Open-access Modelo multicritério como ferramenta para definição de ações de educação ambiental na gestão sustentável de resíduos sólidos: uma aplicação em municípios do Brasil

Multicriteria model as a tool for defining environmental education actions in the sustainable management of solid waste: an application in municipalities in Brazil

Resumo

Este estudo objetivou validar um modelo para ordenar ações de Educação Ambiental (EA), com vistas ao aprimoramento da gestão de Resíduos Sólidos Domiciliares (RSD) em municípios do Brasil. Utilizou-se o Método Delphi, envolvendo 23 especialistas, na busca por obter o consenso quanto a ações de EA e subcritérios distribuídos nos critérios ambiental, social, econômico e técnico, na definição de aplicação das ações. Como resultado, cinco ações de EA e 14 subcritérios estruturaram o modelo composto pelo Analytic Hierarchy Process (AHP), para atribuição de pesos de critérios e subcritérios e o Preference Ranking Organization METHod for Enrichment Evaluation (PROMETHEE II) para ranqueamento de ações de EA. Este modelo foi testado em três amostras, e os resultados, peso e ranqueamento, refletiram as particularidades e necessidades municipais. No entanto, “Campanha regular e de longo prazo”, mostrou-se como a primeira (33%) ou segunda melhor opção (67%) a ser considerada. Quanto ao modelo, este foi avaliado pelos stakeholders como inovador, estratégico e apto a oferecer aos gestores públicos e privados, tomadores de decisão e pesquisadores, insights quanto a aplicações teóricas e práticas em prol da gestão sustentável dos RSD, preenchendo assim lacunas da literatura e demonstrando a capacidade de replicabilidade em diferentes contextos municipais brasileiros.

Palavras-chave:
Educação ambiental; Modelo multicritério; Políticas públicas; Resíduos sólidos domiciliares; Tomada de decisão municipal.

Abstract

the management of Household Solid Waste (RSD) in municipalities in Brasil. The Delphi Method was used, involving 23 specialists, in the search to obtain consensus regarding EE actions and sub-criteria distributed in environmental, social, economic and technical criteria, in the definition of the application of the actions. As a result, five EA actions and 14 sub-criteria structured the model composed of the Analytic Hierarchy Process (AHP) for assigning weights of criteria and sub-criteria and the Preference Ranking Organization METHod for Enrichment Evaluation (PROMETHEE II) for ranking EA actions. This model was tested in three samples, and the results, weight and ranking, reflected the particularities and needs of the municipality. However, "Regular, long-term campaigning" was shown to be the first (33%) or second best option (67%) to consider. As for the model, it was evaluated by stakeholders as innovative, strategic, replicable and able to offer public and private managers, decision-makers and researchers insights into theoretical and practical applications in favor of the complex sustainable management of RSD, thus filling gaps in the literature and demonstrating the capacity for replicability in different Brazilian municipal contexts.

Keywords:
Environmental education; Multicriteria model; Public policies; Household solid waste; Municipal decision-making.

Introdução

A gestão integrada e sustentável de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) é um desafio global, intensificado em municípios com limitações financeiras e técnicas, diante da crescente geração desses resíduos e seus impactos multifacetados nas cidades e nas populações (Knickmeyer, 2020; Agoviano et al., 2021). Assim, a adoção de ferramentas que auxiliem gestores da área de resíduos para tomadas de decisões mais assertivas e sinérgicas é importante (Alzamora & Barros, 2020).

A Coleta Seletiva (CS) e a Educação Ambiental (EA) são instrumentos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) que visam auxiliar na melhoria contínua da gestão integrada dos resíduos sólidos (Brasil, 2010). Entretanto, a implementação efetiva da CS é desafiadora, ainda com adesão limitada por parte dos municípios brasileiros (Abrelpe, 2022; Cempre, 2023), acarretando na disposição final de fração considerável de resíduos passíveis de reciclagem e na presença significativa de rejeitos em centrais de reciclagem (Moura et al., 2018; Andrade et al., 2020).

