestrutura de transporte ativo é, em números absolutos, consideravelmente maior para conectar o campus às comunidades do Pantanal e Carvoeira (88040). Ao menos 1.148 estudantes acessam a pé o campus pelo limite sul, região com 704 estudantes de baixa renda. A partir dos bairros Córrego Grande e Santa Mônica (88037/35), 302 estudantes costumam ir a pé, ou seja, ¼ da quantidade dos outros dois bairros. Analisando os dados percentuais, a demanda por estacionamento no campus é maior entre os que residem nos bairros de maior renda (88037/35) de onde partem de automóvel 56 (16%) estudantes de graduação. Esses dados são relevantes para o estudo 3 visto que analisa, na conexão entre campus e entorno, elementos construtivos característicos da segregação urbana, como guaritas de controle, falta de permeabilidade/quantidade de acesso a pedestres e a ampliação do sistema viário municipal para o transporte motorizado.

Reprodução das desigualdades no campus

O terceiro estudo revelou evidências de reprodução da segregação espacial no campus universitário. A análise de correlação bivariada demonstra associações estatisticamente significantes e negativas entre a entropia de renda e a entropia de transporte, com um coeficiente de -0.813 (p-value = 0.002). Esses resultados sugerem que os Centros de Ensino de maior renda, caracterizados por menor entropia de renda, possuem maior diversidade de infraestrutura de transporte disponível, refletida por maior entropia de transporte (Figura 11). De forma análoga à cidade, os resultados sugerem também a priorização significativa de investimentos de infraestruturas em setores do campus com maior concentração de renda. Ao analisar a proximidade às paradas de ônibus, observou-se uma correlação negativa significativa de -0.811 (p = 0.002), onde centros com maiores rendas per capita, como CCJ, CTC, CSE e CCS, apresentam maior proximidade às paradas de ônibus com mais opções de linha. Ainda assim, esses centros apresentam proporcionalmente maior percentual de usuários de automóveis, indicando que a proximidade ao transporte coletivo não necessariamente se converte em maior adesão. A disponibilidade de áreas de estacionamento também demonstrou uma correlação negativa, porém menos pronunciada, de -0.583 (p = 0.038), indicando que centros de maior renda possuem maior oferta de estacionamento. Por fim, a correlação negativa de -0.881 (p = 0.029) entre o número de acessos de pedestre e a renda per capita indica que os centros com maiores rendas apresentam mais acessos de pedestre, configurando maior conectividade e acessibilidade.

Figura 11
Distribuição da infraestrutura de transporte por Centro de Ensino no campus.

Concomitantemente, CCJ, CTC, CSE e CCS, possuem a maior proporção de veículos particulares e oferecem grande parte de suas vagas de estacionamento sobre Áreas de Preservação Permanente (APP) dos córregos. Além de retirar novas possibilidades de uso democrático dos espaços públicos do campus, a monofuncionalidade dessas áreas interrompe a conectividade peatonal entre diferentes áreas, reforçando o isolamento espacial e pedagógico da comunidade acadêmica. Por outro lado, Centros de Ensino com mais estudantes de baixa renda e alta demanda por transporte público (CED e CDS), estão segregados das bordas mais permeáveis para pedestres e dos pontos com maior oferta de linhas de ônibus, além de menores áreas de estacionamentos próximas. Com mais ofertas de infraestrutura de transporte em seus setores, os integrantes dos Centros de maior renda caminham distâncias menores no campus e, logo, possuem menores chances de encontros interdisciplinares, ampliando a segregação com os demais grupos.

Os três estudos revelam, no acesso desigual dos grupos de renda aos Centros de Ensino, moradias e sistemas de transporte, associações entre a segregação urbana e estratificação horizontal no Ensino Superior retratadas na literatura. As condições declaradas em 2020 refletem desigualdades anteriores à chegada ao campus e projetam um mercado que valoriza áreas jurídicas e tecnológicas enquanto subestima licenciaturas. Essa balança desigual aparece, por exemplo, na sub-representação de famílias de baixa renda no CCJ e CTC (Estudo 1) ou no Distrito Central de Florianópolis (Estudo 2). Aos que acessam essas estruturas favorecidas de ensino e moradia, há expressiva área do solo universitário para estacionar próximos à sala de aula (Estudo 3). Esses resultados ilustram traços de desigualdades na universidade e reforçam a urgência de políticas que articulem democratização das matrículas com infraestruturas que assegurem a permanência de grupos periféricos, usuários do transporte coletivo e pedestres no campus.

