Open-access IMPACTOS ECONÔMICOS DO TURISMO INTERNACIONAL NO BRASIL: AVALIAÇÃO PELO MODELO INSUMO-PRODUTO

IMPACTOS ECONÓMICOS DEL TURISMO INTERNACIONAL EN BRASIL: EVALUACIÓN POR EL MODELO INSUMO-PRODUCTO

Resumo:

Objetivo - Estimar os impactos econômicos diretos, indiretos e induzidos do turismo internacional receptivo no Brasil

Desenho/metodologia/abordagem - A avaliação é feita com base no modelo de insumo-produto e na combinação de estatísticas de turismo de diferentes fontes.

Resultados - Os resultados incluem estimativas dos efeitos da receita turística internacional do ano de 2023 sobre o Valor Bruto da Produção (VBP), o Produto Interno Bruto (PIB), a arrecadação de impostos, a remuneração dos trabalhadores e o número de empregos. As estimativas apontam que o efeito multiplicador indireto do turismo internacional sobre o VBP é 0,75 e o induzido é 1,55, totalizando um multiplicador de 3,31. Em 2023, a receita turística internacional teve um impacto total estimado de R$ 114,1 bilhões sobre o VBP e de R$ 66,2 bilhões sobre o PIB (0,6% do PIB brasileiro). Nesse mesmo ano, o turismo internacional foi responsável pela geração de 1.175.000 empregos diretos, indiretos e induzidos, quantidade correspondente a 1,1% do total de empregos da economia brasileira.

Implicações práticas - Esta pesquisa permite interpretações mais ajustadas do papel do turismo na economia brasileira, bem como o desenvolvimento de políticas e estratégias mais adequadas à realidade.

Originalidade/valor - Esta pesquisa inova ao apresentar uma metodologia alternativa de combinação das estatísticas disponíveis com o propósito de produzir resultados consistentes acerca do impacto econômico do turismo internacional no país.

Limitações da pesquisa - As principais limitações deste trabalho são intrínsecas à qualidade das estatísticas sobre o turismo disponíveis no Brasil e aos pressupostos do modelo de insumo-produto.

Palavras-chave:
Turismo internacional; Turismo receptivo; Multiplicadores do turismo; Economia do turismo; Insumo-produto

Abstract:

Purpose - To estimate the direct, indirect, and induced economic impacts of inbound international tourism in Brazil

Design/methodology/approach - The assessment is based on the input-output model and the combination of tourism statistics from different sources.

Findings - The results include estimates of the effects of international tourism revenues on output, Gross Domestic Product (GDP), taxes, and the amount and compensation of employees for the year 2023. The estimates show that the indirect multiplier effect of tourism on the output is 0.75, and the induced effect is 1.55. Therefore, the total multiplier effect is 3.31. In 2023, international tourism revenue had an estimated total impact of BRL 114.1 billion on gross output and BRL 66.2 billion on GDP (i.e., 0.6% of Brazil's GDP). In the same year, international tourism generated 1,175,000 direct, indirect, and induced jobs, representing 1.1% of the total employment in the country.

Practical implications - This research enables more accurate interpretations of the role of tourism in the Brazilian economy, as well as the development of policies and strategies better suited to reality.

Originality/value - This research is innovative in proposing an alternative methodology that combines available statistics to produce consistent estimates of the economic impact of international tourism in the country.

Research limitations - The main limitations of this work stem from the quality of tourism statistics available in Brazil and from the assumptions of the input-output model.

Keywords:
International Tourism; Inbound Tourism; Tourism Multipliers; Tourism Economics; Input-Output

Resumen:

Objetivo - Estimar los impactos económicos directos, indirectos e inducidos del turismo receptivo internacional en Brasil

Diseño/metodología/enfoque - La evaluación se basa en el modelo insumo-producto y al combinar estadísticas de turismo de diferentes fuentes.

Hallazgos - Los resultados incluyen estimaciones de los efectos de los ingresos del turismo internacional sobre la producción, el Producto Interno Bruto (PIB), la recaudación de impuestos, la compensación de los trabajadores y el empleo para el año 2023. Las estimaciones indican que el efecto multiplicador indirecto del turismo internacional sobre la producción es de 0,75, y el efecto multiplicador inducido, de 1,55. Por lo tanto, el efecto multiplicador total es de 3,31. En 2023, los ingresos por turismo internacional tuvieron un impacto total estimado de R$ 114,1 mil millones en la producción y un impacto total de R$ 66,2 mil millones en el PIB (0,6% del PIB brasileño). En ese mismo año, el turismo internacional también fue responsable de la generación de 1.175.000 empleos directos, indirectos e inducidos, cantidad correspondiente al 1,1% del total de empleos del país.

Implicaciones prácticas - Esta investigación permite realizar interpretaciones más precisas del papel del turismo en la economía brasileña, así como el desarrollo de políticas y estrategias más acordes con la realidad.

Originalidad/valor - Esta investigación es innovadora al presentar una metodología alternativa que combina las estadísticas disponibles con el propósito de producir resultados consistentes sobre el impacto económico del turismo internacional en el país.

Limitaciones de la investigación - Las principales limitaciones de este trabajo son inherentes a la calidad de las estadísticas de turismo disponibles en Brasil y a los supuestos del modelo de insumo-producto.

Palabras Clave:
Turismo Internacional; Turismo Receptivo; Multiplicadores Del Turismo; Economía Del Turismo; Insumo-Producto

INTRODUÇÃO

Quando o assunto é turismo, o receptivo internacional costuma ser o centro das atenções. O turismo internacional é, por exemplo, o elemento principal do objetivo geral do Plano Nacional de Turismo 2024-2027 (Ministério do Turismo, 2024), ainda que o documento se destine às políticas públicas de turismo em sentido mais amplo, incluindo também o turismo doméstico e o emissivo. Embora o turismo internacional tenha dimensões sociais e econômicas muito menores do que o doméstico no Brasil (Santos, 2023c), as chegadas de turistas estrangeiros têm grande destaque na mídia e no debate público. A própria noção de turista é popularmente mais associada às viagens internacionais do que às nacionais (Santos Junior et al., 2024).