Com o objetivo de contribuir à melhoria da gestão integrada de resíduos sólidos, Framesche et al. (2023) identificaram seis ações de EA. As ações de EA, sejam formais ou informais, atuam de forma sinérgica na gestão dos Resíduos Sólidos Domiciliares (RSD) (Ibelli-Bianco et al., 2022; Sena et al., 2023). No entanto, é essencial considerar múltiplos critérios para que as decisões de aplicação dessas ações sejam realistas e promissoras (Arikan et al., 2017).

Tornou-se relevante, a utilização de Métodos Multicritérios de Apoio à Decisão (Multi-Criteria Decision Aid - MCDA) (Coban et al., 2018; Makan & Fadili, 2020). Nesse contexto, destacam-se os métodos: Analytic Hierarchy Process - AHP (Saaty, 1977), que atribui pesos a alternativas, como estação de tratamento de RSD (Angelo et al., 2017), indicadores de localização de aterros (Kamdar et al., 2019) e opções de tratamento (Muller et al., 2021); seguido do Preference Ranking Organization METHod for Enrichment Evaluation - PROMETHEE (Brans, 1986), que classifica alternativas, como inovações energéticas aplicadas aos RSU (Kumar et al., 2023), tecnologias sustentáveis de gestão (Makan & Fadili, 2020; Garcia-Garcia, 2022), atividades operacionais em cooperativas de materiais recicláveis (Siman et al., 2020) e diferentes formas de destinação de resíduos (Coban et al., 2018).

Para possibilitar a avaliação de alternativas consensuais, com a contribuição de especialistas na gestão sustentável de RSU, o Método Delphi (Linstone & Turoff, 2002) integra-se, de maneira sinérgica, com os MCDA (Garcia-Garcia, 2022). Estudos têm investigado essa temática, incluindo a definição de indicadores (Barretos & Moraes, 2018; Alves et al., 2021), avaliação de planos municipais (Chaves et al., 2020), desafios da gestão (Esmaeilizadeh et al., 2020), fatores de influência na satisfação de residentes (Chu et al., 2021) e planejamento da gestão (Estay-Ossandon et al., 2018).

Este estudo objetiva validar um modelo multicritério personalizado para ordenar ações de EA voltadas à gestão de RSD em municípios brasileiros, considerando a complexidade dos processos de definição das ações de EA mais adequadas para diferentes contextos, que ainda são pouco difundidos (Knickmeyer, 2020). Dessa forma, o estudo propõe estratégias replicáveis e alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (ONU, 2015), que abordam de maneira integrada as necessidades gerenciais, legais, organizacionais e científicas voltadas a gestores e formuladores de políticas públicas.

Materiais e métodos

A metodologia adotada consistiu-se em duas etapas principais (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma das etapas metodológicas. Fonte: Autores (2023).

Etapa 1 - Avaliação consensual de ações de educação ambiental

Fundamentado na revisão sistemática da literatura realizada por Framesche et al. (2023), seis ações de EA e nove subcritérios foram avaliados pelo Método Delphi Eletrônico, que possibilita uma avaliação coletiva, anônima e consensual de especialistas em relação a problemas complexos (Linstone & Turoff, 2002), como os abordados neste estudo. Considerou-se como especialista: gestor, tomador de decisão ou formulador de política pública, com atuação e experiência mínima de dois anos com a gestão de RSU. A seleção dos participantes foi pautada em: a) amostragem não probabilística intencional, onde especialistas foram selecionados intencionalmente em função das contribuições esperadas (Kish, 1965;) e b) técnica Snowball sampling, em que especialistas selecionados indicaram outros, seguindo critérios de inclusão até a inexistência de novas contribuições (Biernacki & Waldorf, 1981).

Inicialmente, 40 especialistas, distribuídos pelas cinco regiões geográficas do Brasil, foram contatados, observando-se a inexistência de consenso no número de participantes para a aplicação do Método Delphi (Varndell et al., 2021). Em seguida, um e-mail foi encaminhado a eles, contendo a Carta-Convite, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o link de acesso ao primeiro questionário. Salienta-se que a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição em que foi realizado o estudo, pelo parecer nº 4.685.820.