Conclusão

As políticas de ações afirmativas no Brasil ampliaram o acesso ao Ensino Superior e o quadro demográfico das universidades começou a refletir um perfil socioeconômico mais próximo à composição brasileira, quando a participação dos 70% mais pobres na graduação cresceu de aproximadamente 10% em 2001 para mais de 40% após 2012 (Oliveira et al, 2022). Entretanto, identificamos que garantir o acesso democrático à universidade é insuficiente para impactar de forma expressiva a participação de grupos mais vulneráveis nas instâncias decisórias da sociedade. Os resultados indicam um quadro ambivalente na universidade que, embora intencione a reversão das desigualdades e oportunize a diversidade, ainda manifesta na configuração viária e disciplinar reflexos rígidos da segregação urbana.

O debate sobre mobilidade urbana, educação pública e desigualdades sociais incita o emprego de pedagogias e políticas transversais, amparadas em uma abordagem interdisciplinar para a redução sistêmica dos danos socioambientais. Ao favorecer a presença de veículos particulares, oferecendo estacionamento gratuito nas áreas do campus, a universidade reduz o solo disponível, arborizado e silencioso, para intercâmbio de diferentes visões de mundo. Os proprietários desses veículos, geralmente de maior renda, percorrem menores distâncias para alcançar essas qualidades ambientais próximas de suas residências. Assim, a oferta de estacionamentos no campus revela privilégios, submetendo a comunidade a uma precária e fragmentada infraestrutura para caminhada e transporte público.

Estudos como os que apresentamos não se apoiam em uma causalidade direta, visibilizando mecanismos de manutenção de práticas que minam o papel da universidade como agente democrático e social. A atenção às demandas por acesso à equipamentos de estudo e trabalho se mostra crucial na redução das desigualdades versada nas Políticas Nacionais (Brasil, 2012; 2024). A carência de recursos para a infraestrutura física limita a igualdade quando financiamentos centralizados em áreas mais valorizadas ampliam as distâncias entre os grupos dominantes e os menos representados. Portanto, considerar a cobrança ou supressão de estacionamentos, incentivando outras tipologias de transporte e investindo em ambientes para estudar e trabalhar no campus, pode beneficiar o desempenho de estudantes de baixa renda, frequentemente impactados pela desigualdade de condições adequadas para desenvolver suas atividades acadêmicas e laborais nas moradias.

O campus, quando concebido como um objeto pedagógico, integra abordagens atentas à complexidade das problemáticas atuais. Os dados de 2020 associados aos endereços residenciais explicitam fragilidades das moradias mais segregadas. Abrir o campus às demandas comunitárias pode, de um lado, afetar positivamente o rendimento dos estudantes de baixa renda e, de outro, viabilizar a coesão com grupos que não compartilham das mesmas experiências. Quando a universidade desconsidera essas dinâmicas, ela tende a reproduzir a ostensiva segregação da cidade, favorecendo quem pode custear melhores moradias e transportes. Nem a universidade como instituição, nem o campus como espaço construído, poderão resolver sozinhos os problemas estruturais da sociedade brasileira. Uma visão mais otimista precisa, contudo, entender o que Lessa (1999) postula acerca de como a universidade internaliza, amplifica e distorce os problemas da sociedade brasileira. Quantificar esses processos reduz a carência por abordagens que avaliem seriamente o papel das interações sociais que compõem as universidades enquanto um conjunto das potencialidades que ela fomenta como missão e valores institucionais.

Referências

  • Declaração de disponibilidade de dados
    O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste artigo está disponível no SciELO DATA e pode ser acessado em https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.QZ9SYE.
  • Como citar:
    Mangrich, C. P., Oliveira, L. F., Pavan, L. H., Rossetto, A. M., Kos, J. R. (2026). Intersecções entre mobilidade urbana e campus universitário na busca pela redução das desigualdades sociais. urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, v. 18, e20240293, 2026. https://doi.org/10.1590/2175-3369.018.e20240293
  • Editor(a) responsável:
    Carlos Moreno; Geisa Bugs; Maelle Lucas; Pablo Centeno

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste artigo está disponível no SciELO DATA e pode ser acessado em https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.QZ9SYE.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    21 Nov 2024
  • Aceito
    10 Mar 2026
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