A ênfase no turismo receptivo internacional, em detrimento do foco nos fluxos doméstico e emissivo, conta com diferentes explicações e justificativas. Na perspectiva econômica, o fluxo receptivo é uma fonte de receitas externas, recursos que entram na economia local e promovem impactos exógenos, ao passo que o fluxo doméstico é movido por recursos internos ao próprio sistema econômico do país (Dwyer et al., 2020; Santos, 2023a). Essa é uma diferença econômica fundamental entre o turismo internacional e o doméstico. Por exemplo, quando uma brasileira viaja para outro lugar do país, os recursos empregados são oriundos da própria economia nacional. O gasto turístico doméstico, ao mesmo tempo em que constitui uma receita para o destino, do ponto de vista nacional, representa meramente um deslocamento de recursos que deixam de ser aplicados em outro lugar e outra atividade do sistema econômico do país. Já quando uma estrangeira viaja ao Brasil, seus gastos não implicam a redução de recursos destinados a outras partes da economia brasileira, constituindo uma injeção efetivamente nova de recursos no sistema econômico nacional. Por esse motivo, o turismo internacional constitui uma fonte destacada de impactos econômicos. Ainda que o volume de recursos econômicos envolvidos nesse fluxo seja inferior àquele movimentado pelo turismo doméstico, cada real de receita internacional tende a gerar um efeito final sobre a economia brasileira muito maior do que cada real de receita gerada pelo turismo doméstico (Dwyer et al., 2020).

Apesar do turismo internacional ter grande e justificado destaque, o Brasil não dispõe atualmente de estimativas consistentes e atualizadas dos impactos econômicos dessa atividade. As informações disponíveis sobre esse tema não constituem uma descrição específica e detalhada da realidade econômica nacional. De um lado, têm-se os dados sobre a receita turística internacional do país, computada pelo Banco Central do Brasil (2024b). Contudo, essa informação se refere apenas à receita, não representando os impactos econômicos propriamente ditos, pois não trata dos custos envolvidos na produção, tampouco dos efeitos indiretos e induzidos.

De outro lado, algumas pesquisas técnicas e científicas se dedicaram à estimativa dos impactos econômicos do turismo no Brasil. Parte desses trabalhos tratou exclusivamente dos impactos diretos da atividade. Entre estes, alguns não abordaram especificamente o turismo, mas sim o conjunto de Atividades Características do Turismo (ACTs) (Gonçalves et al., 2020; IBGE, 2012). Neste ponto, é fundamental destacar que são consideráveis as diferenças entre os agregados econômicos pertinentes às ACTs e ao turismo em si. Segundo Santos (2023b), o turismo representa parcelas minoritárias de importantes ACTs, como os serviços de alimentação (17,1%) e de transporte terrestre (13,3%). Por outro lado, poucos trabalhos dedicados à mensuração do impacto direto do turismo adotaram o conceito de turismo propriamente dito, diferenciando a atividade turística sob a perspectiva da demanda (Kadota & Rabahy, 2003; Santos, 2023b).

Alguns trabalhos ousaram ir além dos impactos econômicos diretos, estimando também os impactos indiretos e induzidos do turismo no Brasil (Santos, 2016). Entre os trabalhos de abrangência nacional, destaca-se a análise pioneira realizada pela Embratur (1991) com base no modelo de insumo-produto. Esse modelo também foi adotado por Casimiro Filho e Guilhoto (2003) para estimar os impactos econômicos totais do turismo no Brasil. Versões regionalizadas da mesma abordagem também foram utilizadas para análises dos impactos econômicos estaduais do turismo (Ribeiro et al., 2013, 2014). Considerando a estrutura do sistema econômico de forma mais completa e complexa, algumas pesquisas avaliaram os impactos econômicos totais do turismo no Brasil por meio de modelos de equilíbrio geral computável (Andrade et al., 2008; Takasago et al., 2010). Esse tipo de modelo também foi utilizado em âmbito regional para a avaliação específica dos impactos do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Brasil - Prodetur (Araújo Júnior et al., 2020; Viana et al., 2014). Cabe destacar também as estimativas do impacto econômico total do turismo desenvolvidas pelo World Travel & Tourism Council (WTTC, 2023). Apesar da sua relevância na estimativa dos impactos econômicos do turismo, a literatura tem apontado algumas preocupações quanto à transparência, à excessiva extrapolação de parâmetros baseados em outros países e ao possível conflito de interesses entre a descrição e a defesa do setor (Figini & Patuelli, 2022; Mihalic & Aramberri, 2015).

As pesquisas sobre o impacto econômico do turismo no Brasil publicadas até o presente, apesar de explorarem diversos aspectos relevantes, deixam uma lacuna central: o impacto econômico do turismo receptivo internacional. A despeito do destaque que esse fluxo turístico recebe em diversos âmbitos, os impactos econômicos totais dessa atividade são, em grande medida, desconhecidos no Brasil.

Visando preencher essa lacuna, a presente pesquisa objetiva estimar os impactos econômicos diretos, indiretos e induzidos do turismo internacional receptivo no Brasil para o ano de 2023. A avaliação é feita com base no modelo de insumo-produto, a partir de estimativas da receita turística do Brasil extraídas da conta de viagens internacionais e distribuídas por ramo de atividade econômica. Para tanto, diversas fontes de dados foram combinadas, incluindo os do Banco Central do Brasil, do Ministério do Turismo e da Embratur. No caso da estrutura dos gastos dos turistas internacionais, foram utilizadas informações da Pesquisa de Demanda Turística Internacional (PDTI) do Ministério do Turismo de 2019, última informação oficial disponível. Os resultados incluem estimativas dos efeitos da receita turística internacional sobre o Valor Bruto da Produção (VBP), o Produto Interno Bruto (PIB), a arrecadação de impostos, a remuneração dos trabalhadores e o número de empregos. Os efeitos são estimados tanto em valores relativos, por meio de multiplicadores, quanto em valores monetários. Análises especiais são elaboradas para descrever o impacto de cada ramo de atividade turística diretamente impactado, bem como o impacto final sobre cada uma das atividades da economia brasileira.