No total, 26 especialistas, de 12 estados da federação, distribuídos em 26 municípios (34,6% de pequeno porte, 30,8% de médio porte, 30,8% de grande porte e 3,8% de metrópole) participaram da primeira rodada Delphi, sendo 85% do sexo masculino e 15% do sexo feminino; com idades entre 20 e 65 anos; escolaridade igual ou maior ao ensino superior em 96% dos casos; formação multidisciplinar correlata à função que desempenhavam (Engenheiro Ambiental/Sanitarista - 19% e Gestor Ambiental - 7,7%); e experiência mínima de cinco anos em 62% dos casos.

A avaliação do primeiro questionário foi pautada na inclusão e/ou alteração nominal das cinco ações de EA e nove subcritérios, além da análise do grau de importância, com base na Escala Likert com amplitude de 1 a 5, sendo: 1) Dispensável, 2) Não prioritário, 3) Desejável, 4) Importante e 5) Muito importante (Linstone & Turoff, 2002; Ribeiro, 2006). Nas avaliações, foram mantidas as ações de EA e os subcritérios com somatório de graus de importância 4 ou 5 igual ou superior a 65%, porcentagem estabelecida conforme estudos anteriores (Esmaeilizadeh et al., 2020; Alves et al., 2021). O instrumento de pesquisa foi delineado no Google Forms® e os resultados passaram por Análise de Conteúdo Temática (Bardin, 1979; Minayo, 2014). Após a etapa de refinamento, o link de acesso ao segundo questionário foi encaminhado via e-mail aos 26 especialistas, obtendo-se o retorno de 23 deles, o que representou 57% da parcela inicial de participantes, superior a estudos similares (Alves et al., 2021; Chu et al., 2021).

De maneira consensual, os especialistas consideraram relevantes cinco ações de EA e 14 subcritérios às tomadas de decisão nas municipalidades, e tais informações balizaram a etapa subsequente da pesquisa, de sistematização do modelo multicritério. Os questionários aplicados nesta etapa constam no material suplementar disponibilizado.

Etapa 2 - Modelo multicritério para ranqueamento de ações de EA

Dos 23 especialistas que participaram da etapa Delphi, três foram selecionados como amostras para validar o modelo proposto (denominados stakeholders - legítimos replicadores do modelo em suas cidades), conforme adotado em estudos similares (Roghanian et al., 2020; Roza et al., 2020). O critério de participação foi a devolutiva do TCLE e a justificativa para a aplicação do estudo no município em que atuavam. As amostras investigadas consistiram em uma cidade de grande porte (S1) e duas de pequeno porte (S2 e S3), o que oportunizou a análise de realidades, problemáticas e desafios de regiões geográficas distintas do Brasil.

Nesta etapa, foram associados dois MCDA: AHP (Saaty, 1977) para atribuição de pesos aos critérios ambiental, social, econômico e técnico, e aos 14 subcritérios, e o PROMETHEE II (Brans, 1986) para classificação final das cinco ações de EA, alternativas. Esses métodos foram utilizados em função do problema da pesquisa ser do tipo ordenação, da característica dos dados disponíveis e do conhecimento dos pesquisadores (Kornyshova & Salinesi, 2007; Vego et al., 2008). As etapas sequenciais e os processos matemáticos de cada MCDA constam no Quadro 1.

Quadro 1
Etapas para construção do modelo híbrido (AHP+PROMETHEE II)

Para testar a aplicabilidade do modelo, o mesmo foi avaliado em critérios de factibilidade (quão replicável é o processo no cotidiano); usabilidade (quão fácil é seguir as etapas); e utilidade (quão útil é a resolução dos problemas) (Platts, 1993; Platts et al., 1998). O processo foi fundamentado em uma Escala Likert com amplitude 1 a 5, sendo: 1) Muito pouca, 2) Pouca, 3) Média, 4) Boa e 5) Muito boa, em que quanto maior o número, melhor avaliado é o critério e, consequentemente, o modelo (Likert, 1932). O instrumento de avaliação (conteúdo consta em material suplementar) foi encaminhado, via e-mail, aos três stakeholders que participaram da aplicação do modelo na etapa anterior, que são legítimos especialistas para replicação do modelo em seus municípios (Platts, 1993).

Resultados e Discussão

A captação de opiniões, experiências, necessidades e desafios locais heterogêneos entre os especialistas possibilitou, após duas rodadas do método Delphi, a identificação validada de cinco ações de EA mais adequadas a serem consideradas, visando à melhoria da gestão dos RSD em municípios brasileiros (Tabela 1).

Tabela 1
Avaliação das ações de educação ambiental nas rodadas Delphi pelos especialistas

No decorrer das duas rodadas de avaliações, sete ações de EA foram analisadas, e 71,4% mantidas, com destaque para “Campanhas regulares e de longo prazo”, que conquistou consenso pleno na última rodada. As ações “Conversas informais” e “Eventos públicos e sociais” não atingiram porcentagem mínima e foram excluídas. Segundo Varotto & Spagnolli (2017), aspectos relacionados à exposição despretensiosa de conteúdo podem despertar a curiosidade, porém não repercutem em mudança assertiva.

A inclusão da ação formal “Educação ambiental interdisciplinar em instituições de ensino”, por sua vez, pode estar relacionada ao fato de que, tanto as ações de EA formais quanto informais são indispensáveis na transformação e melhorias da gestão dos RSD (Brasil, 1999; Herzer et al., 2019). Os procedimentos similares referentes aos subcritérios foram apresentados na Tabela 2.

Tabela 2
Avaliação dos subcritérios nas rodadas Delphi pelos especialistas

No decorrer das etapas, quatro subcritérios foram alterados nominalmente, sete foram incluídos e dois foram excluídos, resultando em 14 subcritérios potenciais a serem considerados nas tomadas de decisão envolvendo a aplicação das ações de EA. Os subcritérios “Custos com capacitação profissional dos envolvidos nas ações de educação ambiental” e “Apoio político”, não atingiram o consenso mínimo e foram excluídos. No primeiro caso, pode-se justificar que, muitas vezes, o profissional envolvido não necessite de capacitação continuada, pois possui proximidade com o tema (Joseph et al., 2012; Evangelista et al., 2019). No segundo caso, entretanto, Andrade et al. (2020) apontaram a legitimidade do subcritério para que ocorram as articulações dos múltiplos atores envolvidos nos processos de execução das ações.

Ocorreram inclusões de novos critérios nas quatro dimensões. No critério social, observaram-se aspectos relacionados aos benefícios das ações, à necessidade de parcerias com cooperativas de reciclagem e aos protagonistas da reciclagem nas cidades brasileiras, mesmo diante das adversidades que enfrentam quanto à coleta e segregação de materiais recicláveis (Guarnieri et al., 2020). Quanto ao critério ambiental, incorporou-se a importância de diagnósticos para fundamentação de prognósticos, pois a definição de aplicação de ações de EA é baseada nesses resultados (Khan et al., 2016; Saidan et al., 2017). Frente aos critérios econômicos e técnicos, identificaram-se parcerias de empresas privadas, indústrias ou secretarias municipais com vistas à sinergia de benefícios. Assim, subcritérios de distintas dimensões foram incorporados, como preconizado na PNRS e ODS (Brasil, 2010; ONU, 2015).

Em relação aos subcritérios com maiores porcentagens de consenso, o subcritério “Envolvimento público nas ações de educação ambiental por intermédio da promoção de políticas públicas” recebeu unanimidade entre os especialistas, o que pode ser justificado pelo fato de a participação pública ser um fator relevante e o caminho principal na promoção de melhorias na gestão dos RSU (Xu et al., 2018; Knickmeyer, 2020). O consenso pleno também foi atribuído ao subcritério “Profissionais e multiplicadores qualificados para aplicar as ações de educação ambiental”, corroborando com estudos que consideram recursos humanos qualificados importantes ao sucesso dos sistemas de gestão dos RSD (Bui et al., 2020; Esmaeilizadeh et al., 2020).