Em resumo, as estimativas apontam que, somando o efeito multiplicador indireto do turismo internacional sobre o VBP, que é de 0,75, e o induzido de 1,55, com o efeito direto, que corresponde a 1,0, o multiplicador do efeito total sobre o VBP é de 3,31. Em 2023, a receita turística internacional teve um impacto total estimado de R$ 114,1 bilhões sobre o VBP e de R$ 66,2 bilhões sobre o PIB (0,6% do PIB brasileiro). Neste mesmo ano, o turismo internacional foi responsável pela geração de 1.175.000 empregos diretos, indiretos e induzidos, quantidade correspondente a 1,1% do total de empregos existentes no país.

REVISÃO DA LITERATURA

O dimensionamento dos impactos econômicos do turismo na geração de divisas, renda e emprego sempre foi um dos principais temas das pesquisas sobre a economia do turismo (Liu et al., 2022). A estimativa desses impactos é fundamental para a avaliação da relevância do turismo como atividade econômica. O estudo desses impactos também possibilita uma melhor compreensão da dinâmica dos efeitos econômicos gerados pelos gastos dos turistas, oferecendo suporte ao desenvolvimento de políticas e estratégias para melhor aproveitamento da atividade.

Os impactos econômicos do turismo podem ser considerados em três níveis (Dwyer et al., 2020; Santos & Kadota, 2012):

  1. Impacto direto: efeito dos gastos dos turistas internacionais sobre as unidades produtivas (empresas) que ofertam bens e serviços diretamente aos turistas. Contribuem para o impacto econômico direto a parcela dedicada ao consumo turístico, tanto das ACTs quanto das atividades não características do turismo, como postos de combustíveis, supermercados e empresas de telecomunicações, entre outras.

  2. Impacto indireto: efeito dos gastos de turistas internacionais sobre as unidades produtivas que integram a cadeia produtiva do turismo, mas que não atendem turistas diretamente. Exemplos incluem a venda de combustíveis para aeronaves, a produção de gêneros alimentícios para abastecer restaurantes e a venda de insumos para a rede hoteleira.

  3. Impacto induzido: efeito do aumento do consumo na economia propiciado pela expansão da renda do trabalho gerada pelo turismo. Por exemplo, os empregados de hotéis gastam parte de seus salários com o consumo de serviços de habitação, saúde, educação, além da aquisição de produtos de supermercado, roupas, veículos e outros. As atividades econômicas que produzem e vendem esses bens e serviços são impactadas pelo turismo de forma induzida.

Existem diferentes métodos para estimar os impactos econômicos do turismo sobre o destino. A mensuração dos impactos pode ser feita por meio de instrumentos de contabilidade nacional adaptados para o registro de valores segundo a perspectiva da demanda turística, alternativa conhecida como Conta Satélite do Turismo (European Communities et al., 2009; United Nations, 2010). Essa abordagem foi utilizada em diversos estudos focados nos impactos diretos do turismo (Diakomihalis & Lagos, 2008; Nordström, 1996; Odunga et al., 2020; Pham et al., 2008; Wu et al., 2022), inclusive no Brasil (Kadota & Rabahy, 2003; Santos, 2023b).

A estimativa dos impactos econômicos indiretos e induzidos do turismo requer métodos mais complexos, capazes de modelar a dinâmica da economia nacional. Nesse âmbito, o método mais antigo e consolidado é aquele baseado na matriz de insumo-produto (Leontief, 1986), estrutura matricial de registro de valores que quantifica as relações entre diferentes atividades e agentes da economia nacional (Feijó & Ramos, 2013). Essa abordagem é uma das primeiras e mais utilizadas nas estimativas do impacto econômico do turismo (Comerio & Strozzi, 2019). Extensões da análise do modelo de insumo-produto incluem estudos regionalizados (Frechtling & Horváth, 1999; Freeman & Sultan, 1997; Tohmo, 2018) e dinâmicos (Wu et al., 2022). Outra extensão relevante é a matriz de contabilidade social, um instrumento que permite descrever a distribuição dos impactos econômicos do turismo entre diferentes segmentos da sociedade (Akkemik, 2012; Croes & Rivera, 2017; Tchouamou Njoya, 2023; West, 1993).

O modelo de insumo-produto fundamenta-se nas Matrizes de Insumo-Produto (MIPs), que constituem uma base informativa essencial dos Sistemas de Contas Nacionais (SCNs). Essas matrizes incorporam dados sobre a oferta nacional, a demanda doméstica e importada, as margens de comércio e transporte, além dos impostos líquidos de subsídios. Devido à sua abrangência, são amplamente utilizadas na literatura econômica, no âmbito do próprio modelo de insumo-produto, para análises estruturais das economias, permitindo examinar: a composição setorial dos produtos, as técnicas produtivas adotadas e a configuração da demanda final. As MIPs são tabelas que apresentam oferta e demanda sob a premissa de equilíbrio, considerando que tudo o que é ofertado é consumido pela demanda final ou pelos demais setores da estrutura econômica (Alves-Passoni & Freitas, 2020; Baggio, 2019; Miller & Blair, 2022).

O modelo de insumo-produto (I-P) apresenta uma série de vantagens, mas também limitações. Briassoulis (1991) aborda especificamente seu uso no turismo, destacando que o modelo permite analisar os efeitos em cadeia de um setor ou grupo de setores, rastreando os impactos monetários do turismo nos demais segmentos da economia e mapeando a circulação de recursos na estrutura econômica. Recomenda-se sua utilização para compreender os efeitos diretos, indiretos e induzidos dos gastos turísticos na economia local e para embasar políticas públicas, identificando multiplicadores e setores prioritários conforme a magnitude dos impactos. Contudo, não é indicado para análises de longo prazo, nem para tratar o turismo como um setor único e tradicional. É essencial entendê-lo como um ecossistema fragmentado de serviços, complementando a análise com outras fontes de dados ou métodos que capturem sua complexidade (Briassoulis, 1991). Nessa mesma perspectiva, Miller e Blair (2022) reforçam a utilidade da metodologia, fundamentada na matriz de Leontief, por sua capacidade de mensurar efeitos multissetoriais. Sua estrutura matematicamente robusta consolida-a como ferramenta para a elaboração de cenários e a formulação de políticas públicas em diversos setores (Miller & Blair, 2022).