Dessa forma, a partir da aplicação do Método Delphi, foi possível realizar a validação consensual, com especialistas na área, de dois checklists, com cinco ações de EA e 14 subcritérios, que fundamentaram a sistematização do modelo multicritério empregado na pesquisa.

Modelo AHP + PROMETHEE II: sistematização e validação

As comparações pareadas de atribuição de intensidades entre critérios revelaram padrões indefinidos para os três stakeholders selecionados nesta etapa (Quadro 2).

Quadro 2
Comparações pareadas entre os critérios atribuída pelos stakeholders

Em seguida, a inclusão das intensidades de importância no SuperDecisions® resultaram nos respectivos pesos aos critérios (Pc) (Tabela 3), sendo de valor igual para o Stakeholder 3 (S3), onde incorporou-se o aspecto de sustentabilidade na tomada de decisão, como em outros estudos (Coban et al., 2018; Roza et al., 2020), e de valores distintos para os Stakeholder 1 (S1) e Stakeholder 2 (S2).

Tabela 3
Peso dos critérios atribuídos pelos stakeholders

Analisando o PC, os critérios social e técnico foram considerados os mais importantes em 67% das amostras, enquanto o critério econômico foi avaliado como o menos relevante na mesma proporção, para o stakeholder de uma cidade de grande porte e uma de pequeno porte. Essa realidade reitera o protagonismo das necessidades e particularidades das amostras aos resultados, fato que as torna mais realistas e cientificamente reconhecidas (Garcia-Garcia, 2022). Tais resultados divergiram do estudo de avaliação da sustentabilidade de tecnologias de compostagem, onde os critérios ambiental e social foram considerados mais importante e o critério técnico, menos importante (Makan & Fadili, 2020).

Na sequência, a atribuição da intensidade de importância entre os subcritérios (Quadro 3) e o peso correspondente a cada subcritério, o PCSC (Tabela 4), revelaram novamente a inexistência de um padrão entre as 18 comparações. Em questão, três subcritérios pertencentes a critérios distintos foram considerados como mais relevantes, respectivamente para o S1, S2 e S3: “Profissionais e multiplicadores qualificados para aplicar as ações de EA” (critério técnico), “Benefícios com as ações de EA” (critério social) e “Parcela de resíduos secos coletados” (critério ambiental), demonstrando novamente a particularidade de cada amostra investigada.

Quadro 3
Comparações pareadas dos subcritérios pelos três stakeholders
Tabela 4
Peso dos subcritérios segundo a avaliação dos três stakeholders

Analisando de maneira particular a influência do Pc (Tabela 3) frente aos subcritérios, no caso do S1, foi identificada que o SC2 “Efetividade dos resíduos recicláveis secos para comercialização” apresentou o segundo maior Psc (0,480), todavia, com o valor de PC (ambiental: 0,072), foi realocado à oitava posição (PSC 3,463%). Situação semelhante aconteceu com o S2, em que o SC9 “Custos com implantação e manutenção das ações de educação ambiental” apresentou o melhor Psc (0,706), entretanto, ao considerar o Pc a que pertence (econômico: 0,169), foi direcionado à quarta posição (PCSC 11,931%). Assim, comprova-se a força do Pc correspondente ao PCsc aos resultados. Logo, em situações de pesos iguais entre os critérios (inclusão dos aspectos sustentabilidade nas decisões), os resultados seriam distintos nestas amostras.

Na avaliação da influência das ações de EA frente aos subcritérios no Visual PROMETHEE®, os stakeholders corroboraram e alteraram a maioria das atribuições de influências das ações de EA provenientes da literatura, fato que legitima os resultados deste estudo, pois a opinião e conhecimento de especialistas da área foram incorporados aos resultados (Garcia-Garcia, 2022). Além disso, caracterizaram o SC9 “Custos com implantação e manutenção das ações de educação ambiental” e o SC12 “Tempo de execução das ações de educação ambiental” como de objetivos mínimos (Quadro 4), corroborando afirmações de que os fatores custo e tempo são limitantes às execuções e tomadas de decisões (Dutra et al., 2018; Boffardi et al., 2021).

Quadro 4
Escalas de atribuição de influência das ações de educação ambiental frente aos subcritérios pela literatura e os três stakeholders
Tabela 5
Ranking das ações de educação ambiental nas três amostras investigadas

Embora o método proposto não pressuponha a existência de uma única solução ideal, ele reflete a sequência mais aceitável em relação à preferência do formulador de política pública (Vučijak et al., 2016; Kharat et al., 2019), reafirmando o pressuposto das particularidades para as amostras analisadas (Garcia-Garcia, 2022).

A “Campanha regular e de longo prazo - A4” foi considerada a melhor opção a ser aplicada em uma cidade de grande porte (S2) e a segunda melhor alternativa em duas cidades de pequeno porte (S2 e S3). Tal preferência corrobora com Alves et al. (2021), que consideraram essa ação a melhor a ser implantada em cidades de pequeno porte. Já a A2 “Palestra/seminário” foi a última opção em duas das três amostras (cidades de pequeno porte) e a terceira opção para uma cidade de grande porte, opondo-se à hipótese de que a promoção e a transmissão de informações e/ou discussões se mostram eficazes e aplicáveis (Marques & Pinho, 2016; Varotto & Spagnolli, 2017).

Outra situação refere-se a A3 “Visita porta a porta”, que foi considerada a primeira opção pelo S2, (cidade de pequeno porte), no entanto, foi a menos viável para uma cidade de grande porte (S1). Nesse último caso, pode estar relacionado ao fato de que as “Visitas porta a porta” são onerosas e resultam em uma taxa de contato de apenas 30% (Duplé et al., 2014), tornando-se, assim, inviável em cidades de grande porte. Mediante esses resultados, as tomadas de decisões relacionadas à definição de aplicação de ações de EA em prol de melhorias na gestão adequada dos RSD nos locais selecionados tenderão a ser mais assertivas (Knickmeyer, 2020), pois os resultados foram compartilhados com os stakeholders. Dessa forma, podem contribuir com a melhoria contínua desses sistemas e balizar decisões posteriores.

Por fim, a validação do modelo híbrido (AHP+PROMETHEE II) pelos três stakeholders resultou em uma avaliação satisfatória, com médias de 4,00 (boa) frente ao modelo e de 4,22 na média dos critérios, sendo a maior média geral relacionada à “Utilidade” (4,67) do método (Tabela 6).

Tabela 6
Resultados da avaliação do modelo segundo os stakeholders, 2022

Contribuições extras por parte dos stakeholders foram identificadas neste estudo. Vinculado a factibilidade, eles julgaram o modelo como replicável e viável diante das peculiaridades e necessidades das operações de tomada de decisão municipal relacionadas à melhoria na gestão dos RSD, fato que, segundo Chen et al. (2023), torna o modelo válido. No entanto, o tempo demandado para a execução das etapas pode ocasionar limitações à replicação (Vučijak et al, 2016; Boffardi et al., 2021), aspecto que colocou esse critério com a menor média. Assim, a necessidade de parcerias entre o poder público e instituições de ensino para a replicação efetiva do modelo foi ressaltado pelos stakeholders, corroborando com Bui et al. (2020).

Quanto à usabilidade, os stakeholders definiram as estruturas para preenchimento dos questionários como simples e objetivas, o que foi comprovado pela ausência de dúvidas durante as etapas, mesmo sem a aplicação de testes ou atividades de ambientação. Isso pode estar associado à participação de um público adequado e alinhado às necessidades impostas pela pesquisa (Li et al., 2017).