O modelo de insumo-produto assume algumas hipóteses simplificadoras acerca da dinâmica da economia, dentre as quais se destacam a rigidez de preços e a abundância de recursos (Dwyer et al., 2004). A principal alternativa são os modelos de Equilíbrio Geral Computável (EGC), instrumentos que consideram a possibilidade de substituições entre recursos e entre produtos em razão da escassez e das variações de preços. Além disso, os modelos de EGC podem incluir elementos não captados pelo modelo de insumo-produto, como os mercados de trabalho, de crédito e de câmbio e as dinâmicas fiscal e de consumo das famílias (Dwyer et al., 2004). Esse tipo de abordagem também tem sido amplamente utilizado no estudo dos impactos econômicos do turismo (Wickramasinghe & Naranpanawa, 2022). Apesar da existência de vantagens do modelo de EGC sobre o modelo de insumo-produto, esse instrumento também recebe críticas relevantes. As principais desvantagens do modelo de EGC são a inexistência de padronização metodológica e de apresentação de resultados, a flexibilidade na definição das equações do modelo, a alta exigência de dados e a consequente usual calibragem de parâmetros baseada em poucas evidências, e a alta dependência dos resultados em relação aos pressupostos assumidos (Wyk et al., 2015). Em razão da falta de transparência, os modelos de EGC têm sido frequentemente associados a caixas-pretas (Robson et al., 2018).

O modelo I-P calcula efeitos multiplicadores e possibilita análises de impacto sobre a produção econômica e os diversos componentes do valor adicionado, como o Produto Interno Bruto (PIB), renda (remunerações e/ou salários), emprego (ocupações), impostos e outros (Alves-Passoni & Freitas, 2020; Baggio, 2019; Fletcher, 1989). O estudo de Fletcher (1989) traz argumentos sobre o uso desse modelo para o turismo, apontando evidências empíricas com aspectos que demonstram a eficiência para análises de impacto. Na Coreia do Sul, o setor do turismo revelou-se entre os mais eficientes em reter divisas, com menor vazamento de renda, superando atividades industriais com maior dependência externa; nas Filipinas os impactos indiretos dos gastos dos turistas foram maiores que os impactos diretos ressaltando os efeitos de encadeamento e das interligações econômicas; em Hong Kong o setor hoteleiro teve alto potencial para geração de emprego e de valor adicionado direto bastante superior que demais setores; em Gibraltar, mesmo com predomínio de gastos militares, o turismo apresentou maior contribuição marginal por unidade de demanda final em renda e em postos de trabalho (ocupações); em Palau, Ilhas Salomão e Samoa Ocidental (economias insulares do Pacífico) modelos híbridos possibilitaram a estimação de efeitos multiplicadores sobre a renda, receita fiscal e importações conferindo abordagens alternativas para contextos de destinos com limitações de dados (Fletcher, 1989). Nesse sentido, percebe-se um amplo leque de aplicações do modelo I-P, considerando suas limitações e o contexto do estudo, o que motiva a metodologia deste artigo.

MÉTODO

Fontes de dados

A análise do impacto econômico do turismo internacional partiu de duas informações centrais: as estimativas das receitas turísticas internacionais de cada ramo de atividade econômica e a estrutura da economia brasileira descrita pela matriz de insumo-produto. As receitas turísticas internacionais por atividade foram estimadas a partir de uma combinação de cinco fontes de dados:

  1. Receita turística internacional do Brasil registrada pelo Banco Central do Brasil (2024b). Dados mensais em dólares referentes ao ano de 2023.

  2. Taxa de câmbio média mensal das operações de compra de dólares registrada pelo Banco Central do Brasil (2024a) no ano de 2023.

  3. Gasto turístico médio, segundo o país de origem e o meio de transporte. Dados consolidados da Pesquisa da Demanda Turística Internacional (PDTI) do Ministério do Turismo (2021) referentes ao ano de 2019.

  4. Gasto turístico por atividade, segundo o país de origem e o meio de transporte do turista. Dados estimados a partir de tabulações especiais dos microdados da PDTI do MTur referentes ao ano de 2019.

  5. Número de chegadas de turistas. Informações do Portal de Dados da Embratur (2024) referentes ao ano de 2023.

A estrutura da economia brasileira foi considerada a partir da matriz de insumo-produto. A versão oficial dessa matriz é elaborada no Brasil pelo IBGE aproximadamente a cada 10 anos (IBGE, 2018). A matriz mais recente do IBGE disponível no período de elaboração deste trabalho era relativa ao ano de 2015. Dado o longo prazo para atualização pelo IBGE, Alves-Passoni e Freitas (2020) mantêm um reconhecido projeto de estimação e atualização da matriz de insumo-produto. Visando obter estimativas mais atualizadas, a presente pesquisa adotou essa fonte como referência. Em específico, foi utilizada a matriz com 67 ramos de atividades econômicas referente ao ano de 2019, já que as matrizes de 2022 e 2023 ainda não estavam disponíveis, e que as matrizes de 2020 e 2021 descrevem uma realidade econômica muito peculiar em razão da pandemia de covid-19. O Quadro 1 sumariza os principais dados utilizados na pesquisa.

Quadro 1
Dados utilizados na pesquisa com fonte e ano da informação

Em síntese, foram utilizados dados da receita turística internacional (Banco Central do Brasil, 2024), taxa de câmbio média (Banco Central do Brasil, 2024a) e número de chegadas de turistas internacionais (Embratur, 2023) para o ano de 2023, enquanto as informações da estrutura de gastos dos turistas internacionais (Ministério do Turismo, 2019) e a estrutura atualizada da matriz de insumo-produto foram relativas ao ano de 2019. É importante ressaltar que as projeções finais são referentes ao ano de 2023, utilizando a estrutura de gastos turísticos internacionais e a matriz insumo-produto atualizada para o ano de 2019.

Os ramos de atividades econômicas definidos pelo IBGE são categorias de agregação de diferentes conjuntos de atividades econômicas específicas definidas pelo CNAE da empresa. Algumas categorias têm nomes extensos que, neste trabalho, serão simplificados para fins de apresentação, conforme Quadro 2. A tabela também lista as outras atividades de serviços não especificadas.

Quadro 2
Designação simplificada dos ramos de atividade

Estimativa da receita turística internacional por ramo de atividade

Embora o Banco Central do Brasil registre a receita turística internacional total, essa estatística não se encontra desagregada por ramo de atividade econômica diretamente impactado. Essa informação tampouco está disponível em outra fonte de dados. Desta forma, foi necessário elaborar estimativas originais da receita turística internacional por atividade econômica diretamente impactada.