Em relação à utilidade, eles declararam que a inclusão de subcritérios e ações de EA consensuais entre especialistas da área, localizados em regiões distintas do Brasil, possibilitou o retorno de resultados relevantes e completos (Luis et al., 2019; Garcia-Garcia, 2022). Além disso, consideraram o modelo como original, inovador e eficaz, pois permitiu retornar resultados para cada cenário avaliado, sendo, portanto, adaptável e generalizável quanto à replicação (critérios/subcritérios e escalas de atribuição alteradas) de acordo com as necessidades e particularidades de cada município (Kharat et al., 2019; Bui et al., 2020).

Essa etapa de sistematização e validação do método, representada por três stakeholders de regiões geográficas, portes populacionais, limitações e necessidades heterogêneas, possibilitou a legitimação dessa pesquisa frente ao público-alvo (gestores públicos e tomadores de decisão) e à comunidade científica. De acordo com Pitágoras e sua escola, o número três representa um ponto de equilíbrio, em que as forças ou partes opostas se harmonizam para formar um todo. Aplicando esse conceito ao estudo, a escolha de três stakeholders buscou garantir um equilíbrio nas perspectivas analisadas, abrangendo diferentes pontos de vista de forma proporcional. O número três pode ser visto ainda como o mínimo necessário para criar uma base sólida para análise e expansão de ideias, já que mais de duas partes permitem contrastar diferentes visões e buscar convergências, visando a harmonia entre os stakeholders e a robustez do estudo, enriquecendo assim o processo de tomada de decisão (Boscato, 2001).

Conclusões

O presente estudo identificou um conjunto de cinco ações de EA e 14 subcritérios, desenvolvido de maneira participativa com a contribuição de 23 especialistas, a partir da obtenção do consenso do grupo, ao longo de duas rodadas do método Delphi. Essa abordagem sinérgica, combinada com a sistematização e validação do modelo multicritério híbrido (AHP + PROMETHEE II), conferiu ao estudo relevância, originalidade e replicabilidade na classificação das ações de EA.

Do ponto de vista científico, operacional e organizacional, o modelo demonstrou ser adaptável e flexível, alinhando-se às necessidades identificadas e apresentando-se como uma ferramenta prática e satisfatória para a classificação das ações de EA em prol de melhorias na gestão dos RSD, reflexo do envolvimento das partes no decorrer das etapas e da combinação de metodologias. Essas realidades resultaram em uma análise mais holística da realidade abordada. Tais características viabilizam a replicação do modelo em diversas localidades do Brasil, e até em outros países com contextos similares.

Além disso, os resultados obtidos contribuem para preencher lacunas na literatura existente e oferecem subsídios para pesquisadores, gestores e formuladores de políticas públicas em países em desenvolvimento. As informações geradas podem servir como um ponto de partida para decisões mais assertivas e adequadas, promovendo sistemas mais sustentáveis e resilientes, conforme preconizado pelos ODS da Organização das Nações Unidas (ONU) e pelas normativas federais. O modelo também pode orientar a criação de programas municipais mais eficientes e integrados, além de fundamentar futuras pesquisas na área.

Em relação as limitações da pesquisa, sugere-se a realização de teste em campo das ações de EA mais indicadas, a fim de avaliar a eficácia e impacto nos cenários analisados. Recomenda-se também que estudos futuros explorem a combinação de outros métodos multicritérios para comparar o ranqueamento das ações de EA. Além disso, incluir stakeholders que não participaram das etapas do método Delphi Eletrônico e aplicar o modelo com um painel de avaliação, que poderá proporcionar uma análise mais abrangente sobre a influência da participação nas etapas anteriores nos julgamentos finais.

  • Como citar:
    Framesche, L., Souza, J. B., & Veiga, T. B. (2025). Modelo multicritério como ferramenta para definição de ações de educação ambiental na gestão sustentável de resíduos sólidos: uma aplicação em municípios do Brasil. urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, v. 17, e20230367, 2025. https://doi.org/10.1590/2175-3369.017.e20230367

Declaração de disponibilidade de dados

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste artigo está disponível no SciELO DATA e pode ser acessado em https://doi.org/10.48331/scielodata.MTGVJ9

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  • Editor responsável:
    Luciene Pimentel da Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    12 Dez 2023
  • Aceito
    12 Fev 2025
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