A receita turística internacional registrada pelo Banco Central (R) foi considerada em moeda nacional, sendo os valores mensais em dólares (R*m) convertidos para o Real utilizando-se a taxa de câmbio média mensal das operações de compra (Em), onde m é o indexador dos meses do ano (Equação 1).

(1)

R=Rm*.Em

A receita turística internacional total (D) foi desagregada utilizando-se a distribuição estimada por país de origem (p) e por meio de transporte (t), a partir do número de chegadas (C) e do gasto turístico médio por país de origem registrado pela pesquisa amostral do MTur (G*). A distribuição da receita turística internacional por país de origem e meio de transporte é dada conforme a Equação 2:

(2)

Dpt=Cpt.Gp*Cpt.Gp*

O meio de transporte utilizado pelo turista para o deslocamento internacional foi classificado em aéreo e não aéreo, sendo que a última categoria inclui os transportes terrestre, fluvial e marítimo. A distribuição estimada da receita turística internacional por país de origem e meio de transporte foi aplicada sobre a receita turística internacional registrada pelo Banco Central, resultando na estimativa da receita turística por país e meio de transporte (Equação 3).

(3)

Rpt=Dpt.R

Para cada país de origem e meio de transporte, as receitas turísticas internacionais por atividade foram estimadas a partir da desagregação de Rpt. Para tanto, foram utilizadas as proporções do gasto turístico (G) realizado em estabelecimentos de cada ramo de atividade econômica, estimadas a partir de tabulações especiais dos microdados da PDTI (Equação 4).

(4)

Rapt=GaptGptRpt

Na PDTI, o gasto é classificado em seis categorias: alojamento, alimentação, transporte, compras, atrativos e outros. Contudo, para a aplicação de métodos de estimativa dos impactos econômicos, é fundamental que a receita turística esteja classificada conforme os ramos de atividade econômica identificados na matriz de insumo-produto. Para tanto, as categorias da PDTI foram associadas às atividades da matriz de insumo-produto conforme o Quadro 3:

Quadro 3
Correspondência entre categorias de gasto da PDTI e atividades da matriz de insumo-produto

A PDTI conta, ainda, com uma categoria genérica para outros gastos. Os itens dessa categoria (ex. eventos, saúde, educação, etc.) são identificados, mas os valores correspondentes a cada item não são diferenciados. Na ausência de informação mais precisa, a frequência de ocorrências de diferentes itens de gasto foi utilizada como aproximação para desagregar a categoria de outros gastos em atividades específicas. Os gastos com a categoria outros foram alocados conforme descrito a seguir. Como resultado, foram identificados 11 ramos de atividade.

  1. Eventos: Atividades artísticas, criativas e de espetáculos (cód. 9080);

  2. Diversão noturna: 50% em atividades artísticas, criativas e de espetáculos (cód. 9080) e 50% em alimentação (cód. 5600);

  3. Estudo: Educação privada (cód. 8592);

  4. Cursos: Educação privada (cód. 8592);

  5. Saúde: Saúde privada (cód. 8692);

  6. Estética: Saúde privada (cód. 8692);

  7. Documentação: Administração pública, defesa e seguridade social (cód. 8400);

  8. Comunicação: Telecomunicações (cód. 6100);

  9. Evento familiar: Comércio por atacado e a varejo, exceto veículos automotores (cód. 4680);

  10. Cruzeiros: Transporte aquaviário (cód. 5000);

  11. Gorjetas: 50% em alimentação (cód. 5600) e 50% em hospedagem (cód. 5500).

Por fim, a receita turística internacional por atividade (Ra) foi calculada como a soma das estimativas das receitas turísticas internacionais por atividade, para cada país de origem e meio de transporte (Rapt), conforme a Equação 5.

(5)

Ra=Rapt

Análise de insumo-produto

A estimação dos impactos econômicos do turismo receptivo internacional no Brasil utilizou o método de análise insumo-produto. O modelo representa a estrutura produtiva nacional, incluindo dados sobre a oferta, demanda, importação, impostos, consumo intermediário e final, bem como acerca dos componentes do valor adicionado. Seguindo Feijó e Ramos (2013), a matriz de insumo-produto pode ser simplificadamente representada como no Quadro 4.

Quadro 4
Representação simplificada da matriz de insumo-produto

O modelo de insumo-produto tem diversas aplicações. Em especial, esse aparato permite estimar os impactos sobre toda a economia causados por uma demanda definida de forma exógena. Em diferentes aplicações, esse choque exógeno frequentemente se refere a gastos adicionais do governo ou a aumentos da demanda internacional. Portanto, a análise de insumo-produto ajusta-se muito bem à análise do turismo internacional (Liu et al., 2022), já que variações nesse fluxo podem ser consistentemente representadas por choques exógenos de demanda (Dwyer et al., 2004). A análise de impactos econômicos, baseada na matriz de insumo-produto, permite avaliar os efeitos sobre diferentes agregados econômicos. Neste trabalho, foram avaliados cinco agregados:

  1. Valor Bruto da Produção (VBP): o valor de todos os bens e serviços produzidos.

  2. Produto Interno Bruto (PIB): é a principal medida da atividade econômica de um país. Equivale ao VBP, descontado do consumo intermediário das atividades produtivas.

  3. Arrecadação de impostos: soma dos impostos sobre os produtos (ICMS, IPI, impostos sobre importação) e dos impostos sobre a produção (IRPJ, IPTU, etc.).

  4. Remunerações: remuneração do trabalho, incluindo salários e contribuições sociais.

  5. Empregos: número de ocupações de trabalho formais e informais.

A matriz de insumo-produto também permite a avaliação de impactos em três níveis de relação com a receita turística (Dwyer et al., 2020; Santos & Kadota, 2012): impactos diretos, indiretos e induzidos. A dinâmica dos impactos diretos, indiretos e induzidos gerados pelo gasto do turista internacional é ilustrada na Figura 1.

Figura 1
Dinâmica dos impactos diretos, indiretos e induzidos

Os impactos econômicos do turismo receptivo internacional podem ser avaliados por meio de dois tipos de medidas. Os efeitos multiplicadores são medidas relativas, indicando o impacto de cada R$ 1 da receita turística internacional. Os impactos do turismo também podem ser avaliados por meio de medidas absolutas, como valores monetários ou o número de empregos gerados pela receita turística.

As estimativas desenvolvidas neste trabalho foram baseadas no manual elaborado por Vale e Perobelli (2020). A demanda total da atividade i (xi) é composta pela demanda final (yi) e pela demanda intermediária das demais atividades j (zij). No equilíbrio, a demanda final é igual ao valor bruto da produção de cada atividade (xi=VBPi). O coeficiente técnico (aij) é definido como a razão zij/xj. No modelo aberto, que permite o cálculo dos impactos indiretos, a demanda total da atividade i é dada por xi=∑jaijxj+yi, ou, em notação matricial, x=Ax+y. A matriz inversa de Leontief (B) é dada por B=(I-A)-1, onde I é uma matriz identidade. Sendo bij os elementos da matriz B, o multiplicador direto e indireto do VBP da atividade j é dado por ∑ibij. Embora Vale e Perobelli (2020) definam o multiplicador indireto de produção como ∑ibij-∑iaij, no presente trabalho, esse multiplicador é definido como ∑ibij-1. A diferença é que Vale e Perobelli (2020) consideram que todos os impactos sobre as atividades diretamente impactadas constituem impactos diretos. Alternativamente, a definição aqui adotada, consistente com a literatura de economia do turismo (Dwyer et al., 2020), não considera como diretos, mas sim como indiretos, os impactos sofridos pelas empresas que atendem diretamente os turistas em razão do consumo de seus serviços promovido a título de consumo intermediário ao longo da cadeia produtiva do turismo (ex.: consumo de passagens aéreas para transportar funcionários de hotéis diretamente impactados pelo gasto do turista internacional).

No modelo fechado, que inclui os impactos induzidos, a matriz de coeficientes técnicos (A*) é acrescida de uma coluna com o consumo das famílias e de uma linha com a remuneração do trabalho. O multiplicador total da produção, incluindo os impactos diretos, indiretos e induzidos, é dado por ∑ib*ij, onde b*ij são os elementos da matriz B*=(I-A*)-1. O multiplicador induzido da produção é dado por ∑ib*ij-∑ibij. Os multiplicadores de outros agregados econômicos, incluindo PIB, arrecadação tributária, remuneração dos trabalhadores e empregos, são dados pela aplicação das proporções desses agregados em relação à produção.

RESULTADOS

Receita turística internacional

Em 2023, a receita turística internacional do Brasil foi de R$ 34,5 bilhões. Segundo as estimativas de distribuição dessa receita por ramo de atividade econômica baseadas nos microdados da PDTI, os serviços de alimentação receberam cerca de R$ 10,9 bilhões (31,5%), enquanto o setor de alojamento teve uma receita turística internacional de R$ 9,2 bilhões (26,7%). É relevante destacar que o setor de comércio, embora não seja uma ACT, recebeu receitas turísticas substanciais, da ordem de R$ 5,1 bilhões. As atividades não características do turismo, mas diretamente impactadas pela atividade, incluem também os serviços de saúde, educação e telecomunicações.

Valor Bruto da Produção (VBP)

Os resultados apontam que cada R$ 1 de receita turística internacional gera um impacto indireto de R$ 0,75 sobre o VBP. Portanto, a soma dos multiplicadores de impacto direto e indireto sobre o VBP é de 1,75. O multiplicador de impacto induzido da receita turística internacional sobre o VBP é de 1,55. Desta forma, o impacto econômico total sobre o valor da produção, incluindo os impactos diretos, indiretos e induzidos, é de R$ 3,31 para cada R$ 1 de receita turística internacional, conforme ilustrado pela Figura 2.

Figura 2
Efeito multiplicador do turismo internacional sobre o VBP

Assim, considerando os impactos multiplicadores, em 2023, a receita turística internacional de R$ 34,5 bilhões gerou um impacto indireto de R$ 26,0 bilhões e um impacto induzido de R$ 79,0 bilhões. O impacto econômico total das receitas turísticas internacionais foi de R$ 139,5 bilhões (Figura 3).

Figura 3
Impacto do turismo internacional sobre o VBP

Impactos econômicos por atividade turística primária

O mesmo valor em receita turística internacional pode ter impactos diferentes conforme o tipo de serviço consumido pelo turista. Desta forma, foram computados os efeitos multiplicadores específicos de cada uma das principais atividades econômicas diretamente impactadas pelo turismo receptivo internacional. Foram avaliados os multiplicadores das seis atividades com as maiores receitas.

O efeito multiplicador direto e indireto sobre o VBP varia de 1,57 (comércio) a 2,02 (transporte terrestre). O efeito multiplicador total, que considera os impactos diretos, indiretos e induzidos, varia entre 3,03 (transporte aéreo) e 3,61 (alojamento). Portanto, R$ 1 de receita do turismo internacional na atividade de alojamento gera um aumento de R$ 3,61 no VBP brasileiro. O menor efeito multiplicador total é observado no serviço de transporte aéreo (Figura 4).

Figura 4
Efeito multiplicador do VBP total da economia por atividade turística diretamente impactada pelo turismo internacional

Efeito econômico total sobre as atividades econômicas

Os efeitos da receita turística internacional do Brasil se distribuem por quase toda a economia. O setor mais impactado é o de serviços, recebendo um efeito total de R$ 80 bilhões. Contudo, a indústria (R$ 29,9 bilhões) e a agropecuária (R$ 4,0 bilhões) também foram impactadas de forma relevante pelo turismo internacional.

A ACT mais impactada foi a de serviços de alimentação, que registrou um aumento total de mais de R$ 13 bilhões na produção. Contudo, o setor de comércio, embora não seja uma ACT, sofreu um efeito total ainda mais elevado, chegando a R$ 15 bilhões sobre o VBP (Tabela 1).

Tabela 1:
Impacto do turismo internacional sobre o VBP, por setor e ramo de atividade econômica impactado (em R$ milhões)

A Figura 5 ilustra a rede de impactos diretos e totais do turismo internacional sobre o VBP. O gráfico é composto por três colunas de barras. A coluna mais à esquerda, em azul, representa a receita turística internacional do país em 2023. A coluna central do gráfico representa os impactos diretos por ramo de atividade, enquanto a coluna da direita representa os impactos indiretos e induzidos. Na coluna central, as proporções entre as dimensões dos fluxos recebidos à esquerda (impactos diretos) e dos fluxos emitidos à direita (impactos indiretos e induzidos) revelam o efeito multiplicador total de cada atividade diretamente impactada pelo turismo receptivo internacional.

Figura 5
Distribuição dos impactos diretos, indiretos e induzidos do turismo internacional sobre o VBP, por setor e ramo de atividade econômica

Produto Interno Bruto (PIB)

O turismo internacional receptivo tem um efeito multiplicador direto de 0,59 sobre o PIB. Isso significa que cada R$ 1 de receita turística internacional resulta em um aumento de R$ 0,59 no PIB brasileiro. O multiplicador indireto do turismo internacional é igual a 0,41. Portanto, o multiplicador de impactos diretos e indiretos sobre o PIB é de 1,0. O multiplicador de impactos induzidos é 0,92, de forma que o efeito multiplicador total é igual a 1,92. Logo, cada R$ 1 de receita turística internacional gera um impacto total sobre o PIB de R$ 1,92 (Figura 6).

Figura 6
Efeito multiplicador do turismo internacional sobre o PIB

A receita turística internacional de R$ 34,5 bilhões, obtida pelo Brasil em 2023, foi responsável por um aumento de R$ 66,2 bilhões no PIB do país. Desse valor, R$ 20,2 bilhões foram gerados de forma direta, R$ 14,2 bilhões por meio de impactos indiretos e R$ 31,8 bilhões de forma induzida (Figura 7).

Figura 7
Impacto do turismo internacional sobre o PIB

Arrecadação de impostos

O turismo internacional receptivo tem um efeito multiplicador direto igual a 0,10 sobre a arrecadação de impostos. O multiplicador indireto do turismo internacional é igual a 0,09 e o induzido é 0,16. O efeito multiplicador total é igual a 0,35. Logo, cada R$ 1 de receita turística internacional gera um impacto de R$ 0,35 sobre a arrecadação de impostos no Brasil (Figura 8).

Figura 8
Efeito multiplicador do turismo internacional sobre a arrecadação de impostos

O impacto direto da receita turística internacional do Brasil em 2023 sobre a arrecadação de impostos foi de R$ 3,6 bilhões. O impacto indireto foi de R$ 3,0 bilhões e o impacto induzido de R$ 5,5 bilhões. O impacto total da receita turística internacional sobre a arrecadação de impostos foi de R$ 12,1 bilhões.

Remunerações dos trabalhadores

O turismo internacional receptivo tem um efeito multiplicador direto de 0,28 sobre as remunerações dos trabalhadores, incluindo salários e contribuições sociais. O multiplicador indireto é igual a 0,14 e o induzido é 0,33. O efeito multiplicador total é igual a 0,74. Logo, cada R$ 1 de receita turística internacional gera um impacto de R$ 0,74 sobre o total de remunerações dos trabalhadores no Brasil (Figura 9).

Figura 9
Efeito multiplicador do turismo internacional sobre as remunerações

O impacto direto da receita turística internacional do Brasil em 2023 foi de R$ 9,5 bilhões sobre as remunerações dos trabalhadores. O impacto indireto foi de R$ 4,9 bilhões e o impacto induzido de R$ 11,0 bilhões. O resultado total da receita turística internacional sobre as remunerações dos trabalhadores foi um aumento de R$ 25,4 bilhões.

Emprego

Cada R$ 1 milhão de receitas turísticas internacionais sustenta 15 empregos diretos e 5 indiretos no Brasil. Considerando também os efeitos induzidos, o impacto total de cada R$ 1 milhão de receitas turísticas internacionais é de 34 empregos (Figura 10).

Figura 10
Efeito multiplicador do turismo internacional sobre o emprego

A receita turística internacional do Brasil em 2023 sustentou 519 mil empregos diretos e 179 mil empregos indiretos. O impacto induzido pelo turismo internacional foi de 477 mil empregos. No total, 1.175.000 empregos foram sustentados pelo turismo receptivo internacional no país. Esse montante representa 1,1% do total de empregos existentes no país.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O turismo receptivo internacional constitui uma importante fonte de receita para a economia brasileira. Em 2023, segundo dados do Banco Central do Brasil, as receitas internacionais do turismo no país somaram R$ 34,5 bilhões. Além do impacto sobre as atividades que prestam serviços diretamente aos turistas internacionais, a atividade turística também gera impactos indiretos e induzidos. Os efeitos da receita turística internacional se propagam por toda a economia por meio da cadeia produtiva e da circulação da renda. O resultado é uma teia de impactos amplos e multifacetados.

O efeito multiplicador indireto do VBP é de 0,75, indicando que cada R$ 1,00 gasto por turistas internacionais no Brasil gera mais R$ 0,75 de produção em atividades que não atendem os turistas diretamente, mas que fazem parte da cadeia produtiva do turismo. A produção econômica também é ampliada a partir das despesas das famílias propiciadas pelo aumento da renda gerada pelo turismo internacional. O multiplicador induzido do VBP é de 1,55. O efeito multiplicador total dos gastos dos turistas internacionais sobre a produção da economia brasileira, considerando os efeitos diretos, indiretos e induzidos, é de 3,31. Em 2023, os impactos totais dos gastos dos turistas internacionais sobre a produção da economia brasileira foram de R$ 114,1 bilhões.

O impacto do turismo internacional sobre outros agregados econômicos também é relevante. O efeito multiplicador direto e indireto do turismo internacional sobre o PIB brasileiro é 1,0. Esse valor está acima do multiplicador encontrado em países como Portugal e Espanha, embora esteja abaixo daquele computado para países como Itália e República Tcheca (Figini & Patuelli, 2022). Considerado também o impacto induzido, o multiplicador do turismo sobre o PIB totaliza 1,92. Como consequência, pode-se estimar que a receita turística internacional gerou, em 2023, um impacto total de R$ 66,2 bilhões sobre o PIB, o que equivale a 0,6% do PIB brasileiro.

Em 2023, o turismo gerou uma arrecadação de impostos da ordem de R$ 12,1 bilhões (multiplicador total de 0,35). A atividade também foi responsável pela geração de R$ 25,4 bilhões em remunerações dos trabalhadores (multiplicador total de 0,74). Em número de empregos, o multiplicador direto e indireto foi de 20 para cada R$ 1 milhão, enquanto o multiplicador total de empregos foi de 34 para cada R$ 1 milhão. Sendo assim, a atividade foi responsável pela geração de 698 mil empregos diretos e indiretos e 477 mil empregos induzidos, totalizando 1.175.000 empregos gerados, o que corresponde a 1,1% do total de empregos existentes no país.

Entre os diferentes tipos de impacto econômico do turismo internacional, o efeito induzido se destaca como o mais expressivo e abrangente. Embora os impactos diretos e indiretos sejam mais evidentes e reconhecidos, o impacto total da receita turística internacional é muito maior do que parece à primeira vista. Esse resultado evidencia que os benefícios do turismo receptivo internacional se estendem muito além das empresas que atendem diretamente os visitantes estrangeiros, alcançando amplos segmentos da economia nacional e, especialmente, das economias locais. O aumento da renda dos trabalhadores empregados no setor turístico gera um ciclo virtuoso de consumo de serviços de habitação, alimentação, comércio, educação e saúde, estimulando atividades que, à primeira vista, não têm relação direta com o turismo. Assim, o impacto induzido revela o potencial do turismo internacional como vetor de dinamização econômica territorial, fortalecendo as cadeias produtivas locais, estimulando o empreendedorismo e promovendo uma redistribuição mais ampla dos ganhos econômicos gerados pela atividade.

Quanto às atividades, os serviços de alojamento têm os maiores efeitos multiplicadores, exceto no que se refere à geração de empregos, agregado em que a atividade de entretenimento tem o maior multiplicador. O transporte aéreo tem os menores efeitos multiplicadores em razão da alta dependência de insumos importados e da tributação.

Alguns setores e atividades, embora não diretamente impactados pelo gasto do turista estrangeiro, acabam sendo consideravelmente afetados pelo turismo internacional. A indústria, por exemplo, não é impactada diretamente, mas teve sua produção ampliada em quase R$ 30 bilhões em razão dos impactos indiretos e induzidos pelo turismo receptivo no Brasil. O setor agropecuário e as atividades imobiliárias e financeiras também são fortemente impactados pelo turismo internacional pelas vias indireta e induzida, ainda que tenham participações diretas na produção turística muito pequenas.

O turismo internacional gera muito mais impostos do que parece. Para cada R$ 1,00 de receita turística internacional, embora os impostos diretos cresçam apenas R$ 0,10, o total de arrecadação do governo aumenta em R$ 0,35 quando se consideram também os efeitos indiretos e induzidos da atividade. A indústria é responsável por pagar 45% dos impostos totais gerados pelo turismo internacional.

Este trabalho contribui para o desenvolvimento metodológico pertinente à estimação dos impactos econômicos do turismo. Ainda que a base metodológica utilizada seja amplamente difundida, sua aplicação específica ao Brasil constitui um desafio relevante, especialmente diante das limitações na disponibilidade de dados. Desta forma, esta pesquisa inova ao apresentar uma alternativa de combinação das estatísticas disponíveis a fim de produzir resultados consistentes acerca do impacto econômico do turismo internacional no país. Além disso, este trabalho contribui também para a disponibilidade de informações estatísticas sobre o tema, favorecendo interpretações mais ajustadas do papel do turismo na economia brasileira, bem como o desenvolvimento de políticas e estratégias mais adequadas à realidade. A escassez de estimativas consistentes neste campo tem gerado relevantes distorções nas impressões que os brasileiros têm sobre o turismo no país. A disponibilidade de informações sem embasamento ou propositalmente deturpadas é um grave problema no Brasil, levando frequentemente a exageros nas estimativas da relevância econômica do turismo. Sendo assim, este trabalho favorece uma compreensão mais realista do cenário brasileiro do turismo.

A importância do turismo internacional para a economia brasileira, mensurada e evidenciada neste trabalho, contrasta com a dificuldade que o país vem enfrentando nas últimas décadas para ampliar essa atividade. A dimensão do fluxo receptivo internacional do Brasil ficou praticamente estagnada no primeiro quarto do século XXI (Rabahy, 2020). São muitos os problemas que afetam a competitividade brasileira no turismo internacional, incluindo as más condições de acesso ao país e aos seus destinos, a insegurança pública e a escassez de produtos turísticos adequados às necessidades e preferências dos turistas estrangeiros (Lohmann et al., 2022). As condições socioeconômicas e políticas do país, além das deficiências na gestão pública do turismo, contribuem para a persistência dos problemas de competitividade turística (Trigo, 2020). No entanto, os consideráveis efeitos multiplicadores do impacto econômico do turismo internacional no país apontam os ganhos potenciais que decorreriam do crescimento do fluxo receptivo. Desta forma, o presente trabalho reforça a necessidade do estabelecimento de políticas efetivas para propiciar o aumento da competitividade turística nacional e o crescimento do fluxo receptivo, promovendo a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros.

Por fim, os resultados apresentados neste estudo abrem espaço para novas agendas de pesquisa e aplicações práticas para além do campo das políticas públicas. Estudos futuros podem aprofundar a análise dos efeitos distributivos do turismo internacional, examinando como os benefícios econômicos se distribuem entre diferentes segmentos sociais e regiões brasileiras. Também seria relevante investigar os impactos ambientais e socioculturais associados à expansão do turismo receptivo, integrando indicadores de sustentabilidade aos modelos econômicos. A aplicabilidade prática dos achados deste trabalho também pode contribuir para o planejamento estratégico empresarial, a formulação de estratégias de investimento em infraestrutura turística, o fortalecimento de cadeias produtivas locais e a criação de instrumentos de governança econômica compartilhada entre setor público, privado e comunidades.

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  • Informações Editoriais:
    Double Blind Review
  • Editor
    Luiz Carlos da Silva Flores
  • Editor de Seção
    Thamires Foletto Fiuza
  • Assistente Editorial
    Maria Fernanda Ferreira Soster

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Jul 2025
  • Revisado
    04 Ago 2025
  • Aceito
    08 Dez 2025
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